quinta-feira, setembro 29, 2016

Os 10 melhores produtos das Organizações Tabajara


1. BARANGABA TABAJARA – O campeão do ranking é um produto que transforma o pior jaburu do Universo na maior gata do mundo – tudo isso com apenas uma gota! O segredo? Dá uma olhadinha na fórmula do elixir... Para agradar os paladares mais exigentes, o produto está disponível nos sabores “mocréia”, “tribufu” e “cão chupando manga”.

2. CASA DA MULHER GOSTOSA CARENTE – Não é propriamente um produto, mas uma tocante obra assistencial que sensibilizou nosso júri. Todo ano, a instituição recebe de corpo e alma – principalmente corpo – as gostosas mais carentes do Brasil. E você pensando que as Organizações Tabajara não tinham preocupação social...

3. PERSONAL PINTOVISION – Sabe aquele seu amigo horizontalmente avantajado que não consegue ver o “documento” por causa da pança? O Personal Pintovision é o presente ideal para contornar esse drama. Dois retrovisores acoplados à zona do agrião dão uma visão privilegiada do dito-cujo. É o preferido do Bussunda: “Eu até usaria, mas não preciso por causa do tamanho avantajado do meu bilau!”

4. CAMAPULTA TABAJARA – É o antídoto perfeito para evitar a ressaca da Barangaba. Já pensou se você toma o goró milagroso, mas o efeito acaba e você acorda do lado do maior jaburu? Essa invenção joga o problema pra longe – literalmente – e ainda dá direito a uma fronha para você tapar a cara da mocréia e partir sossegadão pro abraço.

5. VÍDEO “COMO GANHAR MULHERES SENDO FEIO, BURRO, POBRE E SEM CARRO” – Para a Tabajara, a arte da conquista é uma ciência, baseada em técnicas como a autopiedade coativa (que inclui frases como “Dá para mim, pelo amor de Deus!”) e a pentelhação repetitiva de alto impacto (cuja ênfase é lascar petelecos na orelha da gostosa até ela dar para você). Nós aqui da redação não precisamos disso (somos lindos!), mas resolvemos incluir o produto para homenagear os cassetas...

6. MARIDOCARD – É o primeiro cartão de milhagem para maridos: trocar a fralda do bebê vale 5 pontos, levantar a tampa da privada mais 10 e assim por diante. A tortura vale a pena: com 1.500 pontos acumulados, dá para despachar mulher e sogra para uma colônia de férias que está bombando – lá no Iraque. Definitivamente, é um estouro!

7. MELECA DISFARCEITOR – Tem coisa mais chata do que tirar catota no trânsito e ser zoado pelo motorista do lado? A pagação de mico acabou com esse superconjunto de papelão retrátil que despenca do teto quando você quer dar um trato na napa. Privacidade total na higienização do salão e anexos. Além de limpar o nariz, dá para tirar cera do ouvido, arrancar alface do dente...

8. DOG BIMBADA REPELEITOR – Sabe aquele cãozinho que insiste em transar com sua perna toda vez que o vê? Pois essa invenção boa pra cachorro vai acabar com a graça do totó tarado. Os espetos de ferro acoplados a sua perna vão traumatizar o bichinho e ele nunca mais vai pensar em acasalamento pernal. Dependendo do alcance das lanças, ele não vai mais pensar, nem latir, nem respirar...

9. PERSONAL CHUVA – Esse produto é para quem se dá mal por confiar na previsão do tempo. Com o Personal Chuva, ninguém precisa ficar carregando o guarda-chuva no maior solzão com aquela cara de mané. Dá pra criar o seu próprio toró – e ainda por cima escolher o melhor aguaceiro para cada ocasião: “garoa”, “chuvisco”, “temporal” e “chovendo pra cacete”.

10. OLHO MÁGICO DE CAIXÃO – Uma criação do outro mundo para fechar o nosso top 10: com essa revolucionária invenção, o defunto pode enfim se defender da ameaça de assassinos homicidas que queiram invadir seu paletó de madeira – quem sabe até para matá-lo! Não dá para descuidar da segurança nem morto...

quinta-feira, setembro 22, 2016

Tudo em mim é Manaus


Marcelo Ramos (*)

Tudo em mim é Manaus.

Manaus nascida da Cidade da Barra do Rio Negro no dia 24 de outubro de 1848.

Manaus que nasceu em mim no dia 29 de agosto de 1973, na Santa Casa de Misericórdia. Manaus que caminha comigo há 42 anos e que ao meu lado irá me acompanhar até o último dia da minha vida.

Tudo em mim é Manaus.

Manaus que me viu criança, que jogou bola comigo no asfalto quente da rua, que soltou papagaio comigo com um carretel de linha dez e cerol de vidro pilado, que comigo brincou de manja esconde e que até hoje me diverte e me encanta.

Tudo em mim é Manaus.

Manaus que me apresentou o Teatro Amazonas, o Mercado Adolpho Lisboa, a poesia do Thiago de Mello, a música de Candinho & Inês e do Pereira, a Praça da Saudade (onde entrei pela primeira vez num avião), o encontro das águas, o jaraqui frito do Joca e do Galo Carijó, a Praia da Ponta Negra.

Manaus das suas caras, gostos, sons e encantos.

Tudo em mim é Manaus.

Manaus que sentiu comigo o deslumbre do meu primeiro amor, que chorou comigo a minha primeira saudade.

Tudo em mim é Manaus.

Manaus que me consolou na morte do meu velho Umberto e da minha pequena Maria Carolina, que me deu a Dona Graça, o Beto, a Glenda e o Rodrigo, que me apresentou a minha amada Juliana e colocou no meu colo o Gabriel, a Marcelinha e o José Umberto. Manaus dona dos meus amores.

Tudo em mim é Manaus.

Manaus que me ensinou as primeiras letras e viu nascer a minha paixão pela leitura, que raspou minha cabeça quando fui aprovado no vestibular de Direito da UFAM. Manaus da alegria do meu primeiro escritório de advocacia. Manaus que me deu a felicidade de assistir a formatura dos meus três irmãos.

Tudo em mim é Manaus.

Manaus que viu nascer meu entusiasmo militante, que me deu dois mandatos de vereador, um mandato de deputado estadual e que, mesmo diante de tantas dificuldades e contra forças tão poderosas, nas eleições de 2014, teimou em me entregar a confiança de 175 mil dos seus filhos.

Tudo em mim é Manaus.

Manaus que eu sonho um dia me dar uma chance de retribuir tudo que recebi nesses 42 anos de vida. 

A chance de oferecer aos manauaras um transporte público rápido, eficiente e confortável. 

A chance de dotar a cidade de rede de esgoto que preserve a saúde do nosso povo e salve a vida dos nossos igarapés. 

A chance de melhorar a qualidade do atendimento básico de saúde e educação. 

A chance de espalhar a rede de creches, em especial nas áreas mais humildes, para que as manauaras deixem seus filhos com segurança enquanto trabalham. 

Manaus que está em mim e que a ela desejo servir, com determinação e responsabilidade.

Tudo em mim é Manaus.


(*) texto publicado na sua página pessoal no FB, no dia 24 de outubro do ano passado, quando Manaus comemorou 346 anos

segunda-feira, setembro 19, 2016

“O que é antigo é velho, o que é velho não serve mais”


Roberta, Rui Machado, Sandra, Bob Carlos, Elisa, Rita, João Bosco Chamma e Mazé Chaves

José Alberto Tostes, de Santana (AP)

A frase desse artigo foi dita pelo colega, amigo e arquiteto e urbanista manauara, João Bosco Chama, por ocasião do II ARQAMAZÔNIA realizado na cidade de Manaus, no período de 14 a 16 de setembro. A referência dessa citação deve-se a uma longa conversa sobre as questões referentes ao centro histórico da cidade de Manaus.

As reflexões sobre a citação de Chama, nos leva a crer que a desvalorização das áreas centrais na grande maioria das cidades brasileiras, está diretamente relacionada à cultura contemporânea, não se caminha mais com a frequência de antes pela cidade. Vive-se a pressa do dia-a-dia, de um cotidiano dominado pela autoridade do automóvel, então, a pressa é adversa ao sentimento de vivenciar a cidade.

Gradualmente com o passar das décadas e os anos, os centros históricos vem perdendo a sua representação mais efetiva com a cidade. Um dos motivos é a mudança gradual de uma área, que antes tinha um caráter eminentemente residencial para um sentido institucional e comercial, ou seja, as áreas históricas passaram a ter 12 horas de intensidade e outras 12 horas de silêncio profundo. E o que significa esse fato? Representa a perda gradativa de valores, simbologias e de pertencimento com a história do lugar.

Se avaliarmos mais detalhadamente vamos perceber que as maiores representações históricas que vinculam a formação e a gêneses das cidades, está no centro histórico, todavia, o processo de transformação da paisagem da cidade apresenta o preço do desapego com aquilo que é considerado antigo, portanto, está enraizado na cultura brasileira, “o que é antigo é velho, o que é velho não serve mais”, tal afirmação e crítica,  evidencia que temos enormes dificuldades para entender a relação entre o “velho e o novo” entre o “antigo e o contemporâneo ou atual”. Não conseguimos de forma efetiva construir uma relação entre os distintos tempos que envolvem a história da cidade.

