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segunda-feira, julho 24, 2017

ABC do Fausto Wolff (Parte 9)


CATARINA, a Grande (1729-1796) – Está aí uma mulherinha pra feminista alguma botar defeito: pintou, bordou, cerziu, tricotou, crochetou, trepou, bacanalou, bestializou, barbarizou, transou, deu, comeu, escalou, enfim, vocês entenderam que ela era grande no esporte, não é?
Além disso, foi imperatriz da Rússia e – como a maioria das putas – devia ser simpática, pois, embora alemã de nascimento, era amada pelo povão.
Filha do príncipe Anhalt Zerbst, aos dezesseis anos casou com Pedro, o futuro Czar.
Um ano depois ela encheu o saco e informou à escandalizada corte, provavelmente numa linguagem mais refinada do que a do locutor que vos fala, o que, em síntese, seria o seguinte: “Há um ano que eu venho tentando, mas não há jeito de o Pedro me comer!”
Dito isto, passou a dar descaradamente para dois sujeitos: Saltykov e Poniatowski.
O que tinha de jeitosa tinha de descarada.
Deu tão abertamente que Pedro foi obrigado a bani-la do palácio.
Pra que a bichona foi fazer uma coisa dessas!
A massa ignara ficou puta dentro das calças: “Como é que é, Pedroca? Não comes a Catarina e ficas aí dando uma de machão?”
Resultado: Pedro foi destronado e a princesinha alemã colocada em seu lugar.
Rapidamente ela provou que sabia fazer duas coisas muito bem: felacio e política.
Fazia ambas con gusto.
Dizem as más-línguas – quero dizer: línguas não tão boas quanto a dela – que os oficiais de sua guarda pessoal que não fossem horrendos, eram parte do seu estábulo de garanhões.
Todas as noites, antes de dormir, ela selecionava um para lhe fazer companhia.
Se agradasse, o cara passava a ser amante oficial com todas as regalias até... a primeira broxada, ocasião em que era posto na reserva.
O negócio funcionava mais ou menos assim: ela dava um pulo ao estábulo de oficiais-garanhões de régua na mão.
Selecionava um, que mandava para o exame médico.
Depois do esculápio da corte dar o seu nihil obstat do ponto de vista físico, ela o mandava para ser provado por duas amigas e confidentes: a condessa Bruce e mme. Protassav, que, é claro, também eram da fuzarca.
Somente depois das duas dizerem “Pode ir, imperatriz, que é uma boa”, é que ela o nomeava ajudante-de-ordens para servir junto ao seu leito.
Também gostava de cachorros e cavalos e era tão vaidosa que depois de mandar fazer uma peruca deixou o peruqueiro três anos na cadeia para que não espalhasse a notícia.
Confessou na ocasião: “O defeito das bichas é que elas falam demais!”
O talento de Catarina como felatriz foi imortalizado nos móveis do palácio Gatchina, perto de Leningrado, que sobreviveu à revolução de 1917.
Num móvel, a imperatriz amada por seu povo aparece chupando uma iguaba.
O Estado de Santa Catarina não tem nada a ver com ela, que era grande, mas não era santa.

CELIBATO – No mundo pré-cristão já havia muitas restrições a sacerdotisas e sacerdotes transarem entre si ou com a plebe rude. A coisa, porém, funcionava mais para as mulheres-sacerdotisas do templo de Minerva e Diana (duas deusas que não eram chegadas ao sexo oposto).
Não existe no Novo Testamento nenhuma passagem que fale em celibato para os apóstolos.
Em verdade, a primeira vez que se exige a castidade dos padres é no Conselho de Elvira, na Espanha, no ano de 305.
Há muitas lendas sobre padres que corriam das mulheres como o diabo da cruz.
Eu, pessoalmente, nunca vi falar, em tempos modernos, de algum padre que tenha permanecido casto a vida inteira.
Trata-se de uma jogada inteligente da Igreja católica, que jamais abolirá o celibato para padres, salvo em casos muito especiais.
É que vestido com a batina, com aquela voz especial de seminarista, aos olhos do homem comum, o padre não é homem e nem mulher e está acima das coisas da carne.
Se não pensasse desse modo, nunquinha que o camponês deixaria sua mulher se confessar com outro homem.
Se o padre Alexandre VI, nascido Rodrigo Bórgia, aos sessenta e dois anos tinha uma amante de dezesseis, bem mais moça que muitos de seus filhos bastardos, imaginem o que não poderia fazer um padrezinho discreto do interior!
Um modo tranquilo do Vaticano assegurar a virgindade dos padres seria castrá-los ou parar de falar no assunto.
Fora da Igreja há alguns casos célebres de castidade e celibato: Immanuel Kant morreu virgem e sir Isaac Newton nunca foi para a cama com uma mulher (ou homem ou gato ou cachorro), o que pode não explicar seu gênio matemático, mas explica suas constantes dores de cabeça.
Bernard Shaw casou-se e, inquirido sobre os prazeres da vida sexual, respondeu: “Experimentei uma vez. Tedioso, ridículo e cansativo”.
Foi casado com mme. Bernard Shaw, mas nunca fuderam.

CENSURA – Em qualquer país razoavelmente civilizado, quando ela existe, é apenas classificatória, ou seja: determinados espetáculos só podem ser assistidos por maiores de dezoito anos. O Brasil, que ainda está fazendo vestibular pra nação, tem e não tem censura.
Não tem porque deram até uma festa (quando o deputado Fernando Lyra era ministro da Justiça), no teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro, para comemorar o seu fim.
E tem porque sempre que qualquer pessoa ligada à uma alta autoridade judiciária, legislativa, executiva ou clerical se sente “escandalizada” diante de obra escrita, falada, televisada, etc., a censura volta a ser acionada.
Foi assim por ocasião de um filme chatíssimo de Godard – Je vous salue, Marie –, que acabou não passando no Brasil.
Interessante que na mesma época a televisão apresentava um comercial no qual os três reis magos davam de presente para o menino Jesus um walkie-talkie e a Virge Maria piscava os olhos de felicidade.
Ninguém reclamou.
Eu disse que o Brasil está fazendo vestibular para nação porque não se pode considerar nação um país que impede quase 100 milhões de seus filhos de exercerem seus direitos de cidadania.
Daí a censura: uma instituição fascista composta de alguns senhores que se consideram sexual e politicamente superiores aos mortais comuns.
Imaginem que esses senhores passam o dia inteiro vendo obras perigosas que se fossem realmente tão perigosas já os teria transformado em verdadeiros maníacos homicidas.
De todas as censuras, a pior de todas é a autocensura.
Imaginem que quinhentos anos antes de Cristo, Sófocles escreveu uma tragédia na qual o personagem central, Édipo, além de matar o pai, Laio, casa-se com a mãe e tem filhos com ela.
Dois mil e quinhentos anos depois, Dias Gomes escreve uma novela de TV em cima da peça de Sófocles, só que nela o filho não vai pra cama com a mãe.
Progrediu ou não progrediu a autocensura?
Talvez mais perigosa que a autocensura seja a censura política.
O caso que me dá arrepios foi registrado no filme dirigido por Sydney Pollack, Os Três Dias do Condor, no qual o protagonista descobre uma trama da CIA para assassinar líderes políticos e dar um golpe no país.
Ameaçado de morte, ele busca refúgio na redação do New York Times, onde pretende denunciar tudo.
O filme acaba com ele entrando na redação e o espectador sem saber se o jornal faz ou não parte da conspiração.
Macaqueamos em tudo os Estados Unidos, menos no que eles têm de positivo.
Por que não colocamos na nossa Constituição a primeira emenda da Constituição americana: “Não se pode legislar sobre liberdade de expressão”?

ABC do Fausto Wolff (Parte 10)


CIRCUNCISÃO – Invenção de Deus. Sério. Um dia ele estava muito entediado e disse: “Aquele que tiver oito anos entre vocês deve ser circuncidado. Quem não tiver o prepúcio cortado terá cortada a sua alma à parte do meu povo, pois quebrou o pacto” (Gênesis, XVII, 10-14). Quer dizer: Deus, além de ter posto uma cobra no Paraíso, ainda fez um homem que precisava ser mutilado! É dose!
E ele, Deus, será circuncidado? E se é, quem levou a cabo a operação? E se não é, não estará transgredindo a sua própria lei?
Embora os judeus e muçulmanos pretendam que Deus e Alá tenham sido os inventores da circuncisão (ato de cortar parte do prepúcio dos recém-nascidos e neófitos entre judeus e algumas seitas muçulmanas), a verdade é que este rito de mutilação (sem perguntar a opinião da criança) já era praticado em tempos pré-bíblicos.
Até metade do século passado, uma tribo árabe costumava tirar toda a pele do pênis do menino em frente do seu pai e futura noiva.
Uma quinta parte dos garotos morria na operação e aquele que não morresse, mas chorasse, acabava sendo morto pelo próprio pai, por ser covarde e indigno.
Certas tribos africanas que nunca ouviram falar no deus dos judeus preferem circuncidar as meninas, amputando-lhes o clitóris.
Como vocês podem ver, o único fenômeno que realmente não conhece limites é a estupidez humana.

