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sexta-feira, dezembro 15, 2017

Manaus: como eu a vi ou sonhei (31)


Por Jefferson Peres

No final dos anos quarenta surgiria um novo matutino, A Crítica, modestíssimo e com todos os indícios de que teria vida curta. Seu fundador, Umberto Calderaro Filho, era meu velho conhecido do Colégio Dom Bosco, onde fomos contemporâneos, sendo ele de turma mais adiantada. Lembrava-me perfeitamente dele pela sua intensa participação na política estudantil como candidato a presidência da União Estadual de Estudantes, que não chegou a conquistar.

Impossível esquecê-lo, de qualquer modo, pelo seu tipo físico. Alto, magro, a pele branca coberta de sardas, chamava a atenção de pronto. Agitado e atuante, parecia destinado a cumprir a trajetória de tantos jovens da nossa época, ou seja, fazer o curso de Direito, como aconteceu, e ingressar na política. Mas, de repente, Calderaro largou tudo para se lançar à aventura do jornal. Foi instalar-se bem ao lado dos grandes, no térreo de um edifício contíguo ao da empresa Archer Pinto.

Para fingir que não pretendia concorrer com os maiores, fez A Crítica circular a partir das onze horas, o que levou Áureo Mello, sempre criativo, a cunhar o neologismo onzeorino, para designá-lo. As instalações eram precárias, com uma velha linotipo e um prelo manual. Quando, algum tempo depois, ele adquiriu uma rotoplana, ao tempo já ultrapassada, houve uma festa na redação. Como não havia recursos para a compra dos serviços das agências telegráficas, dizem que Calderaro tinha um funcionário designado para acompanhar atentamente o noticiário das emissoras nacionais e estrangeiras, bem como para recortar notícias de jornais do sul do país. Como gozação, dizia-que A Crítica trabalhava com duas grandes agências: a Rádio Press e a Tesoura Press.

O jornal era tocado por toda família Calderaro. Além de Umberto, lá trabalhavam sua mãe, D. Maria, que cuidava das finanças internas e, nas horas vagas, o velho Umberto, pai, que formava, com o sêo Miguel, a dupla de simpáticos italianos que atendia a clientela da sapataria Arone. Talvez esse mutirão familiar explique, em grande parte, por que, ao contrário de tantos periódicos da época, A Crítica pôde sobreviver e ganhar as dimensões que tem hoje. Confesso que me enfileirei entre os falsos profetas que vaticinaram seis meses de vida para o pobre boletim paroquial. E teria achado muita graça se alguém me dissesse que aquele magricela sardento se transformaria, algum dia, num magnata da imprensa local.

Em 1949, o cenário jornalístico de Manaus se enriquecia com o surgimento de A Gazeta, um vespertino de grande circulação, fundado por um grupo de políticos ligados ao Partido Social Democrático, à frente Avelino Pereira e, em segundo plano, Álvaro Bandeira de Mello, Flávio de Castro e Jatyr Pucu de Aguiar. Doublé de médico e jornalista, Avelino, nascido no Rio Grande do Norte, há muitos anos trocara o Potengi pelo Rio Negro, aqui se estabelecendo como oftalmologista de grande clientela e largo prestígio social. Mas tinha experiência do “batente”, desde garoto, quando trabalhava no jornal de um tio, em Natal, com passagem, mais tarde, quando estudante, na redação de O Estado da Bahia, então um dos maiores órgãos da capital baiana. Depois, veio a trabalhar como repórter de O Jornal, do Rio de Janeiro, e em Manaus fora o primeiro diretor do Jornal do Comércio, quando de sua incorporação à cadeia dos Diários e Rádios Associados.

Há anos afastado das redações, sua vocação política e jornalística falou mais alto e ele voltou à lide, como dono de um jornal que logo alcançou o grande público, graças a sua linha politicamente engajada. Contribuiu para o êxito, também, a qualidade do jornal, bem impresso, amplamente noticioso e redigido por uma equipe de primeira, na qual se distinguiam Herculano de Castro Costa, como secretário, Ulysses Paes de Azevedo Filho e Arthur Virgílio Filho, como principais redatores. Apesar do engajamento político, Avelino soube evitar o caráter panfletário, imprimindo ao jornal um tom de equilíbrio e seriedade, que lhe deu ampla penetração na classe média e nas elites, em acirrada disputa com o Diário da Tarde. Sóbrio, fugindo aos ataques pessoais, podia, no entanto, alcançar extrema agressividade.

Alguns poucos que ousaram investir contra A Gazeta ou seu dono, certamente se arrependeram, tamanha a virulência da resposta, redigida por Herculano ou pelo próprio Avelino. Mas, chegou o tempo em que o velho combatente, cansado da política e do jornalismo, e decidido a se voltar exclusivamente para a medicina, vendeu o jornal para Arthur Virgílio. Este mudou a linha política do jornal, que passou a dar cobertura ao governo trabalhista de Plínio Coelho, além de lhe imprimir um tom ainda mais agressivo, bem de acordo com o temperamento do novo proprietário. Algum tempo depois essa agressividade quase provocou uma tragédia.

Aldo Moraes, filho do escritor Raimundo Moraes, de quem herdou o talento e a combatividade, por motivo que já não recordo, envolveu-se numa polêmica com Arthur. Como geralmente acontecia naquela época, dos argumentos passaram à troca de desaforos. Um dia, Aldo telefonou para Arthur intimando-o a descer para um acerto de contas. Arthur, sem vacilar, aceitou o desafio e foi postar-se na calçada, defronte à redação. Logo depois surgiu Aldo, no lado oposto, caminhando da Rua Joaquim Sarmento para a Av. Eduardo Ribeiro.

Quando se viram frente a frente, sacaram os revólveres e dispararam, felizmente sem se atingirem. E, ao que parece, não correram grande perigo, pois nenhum dos dois era propriamente um exímio atirador. Tanto que a perícia nem sequer encontrou as balas, que provavelmente se alojaram a muitos metros de distância dos respectivos alvos. Alguns anos depois, Arthur Virgílio, eleito deputado federal, passou adiante A Gazeta, que se transformou em órgão oficioso do segundo governo trabalhista. A partir daí foi perdendo a qualidade e leitores, até cerrar as portas em meados nos anos sessenta.

Dentre os pequenos jornais daquela época, que não lograram vida longa, merece uma referência especial O Momento. Dirigido pelo então acadêmico de Direito, mais tarde advogado, Geraldo Costa, nasceu politicamente engajado, em virtude da vinculação do seu proprietário e diretor ao Partido Social Democrático. Começou a circular na fase agônica do Estado Novo, em setembro de 45, dando apoio à candidatura do Marechal Dutra à presidência da República e, no ano seguinte, à de Ruy Araújo ao governo do Estado.

Vitorioso Leopoldo Neves, O Momento passou à oposição, não poupando críticas ao governo. Convidado por emissários oficiosos a aderir a situação, Geraldo recusou. Começaram, então, as pressões. Primeiro, foi-lhe retirada toda a publicidade oficial. Como o jornal sobrevivesse, vieram as ameaças verbais de elementos ligados ao governo.

Certo dia, a pretexto de uma notícia referente a um assalto à joalheria La Ville de Paris, Geraldo foi chamado à Polícia. Por interferência de Aristóphano Antony, presidente da Associação Amazonense de Imprensa, a intimação foi retirada. Mas as ameaças continuaram, cada vez mais frequentes. Em junho de 48, Geraldo recebeu informação segura de que o jornal seria atacado. Por prevenção, convocou os poucos funcionários e montou acampamento na sede, localizada na esquina das ruas Itamaracá e Frei José dos Inocentes.

Após uma vigília de 48 horas, decidiram regressar às suas casas, deixando apenas dois empregados de prontidão. Logo depois, um grupo de beleguins, armados de revólveres e cassetetes, invadia o prédio e empastelava redação e oficina. O prejuízo foi total, não sobrou praticamente nada e nunca mais O Momento voltou a circular. A violência matou, ali, as ambições de um jovem e, quem sabe, o embrião de um futuro grande jornal.

Eram tempos heróicos do jornalismo. De jornais acanhados e provincianos, pobres e desequipados, mas de jornalistas forjados no batente, que sabiam tocar a imprensa com esforço, entusiasmo e, sobretudo, com um imenso amor à profissão.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (32)


Por Jefferson Peres

Muitos jovens da minha geração foram leitores insaciáveis. Menos, talvez, por pendores naturais do que por fatores circunstanciais. Ainda não havíamos ingressado na era da televisão e do automóvel particular. Quando não tínhamos alguma opção de lazer, o jeito era buscar refúgio na leitura. Líamos de tudo, muitas vezes a qualquer hora e em qualquer lugar. Havia até os fanáticos, que nunca se separavam dos livros, conduzindo sempre algum, seguro pela mão ou debaixo do braço, para ser lido nas salas de espera dos cinemas, nas mesas dos bares ou nos bancos das praças.

Nunca dediquei à leitura menos de seis horas por dia. Quando nada tinha para ler em casa, marchava para a Biblioteca Pública, onde passei muitas tardes da minha juventude e de onde saía, às vezes, ao anoitecer. Foi um hábito que adquiri na infância, com os contos de fadas de Andersen e Perraul e com revistas como O Tico-Tico, na qual eu me deleitava com as aventuras de Reco-Reco, Bolão e Azeitona.

Logo vieram os jornais e as revistas em quadrinhos de origem americana. Não perdia um número do Mirim, do Gibi, do Globo Juvenil e do Suplemento Juvenil. Lia com avidez as histórias daqueles heróis, que encantavam pela variedade de tipos, temas e ambientes, oferecidos para todos os gostos, desde trogloditas e dinossauros, com Brucutu, até foguetes espaciais, com Buck Rogers, passando por castelos medievais e cavaleiros andantes, como o Príncipe Valente.

Podia escolher entre uma aventura na selva da Índia, com o Fantasma Voador, e outra nas areias do Saara, com Abdul, o Árabe, ou, ainda, uma terceira, nas ruas de Nova York, com o Tocha Humana; entre um herói caipira, como Lil Abner (por que terão aportuguesado seu nome para Ferdinando?) e um sofisticado detetive urbano, como Nick Holmes. E tantos outros, como Brick Bradford, Príncipe Submarino, Mandrake e o nunca esquecido Flash Gordon, que me atraía não somente pela história, como também pelo traço elegante do desenho de Alex Raymond.

Junto com as histórias em quadrinhos, íamos devorando os livros de aventura. Li quase todos os livros de Tarzan, e a Edgar Rice Burroughs devo alguns dos melhores instantes de encantamento que a leitura me proporcionou naquela fase. E mais ainda, talvez a Karl May, o alemão autor de No Deserto e nas Selvas, Winnetou e tantas outras fascinantes histórias passadas nos mais diferentes lugares do mundo. Só muito mais tarde vim a saber, com grande surpresa, que esse novelista nunca saiu da Alemanha e escreveu muitas das suas obras na prisão.