Como estudioso, pesquisador, arquiteto e urbanista participei de uma infinidade de eventos ao longo dos anos, um dos fatores que mais me chama atenção, é como está consolidado em nossa cultura o sentimento da negatividade. A quase totalidade das apresentações em eventos evidencia uma cultura negativa, induz indiretamente a juventude, a crer firmemente que não há esperança, tudo é “terra arrasada”. Tal afirmação corrobora para acreditarmos que o amanhã, é impossível, e o passado não existe daí a relação conflituosa sobre a relação com o antigo.

Em diversos países do mundo, principalmente na Europa onde há um legado expressivo da cultura sobre o antigo, tem ocorrido ações e estratégias de incluir o antigo no âmbito de um contexto atual, aliado com as tecnologias, redes sociais e outros níveis de inserção que auxiliam a sociedade, possibilita aos turistas compreenderem que, o antigo é parte da história do lugar, e mesmo com todo o processo evolutivo do tempo presente, esse antigo, gera emprego e renda, contribui para disseminar a cultura de um povo e acima tudo, permite conectar a relação entre passado, presente e futuro.

Um dos exemplos é o próprio Rio Janeiro, a construção do Museu do Amanhã, obra arrojada e de linguagem universal contribuiu para redimensionar uma área que estava decrepita e abandonada pelo poder público e pela própria população, independente de qualquer crítica, que é salutar, houve uma mudança na paisagem. Quando os governos e a própria população abandona a sua história, tais ambientes de grande valor perdem a significação, o que dá vida ao lugar são pessoas, dinamizam e transformam os espaços.


Uma das maiores expressões da cidade de Manaus é o Teatro Amazonas, não há uma só pessoa que chegue a cidade que não tenha o interesse em conhecer o Teatro, portanto, um símbolo do lugar e da expressividade de uma época, mas quando parte dos visitantes e dos próprios moradores se deparam com o entorno, percebem fragilidades do poder público e da própria sociedade.

É comum a presença de drogaditos, bêbados, guardadores de carros e o mercado de sexo. O cenário se trabalhado através de projetos sociais poderia haver maior inclusão desses usuários segregados. Não se deve tratar os excluídos, aumentando a indiferença, mas dar o trato devido com dignidade. Os projetos de arquitetura, urbanismo e paisagismo são eficazes, somente se alcançarem os níveis de integração social, de nada adiante pensar na morfologia e no caráter estético, se o maior sentido que dá vida não for bem equacionado.

Os problemas do centro histórico da cidade de Manaus não são exclusivos dessa cidade, existe em quase a totalidade das cidades brasileiras, porém, evidencia a forma como a sociedade atual se relaciona com lugar, com indiferença, pois o único contato  cotidiano é através das janelas dos veículos, criando um “abismo”, fortalecendo ainda mais a segregação das ruas, dos becos e principalmente dos espaços públicos, aliás, tais espaços tem sido os que mais se modificaram no ambiente urbano brasileiro, pois do lugar do encontro, das relações entre pessoas e grupos sociais, transformou-se no ambiente que esconde o medo dos transgressores urbanos.

A vida nos centros históricos no Brasil não é fácil, o antídoto, é o diálogo institucional, pois essas áreas concentram o que há de melhor e de pior de acordo com a população, mas, para que seja um lugar com qualidade de vida para os cidadãos locais e para os turistas é preciso inverter a lógica em nosso País, “o que é antigo é velho, o que velho não serve mais”.

As boas práticas e experiências de tantos lugares devem servir como fonte inspiradora para que a sociedade não abandone o seu DNA urbano, o lócus de formação de sua história, e acima tudo, compreenda que todos nós começamos de um ponto de partida. E como diz Carlo Levi: “O futuro tem um coração antigo”.


NOTA: Como estudioso, pesquisador, arquiteto e urbanista participei de uma infinidade de eventos ao longo dos anos e um dos fatores que mais me chama atenção é como está consolidado em nossa cultura o sentimento da negatividade. A quase totalidade das apresentações em eventos evidencia uma cultura negativa, induz indiretamente a juventude, a crer firmemente que não há esperança, tudo é “terra arrasada”. Tal afirmação corrobora para acreditarmos que o amanhã é impossível e o passado não existe, daí a relação conflituosa sobre a relação com o antigo.

A direita é tosca?


 A direita não acredita em ideias e acha que intelectual é animador de festa

Luiz Felipe Pondé 

Sim, a direita é meio tosca mesmo. E não me refiro à direita horrorosa a favor da ditadura militar. Refiro-me à direita liberal, a favor da sociedade de mercado. Ela ainda acha que pensar é arroz de festa.

Alguns anos atrás escrevi uma coluna que falava de uma outra dificuldade estrutural da direita liberal no Brasil: não sabe pegar mulher. Na época, me referia a necessidade da direita liberal jovem deixar de ser chata e criar uma "direita festiva". Não saber pegar mulher é uma coisa muita séria para um homem. Saber pegar mulher é um traço adaptativo importante na história do Sapiens.

Nelson Rodrigues dizia que um homem com menos de 18 anos não devia nem dizer "bom dia" para uma mulher porque só diria besteiras.

Um jovem liberal deveria, antes de falar com uma mulher, observar como os jovens de esquerda se movem de forma competente quando se trata de pegar mulher. Sabem conversar sobre filmes, livros, sentimentos. Arriscaria dizer que mesmo liberais de mais de quarenta anos continuam bobos diante de uma mulher e acabam por falar coisas grosseiras e idiotas. Nunca se deve menosprezar a importância de saber pegar mulher quando se trata do futuro da humanidade em jogo.

Mas, há uma outra dificuldade estrutural da direita liberal: só acredita em economia e não acredita em ideias, por isso nunca investe nelas e considera um intelectual um animador de festa e jantares. Acredita mesmo que tudo pode ser comprado e aí apanha da esquerda, que tem uma visão mais abrangente do Sapiens, mesmo que a use para mentir ou criar mundos absurdos. Falta à direita um repertório humanista, por isso é meio tosca.

Isso pode parecer uma questão de detalhe, mas não é. Claro que não se trata de uma regra geral, mas, diria, se trata de um caso quase perdido. A direita liberal acha que o pragmatismo econômico é a única forma de ação que existe no homem. Aqui já aparece sua pobreza de espírito: deixa para a esquerda toda a rica reflexão acerca da humanidade e do "cuidado" para com nosso sofrimento, agonia e inseguranças. A falta de compreensão para com o sofrimento humano é uma das piores faces que a direita liberal apresenta para o mundo. E isso cria a reserva do "mercado humanista" para a esquerda.

A "mania econômica" da direita liberal a cega para o fato que muito já se produziu em matéria de reflexão sobre a humanidade ao longo dos séculos, e, com isso, condena os mais jovens às inutilidades do humanismo raso da esquerda, nascido do ressentimento.

Por isso, essa direita será sempre incapaz de enfrentar a esquerda no plano das ideias. Contará sempre com partidos fisiológicos para lidar com a inquestionável hegemonia intelectual da esquerda no país. E nunca terá interlocução no mundo da produção de conteúdo porque, exatamente, não acredita na inteligência.

No fundo, é a velha mesquinharia característica de quem vê a vida a partir do "livro-caixa da loja". Falta uma certa coragem espiritual à direita liberal, o que, reconheçamos, não falta à esquerda em geral. Não consegue entender que, se a vida é em grande parte uma cadeia produtiva sem garantia ou piedade, ela é, também, uma narrativa sobre esse sentimento asfixiante de contingência, abandono e solidão que acomete o Sapiens há milênios.

Narramos nossa vida e nossas experiências porque precisamos dessas narrativas. Na falta de certezas sobre o sentido maior das coisas, aprendemos, ao longo dos milênios, a sentar ao redor do fogo para contar histórias, experiências, medos e projetos de como superá-los.

A direita não acredita na importância das narrativas sobre a vida, sobre nossas vitórias e sobre nossas derrotas. E quando olha para esses assuntos, o faz, sempre e unicamente, com os olhos do marketing. E o pecado do marketing é sua estrutural contradição para com a ideia de autenticidade. E todos, inclusive quem trabalha com o marketing, sabe desse abismo que o separa da ânsia de verdade que nos assola desde o Paleolítico. Falta à direita liberal humildade para aprender com nossas sombras. Falta a ela reverência pelo fracasso.

Mr. Loverman strikes again


Ontem à noite, já quase indo embora do mocó, minha flor-de-lis me abraça, no estilo face-to-face, e manda um papo reto:

– Ah, amor, faz mesmo quanto tempo que nós estamos juntos nesse estica-e-puxa?...

– Sei lá, minha filha. Sempre fui muito ruim de guardar datas. Só lembro que quando te conheci você tinha 20 anos... – devolvi, com aquela cara de canalha que só um autêntico canalha é capaz de emular.

Ela respirou fundo:

– Seis anos?!... Tudo isso?!... Afeeeeee...