CLÉOPATRA (69 a.C. – 32 a.C.) – Como a História é sempre escrita pelos vencedores, é preciso dar um bom desconto. Foram romanos como Virgílio (seu contemporâneo) e Plutarco (cem anos depois) que escreveram sobre Cléopatra. Aparentemente não era um mulherão: baixinha de traços delicados, mas com uma energia, charme, sensualidade e ambição impressionantes. Tão impressionantes que estou aqui escrevendo sobre ela mais de 2 mil anos depois da sua morte, em vez de ir à praia.
Foi a sétima Cleópatra e a última rainha da dinastia Ptolomeu, macedônios que governaram o Egito durante trezentos anos. Para quem não sabe, a Macedônia ficava onde hoje está a Iugoslávia.
Diderot dizia que se o nariz de Cleópatra fosse um pouco maior ou um pouco menor, a história da humanidade seria outra. Diderot não entendia nem de retórica nem de assalto.
Por que não dizer então que se César, conhecido como marido de todas as mulheres e mulher de todos os maridos, fosse um pouco mais viado do que era, o mundo não seria hoje o que é?
O pai de Cleópatra, Ptolomeu XII, vivia de porre e inteiramente subjugado ao poder romano.
Quando ele morreu, Cleópatra, segundo o costume egípcio, casou com o irmão Ptolomeu XIII. Ela tinha dezessete e ele dez anos.
Ptolomeu era uma bichinha muito dengosa e inteligente e percebeu logo que se deixasse a irmã-esposa (o casamento nunca foi consumado) permanecer no Egito ele é que não permaneceria muito tempo no trono.
Aconselhada por bichas mais taludas, expulsou nossa heroína, que fugiu para a Síria onde preparou um exército para invadir o Egito.
A esta altura, César, um careca de seus cinquenta anos, mas o homem mais poderoso do mundo, resolveu acabar com a briga das crianças.
Cleópatra, que parecia saber que seria tema de Gibbon, Shakespeare, Shaw e uma porrada de diretores de cinema medíocres, preparou sua rentrée triunfal.
Seu escravo, Apolodorus, jogou-a de dentro de um tapete e ela foi rolando até os pés de César no palácio de Alexandria. Aparentemente o coroa gamou e a comeu no mesmo dia.
Depois tentou reconciliá-la com o esposo-irmão, mas a bichinha morreu numa batalha e ela casou-se com outro mano, ainda mais moço, Ptolomeu XIV, que morreu envenenado posteriormente.
Com César teve um filho chamado Cesário e dois filhos com Marco Antônio.
Pode-se dizer que tanto César quanto Marco Antônio se apaixonaram de fato por Cleópatra.
Ela, porém, não era uma bobinha qualquer: dona de uma cultura poderosíssima, queria – e quase conseguiu – fazer do Egito o Império Oriental.
Não se deixou aprisionar viva, como pretendia Otávio, mas deu um jeito de ser mordida por uma serpente naja. Saiu de cena tão espetacularmente como entrou.
Seu filho com César foi assassinado por ordem de Otávio e seus filhos com Marco Antônio foram criados como patrícios romanos.
Era o fim da dinastia Ptolomeu, mas a morte de Cleópatra a transformou numa legenda, o símbolo que mantém vivo o nacionalismo egípcio até os dias de hoje.
Não era bem o nariz – conforme queria Diderot – que amarrava o poder a Cleópatra. Ela teria sido a mais famosa felatriz do mundo antigo. Segundo Virgílio, teria chupado mais de mil homens.
Talvez por isso os gregos a chamassem de Cheílon (a dos lábios grossos), ou a mulher das mil bocas, que teria felaciado cem oficiais romanos numa noite.
Para uns, César já sabia disso quando entrou na dela; para outros, ela era virgem quando conheceu César.
Enfim, como eu escrevi no princípio do verbete, não foram os egípcios que escreveram a História.

ABC do Fausto Wolff (Parte 11)


CLITÓRIS – Se alguma feminista, dessas que fazem a barba duas vezes por dia, chegar para você, leitor amigo, ou você, leitora amiga, e botar banca dizendo que usa o clitóris de lado, não acredite. As feministas que me perdoem, mas clitóris é uma peça delicada que foi bolada para ser pequena.
Trata-se de um pênis rudimentar (aliás, não sei por que estou dizendo esta bobagem, pois é muito mais sensível que qualquer pênis) e algumas mulheres têm até dificuldade em encontrá-lo. O que também não deve preocupar a gentil leitora.
Preocupe-se antes se o seu marido não conseguir encontrar o pau entre os pentelhos.
Mas, voltemos ao clitóris: imaginem que o maior do mundo – o da baleia – não chega a ter oito centímetros.
Realmente não é muito, se levarmos em conta que a sua vagina agasalha a trolha do baleio: nada menos de três metros em estado semi-ereto, o que torna ridículo a jeba de metro e meio do elefante africano.
Graças à hipocrisia e à ignorância humanas, até quarenta anos atrás muitas mulheres nem sabiam que possuíam um clitóris e as que sabiam não sabiam o que fazer com ele.
Era o caso da imperatriz Maria Teresa, da Áustria, que, preocupada com a sua esterilidade, foi procurar seu médico, van Sweiten.
Ela confessou: “Eu tenho certeza, doutor, que se pudesse ter um único orgasmo, eu teria filhos!”
Depois de muitos rodeios, van Sweiten ousou dar um palpite: “Eu arriscaria dizer que o clitóris de sua mais sagrada majestade deveria ser titilado por algum tempo antes do coito propriamente dito”.
É verdade que o orgasmo não tem nada a ver com a mulher ficar grávida ou não, mas o fato é que Maria Teresa foi mãe de dezesseis príncipes.

COITO – Instado a responder sobre qual o seu tipo de coito preferido, o português não titubeou: “Prefiro o coito anal”. “E por quê?”, perguntou a jovem repórter da TV Globo. “Porque o coito oral é puramente teórico. Fala-se muito e não se faz nada. O vaginal não é pro meu bico. É coisa pra quem pode comer Gina Lollobrigida e outras estrelas do cinema. O anal é apenas uma vez por ano, mas é melhor do que nada”.
Se você está como o português da anedota, meu irmão, tire o cavalo da chuva porque não sou eu que vou explicar-lhe o que é coito.
Para dizer a verdade você está fudido, ou melhor, você está coitado. Quem sabe é isso? Os pais praticam o coito e nascemos nós, os coitados.
Para que um verbete especial para o coito se eu não falo de outra coisa neste livrinho? Apenas para chamar a atenção para o louva-a- deus, para a colônia Oneida e para o gokuraku-ojo.
O louva-a-deus, este bicho parecido com um gafanhoto, mas bem mais feroz, deve gostar muito de fuder.
Saibam que há quem garanta que ele só pode trepar satisfatoriamente depois que a fêmea tiver devorado metade de sua cabeça. Parece que tem alguma coisa a ver com liberar inibições.
Depois de comida metaforicamente, a louva-a-deus come literalmente o que restou do seu marido.
O pessoal da colônia Oneida (Estado de New York) pratica o coitusreservatus, tradição que trouxeram com eles da índia para os Estados Unidos no século XIX.
A coisa é aparentemente muito simples: trata-se de introduzir o chamado membro viril dentro da vagina mas não gozar, deliberadamente.
Tanto hindus, como chineses e árabes, praticam o método. Dão-se ao luxo de receber clientes, discutir negócios, etc. e tal, sempre dentro de suas concubinas. Ao chegar em casa à noite, finalmente, gozam com as respectivas mulheres.
O gokuraku- ojo significa, simplesmente, morrer de tanto fuder. O casal de amantes se encontra e trepa até um deles morrer.
Geralmente, morre o homem e a mulher-louva-a-deus sai atrás de outra vítima, quase sempre, como no filme O Império dos Sentidos, com o pau do amante na bolsa.
Quem morreu de gokuraku-ojo sem ter nunca ouvido falar de gokuraku- ojo foi o ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Nelson Rockefeller. Morreu em cima da secretária. No Japão seria considerado um herói.
Existem 123.414 posições em que o coito pode ser praticado. Ou seriam 123.415? Ih, agora, eu me compliquei todo.

