sexta-feira, julho 22, 2016

O 1º Festival Folclórico do Amazonas (1957)


Boi-bumbá Corre Campo, o primeiro campeão do Festival

No dia 2 de junho, domingo, em uma reunião na redação dos Diários Associados que contou com a presença de Philipe Daou, secretário-geral de O Jornal e Diário da Tarde, Irisaldo Godot, secretário de O Jornal, Bianor Garcia, secretário do Diário da Tarde, coronel Márcio de Menezes, comandante do 27º BC, e de Stênio Neves, Chefe de Polícia, os dirigentes dos grupos folclóricos tomaram conhecimento do regulamento do concurso e das penalidades passíveis a quem desobedecesse às regras de disciplina e segurança.

“Espero de vossas senhorias tão somente que a harmonia e o congraçamento preponderem com absoluta normalidade, evitando-se que a rivalidade seja desviada para fins menos gloriosos”, avisou o coronel Márcio de Menezes, em um recado direto aos bois-bumbás.

A comissão julgadora do concurso, presidida pelo folclorista e professor Mário Ypiranga Monteiro, incluía o sociólogo e desembargador André Araújo, o professor Sebastião Norões e a professora Bete Antunes de Oliveira.

Ficou decidido que no primeiro dia do concurso, dia 21, sexta-feira, se apresentariam os sete bumbás, a quadrilha da Escola Técnica de Manaus, o Cordão de Pássaro Gavião Real e a Dança Regional do Colégio Estadual do Amazonas.

Cada conjunto teria 15 minutos para fazer sua exibição. Os grupos seriam chamados para o tablado por meio dos dez alto falantes espalhados pelo estádio. As apresentações deveriam começar impreterivelmente às 19 horas. A tolerância para o atraso seria de 5 minutos. Quem ultrapassasse esse tempo estaria automaticamente desclassificado.

Por meio de sorteio, as apresentações das quadrilhas no dia 22, sábado, obedeceriam a seguinte ordem: Caboclinhos na Soçaite, Maria Bonita, Última Hora, Normalistas, Ypiranguenses, Coronel Janjão, Mocidade, Caboclos do Andirobal, Curupiras e Forró do Virgulino.

No domingo, 23, a ordem era a seguinte: Real Madrid, Caipiras, Primo do Cangaceiro, Los Caipiras Andaluzes, Rouxinol e Matutos do PTB.


O hoje cada vez mais raro Gavião Real, considerado a maior ave de rapina do Brasil

A notícia de que o cordão de pássaros de Petrópolis iria se apresentar com um gavião real de verdade virou o grande assunto da cidade. Segundo o dono da brincadeira, Raimundo da Silva Vale, o “Velho Raimundo”, ex-vaqueiro do bumbá Mina de Ouro, ele antes organizava o Cordão do Pássaro Tucano, “mas ele era artificial, simbólico, feito de pano, meio fuleiro”.

O gavião real de verdade havia sido encontrado, ainda filhote, nas matas do rio Purus e dado de presente ao Velho Raimundo por um de seus compadres. Criado como uma ave doméstica, o gavião real começou a ser treinado artisticamente pelo dono da brincadeira.

“O gavião real vai fazer miséria no campo dos militares. O bicho canta, dança, abre as asas e suas gesticulações são perfeitas, harmoniosas, disciplinadas. Atualmente, ele já entende os compassos do ensaio, mas de vez em quando dá umas bicadas da moléstia”, divertia-se o Velho Raimundo.

Como o “bosque” do gavião real estava localizado em uma área de difícil acesso, a brincadeira era exibida apenas para os poucos moradores do bairro de Petrópolis, na época um dos mais distantes de Manaus.

Segundo o Velho Raimundo, o Cordão de Pássaro Gavião Real iria contar a história de um caçador que tenta a todo custo matar a ave, mas que é impedido pela fada, dona Judith Oliveira Vale, esposa do próprio Raimundo.

Os outros personagens do auto eram Cleonice (princesa), Rosalvo (príncipe), Dukita (camponesa), Clarice (vassala), Mimita (cigana), Maria das Dores (feiticeira), Zuleide (tuxaua braba), Maria (tuxaua mansa), Madalena, Francinete, Mariana, Raimunda e Zuleika (índias), Chico (mestre), Jorge (contramestre), João (guarda-bosques), Rogério (soldado), Aluisio (pajé), José (matuto), João Paulo (Dr. Bochecha), Joaquim (palhaço Tampinha), Cristovão (tesoureiro), Biriba (morcego), José Oliveira (carrasco), Magnólia (enfermeira), Raimundo (caçador), Maria das Graças, Maria de Fátima e Francisca (borboletas).

Patrocinado pelo prefeito Gilberto Mestrinho, o cordão fez seu ensaio geral no dia 16 de junho, domingo, com início às 17 horas, na Praça da Polícia Militar, atraindo milhares de pessoas interessadas em ver, pela primeira vez, um gavião real de verdade, ao vivo e a cores.

Entre as quadrilhas mais bem organizadas, algumas despontavam como favoritas:

Forró do Virgulino, de Jurandir de Souza Amorim, que ensaiava na Rua Santa Luzia, na Matinha.

Matutos do PTB, de Maria do Carmo Ribeiro, que ensaiava na sede do PTB de São Francisco.

Quadrilheiros de Última Hora, de Wilson Santos, que ensaiava na Rua Ajuricaba, na Cachoeirinha.

Quadrilha da Mocidade, de Francisco Oliveira Pires, que ensaiava na Av. Airão, na Praça 14, e tinha entre seus membros ilustres representantes da comunidade carnavalesca maranhense radicada em Manaus como Sabá, Maria, Dedé, Georgete, Amazonina, Bobó, Maria Zulma, Cleomar, Nescafé, Vandeta, Adamor e Tereza, entre outros.

Quadrilha Primo do Cangaceiro, de Gentil Bessa, que ensaiava na sede do PTB da Cachoeirinha.

Quadrilha do Coronel Janjão, de Umberto Normando, que ensaiava na Rua Dr. Machado, 817, Centro.

Quadrilha Los Caipiras Andaluzes, do capitão do Exército Sandoval Pinheiro de Amorim, que ensaiava na Rua Recife, 659, Adrianópolis.

E, finalmente, a Quadrilha Ypiranguense, de Carlos Queiroz Costa, que ensaiava na sede social do Ypiranga Futebol Clube, na Cachoeirinha.


O boi-bumbá Mina de Ouro, do famoso mantra “Êi, ferro, êi, aço, eu te procuro e não acho”, que aterrorizava os adversários

Em junho de 1989, em uma série de artigos publicados diariamente no jornal Diário do Amazonas sob o sugestivo título de “Os Anos Dourados do Festão do Povo”, o jornalista Bianor Garcia relembrou aquele dia memorável:

O 1º Festival Folclórico do Amazonas, inaugurado no dia 21 de junho de 1957, no Estádio General Osório, teve a participação de 25 grupos, sendo sete bois, um pássaro, uma dança regional e 1.500 figurantes. Começou com 1.500 pessoas, mas no último que fiz, seis anos depois, em 1963, reuni mais de 10 mil figurantes, em 100 grupos, obrigatoriamente com o mínimo de 100 pessoas cada um.

Os bois foram Rica Prenda (Praça 14), Mineirinho (Santa Luzia), Ás de Ouro (Matinha), Corre Campo (Cachoeirinha), Flor do Campo (Aleixo), Canarinho (Morro da Liberdade) e Mina de Ouro (Boulevard). Diziam que eu não reuniria mais de quatro ou cinco bumbás, pois era só o que aparentemente tinha em Manaus de manifestações folclóricas. Reuni 25 grupos. Até um gavião vivo apareceu, no pássaro Gavião Real. O presidente de Portugal, Craveiro Lopes, nessa noite, ao sair do estádio, foi acariciar o pássaro e levou uma bicada na mão. A única Dança Regional, do Colégio Estadual, teve a ajuda do professor Mário Ipiranga Monteiro.

O festival abriu às sete da noite, mas desde as três da tarde o estádio já estava completamente lotado. Às 19h30 caiu uma chuva torrencial, danificando parte da decoração do estádio e da fantasia dos brincantes que ali já se encontravam. Passada a chuva, tive um trabalho enorme para reagrupar todos para iniciar o desfile. É que durante o aguaceiro, a maioria foi entrando casa adentro da vizinhança para se defender. Já fui encontrar o Mineirinho em cima da cama de uma família, na Av. Epaminondas, com o resto do grupo espalhado da sala à cozinha. O dono da casa, que não me conhecia, ao me ver entrar, chegou pra mim e disse: ‘Eu só queria conhecer esse filho da puta do Bianor Garcia pra mostrar a ele o que estão fazendo dentro da minha casa, com essa porcaria de folclore’. Eu saí de fininho.

Mas foi, modéstia à parte, uma das noites mais lindas de Manaus. O povo não estava ali só para conhecer o presidente de Portugal, mas porque era a primeira vez que se fazia uma promoção junina daquele porte. A partir daí, o festival cresceu ano a ano. Até o Rio de Janeiro queria conhece-lo. Mas isso é outra história para ser contada mais adiante.


No dia 22 de junho, sábado, o matutino O Jornal saiu com a manchete “Sucesso absoluto na festa popular em homenagem a Craveiro”:

Apesar da chuva torrencial que, inesperadamente, desabou sobre a cidade, por volta das 20 horas, prolongando-se por mais de uma hora, obteve êxito completo a festa popular que os nossos Diários – O Jornal e Diário da Tarde – realizaram, ontem, no Estádio General Osório, com a prestimosa colaboração do 27º BC e da Prefeitura Municipal de Manaus, em homenagem ao ilustre presidente de Portugal, general Francisco Higino Craveiro Lopes.

