quinta-feira, agosto 18, 2016

Não era de submissão que ela gostava no sexo


Gabriella Feola

Ela refletia. Era muito agradecida por ser dessa geração questionadora. Ainda odiava ter medo de andar sozinha na rua, detestava caras que pensavam poder ser seu dono, mas ignorava isso e continuava lutando pra seguir livre, gozando a vida.

Gozar. Ela reinava na cama. Amava o sexo com ou sem sentimento, se aventurava no que lhe desse na telha e só se preocupava em esguichar felicidades.

Um dia ela se flagrou tendo arrepios mais fortes e contrações musculares violentas quando as mãos dele a agarram e a obrigaram ao próximo movimento. Ele. Ele mesmo, com quem saia há tanto tempo e que sempre fora tão a favor de igualdades. Depois ela se surpreendia a todo momento, esperando que o braço dele descesse mais forte sobre a sua carne, em qualquer parte dela. Queria ouvir sua voz em tom de comando, lhe ordenando coisas sujas. Nem pedia mais pela força, nem atendia às ordens dele porque queria que ele a obrigasse.Em último caso, se faltasse a força, levantava a voz para suplicar que todo o resto não pedisse seu consentimento. Gozava na violência da pequena morte e acordava achando-se culpada.

Não exatamente culpada. Contraditória. Melhor, vítima. Isso. Sentia-se contaminada pela cultura do estupro. A torrente de pornôs, O Último Tango em Paris, A Secretária… então a mídia realmente tinha conseguido convencê-la que a força masculina diante da submissão feminina é excitante. Não, a ela não convenceram. Influenciaram sua boceta e seu sistema nervoso inteiro sem um pingo do seu consentimento. Como podia ela desejar tanto e gozar tanto ao reproduzir algo que considera repulsivo?

Foi procurando a fundo suas razões, foi se pensando. Era forte e independente. Nunca gostou de de receber ordens nem reprimendas. Recorreu aos teóricos. Aliviou-se ao ver que, ano passado, quatro pesquisadoras publicaram um artigo que respondia a boa parte de seus questionamentos: “qual era a relação do padrão de comportamento de gênero e a satisfação sexual”.

Segundo a Sanchez, a Phelan, Moss-Racusin e a J. Good, a conclusão é que a sociedade estabelece um roteiro de comportamento para cada gênero e que cumprir esse papel determinado não traz prazer sexual. A realização sensorial seria pessoal e inata, não estaria ligada com o padrão imposto, mas por acaso, poderia corresponder a este. Veja. O papel de cada um era o seguinte: os homens devem tomar as iniciativas, guiar (e bancar) os sexos, enquanto as mulheres, deverão realizar os desejos dos parceiros. Fazia sentido.

Imagina um pornô comum, sem fetiche. Não, imagine só todos os pornôs sem categoria do mundo. No roteiro praticamente único deles, a atriz leva uns tapas, recebe ordens, é conduzida a uma garganta profunda meio forçada e isso é só básico. Mas, se continuar no normalzão, não vai encontrar um ator que se submeta a força de nenhuma moça, nem às ordens dela. Isso só tem na categoria dos sado-masoquistas, com gente vestida de couro, com chicote. O pornô básico mostra, com um pouco de exagero, os padrões com os que estamos acostumados no dia a dia. Os papéis existem e influenciam a muitos, definem o que é normal e o que não.

Mas essa atuação social não dirigirá ninguém a melhores gozos. Nem homens, nem mulheres. As moças que cumprem seus papeis por inércia perdem tempo e deixam de explorar e descobrir quais seriam suas verdadeiras preferências. Acabarão sempre menos satisfeitas do que poderiam e com menos vontade de uma próxima, decepcionando também o parceiro, que independente de como gosta, deixa de sentir-se desejado. 

Todos saem perdendo. Os homens que adorariam submeter-se demoram muito mais para realizar suas fantasias, afinal, hesitam em pedir para serem abatidos, penetrados, receosos de que isso lhes tire a masculinidade. As parceiras nascidas para dominar também ficam temerosas quando pensam em fazer deles o que bem quiser sem autorização. Ora, não querem que o moço broche por se sentir desconfortável naquela situação meio rara.

Agora ela reflete pensando que seu gosto pela dor seria uma característica inata, como a orientação sexual. Ótimo exemplo! Quando uma menina nasce gostando de meninas, ela pode até se submeter ao padrão, mas esse nunca lhe dará completude. Nesse caso, ela percebe que nasceu maso-hétero-sado-sexual. Mesmo que lhe ensinassem o contrário, ela iria continuar gostando daqueles dedos pressionando seu pescoço, tentando sem conseguir lhe tirar o ar.

Submissão. Toda hora repensava essa palavra que se repetia na definição da sua cabeça e dos livros. Não era de submissão que ela gostava. Ela não desejava sentir-se inferior ou impotente na cama. Não! Era o contrário. Ela se sabia forte. O que lhe instigava era a competição. Resistia a penetração porque queria ver até onde iria a força do companheiro. Era quase como colocar os outros à prova, testando se eram páreos para ela. A cada tapa que aguentava, a cada agarrada que não lhe dobrava os joelhos, ela mostrava sua força e se via causando um certo desespero no outro que suava desesperado para conseguir alcançar o limite daquela amazona.


Era a sobrevivência o que lhe excitava. Independente da força com que lhe agarrassem, ela seguiria ali mais viva do que nunca, transando, gemendo, gozando. Nada lhe tira o prazer e qualquer tentativa só o amplia. Não havia mais contradição. Não se sentia mais vítima porque sabia que no fundo, no fundo, era a sensação de seu próprio poder o que lhe disparava o gozo quando lhe faltava o ar.

quarta-feira, agosto 17, 2016

Parolagens olímpicas


De que servirão instalações e legado olímpicos para os pobrezinhos da Cidade de Deus?

José Nêumanne

Nos dez primeiros dias da Olimpíada de Londres, em 2012, o Brasil figurava na 28ª colocação no quadro de medalhas, 1 acima da 29ª até as 18 horas desta segunda-feira, com 1 medalha de prata mais e 2 de bronze menos, 1 mais no total: 1 de ouro, 3 de prata e 4 de bronze. São 8 agora e foram 7 há quatro anos. A delegação participante desta edição é recordista, com 465 atletas, 188 mais que os 259 que foram a Londres (79,5% maior, portanto) e 206 mais que o recorde anterior (277), na de Pequim. O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) estabeleceu a meta de chegar ao 10º lugar em pódios, posição atual da Coreia do Sul com 6 de ouro, 3 de prata e 5 de bronze, 14 no total, quase o dobro das conquistas brasileiras até agora. E o que vale mais: 6 a 1 em número de medalhas de ouro. Na Rio 2016 serão disputadas 306 provas, quatro a mais do que os 302 de 2012.

No último fim de semana, em entrevista à GloboNews, emissora oficial do evento, com 16 canais de transmissão, o presidente do COB e do Comitê Organizador da Rio 2016, Carlos Artur Nuzman, qualificou como “positivo” o balanço da primeira semana do evento. Na certa, ele não considerou as perspectivas de desempenho atlético, longe de assegurar o acesso do País ao Primeiro Mundo dos campeões olímpicos, mas o mantém no vexaminoso lugar de sempre, com poucos acessos ao pódio, se comparados com inscrições de atletas em disputas. Ainda assim, o ufanismo irrealista do atleta que virou cartola não produziu a primeira parolagem pública a virar notícia na primeira semana dos torneios.

Antes do festejado espetáculo de abertura, que encantou jornalistas estrangeiros, prontos para dar notícias sobre vítimas da zika e da chikugunya e velejadores contaminados pelas fezes boiando na deslumbrante Baía da Guanabara, que inspirou o compositor Cole Porter, começaram a pipocar no noticiário os senões e, depois deles, a enxurrada de declarações desastrosas, que ascendeu ao pináculo do poder político.

Uma bala perdida estilhaçou o retrovisor de uma viatura da Guarda Nacional, convocada a participar da segurança da capital olímpica mundial, mas logo fomos tranquilizados: aquele “incidente” nada teve que ver com os Jogos Olímpicos. Que, no fim das contas, nem tinham sido inaugurados.

Primeiros a ocupar a bela Vila Olímpica inacabada, os atletas australianos nem entraram em seus alojamentos, de vez que não dispunham de condições adequadas. Diante das notícias, o prefeito parlapatão da antiga Cidade Maravilhosa brincou com a hipótese de providenciar cangurus para divertirem os incômodos hóspedes incomodados. A piada infame não foi levada em conta e Eduardo Paes terminou ganhando um canguruzinho de pelúcia. Antes dos australianos, os homens da Guarda Nacional não encontraram chuveiros nem camas adequadas nas casas que lhes foram reservadas e também foram vitimados pela incúria dos gestores.