Escusado dizer que li quase tudo de Júlio Verne, e o Capitão Nemo, com o seu Nautilus, me deliciou desde muito cedo. O mesmo aconteceu com a obra de Alexandre Dumas, que me deu muitas alegrias com as proezas de D’Artagnan e seus companheiros, ao enfrentarem o poder do Cardeal, e de Edmond Dantés, ao se vingar dos seus diabólicos inimigos. Houve muito mais, como Ivanhoé, de sir Walter Scott, a Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, para não falar nos policiais, com personagens como Sherlock Holmes, Arséne Lupin, Perry Mason, Nero Wolf e tantos outros.

Depois, ainda na adolescência, vieram as obras mais sérias, preferentemente de ficção. Dos autores nacionais, antigos e modernos, escaparam poucos. Manuel Antônio de Almeida, que seria, provavelmente, o maior romancista brasileiro do século XIX, se não tivesse morrido tão cedo, deixando apenas uma pequena obra-prima, Memórias de um Sargento de Milícias; José de Alencar, do qual li quase tudo; o meu querido Machado de Assis, principalmente o da segunda fase, cujo estilo sempre me encantou. E mais Aluísio de Azevedo e Raul Pompéia, sem contar os poetas, em particular Castro Alves, com sua poesia social que empolgava todos nós e cujos versos eram citações quase obrigatórias em nossos discursos.

Dentre os contemporâneos, devorei quase todos do ciclo nordestino, com preferência por Jorge Amado e Graciliano Ramos. Li, com entusiasmo, romances como Cacau, Jubiabá, Capitães de Areia e Terras do Sem Fim, embora me decepcionasse mais tarde com o caráter sectário de Os Subterrâneos da Liberdade. De Graciliano, li a obra toda, pois o velho Graça e Machado são minhas paixões na literatura brasileira.

Dos estrangeiros, sempre tive predileção pelos autores franceses e russos. Balzac, Flaubert, Stendhal, Maupassant e Victor Hugo logo se tornaram familiares a mim. Somente Proust vim a ler mais recentemente. Dos russos, também ficaram de fora muitos poucos. Li Tolstói, Turguniev, Gogol, Puchkin e, naturalmente, Dostoievski. Naquela fase da minha vida, os dois livros, de ficção e não-ficção, que mais me impressionaram foram, respectivamente, Crime e Castigo e Recordações da Casa dos Mortos.

Fascinante, como estudo psicológico, a história do intelectual que, friamente, sem motivo, decide matar a anciã, apenas para provar que poderia fazê-lo sem remorso. Concordo com Franklin de Oliveira, para quem um dos mais belos momentos da literatura universal é aquele em que Raskolnikov se ajoelha ante a prostituta Sônia e beija-lhe os pés, em homenagem a toda a humanidade sofredora.

Nenhum outro autor me causou tanto impacto, dentre de tantos que li. E não exagero se disser que, ao atingir a idade adulta, tinha lido pelo menos um livro de cada um dos autores considerados clássicos. Faço a observação sem nenhum laivo de vaidade, mas apenas para demonstrar a massa de leitura absorvida por muitos jovens do meu tempo. Sim, porque eu não constituía, de forma alguma, exceção.

Não deve causar admiração, portanto, que tenham surgido, bem ou mal, tantas vocações literárias. E que se proliferassem tanto as associações culturais. Porque foi um grupo Colméia, do qual já falei, que deu origem ao PTB local. Constituído informalmente, incluía entre seus membros o historiador Mário Ypiranga Monteiro, o único do grupo, talvez, que não se deixou seduzir inteiramente pela política.

Em seguida, nasceu a Sociedade Castro Alves, na qual se agregaram jovens que tinham em comum, além das veleidades intelectuais, a proximidade geográfica, pois quase todos moravam nas ruas adjacentes à Praça da Saudade. Recordo-me de três dos seus integrantes, Almino Affonso, Aloísio Nobre de Freitas e Paulo Monteiro de Lima. Este último foi, talvez, o maior talento poético daqueles anos. Infelizmente, boêmio e romântico, desperdiçou-o em grande parte e morreu muito jovem, sem editar um único livro. Popular, seus poemas de circunstâncias, satíricos, corriam de mão em mão e deliciavam a cidade. Mas também os poemas sérios que escreveu faziam muito sucesso.

Aliás, a poesia gozava de popularidade. Quando Rogaciano Leite, poeta cearense, esteve em Manaus, deu um recital no Teatro Amazonas, com casa cheia, e foi aplaudido como um astro de canção popular. Até os comerciais eram versificados, com as emissoras de rádio lançando ao ar, a todo instante, o jingle: “Melhoral, Melhoral, é melhor e não faz mal” ou então “Pílulas da vida do Dr, Ross, fazem bem ao fígado de todos nós”.

Nessa época apareceu também o Grêmio Álvares de Azevedo, fundado por Moacyr Vilela, Platão Araújo, Aluísio Sampaio, José Cidade e Roberto Jansen, e no qual ingressei mais tarde. Funcionava no prédio da Escola de Serviço Social, cedido por André Araújo. Ao ser admitido no grêmio, o novel associado era obrigado a ler um trabalho inédito de sua autoria.

Uma passagem cômica teve como personagem Danilo da Silva (Du Silvan), admitido no Grêmio por proposta minha. Por disposição estatutária, todo novo sócio estava obrigado a pronunciar um discurso escrito na sessão da posse. Mas Danilo, para exibir seus dotes de orador, pediu e obteve permissão para falar de improviso. Seu discurso foi bombástico, cheio de imagens grandiloquentes, marcado por gestos teatrais e pronunciado com voz embargada.

Súbito, a catadupa estancou. Durante um longo e interminável minuto, ante o desconforto dos presentes, o orador, emudecido, passeava os olhos inquietos, de um lado para o outro, em busca da palavra salvadora. Até que, constrangido, numa confissão pública, admitiu que havia decorado o discurso e fora traído pela memória. A sessão solene terminou em gargalhadas.

Um dia, uma briga interna no Álvares de Azevedo criou um grupo dissidente, formado por Alencar e Silva, José Cidade e Roberto Jansen, que saíram para fundar a Sociedade Amazonense de Estudos Literários – SAEL. Suas reuniões eram feitas numa sala do Instituto de Educação do Amazonas, e entre seus membros se incluía Astrid Cabral, que mais tarde se projetaria como poeta e contista, no sul do país.

SAEL e Álvares de Azevedo mantinham forte rivalidade e desenvolviam intensa atividade, através de promoções culturais a divulgação de trabalhos nos jornais locais. A desavença culminou com um charivari no Yara Bar, um botequim situado na Rua Marquês de Santa Cruz, entre a Alfândega e o Trapiche Teixeira, frequentado pelos trabalhadores do porto.

Uma noite, os membros do grêmio, já divididos em dois grupos, se desentenderam de vez e partiram para o desforço físico, numa pancadaria que terminou quando Moacyr Villela puxou o revólver e deu um tiro para o alto. Ninguém saiu ferido, a não ser o próprio Álvares de Azevedo que, cindido ao meio, nunca mais voltou a ser o que fora.

A dividir com a SAEL o prestígio da entidade jovem mais discreta, havia ainda o Grêmio Gonçalves Dias, integrado por Francisco Queiroz, Danilo da Silva e Othon Mendes, que se reunia na residência do último, na Avenida Joaquim Nabuco. Pouco a pouco esses grêmios se tornaram démodés e desapareceram.

Foram úteis, na medida em que se despertavam ou robusteciam o interesse de muitos jovens por assuntos culturais. Mas nada acrescentaram em termos de renovação. Na verdade, eram miniacademias, que reproduziam a Academia de Letras na forma e no espírito, e se diferenciavam muito pouco do modelo em que se haviam inspirado.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (33)


Por Jefferson Peres

No final dos anos 40 um grupo de adolescentes começou a se reunir no porão da residência de Anísio Mello, na Rua Dr. Moreira. Tinham entre si uma grande afinidade: eram todos poetas. Chamavam-se Carlos Farias de Carvalho, Jorge Tufic, Alencar e Silva, Luiz Bacellar, Antísthenes Pinto e Guimarães de Paula. Ainda seguiam as escolas romântica, parnasiana e simbolista, e eram cultores de Castro Alves, Bilac e Cruz e Sousa.

Em 1951 o grupo se separou, quando Farias, Alencar, Tufic e Antísthenes empreenderam uma viagem ao sul, a fim de entrar em contato com os meios culturais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Na Paulicéia conheceram casualmente Ramayana de Chevalier, então assessor de Adalberto Vale, presidente da Prudência Capitalização, uma poderosa empresa do ramo de seguros. Graças a Ramayana, conseguiram o apoio financeiro de Adalberto e estenderam a viagem até Porto Alegre, de onde retornaram a Manaus. A viagem entusiasmou-os tanto que, dois anos depois faziam outra com destino ao eixo Rio-São Paulo.

Na segunda foram Alencar, Tufic e Guimarães, que já encontraram Antísthenes no Rio. Outra vez de volta a Manaus, chegaram definitivamente rompidos com os cânones acadêmicos e dispostos a empreender em nossa terra um movimento de renovação cultural. Faltava-lhes, porém, o instrumento adequado a ser utilizado na execução do projeto, pois eles continuavam a se reunir em bares e porões, para discursões muito proveitosas para eles mesmos, mas sem nenhuma repercussão no meio.

Em 1954 um outro grupo de jovens, com preocupações principalmente políticas, decidiu certa noite, num banco da praça da Polícia, fundar uma associação de estudos políticos, sociais e literários. Tomaram parte da reunião Saul Benchimol, Francisco Batista, Theodoro Botinelly, José Trindade, Luiz Bacellar, Farias de Carvalho, Fernando Collyer e João Bosco Araújo.

Por sugestão de Saul, a agremiação adotou o nome de Clube da Madrugada, tanto pelos hábitos notívagos dos seus fundadores, como pelo caráter simbólico da palavra, a prenunciar um novo dia no panorama cultural da terra. E, a partir daí, passaram a se reunir todos os sábados, sempre no mesmo lugar. Logo, porém, tiveram ingresso os outros poetas da Rua Dr. Moreira, Alencar, Tufic, Guimarães e, um pouco mais tarde, Antísthenes, Luiz Ruas, Elson Farias e Ernesto Penafort, enquanto alguns dos sócios fundadores iam-se afastando gradativamente.