E a nossa vitória foi tanto maior porque, na manifestação de seu irrestrito apoio à nossa inciativa e ao desejo de aplaudir o primeiro magistrado da nação lusa, o nosso povo, uma incalculável multidão de homens, mulheres e crianças de todas as nossas classes sociais, resistiu ao aguaceiro, não se arredou do Estádio General Osório e assim a festa alcançou o sucesso retumbante que tanto esperávamos.

O presidente Craveiro Lopes e sua brilhante comitiva, acompanhados pelo governador Plinio Coelho e sua Exmª esposa, pelo nosso mundo oficial e pelos senadores da República que nos visitaram, ficaram contentes e satisfeitos com as inúmeras apresentações dos bois-bumbás, da quadrilha da Escola Técnica de Manaus, pelo conjunto regional do Colégio Estadual do Amazonas, pelo Gavião Real e, por igual, profundamente comovidos com a espetacular homenagem que lhes prestou nossa população. O êxito obtido pela iniciativa compensou nossos esforços. Sentimo-nos bem recompensados, assim como o 27º BC e a Prefeitura de Manaus.

Neste rápido registro, já que no Diário da Tarde, edição de hoje, voltaremos ao assunto nos detalhes, apresentamos nossos agradecimentos à Construtora Lippi, na pessoa de seu dirigente maior, engenheiro Mauro Lippi, aos dirigentes da Companhia de Eletricidade de Manaus, às Serrarias Hore, Furtado, Morais, Pereira, Amazonas (de Jackson Cabral) e Vila Rica, à firma J. G. Araújo & Cia. Ltda, ao mestre Branco e Silva e à Fogueteria Iracema, pela valiosa contribuição que nos deram e em função do que foi possível conseguir a vitória maravilhosa da noite de ontem.


A amazonense Terezinha Morango, a nossa eterna Miss Brasil

É ainda o jornalista Bianor Garcia que recorda as emoções daquele ano, em artigo publicado na série já citada anteriormente:

O ano de nascimento do Festival Folclórico foi recheado de acontecimentos agradáveis para o povo amazonense. Ainda se festejava o jorro do petróleo em Nova Olinda, que trouxe ao Amazonas o presidente Juscelino Kubistchek, quando Terezinha Morango, aluna do Colégio Estadual, foi eleita Miss Brasil. Naquela época, conquistar o título de Miss Brasil era a suprema realização de qualquer Estado. O comércio fechava, o povo corria para as ruas, havia festa dia e noite. No segundo dia do festival, 22 de junho, a população amanheceu sob a expectativa do concurso Miss Brasil, que iria se realizar à noite, no Hotel Quintandinha, no Rio de Janeiro, no mesmo instante das exibições folclóricas no General Osório.

Como não havia televisão e pouca gente tinha rádio potente, capaz de acompanhar o certame, o jeito era aguardar a sirene de O Jornal, ou do Jornal do Comércio ou de A Crítica, caso Terezinha Morango, Miss Amazonas, ganhasse o título nacional. Tudo que acontecia de inusitado e pudesse representar “furo” de reportagem merecia um toque de sirene. No incêndio da Lobrás (na época chamava-se Lojas 4.400) e da Biblioteca Pública foi assim. Onde quer que se estivesse e se ouvisse o toque da sirene na Eduardo Ribeiro, corria-se para lá, em busca de novidade.

Era mais ou menos meia-noite. Eu acabava de chegar do estádio General Osório, onde tinha apresentado a segunda noite do festival. Irizaldo Godot, secretário de O Jornal, me aguardava para fazer as legendas das fotos que iriam sair no dia seguinte. De repente, chega a notícia: Terezinha Morango venceu o Miss Brasil. Alguém da empresa saiu do gabinete: “Macaco (Macaco era o apelido de um dos impressores), toca a sirene”.

Em 15 minutos a Eduardo Ribeiro estava cheia de gente, festejando o acontecimento. Ninguém acreditava que Terezinha pudesse ganhar, apesar de ser uma linda morenaça de olhos verdes, filha de português com índio. Afinal, naquele tempo, o Amazonas era muito marcado como terra de índio, de cobras e de jacarés. O governador Plinio Coelho deixou o Palácio Rio Negro e foi para o meio da rua festejar com o povo. Alunos do Colégio Estadual, companheiros de Terezinha, acompanhados de batucadas e músicos, fizeram um carnaval que só terminou às cinco da manhã.

No dia seguinte, 23 de junho, O Jornal estampou a grande vitória de Terezinha com uma fotografia de 30 centímetros de altura por duas colunas. Teve que rodar a impressora duas vezes pela manhã para atender à procura. Vendeu mais jornais que o Jornal do Comércio, que era vizinho de O Jornal, no dia em que o antigo matutino dos Diários Associados – cadeia nacional de Assis Chateaubriand – publicou um anúncio de rodapé, com um erro de revisão. Em vez de “colchões de mola” saiu “colhões de mola”. A notícia que publicamos sobre Terezinha Morango foi a seguinte:

RIO – 23 – URGENTE – (Da Sucursal) – Teve lugar à noite de ontem, no Hotel Quintandinha, um suntuoso desfile que se prolongou até às primeiras horas da madrugada de hoje: o julgamento final do concurso para a escolha da Miss Brasil 1957. O certame sensacional prendeu a atenção de todo o Brasil e culminou com a escolha da senhorita Terezinha Morango, representante do Amazonas.

Após o desfile das candidatas em trajes de soirée e de maiô foram escolhidas as finalistas, a saber: Miss Minas Gerais, Miss Amazonas, Miss Ceará, Miss Paraná e Miss Rio Grande do Sul. Logo após, o locutor oficial do concurso anunciou que o título de Miss Brasil estava entre Miss Minas Gerais e Miss Amazonas.

Foi realizado então o julgamento final ao qual concorreram as finalistas, anunciando a Comissão Julgadora a escolha da senhorita Terezinha Morango Miss Brasil de 1957, seguindo-se as representantes de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Ceará e Paraná. O grande ‘furo’ foi dado por nossos diários através de nossas sirenes a uma hora da madrugada. Amanhã, na 1ª edição do Diário da Tarde, maiores detalhes e farto material fotográfico.


Terezinha Morango ficou em 2º lugar no Miss Universo, “porque possuía as coxas muito grossas”, segundo os gringos bundões da Comissão Julgadora de Long Beach... Interessa?...

No 1º Concurso Junino, a Comissão Julgadora chegou aos seguintes resultados:

Bumbás: Corre Campo (1º lugar), Rica Prenda (2º lugar) e Mina de Ouro (3º lugar).

Quadrilhas: Coronel Janjão (1º lugar), Caboclos do Andirobal (2º lugar) e Primo do Cangaceiro (3º lugar).

A Dança Regional do CEA e o Cordão de Pássaro Gavião Real foram declarados campeões em suas categorias porque não tiveram adversários.

Calcula-se que 30 mil pessoas (20% da população de Manaus daquela época) tenham passado pelo Estádio General Osório durante as três noites de competição.

Mal comparando, é como se hoje, na semana do festival, 50 mil pessoas fossem prestigiar todas as noites, de domingo a domingo, a apresentação dos nossos grupos folclóricos na arena do Centro Cultural dos Povos da Amazônia.

Em termos de popularidade, a pajelança havia começado com o pé direito.

Festival Folclórico do Amazonas: A Origem


No dia 14 de junho de 1952, o matutino O Jornal publicava uma pequena matéria intitulada “Briga de bumbás – Mina de Ouro x Corre Campo”, que dava uma pequena amostra de como eram os enfrentamentos dos bois de rua naqueles tempos fluviais:

Às primeiras horas da madrugada de hoje, ocorreu um choque entre bumbás, à Avenida Epaminondas. Àquela hora, seguidos de grande acompanhamento, movimentavam-se na referida artéria os bumbás Mina de Ouro e Corre Campo. A aproximação dos bumbás foi anunciada pelos desafios de praxe: “Êi, ferro, êi aço, eu procuro, mas não acho” e “Contrário não te assanha senão tu apanha”.

E deu-se o choque. Pânico entre os brincantes. Gritos e correrias. O incidente já tomava proporções gigantescas, quando surgiu no local, oportunamente, a Polícia do Exército e as autoridades da Polícia Civil, que fizeram um cerco e levaram amos, vaqueiros, Catirinas e Pais Francisco, além de grande número de torcedores, rumo ao xadrez da repartição da Rua Marechal Deodoro, onde passaram o resto da noite.

Com a intervenção das autoridades policiais e da Polícia do Exército, verificou-se a existência de dois feridos em virtude dos encontros entre os elementos da vanguarda dos bumbás, os quais foram atendidos no S.S.U. São eles: José Purcino Gomes, residente no Pico das Águas, 99, e Vitória Maria da Conceição, residente no Beco do Macedo.


A brincadeira do boi de rua já existia em Manaus pelo menos desde 1850. No livro “Viagens no Rio Amazonas” (1859), o pesquisador Robert Avé-Lallemant fala sobre uma brincadeira que presenciou aqui na taba:

De longe ouvi da minha janela uma singular cantoria e batuque sincopados. Surgiu no escuro, subindo a rua, uma grande multidão que fez alto diante da casa do Chefe de Polícia, e pareceu organizar-se, sem que nada se pudesse reconhecer.

De repente as chamas dalguns archotes iluminaram a rua toda a cena. Duas filas de gente de cor, nos mais variegados trajes de mascarados, mas sem máscaras – porquanto caras fuscas eram melhores – colocaram-se uma diante da outra, deixando assim um espaço livre.

Numa extremidade, em traje de índio de festa, o tuxaua ou chefe, com sua mulher; esta era um rapazola bem proporcionado, porque mulher alguma ou rapariga parecia tomar parte da festa.

Esta senhora tuxaua exibia um belo traje, com uma sainha curta, de diversas cores, e uma bonita coroa de penas. O traje na cabeça e nos quadris de uma dançarina atirada faria por certo vir abaixo toda uma plateia em Paris ou Berlim.