Eu podia ter dito:

– Pois é, meu amor, mas você continua do mesmo jeito que te conheci, parece a mesma garotinha de sempre, cada vez mais linda... yes, vamos encontrar o pote de ouro no fim do arco-íris, is this love, is this love, is this love, is this love, that I'm feeling?, you are the sunshine of my life, that's why I'll always be around, you are the apple of my eye, forever you'll stay in my heart…

Mas me limitei a um burocrático:

– É... Você está ficando velha...


Ela afrouxou o abraço, começou a rir e, para desespero dos vizinhos, o riso inicial virou uma gargalhada estrepitosa, de assustar cachorros na rua.

– Porra, meu amor, mas você é muito palhaço! – avisou, recobrando o fôlego. – Deve ser por isso que te gosto tanto!

Aí, entrou no táxi “e foi embora deixando um travo de Jack Daniel’s sem gelo na minha garganta, enquanto eu procurava um velho disco de vinil do Cartola escondido na velha petisqueira de todas as minhas ternuras imemoriais” – eu poderia arrematar esse texto se fosse o poeta Diego Moraes querendo catar meninas indefesas via Facebook.

Mas não sou ele – que sempre considerei um querido irmão mais novo – e nem tenho mais idade para esses parangolés afetivo-sexuais que eram recorrentes nos meus verdes negros anos.

Seis anos com minha flor-de-lis... Pois é, carniça, ainda parece que foi ontem. Fazer o que?... So sorry, periferia!

sexta-feira, setembro 16, 2016

Sou um esquerdista desiludido, diz Verissimo


Julianna Granjeia

Em meio às denúncias do mensalão em 2005, o escritor Luis Fernando Verissimo anunciou a morte da “Velhinha de Taubaté”, um dos seus mais conhecidos personagens – a última que ainda acreditava no governo. Em conversa ontem com a coluna, após participar da Pauliceia Literária, na sede da Associação dos Advogados de São Paulo, o autor se definiu como “um esquerdista desiludido” e avisou: se estivesse viva, a “velhinha” apoiaria o governo Temer.

O senhor tem 79 anos e já passou por algumas crises da história do País. Considera essa atual mais grave que as outras?

Nós já passamos por tantas crises, suicídio do Getúlio, Jânio Quadros, cassação do Collor… Todos esses foram períodos muito conturbados, nos últimos 50 anos. Mas uma crise como esta, com posições tão arraigadas de direita e esquerda, acho que nunca tivemos.

O senhor gosta de escrever sobre política?

A gente ter que dar o testemunho sobre o que está acontecendo, comentar o que está acontecendo. Acho que todo mundo tem que ter lado e deixar claro qual é o seu. Eu preferiria escrever sobre banalidades, mas a gente quase que se obriga a escrever sobre essa situação.

E qual é seu lado?

Eu me considero um homem de esquerda, acho que houve um golpe. As novas revelações sobre o Lula são lamentáveis e vamos ver como isso se desenrola.

No que acha que vai dar esse acirramento?

É prejudicial, o ideal seria um entendimento, um congraçamento nacional. O lado bom disso tudo é que os militares não se manifestaram, não intervieram. Olhando por esse lado, a coisa está boa.

Esse radicalismo está causando uma onda de ódio…

Eu recebo muita carta desaforada. Falam para eu ir morar em Cuba, que eu deveria morar na Coreia do Norte, que sou esquerda caviar. Quando recebo uma carta com xingamento, na primeira linha vejo o que é e nem leio o resto.

Acha que temos muitas velhinhas de Taubaté atualmente?

A velhinha de Taubaté foi um comentário naquele momento do (governo do general) Figueiredo (1979-1985), o fim dos governos militares. Então, ela tinha essa função de criticar a falta de credibilidade do governo através de uma ficção, de uma figura inventada. E hoje eu não sei o que a velhinha de Taubaté diria dessa situação toda, acho que ela acreditaria em todo mundo, inclusive no Temer. E estamos cheios de velhinhas de Taubaté por aí.

O senhor é uma?

Penso que não, talvez eu tenha sido no começo do governo Lula. Eu acreditava que haveria mesmo uma mudança na política brasileira. Mas acho que hoje não sou mais, não.

Decepcionou-se com Lula?

Acho que sim, com o PT em geral. Embora entenda que o governo Lula, principalmente o primeiro mandato, foi muito importante em termos de inclusão social. Mas posso me caracterizar agora como um esquerdista desiludido.

E o que o senhor espera para o futuro do País?

É importante ver o resultado das eleições agora. Ver como todas essas questões vão repercutir no nível municipal e o que vai acontecer. Não tenho nenhuma previsão. Acho que teremos tempos difíceis nos próximos anos, é um momento confuso, o Brasil está meio sem direção. O perigo maior é de retrocesso, de todas as conquistas que nós passamos serem negadas e substituídas. Mas sou um otimista, acho que tudo se arranjará.

sábado, setembro 10, 2016

Retrato 3X4 de um sujeito 100 por cento


Conheço o Marcelo Ramos há mais de 10 anos, desde a época em que ele era Subsecretário Municipal de Esportes do prefeito Serafim Corrêa.

Nascido e criado em Manaus, Marcelo sempre foi presença constante nos meus lançamentos literários por que tem uma qualidade rara em nossos homens públicos: o carinho e o respeito pelos artistas locais.

Nossa amizade se estreitou há dois anos, quando ele foi candidato a governador pelo PSB e, pelas páginas do valoroso Maskate, do queridíssimo Miguel Mourão, demos a “little help” para divulgar sua candidatura.

Ele terminou a eleição em terceiro lugar, com quase 180 mil votos (99% dos votos – 175 mil – obtidos aqui em Manaus). Uma façanha e tanto!

O Marcelo Ramos é um exemplo acabado do tipo que dispensa apresentação por dois motivos absolutamente triviais: 1) ele é gente como a gente. 2) repetindo o poeta e escritor Tenório Telles, “quem conhece o Marcelo, vota no Marcelo, sempre. Pra qualquer coisa.”

Vou falar sobre ele o que todo mundo já sabe por que com essa desculpa – a de que todo mundo já sabe – levantam-se toneladas de poeira para empanar o brilho e soterrar a memória das pessoas, prática usual neste país que cultiva deliberadamente o esquecimento.


Homem forjado na luta pela sobrevivência desde a pré-adolescência, Marcelo Ramos é um grande e corajoso personagem da nossa história política recente e verdadeiramente inatingível por referências miúdas.

Filho do advogado Umberto Lobato Rodrigues e da professora Graça Maria, Marcelo Ramos nasceu em Manaus, no dia 29 de agosto de 1973, e passou sua infância no Conjunto Dom Pedro I. Entre as travessuras de moleque, tomou banho na Cachoeira do Tarumã, fez mergulhos na Ponta da Bolívia e empinou papagaio com linha de cerol pelos céus da Alvorada.

No dia 13 de outubro de 1985, domingo, uma tragédia particular fez seu mundo virar de ponta-cabeça. Naquele domingo, seus pais haviam levado ele e seus irmãos mais novos (Umberto, 9, Glenda, 7, e Rodrigo, 3) para um balneário na Rodovia Manaus-Itacoatiara, onde costumavam participar dos Encontros de Casais com Cristo.

Uma das diversões do balneário era o famoso “rachão” de futebol entre os homens presentes, quase todos incluídos na categoria de “atletas-de-fim-semana”. Seu Umberto era um deles.

Quando a partida terminou, por volta do meio-dia, seu Umberto chamou o filho mais velho e avisou: “Chama a tua mãe, que estou passando mal...”

Foi a última vez que os dois se falaram. Seu Umberto faleceu a caminho do hospital, vitimado por um infarto do miocárdio. Marcelo Ramos havia ficado órfão de pai aos 12 anos de idade.

Dona Graça ficou com a incumbência de sustentar os filhos trabalhando em regime integral, de manhã e de tarde. Involuntariamente transformado no “homem da casa”, Marcelo Ramos ficou com a responsabilidade pela criação dos irmãos mais novos.

Era ele que levava os irmãos pela mão e trazia de volta da escola, fiscalizava os boletins de notas e auxiliava a destrinchar as tarefas de casa de cada um deles. Simultaneamente, também tinha de se preocupar com o próprio estudo.

Traumatizada com a morte prematura do marido, Dona Graça resolveu alugar a casa própria que possuía no Conjunto Dom Pedro I e se mudou com as crianças para a casa da sua mãe, no bairro da Aparecida.

Algum tempo depois, se mudou novamente, dessa vez para a Rua Dez de Julho, e deu início à sua peregrinação cigana pelos bairros da cidade. Marcelo Ramos calcula que, em dez anos, eles moraram em pelo menos dez endereços diferentes.


Aos 22 anos, Marcelo se formou em Direito, na Ufam, começou a trabalhar como estagiário em um escritório de advocacia e ensinou o caminho das pedras para seus irmãos, todos eles formados em Direito: Umberto é delegado da Polícia Federal, Glenda é funcionária concursada do TCE e Rodrigo trabalha em um escritório de advocacia.

Uma de suas grandes conquistas como advogado trabalhista foi garantir o adicional de 30% de risco de vida e periculosidade para a categoria dos vigilantes de Manaus.

Marcelo Ramos iniciou sua vida política ocupando a presidência do grêmio estudantil do seu colégio secundarista e, posteriormente, foi presidente do Centro Acadêmico da Faculdade de Direito.