COLETTE, Sidonie Gabrielle Claudine (1873-1954) – Filha da burguesia rural francesa, Colette até que era bem jeitosinha quando, aos vinte anos, se casou com um escritor medíocre – amigo da família – chamado Henry Gauthier Villars.
Willy – como era conhecido o marido – tinha trinta e cinco anos e logo percebeu que sua mulherinha possuía, além de dotes sexuais, dotes literários.
Foi por isso que a incentivou a escrever romances contando as aventuras e fantasias eróticas de uma jovem colegial. Ela escrevia, ele assinava e embolsava o dinheiro.
Depois de algum tempo ela encheu de dar boa-vida ao malandro e em 1906 se separou dele e começou a assinar seus livros.
Nesta época, também, passou a se interessar por teatro. Acabou fazendo turnês de razoável sucesso por toda a França. Troço meio erótico no qual uma bailarina solitária apaixona-se por uma cenoura ou vice-versa.
Casou mais duas vezes e seu sucesso literário veio mesmo em 1920, quando publicou Chérie.
Isto tudo que escrevi aí em cima (com exceção da cenoura) é verbete para qualquer dicionário bem-comportado como o de Ambrose Bierce, por exemplo.
A verdade é que Colette gostava mesmo era de fuder com qualquer coisa que se movesse.
Willy era um mau-caráter e um dia Colette o flagrou comendo uma anã desdentada. Se continuou com o marido foi porque gostava de ir para a cama com as secretárias dele.
Só lhe deu um pé na bunda quando passou a não aguentar mais ver a sua cara bochechuda. Costumava chamá-lo de rainha Vitória.
Colette apareceu dançando com os seios de fora no palco de um famoso music-hall parisiense.
Na plateia estava Missy, nada menos que a marquesa de Balbeuf, descendente de Napoleão. (Não tem nada a ver com o assunto, mas aí vai: a família de Napoleão, até ele tornar-se imperador, era toda certinha. Com o poder começaram a aparecer todas as sacanagens.)
Pois a Missy gostava daquilo que eu gosto e que Alfred de Musset, Apollinaire e a própria Colette chamavam de monte de vênus. Xota, se me entendem.
Enfim, Missy tomou conta de Colette e se tornou não só sua amante como sua empresária e coreógrafa.
Num número que ficou famoso, Colette aparecia no palco vestida de múmia e aos poucos se desfazia das ataduras até que, completamente nua, dançava com o seu príncipe encantado que era nada menos que a própria Missy vestida de homem.
Colette não era exatamente lésbica. Tanto que depois de se divorciar de Willy se casou com Henry de Jouvenel, editor do jornal Le Matin, onde escrevia, e com ele teve sua única filha.
Não se pode dizer que Colette lhe fosse infiel, pois só ia para cama com mulheres e às vezes o convidava para ser juiz da luta aranhal.
Foi amante de Missy durante todo o seu casamento com Jouvenel. Era o maior barato ver as duas aparecerem em bacanais femininas vestindo smoking.
As festas acabavam invariavelmente com dezenas de mulheres nuas, exaustas depois de passarem a noite toda brincando de mamãe-mamãe.
Colette usava no tornozelo uma pulseira onde estava gravada a frase “Pertenço à Missy”, o que – é claro – era chute, pois muitas outras lésbicas andaram com a boca entre as suas coxas.
Uma delas foi Natalie Barney, uma milionária americana, amiga de Hemingway. Numa carta enviada a Natalie, Colette finalizou dizendo: “Natalie, meu marido beija as suas mãos e eu o resto”.
Depois de se divorciar de Jouvenel, teve um caso com o filho dele, Bertrand, de apenas dezenove anos.
Só sossegou o pito – em parte – aos cinquenta e dois anos, quando conheceu o jornalista Maurice Goudeket, que tinha trinta e cinco anos e muita tesão, tanto que comeu Colette até o dia da sua morte (dela, naturalmente) aos setenta e dois anos, em Saint Tropez. Faziam amor para uma plateia de mais de vinte gatos.
Escritora menor, foi uma mulher bem maior que sua obra.

ABC do Fausto Wolff (Parte 12)


COPROLAGNIA – Coisa de porcalhão ou porcalhona. Tara de gente de que se excita com sujeira, feridas abertas, tumores e um bom furúnculo de sobremesa. Às vezes eu me pergunto se esses puritanos babacas, que vêem uma mulher nua e dizem que é coisa suja, não são, em verdade, coprolagnistas, todos eles.
Desde que o mundo é mundo que existem neguinhos com a cuquinha torta que gostam de brincar com merda, mijo, vômito, etc.
E já houve época em que esses tarados e taradas eram considerados pessoas extremamente piedosas que se comoviam ao ver a miséria, a dor, o sofrimento.
Algumas chegaram a ser santificadas, como Santa Margarida Maria Alacoque, uma freira do século XVII, cuja especialidade era limpar o vômito dos doentes... com a língua.
Inocentemente ela escreveu em seu diário, depois de usar a língua como trapo de chão: “Senti um prazer tão indescritível, que desejei fazer a mesma coisa todos os dias”.
Os leprosos – dizem as boas línguas – chegavam a correr quando viam São João da Cruz se aproximar: “Lá vem aquele maluco pedir para lamber as chagas da gente!”

CORTESÃ – Amante de alta classe ou prostituta de luxo, geralmente associada com a corte ou, pelo menos, com os javalis da alta sociedade. Na Grécia antiga, as cortesãs eram festejadas como estrelas de cinema hoje em dia e muitas estátuas foram erguidas em homenagem a elas que, afinal, eram experts em erguer outros troços.
Havia mesmo quem publicasse – na Pérsia, na Síria, no Egito, na Grécia, na antiga Roma – cartilhas ensinando o beabá da arte alpina para moças que quisessem fazer carreira horizontal. (Falar em carreira, lembrei de cocaína e lembrei que não incluí o pó na letra “c”. Dá para escrever um livro. Talvez a inclua na letra “p”, se estiver com saco.)
No manual elas podiam ler instruções como esta: “Mantenha o ciúme dele aceso permanentemente” ou “Deixe-o ver as marcas e chupões nos seios e no pescoço, nem que você mesma tenha que mostrá-los”.
Frinéia, a mais famosa das cortesãs gregas, possuía um corpo tão monumental que uma vez, durante um caso na corte que ia indo muito mal para ela, seu advogado apelou para o sensacionalismo: puxou a túnica que a cobria e revelou seu corpaço aos juízes. A moça (não tão moça, naturalmente) foi absolvida na hora.
Ganatéia, de Atenas, era conhecida por suas tiradas brilhantes. Um dia, ao ganhar de presente uma garrafa de vinho de dezesseis anos, exclamou: “Bem pequeno para a idade que tem”.
A vovó Mae West, ex-cortesã de Hollywood, que já foi boa pacas, deu uma dessas uma vez num baile durante os roaring twenties.
Estava dançando agarradinha com um cara, quando de repente perguntou pra ele: “Você está com um revólver no bolso ou devo considerar isso uma declaração de amor?”
Pois é, depois, nos anos 60, inventaram essa dança idiota na qual a mulher fica rebolando sozinha enquanto que o “galã” faz as evoluções lá dele para os garçons, provavelmente.
Mas deixem eu voltar às cortesãs: Carlos II da Inglaterra tinha duas cortesãs como amantes: a duquesa de Porthsmout, que era católica (nunca vi ninguém mais religioso que puta), e uma tal de Neil Gwynne, que começou como vendedora de laranjas em Drury Lane, chegou a atuar como atriz e teve vários protetores até que trocou os lençóis de lorde Donset pelos do rei.
Quando uma multidão anticatólica confundiu-a com a outra amante do rei, ela berrou antes que a linchassem: “Calma, pessoal, que eu sou a puta protestante!”
E no Brasil? Bem, no Brasil há as massagistas facilmente encontráveis nos anúncios classificados de jornais conservadores como O Globo, Jornal do Brasil e Estado de São Paulo.
As cortesãs, porém, vocês encontrarão lendo a crônica social.

ABC do Fausto Wolff (Parte 13)