Diante do casal postava-se um feiticeiro, o pajé; defronte dele, na outra extremidade da fila, um boi. Não um boi real, e sim um enorme e leve arcabouço dum boi, de cujos lados pendiam uns panos, tendo na frente dois chifres verdadeiros.

Um homem carrega essa carcaça na cabeça, e ajuda assim a completar a figura dum boi de grandes dimensões.


As batalhas campais entre os bois bumbás, aparentemente, começaram em 1925, depois que uma dissidência do boi Caprichoso, da Praça 14, resolveu criar o boi Mina de Ouro, no Boulevard Amazonas. Quando os dois bois se encontravam pelas ruas, os brincantes resolviam tirar suas diferenças no braço.

Com o surgimento de mais dois grandes bumbás (em número de brincantes e de torcedores) nos anos 40, o boi Corre Campo, da Cachoeirinha, e o boi Tira Prosa, de Santa Luzia, as escaramuças se multiplicaram por quatro.

O mais curioso é que esses enfrentamentos homicidas só ocorriam no período junino, quando todo brincante do boi contrário se tornava um “alemão” (“inimigo”) em potencial, mesmo que fosse um parente de sangue.

No restante do ano, os brincantes dos diversos bumbás retomavam as velhas amizades, frequentavam as mesmas escolas de samba e divertiam-se mutuamente xavecando um ao outro pelas lembranças das batalhas passadas.

Se para muita gente a briga entre os bumbás não passava de um componente cultural daquele folguedo machista por excelência (o papel da única figura feminina do auto, Mãe Catirina, era exercido por um homem fantasiado de mulher), para outras pessoas mais civilizadas aquilo era um descalabro inimaginável, que desvirtuava a própria brincadeira. O jornalista Bianor Garcia era uma dessas pessoas.

Ele iniciou suas atividades profissionais, em 1949, aos 16 anos, como repórter do Jornal do Comércio e radialista da Rádio Baré, ambos os órgãos fazendo parte do Condomínio Acionário dos Diários e Emissoras Associados, do jornalista Assis Chateaubriand, que era dirigido em Manaus pelo jornalista Epaminondas Baraúna.

No papel de “foca” de alguns dos melhores jornalistas da cidade, Bianor Garcia tomou gosto pela profissão e construiu uma carreira brilhante, meteórica e bem sucedida. Afável no trato com as pessoas, bem articulado, inteligente, espirituoso, dotado de uma cultura enciclopédica e de uma conversa envolvente, o jornalista se tornou em pouco tempo uma das estrelas mais bem informadas da imprensa amazonense, arregimentando uma legião de fãs em todos os círculos sociais.


Transitando com desenvoltura tanto nos salões dos políticos poderosos quanto nas festas humildes do populacho da periferia, o jornalista neófito teria um papel fundamental no resgate e na consolidação de nossas tradições populares verdadeiramente autênticas, por conta da rede de amigos que foi consolidando ao longo da carreira.

Em 1956, Bianor Garcia recebeu uma proposta irrecusável do ponto de vista financeiro e se transferiu para a empresa Archer Pinto, para ser editor-chefe do vespertino Diário da Tarde e redator do matutino O Jornal, os dois maiores veículos de comunicação da época.

Em junho daquele mesmo ano, uma briga campal entre os bumbás Corre Campo e Tira Prosa, que teve início na terceira ponte metálica da Cachoeirinha (a popular “Ponte de Ferro”, nas proximidades da Penitenciária do Estado), havia deixado o jornalista perplexo com a violência do confronto, explorado em detalhes pela mídia sensacionalista.

Durante a briga, vários brincantes dos dois bumbás foram arremessados do vão da ponte de ferro para o leito do rio Negro, que, para sorte dos infelizes, já estava cheio nessa época do ano. Outros brincantes e torcedores foram feridos a golpes de faca e canivete ou tiveram suas cabeças quebradas pelos cacetes de cumaru utilizados pelos índios dos bumbás.

Apesar da selvageria do confronto, ninguém foi morto, mas o jornalista ficou perplexo com aquele incidente e resolveu agir.

Em março de 1957, Bianor Garcia apresentou ao diretor Aloisio Archer Pinto o projeto de um concurso entre os grupos folclóricos da cidade, incluindo os bumbás, para acabar com as sangrentas disputas entre eles.

O diretor aprovou a ideia, mas condicionou a realização do mesmo para o ano seguinte devido ao falecimento recente de seu irmão Aguinaldo Archer Pinto, diretor-presidente da empresa. Sem esconder o desapontamento, Bianor Garcia engavetou o projeto.

Alguns dias depois, recém-chegada do Rio de Janeiro para assumir a direção da empresa, a viúva Maria de Lourdes Archer Pinto ficou sabendo da sugestão de Bianor Garcia por meio de um algum funcionário do jornal (talvez o colunista social Nonato Garcia, o “Nogar”, talvez o colunista social Luiz da Conceição Pinto, o “Little Box”, talvez o próprio Bianor Garcia, há controvérsias a respeito) e concluiu que a promoção seria uma bela homenagem póstuma ao marido.

Ela então autorizou o jornalista a implantar o projeto naquele mesmo ano. Nascia o Festival Folclórico do Amazonas.


Naquela época, a capital amazonense possuía uma população de aproximadamente 150 mil pessoas e definhava em termos urbanos, econômicos e sociais. Possuindo um ensino superior incipiente, sofrendo escassez de energia elétrica, com um mercado reduzido e de baixo poder aquisitivo, sistemas de transporte e comunicação precários, Manaus oferecia um cenário de fragilidade econômica e sem a menor perspectiva de mudanças.

As únicas diversões de massa da população eram os balneários públicos (Tarumã, Ponta Negra, Ponta da Bolívia, Parque 10 de Novembro, Mindu, Prainha) e privados (Guanabara, Tucunaré, Madrigal, Las Palmas, Caiçara, Bosque), os poucos cinemas existentes (Avenida, Guarany, Ypiranga, Vitória, Ideal, Odeon, Politheama e Éden) e os jogos de futebol aos domingos, ainda disputados exclusivamente por equipes amadoras (o futebol só seria profissionalizado em 1964).

A televisão ainda não havia chegado à aldeia e a Zona Franca de Manaus era apenas um projeto ainda em discussão na Câmara dos Deputados.

Na verdade, Manaus era um mero entreposto comercial que ligava a economia extrativista praticada no interior do estado com o resto do mundo, que consumia produtos exóticos coletados da floresta como madeira em tora, borracha, sorva, castanha, pau rosa, cumaru, breu, resinas, sementes oleaginosas, essências aromáticas, além de animais como quelônios, peixes e seus subprodutos (couros e peles silvestres, por exemplo).

Comerciantes e mascates de Manaus procuravam o interior do estado em embarcações, os chamados regatões, para suprir as necessidades das populações. Dispersas nas terras ao longo dos rios, essas pessoas se dedicavam a atividades extrativistas.


Os comerciantes itinerantes forneciam alimentos, tecidos, roupas, remédios e ferramentas, e, em troca, adquiriam os produtos coletados da floresta, em uma típica operação de escambo, sem a presença de moeda – uma relação econômica de característica feudal.

Quando a situação no interior ficava muito precária, essa população ribeirinha migrava para Manaus, para ocupar a periferia da cidade.

Para termos uma pálida ideia da infraestrutura da cidade, basta lembrar que a maioria dos táxis era formada por jipes, os únicos veículos em condições de trafegar pelas ruelas esburacadas e socavões de barro e piçarra dos bairros mais periféricos, que se transformavam em autênticos pântanos de areia movediça durante o período das chuvas (novembro a abril).

Com o beneplácito da empresa Archer Pinto, Bianor Garcia alugou um jipe Land Rover e, na companhia do fotógrafo Fernando Nascimento, foi convidar pessoalmente cada grupo folclórico da cidade que ele conhecia, para participar do Concurso Junino (o nome “Festival” só seria adotado no ano seguinte).

Recebido com curiosidade e desconfiança, o jornalista levou três semanas para concluir a tarefa, mas recebeu a adesão de 26 grupos (sete bumbás, um cordão de pássaros, uma dança regional e 17 quadrilhas). A baixa adesão foi decorrência direta do fato de que ninguém ainda sabia direito que tipo de cachorro poderia sair daquele mato.

Com a relação dos 26 grupos embaixo do braço, Bianor Garcia foi procurar os políticos e comerciantes locais para que colaborassem com a infraestrutura do evento. O prefeito Gilberto Mestrinho gostou muito do projeto e resolveu conceder uma premiação em dinheiro, no valor de Cr$ 15 mil (R$ 24 mil, em valores de hoje) para o melhor bumbá, Cr$ 5 mil para a melhor quadrilha, Cr$ 3 mil para o melhor cordão de pássaros e Cr$ 2 mil para a melhor dança regional.

Além disso, os três melhores colocados de cada categoria receberiam valiosos troféus ofertados pelo vereador Ismael Benigno, presidente da CMM, pelo deputado Xenofonte Antony, presidente da ALE, e pelo advogado Clóvis Lemos de Aguiar. secretário estadual de Economia e Finanças.


O concurso seria realizado em três noites, no Estádio General Osório, do 27º Batalhão de Caçadores, e estava programado para começar no dia 12 de junho, véspera de Santo Antônio, mas foi adiado para o dia 21 de junho, a pedido do Itamarati, por causa da futura visita a Manaus do presidente de Portugal, general Higino Craveiro Lopes, naquela mesma data, que havia manifestado sua intenção de assistir ao espetáculo.

A mudança de data foi bem aceita pelos manauaras porque era a primeira vez na História que um presidente estrangeiro visitaria a provinciana capital amazonense.

Entre os grupos participantes da 1ª edição estavam os bumbás Corre Campo (Cachoeirinha), Mina de Ouro (Boulevard Amazonas), Flor do Campo (Aleixo), Ás de Ouro (Matinha), Rica Prenda (Praça 14), Mineirinho (Santa Luzia) e Canarinho (Morro da Liberdade).