O Clube perdeu seu caráter eclético, sugerido na proposta original, para se tornar mais homogêneo, adquirindo uma feição nitidamente artístico-literária. Foi esse grupo de poetas que lhe imprimiu a marca e lhe traçou o rumo. Não só poetas, mas também ficcionistas e ensaístas, muito deles, aos quais se juntaram outros, como Ernesto Pinto Filho, Arthur Engrácio, Francisco Vasconcellos e Aluísio Sampaio, além de artistas plásticos, como Moacyr Andrade e Afrânio Castro, e musicistas, como Nivaldo Santiago e Pedro Amorim.

Estava deflagrado o movimento que iria provocar importantes transformações na literatura e na arte e nosso Estado. O sopro vivificador, ao subverter os valores estéticos, renovou profundamente em termos de linguagem, temática e estilo. Essa renovação continuou, por três décadas, até meados dos anos oitenta, apenas sem o ímpeto e a iconoclastia da fase inicial. Talvez o segredo do Clube seja explicado pela sistemática recusa que seus membros sempre opuseram às tentativas de transformá-lo numa entidade convencional. Nunca foi possível confiná-lo entre as paredes de uma sede ou aprisioná-lo na camisa-de-força de um estatuto.

Quem sabe por isso, não se burocratizou nem estagnou, continuando a fluir com suas águas oxigenadas, livremente, como um rio. Alegro-me de haver tomado parte nesse movimento, desde o início, praticamente, pois nele ingressei dois anos depois de sua fundação. Durante algum tempo exerci militância firme, enquanto alimentei pretensões literárias. Ocorre que essas ambições se exauriram com os sonetos da juventude.

Quando adquiri autocrítica suficiente para reconhecer que meus poemas eram definitivamente medíocres, decidi parar, livrando a arte poética de novos ultrajes. E, aos poucos, fui deixando de frequentar o Clube. Mas nunca formalizei meu desligamento. Nem poderia fazê-lo. Identificado com suas origens, ligado afetivamente à maioria dos seus membros, sinto-me preso ao Clube por amarras que nem o tempo nem o distanciamento físico poderão jamais dissolver.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (final)


Por Jefferson Peres

Em 1950 tinha início uma nova década e, também, a construção de um barzinho, sem nada de especial, mas que iria marcá-la profundamente. O local era um canteiro triangular, em frente ao Guarany, onde havia um antigo chafariz desativado e dois postes de sustentação da tela na qual se projetavam filmes ao ar livre.

Ao se erguerem os tapumes, correu o boato de que seria construído um posto de gasolina. A novidade não agradou os ginasianos, que ensaiaram um movimento de protesto e ameaçaram depredar a construção. Pressionado, o então prefeito Chaves Ribeiro aconselhou o proprietário a acelerar as obras, a fim de criar o fato consumado. Diante disso, foi abandonado o projeto original, de forma circular, por outro mais feio, retangular, que pôde ser construído em tempo recorde.

O êxito do bar foi imediato e se deveu a uma conjugação de fatores. Em primeiro lugar, sua localização, nas vizinhanças de dois cinemas, três colégios, um quartel, e mais, da então concorridíssima Praça da Polícia; segundo, a excelência do seu café, talvez o melhor da cidade; e, finalmente, a simpatia do proprietário, o português José de Brito Pina, extrovertido e conversador, que em pouco tempo chamava cada um dos frequentadores pelo nome.

Batizado oficialmente de Pavilhão S. Jorge, o barzinho era conhecido popularmente por Café do Pina e, mais tarde, República Livre do Pina, por constituir um microcosmo onde se reunia o que havia de mais representativo na cidade, para discutir livremente a respeito de tudo. Eram intelectuais, políticos, jornalistas, boêmios e estudantes que faziam dali o seu ponto de encontro diário. Muitos, como eu, compareciam duas vezes, ao fim da tarde e à noite. Mas havia quem desse três expedientes, como Sebastião Norões.

O Pina era a nossa cachaça ou entorpecentes. Se não tomássemos a dose diária, ficávamos inquietos e com uma sensação de vazio. Era lá que nos supríamos de informações, pois a toda hora estava chegando alguém com as últimas. As rodas se formavam em função dos assuntos predominantes. Havia a dos intelectuais, que conversavam principalmente sobre literatura e arte; a dos interessados em política, que a discutiam em nível local, nacional e internacional; a dos desportistas, cuja conversa se limitava praticamente a futebol; e dos versáteis, que falavam a respeito de tudo.

Mas nenhuma era estanque. Todos se conheciam e as pessoas ficavam circulando de um grupo a outro. Além dos habitués, que eram dezenas, muitos outros costumavam passar por lá de vez em quando. Se alguém desejava saber o que estava ocorrendo na cidade, no Brasil e no mundo, bastava dar um pulo até a República, para ficar perfeitamente atualizado. Curioso é que esse encontro diário de tantas pessoas, com pontos de vista diferentes e até antagônicos, gerasse discussões calorosas, mas sem nenhuma animosidade. Esse clima cordial e ameno jamais foi quebrado.

Mas houve um incidente entre dois poetas que merece ser contado. Um dos “habitués” do Pina se chamava Alberto Amorim, ou melhor, Alberto Urubatão Israel Barbosa de Amorim, mais conhecido por “ Boi Morto”, um apelido de origem desconhecida, talvez ignorada pelo próprio Alberto. Era uma figura estimadíssima, de permanente bom humor, que não se abalava nem quando lhe chamavam o apelido nem quando gozavam o seu discutível talento poético, manifestado na forma de superados sonetos parnasianos estampados na imprensa local.

Sem emprego fixo, militou na imprensa como repórter em quase todos os jornais da cidade. Vivia “liso”, a filar cigarros e cafezinhos dos amigos. Sua principal vítima era Moacyr Villela, amigo inseparável que o socorria nos momentos de maior aperto. Fisicamente, chamava logo a atenção. Estrábico, com óculos de grossas lentes, barrigudo, pé de papagaio, andar desengonçado, tornava-se ainda mais cômico quando soltava risadas sacudindo o corpo todo e pondo à mostra a dentadura bastante desfalcada. Nem por isso perdia a mania de galã. Vivia assediando as mulheres bonitas da cidade, solteiras, casadas e viúvas, através de longas conversas telefônicas.

Às vezes, as mulheres cediam às cantadas e marcavam encontros que terminavam sempre de maneira frustrante, quando elas, ao verem a figura pela primeira vez, mal disfarçavam a decepção e nunca mais voltavam a procura-lo. Mas ele não se dava por achado e insistia em alardear para os amigos histórias de conquistas imaginárias que ninguém levava a sério. Incapaz de atos violentos, algumas vezes, no entanto, se atritou com pessoas atingidas por sua língua solta e seus gestos irrefletidos.


O mais rumoroso desses incidentes envolveu o poeta Luiz Bacellar. Este obtivera, pouco antes, o primeiro lugar num concurso nacional de poesia promovido pela revista A Cigarra, com o “Soneto a Charles Chaplin”, uma pequena obra-prima digna de figurar em qualquer antologia. Boi Morto, então, comentou numa roda que Bacellar teria cometido plágio, sem revelar quem teria disso o poeta plagiado. Nem poderia, porque a acusação era injusta e descabida.

Quando Bacellar soube, ficou uma fera, como era natural. Mas, impossibilitado de aplicar um corretivo no outro, dada a desproporção física entre ambos, partiu para outro tipo de vingança. No dia seguinte publicou em O Jornal um soneto intitulado “Boi Morto” que iniciava com o seguinte quarteto: “É morto o boi, o mais cornudo boi / De toda a vacaria, e tal mau cheiro / Se evola da carcaça que o terreiro / Se empesta tanto que o fedor já dói.”

Grande foi a repercussão do poema, mas o alvo nesse dia não foi encontrado, para as chacotas inevitáveis. Enfurnado em casa, de lá mesmo telefonou para Bacellar marcando um encontro na Praça da Polícia à meia-noite. Temeroso, mas cheio de brio, o poeta, que sempre foi um notívago inveterado, aceitou o convite e, à hora combinada, plantou-se no local, à espera do antagonista.

Logo depois apareceu Alberto, que foi direto ao assunto. Com um recorte de jornal na mão, dirigiu-se a Bacellar, dizendo: “Está aqui o seu poema. Agora você vai engolir”. Ao que o poeta replicou: “Não engulo coisa nenhuma”. Ante a negativa, Alberto sacou de um revólver e apontou-o para o rosto de Bacellar, a um palmo de distância, gritando: “Você vai engolir, sim”. O confronto era desigual, pois o poeta, além de desarmado, tinha compleição franzina e nunca se envolvera numa luta física em toda a sua vida. Mas aconteceu o inesperado. Sob o impulso do medo, num reflexo de que ninguém o julgaria capaz, Bacellar, num gesto felino, arrebatou a arma da mão do adversário e atirou-a ao tanque próximo.

A seguir, preparou-se para enfrentar a arremetida do outro. Mas, para sua grande surpresa, Alberto, em vez de reagir com fúria, levou as mãos à cabeça e exclamou: “Não faça isso, que o revólver é emprestado!”. A seguir, pulou para dentro do tanque, onde ficou à procura da arma, em plena madrugada, com água pelos joelhos. Não voltaram a se hostilizar, mas também nunca mais se falaram. Alberto morreu, muitos anos depois, em Curitiba, certamente sem guardar, em seu espírito generoso, rancor algum de Bacellar.

Impossível enumerar todos os seus frequentadores, sem o risco de graves omissões. Mas, para homenagear a todos num só, devo ressaltar a figura do poeta Sebastião Norões. Começou a frequentá-lo desde a sua inauguração e assim continuou durante cerca de vinte anos, até morrer. E foi lá praticamente que se despediu da vida.

Promotor público e professor, morou sempre bem próximo ao Pina. Primeiro na casa de sua mãe, na Avenida Sete de Setembro. Depois, num pequeno apartamento, na Rua Rui Barbosa. Celibatário, sua vida era uma rotina diária entre o Tribunal de Justiça, o Ginásio, o Pina e o Guarany. Saía de um e entrava no outro, com paradas mais frequentes na República, para o bate-papo e o cafezinho, que consumia às dezenas, fumante inveterado que era. Sempre muito tranquilo, avesso a discussões, andava de roda em roda, mais ouvindo do que falando. Como já disse, de manhã, de tarde e de noite.

Certo dia, ele tomava o seu habitual cafezinho, no balcão, quando se sentiu mal. Socorrido, foi levado de carro para o Pronto-Socorro, onde morreu horas depois. Por uma coincidência feliz, as últimas imagens deste mundo que gravou na retina foram exatamente os três pedaços de chão que mais amou: o Pina, o Ginásio e o Guarany. O destino poupou a Norões o desgosto de assistir à decadência e ao melancólico fim da República. Anos mais tarde, sacrificado ao Moloch do trânsito, o Pavilhão São Jorge foi demolido. Algum tempo depois foi reconstruído. Mas quando isso aconteceu, já vivia das glórias passadas, com esmaecidos lampejos do brilho de outrora.