O deslumbramento dos espectadores com o espetáculo de abertura não impediu os desastres da infraestrutura. Plateias das arenas não viram os jogos porque as filas impediram. O público que compareceu à estreia do torneio de futebol feminino perdeu parte do jogo porque alguém escondeu o cadeado que abriria um portão da Arena Nilton Santos, craque que não merecia homenagem desse jaez. No primeiro dia, faltou comida nos equipamentos esportivos, pois não havia quem a fornecesse na quantidade necessária. Foram convocados concessionários de quiosques, mas as refeições não atenderam à procura por falta de quem as servisse. Garçons foram contratados, mas aí faltou a matéria-prima demandada.

Até o décimo dia depois da abertura, não se registrou nenhum dos temidos ataques terroristas. Isso, contudo, não impediu que houvesse uma baixa: o PM Hélio Vieira Andrade, de Roraima, foi morto com um tiro na cabeça, dirigindo uma viatura ocupada por outros dois militares de fora do Rio: um capitão do Acre e um praça do Piauí. Não foi um “acidente”, como definiu o presidente em exercício, Michel Temer, de forma pra lá de desastrosa. E, de fato, o assassinato não “deslustrou” a Olimpíada. Serviu, sim, foi para exibir a sesquipedal desumanidade insensível dos poderosos chefões de nossa República.

Ocupada em se livrar do impeachment inevitável, a presidente afastada, Dilma Rousseff, não se dignou sequer a lamentar a morte do agente a serviço da lei. O ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, afirmou que a Guarda Nacional errou, por ter entrado em local ocupado por traficantes de drogas. Nada disse de novo: todos sabem que tais traficantes invadiram partes do território brasileiro como se comandassem facções do Estado Islâmico em terreno hostil. O tido como inviolável esquema de segurança não havia contado com esse fato notório para qualquer brasileiro de posse de suas faculdades mentais.

Aliás, Alexandre de Moraes preferiu disputar uma modalidade na qual o Brasil é imbatível: brigar com um colega do governo por um lugar no pódio dos noticiários. Às vésperas da Olimpíada, com a Amazônia e a capital do Rio Grande do Norte ardendo, ele instalou seu QG no Rio para se mostrar ao mundo como comandante do aparato federal de segurança da Olimpíada, competindo com o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Sérgio Etchegoyen. Menos exibicionista do que o civil, o militar optou por desaparecer.

Ao inventar o balanço “positivo” da Rio 2016, seu encarregado em chefe, Nuzman, perdeu uma excelente ocasião para mostrar que a incompetência dele e de sua equipe produziu pelo menos uma revolução nos hábitos e costumes nacionais. Logo no começo da Olimpíada, um ônibus da organização com jornalistas patrícios e estrangeiros foi acertado por um “objeto contundente” desconhecido. Antes que a polícia fluminense o identificasse, outro similar foi atirado contra outro ônibus no mesmo local. A diferença entre os dois incidentes (ou melhor, “acidentes”, como prefere o presidente) é que o segundo, ao contrário do primeiro, não feriu ninguém. Ambos são adicionados aos crimes sem autoria conhecida na cidade. Só que desta vez ninguém pôs tranca na porta arrombada.

Nenhum desses casos produziu feridos, graças a Deus. Da mesma forma que o assalto à mão armada a atletas americanos saindo de uma festa na Hípica. Ao contrário de seus colegas, Ryan Lochte, nadador que conquistou medalha de ouro num revezamento, não se deitou no asfalto, como exigiam seus assaltantes. Nem por isso o grupo foi executado friamente, como sempre o fazem os bandidos. E assim estes não prejudicaram a imagem do Rio e do Brasil no exterior seria se tivessem assassinado (por “acidente”?) um ianque com uma medalha dourada no peito, mantido intacto, em prova inconsciente de respeito hospitaleiro ao insigne visitante.

Idêntica cortesia foi negada ao atleta pelo ministro dos Esportes de Banânia. Do alto de seu espírito hospitaleiro de carioca da gema, Leonardo Picciani, o garoto cujas bochechas denotam uma vida sedentária, sem pretensões esportivas, criticou o visitante porque este não estaria em hora nem em lugar apropriados. Segundo a autoridade, cujo topete é digno dos “embalos de sábado à noite” nos anos 1970, a segurança da Olimpíada no Rio de Janeiro é “absolutamente eficiente” nas competições e nos treinos em Deodoro, no Engenho de Dentro e nas arenas. Sua constatação é desmentida pelas falhas na revista pessoal e de bolsas de pessoas com ingresso e pelos flagrantes postados pela delegação chinesa de pessoas se escondendo de um tiroteio. Não foi só para contrariá-lo que, nesta segunda-feira, 15, rompeu-se um cabo de aço que sustentava uma câmara de TV, que desabou, atingindo sete pessoas, quatro delas levadas ao hospital.

No instante em que Picciani perpetrava aquela idiotice, o sociólogo britânico David Goldblatt, especialista em Jogos Olímpicos, dava entrevista a Silo Bocanera, da GloboNews, desmentindo a bazófia de que Olimpíadas deixam legados de interesse social, como garantiram Lula, Sérgio Cabral e Eduardo Paes em Genebra, em 2009, após o anúncio da vitória do Rio sobre Tóquio, Madri e Chicago. O scholar disse ainda que todo o lucro de tais eventos vai para o COI, o maior culpado pela crônica do desastre anunciado em nossos gaiatos trópicos à beira-mar. E reduziu a pó a teoria de Paes de que a iniciativa privada assumiu a maior parte das despesas na primeira Olimpíada na América do Sul. Para Goldblatt, esta só serve para enriquecer corruptos, pois se gasta mesmo é em obras públicas, que invariavelmente viram elefantes brancos, sem serventia para nada. Até agora não apareceu ninguém para informar de que servirão o Parque Olímpico de Deodoro e o Bulevar do Porto para os pobrezinhos da Cidade de Deus, onde nasceu e foi criada a judoca de ouro Rafaela Silva.

segunda-feira, agosto 15, 2016

Lula e Trump


Por que conservadores americanos e socialistas brasileiros, extremos opostos, estão incorporando, cada vez mais, o cinismo às ideologias?

José Padilha, O Globo

Aqui nos EUA o processo até que foi engraçado, embora o desfecho possa ser trágico. Depois de uma primária republicana ridícula, em que os candidatos conservadores se mostraram extremamente fracos e foram gradativamente eliminados da disputa pelo populismo histriônico de Trump, os conservadores ficaram em quintanilhas. Ou se afastavam de Trump e entregavam a Presidência aos democratas, ou coroavam Trump na convenção do Partido Republicano. Fora algumas exceções, notadamente Ted Cruz, os conservadores fecharam com Trump.

Estão comendo o pão que o diabo amassou. Trump associou-os ao racismo (contra os mexicanos), à ideia de que é lícito que estrangeiros interfiram nas campanhas eleitorais americanas (Putin e os hackers da Rússia), ao ódio indiscriminado contra os muçulmanos, à renegociação intempestiva e unilateral de tratados comerciais e militares (inclusive o da Otan), dentre outras barbaridades.

A despeito de tudo isso, muitos conservadores ainda relutam em dar o braço a torcer. Todavia, é crescente o desconforto entre eles. Devem estar se perguntando: e se o Trump continuar a falar besteiras? E se ele ganhar e fizer exatamente o que disse que vai fazer? O que vai acontecer com o conservadorismo americano? Será ridicularizado para todo o sempre?

Já no Brasil, depois da completa desmoralização de Lula e do Partido dos Trabalhadores durante o processo do mensalão, os socialistas também ficaram em sinuca de bico, tendo que optar entre reconhecer a desonestidade do PT e entregar o país à direita, ou continuar apoiando um projeto de poder claramente corrupto. Salvo raras exceções, escolheram a corrupção.

Agora, acuados pela Lava-Jato e incapazes de dar o braço a torcer, estão sendo forçados a adotar posições cada vez mais inverossímeis, o que no longo prazo pode levá-los ao completo descrédito: Lula não sabia do mensalão, Dilma não sabia da Eletrobras, Lula não sabia da OAS, Dilma não sabia de Pasadena, Lula não sabia do Vaccari, Dilma não sabia de Belo Monte, Lula não sabia do João Santana, Dilma não sabia do Paulo Bernardo, Lula não sabia do Palocci, Dilma não sabia do Edinho, Lula não sabia do Bumlai, Dilma não sabia do Odebrecht, Dilma e Lula, enfim, não sabiam do petrolão… Só rindo para não chorar.