O famoso bumbá Diamante, de Dona Davina Pereira Leão, que tinha seu curral no Igarapé de Manaus, não quis participar do evento. Os bumbás Caprichoso (Praça 14), Dois de Ouro (Educandos) e Tira Prosa (Santa Luzia) também preferiram ficar de fora e aguardar os acontecimentos.

Na categoria quadrilhas juninas, os Caboclinhos na Soçaite (Boulevard Amazonas), Real Madrid (Cachoeirinha), Caipiras (Praça 14), Primo do Cangaceiro (PTB da Cachoeirinha), Mocidade (da Av. Ayrão, Praça 14), Caboclos do Andirobal (PTB de Petrópolis), Coronel Janjão (da Dr. Machado, Centro), Matutos do PTB (PTB de São Francisco), Curupiras (da Ramos Ferreira, Centro), Los Caipiras Andaluzes (Adrianópolis), Forró do Virgulino (Matinha), Última Hora (Cachoeirinha), Normalistas (do Instituto de Educação do Amazonas, Centro), Maria Bonita (Cachoeirinha), Etemienses (da Escola Técnica de Manaus, Centro), Rouxinol (da Escola de Música Santa Terezinha, Centro) e Ypiranguenses (Cachoeirinha).

Na categoria danças regionais, o Centro Estudantil Plácido Serrano, presidido pelo jovem Walder Caldas, inscreveu a Dança do Arara e a Desfeiteira, ambas formadas exclusivamente por ginasianos do Colégio Estadual do Amazonas.

Por sugestão do jornalista Bianor Garcia, as duas danças acabaram se transformando em uma só sob o nome de Dança Regional do CEA.

Na categoria “cordões de pássaros”, apenas o Gavião Real (Petrópolis) foi inscrito.

terça-feira, julho 19, 2016

O Pai de todos os ‘Pai Francisco’ de Manaus


Pedro Mala Velha e sua indefectível barba de juta

Se o querido Zé Preto é o mais longevo Amo de Boi da nossa história, Pedro Mala Velha foi o mais longevo Pai Francisco dos nossos bumbás, conforme pode ser lido nesta matéria publicada no matutino O Jornal, no dia 2 de julho de 1967, domingo, intitulada “Pedro Mala Velha – O Decano dos ‘Pai Francisco’”:

52 anos não são cinco nem dois dias. 52 anos representam uma existência inteira de dúvidas, alegrias, de prazeres, e de tristezas também. Pois é esse tempo, essa vida que muita gente não chega a viver, que Pedro Mala Velha tem como brincante de boi bumbá.

Os folguedos juninos de 1967 vão terminando. Os pandeiros, os ganzás, as velhas matracas vão sendo colocados nas prateleiras esquecidas até junho próximo, quando voltarão a retinir, para alegria do festejo, para emoção da meninada nas noites em que o “rola bumbá” caminha pelas ruas, como uma massa de mariposas multicoloridas a seguir uma lamparina fumacenta, mantendo uma tradição que faz força para não morrer. Mas pelo menos há um homem para quem a brincadeira do bumbá está sempre presente na memória, pois ela faz parte da sua vida, nela praticamente nasceu e nela vive até hoje. Qeremos nos referir o já acima mencionado, ao Pedro Mala Velha, o homem que, apesar dos seus 60 anos de idade, ainda continua, até hoje, no mesmo posto de sempre, a defender as glórias passadas do seu boi: o velho e querido Caprichoso.

Quem é esse Pedro mala Velha, que merece de nós, impenitentes tradicionalistas, que fazemos todos os anos um Festival Folclórico para que as brincadeiras do povo não soçobrem ante a maré montante do modernismo e que, com a ajuda de todos, vamos conseguindo manter viva a chama do nosso objetivo, uma reportagem inteirinha para gizar-lhe os traços e apresenta-lo de corpo inteiro aos leitores desse jornal?

Trata-se apenas de um homem como outro qualquer. Talvez apenas com uma diferença: Pedro Mala Velha gosta do que faz e por isso o faz sempre. Ele brinca em boi bumbá desde os oito anos, está com 60 de idade. Nascido no mesmo rincão legendário que jamais abandonou, a Prça 14 de Janeiro, veio ao mundo como Pedro de Lima Coelho e o capilé dos seus anos é tomado precisamente no dia 18 de outubro. Estivador, daqueles que pegavam mesmo no pesado, estava descarregando castanha quando uma caçamba cheia, mal manobrada, quase lhe esmagou o joelho de encontro a um ferro deixando-lhe sua marca terrível: quase não pode ficar em pé muito tempo, nem forçar a perna ferida. Está encostado, como se diz, e aproveita as horas vagas, porque o dinheiro é minguado, para vender mel, frutas e outras guloseimas, que vão ajudando a viver lá com sua patroa, Dona Rogeria Dantas Coelho, ainda no velho bairro de seu coração, a Praça 14, bem na Rua Jonatas Pedrosa esquina com a Avenida Ayrão.

O que o Pedro Mala Velha tem de diferente aos nossos olhos de conservadores das tradições amazonenses é que ele é o mais antigo “Pai Francisco” de quantos brincam nos bumbás amazonenses. Começou aos oito anos, como dissemos, no bumbá Amazonas, do velho Joaquim Vieira. Era vaqueiro, mas vaqueiro de mentirinha, pois naquele tempo boi-bumbá era negócio pra homem. Depois, passou-se para o bumbá Terra Firme, do famoso e até hoje lembrado Fausto, uma das figuras legendárias da Praça 14. Ali ficou, sem falhar um ano sequer, até que em 1924 foi fundado por um grupo de amadores do folclore, o mais famoso de todos os bois do Amazonas, o Caprichoso lendário, cantado em prosa e verso. Naquele tempo, boi era uma coisa séria. Tinha sociedade, com diretoria, estatutos, assembleia geral e contribuições mensais. Na sede social havia uma vida intensa e a sociedade vivia o ano inteiro, não apenas em junho. No velho Caprichoso, Pedro começou como Cazumbá (personagem que aos poucos vai desaparecendo dos bumbás), que era um companheiro leal nas aventuras do seu compadre Pai Francisco e servia para, no desenrolar do enredo, este narrar em voz alta as suas peripécias para melhor compreensão do público.


Pedro Mala Velha na redação de O Jornal, dando seu depoimento para Luiz Verçosa

O INÍCIO DA GRANDE RIXA – Ali por volta de 1929 ou 1929 ocorre um incidente com o Pai Francisco do Caprichoso, um brincante de nome Elias. Um dia, visivelmente aborrecido, ele abandonou a Praça 14 e foi brincar, convidado, no boi Mina de Ouro, quindim de amores dos habitantes de outro bairro legendário, o Boulevard Amazonas. Ali, feito Amo do Boi, Elias se aproveitou da oportunidade e suas toadas dirigidas aoi boi Caprichoso e seus brincantes eram catilinárias terríveis, que hoje chamaríamos adequadamente de “xavecos”.  O boi da 14 respondia, o do Boulevard treplicava e a cosia foi indo assim num crescendo, até que começaram os primeiros conflitos físicos, que quase resultavam em guerra entre os dois bairros.

CORRE SANGUE NO SÃO JOÃO – Foi no ano de 1930. Já então Pai Francisco do Caprichoso, posto que nunca mais largou, até hoje usando uma barba escorrida, de fios de juta, e calaça feita de chitão estampado com flores, com seu vozeirão propositadamente enrouquecido, Mala Velha já era amado pela criançada, que corria dele às léguas, quando ele avisava, cantando, que ia “pegar rebolo para amolar a faca”. Pois foi naquele ano, que numa passada por perto do Boulevard, até onde o Caprichoso tinha ido a fim de cantar numa casa, um elemento do Mina de Ouro, de nome Laudelino, homem de maus bofes, armou uma tocaia contra Mala Velha e quase lhe acaba com a vida na ponta de uma faca, não fora a intervenção de outros brincantes que correram em seu socorro. Mesmo assim, Mãe Catirina do Caprichoso não saiu sem uma facada e não faltaram tiros de revólver, muita cabeça quebrada e sangue a valer. Depois, muitos anos depois, o Mina de Ouro desapareceria, com ele se indo uma tradição inteira de muito valor e coragem. O Caprichoso ficaria. Mantido pelo amor e pela tenacidade dos filhos e já até dos netos de muitso nque fizeram seu nome, o velho bumbá continua rolando pelas ruas de Manaus nas noites juninas, mantendo acesa a chama do entusiasmo. Ainda este ano acaba de levantar o primeiro lugar entre os bumbás no XI Festival.

NOMES FAMOSOS – Ao correr da lembrança, a nosso pedido, Mala Velha vai recordando nomes famosos que fizeram o Caprichoso grandioso na imaginação do povo. Todos eles nomes do passado, quase todos mortos, mas cuja tradição ainda hoje é recordada, com amor e com saudade.

Grandes Amos – Seu Raimundo, um dos donos do boi, cujas toadas de guerra e desafio, muitas ainda são cantadas hoje. Cursino, de bigodes ruivos. Tiririca e Come Feio, vindos do Pará.

Grande Vaqueiro – Ninguém batia o velho Jeremias, que anos depois morreria na Cachoeirinha, num desastre automobilístico. Nome legendário.

Diretores dos Índios – Raimundo Xibiu e Maranhão, este mais tarde dono e amo do boi Vencedor. À frente de 30, 40 índios caprichosamente vestidos, armados de cacete, prontos para tudo, eram verdadeiros caciques engolfados em penas de avestruz que eram compradas, naqueles bons tempos, a 8 e 10 mil réis por espanador.

“Miolos” – Mala Velha recorda e sua voz se enternece quando fala de Geraldino, Raul e Corda Bamba.