Em 2004, foi candidato a vereador de Manaus, alcançando a primeira suplência.

No ano seguinte foi nomeado Subsecretário Municipal de Esportes de Manaus e, em 2006, ocupou o cargo de Chefe de Gabinete do Ministério do Esporte.

Em março de 2007, Marcelo assumiu, pela primeira vez, o mandato de vereador na Câmara Municipal de Manaus, tornando-se também presidente da Comissão de Constituição e Justiça.

Dois meses depois, tornou-se presidente do Instituto Municipal de Transportes Urbanos (IMTU) e fez uma coisa que até hoje nenhum prefeito teve coragem de fazer: enfrentou a máfia dos empresários de táxi, que controlam dezenas de placas em nomes de “laranjas” e alugam as mesmas para os verdadeiros profissionais.

Apesar de muito choro e ranger de dentes dos conhecidos “tubarões”, Marcelo licitou 127 placas de táxis, que saíram das mãos de empresários e passaram para as mãos de taxistas.

Ele também foi responsável pela implantação da “domingueira”, em que a passagem dos ônibus aos domingos custava apenas R$ 1, e da “integração temporal” em que o usuário pode trocar de ônibus, sem pagar uma nova passagem, fora de um terminal de integração, desde que se passe na catraca do ônibus seguinte dentro de um determinado período de tempo.


Em abril de 2008, reassume o cargo de vereador, sendo reeleito no mesmo ano. Foi um dos vereadores mais atuantes daquela legislatura: conseguiu aprovar a criação da data-base de professores e servidores da saúde, garantindo assim a reposição salarial anual dos mesmos, e a lei que garante 30 minutos de estacionamento grátis nos shoppings de Manaus.

Com ações na justiça, conseguiu derrubar a Taxa do Lixo, criada pelo prefeito Amazonino Mendes, evitando que o manauara pagasse mais esse tributo, e também a reintegração de 300 garis demitidos pelo prefeito em represália ao fim da taxa.

Em outubro de 2010, se elege deputado estadual com quase 19 mil votos. Na Assembleia Legislativa, atuou como presidente da Comissão de Transporte, Trânsito e Mobilidade Urbana.

Entre outras iniciativas, ele aprovou a lei que obriga todos os hospitais da cidade a realizarem o Teste do Coraçãozinho nos recém-nascidos e, com ações na justiça, a redução do ICMS da gasolina e do ICMS da internet.

Em 2014, Marcelo Ramos abriu mão de uma reeleição tranquila de deputado estadual para concorrer ao governo do Estado do Amazonas. Foi o terceiro candidato mais votado com 179.758 votos (90% deles em Manaus).

Atualmente exercendo o cargo de professor universitário de Direito Constitucional, Marcelo Ramos também é escritor já tendo publicado quatro livros: “Nossa Luta Diária”, “Velho Baú”, “Coragem” e “Conversas com Meu Pai”.


Ele é absolutamente sincero na motivação que o levou a ser candidato a Prefeito de Manaus.

“Estamos em 2016, mas ainda sendo governados por um prefeito de 1989, que tem a cabeça em 1896, na época da borracha. Ele não é uma pessoa desse tempo, é um gestor público de um tempo que já passou, um político do século passado. Tem suas qualidades, cumpriu um papel efetivo na história, mas isso tudo já passou. Precisamos de uma prefeitura moderna e é hora de uma nova geração assumir o protagonismo da política em Manaus. Eu e meu vice Josué Neto somos políticos desse novo tempo”, explica.

Casado com Juliana e pai de três filhos (Gabriel, Marcela e José Umberto), Marcelo Ramos é um exemplo bem acabado do cavaleiro de fina estampa quase em extinção nesse novo milênio: sempre bem humorado, divide com a esposa os afazeres domésticos, participa ativamente da criação dos filhos, lê apaixonadamente sobre diversos assuntos e, coisa rara em um político, não esconde suas emoções.

Ele é capaz de ir às lágrimas ouvindo o relato de uma mulher gestante que teve a bolsa estourada dentro de um ônibus quando se dirigia sozinha a uma maternidade e de ficar indignado com a queixa de um ancião que depois de ficar uma madrugada inteira ao relento para conseguir uma senha de atendimento numa UBS não foi atendido porque sua rua “estava fora da área de cobertura da unidade”. 

– Isso é uma palhaçada! – vociferou, ao ouvir o relato. “Quem fica fora de área de cobertura é telefone celular, não uma pessoa que está precisando de cuidados médicos!”

O descaso pelas pessoas mais humildes, o distanciamento do poder público em relação aos cidadãos de classe média, a escolha deliberada em dividir a cidade entre ricos e pobres – com a minoria rica recebendo as benesses da Prefeitura em detrimento da maioria pobre que vive na periferia – serviram de catalisador para que Marcelo Ramos se lançasse candidato a prefeito de Manaus.

Como deixar de votar num sujeito desse?!


No dia 2, vou de 22.

sexta-feira, setembro 02, 2016

O fim de uma Era


Sonia Zaghetto

Um céu enevoado pairava sobre Brasília nas primeiras horas do dia 31 de agosto de 2016. Nada daqueles dias ensolarados que douram o cerrado: apenas a atmosfera sufocante e seca que traduzia as horas. Debaixo daquele céu, uma Esplanada deserta, melancólica, de ressaca antecipada. Sim, um dia histórico e de reflexão – exceto para o ativismo das redes sociais, onde o clima de terceira guerra mundial continuava de vento em popa.

Pouco depois das 11 horas, o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, iniciou a sessão do julgamento de Dilma Rousseff. Às 13h35, tudo estava consumado. Não era apenas o fim do governo Dilma. Chegava ao fim uma era que expôs com toda crueza nossa infantilidade brasileira, nosso despreparo perante os embates da vida, nossa dificuldade em debater com maturidade as questões essenciais da nação.

Não vou atribuir todos os males desta terra ao PT, já que nossa história e ethos nos mostram que malandragem, jeitinho, corrupção e populismo têm lugar garantido desde priscas eras. Entretanto, é inegável que a era petista ampliou o ódio e estimulou algumas práticas que hoje estão plenamente incorporadas ao modo de agir brasileiro. Somadas ao caráter natural de parte da população e ao advento das redes sociais, constituíram um pacote explosivo que resulta na atual face da nossa sociedade.

Nos últimos anos, fomos envenenados. Não foi abrupto, com a boca sendo aberta à força e o cálice tóxico derramado goela abaixo. Não, nada disso. Foi um envenenamento gradual – a cada dia uma gota amarga e cumulativa sendo oferecida com um sorriso nos lábios. Aos poucos o organismo desta pobre Nação recebeu, sem resistência, as gotículas que se converteram no oceano de raiva mal contida que agora nos ameaça. E quando nos demos conta, lá estávamos nós, ventre inchado de ódios, vomitando a mágoa que nos encharcava as vísceras e saía boca afora, violenta e feia.

Atordoados pelo veneno, feridos pelas marcas de um passado ditatorial recente que nos apavorava, muitos acreditaram nas ilusões que viam. E reverenciaram salvadores da pátria que tinham como único objeto de adoração o seu próprio projeto de poder. Nossa gente tão crédula abraçou os discursos demagógicos, os corruptos em pele de cordeiro, os exploradores da pobreza e os que, espertamente, os insuflavam a se odiarem mutuamente.

O modo de agir era sempre o mesmo: pegava-se um problema social pré-existente e, em vez de concentrar esforços apenas em mecanismos positivos para eliminá-lo, açulava-se os brasileiros uns contra os outros. Em vez da educação que liberta, de ações positivas, do incentivo ao respeito mútuo, o país mergulhou na era da vingança induzida pelo debate superficial  e por sofisticadas técnicas de marketing. Curiosamente, a prática contraria uma das mais famosas frases de um ídolo das esquerdas, o pedagogo Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.  Não deu outra: os oprimidos adoraram inverter os lugares.

E foi assim que causas nobres e dignas de atenção – como combate ao racismo, à pobreza, ao preconceito contra homossexuais e a violência contra as mulheres –  tornou-se propriedade exclusiva de um grupo instalado no poder. Aos petistas e seus mais próximos aliados cabia o monopólio da indignação com qualquer problema de natureza social. Souberam manipular muito bem as mentes mais imaturas, dando a elas a sensação de que agora tinham voz e armas para lutar contra a opressão. Não é muito diferente das estratégias de colonização de cérebros utilizada pelo Estado Islâmico. Só mudam os resultados práticos. Quer transformar alguém num homem/mulher bomba real ou virtual? Convença-o que ele é vítima de um sistema, dê-lhe inimigos, faça-o concentrar seu ódio em um alvo específico, assegure a ele que está do lado certo e que suas estratégias – mesmo as mais estapafúrdias – são a maneira adequada de “lutar”.