Por que será que os conservadores americanos e os socialistas brasileiros, extremos opostos do espectro ideológico, estão sendo forçados a incorporar, cada vez mais, o cinismo às suas ideologias? Será mera coincidência? Acho que não. Apesar das diferenças ideológicas, os socialistas brasileiros e os conservadores americanos parecem ter algo em comum.

Se você não acredita, olhe para a economia.

Depois de um aumento desenfreado nos gastos públicos, somado a uma política de subsídio a grandes grupos empresariais via BNDES e a programas sociais meramente redistributivos, o Brasil viu milhões de pessoas saírem da miséria. Todavia, assim que a capacidade de endividamento do país acabou, assim que as “pedaladas” e fraudes contábeis se tornaram insustentáveis e muitos investimentos fracassaram por total inaptidão administrativa, a realidade bateu à porta. O PIB caiu 10% em dois anos. A arrecadação minguou.

Hoje o Brasil tem 12 milhões de desempregados, a Petrobras deve até a alma, os estados estão falidos, e a União precisa cortar cerca de R$ 150 bilhões do Orçamento para recuperar o equilíbrio fiscal… Pessoas racionais concluiriam: para melhorar de vida não basta gastar a esmo e redistribuir renda. É preciso fazer investimentos que dão retorno. Sem capacitar a população e aumentar a produtividade, a pobreza volta quando o limite do cheque especial acaba. Os socialistas aprenderam a lição? Claro que não. A cada proposta de corte nos gastos públicos e a cada menção da palavra “privatização”, gritam slogans contra a volta da política neoliberal…

Por sua vez, depois do crescimento robusto da era Clinton e do crescimento risível da era Bush, além da trágica ocupação do Iraque, os conservadores americanos também viram suas doutrinas, militares e econômicas serem refutadas uma a uma. A desregulamentação do sistema financeiro vai ajudar a economia… O Obamacare vai quebrar o sistema de Saúde… O aumento dos gastos públicos vai desvalorizar o dólar e gerar inflação… Não há aquecimento global… Só bola fora. Mudaram de ideia? Claro que não. Continuam insistindo na tese de que austeridade fiscal e redução de impostos, sobretudo para os mais ricos, geram crescimento econômico. Para mostrar que estavam certos, aplicaram o receituário ao estado de Kansas, e Kansas quebrou…

A verdade é que tanto a doutrina dos conservadores americanos quanto a doutrina dos socialistas brasileiros só servem para gerar narrativas cativantes e slogans baratos, mas não servem para balizar políticas públicas sensatas.

De um lado temos os amigos do povo, os políticos altruístas e sábios que vão usar o Estado para promover justiça social e salvar os pobres da opressão dos ricos. Do outro, temos os grandes empresários e os empreendedores destemidos, que, livres das regulações e da tirania do Estado, vão desenvolver tecnologia, criar riquezas e beneficiar a todos.

A primeira história vende bem na América Latina, sobretudo para artistas, sindicalistas e pseudointelectuais; a segunda vende bem no interior dos Estados Unidos, sobretudo para brancos de classe média e milionários. As duas narrativas são super simplificações da História econômica e não resistem a um minuto de reflexão séria. Acontece que tanto os socialistas de Lula quanto os conservadores de Trump são incapazes de pensar criticamente a respeito de suas próprias crenças. Têm em comum uma profunda desonestidade intelectual. É natural, portanto, que tendam ao cinismo.

sexta-feira, agosto 05, 2016

Um agosto fulgurante


Alamir Longo

Pois olha, esse mês de agosto
Vai ser dos mais fulgurantes.
Serão tantas emoções…,
Teremos dias radiantes:
Olimpíada e cassações
De políticos ladrões
Pintados de governantes.

Será mesmo olimpíada,
Ou vai ser uma “olim-piada”?
Pois sediar Jogos Mundiais
Nesse país é uma piada.
É outra herança maldita
De Lula e sua cambada,
Numa jogada infeliz,
Para saquear o país
E enricar a companheirada.

O segredo é pão e circo
Pra fazer o povo feliz…
Aos esquecidos, relembro:
Foi essa força motriz
Que canonizou petralhas,
Essa corja de canalhas
Que destruiu o país!

Quarenta bilhões torrados!
E nós nessa quebradeira…
Não bastou a Copa do Mundo
Com toda sua roubalheira,
E os assaltos praticados
Contra a Nação Brasileira
Que arrastaram esse país
Pro fundo da pirambeira?

Como tem levado fumo
Esse povo brasileiro!!!
Lá se vai a nossa grana
Nosso tão suado dinheiro…
Gastarão bilhões por dia
Num palco de fantasia
Montado para estrangeiro.

Doze milhões sem emprego,
É sofrimento demais…
Nossa gente agonizando
Nas portas dos hospitais;
A segurança falida,
E a educação conhecida
Como das piores mundiais.

Ah… mas teremos Jogos…
A ordem é festejar!
Sem essa de cara feia…
Vamos sorrir e cantar
Igualzinho mosca tonta,
Somente à espera da conta
Da festa quando acabar!

domingo, julho 31, 2016

O 15º Festival Folclórico do Amazonas (1971)


Ex- superintendente da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) e ex-chefe da Comissão de Obras do Exército na Amazônia, o alagoano João Walter de Andrade ostentava a patente de Coronel da reserva do Exército quando foi escolhido governador do Amazonas pelo presidente Emílio Garrastazu Médici, em setembro de 1970, dentre os quadros da Arena que pleiteavam o cargo.

No final de março, o jornalista Edmilson Rosas procurou João Walter não na condição de novo governador já empossado, mas na sua (dele, governador) condição de ex-presidente da Comissão Julgadora do VIII Festival Folclórico, e falou das dificuldades que estava tendo para realizar o Festão do Povo.

O governador garantiu que iria lhe ajudar e, para sair da intenção ao gesto, manteve como prefeito de Manaus o advogado Paulo Pinto Nery, um dos grandes entusiastas do festival. O repasse da ajuda de custo para os grupos folclóricos ficou a cargo da Emamtur, que tinha como novo presidente o jornalista Sinval Gonçalves.

Nesse meio tempo, os problemas administrativos na Empresa Archer Pinto apenas se agravavam. Em 1968, os jornalistas Phelippe Daou e Milton Magalhães de Cordeiro deixaram a empresa e, em companhia de Joaquim Margarido, fundaram a Amazonas Publicidade (hoje Amazonas Distribuidora), com o objetivo de implantar um novo conglomerado de mídia no Amazonas.

No mesmo ano, os jornalistas recebem a notícia de que o Ministério das Comunicações iria abrir uma concorrência pública para implantar uma emissora de televisão na cidade de Manaus. Nesta época, existia a TV Ajuricaba (hoje Boas Novas Manaus), e entrava em fase de implantação a TV Baré (hoje TV A Crítica).

Em julho de 1969, após examinarem detalhadamente o edital de concorrência, Phelippe, Milton e Joaquim decidiram concorrer à licitação do canal 5. Em 1970, a Amazonas Publicidade venceu a licitação e ganhou a outorga do canal 5, tendo um prazo de dois anos para iniciar as suas operações. Foi dado ali o primeiro passo para a implantação da TV Amazonas.

Os primeiros estúdios da emissora funcionaram na Avenida Carvalho Leal, 1270, no bairro da Cachoeirinha, que hoje abriga a Fundação Rede Amazônica, desde. O parque de transmissão da emissora foi construído na Avenida André Araújo, 1555, no bairro do Aleixo, onde hoje funciona a sede da emissora. No dia 10 de agosto de 1972, foi levado ao ar pela primeira vez o sinal do Canal 5, em fase experimental.

Nessa época, o jornalismo “chapa branca” da Editora Archer Pinto já vinha perdendo a liderança do mercado editorial amazonense para o jornalismo investigativo e de denúncias praticado pelo jornal A Crítica, do jornalista Umberto Calderaro Filho, e para o jornalismo sensacionalista e popularesco do recém-fundado jornal A Notícia, do jornalista Andrade Neto, que tinha como editor-chefe o jornalista Bianor Garcia.

A migração da maior parte das verbas publicitárias para as emissoras de televisão e o crescimento da venda em bancas de A Crítica e A Notícia foram os responsáveis diretos pela bancarrota de O Jornal e Diário da Tarde, que deixariam de circular alguns anos depois. 

Em 1971, entretanto, esse quadro desolador ainda não podia ser previsto com alto grau de acerto.