CROWLEY, Aleister (1875-1947) – Inglês malucão, debochado, mágico e sacana. Ninguém percebeu isso até os seus vinte e três anos, pois até então o bicho só se interessava em escalar montanhas, escrever maus poemas e estudar os clássicos.
Mas aos vinte e três anos alguém o convenceu a entrar para a Ordem Hermética do Crepúsculo Dourado, que mexia com mágica. A partir desse dia, Crowley manteve um diário: O Diário Mágico da Besta 666. Além disso, publicou uma revista, O Equinócio, e se especializou em caratê boliviano, ou seja, cheirava cocaína pacas.
Em 1912 ele foi apresentado a um outro malucão, que o convenceu a entrar para a Ordem dos Templários Orientais, que trabalhava no ramo de mágicas sexuais.
Vocês já sentiram que vem sacanagem por aí, pois não?
Não foi difícil convencer o Crowley a entrar para a ordem e, a partir do dia da sua entrada, passou a anotar no diário as suas sessões (análise, minha senhora? Análise é grupo) de masturbação de grupo, a manibus plenis e uma variedade de sacanagens com nada menos que sessenta e oito mulheres diferentes, sempre neste lance de mágica.
Um tópico bastante comum em seu diário: “Três putinhas de vinte e poucos anos nada especiais. Ainda assim a orgia durou das onze da noite às dez da manhã com raros e rápidos intervalos”.
A Primeira Guerra Mundial obrigou Crowley a se refugiar na América, pois as suas guerras eram outras.
Lá ele reiniciou as suas sessões de mágicas sexuais para um público cada vez maior.
Ele tinha um show que chamava de Opus XIII, no qual atuava uma prostituta mulata.
Eis o que escreveu no diário: “A operação foi tremendamente orgíaca, levando-se em conta a mediocridade da minha assistente. Foi, porém, muito difícil recolher o elixir da cocurbite”.
A cocurbite era a vagina e o elixir o seu próprio esperma que, depois de recolhido, era tratado como merenda diante da plateia.
Em 1919 Crowley retornou à Inglaterra e se viciou em heroína e não estou falando de Anita Garibaldi nem da Mulher Maravilha.
Mais taradão que nunca, se mudou para a Sicília, onde fundou a Abadia de Thelema, um centro de ocultismo que difundia sua doutrina: “Faça tudo aquilo que você achar que for legal”.
Uma porrada de maluquinhos se juntou à volta do malucão que era chamado de mestre e, entre eles, a sua amante Leah Hirsing, a mulher escarlate, Ninette Fraux, a segunda concubina da Besta e o irmão Chenestai, um jovem marinheiro que Crowley trouxe da América.
Sentiram a jogada? Cansado de tanta mágica com mulher, Crowley acabou virando mágico mesmo!!!
É isso aí: passou a esconder, fazer desaparecer o cheio de varizes do marinheiro.
As orgias eram públicas, pois segundo a Besta 666, como Crowley gostava de ser chamado, “eles têm que ser treinados na falta de vergonha . Eu mesmo me culpo por ainda ter vergonha em me prostituir publicamente com o irmão Chenestai”.
Eventualmente, os discípulos envelheceram ou encheram o saco e acabaram por se dispersar.
O jovem marinheiro enlouqueceu de vez e Crowley voltou para a Inglaterra, onde morreu aos setenta e dois anos numa pensão vagabunda, lendo um livro de sacanagem.

CU – É cu mesmo. Não confundir com Coo Stark, modelo que foi namorada do príncipe Andrew, da Inglaterra. Stark em alemão quer dizer forte.

D-TRISSOMIA – Também conhecida como Trissomia-13. Às vezes, quando os cromossomos não se entendem, surge essa doença que só atinge seres humanos. Aliás, um em cada 5 mil nasce com a D-Trissomia.
Eis as características: microcefalia (cabecinha – a superior – bem pequena), retardamento mental profundo, dedos extras nos pés e nas mãos, boca mole.
Essas são apenas algumas das anomalias descritas pela primeira vez em 1675.
O que ocorre é que o cromossomo nº 13 se triplica e esta desordem ocorre, geralmente, no terceiro mês de gestação.
Menos de 18% dos que nascem afetados pela D-Trissomia vivem mais que um ano.
Dizem, porém, que os que sobrevivem conseguem ser bons políticos, publicitários, cronistas sociais, policiais, militares, assistentes de saunas masculinas, galãs de novela e até mesmo psicanalistas, profissões que, sabidamente, não exigem muito esforço mental.

DAMIANI, Petro (1001-1072) – Religioso italiano muito chato. Viveu toda a vida obcecado pela ideia de que a virgindade feminina (e masculina) deveria ser preservada. Milhares de sacanas nas ruas cantando as moças para darem e ele cantando-as para não darem.
Outro troço que ele gostava de fazer era pregar dentro de bordéis, estabelecimentos que não faltavam na Itália daquele tempo e nem na de hoje.
As putas ouviam seus sermões, choravam pacas e continuavam dando, pois não sabiam fazer outra coisa.
O fato de Damiani ter sido literalmente filho de uma puta deve ter influído no seu comportamento. Não convenceu ninguém.

ABC do Fausto Wolff (Parte 14)


D’ANNUNZIO, Gabriele (1863-1938) – Como escritor e autor de teatro, definitivamente datado. Quando eu era criança costumava folhear seus livros só para ler as passagens sacanas, ricas em eufemismos como “monte de vênus”, “dardo do amor”, “globos de carne” e outras besteiras.
Este careca baixinho (tinha 1,65 m) não foi flor que se cheirasse, mas devo dizer uma coisa a seu favor: não foi hipócrita e era um cara corajoso.
Filho do prefeito da cidade de Pescara, desde a adolescência era conhecido (e admirado) como grande comedor de mulheres.
Com vinte anos, contra a vontade do pai da moça, se casou com Maria Gállese, filha do duque de Gallese, que não sabia que ela estava grávida.
Aos vinte anos ele já tinha reputação de galinha, mas ainda assim Maria ignorou as ameaças do pai.
Não deu outra: D’Annunzio, em quatro anos, lhe fez três filhos, a corneou com dezenas de mulheres e gastou quase toda a sua fortuna.
Maria, porém, declarou certa vez que, apesar do trabalho extra fora de casa, ele não descuidava dela, comendo-a sempre que requisitado.
Já outras línguas ressaltam que Maria gostava mesmo era de viados.
Não os de quatro patas, mas os de duas pernas.
Morreu em 1887, aos vinte e seis anos, conhecida como a Rainha das Bichas, ou, como diziam os italianos da época, La Regina dei Finocchi.
Viúvo, D'Annunzio continuou gastando com empregados e mulheres o dinheiro da herança da mulher (que deveria ir para os filhos) até que em 1910 teve que fugir dos credores e foi parar na França, onde continuou comendo tudo que usasse saia e não fosse nem escocês nem padre.
Quando estourou a Primeira Guerra Mundial, voltou para a Itália para se transformar no maior herói e piloto de guerra italiano e chegou a ficar cego de um olho em ação. Era rara a mulher, depois disso, que não quisesse ir para a cama com o baixinho careca.
A verdade é que ele fez a fama, deitou na cama e ficou esperando o mulherio, que arriscava fortuna e reputação para ser comido por ele.
Feministas, atenção: tratava mal as mulheres, jamais aceitou a possibilidade delas terem um cérebro e, entretanto, parece ser verdadeira a afirmação de que foi para a cama com mais de mil delas.
Na condessa Mancini, com quem teve um romance, ele conseguiu desenvolver um complexo de culpa tão grande que a mulher pirou.
A marquesa Alessandra de Rudini Carlotti, filha do primeiro-ministro italiano, depois de abandonada por ele, entrou para um convento.
Da bela Bárbara Leoni levava alguns pentelhos dentro de um medalhão. Depois que trepavam, enquanto ela dormia, ele anotava detalhes da foda, que posteriormente utilizava em romances que se tornariam muito populares.
A condessa Maria Anguisina gastou uma fortuna para manter o amor do romancista. O marido dela acabou botando os dois em cana por adultério. Em compensação, ficou conhecido como il grande cornuto d’Italia.
D'Annunzio fez dois filhos na condessa e se mandou para a cama da atriz Eleonora Duse, onde ficou durante nove anos, só saindo para comer outras mulheres e escrever novos romances e peças de teatro.
Ela também era maluca, pois bebia com ele durante o jantar estranhas misturas afrodisíacas servidas no crânio de uma virgem.
Nem isso fez com que ele deixasse de escrever um romance dizendo que havia se cansado dela (quatro anos e meio mais velha que ele) pois “aos quarenta e dois anos seus seios começaram a cair, uma coisa inconcebível”.
Malucão, disse que podia comunicar-se com a Duse (depois que ela morreu, é claro) sempre que comia uma romã em frente a uma estátua de Buda. Dizia ainda que depois de morto, queria ser disparado por um canhão ou desintegrado em ácido.
Fascista, como mais da metade da Itália na época, D'Annunzio morreu aos setenta e cinco anos escrevendo em sua elegante mansão no lago Gada, cercado por mais de cem empregados.
Um cara que leva uma vida como a que ele levou não precisa ser bom escritor, não é mesmo? Só não convenceu a atriz Sarah Bernhardt: “Aquele baixinho careca tem olhinhos de bosta”.