O boi Caprichoso era um boi luxento. Dona Paula, esposa do seu Raimundo, todo santo dia fazia questão de lavar, ela mesma, a barra de pano que cobria as pernas do “miolo”. Naqueles tempos que longe vão, os tremendos tambores de hoje, os pandeiros barulhentos, os tamborins nervosos, eram blasfêmias rítmicas que não passariam sequer na porta de um curral!

UMA TRADIÇÃO QUE SE EXTINGUIU – Era um costume que ninguém abria mão no Caprichoso, nos dias da matança final, quando a “panelada” era para todo mundo que ali estivesse e quando muita gente chorava como se estivesse perdendo um ente querido, fazer a “passagem da honra” no Boulevard Amazonas. Os brincantes do boi da Praça 14 enchiam vários carros, daqueles que desciam a capota e que se vê nas velhas gravuras, e, cantando seus hinos e suas toadas de guerra, desciam velozmente o Boulevard Amazonas, enquanto uma chuva de pedras, atiradas pelos moradores aficionados do Mina de Ouro, caía sobre eles. Cabeças quebradas, sangue escorrendo, mas acima de tudo um estranho sentimento de orgulho pelo feito de haver mais uma vez desafiado o “contrário”.

Hoje mala Velha está chegando ao fim da picada. Já não é o mesmo de ontem. Os anos todos de bumbá não lhe darão aposentadoria. A velhice e a perna batida já fazem com que ele caminhe com muita dificuldade. Mas assim mesmo ele prossegue. E prosseguirá. Mesmo depois de morto, ele prosseguirá, ninguém tenha dúvida disso. Depois dele ido deste mundo, quando o Caprichoso passar, um vulto branco, meio curvado, manacando de uma perna, irá caminhando atrás visageiro, mas sem assombrar ninguém: será o Mala Velha acompanhando o seu boi querido enquanto ele existir.


NOTA DO EDITOR DO MOCÓ: O saudoso Pedro Mala Velha atravessou o espelho no dia 23 de março de 1980, no Pronto Socorro do Estado, em virtude de complicações decorrentes do diabetes. Estava com 73 anos.

Da Dança do Camaleão à Dança do Milho Verde (Parte 1)


As danças sempre foram um importante elemento cultural na história da humanidade e o folclore brasileiro é extremamente rico em danças típicas, que representam as tradições e a cultura de uma determinada região.

Estas danças estão ligadas aos aspectos religiosos ou profanos de uma determinada comunidade e servem para celebrar festas, recontar lendas, rememorar fatos históricos ou simplesmente traduzir acontecimentos do cotidiano em forma de brincadeiras.

Em Manaus, além do boi-bumbá, das quadrilhas, das tribos, dos brigues, dos cordões de pássaros e das cirandas, surgiram dezenas de danças folclóricas, seja por influência nordestina (que nos legou elementos tanto da cultura sertaneja quanto da cultura africana), seja por influência das nossas raízes indígenas. Algumas dessas danças são resumidas abaixo.


Dança do Camaleão – É uma dança de pares soltos que desenvolvem coreografia constituída por sete diferentes passos, chamados jornadas. Organizados em duas fileiras, homens e mulheres executam passos laterais de deslize, saudação entre os pares, batidas de palmas na mão do parceiro, troca de lugares, sapateados rítmicos, requebrados, palmeados das mulheres e dos homens entre si, terminando com o passo inicial.

O conjunto musical é formado por viola, cavaquinho, rabeca e violão. Nessa dança utiliza-se uma indumentária específica, inspirada nos tempos do Império: os homens trajam fraque de abas, colete, culotes, meias brancas longas, sapato preto afivelado, gravata pomposa. As mulheres trajam saias longas rodadas, blusas soltas, meias brancas, sapatos afivelados.

Foi apresentada no Festival Folclórico do Amazonas pela primeira vez, em 1963, pelos alunos do Colégio Estadual do Amazonas.


Dança do Tipiti – Inicialmente se chamou Quaraci Poracê e já era dançada entre os moradores do distrito de Carvoeiro, no município de Barcelos, em 1930. Posteriormente, passou a ser chamada de Dança do Tipiti ou Dança do Pau de Fita. Possui os seguintes passos: Caracol, Tipiti de um, Tipiti de dois, Tipiti de três, Tipiti de quatro, Trança, Rede e Chochê (desafio).

A exibição do auto, dependendo da disposição dos brincantes, pode levar até duas horas. Os figurantes se vestem à moda indígena: são rapazes e moças, em número igual, que varia de 12 a 36 (ou mais). O mastro ou pau de onde partem as fitas coloridas tem três metros, terminando por um florão.

Foi apresentada no Festival Folclórico do Amazonas pela primeira vez, em 1958, pelos alunos do Colégio Estadual do Amazonas.


Dança do Jacundá – O Jacundá é uma dança de roda, de origem indígena, popular na Amazônia. É também nome de um peixe, muito procurado pelo seu sabor. A dança é realizada num círculo, homens e mulheres dispostos alternadamente, de mãos dadas. Em um determinado momento, uma mulher ou um homem (às vezes um par) vai ao centro do círculo, que continua girando, sempre ao som da mesma música e da mesma cantiga, o Jacundá.

Depois de algum tempo, a pessoa que está no centro da roda tenta então escapar, no que é impedida pelos outros participantes.  Quando consegue fugir, é substituída por quem a deixou sair. E assim a dança prossegue por muito tempo, sempre ao som monótono da cantiga repetida infinitamente. Em algumas localidades do interior também é conhecida como Dança da Piranha.

Foi apresentada no Festival Folclórico pela primeira vez, em 1960, pelos alunos do Instituto de Educação do Amazonas.


Dança do Maçarico – Originária de Cametá (PA), tem como figura central esta ave pernalta, pássaro arisco e assustadiço, cujo andar é aceleradíssimo, sendo encontrado em quase todos os rios do Pará e do Amazonas, principalmente naqueles onde há praias. O movimento coreográfico lembra, em vários sentidos, o alegre saltitar e correr da ave e também alguns passos próprios das danças portuguesas. A música se utiliza de um coro alegre e animado.

Os dançarinos, organizados aos pares, desenvolvem uma coreografia constituída por cinco diferentes movimentos: “Charola”, “Roca-roca”, “Repinico”, “Maçaricado” e “Geleia de Mocotó”. Os pares, ora enlaçados ora soltos, dão passos corridos para frente e para trás, deslizamentos laterais, volteios rápidos e rodopios ligeiros, culminando com uma umbigada. A música é executada em sanfona ou acordeão, viola, violão, rabeca, tambores e pequenos pífanos.

Foi apresentada no Festival Folclórico do Amazonas pela primeira vez, em 1965, pela quituteira paraense Esmeralda Beatriz e tinha seu local de ensaio na Rua Maués próximo da Rua Ajuricaba, na Cachoeirinha.


Serafina – A dança é executada por homens e mulheres que se organizam em duas fileiras, por sexo. Nesta posição desenvolvem movimentos chamados “Batição”, que têm denominações próprias: “Puçá”, “Mala”, “Lance alto”, “Lance baixo”, etc. Organizam-se depois em círculo e executam outros movimentos, “Arrodeio alto”, “Arrodeio baixo”, “Cacuri” e “Tapagem”. Finalmente, retornam às fileiras iniciais e dançam o “Arrastão” e a “Repartição”, quando, nas fileiras, os dois primeiros pares formam grupos de quatro dançadores e desempenham as batições entre si.

Os participantes carregam alguns implementos que referenciam o aspecto simbólico desta dança: remo de tamanho natural, arpões, lenços grandes atados à volta do pescoço, fitas coloridas presas à cintura, chapéus de palha. Os remos e arpões são colocados no chão e não têm nenhuma utilidade prática. As fitas e os lenços são usados no “Lance alto” e no “Lance baixo”, quando a dupla de pares cruza as fitas, e no “Arrodeio alto” e “Arrodeio baixo”, coreografia marcada pelo cruzamento dos lenços de cada dupla de pares.

A música é uma variante do xote caracteristicamente rural: cavaquinho, reco-reco, violão, tambor gambá, caracaxás e maroca. Este último é um tambor pequeno, recoberto com couro de cobra sobre o qual colocam-se duas linhas paralelas cheias de contas que vibram juntamente com o couro.

Foi apresentada no Festival Folclórico do Amazonas pela primeira vez, em 1968, pelo agricultor Mário Boquinha, do Lago do Limão.


Caninha-Verde – Dança cantada originária da Espanha, de onde alcançou Portugal e depois chegou ao Brasil. Desenvolveu-se no centro e no sul do país, mas depois atingiu o nordeste e o norte brasileiro. A coreografia é formada com duas rodas, uma de homens, outra de mulheres, que cantam e dançam em sentido contrário e, sem se tocarem, quase sempre trocando de lugar e formando novos pares. Às vezes ocorre uma pequena representação com trechos em prosa. O instrumento utilizado é a viola, acompanhada por um pandeiro. 

Música típica: “Eu plantei caninha-verde / sete palmos de fundura. / Quando foi de madrugada / a cana 'stava madura. / Uai, uai, sete palmos de fundura. / Quando foi de madrugada / a cana 'stava madura. / Pra cantar caninha-verde / não precisa imaginá. / De qualquer folha de mato / tiro um verso pra cantá. / Eu tenho um chapéu de palha, / de pano não posso ter. / De palha eu mesmo faço, / de pano não sei fazer. / Eu tenho um chapéu de palha / que custou mil e quinhentos. / Quando eu ponho na cabeça / não me falta casamento.”

Os participantes deslocam-se, de acordo com a música, saindo com o pé esquerdo (“eu”). No quarto passo, batem o pé direito (“verde”) e batem uma palma para o centro da roda. Quando cantam “madrugada”, a palma deverá ser feira para o lado de fora da roda, sempre junto com a batida do pé direito. No refrão (“uai, uai”) a roda faz meia-volta, girando no sentido contrário, e segue sempre a mesma movimentação, ou seja, uma palma para dentro e outra para fora, sempre batendo com o pé direito no chão.