A Comissão Julgadora do 15º Festival era formada pelo desembargador João Rebelo Correa (presidente), Gebes Medeiros, Dilson Costa, João Barbosa, Garcitilzo do Lago e Silva, Guanabara Araújo, Moacyr Andrade e José de Castro e Costa.

O número de grupos inscritos continuou a diminuir. Dessa vez, somente 34 grupos resolveram participar da competição:

Bumbás: Ás de Espada, Diamante Negro, Amazonas, Tira Teima, Mina de Ouro, Tira Prosa e Corre Campo.

Garrotes: Luz de Guerra, Canarinho, Pena de Ouro, Malhado, Turunu Preto e Vencedor.

Quadrilhas adultas: Araruama na Roça, Coronel Jão, Soçaite no Interior, Cunhantan, Brotinhos de São Lázaro e Flor Selvagem.

Quadrilhas mirins: Brotinhos de São Lázaro e Brotinhos de São Francisco.

Tribos: Manaú, Maués e Andirás.

Pássaros: Corrupião.

Danças Regionais: Maracatu Rural, Caninha Verde, Cacetinho (Tarianos) e Camaleão.

Danças Nordestinas: Nordeste Sangrento, Cangaceiros do Nordeste, Filhos do Primo do Cangaceiro, Cabras do Lampião e Cabras de Antônio Silvino.

A única novidade daquele ano era a presença de um Maracatu Rural (maracatu do baque solto), com seus lanceiros coloridíssimos, que conquistaram uma legião de admiradores.


No dia 20 de junho, domingo, o matutino O Jornal publicou uma matéria intitulada “Esta festa é do povo”:

Hoje é dia de festa. Dia de inauguração de mais um sensacional Festival Folclórico do Amazonas. A grande promoção de O Jornal e Diário da Tarde começará logo mais às 16h30, no Estádio General Osório, com o desfile de todos os grupos. Bumbás, quadrilhas, tribos, pássaros, garrotes, danças regionais e outros conjuntos se farão presentes, para alegrar as festas juninas de Manaus. Comando Militar da Amazônia, através do general Álvaro Cardoso, Governo do Estado, com o coronel João Walter, Prefeitura Municipal de Manaus, com o dr. Paulo Pinto Nery e outras autoridades estarão presentes ao GO para prestigiar a grande festa.

A solenidade de abertura será iniciada pelo prefeito Paulo Nery, que passará a palavra ao governador em exercício Carvalho Leal e assim se declarará oficialmente aberta a maior e mais bela festa folclórica do norte e nordeste do Brasil, seguindo-se então o desfile dos diversos grupos. Esse desfile, cuja ordem já está sendo publicada nesta página, seguirá até por volta das 20 horas.

Durante os dias de exibição, segundo decidiu a comissão organizadora, tendo à frente o sr. Edmilson Rosas, bumbás e tribos, além de outros grupos, terão um tempo máximo de 40 minutos para suas apresentações. Os portadores de permanentes, por seu turno, encontrarão instruções sobre como se conduzir durante o festival. Os permanentes não dão direito á entrada para as tribunas especiais hoje e nem no domingo vindouro, datas da inauguração e encerramento do Festão do Povo. Nos demais dias, eles darão direito ao ingresso normal.

Hoje é dia de festa. Folclore da melhor qualidade estará sendo apresentado no Estádio General Osório. Depois teremos uma semana de atrações espetaculares. Aproveite, leitor, e faça do mês de junho um mês de muito divertimento para você e toda a sua família. O Festão é vosso!


No dia 27 de junho, domingo, o matutino O Jornal publicou uma matéria intitulada “O Festão chega ao fim”:

O XV Festival Folclórico do Amazonas chega hoje ao fim. Por sete dias, foi o assunto da cidade. Foi o divertimento da população. O Estádio General Osório, todas as noites, esteve tomado por incalculável multidão. Gente de todos os pontos de nossa capital, afirmando e confirmando, pela sua presença, que o Festival lhe pertence, é patrimônio valioso, é certame que não pode acabar.

Todos estão lembrados das dificuldades que marcaram este Festival, e que foram galhardamente vencidas. Pois bem. Tudo isso só serviu para atestar, com eloquência, sobretudo para nossas autoridades, que o Festão é realmente do povo. E, em sendo do povo, tem que continuar pelos tempos afora, como parte da vida de nossa terra, crescendo sempre para, de ano para ano, atrai or mais turistas nacionais e estrangeiros, com resultados dos mais positivos para o desenvolvimento do nosso Estado.

Completamos 15 anos de Festival. Quinze anos bem vividos e bem realizados. A história do Festival e seus objetivos são tão belos, quanto o ritmo e as fantasias dos brincantes. Nessa história inscreve-se, como nota marcante, a solidariedade de nossa população em todos os instantes, tornando possível a realização do Festão.

Ainda agora, cativou-se o apoio e o aplauso da massa humana todo tempo presente no General Osório, assistindo, vivando e batendo palmas para os grupos que se exibiram, que ofereceram os seus números, que fizeram as suas soberbas apresentações, mostrando ao Brasil as nossas lendas e tradições, em noites memoráveis de alegria e divertimento.

Somos agradecidos a toda essa gente que compareceu ao local do Festão, somos gratos aos que contribuíram para sua efetivação, particularmente ao Governo do Estado, Comando Militar da Amazônia, Prefeitura de Manaus, Companhia de Eletricidade de Manaus, Celetramazon, Banco do Estado do Amazonas e aos grupos típicos, a todos, enfim, inclusive trabalhadores que participaram da armação do tablado, da rede elétrica, do letreiro luminoso, do serviço de alto-falante, pois sem eles não teria sido possível a realização do XV Festival, que chega ao término, coberto de êxito e absoluto sucesso.


A Comissão Julgadora anunciou como vencedores os seguintes grupos:

Bumbás: Corre Campo.

Garrotes: Malhado.

Quadrilhas adultas: Araruama na Roça.

Quadrilhas mirins: Brotinhos de São Francisco.

Tribos: Andirás.

Dança Nordestina: Cabras de Antonio Silvino.

Pássaros: Corrupião.

Outros Grupos: Cacetinho (Tarianos).

Dança Nordestina Mirim: Filhos do Primo do Cangaceiro.

Danças regionais: Maracatu e Caninha Verde.

Melhor Amo de Boi: Dário da Silva Fontes (Tira Prosa).

Melhor Amo de Garrote: Raimundo Nonato da Silva (Malhado).

Rainha do Folclore: Almira Péres (Caninha Verde).

Rainha de Beleza: Sandra Ferreira Dantas (Flor Selvagem).

Originalidade Feminina Mirim: Solange Medeiros dos Santos (Brotinhos de São Francisco).

Originalidade Masculina Mirim: Edmilson Rosas Junior (Filhos do Primo do Cangaceiro) e Raimundo Nonato Ferreira (Luz de Guerra)

Tão logo o festival foi encerrado, o coronel Jorge Teixeira, responsável pelo Comando Militar da Amazônia, comunicou a Edmilson Rosas que a partir do próximo ano não poderia mais emprestar o Estádio General Osório para a competição por que o mesmo seria adaptado para atender os exercícios físicos dos alunos de um colégio militar, que ele iria implantar na antiga sede do 27º BC.

Criado no governo do presidente Emílio Garrastazu Médici, pelo Decreto-Lei nº 68.996, de 2 de agosto de 1971, o Colégio Militar de Manaus (CMM) inaugurou suas atividades em 7 de abril de 1972, tendo como idealizador e primeiro comandante o coronel Jorge Teixeira de Oliveira, sendo o oitavo colégio militar fundado no Brasil.

As instalações ocupadas desde a sua criação, cuja construção data de 1863, já foi sede das seguintes Organizações Militares: 1º Grupo de Artilharia de Posição (1863 até 1915), 45º Batalhão de Caçadores (1915 até 1919), 27º Batalhão de Caçadores (1919 até 1961), Quartel-General do Grupamento de Elementos de Fronteira (1961 até 1969), e o Comando Militar da Amazônia (1969 até 1971).

A partir de 1972, começou o nomadismo do Festival Folclórico do Amazonas: Estádio da Colina, Estádio do Parque Amazonense, Bola da Suframa, CSU do Parque Dez, Ferradura do Sambódromo, Cidade do Samba e Centro Cultural dos Povos da Amazônia, onde está até hoje. Mas isso são histórias para outra minissérie...

sábado, julho 30, 2016

O 14º Festival Folclórico do Amazonas (1970)


Em 1965, a Família Hauache surpreendeu o Brasil ao implantar uma das primeiras operadoras de TV a cabo do país, a TV Manauara, que atendia apenas duas ruas e duas avenidas no centro da cidade e retransmitia a programação da Rede Record, a vice-líder de audiência do país.