DASHWOOD, sir Francis (1708-1781) - Além de sacanólogo, um dos maiores sacanólogos do mundo, fundador de um clube de sacanas-satanistas chamado Clube do Fogo do Inferno. Comparados com os sócios do Hellfire Club (fica mais chique em inglês, não é mesmo?), os adoradores do bebê de Rosemary não passavam de pudicíssimas donzelas.
Aos dezesseis anos, por ocasião da morte dos seus pais, ele entrou numa grana pretíssima e partiu para...? Acertou quem pensou sacanagem.
Aos vinte e um anos já havia comido a imperatriz Ana da Rússia, fingindo ser o rei Carlos XII da Suécia.
Por que a imperatriz russa podia ser comida pelo rei sueco e por mais ninguém é um mistério quase tão impenetrável como alguém querer entrar para a Academia Brasileira de Letras e tomar chá com o José Sarney e o Eduardo Portella.
Não contente com isso, num domingo romano, armado de um longo chicote, entrou na capela Sixtina e lategou com saudável vigor a bunda dos penitentes que rezavam.
De volta à Inglaterra, fundou, juntamente com outros sacanólogos (o membro do parlamento John Wilkes e o escritor Lawrence Steme) o seu Hellfire Club, cuja sede era na abadia de Medmenham, em Londres.
Felizmente, Freud ainda não havia nascido para informar que uma vez que as coisas que agradavam a Dashwood não agradavam a Deus, ele sentiu-se na obrigação de adorar o Diabo. (E eu me pergunto: por que esta necessidade idiota de adorar algum troço?)
Vai daí que ele e sua patota, vestidos de monges, além de praticarem magia negra, ainda tinham sob seu domínio mais de cinquenta moças da melhor sociedade inglesa, que não devia ser das melhores.
Eram todas metaforicamente comidas enquanto se compraziam em imitar a madre Joana dos Anjos que foi, posteriormente, homenageada em grandes descabelamentos palhaçais por Aldous Huxley, Kavalerowsky e um diretor de cinema nervosinho chamado Ken Russell.
Além de sacana, Dashwood era também um pintor de razoáveis méritos. Decorou as paredes da abadia com afrescos eróticos onde abundavam velas em forma de trolha, crucifixos de cabeça para baixo, vitrais expondo os doze apóstolos em posições pouco ortodoxas... para dizer pouco, quase nada.
Na capela eram celebradas missas negras sobre o corpo de jovens peladas em cujos umbigos os sacanas bebiam vinho. Como bebiam galões todas as noites em que tinha missa, vocês bem podem imaginar quantos umbigos eram necessários pura matar a sede da rapaziada.
Quem duvidar do que eu estou dizendo, dê um pulo a Londres e visite a igreja, mediante uma módica contribuição. Ela está aberta à visitação pública.
Aparentemente, as sacanagens privadas de Dashwood não interferiram na sua vida pública, pois ele acabou sendo nomeado diretor-geral dos Correios Ingleses, cargo que exerceu com dedicação e honestidade até o dia da sua morte.
Acredita-se que não tenha ido para o céu e que os cornos do diabo aumentaram alguns centímetros desde que ele pintou no inferno.

ABC do Fausto Wolff (Parte 15)


DEFOE, Daniel (1660-1731) – Não tinha nada de sacana, o autor de Robinson Crusoe, Moll Flanders, Um Diário do Ano da Peste e Coronel Jack. Também não tinha nada de puritano. Era, isso sim, um moralista no sentido mais humano do termo, além de ser um dos seis melhores escritores da língua inglesa de todos os tempos, ombreando-se com Swift, Lawrence, Gibbons, Blake, Shaw, e só não falo em Shakespeare porque também seria covardia.
Tinha um grande caráter, foi o primeiro panfletário de categoria da Inglaterra e por isso acabou curtindo um tempo de prisão. Seu crime: a ironia do panfleto The Shortest Way to the Dissenters.
“Então por que está aqui neste ABC?”, perguntará a curiosidade mórbida do leitor que quer comer cru. E eu respondo: está aqui porque, em 1724, ele escreveu um ensaio intitulado: Conjugal Lewdness, a Treatise Concerning the Use and Abuse of the Marriage Bed and Marital Whoredom.
Nele Defoe trata de um mau costume muito popular na época: os sacanas, a fim de viver sem trabalhar, raptavam jovens herdeiras que depois defloravam.
Para evitar maiores escândalos, os pais da moça faziam com que ela se casasse com o canalha que, a partir de então deixava de ter problemas sociais, econômicos e sexuais.
Quando morei na Itália (graças à Redentora) entre 1968 e 1972 (depois fui morar em Copenhague), este hábito ainda era muito comum, principalmente na Sicília, onde uma moça que não fosse virgem (mesmo que houvesse sido estuprada por um biltre qualquer) estava desonrada para sempre.
Em 1970, uma jovem raptada e deflorada, rebelou-se contra este costume e denunciou o seu raptor que, em vez de casar-se com ela, foi parar na cadeia pra ver o que era bom pra tosse.
Em compensação, a jovem teve de mudar-se da Sicília, pois por onde passava aquelas mulheres de longos bigodes e vestidas de negro comentavam: “Guarda, la violata”.
Mas voltando ao Daniel Defoe, em seu ensaio ele disse: “Me parece um absurdo que um cavaleiro possa ter a satisfação de ver pendurado na forca o ladrão do seu cavalo e não possa enforcar o ladrão da sua filha”.
Logo depois da publicação do trabalho, raptar mulheres passou a ser punível com a morte.

DEFLORAÇÃO – Ato de romper o hímen, o que permite a penetração do pênis na vagina. Falei bonito, hein? Simbolicamente significa o fim da virgindade feminina que, porém, pode acontecer também acidentalmente, ocasião em que, convenhamos, perde muito em poesia, pelo menos. Cuidado, portanto, minhas virgens, ao montarem cavalos, andarem de motocicleta por estradas cheias de buracos, colocarem o tampax, o Modess ou o OB muito lá para cima.
Eu digo “cuidado”, leitorinhas, não porque queira (como o maluco do Damiani) que vocês continuem virgens, eternamente e nem porque creia que lhes agrade se manter neste estado ou, finalmente, que pretendam guardar esta fina membrana para a noite de núpcias.
Digo “cuidado” só porque imagino que perder a virgindade do modo tradicional – aquilo naquilo – deve ser muito mais divertido.
Já houve época (ver verbete anterior) que a jovem que fosse deflorada antes do casamento era apontada na rua pela suja puritanada.
Hoje em dia o preconceito funciona ao contrário: quem morre de vergonha é a moça que chega virgem ao casamento.
Senhoras que já comi ao longo do meu quase meio século de existência informam-me que “dói um pouquinho, sangra ligeiramente, mas o prazer supera a dor”. Quem, quando garoto, já solou uma neneta para fazer a dor de dente passar, manja do riscado.
O sangue produzido pelo rompimento do hímen já foi elemento principal de muitos rituais.
Na Europa, até o princípio do século XVIII, por exemplo, o rei depois de executar a rainha com quem recém se casara, exibia pra plateia ignara um lenço manchado de sangue, prova da virilidade dele e da inocência da moça.
Também, mesmo que o sangue fosse do dedo dele, quem iria discutir? Rei mandava pacas naquelas épocas.
Durante o século passado (e até mesmo hoje em dia) muitos babacas gostavam de contar vantagens sobre o número de jovens que haviam deflorado.
Vai daí que as donas de puteiros viviam providenciando “virgens” para esses idiotas. Havia sempre um médico de plantão nos bordéis.
A “moça” era “deflorada” e assim que o cliente se retirava era imediatamente revirginizada pelo esculápio, exímio restaurador de hímens usados. No dia seguinte, lá estava a nossa “virgem” à espera de outro imbecil.
Nas sociedades mais primitivas (mais ainda?) se acreditava que as moças que perdiam a virgindade antes do casamento abriam as portas para o demônio.
Aproveitando-se da falta do hímen, os demônios entravam nas bucetas e só saíam depois de exaustivos exorcismos. Ninguém explicava por que os sacanas não entravam nas vaginas casadas quando elas estavam momentaneamente desocupadas.
Mas quem é este modesto cronista para discutir dogmas?
Alguns antigos rituais de defloração eram verdadeiros exercícios de tortura. As senhoritas transformavam-se em senhoras diante da sociedade quando o hímen delas era rompido por enormes falos de pedra, madeira, marfim ou barro. As mocinhas mais ricas recebiam, naturalmente, os de marfim.
Nataniel Jebão, presidente do Sindicato Nacional de Cronistas Sociais sem Coluna, acha isso tudo muito complicado. Segundo ele, o hímen, como a crase, não foi feito para humilhar ninguém.
“Ele está onde está – diz Jebão – para ser usado apenas no momento em que o casal quer procriar. Uma vez que o clitóris está fora do útero, para efeitos de prazer, sugiro o coito anal que, por outro lado, ou melhor, do outro lado, é um anticoncepcional natural”.
Aconselho as leitoras mais impressionáveis a não levar a sério as palavras do nefando cronista mundano.

DEFORMAÇÃO SEXUAL – Além do infinito e do nada, a única outra coisa que, creio eu, não tem limites é a estupidez humana. Desde os primórdios da civilização, por exemplo, que homens e mulheres se mutilam para se tornarem mais atraentes sexualmente.
Até a revolução de Mao Tsé Tung, na China, por exemplo, as mulheres mantinham seus pés atados fortemente por panos, a fim de que jamais ultrapassassem, por exemplo, o nº 32.
As mulheres da tribo Bogobo, das ilhas Mindanao, limam seus dentes frontais até torná-los todos pontudos.
Em outras tribos do norte da África, as mulheres, desde crianças, colocam anéis, uns sobre os outros, no pescoço, de modo a esticá-los mais que Modigliani esticava os das suas modelos.
E os índios, como o nosso Raoni, que faz o mulherio correr atrás dele por causa do disco que tem no lábio inferior!
A mulher urbana progrediu muito nas últimas décadas: mutilação mesmo só o ato de furar as orelhas. No mais, equilibram-se sobre tacos que podem ir até quinze centímetros e lambuzam a cara todos os dias.
Os homens põem fumaça para dentro dos pulmões, através de pequenos caralhinhos de papel cheios de fumo, e usam um pedaço de pano no pescoço que ninguém sabe para o que serve.