A República Livre do Pina desapareceu e o Clube da Madrugada, com a dispersão da velha-guarda, se modificou. Mas para mim ambos permanecem intactos, como símbolos do esforço de todos aqueles que persistem na busca onírica de um ideal de justiça e beleza, a ser perseguido sempre, como única maneira de se emprestar sentido à trajetória humana sobre a Terra.

O jardineiro no canteiro das palavras


Deonísio da Silva, em entrevista para Gabi no GNT

Por Deonísio da Silva

Quero ter com a língua portuguesa uma relação amorosa, cheia de toda ternura, de toques delicados, sem nenhuma agressão, de respeito mútuo e tratos justos. Se uma palavra não quiser entrar em minha frase, depois de algum olhar, convite ou sedução, não faz mal: vou namorar outra, até encontrar aquela que me foi destinada. E sei que foram muitas. E se ainda assim eu não encontrar quem me queira, inventarei a palavra apropriada. Foi assim que todas nasceram.

O texto não é o meu harém. As odaliscas que aqui dançam e cantam são ubíquas e podem dançar e cantar onde bem quiserem, pois são livres como eu. Quero viver na deliciosa companhia das efêmeras. Nenhuma delas precisa me amar eternamente. Quero apenas o amor fugaz, o brilho rápido, sua carinhosa atenção por poucos momentos: a vida é breve.

Não vou aprender as gramáticas dos séculos passados. Não me interessa. Não estou vivendo nele. O passado é como um cemitério: só há mortos e tristezas por lá. Flores, somente uma vez por ano. Sei que algumas arqueologias e estudos são importantes para o conhecimento. Mas eu sou jardineiro das palavras, não botânico.

Em vez dos cemitérios da língua, procuro as creches. Quero a língua balbuciada no berço, entre os choros da boca, o leite dos seios, a canção nos ouvidos e o caminho das mãos. A algazarra das creches me fascina tanto quanto os sussurros dos amantes ou o cochicho dos fofoqueiros, esses seres altruístas, tão modestos e solidários, a ponto de só se preocuparem com a vida dos outros, esquecendo-se das suas, segundo conceito delicioso do poeta Mário Quintana.

As canções populares me deixam todo arrepiado. Estou interessado no que todos têm para me contar: de novos ou velhos, todas as conversas me despertam para outros mundos, muitos dos quais eu nem sabia que existiam.

Abro os livros. Cheiro suas páginas. Suas palavras e eu tramamos uma sedução mútua e logo vamos para a cama. Lá é melhor de ler do que nos bancos escolares.

Se vou escrever, miro-me nos espelhos dos que me antecederam, sobretudo os clássicos. Mas quero ler também os escritores de hoje, que cantam, mugem ou gemem no seu tempo, que é também o meu.

Se me sobrar tempo, estudarei gramática, irei a Portugal. Tempo é o que não me falta, pois o prazer dispensa o tormento da pressa.

Parem a escola que eu quero descer. Não aguento mais tanta necrofilia, arqueologia e gramática. Castro Alves morreu de gangrena no pé. Cruz e Sousa foi conduzido doente num vagão de gado: ninguém o acompanhou ao sanatório. Machado de Assis, filho de uma lavadeira, nasceu num morro e era preto, pobre, órfão, epilético, gago, feio, casou com uma solteirona que tinha comido a merenda antes do recreio e não teve filhos.

Adianta saber tudo isso quando não se lê o homem? Poesias, contos e romances que todos eles escreveram, morrem abandonados todos os dias nas escolas. São poucos os que acendem uma vela para a memória de Castro Alves sobre os escravos e as paixões, de Cruz e Souza sobre as dores e os abraços, de Machado sobre amizades e traições. Poucos são os que guardam na lembrança uma boa frase ou um verso genial de qualquer dos escritores estudados. Entretanto, financiado pelo CNPQ ou pelo que eu-não-sei-pra-quê, todo ano um mestre bobo descobre qual deles tinha caspa, tuberculose ou unha encravada.

Eu amo línguas e literaturas, principalmente as que me são mais próximas, como a brasileira e a portuguesa, por razões semelhantes àquelas que me levam ao amor filial. Por isso, jamais as maltrato ou desprezo, fazendo de conta que não existem. Não domino a língua portuguesa: mantenho com ela uma relação de parceria. Não permito que, por ignorância minha, ela me leve a dizer o que não quero ou a não poder dizer o que quero. Do contrário, de que me servirá a liberdade de expressão?

Em língua portuguesa, expresso o que bem me apraz, olhando com atenção para ver se é canela ou sassafrás. Aos dicionários, empresários das palavras, com aquele enxame de vocábulos, dou uma atenção semelhante ao livreiro que me vende romances. Estou interessado no mel das abelhas, não em suas ferroadas ou no dono da colmeia.

Para ler por gosto, não é preciso dicionário. Não nos aborreçam com aleivosias, olhares à sorrelfa e outras vericúndias, procurando anástrofes e zeugmas, onde existem apenas metáforas. Discrepo sempre que alguém tenta o domínio pelo verbo, que é insuficiente para dizer as coisas, desde o princípio do mundo.

A língua é necessária, talvez seja a nossa melhor metade, mas não é absoluta. Se o fosse, os namorados não se beijariam, os sentimentos estariam sempre arrumados e não haveria literatura.


PS. O Português que todos devem aprender para uso próprio, não para ensiná-lo, como fazemos nós, os professores. Esta crônica foi escrita especialmente para o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, por solicitação de Augusto Nunes, então seu diretor de redação. Repercutia crônica de Luís Fernando Veríssimo, intitulada O gigolô das palavras, que deu título também a um livro da professora Maria da Glória Bordini. Versões resumidas saíram também na revista Época e no Jornal do Brasil.

quarta-feira, dezembro 13, 2017

Manaus: como eu a vi ou sonhei (26)


Por Jefferson Peres

Waldemar Pedrosa era muito mais jurista do que homem de letras. Dividia com Leopoldo Péres o mais prestigioso escritório de advocacia da cidade. Dizem que nas causas criminais ficava a seu cargo a fundamentação jurídica, cabendo a Leopoldo o combate no Tribunal do Júri. Infelizmente, não enfeixou em livros todos os seus pareceres e arrazoados, que, em sua maioria, jazem perdidos em arquivos mortos, à espera de algum pesquisador que se anteceda às traças e aos cupins.

Político, teve uma passagem brilhante no Senado Federal, onde se distinguiu pela participação ativa na reunião de um dos órgãos da ONU em Paris, e pelo célebre parecer de sua lavra, favorável à cassação dos mandatos dos parlamentares eleitos pelo Partido Comunistas Brasileiro. Argumentou que, havendo o Tribunal Superior Eleitoral cancelado o registro do PCB, que deixou, assim, de ter existência legal, entendia como automática a perda dos mandatos dos senadores e deputados eleitos sob a legenda desse partido.

Com base nesse parecer, o Congresso, em reunião tempestuosa e dramática, procedeu à cassação dos mandatos dos comunistas, inclusive de Carlos Marighella, deputado, e de Luiz Carlos Prestes, colega de Waldemar no Senado, onde representava o Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Com isso, Waldemar caiu no índex das esquerdas, que passaram a ferreteá-lo com a pecha de reacionário.

Mas não foi a impressão que me ficou daquele senhor baixinho, encanecido, afável e simpático que, senador da República, primeiro, e mais tarde ministro do Tribunal Superior do Trabalho, aparecia nos comícios da Cruzada Amazonense de Resistência e da Frente Nacionalista, para me abraçar e se dizer solidário com a nossa luta. E como poderia ser de outro modo, em se tratando de um homem que eu havia conhecido anos antes, já advogado famoso, de cabelos grisalhos e pai de filhos adultos, no pátio de sua casa na Sete de Setembro a empinar papagaio com um entusiasmo infantil.

Huascar de Figueiredo disputava, com Leopoldo e Waldemar, o título de maior advogado do Amazonas. Seu escritório, na Rua Barroso, era frequentado por uma grande clientela, em busca de seu patrocínio para causas, principalmente cíveis, que dificilmente perdia. Comentava-se que guardava profunda mágoa pela morte prematura de sua primeira mulher, vítima de hanseníase. Quando despertei para o mundo, ela já havia desaparecido, mas era mulher elegante e de grande beleza, segundo depoimento de todos que a conheceram.

Entretanto, nas poucas vezes em que pude observar Huascar, não cheguei a perceber nele nenhuma sombra de tristeza, a menos que a dissimulasse, extravasando-a somente para os íntimos. Ao contrário, parecia um homem extrovertido e alegre, bom contador de anedotas, que narrava sem medir palavras, arrancando gargalhadas dos que o ouviam.

Irreverente, causou grande constrangimento ao poeta Sebastiao Norões, quando este lhe foi apresentado, ao disparar: “Norões?! Que boa rima para colhões!” E soltou uma gargalhada. Norões, muito tímido, sorriu amarelo e engoliu em seco. Mas parece ter guardado mágoa para o resto da vida, pois era visível o seu mal-estar quando lembravam o episódio.

Esse destempero verbal era uma das suas características, não poupando sequer os clientes, se lhe atazanava a paciência. Um dia foi procurado por um comerciante português, homem rico, mas conhecido por sua avareza, que lhe encomendou a elaboração de um contrato. Huascar, pediu que ele voltasse daí a duas horas. Decorrido esse tempo, o português voltou e recebeu o contrato pronto. Ao perguntar quanto devia, ouviu como resposta uma quantia que lhe pareceu exagerada e reclamou: “Tudo isso por um serviço que lhe custou duas horas de trabalho?!” Huáscar então explodiu: “Olhe aqui, sêo filho da puta, para redigir este documento em duas horas, eu precisei estudar mais de vinte anos. Pague ou procure outro advogado!” O homenzinho pagou, mas naquele dia ele perdeu um cliente.

Tal como Adriano, não deixou nenhum livro. Sua obra se encontra dispersa em conferências, artigos de jornal e, sobretudo, editoriais nos vários órgãos de imprensa com os quais colaborou. Estes últimos são irrecuperáveis, porque impossível identificar a sua autoria. É fora de dúvida, no entanto, que sua pena contribui para manter elevado o nível do editorialismo na imprensa local. Para perpetuar sua memória, a municipalidade deu seu nome ao trecho da Rua Saldanha Marinho entre a Avenida Getúlio Vargas e o Igarapé de Manaus, onde nasci e passei minha infância.