Até então, Manaus não possuía emissora própria, mas algumas residências já tinham aparelhos de televisão (cerca de 2 mil televisores, em uma população de 220 mil habitantes), que na época recebiam sinais vindos do Canal 2 da RCTV, emissora de Caracas, Venezuela, e do Canal 2 da TV Marajoara, de Belém (PA), ambos de péssima imagem, com excesso de ruídos e chuvisco. Foi quando surgiu a instituição dos “televizinhos”, pessoas que se aglomeravam nas janelas das residências para assistir os programas.

A TV Manauara era difícil de ser mantida em virtude de constantes problemas de corte dos cabos por causa das linhas de papagaio revestidas de cerol (mistura feita de cola e vidro moído). A tevê também não era viável economicamente por que era quase impossível atender aos pedidos de moradores para ampliar o cabeamento, que exigia uma operação de grande dificuldade técnica e custo extorsivo.

Foi quando a Família Hauache participou de uma nova licitação do governo federal e obteve a concessão de um canal em TV aberta, batizada de TV Ajuricaba, inaugurada em 5 de setembro de 1967.

Tendo à frente do empreendimento a empresária e jornalista Sadie Hauache, a TV Ajuricaba (Canal 38 UHF) se tornou a primeira emissora de televisão aberta implantada no Amazonas e foi ao ar pela primeira vez sob o comando do apresentador Heron Rizzato. A emissora retransmitia a programação da TV Tupi, a líder de audiência no país.

Com a implantação da ZFM, as lojas de produtos eletroeletrônicos começaram a vender televisores importados, das marcas Nivico, Sharp, Telefunken e Philips, entre outros, mas havia um pequeno problema: além do preço salgado, os televisores ainda precisavam ser pagos à vista. A imensa maioria das importadoras não trabalhava com crediário. Comprar televisor em Manaus era um bom negócio, mas apenas para turistas endinheirados.

Interessada em aumentar sua audiência, a TV Ajuricaba fez um acordo com as grandes lojas da cidade: se vendessem televisores à população pelo crediário, ganhariam descontos especiais nos anúncios veiculados na emissora. As lojas Bemol, TV Lar, Credilar, Rivera, S. Monteiro, Malva, Credialves, Moto Importadora e Lojas das Geladeiras, entre outras, resolveram entrar no jogo e pagar (ou melhor, financiar) pra ver.  As vendas de televisores explodiram.

Em pouco tempo, cerca de 10% das residências já possuíam a “máquina de fazer doido”. Foi para aproveitar esse “boom” que surgiu uma das primeiras e mais antigas agências de publicidade do Amazonas, a Oana Publicidade, dos irmãos paulistas Edward e Edmar Costa, fundada em maio de 1970 e em atividade até hoje, que tornou os comerciais de televisão mais criativos, inovadores e interessantes.

O Festival Folclórico do Amazonas havia acabado de encontrar seu inimigo mais poderoso: a televisão aberta.


O jornalista Luiz Verçosa, que vinha coordenando o festival desde a saída do jornalista Bianor Garcia, em 1964, também resolveu deixar a função, alegando “motivos particulares”, e foi substituído pelo jornalista Edmilson Rosas.

Após penosas negociações com o Governo do Estado, Rosas obteve uma pequena vitória: conseguiu um aumento na ajuda de custo para todos os grupos folclóricos no valor de NCR$ 1.000,00 (R$ 10 mil, em valores de hoje).

Na sequência, Edmilson Rosas conseguiu montar uma Comissão Julgadora de alto nível, formada pelo desembargador João Rebelo Correa (presidente), Gebes Medeiros, Dirson Costa, André Jobim, Moacyr Andrade, Garcitilzo do Lago e Silva, Elson Farias e Guanabara Araújo, todos renomados intelectuais manauaras.

Entre os convidados de honra daquele ano estavam a Condessa Pereira Carneiro, diretora-presidente do Jornal do Brasil, o general Arnaldo Calderari e sua esposa, dona Amélia Calderari, Enzo Boscolo, diretor de vendas da companhia aérea Cruzeiro em Buenos Aires, e sua esposa, dona Olga Boscolo, Jorge Pereira, renomado publicitário de São Paulo e diversos diretores da Cruzeiro.

Essa comitiva de quase 20 pessoas foi ciceroneada pessoalmente por Maria de Lourdes Archer Pinto, diretora-presidente da Empresa Archer Pinto, com direito a estadia em regime de boca livre total no Hotel Amazonas, almoço no restaurante Chapéu de Palha, jantar no Ideal Clube, tour pela cidade visitando a Ponta Negra, Tarumã, Teatro Amazonas e Mercado Municipal, passeio de iate pelo “Encontro das Águas” e Lago do Reis, compras na Zona Franca de Manaus, almoço no restaurante Recanto Tropical, jantar no restaurante Kavaco, etc. Tudo free.

Dizem as más línguas que foi esse tipo de vida perdulária da diretora dos jornais que fez a empresa naufragar alguns anos depois, na mais completa insolvência financeira, devendo a Deus e ao mundo.


No dia 2 de junho, o matutino O Jornal publicou uma matéria intitulada “Inscrições para o Festão do Povo serão encerradas hoje às 18 horas”:

Hoje é o último dia das inscrições dos diversos grupos que irão participar do Festão do Povo, a maior festa folclórica do norte e nordeste do país. O prazo expira às 18 horas, sendo de se salientar que os interessados devem comparecer, para não que não haja problemas com as suas participações.

APELO – Por outro lado, tendo em vista uma determinação do Juizado de Menores, exigindo a apresentação de certidão de idade para todos os menores que irão participar dos grupos, a Coordenação do Festival está solicitando às autoridades colaboração, no sentido de tornar menos rígida aquela exigência, levando-se em consideração o pouco tempo que resta para que seja iniciado o Festival. Naturalmente, o Juizado de Menores deverá levar em consideração a importância do Festão para o programa turístico do Estado todos os anos e dar sua colaboração.

QUASE TRINTA – O total de inscrições de grupos, entre quadrilhas, bumbás, garrotes, danças regionais e outros, até a noite de ontem, era de quase trinta. Esse total poderá ser aumentado hoje, já que o interesse do povo pelo Festival vem aumentando a cada dia que passa.

Grupos como a Dança da Caninha Verde que, inclusive, já ganhou dois anos consecutivos o título de “melhor do ano”, já estão inscritos. A Caninha Verde está sendo ensaiada com 60 participantes, pelo professor Ivo Moraes, no Grupo Escolar Diana Pinheiro, na Estrada do Paredão, devendo se constituir num dos grandes grupos do ano.

Também a Dança Regional do Pilão está inscrita, devendo ser esta a sua segunda participação, com 40 brincantes, estando os ensaios sendo realizados na sede do São Jorge, no bairro da Colônia Oliveira Machado.

ENSAIOS INTENSOS – Alguns grupos estão desenvolvendo intensos ensaios como é o caso do bumbá Garantido, em São Jorge, com o seu principal incentivador, sr. Antônio Alcântara, realizando encontros com os brincantes, todas as noites, na rua da Cachoeira, 233.

O bumbá Corre Campo promete, este ano, ser um dos mais movimentados. Depois de cinco anos ausente do Festão do Povo, vai voltar. Terá nada menos que 60 brincantes e uma batucada de mais de 30 pessoas.


Dessa vez somente 39 grupos se inscreveram, a menor participação de brincantes na festa desde 1958. Foi como se o festival tivesse regredido uma década:

Bumbás: Corre Campo, Tira Prosa, Mina de Ouro, Tira Teima e Garantido.

Garrotes: Luz de Guerra, Douradinho, Canarinho, Dois de Ouro, Malhado, Pena de Ouro e Vencedor.

Pássaros: Jaçanã e Papagaio.

Tribos: Andirás, Maués e Manaú.

Danças regionais: Maracatu, Cacetinho (Tarianos), Caninha Verde, Pilão e Arara.

Danças nordestinas: Cabras do Lampião, Nordeste Sangrento e Cangaceiros do Lampião.

Quadrilhas adultas: Flor Selvagem, Araruama na Roça, Rosa Silvestre, Brotinhos de São Lázaro, Brotinhos de São Francisco, Castelinho na Roça, Coroné Jão e Amazonas.

Quadrilhas infantis: Curumins da Colina, Araruaminha na Roça, Americanos na Roça, Brotinhos de São Lázaro, Caboclinhos do Amazonas e Filhos do Primo do Cangaceiro.