O  envenenamento de almas converteu os incautos em uma espécie de Peter Pan malcriado que adora expressar, de forma teatral, sua raiva e frustração. Simultaneamente desaprendemos os fundamentos da vida adulta, como o fato de que o sucesso é fruto de esforço, tempo e dedicação; que não há almoço grátis e que o Estado não é uma vaca de miraculosas tetas de onde brotam cédulas e moedas. Para essas mentes infantis, caiu perfeitamente bem um governo que se apresentava como o grande dizimador das desigualdades mediante atos mágicos, escorados em slogans criativos. Seduzidos por memes e frases de efeito repetidos à exaustão, provocações pueris e gestos afetados, tornaram-se instrumentos dóceis de seus manipuladores. Sem jamais se dar conta de que são meros peões de um jogo muito complexo, milionário e perigoso.

Pensar tornou-se dispensável: as opiniões surgiam, prontinhas, no feed de notícias. Bastava curtir e reproduzir. Atos midiáticos tornaram-se um clássico instantâneo. A luta feminista agora tem como símbolos máximos um rastro de menstruação escorrendo pelas pernas, mamas desnudas e sovacos cabeludos exibidos como troféus – sem falar nos relatos rocambolescos que tomam as redes sociais e protestos simplistas contra cartazes de filmes de super herói. Sinceramente, só consigo ver isso como demonstração de rebeldia adolescente. Educar pela reflexão e exemplo ou trabalhar voluntariamente em instituições voltadas para dar suporte a mulheres vítimas de violência talvez não seja algo tão espetacular para colocar no Facebook. Além de que tudo isso consome muitas horas que se pode passar tentando arrumar curtidas e viralização nas redes sociais, não?

E o racismo? Reduziu-se a mantras do tipo “a casa grande surta quando a senzala aprende a ler”, que soa fortemente provocativa e atinge, indiscriminadamente, aos preconceituosos e aos que apoiam a causa embora não sejam diretamente afetados. Suspeito que Martin Luther King discordaria dessa abordagem tosca. Sem a tal educação libertadora, o que temos para hoje é um pessoal que adora se tornar opressor, repito. Foi o caso daqueles que ofenderam um rapaz branco (ó crime!) por haver cometido o pecado de “apropriação cultural” ao usar dreadlocks.

Os exageros da militância infantilizada causaram sérios danos a todas essas causas que merecem atenção. Despertaram antipatia e empurraram muita gente boa direto para os braços de políticos rudes e gurus falastrões, vaidosos e sem o menor bom senso, cuja única vantagem é ter uma suposta coragem de combater os excessos do politicamente correto. Sim, estou dizendo a todos esses guerreiros da justiça social que eles mesmos ajudaram a turbinar os seguidores fanáticos de seus adversários. É o preço que se paga por optar pelo caminho da superficialidade.

No Brasil de hoje já quase não há espaço para o caminho do meio, para os que pensam com calma. É a era dos extremos, na qual se cola na testa alheia, com facilidade e quase displicência, rótulos de todo tipo: reacionário, progressista, retrógrado, opressor, macho indócil, feminazi, coxinhas, petralhas, etc. A criatividade é imensa; a maturidade, não.

Simultaneamente, perdemos nesta terra a delicadeza do gesto, a elegância da expressão, o respeito à opinião diferente e a arte de argumentar. Nas redes sociais, tornou-se cada vez mais natural cuspir na face alheia os mais cabeludos palavrões e as mais duras agressões. Aos poucos, a Nação trouxe para a vida real as escarradas virtuais, a impaciência generalizada e esse ódio cada vez mais onipresente.

Hoje somos um país de crianças mimadas e mal-educadas, que reagem com histeria à menor contrariedade. Infantes desacostumados ao que dá estofo às civilizações: estudo, trabalho e altos valores.

Desaparece dentre nós o hábito da leitura mais longa. Qualquer texto de mais de cinco linhas torna-se “textão” e gera a inevitável e quase elogiada preguiça. Preguiça que, aliás, também se tem diante do exame da argumentação alheia. Tudo é cansativo. Sem o hábito da leitura, do estudo sério e da reflexão, torna-se compreensível a adesão ávida às armadilhas da falsa retórica.

Ah, pátria minha, que compaixão me toma ao pensar em ti. Uma terra tão rica, cuja fertilidade Pero Vaz atestou logo na chegada: em se plantando, tudo dá… Aqui está a maior jazida mineral do planeta, opulentos mananciais de água doce, biomas extraordinários, clima ameno, cenários de sonho. O que nos falta para ser grandes? Maturidade. Apenas maturidade em vários aspectos.

Maturidade para entender que não é o rótulo de “direita” ou “esquerda” que dá salvo conduto moral e atestado de bons sentimentos.

Maturidade para escolher governantes sem paixão cega.

Maturidade para retirá-los do poder quando violarem a ética ou malbaratarem os bens públicos. Sem traumas, sem guerras civis, sem a morte das amizades.

Maturidade para aceitar as regras do jogo democrático quando elas se voltarem contra interesses e desejos pessoais.

Maturidade para compreender que, no grande jogo político, há profundas manipulações mas cabe a cada um de nós, votantes, a decisão de não ser marionetes de interesses inconfessáveis. E este é um poder imenso.

Maturidade para aprender a respeitar regras e leis.

Maturidade para entender que são valores essenciais de uma nação o trabalho árduo, a boa educação e a honestidade.

Maturidade para compreender que a excelência deve ser buscada em grandes obras e pequenos detalhes. Sempre.

Maturidade para tirar os olhos exclusivamente do umbigo e saber colaborar para o bem comum, evitando sobrecarregar o organismo social. E isso vai de lixo jogado na rua à corrupção nas altas esferas.

Maturidade para entender o mais que óbvio: no Brasil tudo está por fazer e cada um tem um papel decisivo nessa tarefa.

Sei que tudo isso soa como utopia e até platitude, mas ainda cultivo na alma uma grande esperança: a de que essa época de ódios acabe por cansar a nossa gente. Que seja como aqueles relacionamentos tumultuados, que se consomem de intensa paixão por alguns meses e depois se deixam aquietar, vencidos pela intensidade dos sentimentos que ninguém é capaz de suportar por longo tempo.

Que venha esse tempo de calmaria, onde se reaprenderá a viver de verdade.

quarta-feira, agosto 31, 2016

Não é hora de ressentimentos ou revanches


O presidente da OAB, Cláudio Pacheco Prates Lamachia 
Carta da OAB (Claudio Lamachia)

A condenação de Dilma Rousseff no julgamento realizado no Senado Federal, sob o comando do presidente do Supremo Tribunal Federal, inaugura um novo momento na política nacional.

O impeachment é legal, mas não resolve todos os problemas do Brasil. O impeachment encerra mais um capítulo doloroso da história política brasileira. É uma página a ser virada, mas não esquecida. Dela, é preciso extrair lições para o futuro, para que o país não reincida nos mesmos descaminhos que levaram ao descrédito grande parte da classe política.

A OAB lamenta que a presidente eleita não possa terminar seu mandato. Mas a Constituição é clara ao estabelecer que o impeachment é a punição correta para o chefe de Estado que comete crimes de responsabilidade. É preciso respeitar e aplicar a lei.

Toda a sociedade precisa contribuir para que o Brasil supere a crise ética. Não se pode reclamar das falhas dos políticos e dos poderosos sem adotar, no cotidiano, atitudes concretas para tornar o país melhor. A população não pode se mobilizar só quando as crises chegam a níveis insustentáveis. Cidadãs e cidadãos devem participar da vida pública, tomar consciência que o voto tem consequências. É preciso conhecer muito bem o histórico dos que se propõem a assumir cargos eletivos antes de votar. A eleição para prefeitos e vereadores deste ano é mais uma oportunidade para retirar das prefeituras e das câmaras municipais os políticos que não honram o voto recebido.

Apesar da grande responsabilidade das cidadãs e dos cidadãos, a responsabilidade da classe política é maior. Eleitos para liderar a sociedade, os políticos precisam apresentar bons resultados e bons exemplos.

O novo governo, que chega ao poder pela via constitucional e não por ter vencido uma eleição, precisa conquistar a confiança da população e se pautar por valores distantes daqueles que fizeram o governo anterior perder o apoio da sociedade, chegando a níveis de aprovação mínimos.

Não se pode mais confiar a condução da coisa pública a quem tem um passado repleto de desserviços à nação ou está sob investigação. Também não se pode mais ignorar as necessidades urgentes da sociedade, como a melhoria imediata dos serviços básicos de saúde, educação, segurança e acesso à Justiça. Retirar recursos dessas áreas significa jogar a conta dos problemas econômicos no colo da parcela mais vulnerável da população.

Neste momento, é preciso repudiar as tentativas de alterações casuísticas na Constituição. As perspectivas de melhoria são reais, mas dependem do respeito ao arcabouço legal e aos valores democráticos e republicanos.

Esses são os motivos que levam a OAB a exercer, de forma ativa, o papel que lhe foi atribuído pela Constituição: o de ser guardiã da própria Carta e também dos direitos e garantias individuais. Nesta quarta-feira, o Senado deu um bom exemplo ao decidir aplicar a penalidade estabelecida pela Constituição para manobras fiscais que esconderam da população a real situação do país e provocaram grande prejuízo econômico e institucional.