Peço licença, agora, para colocar a modéstia de lado e falar um pouco do meu tio, Leopoldo Carpinteiro Péres. Aos olhos da comunidade, ele formava, juntamente com Péricles e Adriano, embora mais novo do que eles, a Santíssima Trindade do mundo intelectual amazonense. Orador fulgurante, conseguiu brilhar em quase todos os ramos da oratória: literária, parlamentar e judiciária. Tão grande o seu prestígio, que era solicitado, como profissional, até pelos seus desafetos.

Certa vez, foi procurado para aceitar a causa de membros da família Brasil, de Boa Vista, cujo patriarca, coronel Bento Brasil, se tornara inimigo irreconciliável de seu pai, e meu avô, quando este lá servira como juiz. Leopoldo então procurou o pai, que o liberou para agir profissionalmente. O mesmo brilho demonstrava como professor e ainda hoje suas aulas são recordadas com saudades pelos seus ex-alunos. Mas assim como dominava a arte do bem-falar, não se descuidava igualmente do bem-escrever. Era um estilista, de prosa escorreita, fluente, elegante. Pode-se dizer que escrevia como falava.

Lamentavelmente, os dois livros em prosa que nos deixou, além de um outro de poemas, póstumo, constituem apologias do Estado Novo e de seu criador. Como diz o povo, queimou boa cera com um mau defunto. Mas se redimiu amplamente desse pecado, quando, deputado à Assembléia Nacional Constituinte, fez inserir na Constituição de 46 o famoso artigo 199, que destinava 3% da receita da União ao desenvolvimento da Amazônia. Se mais não tivesse feito, já teria justificado o seu mandato.

Mas tudo o que se disser de Leopoldo será inútil para quem não o tenha conhecido. O forte dele era a personalidade, o encanto que sabia irradiar. Fisicamente não impressionava. Baixo, quase gordo, óculos de aros de tartaruga, passaria despercebido, não fora a requintada elegância no modo de ser e de dizer. Causeur admirável, dominava todas as rodas, nas quais se tornava logo o centro das atenções, quaisquer que fossem os seus integrantes. Não é de admirar que tenha colecionado muitas conquistas femininas, pois nem os homens escapavam ao seu fascínio.

Uma de suas muitas aventuras amorosas quase se transforma em tragédia quando, ao sair de sua residência, teve de arrostar a fúria de um marido ultrajado. A custo, alguns transeuntes desarmaram o agressor, salvando-lhe a vida, mas não a tranquilidade, afetada pelo escândalo. Um aristocrata, sabia receber os humildes com a mesma simpatia que dispensava aos importantes. À sua casa iam diariamente pessoas de condição modesta, às quais distribuía, generosamente, dinheiro que lhe fazia falta. Um esteta, sua preocupação descia a pormenores.

Certa vez, em conversa com Péricles Moraes, pronunciou o nome de Anatole France, com o “o” fechado (Anatôle). No dia seguinte Péricles, inconformado, lhe telefonou para indagar por que ele se pronunciara assim o nome do escritor francês, que para ele, Péricles, devia ser pronunciado com o “o” aberto. Leopoldo deu uma gargalhada e respondeu: “Ora, Péricles, porque é mais eufônico”. Por ocasião do meu nascimento, ao ser informado de que me seria dado o nome de José Jefferson, estranhou: “José Jefersson? Zé-jé? Não soa bem”. E aconselhou que eu fosse batizado apenas como Jefferson. Mas o parto ocorrera a 19 de março, dia de S. José, e minha mãe decidiu manter o prenome duplo, em homenagem ao santo.

Por lhe parecer de péssima concepção arquitetônica, detestava o edifício-sede da Associação Amazonense de Imprensa, na esquina de Eduardo Ribeiro com 24 de Maio, que só chamava de horrendo caixote. Para minha tristeza, convivi pouco tempo com ele. Deixou-nos muito cedo, aos 47 anos, fulminado por um derrame cerebral. Morreu praticamente na tribuna parlamentar, provavelmente como gostaria.

Num livro de memórias, Afonso Arinos de Melo Franco, testemunha ocular, conta como aconteceu. Reunida a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal, Leopoldo lia um parecer, quando, a certa altura, sua voz foi ficando pastosa, seus movimentos descoordenados e logo, para estupefação geral, caiu no chão e foi levado ao hospital, onde morreu horas depois. Sepultado no Rio de Janeiro, até hoje seus restos não foram transladados para Manaus.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (27)


Por Jefferson Peres

Walmiki Ramayana Paula e Souza de Chevalier era o seu nome completo. Como que antevendo a vocação literária do filho, seu pai lhe deu os nomes de célebre poema épico hindu e do seu autor presumível. Não sei por que Ramayana acabou por estudar Medicina. Dizem seus contemporâneos da faculdade que em suas provas orais ele já fazia verdadeiras dissertações. Formado, guardou o diploma e nunca exerceu efetivamente a profissão. Seu mundo era o das letras e da boêmia, como ele próprio confessava.

Tribuno excepcionalmente dotado, era capaz de discorrer durante horas sobre qualquer tema. Quando ele voltou do Rio, após longos anos de ausência, procurei-o, em nome do Diretório Acadêmico, para convidá-lo a pronunciar uma conferência na Faculdade de Direito. Deixado o tema à sua escolha, decidiu na hora: Democracia Libertária.

À noite, depois de ouvir o discurso de saudação, que coube a mim fazer, tomou a palavra e, por mais de uma hora, discorreu sobre os princípios de um novo regime, que preconizava, bem como sobre o movimento político que estaria sendo articulado para a sua implantação. Ao fim, compreendemos que tínhamos assistido apenas a um prodigioso exercício de imaginação. Mas nem por isso nos sentimos frustrados, pois em compensação nos havíamos regalado com uma bela demonstração de oratória.

Ator nato, tinha um grande pendor para os gestos teatrais. Em 1953 liderou uma ruidosa campanha de arrecadação de donativos em favor das vítimas da enchente. Parece-me vê-lo, ainda em plena Eduardo Ribeiro, sentado no para-lama dianteiro de um velho automóvel, com faixa e alto-falante, a implorar o auxílio da população.

Jornalista de combate, tinha uma pena demolidora, que muito incomodava os adversários durante as campanhas eleitorais. Mas não teve sorte em política, jamais conseguindo galgar nenhum posto eletivo. Em grande parte, talvez, devido ao seu pouco empenho. Levava sua candidatura na brincadeira, como quase tudo que fazia. Gostava mesmo era de varar a madrugada num bate-papo com os amigos, sem preocupação com o tempo. Um eterno menino, que ocupava as horas vagas com trotes irreverentes passados nos figurões da cidade.

Displicente, escreveu apenas dois ou três livros, muito menos do que se poderia esperar de seu enorme talento. Aquele garoto brincalhão quer era Ramayana – oculto na máscara de feições orientais – guardava, no entanto, a mágoa de viver, por circunstâncias diversas, longe do Amazonas, que ele amava com um apego telúrico e uma unção quase religiosa.

Por coincidência ou não, dentre os homens que brilhavam em nosso meio literário, além de Álvaro Maia, também ensaísta e ficcionista, apenas um era, antes e acima de tudo, poeta. Chamava-se Américo Antony. Seu valor intelectual era reconhecido por todos, mas muitos lhe torciam o nariz devido à sua excentricidade. A começar pela figura. Magro, recurvo, cabelos compridos, terno amarfanhado e capa eternamente pendurada no braço, fizesse chuva ou sol.

Formado em direito, foi promotor no interior, mas dedicava aos autos apenas as horas que lhe sobravam da ocupação principal, que era a poesia. Conta-se que quando serviu, em determinada comarca, com Octaviano Mello – pai de Pedro e Anísio Mello –, um homem de letras aprisionado pela magistratura, os dois mantinham o fórum fechado e se deixavam ficar, perdidos, em longas conversas sobre literatura.

Dizia-se, também, com foros de verdade, que umas das muitas mulheres com quem viveu, certo dia entrou na sala em que Américo escrevia um poema e pediu-lhe dinheiro para o mercado. O poeta, indignado com a interrupção, gritou: “Miserável! Espantaste-me as Musas!” Consta que a moça deixou a casa no mesmo dia.

Eu próprio testemunhei uma dessas tiradas de Américo. Certa manhã, quase meio-dia, de regresso das aulas, no colégio Dom Bosco, encontrei Américo cercado de amigos, embaixo de um benjamim, na calçada do Leão de Ouro, esquina de Eduardo Ribeiro, com Henrique Martins. No exato momento em que eu cheguei, ele acabava de declamar um dos seus poemas.

A cerca de dois metros de roda, um jornaleiro, de apelido Ferrugem, entusiasmado, bateu palmas. Ao invés de agradecer, Américo, voltando-se para o rapazinho, perguntou: “Você entende de poesia?” Surpreso, o interpelado meneou a cabeça negativamente, e Américo arrematou: “Pois então não se meta, porque sapateiro não toca rabecão!”

Acho que até hoje, se vivo for, Ferrugem continua sem entender de poesia, e muito menos, das razões do poeta. Mas apesar desse comportamento nada convencional, reprovado pelos mais velhos, os moços reconheciam em Américo um grande talento poético e lhe dedicavam o respeito devido ao artista sério que ele sempre foi.

O último dos monstros sagrados a desaparecer foi Ramayana, já nos anos 70, doente e auto-exilado no Rio de Janeiro. Muito antes havia ocorrido o crepúsculo dos deuses com o fim de uma era em que a sociedade, reverente, cultuava seus intelectuais como figuras do Olimpo.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (28)


Por Jefferson Peres

A vida noturna de Manaus não tinha, é claro, a efervescência das metrópoles. Mas seria um engano supor que as noites se apresentassem vazias e sem opções. Longe disso, se levarmos em conta as dimensões da cidade, as atrações até que eram divertidas e variadas, embora ajustadas ao estilo e ao ritmo de vida da época. Além dos cinemas, naturalmente, havia, em primeiro lugar, as atividades dançantes, concentradas, para a classe média, nos dois tradicionais clubes de elite, Ideal e Rio Negro.

Ambos estão nas sedes que atualmente ainda ocupam, mas o Rio Negro recém-transferido da antiga sede da Rua Barroso, onde mais tarde funcionaram, sucessivamente, a Vara de Menores e a União Estadual de Estudantes, agora em ruínas. Durante quase todos os anos quarenta, os dois clubes se limitavam a cumprir uma programação anual preestabelecida e imutável, com a realização das festas de sempre, Chitão, Rosas Vermelhas, S. Pedro, Glamour-Girl, Réveillon e bailes carnavalescos, em traje passeio ou a rigor.