Mutilação só os punks (apedeutas que não têm nada dentro da cabeça e por isso precisam colorir os cabelos), que gostam de enfiar argolas no nariz, e os judeus, que cortam um pedaço da pele do pau das suas crianças logo depois que elas nascem.

“Minha preocupação foi mapear a literatura que está fora dos radares”, diz Joselia Aguiar


Por André de Oliveira

Em 2016, logo após assumir a curadoria da Festa Literária de Paraty, a Flip, a jornalista cultural e historiadora Joselia Aguiar conversou com o jornal El País. Sua ideia, já clara, era fazer com que um dos principais eventos de literatura do país tivesse mais diversidade em sua programação: com mais presença feminina e de autores negros.

Dez meses depois e a menos de duas semanas do evento, a intenção virou realidade. A Flip deste ano é a mais diversa da história do evento, buscando autores que estão fora do radar do grande mercado editorial. Na entrevista abaixo, Joselia conta sobre o processo de curadoria e o que descobriu ao longo dele, além de comentar destaques da programação e refletir sobre o que espera do evento.

A última edição da Flip, em 2016, sofreu críticas de parte do movimento negro pela ausência de diversidade nas mesas. Desta vez, a programação é a mais diversa vista até agora, com grande presença feminina e de autores e autoras negros. Foi uma resposta a uma demanda?

Não no sentido de que eu, como curadora, cumpri uma demanda que não era minha. Eu tenho um percurso e as escolhas que fizemos para este ano são condizentes com ele. Nasci em Salvador, estudei a fotografia da Bahia negra do etnofotógrafo Pierre Verger, recentemente finalizei uma biografia do Jorge Amado. Assim, as opções da programação não são apenas uma mera formalidade ou o cumprimento de uma tarefa da “marca” Flip. Ao mesmo tempo, a força que eu tive para fazer essas mudanças no programa veio, principalmente, da internet, onde dois movimentos ativistas fortes [feminista e negro] começaram a receber bem as novidades. Embora não seja uma resposta imediata às críticas, minha curadoria se beneficiou, sim, dessa força e expectativa.

E o que você descobriu sobre o mundo editorial brasileiro nesse processo de fazer uma curadoria com mais diversidade?

Há um conjunto de nano, micro e pequenas editoras que são fundadas e tocadas por mulheres. Eu poderia sentar aqui e falar logo umas quinze em diferentes Estados. Isso é muito interessante. Eu também percebo que existe uma tradição de literatura afro-brasileira que é publicada por algumas editoras que sempre estiveram um pouco à margem, como a Mazza, em Minas Gerais. Ao mesmo tempo, estão nascendo outras iniciativas de publicação afro-brasileira, como a Malê, no Rio de Janeiro, e a Kapulana, em São Paulo. E, conversando com eles, é possível entender que isso também é resultado das ações afirmativas que colocaram mais negros na Universidade, possibilitando a formação de mais intelectuais interessados em conhecer a própria história afro-brasileira. O tamanho desse mundo editorial é incrível e é impressionante como se percebe um Brasil que não está aparecendo nos jornais. Agora, a duas semanas do evento, eu sinto que as pessoas que querem ir à Flip estão muito interessadas em conhecer essas novidades. Não se trata de rivalizar com uma literatura de massa ou mais estabelecida no mercado, mas de construir uma nova situação, um novo espaço, para outro tipo de projeto.

Desse modo, o evento se afasta um pouco do mercado editorial que já tem mais visibilidade?

Não é possível dizer que há uma coisa completamente desconectada do mercado. Em benefício do próprio autor, eles querem poder vender os livros. Mas, sem dúvida, minha grande preocupação foi mapear aquilo que não está ao alcance da vista imediatamente. Foi buscar o que há de interessante e está fora do radar: seja porque é uma autora mulher e o mercado está pouco aberto, seja porque é um autor negro e enfrenta barreiras semelhantes, seja porque é um autor que está em um algum lugar distante editorialmente do Brasil, como é o caso da Islândia e Ruanda, representadas pelo autor Sjón e pela escritora Scholastique Mukasonga, respectivamente.

De certa forma, é uma Flip para ser descoberta, então?

Sim. Eu acredito que a Flip, por ser a maior festa literária, a pioneira, pode ter o arrojo de sair na vanguarda de alguma coisa. Para que ela permaneça como referência, tenha relevância e paute a imprensa, é preciso trazer coisas novas e não apenas refletir o que já existe no mercado consolidado. Agora, não dá pra dizer nunca que a Flip está desvinculada do mercado editorial. Por quê? Porque o autor vai lá e ele próprio tem suas expectativas. Há uma livraria oficial e as pessoas encontram os livros dos convidados lá. E isso é importante também. Além do mais, a relação com as editoras, com agentes literários e, no caso dos estrangeiros, com as embaixadas, é extremamente importante. O trabalho de curadoria é feito em 10 meses e a conversa é essencial para que ele seja construído.

Uma lista publicada pelo NexoJornal mostra que dois dos primeiros livros mais vendidos no Brasil desde 2010 são do bispo Edir Macedo e o terceiro é o best-seller A Culpa é Das Estrelas. Não é estranho estarmos discutindo o mercado editorial quando quem está no topo são esses livros?

Isso sempre existiu e eu acho contraproducente ficar reclamando que agora os youtubers, por exemplo, estão fazendo os livros mais vendidos. Eu acredito que é quase como você atacar aliados. O problema não é o best-seller, nunca foi. O problema, de sempre, é que é necessário formar leitores, estimular a leitura, fazer com que as pessoas se aproximem de formas mais complexas de linguagem. E a Flip, acredito, tem capacidade de ajudar nisso um pouco. Por isso, não passa pela minha cabeça ficar reclamando que o mais vendido é o Padre Marcelo Rossi ou o Edir Macedo.

Ao mesmo tempo, há um cenário de pequenas editoras com propostas de livros mais artesanais – presente em eventos como a Feira Plana, de São Paulo. Algo que foge não só do grande mercado, mas da velha discussão que se questiona se o papel vai acabar etc.

É curioso, mas acho que isso está sendo possível graças às novas tecnologias. É o desenvolvimento tecnológico que possibilita um barateamento de custos, assim como a facilidade de disseminar uma mensagem pela internet e atingir nichos de muita afinidade. E eu não tenho como provar, mas fazendo uma observação do mercado, parece que quanto mais a crise aperta, mais as pessoas procuram se vincular a essas iniciativas. É quase como uma forma de tentar se fortalecer. São projetos mais independentes e de maior resistência. É na crise que percebemos como as pessoas gostam de livros.

Por falar nisso, e a crise política? Como vai aparecer nessa Flip?

Muitas vezes os eventos são cobrados a discutir questões que estão acontecendo, mas acho que deve haver o cuidado para não se transformar um evento literário em um programa de debates só sobre a crise. Claro que isso vai aparecer naturalmente e, obviamente, os autores estão liberados para dizer o que quiserem. Também acho que, com a programação, estamos tocando no aspecto mais importante deste país: a desigualdade social e racial. É uma forma de contribuir para o debate da crise política, mas com a contribuição que é possível para a Flip, sendo que ela é uma festa de literatura. Por fim, há também o fato de que o homenageado, Lima Barreto, falava muito de política, apontava os problemas da República e como ela estava se constituindo, abordava também o tema da corrupção. Então, acho que as diferentes crise vão permear as conversas.

Você já tinha uma história com o Lima Barreto, não?

Em 2013, quando terminou a Flip, o nome dele surgiu em uma coletiva de encerramento. Depois, algumas pessoas começaram a sugerir o nome dele na internet. A partir daí, a historiadora Denise Bottmann teve a ideia de fazer um abaixo-assinado para que o nome dele fosse emplacado. Eu participei disso. Era uma brincadeira de internet, mas acontece que acabamos reunindo mil nomes, como Gilberto Gil, João Ubaldo Ribeiro e Nicolau Sevcenko. Assim, desde essa época, há uma expectativa sobre isso. Quando eu fui escolhida curadora, argumentei em favor dele e também dei sorte de pegar um momento bem oportuno do debate racial no Brasil e no mundo.

E por que o Lima?