Foi apresentada no Festival Folclórico pela primeira vez, em 1963. Era coordenada pelo professor Ivo Moraes, no Grupo Escolar Diana Pinheiro, na Estrada do Paredão, em Educandos.


Dança do Café – A dança é uma contribuição dos povos Italianos que vieram trabalhar na lavoura do café. A forma que eles encontraram para amenizar o árduo trabalho da colheita, neste clima quente e tão diferente do clima de sua terra natal, foi começar a dançar e cantar durante a colheita. Nas rodas da noite, o trabalho virou dança, onde o movimento da colheita era reproduzido.

Na dança do café a roupa lembra a vestimenta da época: saia rodada com avental e lenço na cabeça para as mulheres e para o homem, calça de sarja, camisa de punho com lenço no pescoço. O principal adereço é a peneira, instrumento utilizado na colheita do café.

Foi apresentada no Festival Folclórico pela primeira vez, em 1965, pelo marítimo Gilberto Maleta e era ensaiada no bairro da Raiz.

          
Lundu – De origem africana, o lundu foi trazido para o Brasil pelos escravos vindos principalmente de Angola e foi proibida pela Corte Portuguesa durante o período colonial brasileiro por causa da sensualidade. Assim como o maxixe (a dança excomungada até pelo Papa), o proibido lundu, mesmo às escondidas, foi resistindo e ressurgindo, um pouco mais comportado, principalmente em três estados brasileiros, São Paulo, Minas Gerais e Pará, na Ilha de Marajó, sendo mais conhecido hoje como “lundu marajoara”.

Nessa dança, homens e mulheres, apesar de formar pares, dançam soltos. A mulher dança tentando seduzir o parceiro, com movimento ondulares de grande volúpia e apelo sexual, e ele faz o mesmo. A princípio, ela demonstra certa indiferença, mas, no desenrolar da dança, passa a mostrar interesse pelo rapaz, que também a seduz e a envolve. Nesse momento, os movimentos são mais rápidos e revelam a paixão e o desejo que passa a existir entre os dançarinos. De repente, o homem passa a provocar outra mulher e o lundu recomeça com a mesma intensidade.

Na realidade, a dança retrata o assédio sexual dos homens sobre as mulheres. Na maior parte do tempo, elas esnobam o flerte e só no final é que se entregam sexualmente. Esse ato é representado pelo momento em que os homens se jogam sobre as respectivas parceiras e, em seguida, os casais deixam o centro da roda com os corpos bem colados, um olhando nos olhos do outro. O lundu é executado com o estalar dos dedos dos dançarinos, castanholas e sapateado, além do canto acompanhado por guitarras e violões.

Em geral, a música é executada como compasso binário, com certo predomínio de sons rebatidos. O acompanhamento musical é feito por rabeca ou violino, clarinete, reco-reco, ganzá, maracás, banjo e cavaquinho. Para a dança, as mulheres vestem-se com saias longas, largas e coloridas e, na parte de cima, miniblusas de renda branca, que deixam a barriga à mostra. Usam ainda colares, pulseiras, brincos e flores nos cabelos. Os homens usam calças largas, brancas, com as bainhas enroladas e camisetas brancas com desenhos marajoaras. Há grupos que se apresentam sem camiseta.

Foi apresentada no Festival Folclórico do Amazonas pela primeira vez, em 1965, pelos brincantes da colônia paraense radicados em Manaus. Tinha o nome de Lundu Marajoara e era comandada pelo gráfico Luiz Pastinha.


Carimbó – É uma das mais populares danças paraense. O nome vem da palavra em tupi-guarani “curimbó” – de curi (pau oco) e m’bó (escavado). A dança carrega influência da cultura dos negros e até dos portugueses. Ela teve origem na ilha do Marajó, no Pará, mas virou tradição também em outros municípios paraenses como Cametá e Marapanim. A marcação é feita por dois tambores (curimbós), um grande e um pequeno, ganzá, banjo, pandeiro, dois maracás, e uma flauta.

No início da dança, mulheres e homens ficam um de frente para o outro. Após formarem um grande círculo, as mulheres dançam segurando as saias e jogando-as em direção ao homem, que se esquivam. Ao final, na parte chamada “dança do peru”, uma dançarina deixa um lenço no chão em forma de pirâmide para que seu parceiro o apanhe com a boca, sem usar as mãos.

Historicamente, a mais extraordinária manifestação musical do povo paraense foi criada pelos índios tupinambás que, segundo os pesquisadores, eram dotados de um senso artístico acima do comum. No início, a dança possuía um andamento monótono, como acontece com a grande maioria das danças indígenas. Quando os escravos africanos tomaram contato com essa manifestação artística dos tupinambás começaram a aperfeiçoar a dança, iniciando pelo andamento que, de monótono, passou a ser vibrante como uma espécie de variante do batuque africano.

Esse “aperfeiçoamento” da dança contagiou até mesmo os colonizadores portugueses que, pelo interesse em conseguir mão-de-obra para os mais diversos trabalhos, não somente estimulavam essas manifestações, como também, excepcionalmente, faziam questão de participar, acrescentando traços da expressão corporal características das danças portuguesas. Não é a toa que a dança do carimbó apresenta, em certas passagens, algumas movimentos das danças folclóricas lusitanas, como os dedos castanholando na marcação certa do ritmo agitado e absorvente.

Foi apresentada no Festival Folclórico do Amazonas pela primeira vez, em 1963, pelos brincantes da colônia santarena radicados em Manaus. Tinha o nome de Carimbó Flor do Lírio e era comandada pelo casal Paulo Aniceto e Eulália Torres de Melo.


Gambá – Dança de terreiro, o gambá é constituído de brincantes masculinos e femininos, um “marcador”, um grupo de quatro cantores, uma mulher solista e seu parceiro. Os demais formam uma roda ou duas fileiras que envolvem o par solista e batem palmas no ritmo executado no “gambá” (um tambor feito de tronco de árvore com cerca de um metro de comprimento). A dança se inicia com uma mulher que acena um lenço grande colorido, requebra e mexe o corpo voluptuosamente de modo a provocar o entusiasmo dos homens.

Depois de alguns momentos, ela atira o lenço aos pés de algum dançarino do grupo. Este recolhe o lenço e sai em perseguição da mulher, que simula fugir das investidas dele. O homem então simula desinteresse e a mulher, tomando-lhe o lenço, passa a provocá-lo novamente, com movimentos lascivos, sempre com o auxílio do lenço. A dança termina com o homem se rendendo aos encantos da mulher e o casal improvisando movimentos sensuais. Em linhas gerais, o gambá é uma versão menos hardcore do lundu.

Foi apresentada no Festival Folclórico, pela primeira vez, em 1963, pelos brincantes da colônia borbense radicados em Manaus. Tinha o nome de Lundu do Gambá e era comandada pelo saxofonista Abdias Paixão.


Pastorinhas – Nascido na Europa, o auto das Pastorinhas, também conhecido como Pastoril, passou por várias modificações quando chegou ao Brasil, e acabou se constituindo apenas de jornadas soltas, canções e danças religiosas ou profanas, de épocas e estilos variados. As pastorinhas formam dois cordões, o encarnado, liderado pela mestra, e o azul, pela contramestra, que disputam as honras de louvar Jesus Menino. O folguedo e é dançado e cantado por mulheres, dirigidas por um personagem cômico: o cebola, o velho, o saloio, o marujo etc.

Seus principais personagens são a Mestra, a Contramestra, Diana, a Camponesa, Belo Anjo, a Borboleta, o Pastor, o Velho Simão e as pastoras. As brincantes levam um pandeiro feito de lata, com cabo e sem tampa, ornado de fita com a cor do cordão a que pertence e o acompanhamento musical é feito por um conjunto de percussão e sopro, podendo, muitas vezes, incluir viola caipira e rabeca.

Os trajes típicos dos personagens principais da dança são saia, blusa, colete, meião e sapatilha. Na cabeça, tiara com fitas e flores. Nas mãos, pandeiros e maracás para casar com a cantoria e reforçar o som da apresentação. As demais pastorinhas usam chapéus de palha, blusas brancas, saias xadrez, arcos e cestinhas de flores. Elas também dançam uma coreografia específica para a apresentação diante do presépio.

A disputa entre os dois cordões é aproveitada como forma de angariar fundos para as obras sociais das paróquias às quais são ligadas, pois a cotação de cada cordão vai subindo de acordo com as doações pecuniárias de seus simpatizantes.

Foi apresentada no Festival Folclórico do Amazonas pela primeira vez, em 1962, pelas pastorinhas Filhas de Jerusalém, da Paróquia de N. S. de Fátima, da Praça 14.


Peixe Vivo – Originária da cidade de Diamantina (MG), a Dança do Peixe Vivo representa uma pescaria na lagoa. Os cavalheiros iniciam a dança, munidos de vara de pescar, seguindo-se as damas, pescando com rapixé (uma rede com cabo usada na captura de cardumes). Depois de fazerem os gestos correspondentes, guardam o material e dançam aos pares, sem se enlaçarem, com movimentos rítmicos e passos que se relacionam com os versos de uma conhecida música de domínio popular: “Como pode o peixe vivo / viver fora d’água fria / como poderei viver? / como poderei viver? / sem a tua, sem a tua, / sem a tua companhia / os pastores dessa aldeia / já me fazem zombaria / por me verem andar sozinho / por me verem andar sozinho / sem a tua, sem a tua / sem a tua companhia”.

Foi apresentada no Festival Folclórico do Amazonas pela primeira vez, em 1966, pelos brincantes da colônia mineira radicados em Manaus. Tinha o nome de Dança do Peixe Vivo e era comandada pelo taxista Juvêncio de Amaral.