Somente no final da década o Ideal inovou, inaugurando uma boate, aberta todos os sábados e em roupa esporte. Após reformar um velho porão que servia como depósito, na ala norte, a Diretoria do velho clube deu-lhe um sopro renovador, com a criação da Juventude Idealina. Composta por um grupo atuante de moças e rapazes, à frente Bernardo Cabral, Carlito Cordeiro e Altino Azevedo, a J.I. passou a realizar suas sabatinas na noite que, devido à cor de suas paredes, era chamada carinhosamente de Vermelhinha e, mais tarde, de Moranguinho. Tendo como principal atração o piano de Aristóteles Melo, a boate do Ideal de tornou o ponto de encontro daquilo que os colunistas sociais chamavam de jeunesse doreé, reunindo tudo que Manaus tinha de mais bonito e elegante.

As festas desses dois clubes eram, de modo geral, tranquilas e bem-comportadas, transcorrendo rigorosamente dentro do figurino da época. As moças compareciam, sempre, em companhia de casais, com os quais, igualmente, regressavam a suas casas. Garota sozinha, ou acompanhada apenas de amigos ou namorados, nem pensar. E no decorrer da festa as jovens deviam permanecer sentadas à mesa, à espera de convites para a dança, com pavor de fazer crochet, isto é, de passar a noite sem dançar. Quando isso acontecia, eram alvos de gozação e algumas chegavam a chorar de humilhação.

Os rapazes, por seu turno, podiam sofrer, também, o vexame da recusa. Normalmente, o interessado procurava fazer sinal para a garota, de longe, e já ia na certa. Mas sempre aparecia algum mais ousado que resolvia correr o risco, sem prévio entendimento. Se dava sorte, a moça aceitava o convite e saía, educadamente, mesmo o contragosto. Mas às vezes a ousadia era castigada com um peremptório não e, nesse caso, o recusado fazia o caminho de volta no salão, sob olhares de zombaria, rubro de vergonha. Muitos abandonavam a festa, de cara no chão.

Os dirigentes dos clubes eram muitos zelosos da ordem e do decoro, que deviam ser preservados a qualquer custo. A vigilância sobre os participantes era bastante severa, principalmente no Rio Negro, que tinha em Aristóphano Anotny um férreo guardião da moral e do bons costumes. Não se permitia agarramento – há quanto tempo não ouço esta palavra –, beijos na boca nem passos de gafieira. Os infratores eram punidos sem apelação. Abordados discretamente, por um diretor, eram convocados à sala da diretoria, onde recebiam o convite para deixar a sede. Em outras palavras, eram simplesmente expulsos da festa. E obedeciam sem discussão, porque o rosto sisudo de Aristóphano não estimulava resistência nem protestos.

Tocava-se exclusivamente música romântica. Eram os foxblues americanos, como Summertime, Moonlight Serenade, Mona Lisa, Blue Moon, Again, Tenderly; ou foxtrotes, como Cheek-to-Cheek e Tea for Two; ou bolerões do repertório de Pedro Vargas, Gregorio Barrios e Lucho Gatica, ou, ainda, canções francesas, como Les Feuilles Mortes, La Mer, La Vie en Rose, Douce France e J’ Attendrai. A orquestra, ou o conjunto, tocava em surdina e deslizava-se no salão. Festa era uma oportunidade para se dançar, ouvir música e conversar. Conversavam os grupos, em voz baixa, nas mesas, e conversavam os pares, sussurrando, na pista de dança.

No final do período de que falo, abriu-se uma nova opção com a inauguração do Hotel Amazonas. O primeiro edifício de linhas modernas e, também, o primeiro hotel de categoria que aqui se construiu, fez de saída um enorme sucesso com o seu Mandy’s Bar, refrigerado, com instalações confortáveis e apesentando um serviço que a cidade desconhecia. Além disso, o hotel logo deu início às reuniões dançantes dos domingos, na Varanda Tropical, que ocupava todo o primeiro andar do edifício, aberta e agradavelmente arejada. Começavam à tardinha e se estendiam até às vinte horas. Com Aristóteles ao piano, tornaram-se um prolongamento da Moranguinho, completando os nossos fins de semana.

Ao terminar a Segunda Guerra Mundial, a rotina da cidade, em matéria de divertimentos, foi quebrada com a abertura, em setembro de 45, da Feira de Amostras. Um empreendimento ambicioso, que se tornou possível graças à conjunção do arrojo de Gebes Medeiros, do capital (pouco) de Coriolano Lindoso e do talento de Branco e Silva. A idéia inicial era fazer apenas uma grande exposição de produtos regionais. Logo o projeto se ampliou, para incluir um parque de diversões e um teatro de variedades.

Obtido o apoio do governo do Estado, insuficiente, Gebes caiu em campo para vender stands da feira a empresários daqui e do Nordeste, conseguindo, com muita dificuldade, os recursos para tocar a obra. Em pouco tempo foram erguidas as construções em madeira, no terreno da Manaos Harbour, cedido gratuitamente, que se estendia desde o local onde hoje se encontra a Capitania dos Portos até o Trapiche Teixeira, próximo ao edifício da Alfândega.

Compreendia três grandes pavilhões de exposição, decorados por Branco e Silva, com dezenas de stands; um parque de diversões, transportado do Rio, que apresentava uma grande variedade de brinquedos, conhecidos alguns, novidades outros, como Roda-Gigante, Polvo, Dangler, Gruta do Terros; e um outro, o Water-Shoot, que nunca vi em lugar nenhum; incluía, ainda, um grande teatro ao ar livre, um restaurante em forma de navio – a Nave da Felicidade, na amurada à beira do rio – e mais o próprio Trapiche Teixeira, aproveitando para a prática de jogos de azar, que só viriam a ser proibidos alguns meses depois, no governo Dutra.

Em setembro a feira foi inaugurada, com uma enorme afluência de público, presentes o então interventor Álvaro Maia e o embaixador americano no Brasil, Adolfo Berle Jr., de passagem por Manaus. Tão grande foi o entusiasmo do diplomata ianque, que fez um convite a Gebes para visitar os Estados Unidos, às expensas de seu governo. A viagem não se realizou porque, semanas depois, Adolfo Berle, envolvido num episódio famoso, deixava o país, ao ser considerado persona non grata, por envolvimento em nossos assuntos internos.

A partir daí, durante três meses, a feira foi o grande centro de diversões da cidade, tendo como carro-chefe o teatro, onde se apresentavam os grandes astros da música popular brasileira. Por ali passavam Orlando Silva, Carmen Costa, Ciro Monteiro, Odete Amaral, Dircinha e Linda Batista, as Irmãs Pagãs, Moreira da Silva e Manezinho Araújo, além de um cômico, Canelinha, que se tornou muito popular na cidade, por ele visitada periodicamente. Trazer esses e muitos outros artistas a Manaus, num espaço de tempo tão curto, era uma tarefa quase impossível, não apenas pelos gastos exigidos, mas também pelas dificuldades de transporte.

Naquele tempo não havia linha direta Manaus-Rio. Os aviões faziam o percurso Rio-Belém pelo litoral e, da capital paraense, os passageiros, feito o translado, se deslocavam para cá. Os voos eram poucos e os aviões, pequenos, estavam sempre lotados. Gebes só conseguiu superar o problema porque, através de Álvaro Mais, obteve a proteção de D. Alzira Vargas do Amaral Peixoto, a Alzirinha, filha do ditador, só deposto a 29 de outubro – que interferiu junto a Salgado Filho, ministro da Aeronáutica, para a concessão de prioridade aos artistas que viajassem a Manaus.

A realização de um empreendimento daquele porte, na pequena cidade dos anos quarenta, é explicada pela tenacidade de um nordestino que aprendeu, desde cedo, a não recuar diante dos obstáculos.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (29)


Por Jefferson Peres

Anos depois, as duas emissoras de rádio locais, a Baré e a Difusora, decidiram explorar o filão descoberto pelos criadores da feira. Antes, à semelhança das emissoras do sul do país, lançaram os programas de auditório, em suas próprias instalações, como a Difusora, que então funcionava em um velho prédio na Joaquim Sarmento, quase defronte à sua sede atual, ou utilizando o Guarany e o Polytheama, como fazia a Baré.

O programa da Difusora se intitulava Tem Gato na Tuba, porque o calouro que se saía mal era advertido com um miado desaprovador. A Baré, sucessora da pioneira Voz da Baricéia, já realizava esses programas desde o tempo em que pertencera ao governo do Estado, adquirida de seus primitivos donos. Com estúdio instalado no prédio da Associação Comercial, foi lá que estreou como calouro o garoto Carlos Augusto Carneiro, que ainda aspirava a fazer carreira como cantor de rádio.

Incorporada à cadeia dos Diários e Rádios Associados, partiu, já na década de cinquenta, para a construção da Maloca dos Barés, um grande auditório descoberto, construído no mesmo terreno em que funcionara a Feira de Amostras. Ali, o show era comandado por animadores como Belmiro Vianez e Josaphat Pires, com distribuição de prêmios aos espectadores, muitos dos quais abiscoitei, ao responder a perguntas de conhecimentos gerais.

Havia, também, apresentações de artistas locais, dentre os quais guardo, como grata lembrança, a figura de Maria de Lourdes – por onde andará a Lourdinha? – terna cantora de música hispano-americana. O espetáculo era encerrado, sempre com a presença de um cantor nacional famoso.

Toda a velha-guarda do rádio brasileiro desfilou no palco da Maloca. Os mesmos que haviam passado pela feira, e mais Sílvio Caldas, Carlos Galhardo, Nelson Gonçalves, Aracy de Almeida, Marlene, Emilinha Borba, Dalva de Oliveira, com o Trio de Ouro, depois sozinha, Lourdinha Bittencourt, Nora Ney e muitos outros.

A Difusora não ficou atrás e replicou com a Festa da Mocidade, também um grande auditório ao ar livre, primeiro instalado na Rua Silva Ramos, em terreno hoje ocupado pelo BEA, e mais tarde na antiga Baixa do JG, na Avenida Getúlio Vargas, onde atualmente se ergue o edifício Palácio do Rádio.

Havia grande rivalidade entre as duas emissoras e com isso, obviamente, saía ganhando o público. Às vezes, a Festa e a Maloca anunciavam, simultaneamente, duas grandes atrações, deixando-nos em dúvida quando à escolha. De minha parte, eu preferia, quase sempre, a Maloca, onde podia ficar na amurada do rio, perdido em cismas, a contemplar as luzes das embarcações ao longe.

As noites ofereciam, ainda muitas vezes ao ano, os arraiais ou quermesses, promovidos pelas diversas paróquias da cidade. Sucediam-se quase à razão de uma por bimestre, inicialmente com a de São Sebastião, em janeiro, depois a dos Remédios, a seguir a de Aparecida, logo a N.S. de Nazaré, na Vila Municipal e, finalmente, a da Matriz, em torno da Catedral.

