sexta-feira, maio 08, 2009

Curtindo a vida adoidado (final)


Na manhã de domingo, depois de um lauto café da manhã disputado avidamente com os esfamiados músicos do grupo Bicho Solto, que havia se hospedado na pousada na noite anterior, nos despedimos de Petrônio Rogelio e fomos nos despedir do brother Fernando Jerry e do coronel Paulo Roberto Vital, itacoatiarense da gema e secretário adjunto da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas.

Pra completar, a irmã do Paulo Roberto, Teresa, minha parceira preferencial de birita e curtição de reggae em Itacoatiara, havia chegado em casa com o dia amanhecendo e estava “capotada”. Não consegui falar com ela e esqueci de deixar com sua mãe um livro sobre o Bob Marley, que havia lhe levado de presente. Fica pra próxima.

Paramos em um posto de gasolina na saída da cidade. Compramos cigarros, refrigerantes, militos. Mário Dantas consultou o computador de bordo e definiu: “Coloca só 20 paus de gasolina, que a gente está com mais de meio tanque”. Dito e feito.

Deixamos a cidade por volta das 10h e, só de onda, resolvi tirar uma foto na frente da frondosa castanheira “Mário Dantas - Orlando Farias”, que hoje é um símbolo da cidade. Explico melhor.

Em 2001, o então vice-governador Samuel Hanan se projetara como virtual candidato à sucessão do governador Amazonino Mendes e contratara os dois jornalistas (Mário e Orlando) para sua assessoria de imprensa.

Os dois começaram a fazer um programa de rádio em Itacoatiara, para onde se dirigiam todo sábado, mesmo que chovesse canivetes. Não é a toa que Mário Dantas conhece a estrada como a palma de sua mão.

Um belo dia, eles observaram que várias castanheiras estavam sendo derrubadas ao longo da rodovia AM-010, sem nenhuma razão aparente. Repórteres investigativos por natureza, os Starsky & Hutch barés logo trataram de apurar o fato. A presepada era um retrato bem acabado da pouca importância que se dá ao meio ambiente, normalmente visto como um entrave para o progresso.

Para diminuir a falta de energia do município, a madeireira Mil, localizada na Estrada da Várzea, a 20 km de Itacoatiara, resolveu enviar para a cidade o seu próprio excedente de energia elétrica. Caberia à Prefeitura apenas fazer o “linhão”.

Para economizar alguns “cobres”, a Prefeitura fez o “linhão” a meio metro da rodovia AM-010 e saiu derrubando todas as castanheiras que estavam no trajeto porque atrapalhavam a fiação aérea. O último dos moicanos era essa majestosa árvore da foto acima, que nem seis cabras do meu tamanho de mãos dadas são capazes de abraçar seu tronco.

Durante algumas semanas, Orlando Farias e Mário Dantas colocaram a boca no trombone, mobilizando a população para defender a castanheira. Não deu outra. Diante do clamor público, o prefeito teve que recuar e autorizar um pequeno desvio no “linhão”, para poupar a castanheira. Ela agora é conhecida como castanheira “Mário Dantas – Orlando Farias”.


Mas voltando à viagem. Antes de chegarmos em Lindóia, conseguimos ultrapassar um caminhão rebocando uma van de turismo meio avariada, depois de quase vinte minutos de tentativas. O filho da puta, apesar do reboque, corria feito um desesperado, com o caminhão ocupando as duas faixas. O sujeito deve ter aprendido a dirigir brincando de autorama.

Paramos para almoçar no Rio Preto da Eva por volta do meio dia. Quando reiniciamos a viagem, Mário Dantas olhou pro marcador de combustível, consultou o computador de bordo e cantou a pedra: “Nos fudemos. Acendeu a luz da reserva!”

Puta que pariu, a gente estava a 60 km do posto de combustível mais próximo. O negócio era economizar. Pregar de gasolina em um domingo, dia de jogo entre Flamengo e Botafogo, na rodovia AM-10, era convite certo pra só chegar a Manaus na noite de segunda-feira.

Responsável em potencial pela tragédia (bastava ele ter pedido pra encher o tanque na saída de Itacoatiara), Mário Dantas teve que usar de toda sua experiência dos anos 70 dirigindo um Maverick de seis cilindros (que bebia como um V8 e corria como uma carroça).

Era um tal de acelerar nas subidas e desligar o motor nas descidas, que também quase me enfartou. Eu ia vendo as placas marcando a quilometragem da estrada e ficando cada vez mais preocupado.

Por volta do Km 20, avistamos um posto de gasolina. Como a gente ia na “banguela” em uma velocidade de F1, Mário teve que fazer uma redução rápida (calculei que meio litro de gasosa tinha ido pro espaço) e retornar de marcha ré.

Quando, enfim, conseguimos entrar no posto, um zé mané (provavelmente o gerente) grudado em um celular, andando pra lá e pra cá, perto das bombas de combustível, explicou que não havia gasolina. Puta que pariu, mas quase que a gente desce do carro pra encher o sujeito de porrada!

A viagem continuou no mesmo sufoco até adentramos no Posto Equatorial, antes da barreira da Ponte da Bolívia. Resolvemos encher o tanque. A bomba registrou 39,5 litros. Quer dizer, a gente só devia estar com, no máximo, um litro de gasolina no tanque. Daria para rodar mais cinco quilômetros. O Maverick seis cilindros do Mário Dantas tinha mesmo que servir para alguma coisa...

Na segunda-feira, o telejornal Amazônia TV, da TV Amazonas, exibiu uma reportagem mostrando um acidente ocorrido no domingo, no Km 50 da rodovia Manaus-Itacoatiara. O caminhão rebocando a van de turismo meio avariada (que havíamos ultrapassado perto de Lindóia) perdeu a direção, invadiu a outra pista, abalroou um Escort e o jogou pra fora da estrada, dentro de um igarapé.

Não sei se houve vítimas fatais. Mas que a estrada é perigosíssima, ficou provado pela enésima vez. Acontece.

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