No dia 5 de junho, o matutino O Jornal publicou uma matéria intitulada “Festão do Povo tem encontro hoje na Fundação”:

Os responsáveis por conjuntos inscritos no XIV Festival Folclórico do Amazonas devem comparecer hoje, às 10,30 horas, à Fundação Cultural do Amazonas, oportunidade em que serão tratados assuntos de máxima importância para ele.

Para o encontro de hoje estão convidados os representantes de bumbás, garrotes, tribos e pássaros inscritos no Festão do Povo. Devemos lembrar que a Fundação Cultural fica localizada à rua Huascar de Figueiredo, entre a avenida Joaquim Nabuco e Igarapé de Manaus. O encontro contará com a presença do sr. Edmilson Rosas, da Comissão Organizadora, o qual transmitirá as instruções com referência à festa de abertura do Festival, programada para o dia 14 próximo, no Estádio General Osório.

ENSAIANDO SEMPRE – Enquanto isso, os conjuntos estão ensaiando com muito afinco. O Luz de Guerra, do popular Maranhão, todas as noites está realizando treinamento para os brincantes, visando arrebatar uma das primeiras colocações do Festival. Por outro lado, o Corre Campo, Garantido e outros bumbás, também não se descuidam dos ensaios e prometem muita movimentação para o Festival deste ano, que deverá trazer a Manaus um número elevado de turistas.

BUMBÁ CORRE CAMPO – Depois de alguns anos de ausência, volta ao Festival Folclórico, com força total, o aplaudido bumbá Corre Campo. Os seus dirigentes prometem exibições maravilhosas no General Osório e estão contando com o apoio e o incentivo de seus velhos amigos, para êxito completo de mais uma jornada deste bumbá, de nome muito elevado na história folclórica de nossa terra.

TRIBO DOS ANDIRÁS – O “tuxaua” Carlos Magno informou-nos que a sua tribo, a dos Andirás, está em “ponto de bala”. Muito afinada e com disposição de repetir os sucessos alcançados em outros “Festões”. Disse-nos, também, que está certo de que, neste ano, a Fogás dará a sua tradicional cooperação, fornecendo o transporte para os seus integrantes, o que constitui forte ajuda para o êxito da sua jornada de 1970. Os ensaios estão se realizando diariamente e o geral se dará nos próximos dias.

GULOSEIMAS – Os interessados na montagem de barraquinhas para venda de guloseimas, refresco, etc, no Estádio General Osório, deverão procurar, com urgência, a Divisão de Despesas da Prefeitura de Manaus, para a obtenção da respectiva licença. O expediente da repartição é das 7 às 11 horas.

COMISSÃO OBSERVADORA – O Conselho Estadual de Cultura debateu, ontem, longamente, o Festival Folclórico do Amazonas. E, por fim, no objetivo da proteção desse rico patrimônio de cultura popular, resolveu designar uma Comissão para observar o “Festão” desse ano. Essa Comissão está assim constituída: Presidente – Djalma Batista; membros – Genesino Braga, Mário Ypiranga Monteiro e Álvaro Reis Páscoa.


No dia 28 de junho, domingo, o matutino O Jornal publicou uma matéria intitulada “Festão termina hoje”:

Hoje, encerra-se o XIV Festival Folclórico do Amazonas, com a proclamação dos melhores que dele participaram. Termina depois de 14 dias de alegria e contentamento para o nosso povo que, este ano, mais que os anteriores, prestigiou o “Festão” que lhe pertence, lotando, completamente, todo o General Osório. Noites magníficas, inesquecíveis, de apresentações de muita categoria dos grupos inscritos no certame.

Houve, também, a feliz coincidência da vitória do Brasil, na Copa Mundial do México, e tivemos oportunidade de proporcionar à população, naquela Praça, condições para festejar o acontecimento com toda vibração e entusiasmo. Foi assim, o XIV Festival – com o apoio do Governo Estadual, da Prefeitura Municipal, do Comado Militar da Amazônia e da Companhia de Eletricidade de Manaus –, um festival coroado de pleno êxito, de absoluto sucesso.

Encerrando-o, hoje, damos por iniciados os trabalhos do XV Festival, que haveremos de realizar, com o mesmo apoio e ajuda, em 1971, para honrar o orgulho de nossa gente. A solenidade de encerramento, que será aberta pelo Prefeito Paulo Pinto Nery, seguindo na presidência o governador em exercício deputado Homero de Miranda Leão, terá como ponto alto, exatamente como nos anos anteriores, o desfile de todos os grupos folclóricos.

Depois, haverá a proclamação dos Melhores, que subirão ao tablado para receber os seus troféus e para dançar, em homenagem ao povo. A ordem do desfile está sendo publicada na página 8.

Com o término, de hoje, do Festão do Povo, queremos renovar agradecimentos a todos quanto nos estimularam e nos ajudaram a efetiva-lo, bem como tributar o nosso reconhecimento e a nossa gratidão ao valoroso povo amazonense, pelo prestígio que emprestou, fazendo com que o certame alcançasse, como alcançou, retumbante sucesso.


A Comissão Julgadora anunciou como vencedores os seguintes grupos (campeão e vice-campeão, quando houver):

Quadrilhas adultas: Araruama na Roça e Castelinhos na Roça.

Quadrilhas mirins: Caboclinhos do Amazonas e Curumins da Colina.

Bumbás: Corre Campo e Mina de Ouro.

Garrotes: Luz de Guerra e Malhado.

Tribos: Andirás e Maués.

Dança Regional: Nordeste Sangrento e Cangaceiros de Lampião.

Pássaros: Papagaio.

Outros Grupos: Cacetinho (Tarianos).

Dança Regional Mirim: Filhos do Primo do Cangaceiro.

Melhor Amo de Boi: Pedro Pereira Beira-mar (Corre Campo).

Melhor Amo de Garrote: Péricles Soares Oliveira (Luz de Guerra).

Rainha do Folclore: Iracema Lima Collier (Caninha Verde).

Rainha Mirim: Adelaide Sarah Filgueira (Brotinhos de São Lázaro).


Naquele ano, os manauaras também travaram contato com uma grande novidade: a exibição de videotapes das partidas de futebol da seleção brasileira, no México, sempre no dia seguinte, por meio da TV Ajuricaba.

Como resultado da novidade, a população fazia queima de fogos, carreata pelas principais ruas da cidade e carnaval na Av. Eduardo Ribeiro em dois dias seguidos: no dia do jogo, ouvindo a transmissão pelas emissoras de rádio, e no dia seguinte, assistindo aos jogos pela televisão. Uma grande zorra!

Foi durante as Olimpíadas de Tóquio, em 1964, que a Fifa escolheu o México como sede da Copa de 1970, seguindo o rodízio entre continentes. A Argentina, outra candidata, teve que se contentar em ver o seu sonho adiado para 1978. Na votação, o resultado foi uma goleada – 56 a 32.

O fato de a Cidade do México ser a sede dos Jogos de 1968 pesou favoravelmente – o país já teria estrutura suficiente para bancar uma Copa. A altitude quase atrapalhou o desejo mexicano.

Setenta países inscreveram-se para o Mundial. Houve desistência por problemas políticos. A Coreia do Norte, por exemplo, recusou-se a enfrentar Israel. Portugal, França, Hungria, Argentina e Espanha não conseguiram se classificar. O Marrocos tornou-se a primeira seleção africana a participar de uma Copa desde a Segunda Guerra Mundial.


Juanito, garoto vestido com o uniforme da seleção mexicana e um sombrero, foi o mascote do Mundial pioneiro na transmissão ao vivo para o Brasil.

Pela primeira vez também foram usados cartões amarelos (advertência) e vermelhos (expulsão). Também foi a primeira Copa a permitir substituições – na época, duas para cada seleção.

Na Copa que fez ressurgir o futebol arte, distante no pragmatismo inglês em 1966, a Seleção chegou ao tricampeonato mundial mostrando ao mundo ser possível jogar bonito e vencer.

Do meio-campo pra frente, só tinha craque: Clodoaldo, Gérson e Rivelino; Jairzinho, Tostão e Pelé. O time ainda tinha no banco Paulo Cezar Caju e Edu.

Na defesa, um capitão com a técnica, classe e liderança de Carlos Alberto Torres. Fora a saúde de Brito, a sobriedade de Piazza, a eficiência de Everaldo e Félix...

Foram seis vitórias em seis partidas. Seis shows, com gols espetaculares e jogadas eternizadas como o gol de Carlos Alberto no 4 a 1 sobre a Itália, na grande final.