Essas promoções eram aguardadas ansiosamente e movimentavam meia cidade, principalmente a juventude, que lá comparecia não apenas atraída pelos mais diferentes tipos de jogos, nem pela ampla variedade de guloseimas que podiam ser encontradas, mas também pela oportunidade de paquerar garotas.

Elas vinham às centenas, das redondezas ou de outros bairros, para encontros com namorados ou para o giro habitual em volta da praça, para o simples flerte ou, quem sabe, para abordagem dos rapazes, que também acorriam, de todas as partes, com o mesmo objetivo. E ali nos plantávamos até o alto-falante emudecer, dando por findo o arraial.

Aos domingos tínhamos um aperitivo, que eram as retretas da Praça João Pessoa (hoje Heliodoro Balbi), com a bem afinada banda da Polícia Militar, no belo coreto que ainda lá se encontra, tocando os sucessos musicais em voga. A praça ficava apinhada, com gente espalhada em torno do coreto, nas alamedas internas e, sobretudo, na calçada, onde se deixavam ficar os rapazes, em grupos, parados, e as moças volteando de braços dados. Saíamos com a banda, quase sete horas da noite, quando voltávamos às nossas casas para jantar e, em seguida sair de novo, rumo ao cinema ou à quermesse, se havia alguma funcionando.

Sempre que possível, nossas noitadas se completavam com serenatas. Nos meses de verão, de julho a novembro, com lua cheia ou mesmo quarto crescente, lá íamos nós preparar a seresta, que dependia da disponibilidade de instrumentistas, poucos e muito disputados na época. Geralmente levávamos dois violões e, quando aparecia, um violino.

Nossos violonistas preferidos eram Clóvis Bacury, excelente companheiro, morto prematuramente, e Domingo Lima, um crioulo bom e pachorrento, com infinita paciência para suportar as nossas desafinações. Sim, porque os cantores éramos nós mesmos. Raramente convidávamos alguns integrantes do cast de uma das emissoras locais. E do nosso grupo, constituído por José Oliva, o Pítias, Luiz Bezerra, Haroldo Costa, Stephano Novelino e Pedro Amorim, apenas este último apresentava uma bem impostada voz de tenor. Os outros variavam de razoáveis a péssimos e não poucas vezes se perdiam em agudos mais puxados, apesar do ligeiro ensaio que sempre fazíamos, na Praça da Polícia, em busca do tom exato.

Em seguida, íamos comer peixada, geralmente no Vasconcelos, uma peixaria no começo da Joaquim Nabuco, onde se servia a melhor caldeirada de Manaus. Por volta da meia-noite saíamos para a seresta, em carro de praça, se as casas eram distantes, ou a pé, se ficavam mais próximas. Normalmente a recepção era boa, pois despertar ao som de violões e violinos satisfazia o ouvido e a vaidade.

O prestígio da moça entrava em alta na vizinhança, e mais ainda se havia coincidência de duas serenatas na mesma noite, coisa nada incomum se a jovem era muito requisitada. Ela própria, aliás, se encarregava de alardear o feito, para acicatar o despeito das rivais. Muito raramente podiam acontecer fatos desagradáveis. Com o nosso grupo, ocorreram pelo menos dois.

Uma noite, íamos tocar na casa de uma garota, na Rua Huascar de Figueiredo, quando Jorge Carim, que nos acompanhava, adiantou-se uns trinta metros e parou defronte à casa escolhida. De repente, soaram dois disparos secos e Carim correu em nossa direção, lívido, a gritar que haviam atirado contra ele. Preocupados, procuramos o dono da casa, que nos explicou o mal-entendido. Ao ver um homem parado, sozinho, em atitude suspeita, disparou para o alto, pensando tratar-se de um ladrão. Esclarecidas as coisas, fizemos a seresta sem problemas, e todos cantaram, menos Carim, que só pensava em encontrar um boteco aberto para se consolar com uma boa cerveja.

Outra vez, estávamos em frente a uma casa, na Vila Municipal, quando parou um carro de praça, do qual saltou um morador, irmão da moça homenageada, que não quis conversa. Corpulento, mal-encarado e cheirando a álcool, nos deu ordem de retirada em cinco minutos. Não foi preciso tanto, pois em muito menos tempo levantávamos acampamento. E nunca mais a irmã do gorila ouviu os saglots longues dos nossos violinos.

Mas tais incidentes, como disse, foram excepcionais. Havia até pais muito gentis, que abriam a casa para servir um drinque aos seresteiros. Nosso grupo não teve a sorte de ser obsequiado dessa maneira. Muitas casas permaneciam fechadas, sem emitir nenhum sinal de vida. Mas em outras, cortinas eram levantadas ou janelas entreabertas, e podíamos divisar os rostos que nos observavam e mãos que nos acenavam. E então regressávamos, felizes e realizados.

Hoje, quando percorro de automóvel as ruas semidesertas, em plena madrugada, parece que ainda os vejo, carregados de instrumentos e sonhos, a palmilhar o calçamento lavado de luar, em sua lírica jornada noite adentro.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (30)


Por Jefferson Peres

Como não poderia deixar de ser, a imprensa de Manaus era um reflexo do meio provinciano em que se inseria. Ao terminar a Segunda Guerra Mundial, tínhamos apenas quatro jornais permanentes e de circulação diária, ao lado de outros, de vida efêmera ou longa, porém editados esporadicamente, de forma irregular. Ao tempo, alguns circulavam pela manhã, e outros à tarde. Eram matutinos O Jornal e o Jornal do Comércio, e vespertinos, obviamente, A Tarde e o Diário da Tarde.

Mesmo esses quatro maiores não funcionavam, a rigor, em bases empresariais. O parque gráfico era obsoleto mesmo para a época – com exceção, talvez do que imprimia os jornais da família Archer Pinto –, o pessoal era mal remunerado, muitos sequer possuíam vínculo empregatício e as dificuldades financeiras chegavam a ser angustiantes.

O noticiário telegráfico era escasso, predominando as notícias locais, de conteúdo e linguagem que beiravam a ingenuidade. Diariamente eram publicadas relações de aniversariantes, com notas mais extensas sobre alguns, como matéria paga ou por injunções de amizade.

Publicavam-se, também, listas completas de passageiros de aviões e, assim, ficava-se sabendo, obrigatoriamente, quem estava indo para onde. A seção policial se limitava a uma coluna. A de O Jornal intitulava-se Polícia e Ruas, com três ou quatro tópicos que registravam, principalmente, brigas de vizinhos e prisões por bebedeiras.

Em geral, as notícias eram vazadas em linguagem pitoresca, que deliciava, tanto pela repetição de clichês e frases feitas, como pelo emprego de saborosíssimos sinônimos em substituição a palavras de uso coloquial. Assim, água era precioso líquido; todo juiz, ínclito magistrado; toda moça, fino ornamento da nossa sociedade; e toda senhora casada, de classe média, virtuosa esposa do doutor Fulano de Tal, ou então, dama de peregrinas virtudes.

Médico era chamado de esculápio; advogado, de causídico; prostituta, de mariposa ou hetaira; escritor, de beletrista; poeta, de vate ou bardo; bispo, de antístite; ladrão, de lunfa ou larápio. E todo portador de diploma de curso superior era inevitavelmente chamado de doutor. Aliás, se não o fosse, provavelmente se sentiria ofendido e procuraria o dono do jornal, para reclamar do tratamento não condizente com o seu título. Esse tipo de protesto constituía sintomática demonstração de que a imprensa refletia efetivamente a mentalidade da época.

Seria um engano, porém, supor que os jornais fossem inteiramente escritos nessa linguagem bisonha. O nível era outro, quando se tratava de editoriais ou artigos de fundo, como eram chamados, de sueltos e de matéria assinada. Nesses casos a qualidade podia ir de boa a excelente, porque todos esses órgãos, mesmo os menores, contavam com redatores e colaboradores de primeira água.

Na velha-guarda se incluíam homens como Álvaro Maia, Adriano Jorge, Leopoldo Péres e Huascar de Figueiredo. E, ainda, Joao Leda, de impressionante erudição filológica e polemista temível, porque escrevia certo e bem. O que não é, necessariamente, a mesma coisa. Pode-se escrever com acerto e sem nenhum talento.

Outro que se agigantava era Herculano de Castro e Costa, reconhecido por todos os seus ex-companheiros como um dos mais completos homens de jornal que o Amazonas já teve. Meus contatos com ele foram poucos, mas sabia identificar de imediato os editoriais de sua lavra, pela limpidez de estilo e contundência de linguagem.

Não poderia esquecer Genesino Braga, que já surgia como o grande cronista da cidade que fez sua por adoção. Entre os mais novos, já se distinguia Agnello Uchôa Bittencourt, de quem tive a ventura de ser aluno, muitos anos mais tarde, em meu curso de mestrado na Fundação Getúlio Vargas. Amazonense de boa cepa, pertencente a uma estirpe de intelectuais, filho que era do velho Agnello e irmão de Ulysses, foi mais um dos conterrâneos que cedo emigraram, abrindo claros preenchidos por arrivistas de varias procedência. Surgia, também, ainda muito mais novo, o padre Raimundo Nonato Pinheiro, que já despontava como um legítimo sucessor de João Leda, no posto de defensor da pureza do nosso conspurcado idioma.

Um lugar especial era ocupado por Pedro Ubiratan de Lemos, muito jovem, com pouco mais de vinte anos, boêmio e meio irresponsável, foi, possivelmente, a maior vocação de jornalista de sua época. Tinha o faro, a garra e a imaginação dos grandes repórteres. Perseguia a notícia tenazmente e, quando não a encontrava – pecado perdoável pela idade – simplesmente a inventava. Foi ele que reeditou, falsamente, o milagre de Fátima em Manaus, ao engendrar uma aparição de Nossa Senhora no Alto de Nazaré, transformando o covão da Rua Barcelos numa réplica da cova da Iria.

Usando expedientes os mais diversos, ele conseguiu convencer uma parte da população de que a Virgem tinha aparecido a algumas pessoas naquele local, logo convertido num ponto de romaria, onde se reunia diariamente uma multidão de devotos. A farsa movimentou a cidade e rendeu a Pedro copiosa matéria para algumas semanas de reportagens.

Lembro-me de outra vez em que, num dia paupérrimo de notícias, ele escreveu extenso e comovente relato sobre a morte de uma família de caboclos, num naufrágio no Solimões, do qual restara apenas um sobrevivente para contar a tragédia. É claro que essas brincadeiras eram exceções na vida profissional de Pedro, que sabia escrever como ninguém sobre fatos reais. Não foi à toa, mas graças ao seu talento, que logo depois trocava Manaus pelo Rio de Janeiro, onde trabalhou em O Cruzeiro, na sua fase de ouro, e nos maiores jornais da então capital da República, vindo a consagrar-se como um dos melhores repórteres do país.