A OAB não se furtou a dar um parecer técnico mostrando a legalidade do impeachment. Ele foi elaborado em ampla consulta aos representantes legítimos da advocacia brasileira, eleitos pelo voto direto dos quase um milhão de advogados e advogadas do país. A Ordem dos Advogados do Brasil também não se absteve de apontar as falhas do governo interino, assim como pediu formalmente o afastamento do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e a cassação do ex-senador Delcidio Amaral. Agora, a OAB continuará vigilante para que a Constituição e os direitos dos cidadãos sejam respeitados.

Sem política, não há democracia. Não é hora de ressentimentos ou revanches. É preciso um consenso em torno do bom senso, que ponha em debate todo o sistema eleitoral. É hora de clamar aos representantes da nação para que, acima das divergências político-ideológicas, essência do regime democrático, se unam em torno do desafio comum de reformar a política, tornando-a mais em consonância com a nobre missão que tem, de ser o fio condutor do Estado democrático de Direito.

Se aquilo que Dilma leu fosse uma redação, o autor tiraria nota zero


Deonísio da Silva

Li nesta terça-feira o que ontem ouvi: o discurso do velório sui generis da presidente afastada Dilma Rousseff. É sui generis porque a defunta, vestida de pano de cobertura de poltrona, falou.

Reitero o que escrevi no Facebook e alhures. Dilma perde muito com os apoiadores que tem. Na segunda-feira, mostrou-se “menos pior” do que nas outras vezes, não fossem, principalmente suas “apoiadoras”. O dilmês, como já observou Celso Arnaldo Araújo num livro imperdível, adora um feminino serôdio. Anteontem, voltou a dirigir-se “primeiramente às cidadãs”, como se os cidadãos não incluíssem o feminino, e deixou escorrer a verborragia incontrolável. E suas “apoiadoras” se esmeraram em piorar a situação.

A senadora Gleisi Hoffman, por exemplo, deu-lhe as costas e saudou o conjunto “Lula, Chico Buarque e seus blue caps”, no alto da galeria. E, claro, omitiu a saudação a Paulo Bernardo, seu marido, complicado com a Justiça por prospecções indevidas, não em Pasadena ou em outro feudo da Petrobrás, mas nos contracheques de servidores públicos aposentados. Até onde vão, hein!

A senadora Vanessa Grazziotin, vestida de tapete, cujo marido, o ex-deputado estadual por cinco mandatos Eron Bezerra, perdeu recentemente os direitos políticos, por improbidade administrativa quando Secretário da Produção Rural (o que será isso?), parecia fora de si, pactuada com semelhantes como o apoplético Lindberg Farias. Por que não te calas, Farias? Farias melhor se ficasses em silêncio obsequioso de ex-prefeito de Nova Iguaçu com uma montanha de processos judiciais. A senadora Kátia Abreu, vestida de toalha de mesa, deu vários sopapos na sintaxe e na lógica para mostrar quem é que manda.

Lendo o texto que Dilma leu, vi que, se fosse uma redação, o autor tiraria zero. Quando o redator sai do tema, até graves erros, como os de concordância verbal, estampados hoje nos jornais e nos “sites”, são ignorados. Para que corrigir abaixo de zero? Com efeito, esta é a nota que se dá quando a redação não aborda o tema. No caso, nem sequer o bordejou, pois o assunto não era aquele! Está claro que não foi ela quem o escreveu.

“O tempora, o mores” (que tempos, que costumes!), bradava com frequência em seus discursos o admirado Cícero, o maior orador da Roma antiga, fustigando desafetos como Catilina, que todos conhecemos ainda nos estudos rudimentares de Latim. A frase de que mais gosto, aliás, não é esta. Nem a famosa “quo usque tandem, Catiina, abutere patientia nostra?” (até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?”). Eu gosto muito desta: “omnia consilia tua patefacta sunt” (todos os teus planos foram revelados).

Para quem sabe ouvir e ler nas entrelinhas, os planos eram outros. Não eram democráticos, não! Democracia requer alternância de poder! Isto posto, vemos que a falta de ética, ontem, em resumo, andou de braços dados com a falta de estética. É só conferir amostras verbais e visuais do hospício, como o caracterizou o diretor da enfermaria e presidente do Senado, o senador Renan Calheiros.

terça-feira, agosto 30, 2016

'A morte é tudo', diz Jorge Mautner um mês após infarto


Mautner, em casa, com seu inseparável violino - Leo Martins / Agência O Globo
  
Por Arnaldo Bloch

RIO — Não faz muito tempo, Jorge Mautner desceu do seu mítico apartamento térreo no Alto Leblon (que parece uma casa maluca por estar na curva de uma ladeira) e passou a morar num local mais próximo de Amora, sua filha. A proximidade o salvou: no fim de julho, teve um infarto e foi resgatado com extrema rapidez por ela. Alguns minutos a mais seriam fatais. O episódio provocou reflexões no compositor e escritor, demiurgo-mor da herança tropicalista, autor de “Deus da chuva e da morte”. Nesta entrevista, ele descreve a experiência e fala do “livro-bomba”, em dez volumes, sobre sua militância nos anos de chumbo, no qual está trabalhando.

Você quase foi, mas não foi, e voltou. Descreva a experiência.

Eu estava aqui. Fiz sete horas de ginástica e deitei. Acordei com uma dor. Apertei aqui (mostra o peito). Apertei, apertei. Aí passou. Não é nada, pensei. Meia hora depois, veio a segunda, dez vezes mais violenta. Telefonei. Amora, minha filha, me salvou. Em cinco minutos estava lá embaixo o Alvim, motorista, amigo da casa. O médico, doutor Mansur, ficou pasmo de me ver: contou que no caminho para o hospital estava ouvindo “Maracatu atômico”, uma coincidência maravilhosa. Puseram os eletrodos. Parecia tudo bem. Aí veio o terceiro ataque, fulminante. Olha a isquemia!, gritaram. E já fui para a cirurgia. Foram três, para limpar as artérias e botar os stents.

A dor do infarto é quase um mito. As pessoas descrevem de várias maneiras. Qual a sua?

Pontiaguda e estilhaçante. Como uma bomba que explode no centro e vai te quebrando por dentro. Oito meses atrás fiz um exame, disseram que eu estava 100%, ia viver mais 40 anos. Mas eu sentia dores pelo corpo todo, e um cansaço. Acho que foi o cigarro. Comecei aos 69 anos. É como diz o samba de Noel: “Joguei meu cigarro no chão e pisei/Sem mais nenhum, aquele mesmo apanhei e fumei/Através da fumaça neguei minha raça chorando, a repetir:/Ela é o veneno que eu escolhi pra morrer sem sentir”. O que o samba não diz é que morrer sentindo dores horrorosas... Foi uma experiência fatal...

Quase fatal... você não morreu.

Fatal. Infarto é sempre fatal. Já capotei de carro com uma turma que se estraçalhou, voei pela porta e me recolheram, algum anjo de carro. Tive também úlcera perfurada e, há 8 anos, uma septicemia aguda. Mas essa, agora, foi fatal.

Como se sente agora?

A energia voltou assim que desentupiram as artérias e puseram os stents. É impressionante. Estou melhor do que nunca. Acabaram a dor e o cansaço. Tenho muito fôlego. Faço esportes desde os 7. Em 1958 comecei o tai chi. Até hoje fico nas bases, o tigre, a cegonha, o cavalo, a águia. Posso ficar horas vendo televisão fazendo bases. Graças a Lao-Tse, pai do taoismo. Mas tem também o Sun-tzu. Ele dizia que o ser humano já nasce malvado. Cresce, e fica pior. Os bons se nutrem do que os malvados produzem. Isso o Thomas Hobbes pegou e pôs no Leviatã e levou para Adam Smith: quanto mais egoísta, mais propiciador. A ambição e o egoísmo, tão achincalhados, seriam as qualidades mais nobres se olharmos por este ângulo.

Você está em qual categoria? Ambicioso e egoísta ou nem tanto?

Estou em todas as categorias. Eu sou o Messias.


Mautner: após o infarto e a inserção de três stents, peito aberto para o que der e vier - Leo Martins / Agência O Globo

Qual foi, e é, seu diálogo com a morte?

Nasci um mês depois que meus pais chegaram (no Brasil). Minha mãe estava abalada com as mortes dos seus parentes na guerra. Meu pai, que era da resistência, desde pequeno me iniciou nas coisas do Holocausto. Nunca mais! Tenho os selos antinazistas guardados. Fiquei com a babá que era filha de santo e me levava ao candomblé depois da missa. Ela entrava num quarto e voltava como uma rainha, me pegava no colo, e os tambores ribombavam. Eu brincava com soldadinhos de chumbo e fazia as formações das falanges macedônias. Em São Paulo eu saía do Dante Alighieri, descia a Itapeva e ia num necrotério que tinha no fundo do hospital Matarazzo. Ficava olhando, para ver como era a morte.

E como ela é?