Siriá – A mais famosa dança folclórica do município de Cametá é uma das manifestações coreográficas mais bonitas do Pará. Do ponto de vista musical é uma variante do batuque africano, com alterações sofridas através dos tempos, que a enriqueceram de maneira extraordinária. Contam os estudiosos que os negros escravos iam para o trabalho na lavoura quase sem alimento algum. Só tinham descanso no final da tarde, quando podiam caçar e pescar. Como a escuridão dificultava a caça na floresta, os negros iam para as praias tentar capturar alguns peixes. A quantidade de peixe, entretanto, não era suficiente para satisfazer a fome de todos.

Certa tarde, entretanto, como se fora um verdadeiro milagre, surgiram na praia centenas de siris que se deixavam pescar com a maior facilidade, saciando a fome dos escravos. Como esse fato passou a se repetir todas as tardes, os negros tiveram a ideia de criar uma dança em homenagem ao fato extraordinário. Já que chamavam cafezá para plantação de café, arrozá para plantação de arroz, canaviá para a plantação de cana, passaram a chamar de siriá, para o local onde todas as tardes encontravam os siris com que preparavam seu alimento diário.

Foi apresentada no Festival Folclórico do Amazonas pela primeira vez, em 1968, pelos brincantes da colônia paraense radicados em Manaus. Tinha o nome de Siriá de Cametá e era comandada por dona Vitorina Brito, do bairro de Flores.

Da Dança do Camaleão à Dança do Milho Verde (Parte 2)


Maracatu – O maracatu, da forma hoje conhecida, tem suas origens na instituição dos Reis Negros, já conhecida na França e em Espanha, no século XV, e em Portugal, no século XVI. Em Pernambuco, documentos sobre as coroações de soberanos do Congo e de Angola, na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos da Vila de Santo Antônio do Recife, são conhecidos a partir de 1674. No Recife a denominação “maracatu” servia para denominar um ajuntamento de negros. Os cortejos das nações em homenagem aos Reis do Congo passaram a acontecer no carnaval, e eram chamados de maracatus quando era dada uma conotação pejorativa.

São figuras do maracatu nação: o rei, a rainha, dama-de-honra da rainha, dama-de-honra do rei, príncipe, princesa, dama-de-honra do ministro, ministro, dama-de-honra do embaixador, embaixador, duque, duquesa, conde, condessa, quatro vassalos, quatro vassalas, três calungas (Dom Luiz, Dona Leopoldina, Dona Emília), três damas-do-paço (responsáveis pelas calungas durante o desfile), porta-estandarte, escravo, figuras do tigre e do elefante, guarda coroa, corneteiro, baliza, secretário, lanceiros (treze meninos), brasabundo, batuqueiros (quinze músicos), vinte caboclos, vinte baianas. A orquestra de um maracatu nação, também chamado de baque virado, é formada tão somente por instrumentos de percussão (tambores, caixas, taróis e ganzás).

Já o maracatu de baque solto, segundo a maioria dos pesquisadores, é um folguedo que une a cultura africana com a indígena. Trata-se de uma manifestação do sobrenatural, em que entidades protetoras são invocadas, em rituais de umbanda, para que propiciem aos brincantes do maracatu sucesso nas suas andanças. Assim, a boneca (calunga) é calçada, isto é, consagrada, batizada com rezas e defumadores e caboclos desfilam atuados, portanto, protegidos pela magia dos cultos à jurema ou semelhantes.

Foi apresentada no Festival Folclórico do Amazonas pela primeira vez, em 1964, pelos brincantes da colônia pernambucana radicados em Manaus. Tinha o nome de Maracatu de Pernambuco e era do tipo nação, ou seja, maracatu do baque virado. Seu coordenador era José Mattos Silveira e seu local de ensaio ficava na Rua Recife, perto do balneário do Parque Dez de Novembro.


Reisado – O folguedo chegou ao Brasil através dos colonizadores portugueses, que ainda conservam a tradição em suas pequenas aldeias, celebrando o nascimento do Menino Jesus. Em Portugal é conhecido como Reisada ou Reiseiro.

No Brasil é uma espécie de revista popular semelhante ao Cavalo Marinho, recheada de histórias folclóricas, mas sua essência continua a mesma, com uma mistura de temas sacros e profanos. Fazem parte do espetáculo os “entremeios” (corruptela de entremezes), pequenas encenações dramáticas que são intercaladas com a execução de peças, embaixadas e batalhas.

Os personagens são tipos humanos ou animais e seres fantásticos humanizados, cheios de energia e determinação. A música no Reisado está sempre presente. O Mestre é o solista, sendo respondido pelo coro a duas vozes. Os instrumentos utilizados alternadamente são a sanfona, o tambor, a zabumba, a viola, a rebeca ou violão, o ganzá, pandeiros, pífanos e os “maracás”, chocalhos feitos de lata, enfeitados com fitas coloridas.

Há uma grande variedade de passos nas danças do Reisado, entre os quais podemos destacar o do Gingá, onde os figurantes de cócoras se balançam e gingam, o da Maquila, um pulo pequeno com as pernas cruzadas e balanços alternados do corpo para os lados, passo também exibido pelos caboclinhos, o do Corrupio, movimento de pião com o calcanhar esquerdo o do Encruzado, cruzando-se as pernas ora a direita à frente da esquerda, ora ao contrário.

O Reisado tem como personagens principais o Mestre, o Rei e a Rainha, o Contramestre, os Mateus, a Catirina, figuras e moleques. O Mestre é o regente do espetáculo. Utilizando apitos, gestos e ordens, comanda a entrada e saída de peças e o andamento das execuções musicais. Usa um chapéu forrado de cetim, de aba dobrada na testa (como o dos cangaceiros), adornado com muitos espelhinhos, bordados dourados e flores artificiais, de onde pendem fitas compridas de várias cores, saiote de cetim de cores vivas, até a altura dos joelhos, enfeitado com gregas e galões, tendo por baixo saia branca, com babados, além de blusa, peitoral e capa.

O traje do Rei deve ser mais bonito e enfeitado. Veste saiote ou calção e blusa de mangas compridas de cores iguais, peitoral, manto de cores diferentes em tecido brilhante (cetim ou laquê), calça sapato tênis (tipo conga), meiões coloridos e na cabeça uma coroa feita nos moldes das dos reis ocidentais, semelhante a das outras figuras, porém encimada por uma cruz. Levam nas mãos uma espada e, às vezes, também um cetro. Durante o cortejo, os Reis vêm na frente, logo atrás do Mestre e do Contramestre.

A Rainha é representada por uma menina, com vestido “de festa”, branco ou rosa, uma coroa na cabeça e um ramalhete de flores nas mãos. O Contramestre é o responsável pelo Reisado na ausência do Mestre. Seu traje é semelhante ao daquele, só que menos pomposo.

Os Mateus, que sempre aparecem em dupla, usam trajes diferentes dos outros figurantes: vestem paletós e calças de tecido xadrez, usam um grande chapéu afunilado que chamam de cafuringa, com espelhos e fitas coloridas, óculos escuros, rosto pintado de preto, geralmente com tisna de panela ou vaselina e levam nas mãos os pandeiros. São os personagens cômicos do Reisado, junto com a Catirina.

Conhecida antigamente como Lica, a Catirina é a noiva do Mateus. Veste-se de preto, traz um pano amarrado na cabeça, o rosto pintado de preto e um chicote nas mãos, com o qual corre atrás das moças e crianças. As outras figuras formam o coro do Reisado, que participam ativamente apenas nas batalhas, nas danças e no canto, quando respondem ao solo do Mestre. Formam duas fileiras simétricas, organizadas hierarquicamente e posicionadas uma do lado direito e outra do lado esquerdo do Mestre.

Foi apresentada no Festival Folclórico, pela primeira vez, em 1969, pelos brincantes da colônia pernambucana radicados em Manaus. Era coordenada pelo prestamista Gaudêncio Soares, o Mestre Chumbada, e tinha seu local de ensaios na Estrada do Aleixo, próximo do curral do bumbá Flor do Campo.


Maneiro-pau – É um bailado de roda oriundo do Ceará e dançado exclusivamente por homens. A principal característica da dança, que tem semelhanças musicais com a capoeira, é o uso de pequenos bastões entrechocados pelos participantes para acentuarem a nota dominante do canto, que lembra as emboladas de uma roda de coco. O cantor-solista atua sem instrumental, incentivando o jogo e fazendo nascer um coro formado pelos assistentes, que gritam “Maneiro pau, maneiro pau!”.

Segundo o site Danças do Brasil, trata-se de uma dança oriunda do cangaço, possivelmente da região do Cariri, mas hoje tomando parte de todas as programações festivas do interior do Ceará. Todos os participantes cantam sob o refrão que dá o nome ao folguedo – maneiro-pau! Dançam todos em roda, com os cacetes que portam, batem-nos fortemente no chão, de forma ritmada. De quando em vez, enquanto uns depõem os cacetes no chão, enquanto outros usam para duelarem entre si, fazendo-o cadenciadamente.

Foi apresentada no Festival Folclórico do Amazonas pela primeira vez, em 1964, pelos brincantes da colônia cearense radicados em Manaus. Tinha o nome de Dança Nordestina Maneiro Pau e era coordenada pelo marítimo Daniel Feitosa, no bairro de São Jorge.


Dança do Arara – Dança de pares que se movimentam ao ritmo de um gênero musical qualquer. No meio do salão fica o Arara, cavalheiro munido de bastão, que inicia ou cessa a música, com uma batida no chão. Ao cessar a música, os pares se separam. A cada reinício os cavalheiros, bem como o Arara, buscam seus pares, assumindo o bastão aquele que ficar sem dama. Em linhas gerais, é uma espécie de “dança das cadeiras” do ciclo junino.

Foi apresentada no Festival Folclórico, pela primeira vez, em 1962, ensaiada por Walder Caetano, que tinha seu local de ensaio na Av. Ayrão, quase chegando ao bairro da Matinha.