É um autor que eu só fui conhecer, de fato, na minha pesquisa para a biografia do Jorge Amado. E a influência que ele teve para o Jorge Amado me impressionou bastante. Nos anos 1920, o Jorge Amado fazia parte de um grupo de jovens poetas que tinha como mentor um cara chamado Pinheiro Viegas, um escritor baiano que tinha vivido no Rio de Janeiro e tinha feito parte da turma de botequim do Lima. Quando esse cara chega a Bahia na segunda metade da década de 1920, ele conhece esse grupo de jovens poetas que não era vinculado ao modernismo paulista. Eles eram modernos sem serem modernistas. Naquele momento eles achavam que o pessoal de São Paulo só estava reproduzindo um modelo estrangeiro, mas eles tinham uma pesquisa com a cultura popular baiana muito grande. Algo bem na linha do que defendia o Lima Barreto. Por isso tudo, fui entender quem era o Lima e fiquei muito entusiasmada.

E como surgiu o nome da arqueóloga Niède Guidon, fundadora do parque arqueológico da Serra da Capivara, no Piauí, para integrar a programação?

Isso tudo tem muito a ver com o Lima Barreto: a ideia de você escavar para encontrar coisas que não estão ali na superfície. Você construir um pensamento através de recolhas que vai escavando, como fez Francisco de Assis Barbosa, que foi o arqueólogo de Lima Barreto ao escrever a biografia do escritor e organizar sua obra completa nos anos 1950. A Flip tem a tradição de sempre ter uma mesa de ciência e, pensando em toda a programação, veio logo a minha mente o nome da Niède Guidon. Ela é mulher, na resistência, trabalhando em uma área mais periférica da ciência, no Piauí, e que, apesar da ressonância mundial que seu trabalho tem, sofre constantemente com falta de verba e o perigo de ter de fechar o parque. E isso também me parece muito próprio do universo feminino. Eu escutei várias vezes isso nos últimos dez meses de curadoria: “repare como a resistência é sempre feminina”. E é verdade. A mulher parece ter predisposição para encarar e estar na frente de projetos de muita resistência. A Niède Guidon também resume muito bem isso.

Com tantas novidades, o que você espera que permaneça nessa Flip?

O que sempre foi incrível para mim é que existe um espaço em que os escritores estão falando sobre a obra de forma informal, espontânea. E a emoção de ouvi-los é o que ficou para mim depois de todas as Flips de que participei. Quero que seja, mais uma vez, um ambiente em que a literatura ocupa o primeiro plano por alguns dias. Isso é tão fora do imediatismo. É algo tão estimulante e que a gente não consegue ter diariamente. Não quero que o evento perca essa atmosfera. Acredito que vão ser dias felizes, apesar da crise que o país vive.

quarta-feira, julho 19, 2017

ABC do Fausto Wolff (Parte 1)



ABDUL, Aziz Ibn-Saud (1880-1953) – No mínimo bizarro este rei. Durante o século XIX as famílias Saud e Rashid lutaram pelo poder do que vem a ser hoje a Arábia Saudita.
Logo após o nascimento de Abdul, os Rashids deram um pé na bunda da família dele e ele foi curtir as areias escaldantes do anonimato no Kuwait.
Aos vinte anos, magrão, com 1,93m de altura, armou um exército e retomou o país que, modestamente, batizou de Arábia Saudita, ou seja, a arábia dos Sauds.
Em seguida descobriu que o petróleo era bom, mas que explorá-lo podia atrapalhar o esporte que ele, realmente, gostava de praticar: fuder com “u” mesmo, revisor!
Por isso em 1933 ele abriu as portas para os investidores ocidentais na base de 50%.
Como não era comunista (“esses sacanas gostam de dormir com as próprias mães, irmãs e filhas”), preferiu acreditar que o petróleo sob as areias do seu país era seu.
Agindo de consequência, não construiu escolas (“tudo que o povo precisa aprender está no Corão”) e nem hospitais (“para que, se não temos médicos?”), mas, em compensação, comprou quinhentos automóveis de luxo, entre eles um Rolls-Royce que havia pertencido a Winston Churchill que, segundo Roger Vadim, um dia tentou comer sua então mulher Brigitte Bardot.
Abdul era extremamente religioso, não bebia e não fumava.
Ver televisão, então, nem pensar!
Também não tinha tempo para esse passatempo para empregadas domésticas e madames brasileiras.
Fiel aos ensinamentos de Maomé, nunca teve mais que quatro esposas ao mesmo tempo.
As trocava, entretanto, com muita frequência: bastava que ele gritasse três vezes “divorcio-me de vós” para abrir uma vaga no seu harém.
Às vezes não gostava das mulheres escolhidas por seus olheiros mulherais e se divorciava delas depois de ver seus rostos.
Teve 200 esposas, 44 filhos legítimos e mais de 65 filhas.
Como a lei islâmica não deixa as mulheres totalmente na pior – elas devem participar eventualmente da glória de serem mulheres do monarca –, Abdul praticamente não tinha tempo para outra coisa além de fazer a ronda das alcovas.
Nunca precisou se preocupar com grana.
Ao morrer, aos setenta e três anos, pouco depois de descobrir que havia ficado estéril, sua renda mensal era de 10 milhões de dólares.
Seus súditos, porém, ganhavam pouco mais que três salários mínimos brasileiros por mês, uma miséria!

ABELARD, Pierre (1079-1142) – Unia o (para ele) útil ao agradável e (para os demais marmanjos) o inútil ao desagradável: além de ser um cara bonito, era extremamente inteligente.
Ora, num mundo dominado pelos homens ricos, essas qualidades se chocam.
Ou bem o sujeito é bonito e burro ou feio e inteligente.
Abelard deu o azar de ser bonito e inteligente. Se deu mal.
Francês, filósofo e teólogo, comia suas mulherinhas na maior moita quando aos trinta e sete anos se apaixonou por uma aluna chamada Heloísa, dona de um par de coxas e de uma bunda dessas que provam definitivamente o bom gosto de Deus, se é que ele existe.
Chato é que a jovem Heloísa tinha um tio que era uma fera que não estava interessado em ver sua sobrinha ser conhecida biblicamente em vez de conhecer a bíblia, como estava nos seus planos ao matriculá-la na escola-catedral de Notre Dame.
O tio, um tal de Canon Fulbert, deu mil palas ao Abelard pra que largasse a gata.
Em vez disso ele fugiu com ela pra Inglaterra e aproveitou para fazer um filho nela.
Enquanto os dois estavam fuque- fuque-fuque na loura Albion, o vilão Fulbert punha sua cabeça a funcionar a serviço do mal.
E quando o poder econômico está a fim de te enrabar, meu irmão, te prepara porque cedo ou tarde a marmota aparece.
No caso presente, o tio Fulbert, que devia se amarrar na sobrinha, mandou cortar o piu-piu do Abelard que se retirou para um monastério e acabou sendo excomungado por suas teorias heréticas.
Também, pudera!
Terminou seus dias tentando ser eremita, troço difícil, pois vivia cercado de discípulos-tietes que queriam saber sobre Paracelso e outros menos votados.
Heloísa morreu num convento e foi enterrada ao lado do marido uma vez que o tio Fulbert já havia ido para o inferno e Abelard, além de não ter mais pau, estava morto.
Quem tiver oportunidade procure ler a correspondência de Abelard e Heloísa que serviu de base para uma peça de teatro que Flávio Rangel dirigiu há quase vinte anos.
Em algumas cartas, Abelard deixa bem claro que coitoanalava Heloísa.
Popó dos mais perigosos da Idade Média, podeis crer.

ADÃO E EVA – Dupla complicada e difícil de acreditar. De acordo com a bíblia dos judeus e, posteriormente, dos cristãos, trata-se do casal original, pais de nós todos.
Só que Adão (Adham) é apenas uma das inúmeras palavras usadas para designar homem, geralmente, no coletivo, ou seja, espécie humana.
Já Eva (Hawma) está associada à palavra hebraica hayyim, que quer dizer vida.
Vai ver nem Adão se chamava Adão e nem Eva se chamava Eva.
No primeiro capítulo do Gênesis, não há nada que sugira a criação de um casal.
Só no capítulo III é que se relata a criação de um homem, feito do barro da terra.
Em seguida são criados os animais, que recebem, cada um, um nome dado pelo homem.
Só depois de todos os animais receberem nomes é que Deus teria criado a mulher.
De todo o Gênesis esta ordem me parece a única coisa lógica.
Já imaginaram se Eva tivesse sido criada antes dos animais? Como o Adão poderia batizar os bichos em paz?
Entre as coisas que me intrigam na História da Criação está a do batismo do chato, aquele bichinho que vive entre os pentelhos.
Adão terá dado o nome a ele antes ou depois de transar com Eva?
Outro troço: em nenhum lugar do Gênesis se fala em maçã.
Se fala em fruta proibida, que poderia ter sido uma maçã, sim, mas poderia também ter sido uma jaca, uma pitanga ou uma melancia.
Depois de serem tentados pela serpente e comerem do fruto proibido, Adão e Eva teriam sido expulsos do Paraíso.
Mais dúvidas cruéis:
1) “Meu Deus, respeito o senhor, mas não a sua obra. Que paraíso é este que tem cobra?” (Millôr Fernandes);
2) Se era para Adão não transar com Eva, por que o Criador botou um pau nele e uma buceta nela?
Ainda segundo o Gênesis e John Steinbeck, os dois foram para o leste do Éden, onde tiveram uma pá de filhos, entre eles, Abel, Caim e Seth.
Caim se sabe que matou Abel e depois constituiu família.
De Seth não se sabe nada e dos demais irmãos muito menos.
Aparentemente, o incesto não era pecado naquela época.
Pelo menos Deus não o havia proibido, o que nos leva a crer que Caim comeu a mãe ou uma eventual irmã.
Se Édipo, em vez de acreditar em Zeus, acreditasse em Deus, talvez não tivesse arrancado os olhos depois de comer Jocasta.
Mas isto é outra história.
Não se sabe se Adão e Eva eram brancos, pretos, amarelos ou mulatos-sararás.