Lembra do “deus da chuva e da morte”? A morte é tudo. O ser humano, que é 90% chimpanzé e 10% bonobo, começa a cultura dele pelas urnas funerárias. Nenhum outro animal faz isso. Ok, os elefantes de vez em quando vão ver os ossos dos ancestrais, levantam com a tromba, ficam lá meia hora e vão embora. Mas o homem cultiva. Tudo é ligado à pulsão de vida e da morte que somos nós, e que é a natureza. Uma estrela bate na outra, explode e nasce mais uma. A morte é o fundamento da vida e está sempre ligada à criação. Meu pai está morto e sempre converso com ele. O que importa? Como dizia o Nelson Jacobina, tudo que se imagina está em algum lugar. Ele trabalhou 40 anos comigo, teve uma metástase e nem a pílula mais cara, nem a metadona, melhoravam as dores. Só quando ele tocava. Em Jacareí insistiu num bis de uma hora. Drauzio Varela não entendia como. O que acha disso? Um milagre? É que os neurônios, como sempre insisto, são pura emoção.

Foi o que você pensou no hospital?

Depois do terceiro ataque me deram uma substância que a partir daí amenizou tudo e foi só felicidade... e continua. No hospital eu não pensava na morte. Ao contrário: fui imbuído de uma imensa alegria por estar com a Amora e os médicos e as enfermeiras, fazendo piadas sobre judaísmo.

Conte uma.

Bóris encontra Jacó chorando nas docas de Nova York e diz: “Sei por que você está triste. É que você está aqui na América e a família ficou na Lituânia. Aí Jacó responde: “Não, Bóris. Eu estou triste porque o navio com a família chega amanhã”. (Muitos risos). É isso: o deboche do próximo é proto-pré-nazista. A ironia salvadora é consigo próprio.

Diga mais sobre a amálgama chimpanzé-bonobo.

Nossa espécie foi a mais sanguinária. Tinham que lutar com outros chimpanzés e gorilas. A organização deles é como uma paranoia militar: cada um tem um posto e quer passar a perna no outro, exatamente como nós fazemos. Então não só trucidamos outras tribos, como, em períodos nos quais está tudo bem, tem comida para três meses, todo mundo feliz, o chefe como quem não quer nada pega um bebê, gira e quebra o crânio dele no tronco de uma árvore, para dar sinais ao outro lado do rio, onde os bonobos, uma sociedade matriarcal, os desafia e atrai. Tudo acaba em sexo e aí se forma a nova espécie. Essa guerra continuou. Quando nasci, o führer estava vivo. Quatro anos depois, eu saudava a volta da Força Expedicionária. Sou um homem de estado.

Falando em homem do estado, você está escrevendo um livro que mexe com sua experiência nos anos de chumbo.

É o livro-bomba. Fala da minha militância, durante 14 anos, no PCB. Um ano e meio antes do golpe já sabíamos. E vai até o período em que Gil e Caetano foram chamados de volta para dar alento ao povo brasileiro, que, em profunda melancolia e depressão, não acreditava na redemocratização. Mas eles não sabiam que era por isso. Era uma exigência do governo militar. Violeta Arraes tentou me demover, impedir, para dramatizar a luta armada. Eu era o velho comissário. Tem revelações incríveis. Meu papel nisso tudo. Serão dez volumes em flashback. O primeiro já está na editora.

E o impeachment?

Respondo de minha maneira diagonal. Não há abismo em que o Brasil caiba. É tudo artificial. A seca é artificial. Temos os maiores aquíferos do planeta. Não existe satélite nem foguete nem celular nem internet sem um minério chamado nióbio. Sem ele o mundo acaba. O Brasil tem 95% das reservas. Com estrada de ferro os preços cairiam 60%. Se navegássemos nos rios, 85%. Não vamos sair dessa enquanto não destinarmos 25% de tudo para educação, cultura e saúde. O resto é tudo blefe. Nunca tivemos lei nem governo. Foi o povo que fez tudo. Durante a escravidão, meses eram feriado para a Senzala ensinar tudo para a Casa Grande, inclusive como governar.

quinta-feira, agosto 18, 2016

Não era de submissão que ela gostava no sexo


Gabriella Feola

Ela refletia. Era muito agradecida por ser dessa geração questionadora. Ainda odiava ter medo de andar sozinha na rua, detestava caras que pensavam poder ser seu dono, mas ignorava isso e continuava lutando pra seguir livre, gozando a vida.

Gozar. Ela reinava na cama. Amava o sexo com ou sem sentimento, se aventurava no que lhe desse na telha e só se preocupava em esguichar felicidades.

Um dia ela se flagrou tendo arrepios mais fortes e contrações musculares violentas quando as mãos dele a agarram e a obrigaram ao próximo movimento. Ele. Ele mesmo, com quem saia há tanto tempo e que sempre fora tão a favor de igualdades. Depois ela se surpreendia a todo momento, esperando que o braço dele descesse mais forte sobre a sua carne, em qualquer parte dela. Queria ouvir sua voz em tom de comando, lhe ordenando coisas sujas. Nem pedia mais pela força, nem atendia às ordens dele porque queria que ele a obrigasse.Em último caso, se faltasse a força, levantava a voz para suplicar que todo o resto não pedisse seu consentimento. Gozava na violência da pequena morte e acordava achando-se culpada.

Não exatamente culpada. Contraditória. Melhor, vítima. Isso. Sentia-se contaminada pela cultura do estupro. A torrente de pornôs, O Último Tango em Paris, A Secretária… então a mídia realmente tinha conseguido convencê-la que a força masculina diante da submissão feminina é excitante. Não, a ela não convenceram. Influenciaram sua boceta e seu sistema nervoso inteiro sem um pingo do seu consentimento. Como podia ela desejar tanto e gozar tanto ao reproduzir algo que considera repulsivo?

Foi procurando a fundo suas razões, foi se pensando. Era forte e independente. Nunca gostou de de receber ordens nem reprimendas. Recorreu aos teóricos. Aliviou-se ao ver que, ano passado, quatro pesquisadoras publicaram um artigo que respondia a boa parte de seus questionamentos: “qual era a relação do padrão de comportamento de gênero e a satisfação sexual”.

Segundo a Sanchez, a Phelan, Moss-Racusin e a J. Good, a conclusão é que a sociedade estabelece um roteiro de comportamento para cada gênero e que cumprir esse papel determinado não traz prazer sexual. A realização sensorial seria pessoal e inata, não estaria ligada com o padrão imposto, mas por acaso, poderia corresponder a este. Veja. O papel de cada um era o seguinte: os homens devem tomar as iniciativas, guiar (e bancar) os sexos, enquanto as mulheres, deverão realizar os desejos dos parceiros. Fazia sentido.

Imagina um pornô comum, sem fetiche. Não, imagine só todos os pornôs sem categoria do mundo. No roteiro praticamente único deles, a atriz leva uns tapas, recebe ordens, é conduzida a uma garganta profunda meio forçada e isso é só básico. Mas, se continuar no normalzão, não vai encontrar um ator que se submeta a força de nenhuma moça, nem às ordens dela. Isso só tem na categoria dos sado-masoquistas, com gente vestida de couro, com chicote. O pornô básico mostra, com um pouco de exagero, os padrões com os que estamos acostumados no dia a dia. Os papéis existem e influenciam a muitos, definem o que é normal e o que não.

Mas essa atuação social não dirigirá ninguém a melhores gozos. Nem homens, nem mulheres. As moças que cumprem seus papeis por inércia perdem tempo e deixam de explorar e descobrir quais seriam suas verdadeiras preferências. Acabarão sempre menos satisfeitas do que poderiam e com menos vontade de uma próxima, decepcionando também o parceiro, que independente de como gosta, deixa de sentir-se desejado. 

Todos saem perdendo. Os homens que adorariam submeter-se demoram muito mais para realizar suas fantasias, afinal, hesitam em pedir para serem abatidos, penetrados, receosos de que isso lhes tire a masculinidade. As parceiras nascidas para dominar também ficam temerosas quando pensam em fazer deles o que bem quiser sem autorização. Ora, não querem que o moço broche por se sentir desconfortável naquela situação meio rara.

Agora ela reflete pensando que seu gosto pela dor seria uma característica inata, como a orientação sexual. Ótimo exemplo! Quando uma menina nasce gostando de meninas, ela pode até se submeter ao padrão, mas esse nunca lhe dará completude. Nesse caso, ela percebe que nasceu maso-hétero-sado-sexual. Mesmo que lhe ensinassem o contrário, ela iria continuar gostando daqueles dedos pressionando seu pescoço, tentando sem conseguir lhe tirar o ar.

Submissão. Toda hora repensava essa palavra que se repetia na definição da sua cabeça e dos livros. Não era de submissão que ela gostava. Ela não desejava sentir-se inferior ou impotente na cama. Não! Era o contrário. Ela se sabia forte. O que lhe instigava era a competição. Resistia a penetração porque queria ver até onde iria a força do companheiro. Era quase como colocar os outros à prova, testando se eram páreos para ela. A cada tapa que aguentava, a cada agarrada que não lhe dobrava os joelhos, ela mostrava sua força e se via causando um certo desespero no outro que suava desesperado para conseguir alcançar o limite daquela amazona.


Era a sobrevivência o que lhe excitava. Independente da força com que lhe agarrassem, ela seguiria ali mais viva do que nunca, transando, gemendo, gozando. Nada lhe tira o prazer e qualquer tentativa só o amplia. Não havia mais contradição. Não se sentia mais vítima porque sabia que no fundo, no fundo, era a sensação de seu próprio poder o que lhe disparava o gozo quando lhe faltava o ar.

quarta-feira, agosto 17, 2016

Parolagens olímpicas


De que servirão instalações e legado olímpicos para os pobrezinhos da Cidade de Deus?