Dança do Arara-Desfeiteira – Foi apresentada no Festival Folclórico, pela primeira vez, em 1964, pelos alunos do Colégio Estadual do Amazonas, e era uma combinação entre a Dança do Arara e a Quadrilha Desfeiteira. Nessa nova versão, o Arara era obrigado a declamar um verso sempre que pegasse o bastão, para não ser desfeiteado pelos outros brincantes.


Dança Afro – A dança afro-brasileira compõe-se de um conjunto de diferentes danças e dramatizações, que apresentam em comum a raiz negra africana. Recriada no Brasil, nas diferentes épocas e regiões, essa herança foi ganhando novos significados e expressões. Na sua origem, algumas delas eram realizadas para recordar ou relatar aos mais jovens, fatos históricos marcantes. Ao reforçar tradições e fundamentos da sua cultura, as danças tornavam-se um importante meio de autoafirmação do grupo familiar ou social.

Na sua origem, a dança afro-brasileira representa diversos momentos da vida diária da tribo africana – como a colheita, o corte da cana, a preparação da farinha, a caça ou a pesca – ou ritos e tradições, como a chegada de um rei, a coroação ou a morte. Agilidade e soltura de cabeça, ombros, braços, tronco e quadril são pontos em comum dos movimentos, que variam entre intensa energia, lentidão e sensualidade. Os joelhos flexionados e os pés marcando fortemente o ritmo mostram a ligação com a terra.

Foi apresentada no Festival Folclórico do Amazonas pela primeira vez, em 1961, pelos brincantes do Colégio Estadual Brasileiro. Tinha o nome de Dança do Congo.


Xote – a O xote é um ritmo musical de origem alemã, originalmente com o nome de schottisch que significa “escocesa", uma referência à polca escocesa, um ritmo contagiante que existia na Europa, que acabou se mesclando com o ritmo mais comedido da valsa vienense e passou a ser conhecida como “schottische”. Na Inglaterra, ela era uma dança saltitante, enquanto que na França tinha um andamento lento, num ritmo quase semiclássico. Este estilo de ritmo, música e dança também chegou a Portugal incorporando-se ao seu estilo de dança de salão portuguesa e passaram a ser denominadas de “chotiça”.

No Brasil, o “chotiça” chegou por meio do professor e dançarino José Maria Toussaint, por volta de 1851. O ritmo era mais apreciado pela elite da sociedade, dançado em bailes de gala da realeza. Não demorou muito e os escravos aprenderam a dança apenas observando, e adicionaram outros passos, giros e com o seu jeito próprio de dançar caiu no gosto popular, com o novo nome de xote.

O xote tornou-se uma dança típica do Nordeste do Brasil, muito executado no forró. Imortalizado pelo compositor Luiz Gonzaga, foi se tornando uma modalidade do baião, só que dançado num ritmo mais lento, de forma romântica e com poucas evoluções, mas mantendo sempre o seu aspecto sensual. Por ser uma dança bastante eclética, o xote é encontrado em diferentes regiões do Brasil, desde o norte até o extremo sul.

O xote é composto de diversas variações rítmicas, dependendo do seu estilo. Eis alguns deles: Xote-carreirinho (estilo comum no Rio Grande do Sul e Paraná, com coreografia próxima à da polca dançada pelos colonos alemães no Brasil), xote-duas-damas: (variante do xote dançado do Rio Grande do Sul, na qual o cavalheiro dança acompanhado de duas damas), xote-carreirinha (os casais correm no mesmo sentido, semelhante à dança alemã ritsch-polka), xote-bragantino (estilo popular no Pará, cuja coreografia difere bastante da original), xote-sete-voltas (exige que o casal dê sete voltas pelo salão, bailando em um sentido e depois em outro), xote batido, xote arrastadinho, xote muidinho e xote sapateado.

Foi apresentada no Festival Folclórico do Amazonas pela primeira vez, em 1961, pelos alunos do Colégio Estadual do Amazonas, com o nome de Xote do Interior.



Dança do Pilão – Artefato primitivo de origem remota, o pilão de madeira, na época do Brasil-Colônia, já era utilizado na agricultura para socar alguns alimentos, tais como o milho e o café. Para sua confecção, utilizavam-se troncos de madeiras duras – como a maçaranduba, peroba, canela preta, guatambu e limoeiro – que eram escavados com fogo e sua haste (denominada mão de pilão) era feita com um pedaço aparelhado dessas madeiras. A altura de um pilão variava entre 30 e 70 cm e uma haste media de 60 cm a 1,2 m. A Dança do Pilão mostrava homens e mulheres executando a tarefa de quebrar o milho com pilão para fazer fubá, com os homens socando o pilão e as mulheres peneirando o fubá.

A música que acompanhava a coreografia era um velho e malicioso sucesso de Luiz Gonzaga: “Pisa no pilão, tum... ôi, pisa no pilão, tá...  / pisa no pilão, tum... ôi, pisa no pilão, tá... / pisa no pilão, meu bem / pisa o milho pro xerém / pra fazer fubá / ôi pisa no pilão cabocla / quero ver dentro da roupa / tu sacolejar... /  tum tum tum tum / joga as anconas pra frente e pra trás / tum tum tum tum / finca a mão no pilão bate mais / se janeiro é mês de chuva / fevereiro é pra plantar / Em março o milho cresce / em abril vai penduar / em maio tá bonecando / no São João tá bom de assar / mas em julho o milho tá seco / é tempo morena dá gente pilar / pisa no pilão, tum... ôi, pisa no pilão, tá... / pisa no pilão, tum... ôi, pisa no pilão, tá... / pisa no pilão, meu bem / pisa o milho pro xerém / pra fazer fubá / ôi pisa no pilão cabocla / quero ver dentro dá roupa / tu sacolejar... /  tum tum tum tum / No meu tempo de menino / nas fazendas do sertão / eu gostava de espiar / as caboca nos pilão / sacudindo a formusora / dando murro como o que / duas negas no meio do sol / batendo caçula / dá muito o que ver ... / pisa no pilão / pisa no pilão / pisa no pilão.”

Foi apresentada no Festival Folclórico, pela primeira vez, em 1969, pelos brincantes da Colônia Oliveira Machado. A brincadeira era comandada por Getúlio Lucena e era ensaiada na sede do São Jorge FC, no mesmo bairro.


Dança do Milho Verde – Na metade dos anos 70, alguns pagodeiros do Morro da Liberdade – Bosco Saraiva, Jairo Beira-mar, Gilsinho Poeta, Nicéas Magalhães, Jorge Halen Chocolate, Luizinho Sá, Kalama e Ivan Oliveira, entre outros – se reuniam diariamente no meio da Rua Dr. Martins Santana e faziam uma roda de samba bem informal. O problema é que o ritmo frenético dos surdos, tamborins e atabaques incomodava algumas pessoas.

Responsável pela Dança Regional Milho Verde (uma variante menos picante da Dança do Pilão), também na mesma rua, dona Sílvia era a mais incomodada de todas. Segundo ela, a percussão sincopada do pagode atrapalhava o ensaio da dança regional, que tinha uma levada mais nordestina à base de sanfona, zabumba e pandeiro.

Certo dia, mais braba do que de costume, dona Sílvia ligou para a Polícia de Choque denunciando os baderneiros. Com o país sob a égide da ditadura militar, a Polícia de Choque era famosa por não ouvir desculpas: os meganhas desciam do caminhão já distribuindo porrada em quem estivesse por perto, até não restar ninguém de pé. Depois, eles contavam os mortos e feridos e iam embora.

Nesse dia, sabe-se lá por que, a moçada do pagode resolveu encerrar a roda de samba mais cedo do que de costume e foi se embriagar no Bar do Beto, ali perto. Quando o caminhão da Polícia de Choque chegou ao local e ouviu somente a sanfona comendo no centro, os meganhas não tiveram dúvidas: os baderneiros eram aqueles ali. Eles desceram rapidamente do caminhão e encheram de porrada os brincantes da Dança Regional Milho Verde. A carnificina foi tão violenta que dona Sílvia desmaiou.

Um dos coordenadores da dança era um sujeito baixinho, quase um anão de Velásquez, chamado Brau, que apesar do defeito físico (uma imensa corcunda de camelo) era uma das pessoas mais animadas do pedaço. Quando começou a pancadaria, Brau saiu correndo por uma viela, mas foi avistado por um meganha.

Tentando se safar, Brau se escondeu atrás de um poste, meio de lado, na pontinha dos pés. O meganha sacou a arma e deu o ultimato:

– Sai de trás desse poste, porra, senão vou dar um tiro no meio da tua bunda!

Brau obedeceu. Quando viu que a “bunda”, na realidade, era a “corcova” do rapaz, o meganha não sabia onde se esconder, de tanto constrangimento. Acabou mandando Brau ir pra casa e “não se meter mais com aquele bando de arruaceiros”.

Dona Sílvia nunca mais quis saber de chamar a polícia pra acabar com a roda de pagode da moçada.

Os principais grupos de danças folclóricas de Manaus que continuam participando do Festival Folclórico do Amazonas são os seguintes: Dança Nacional Xote Meu Xamego, Dança Nacional Gaúcha Rancho da Saudade, Dança Nacional Xote da Carolina, Dança Nacional Xote do Sertão, Dança Nacional Xote Noda de Caju, Dança Nacional Xameguinho do Xote, Dança Nacional Xote da Karolina, Dança Nacional Afro-Brasileira, Dança Nacional Gaúcha Ronda Charrua, Dança Nacional do Candomblé, Dança Nacional Xote Luar do Sertão, Dança Regional Os Imperiais de Tefé, Dança Regional Lendas e Povos da Amazônia, Dança Regional Império da Borracha, Dança Regional Serafina, Dança Nacional Café da Redenção, Dança Regional Encantos da Amazônia, Dança Regional As Abelhinhas e Dança Regional Carimbó da Amazônia.