sexta-feira, maio 08, 2009

Curtindo a vida adoidado (parte 3)


No dia anterior, ao perceber a criação de carneiros Santa Inês do empresário, eu havia sugerido a ele, meio de brincadeira, que um carneirinho na brasa cairia bem. O sacana nem contou até três. Quando chegamos ao hotel, Petrônio estava acabando de preparar as carnes de um bitelo.

Uma parte do carneiro, ele ia fazer assado à moda gaúcha. A outra parte seria um prato típico de sua terra natal: a célebre “ovelha atolada”, uma variante sulista da nordestina “vaca atolada”. Aí, nos deu uma aula sobre a máquina de assar que ele mesmo havia desenvolvido.

Durante o almoço, comi tanta “ovelha atolada” (um guisado de carneiro pra se degustar ajoelhado), que quase enfarto. Pedimos ao Petrônio que guardasse o resto do acepipe para detonarmos no jantar (o hotel só serve almoço. À noite, rolam apenas as melhores músicas do planeta, biritas de todo tipo e iscas espertíssimas).

Pra não enfartar, resolvi espairecer na piscina. Meu brother Simas, esquecido completamente do porre monumental da noite anterior, resolveu me fazer companhia. Começamos a contar piadas, um pro outro.

Mario Dantas e Áureo se mandaram para a cidade para assistir a um jogo de “veteranos” no estádio Floro Mendonça. Entre os destaques, estavam Lucio Preto e Sacaí, mais conhecido nas internas como “Cara de Frango”, ex-lateral esquerdo do Peñarol de Itacoatiara (Áureo foi um dos melhores jogadores que passou pelo time e até hoje é reverenciado pelos torcedores).

Lá no hotel, ao saber que eu só bebia cerveja Antarctica (em Itacoatiara só vendem Skol e Brahma), Petrônio me apresentou uma nova presepada: o famoso “submarino”, que altera o paladar de qualquer cerveja, inclusive da Skol.

O truque é simples. Você enche um cálice pequeno de steinhagger e emborca em um copo de cerveja vazio, de forma que o steinhagger permaneça dentro do cálice, sem vazar. Aí, é só encher o copo de cerveja. Pela pressão da cerveja sobre o cálice emborcado, este começa a liberar o steinhagger. Sim, o gosto fica completamente diferente. E a embriaguez é de juntar criança.


Uns três submarinos depois, eu e o Simas já começávamos a rir antes mesmo de contar as piadas. Aquele era um estado alfa em que a gente só atingia depois de uma garrafa inteira de Johnnie Walker Red Label. Caraco, mas o tal submarino era bom demais!

Por volta das 17h, falei pro Simas que a gente precisava dar uma cochilada até às 19h (já estávamos meio alto, como não?), pra depois ir pra farra em busca das vagabundas. Ele concordou e foi dormir.

Me acordei às 20h, na hora do jantar. O infeliz do Áureo havia trazido do campo de futebol direto pro hotel os zagueiros Lucio Preto e Cara de Frango. Mal o Petrônio serviu a nossa “ovelha atolada”, os dois zagueiros devoraram a nossa janta com uma fome de anteontem. Eu e Mário Dantas ficamos a ver navios. Completamente bêbado, Áureo achou aquilo tudo divertidíssimo.

Bem que o Mário Dantas tentou acordar o Simas, mas ele estava totalmente capotado. Resolvemos ir embora assim mesmo.

Chegamos ao Centro de Convenções junto com metade da população. Nunca havia visto uma multidão daquelas. No palco principal, uma banda de forró. A atração principal seria a banda punk-rock Os Raimundos, que deveria se apresentar por volta das 2h da manhã.

Em um momento de distração, Mario Dantas me convenceu a tomar o “melhor tacacá da América Latina”. Encarei o desafio, apesar de não suportar cebola roxa, cebolinha, cheiro verde, pimentão, tomate e outros condimentos utilizados no tacacá itacoatiarense. Pra mim, tacacá é goma, tucupi, jambu e camarão. Só, somente só.

Quinze minutos depois, começou uma nova revolução no meu estômago. E os pedidos de socorro começaram a me irritar: azia, má digestão, suor frio, cãibras nas mãos.

Fomos para a área externa do Centro de Convenções, local em que as gatinhas haviam escolhido para desfilar em busca de conquistadores em potencial (qualquer um com mais de 50 paus no bolso. A crise não poupa ninguém).

Nos instalamos em um bar onde o telão exibia o Kid Abelha, mas o que a gente ouvia mesmo era uma banda meio furreca cantando aquele repertório de bosta do Só Pra Contrariar, em um palco armado a 50 metros de distância.

Sei lá como, mas o Áureo conseguiu rebocar pra nossa mesa duas gatinhas. Quando a mais bonitinha delas falou que tinha 25 anos e duas filhas, uma de 12 e outra de 10, o tesão de muita gente foi tomar tacacá na esquina e não voltou mais.

Por volta de meia noite, sob o argumento calhorda de que se o Simas acordasse e não visse seu carro no local a jiripoca ia piar, convenci Mario Dantas a me levar para o hotel. Combinei com Áureo, Lucio Preto e Sacaí que voltaria em meia hora para pagar a despesa.

No hotel, acordamos o Simas. Ele olhou pra mim, olhou pro Mário, ficou uns cinco minutos bamboleando como um João Teimoso procurando o eixo, aí se jogou na cama e voltou a dormir. Resolvi fazer o mesmo.

Puto da vida, Mário Dantas voltou à cidade para resgatar o Áureo e pagar a despesa. O sacana foi a contragosto porque o Áureo tem uma mania irresponsável de tomar banho de florais de Bach, do Boticário, a cada quinze minutos. O cheiro dá pra ser sentido a 10 km de distância. E Mário Dantas tem alergia a perfume.

No dia seguinte, Mário me contou que havia deixado o Sacaí no bairro de São Francisco e foi com o Áureo até o centro, para comprar meia dúzia dos famosos “cachorros quentes”.

Quando estava pagando a despesa, o Sacaí surgiu das sombras e deu um puta beijão na bochecha do Áureo, seguido de um abraço de quase dez minutos. Mário queria entender como o sujeito tinha chegado até ali, já que o bairro de São Francisco ficava a 10 km de distância.

– Ele veio seguindo o cheiro de perfume no ar – expliquei. “Cães treinados fazem isso.”

Áureo ficou vermelho feito um pimentão, mas nem assim parou de se lambuzar com a tranqueira.

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