José Nêumanne

Nos dez primeiros dias da Olimpíada de Londres, em 2012, o Brasil figurava na 28ª colocação no quadro de medalhas, 1 acima da 29ª até as 18 horas desta segunda-feira, com 1 medalha de prata mais e 2 de bronze menos, 1 mais no total: 1 de ouro, 3 de prata e 4 de bronze. São 8 agora e foram 7 há quatro anos. A delegação participante desta edição é recordista, com 465 atletas, 188 mais que os 259 que foram a Londres (79,5% maior, portanto) e 206 mais que o recorde anterior (277), na de Pequim. O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) estabeleceu a meta de chegar ao 10º lugar em pódios, posição atual da Coreia do Sul com 6 de ouro, 3 de prata e 5 de bronze, 14 no total, quase o dobro das conquistas brasileiras até agora. E o que vale mais: 6 a 1 em número de medalhas de ouro. Na Rio 2016 serão disputadas 306 provas, quatro a mais do que os 302 de 2012.

No último fim de semana, em entrevista à GloboNews, emissora oficial do evento, com 16 canais de transmissão, o presidente do COB e do Comitê Organizador da Rio 2016, Carlos Artur Nuzman, qualificou como “positivo” o balanço da primeira semana do evento. Na certa, ele não considerou as perspectivas de desempenho atlético, longe de assegurar o acesso do País ao Primeiro Mundo dos campeões olímpicos, mas o mantém no vexaminoso lugar de sempre, com poucos acessos ao pódio, se comparados com inscrições de atletas em disputas. Ainda assim, o ufanismo irrealista do atleta que virou cartola não produziu a primeira parolagem pública a virar notícia na primeira semana dos torneios.

Antes do festejado espetáculo de abertura, que encantou jornalistas estrangeiros, prontos para dar notícias sobre vítimas da zika e da chikugunya e velejadores contaminados pelas fezes boiando na deslumbrante Baía da Guanabara, que inspirou o compositor Cole Porter, começaram a pipocar no noticiário os senões e, depois deles, a enxurrada de declarações desastrosas, que ascendeu ao pináculo do poder político.

Uma bala perdida estilhaçou o retrovisor de uma viatura da Guarda Nacional, convocada a participar da segurança da capital olímpica mundial, mas logo fomos tranquilizados: aquele “incidente” nada teve que ver com os Jogos Olímpicos. Que, no fim das contas, nem tinham sido inaugurados.

Primeiros a ocupar a bela Vila Olímpica inacabada, os atletas australianos nem entraram em seus alojamentos, de vez que não dispunham de condições adequadas. Diante das notícias, o prefeito parlapatão da antiga Cidade Maravilhosa brincou com a hipótese de providenciar cangurus para divertirem os incômodos hóspedes incomodados. A piada infame não foi levada em conta e Eduardo Paes terminou ganhando um canguruzinho de pelúcia. Antes dos australianos, os homens da Guarda Nacional não encontraram chuveiros nem camas adequadas nas casas que lhes foram reservadas e também foram vitimados pela incúria dos gestores.

O deslumbramento dos espectadores com o espetáculo de abertura não impediu os desastres da infraestrutura. Plateias das arenas não viram os jogos porque as filas impediram. O público que compareceu à estreia do torneio de futebol feminino perdeu parte do jogo porque alguém escondeu o cadeado que abriria um portão da Arena Nilton Santos, craque que não merecia homenagem desse jaez. No primeiro dia, faltou comida nos equipamentos esportivos, pois não havia quem a fornecesse na quantidade necessária. Foram convocados concessionários de quiosques, mas as refeições não atenderam à procura por falta de quem as servisse. Garçons foram contratados, mas aí faltou a matéria-prima demandada.

Até o décimo dia depois da abertura, não se registrou nenhum dos temidos ataques terroristas. Isso, contudo, não impediu que houvesse uma baixa: o PM Hélio Vieira Andrade, de Roraima, foi morto com um tiro na cabeça, dirigindo uma viatura ocupada por outros dois militares de fora do Rio: um capitão do Acre e um praça do Piauí. Não foi um “acidente”, como definiu o presidente em exercício, Michel Temer, de forma pra lá de desastrosa. E, de fato, o assassinato não “deslustrou” a Olimpíada. Serviu, sim, foi para exibir a sesquipedal desumanidade insensível dos poderosos chefões de nossa República.

Ocupada em se livrar do impeachment inevitável, a presidente afastada, Dilma Rousseff, não se dignou sequer a lamentar a morte do agente a serviço da lei. O ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, afirmou que a Guarda Nacional errou, por ter entrado em local ocupado por traficantes de drogas. Nada disse de novo: todos sabem que tais traficantes invadiram partes do território brasileiro como se comandassem facções do Estado Islâmico em terreno hostil. O tido como inviolável esquema de segurança não havia contado com esse fato notório para qualquer brasileiro de posse de suas faculdades mentais.

Aliás, Alexandre de Moraes preferiu disputar uma modalidade na qual o Brasil é imbatível: brigar com um colega do governo por um lugar no pódio dos noticiários. Às vésperas da Olimpíada, com a Amazônia e a capital do Rio Grande do Norte ardendo, ele instalou seu QG no Rio para se mostrar ao mundo como comandante do aparato federal de segurança da Olimpíada, competindo com o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Sérgio Etchegoyen. Menos exibicionista do que o civil, o militar optou por desaparecer.

Ao inventar o balanço “positivo” da Rio 2016, seu encarregado em chefe, Nuzman, perdeu uma excelente ocasião para mostrar que a incompetência dele e de sua equipe produziu pelo menos uma revolução nos hábitos e costumes nacionais. Logo no começo da Olimpíada, um ônibus da organização com jornalistas patrícios e estrangeiros foi acertado por um “objeto contundente” desconhecido. Antes que a polícia fluminense o identificasse, outro similar foi atirado contra outro ônibus no mesmo local. A diferença entre os dois incidentes (ou melhor, “acidentes”, como prefere o presidente) é que o segundo, ao contrário do primeiro, não feriu ninguém. Ambos são adicionados aos crimes sem autoria conhecida na cidade. Só que desta vez ninguém pôs tranca na porta arrombada.

Nenhum desses casos produziu feridos, graças a Deus. Da mesma forma que o assalto à mão armada a atletas americanos saindo de uma festa na Hípica. Ao contrário de seus colegas, Ryan Lochte, nadador que conquistou medalha de ouro num revezamento, não se deitou no asfalto, como exigiam seus assaltantes. Nem por isso o grupo foi executado friamente, como sempre o fazem os bandidos. E assim estes não prejudicaram a imagem do Rio e do Brasil no exterior seria se tivessem assassinado (por “acidente”?) um ianque com uma medalha dourada no peito, mantido intacto, em prova inconsciente de respeito hospitaleiro ao insigne visitante.

Idêntica cortesia foi negada ao atleta pelo ministro dos Esportes de Banânia. Do alto de seu espírito hospitaleiro de carioca da gema, Leonardo Picciani, o garoto cujas bochechas denotam uma vida sedentária, sem pretensões esportivas, criticou o visitante porque este não estaria em hora nem em lugar apropriados. Segundo a autoridade, cujo topete é digno dos “embalos de sábado à noite” nos anos 1970, a segurança da Olimpíada no Rio de Janeiro é “absolutamente eficiente” nas competições e nos treinos em Deodoro, no Engenho de Dentro e nas arenas. Sua constatação é desmentida pelas falhas na revista pessoal e de bolsas de pessoas com ingresso e pelos flagrantes postados pela delegação chinesa de pessoas se escondendo de um tiroteio. Não foi só para contrariá-lo que, nesta segunda-feira, 15, rompeu-se um cabo de aço que sustentava uma câmara de TV, que desabou, atingindo sete pessoas, quatro delas levadas ao hospital.

No instante em que Picciani perpetrava aquela idiotice, o sociólogo britânico David Goldblatt, especialista em Jogos Olímpicos, dava entrevista a Silo Bocanera, da GloboNews, desmentindo a bazófia de que Olimpíadas deixam legados de interesse social, como garantiram Lula, Sérgio Cabral e Eduardo Paes em Genebra, em 2009, após o anúncio da vitória do Rio sobre Tóquio, Madri e Chicago. O scholar disse ainda que todo o lucro de tais eventos vai para o COI, o maior culpado pela crônica do desastre anunciado em nossos gaiatos trópicos à beira-mar. E reduziu a pó a teoria de Paes de que a iniciativa privada assumiu a maior parte das despesas na primeira Olimpíada na América do Sul. Para Goldblatt, esta só serve para enriquecer corruptos, pois se gasta mesmo é em obras públicas, que invariavelmente viram elefantes brancos, sem serventia para nada. Até agora não apareceu ninguém para informar de que servirão o Parque Olímpico de Deodoro e o Bulevar do Porto para os pobrezinhos da Cidade de Deus, onde nasceu e foi criada a judoca de ouro Rafaela Silva.