Mas o que dizer do 4 a 1 sobre a Tchecoslováquia, do 1 a 0 sobre a Inglaterra, do 3 a 2 sobre a Romênia, do 4 a 2 no Peru e do 3 a 1 no Uruguai, na semifinal?

O Brasil comandado pelo técnico Zagallo mereceu e muito o titulo e a posse definitiva da Taça Jules Rimet.


Um dos melhores atacanfes de todos os tempos, o alemão Gerd Muller deixou sua melhor marca no México. 

O “Bombardeiro”, como era conhecido, marcou 10 gols e fez uma dupla inesquecível com outro craque, Overath.

Atacante habilidoso, forte, oportunista, tinha faro de gol. Preciso nos chutes e nas cabeçadas, era dífícil de ser marcado.

A terceira Copa conquistada, feito até hoje único de um jogador, coroou a carreira do dono da camisa 10 da seleção canarinho.


Aos 29 anos, o Mundial do México foi de Pelé. O Rei do Futebol protagonizou alguns dos lances mais lindos da história do futebol. Seja nos quatro gols marcados – destaque para o de cabeça, na final contra a Itália –, seja pelos que não marcou: o chute do meio de campo contra a Tchecoslováquia, o drible de corpo no goleiro uruguaio Mazurkiewicz, a cabeçada que o goleiro inglês Gordon Banks salvou, numa das mais difíceis defesas de todos os tempos.

Foram jogadas de cinema, na despedida em Mundiais do maior artista da bola.

Campeões do mundo, os ingleses caíram no grupo do Brasil na primeira fase, coisa que evitaram quando foram os anfitriões na Copa.

O jogo foi considerado o mais difícil para a seleção brasileira, que venceu suado, por 1 a 0. 

O English Team, em segundo lugar no grupo, pegou a Alemanha nas quartas e foi eliminado por 3 a 2.

Fora isso, ganhou o troféu antipatia desde o começo, quando afirmou que levaria água do próprio país para os jogadores beberem, com medo de a água mexicana contaminar.

As duas semifinais da Copa foram emocionantes. Brasil x Uruguai teve sobre si o fantasma de 1950. Mas Alemanha x Itália ganhou no quesito drama.


No tempo normal, a Azzurra vencia por 1 a 0, gol de Boninsegna, até os 44 do segundo tempo, quando Schnellinger empatou. Na prorrogação, mais surpresas. Gerd Müller virou para a Alemanha, Burgnich empatou para a Itália, e Riva fez 3 a 2 ainda no primeiro tempo.

Na segunda etapa, Gerd Müller voltou a empatar. Mas, a dois minutos do fim, Rivera fez 4 a 3 e pôs a Azzurra na final.


A batalha campal de 120 minutos teve cenas antológicas, como a de Beckenbauer jogando com a clavícula deslocada e o braço enfaixado no peito. 

Há quem diga que essa partida deixou os italianos exaustos para a final.

Brasil e Itália entraram em campo no lotado estádio Azteca na briga pelo tricampeonato mundial e, consequentemente, a posse em definitivo da Taça Jules Rimet.

Em cabeçada sensacional, Pelé abriu o placar, mas Boninsegna empatou, ainda no primeiro tempo.


Na segunda etapa, Gérson, em jogada individual, fez 2 a 1. Jairzinho, o Furacão, marcou o terceiro, e Carlos Alberto, em bola rolada pelo Rei do Futebol, completou o placar e a festa brasileira.


O 13º Festival Folclórico do Amazonas (1969)


Com a implantação da Zona Franca de Manaus, a capital amazonense rompeu cinco décadas de estagnação econômica. O aporte de capitais atraídos pelos incentivos fiscais dinamizou os negócios e aumentou a oferta de empregos. A população urbana registrou taxas de crescimento superiores à média nacional. Os imóveis da área central atingiram níveis crescentes de valorização, motivando a expansão da cidade para além do Bairro de Flores, nos sentidos norte e oeste.

Em pouco tempo, Manaus converteu-se em importante centro comercial de importação, alavancando o turismo doméstico e o segmento de serviços. O setor comercial foi o primeiro a se fortalecer com o projeto Zona Franca: nos primeiros anos, Manaus funcionou como um grande Shopping Center para todos os brasileiros.

O Governo Federal, à época, não permitia importações e restringia a saída de brasileiros para o exterior. A ZFM funcionou como uma válvula de escape para as pessoas de melhor poder aquisitivo, que encontravam em Manaus as novidades importadas do mundo inteiro.

Nessa época, as importações não tinham limites e obedeciam apenas a cinco restrições, estabelecidas no Decreto-Lei 288/67 (que permanecem até hoje): armas e munições, fumo, bebidas alcoólicas, automóveis de passeio e artigos de perfumaria, cuja importação só poderia ser feita mediante o pagamento de todos os impostos.

Do leite em pó holandês ao cristal da Bohemia, de perfume francês a gravata italiana, de bata indiana a blue jeans norte-americanos, de televisão japonesa a aparelho de som europeu, tudo era vendido livremente no comércio da cidade, com permissão de serem levadas, como bagagem acompanhada de passageiro saído de Manaus, seis unidades de cada produto importado de uso pessoal, o que tornava a viagem um grande atrativo.

Entre 1967 e 1969 surgiram mais de três mil lojas de produtos importados, oferecendo mais de 10 mil empregos aos amazonenses. A indústria da construção civil também deu um salto gigantesco, seja por conta da iniciativa privada (duplicação do Hotel Amazonas, construção do Tropical Hotel e do Imperial Hotel) ou da iniciativa governamental (construção do Aeroporto Internacional Eduardo Gomes e do Estádio Vivaldo Lima, implantação do Distrito Industrial), começando a atrair milhares de moradores do interior.

A cidade começou a inchar. Dos 175 mil habitantes que tinha em 1960, Manaus passou a ter uma população de 315 mil habitantes em 1970. Um crescimento exponencial.


Há algumas explicações possíveis para o Festival Folclórico do Amazonas ter iniciado seu declínio a partir desse ano.

Em uma situação de pleno emprego, os jovens tinham que trabalhar durante o dia e estudar à noite, ficando impossibilitados de participarem dos ensaios dos grupos folclóricos.

Além disso, a inflação renitente havia reduzido a ajuda financeira aos grupos para pouco mais da metade, o que desestimulou vários dirigentes.

O dinheiro disponibilizado pelo Governo do Estado ficou assim distribuído: Bumbás e Tribos, NCr$ 500,00 (R$ 6.600,00, em valores de hoje). Garrotes, NCr$  400,00. Quadrilhas adultas, NCr$ 350,00. Danças nordestinas, Danças regionais e Brigues: NCr$ 300,00. Quadrilhas mirins, NCr$ 200,00.

O XIII Festival teria início no dia 22 de junho, se estendendo até o dia 30. A Comissão Julgadora era formada pelo desembargador João Corrêa (presidente), Moacyr Andrade, Garcitilzo de Lago e Silva, Dirson Costa, Elizabeth Silva, Guanabara Araújo, João Barbosa e José de Castro e Costa.

Naquele ano, apenas 48 grupos se inscreveram para a disputa:

Bumbás: Garantido, Tira Teima, Às de Espada, Tira Prosa, Amazonas e Mina de Ouro.

Garrotes: Luz de Guerra, Malhado, Vencedor, Galante, Veludinho, Pingo de Ouro, Dois de Ouro, Canarinho, Pena de Ouro e Sete Estrelas.

Tribos: Andirás, Maués e Maués Mirim.

Danças Nordestinas: Cabras do Lampião, Bando do Severo Julião e Filhos do Primo do Cangaceiro.

Brigue: Independência.

Quadrilhas adultas: Soçaite no Interior, Coronel Gama, Granfinos no Arraial, Brotinhos de São Lázaro, Brotinhos de São Francisco, Festa na Roça, Araruama na Roça, São João na Roça e Flor Selvagem.

Danças regionais: Caninha Verde, Cacetinho (Tarianos), Arara, Pilão e Reisado.

Quadrilhas mirins: Gaveanos no Roçado, As Quatro Rosas, Brotinhos de São Lázaro, Curupira na Roça, Cantiga de Roda Ciranda, Araruaminha na Roça, Rurarê Mirim, Curumins da Colina, Brotinhos de Santo Antonio, Caboclinhos do Amazonas e Santo Antonio na Roça.

O tempo de apresentação dos grupos também foi modificado. Quadrilhas adultas, quadrilhas mirins, garrotes, brigues e outros teriam 20 minutos, bumbás, pássaros e danças regionais, 30 minutos, tribos, 50 minutos, e peleja de amos, 10 minutos.