ABC do Fausto Wolff (Parte 2)


ADULTÉRIO – Depois que a pílula anticoncepcional entrou para o menu da burguesia quase não hesito em afirmar: “Mostrem-me um homem de mais de quarenta anos que nunca foi corno e eu lhes mostrarei um homem que nunca comeu ninguém”.
Eu disse quase porque logo depois da pílula apareceu o vírus da AIDS, que acalmou um pouco as mentes mais chegadas ao adultério.
Acalmou em termos, naturalmente, pois água morro abaixo, fogo morro acima, cachorro louco e mulher quando quer dar, ninguém segura.
Mas há adultérios e adultérios.
João da Silva, quarenta anos, operário, cinco filhos, salário-mínimo, morador em Santa Cruz, sessenta quilos, mulato, poucos dentes, sai às quatro horas da manhã de casa para chegar às seis e meia na fábrica, viaja num trem da Central lotadíssimo onde teimam em esmagar diariamente sua unha encravada, fabrica um troço que não sabe para o que serve, come arroz sem feijão e sem carne e quando está tomando uma cachaça na esquina o fiscal do gerente berra: “Aí, hein, seu sacana, fazer hora extra você não quer, mas beber cachaça você bebe”.
Pois este homem, que da árvore da vida só colheu os frutos podres, chega em casa e encontra a Maria, sua mulher, a única coisa que acredita ser sua nesta merda de vida, dando pra um malandro qualquer.
O que é que você faria no lugar do João? Matava os dois?
Este é um tipo de adultério.
Eis outro: Onofrinho Paranhos Medeiros Albuquerque Zifrulli Lima de Azevedo, conhecido banqueiro, testa-de-ferro de multinacional, ex-ministro, sócio do Country Club, ladrão, enfim, é casado com Glorinha Nascimento Cruz Costalatti Brunsky de Oliveira Rocha, excelente família, pai embaixador, de prendas domésticas, assídua frequentadora das colunas sociais de Ibrahim, Zózimo e Cia.
Glorinha também é puta.
Eis que é flagrada por Onofrinho, dando para jovem surfista pobre.
O que faz Onofrinho?
Atenção para o papo: “Meu jovem, precisamos conversar. De hoje em diante, pois vejo que você é um rapaz sério, vou te pagar um salário para fazeres companhia à minha mulher, porque viajo muito. Ela fica muito sozinha e confio em você para manter afastadas as más companhias”.
Como vocês vêem, há cornos e cornos.
Mas nem sempre o adultério foi condenado.
Na Idade Média, por exemplo, um cavaleiro deveria sentir-se honrado quando sua mulher desse prum sujeito de estirpe mais nobre.
Num romance provençal, um cavaleiro repreende sua mulher infiel.
Eis a resposta dela: “Meu senhor, não há por que se sentir desonrado, pois o homem que eu amo é um nobre barão, maneja armas como ninguém, chama-se Rolando e é sobrinho do rei Carlos”.
Resposta do cavaleiro: “Poderias ter me dito logo, mulher”.

AFRODISÍACO – Qualquer negócio que sirva para aumentar o prazer sexual. Vem de Afrodisia, um festival grego em homenagem à deusa Afrodite, a mesma que emprestou seu nome latino (Vênus) para a camisa mais famosa do mundo.
Bem mais famosa que a Lacoste, usada por gente que se amarra em tênis e em pênis.
Poucas foram as comidas que em um tempo ou outro não foram consideradas afrodisíacas: ostras, quiabos, aspargos, cogumelos, tomates (conhecidos como maçãs do amor em alguns países), bulbos de tulipa, etc.
Paulinus, um sacanólogo medieval, recomendava mijo de touro, cristas de galo, trolha de burro, sangue de pardal e outras delicatesses, cuja simples menção é suficiente para brochar o locutor que vos fala.
Sangue menstrual, sangue de antílope, placenta, culhões humanos, esperma de um jovem lutador misturado com coco de falcão, cérebro ainda quente de criminosos decapitados (muito em uso na China até as primeiras décadas deste século) também aparecem cm várias receitas consideradas antibrochantes desde a época em que o Kama-sutra foi escrito.
As amazonas acreditavam que se cortassem uma perna dos prisioneiros, o chamado membro viril dele ficaria ainda mais viril.
Tanto acreditavam que usavam esta técnica para elas próprias: amputavam o seio direito das meninas, certas de que, com isso, o braço direito receberia nutrimento sanguíneo adicional e ficaria mais forte para dobrar o arco.
Um rei cíntio perguntou para a rainha amazona Antianara: “Por que seus escravos todos não têm uma perna”.
E a rainha, sorridente: “Os pernetas trepam melhor”.
Mas se você é um desses caras que já está comemorando aniversário de impotência, muita gente boa recomenda pó de corno de rinoceronte, que é vendido caríssimo por toda a África equatorial.
Se você estiver mesmo a perigo, dê um pulo até Nairobi, mas leve um especialista consigo, pois a maioria dos vigaristas em vez de corno de rinoceronte vende mesmo é osso moído de porco, que não mata, mas também não levanta.
De qualquer modo o freguês tem que ser muito brocha mesmo pra acreditar nessas besteiras.
Querem saber o que funciona? Eu digo: é a mosca espanhola.
Mas não saiam por aí caçando moscas com o Antoñito el Cambório, que se estrepou como o seu criador, Garcia Lorca.
Mosca espanhola é apenas um apelido da cantárida.
Excita a bexiga, a uretra e, de consequência, os órgãos sexuais.
Vem sendo usada há séculos, com sucesso, em cavalos e touros que têm que trabalhar muito.
Mas tem um troço chato: mata com uma facilidade incrível quando usada por leigos como vocês.
A dose que levanta o mastruço é quase a mesma que o abaixa (bem como o seu dono) para sempre.
A nux vomica, tão bem usada por Drummond em um dos seus melhores poemas, mais conhecida como estricnina, apresenta o mesmo problema: seria um maravilhoso excitante sexual se não matasse o cliente antes dele poder concluir a bimbada.
Muito amador acredita que o álcool é um estimulante sexual porque ele desinibe.
Aceitem o conselho de um profissional: a hora de encher a moringa não é a mesma do alpinismo.
O álcool, quando em excesso, torna o marmotão menos sensível, ocasião em que ocorre o famoso fenómeno da meia-bomba ou demi-bombê, como preferem os franceses.
O único negócio que funciona mesmo é o hormônio masculino conhecido como testosterona, que aumenta o desejo sexual em ambos os sexos e, às vezes, é receitado para a cura da impotência total.
Mas... se tomado por homens potentes pode causar atrofia dos testículos e se tomado por garotinhas em busca de experiências excitantes, causa masculinização.
Antes de tomar, ela se chama Rosinha e depois da dose vira Almeida.

AIDSAdquired Immunodeficiency Sindrome ou, de trás para diante, em português: Síndrome da Imunodeficiência Adquirida.
O homem gasta em armamento alguns trilhões de dólares por ano.
Gasta outro tanto em programas espaciais na tentativa de conquistar o macrocosmo.
Se nós, terrestres, porém, pretendemos conhecer outros planetas e outras galáxias algum dia, é necessário que abandonemos por enquanto o macrocosmo para concentrar nossas atenções no microcosmo.
Seria uma lástima que a raça humana deixasse de existir por causa de um vírus sacana como o da AIDS.
Já se disse muita besteira sobre este microorganismo e não estou aqui para engordar a lista dos idiotas.
Poucos sabem alguma coisa sobre a AIDS e desconfio que esses poucos são os que não dizem nada.
De modo que aí vai um conselho: se o leitor é viado ou é chegado a um viado, pare com o esporte.
Se não é viado, procure trepar com moças que não gostem de transar, eventualmente, com viados.
Finalmente, não use uma camisa-de-vênus.
Use duas, uma sobre a outra.
E jogue fora essa seringa!