Outros integrantes da turma jovem do periodismo foram Arlindo Porto, Mendonça de Souza, Áureo Mello, Almino Affonso, Leopoldo Péres Sobrinho, José Cidade, Aluísio Sampaio, Phelippe Daou e Milton Cordeiro, alguns dos quais continuaram por muitos anos no batente. Cito esses nomes ao correr da pena, sob o risco de cometer omissões por falha de memória, sem nada de intencional. Falha tanto mais desculpável quanto jamais tive militância efetiva na imprensa, com a qual sempre colaborei através de artigos assinados. Apenas em anos mais recentes cheguei a escrever os editoriais de A Crítica, mas em caráter não profissional.

A imprensa de Manaus viveu durante muito tempo, sob a predominância dos dois órgãos editados pela Empresa Archer Pinto, o Jornal e o Diário da Tarde. Eram os mais bem equipados, os que contavam com os melhores colaboradores, os de melhor feição gráfica e, disparadamente, os de maior circulação. Seus dirigentes eram cortejados até pelos mais poderosos, conscientes da força dos dois periódicos junto à opinião pública. Um apelo ou advertência de qualquer deles, dirigido ao governo, era seguido de imediatas providências; uma crítica, endereçada a qualquer cidadão, deixava o atingido em pânico. E se as críticas se transformavam em campanha sistemática, como aconteceu com Leopoldo Cunha Melo, então, o jornal precisava ser neutralizado, através de gestões de paz, se a vítima tinha alguma pretensão de fazer carreira.

Curiosamente, o todo-poderoso proprietário desses órgãos de comunicação não parecia tirar proveito disso. Anti-social, o velho Henrique Archer Pinto, fundador e diretor-presidente da empresa, viveu os últimos anos de sua vida recluso em casa. Não comparecia a reuniões, não fazia nem recebia visitas, a não ser dentro de um círculo muito restrito de parentes e amigos. Já adolescente, fui seu vizinho, por mais de um ano, na Praça General Osório, lado da rua Luiz Antony, separadas nossas casas por uma distância inferior a cem metros. Nunca consegui vê-lo, nem por instantes. Falava-se numa doença grave, de que seria portador, mas parece que o boato não tinha fundamento.

Tudo indica que o velho Henrique, por algum motivo, se desencantara com o gênero humano. Por isso, logo passou a direção da empresa aos filhos Aguinaldo e Aluísio, sob a liderança do primeiro. Mas Aguinaldo teria vida curta, morrendo antes de completar quarenta anos. O comando dos jornais se transferiu, então, para a sua viúva, minha amiga Maria de Lourdes, que bravamente os dirigiu, durante mais de dez anos. Mas os tempos eram outros e o encargo pesado demais para os seus ombros. No começo dos anos setenta, deixava de circular o Diário da Tarde e, alguns anos depois, com reduzida circulação e nenhuma influência, desaparecia melancolicamente O Jornal. Logo a seguir, a empresa entrava em liquidação.

Vizinho à empresa Archer Pinto, em prédio contíguo, funcionava o velho Jornal do Comércio, o outro grande matutino da cidade. Até os inícios dos anos quarenta foi propriedade do velho Vicente Reis, pai de Arthur Cezar Ferreira Reis, que o dirigiu com mão de ferro, imprimindo-lhe um caráter austero e conservador. Dizem que o velho Reis era muito severo e exigente no tocante à veracidade do noticiário e instituíra como norma do jornal não desmentir notícia publicada.

Era anedota corrente na cidade, que certa vez, o Jornal do Comércio noticiou, por engano, a morte de um determinado cidadão. Este, indignado, pediu desmentido, que não veio. E, pior, nunca mais viu publicada nenhuma notícia a seu respeito, porque, para o jornal, ele estava definitivamente morto. Corria, também, com foros de verdade, que o velho Vicente não perdoava desafetos. A tal ponto, que seus nomes não podiam ser publicados no jornal, mesmo em listas de passageiros.

Verdadeiros ou não, esses fatos não foram meus contemporâneos, pois quando despertei para o mundo o Jornal do Comércio, já tinha sido adquirido por Assis Chateaubriand e incorporado ao império dos Diários e Rádios Associados, que se estendia por todo o país. Já era dirigido de forma mais impessoal, com diretores vindos de fora, que aqui permaneciam poucos anos, sem tempo de se integrarem ao meio. Não era jornal de minha simpatia porque, fiel à orientação do seu dono, seguia uma linha conservadora e antinacionalista.

Durante a campanha do Petróleo é Nosso, a posição do JC era abertamente contrária ao movimento. Em seu rodapé, quase todos os dias, tínhamos o desprazer de encontrar, em seu estilo inimitável, um artigo de Chatô com violentos ataques à tese do monopólio estatal. Sempre lamentei que uma pena tão brilhante estivesse a serviço de uma causa que, no meu entender, não consultava os interesses nacionais. Nem mesmo depois de criada a Petrobras a posição do jornal de modificou, só vindo a se atenuar após a morte de Chautebriand, Por essas e por outras razões, que não pretendo, aqui analisar, o velho matutino foi perdendo leitores gradativamente. Conseguiu sobreviver, mas sem importância do tempo em que disputava com O Jornal a preferência da chamada Classe A.

O quarto diário da cidade era A Tarde, que se identificava com Aristhópano Antony, seu proprietário e fundador. Era o mais novo e mais modesto de todos. Funcionava no térreo do prédio ainda hoje existente, na esquina da Rua Henrique Martins com Lobo d’Almada. As instalações eram acanhadas, com as oficinas no piso inferior e a redação numa pequena sobreloja de madeira. A impressão se fazia numa velha rotoplana, em tipos graúdos, e precisava ser manuseado com muito cuidado porque a tinta se desprendia com facilidade, manchando roupas e mãos dos leitores. Invariavelmente com quatro páginas, era pobre também de noticiário, tanto local como telegráfico.

Apesar dessas deficiências, o jornal era influente e tinha um público fiel, graças principalmente, senão exclusivamente, a Aristophano. Ele era, creio, o único dono de jornal com militância no batente. Não exercia outra atividade remunerada. Vivia do jornal, que dirigia pessoalmente e no qual escrevia todos os dias. Infalivelmente, lá estava o seu artigo assinado, no canto inferior da primeira página, dividido em três partes, sempre do mesmo tamanho.

Jornalista combativo, que não poupava adversários de ataques frontais e contundentes, seus artigos eram o grande atrativo do jornal. Homem de hábitos conservadores, trajando rigorosamente paletó e gravata, chapéu na cabeça, charuto na mão, fazia diariamente, de manhã e de tarde, o percurso de casa para a redação e vice-versa. Sempre pela Henrique Martins e às mesmas horas. Talvez pelo seu conservadorismo, não pôde, ou não quis, modernizar o jornal, que teve o desgosto de fechar poucos anos antes de morrer.

O ovo de Colombo e outras expressões com ovo


Por Deonísio da Silva

Em 1988, Collor ainda não era candidato a presidente da República, mas foi eleito no ano seguinte. Foi o primeiro ovo de Colombo na sucessão presidencial. O que ele fez, qualquer um poderia fazer. Mas somente ele a fez. Atribuiu todos os males do Brasil ao então presidente José Sarney, tomou para bandeiras de sua campanha os temas que estavam na mídia e ofereceu-se como opção aos dois que lideravam a disputa: Brizola e Lula. Dizem que a História só se repete como farsa, todavia a sucessão do próximo ano está bem parecida com a de 1989, se substituirmos Brizola e Lula por Lula e Bolsonaro.

Mas por que ovo de Colombo, ovo da serpente e expressões assemelhadas que já começam a vir para o proscênio? É que o povo prefere ilustrar seus conceitos com verbos de ação. Baba-ovo (bajular), pisar em ovos (agir com cautela), contar com o ovo no fiofó da galinha (apostar em algo incerto) – eis algumas das numerosas expressões do Português que ilustram esta estratégia.

Algumas são muito antigas e remontam às nascentes da agricultura e da pecuária, quando o homem deixou de ser nômade e passou a conviver com os bichos, fossem ovelhas, vacas, porcos, aves, pássaros etc., não mais ao redor das tendas em que morava, mas no ambiente doméstico, palavra do mesmo étimo de domesticar, que é o que ele fez com os bichos, trazendo-os para perto de si e às vezes para dentro de casa, quando não para a própria cama em que dormia.

Ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago lembrou em seu discurso de posse que seus avós levavam pequenos porquinhos para dormir com eles: “Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável”.

Foi de contextos como este que surgiram expressões que recorreram à agricultura e à pecuária, de que é exemplo também “pôr o carro diante dos bois”, acrescentada mais tarde, quando da antiga vida agropastoril restavam apenas lembranças.

Outra expressão muito lembrada é ovo da serpente, título de um filme do célebre cineasta sueco Ingmar Bergman, que viu indícios da ascensão nazista na Europa, comparando-os ao que se pode entrever num ovo de serpente já fertilizado. Passou a designar um mal que já mostra seus primeiros sinais, ainda que tênues.

Temos também ovo cósmico, expressão criada pelo astrônomo belga Georges Lemaître, designando a matéria altamente compacta que teria possibilitado o grande estouro que criou tudo, o átomo primordial.

Mas de todas elas, uma das mais expressões mais lembradas em que o ovo está presente é o que teria ocorrido com Cristóvão Colombo. Num banquete organizado ainda no século XV pelo cardeal espanhol Pedro González de Mendoza para celebrar a descoberta da América, ao exemplificar que o glorioso feito poderia ter sido obra de qualquer outro, mas que apenas ele a fizera, Colombo tomou um ovo cozido e desafiou que um dos convivas pusesse aquele ovo em pé. Ninguém conseguiu. Ele, então, retomou o mesmo ovo, deu-lhe uma pequena batida e o fixou em pé sobre a mesa.

Um dos cortesãos retrucou: “Assim é fácil”. E Colombo concluiu: “O mesmo ocorreu com a descoberta do Novo Mundo. Tudo que é natural parece fácil, após conhecido ou encontrado. A dificuldade está em ser o inventor, o primeiro a conhecer ou a demonstrar”.

Outros historiadores, porém, argumentam que o arquiteto e escultor italiano Filippo Bruneschini já tinha feito isto antes, ao demonstrar o invento da sustentação de um domo, e que o genovês, conhecendo a história, a repetira diante dos espanhóis.

Seja como for, a estratégia da demonstração foi atribuída a Colombo, assim passou à História e ilustra antigas antologias escolares que tinham o objetivo de instruir os alunos com textos de cultura geral.


É provável que no próximo ano surja um ovo de Colombo na sucessão presidencial.