Entre as novidades daquele ano a Dança do Pilão e o Reisado, que se apresentavam pela primeira vez no festival.


No dia 14 de junho, sábado, o vespertino Diário da Tarde publicou uma matéria intitulada “Festão do Povo em notícias”:

Continuam incessantemente os preparativos para o XIII Festival Folclórico do Amazonas, realização tradicional do O Jornal e Diário da Tarde, com a colaboração do GEF, Governo do Estado, Prefeitura e, agora também, do DEPRO. O grande tablado já está em fase bem adiantada devendo ficar totalmente pronto nos primeiros dias da próxima semana.

Por outro lado, os 50 grupos folclóricos já estão ultimando seus ensaios. Mais de quatro mil brincantes prometem abrilhantar o “Festão do Povo”, no Estádio General Osório, no tricentenário de Manaus. Na segunda feira vindoura, a Comissão Organizadora iniciará a visita a todos os bumbás, quadrilhas, tribos e demais grupos típicos. Desta maneira, podemos dizer que já estamos às portas do “Festão do Povo”.

A direção das quadrilhas Araruama na Roça e Araruaminha na Roça está convidando as autoridades e o povo em geral para participarem do grandioso ensaio daquelas tradicionais quadrilhas do Amazonas, que será realizado hoje, às 21 horas, à Avenida Traumã, 1429, no bairro da Praça 14. Ressaltamos que o ensaio da quadrilha mirim será às 17 horas.

A Dança Regional do Arara, integrada por alunos do Instituto de Educação do Amazonas, participará do “Festão do Povo”. Já estão sendo feitos os preparativos finais para a sua apresentação.

No número 531 da Rua General Carneiro, vários brincantes que participam da quadrilha Brotinhos de São Francisco estão ultimando os preparativos para o ensaio geral que será realizado hoje às 20h15, sob a direção do sr. Mário Ribeiro da Silva.

O tradicional bumbá Mina de Ouro, que voltará novamente a apresentar-se no “Festão do Povo” após alguns anos de ausência, está em francos preparativos. Seu ensaio geral será no dia 21 deste mês.

Também a quadrilha Brotinhos de São Lázaro prepara-se para seu ensaio geral que será realizado no dia 15 às 20 horas. A quadrilha mirim, de mesmo nome, ensaiará no dia 19, iniciando no mesmo horário. O local é no Centro Social de São Lázaro, rua São Vicente nº 492, no bairro de São Lázaro.


A ordem de apresentação do XIII Festival, com 48 grupos inscritos e pouco mais de 4 mil brincantes, ficou assim definida:

Dia 22 (domingo) – Desfile de abertura do “Festão do Povo”, a partir das 16 horas, no Estádio General Osório, de acordo com a ordem pré-estabelecida. Abertura do festival pelo prefeito Paulo Nery. Saudação do governador Danilo Areosa. Apresentação da Comissão Julgadora.

Dia 23 (segunda). À tarde. Cantiga de Roda Ciranda, Garrote Vencedor, Quadrilha Mirim Araruaminha na Roça e Garrote Canarinho. À noite. Quadrilha São João na Roça, Dança Regional do Pilão, Dança Nordestina Bando do Severo Julião e Bumbá Mina de Ouro.

Dia 24 (terça) – À tarde. Quadrilha Mirim Caboclinhos do Amazonas, Dança Nordestina Filho do Primo do Cangaceiro, Brigue Independência e Garrote Pena de Ouro. À noite. Quadrilha Coronel Gama, Dança Regional Caninha Verde, Quadrilha Granfinos no Arraial, Garrote Luz de Guerra e Bumbá Ás de Espada.

Dia 25 (quarta) – à tarde.  Quadrilha Mirim Curupira na Roça, Quadrilha Mirim Brotinhos de Santo Antonio e Garrote Sete Estrelas. À noite. Quadrilha Flor Selvagem, Dança Regional Reisado, Quadrilha Brotinhos de São Francisco e Bumbá Garantido.

Dia 26 (quinta) – À tarde. Quadrilha Mirim As Quatro Rosas, Garrote Galante, Quadrilha Mirim Brotinhos de São Làzaro e Garrote Veludinho. À noite. Quadrilha Festa na Roça, Quadrilha Soçaite no Interior, Bumbá Tira Teima e Tribo dos Maués.


Dia 27 (sexta) – À tarde. Quadrilha Mirim Santo Antonio na Roça, Quadrilha Mirim Gaveanos no Roçado e Garrote Pingo de Ouro. À noite. Quadrilha Brotinhos de São Lázaro, Dança Regional do Arara, Garrote Malhado e Bumbá Amazonas.

Dia 29 (sábado) – À tarde. Quadrilha Mirim Puracê Mirim, Quadrilha Mirim Curumins da Colina, Tribo Mirim Maués e Garrote Dois de Ouro. À noite. Quadrilha Araruama na Roça, Dança Nordestina Cabras do Lampião, Dança Regional Cacetinho, Bumbá Tira Prosa e Tribo dos Andirás.


No dia 30 de junho, domingo, o matutino O Jornal publicou uma matéria intitulada “O adeus do Festão”:

Depois de 7 dias de maravilhosas exibições à tarde e à noite no Estádio General Osório, exibições a cargo de 48 grupos típicos – bumbás, tribos, garrotes, danças regionais e nordestinas, brigues, quadrilhas adultas e mirins – encerra-se, hoje, o XIII Festival Folclórico do Amazonas, promoção magnífica de O Jornal e Diário da Tarde, com o apoio do Governo Danilo Areosa, Prefeito Paulo Nery, Grupamento de Elementos de Fronteira e da Companhia de Eletricidade de Manaus. Desfilarão, como na abertura, todos os grupos que participaram do certame, recebendo do público os calorosos aplausos que merecem.

Estarão presentes para encerrar o Festão do Povo, com chave de ouro, e anunciar o início das providências do XIV Festival Folclórico do Amazonas, o governador Danilo Areosa e o prefeito Paulo Nery, além de numerosas autoridades civis e militares. Terminado o desfile, com todos os grupos no gramado do Estádio, o governador Danilo Areosa concederá a palavra ao presidente da Comissão Julgadora que anunciará os Melhores do Festão do Povo deste ano, procedendo a entrega dos troféus que lhe cabem.

Por último, dançarão no famoso tablado do estádio os grupos vencedores no seu adeus, no adeus ao Festival Folclórico, cujos realizadores prometem tudo fazer para, no próximo ano, levar a efeito um certame de maiores proporções, porque o Festão não pode parar. O seu destino é crescer sempre, de ano para ano, constituindo-se, cada vez mais, no patrimônio mais caro e mais valioso do nosso povo.

AGRADECIMENTO – Ao terminar o Festival cumprimos o grato dever de agradecer ao povo a sua solidariedade, manifestada pela presença maciça a todas as exibições; às autoridades que contribuíram materialmente para a realização do certame; e, particularmente, ao comandante, oficiais e praças da briosa Polícia Militar do Estado, pelo eficiente policiamento do Estádio, agradecimentos que, nesse particular, são extensivos ao Chefe de Polícia e seus subordinados, inclusive os que compõem a Delegacia de Trânsito.

O CAMPO É PRIVATIVO DOS GRUPOS – O gramado do Estádio é privativo dos grupos folclóricos assim como o é o tablado para as autoridades, comissão julgadora e jornalistas. As autoridades policiais da PME, da Polícia Civil e do Corpo de Bombeiros não permitirão a entrada de pessoas que não sejam as já acima mencionadas. Pedimos a compreensão de todos para esse fato, a fim de que seja assegurado o brilho e o pleno sucesso no encerramento do Festão.


A Comissão Julgadora apontou como campeões os seguintes grupos:

Bumbás: Tira Prosa e Mina de Ouro.

Garrotes: Luz de Guerra

Danças Regionais: Cacetinho (Tarianos) e Caninha Verde.

Danças Nordestinas: Cabras do Lampião.

Tribos: Andirás.

Quadrilhas mirins: Brotinhos de São Lázaro.

Quadrilhas adultas: Flor Selvagem.

Dança Nordestina mirim: Filhos do Primo do Cangaceiro.

Melhor Amo de Bumbá: José Ribamar do Nascimento (“Zé Preto”, do bumbá Amazonas)

Melhor Amo de Garrote: Péricles Soares Oliveira (Luz de Guerra)

Rainha do Festival: Sílvia Costa (Tribo dos Maués)

Rainha mirim: Terezinha Ventura (Caboclinhos do Amazonas)


Neste ano, a Comissão Julgadora não escolheu o vencedor do Prêmio Sepetiba, para o melhor brincante.