sexta-feira, maio 08, 2009

Curtindo a vida adoidado


Parece que foi ontem, mas foi há duas semanas. Atendendo a um simpático convite do prefeito Antonio Peixoto (PT), de Itacoatiara, fui prestigiar o aniversário do município e aproveitar a oportunidade para coletar novos causos do folclore político da região. O esquema? Boca livre total, comme il faut.

A gente saiu de Manaus na sexta-feira 24, por volta das 14h. No volante do EcoSport do Simas, o Mário Dantas, que não bebe, não fuma, não cheira, não ouve música sertaneja (fundamental, em viagens de longo curso) e conhece a perigosíssima estrada Manaus-Itacoatiara como a palma da mão.

Paramos rapidamente no Posto Equatorial, no marco zero, para abastecer o carro de gasolina e nos abastecer de cervejas em lata. Mário Dantas limitou-se a comer um sanduba de galinha e beber uma coca-cola. É o parceiro ideal, na medida em que não dá despesas com cachaçadas.

Calculei que 45 latinhas dariam para a gente (eu, Simas e Áureo Petita – conhecido na Velha Serpa como “Áureo Barqueiro”) agüentar até Lindóia, já que não pretendíamos fazer pit stop no Rio Preto da Eva. As latinhas acabaram no Km 150, a meia hora de Lindóia. Uma tristeza!

Chegamos à Velha Serpa por volta das 17h e, como soe sempre acontecer nessas ocasiões, o nosso cicerone (Fernando Jerry Nelson) havia sumido da cidade. Depois de meia hora de ligações disparadas para vários amigos, localizamos o cantor Ewerton Pastor, que estava envolvido com a passagem de som no palco da fuzarca.

Na maior boa vontade, Pastor nos levou ao hotel Saint Martin, onde, supostamente, ficaríamos hospedados. Quando começamos a descarregar as tralhas, o gerente da baiúca veio explicar que o hotel estava lotado, só havia um quarto vago.

Por problemas de saúde, o poeta Aníbal Beça não havia viajado, mas, em compensação, Armando de Paula aportara na cidade com uma banda de se tirar o chapéu: George Jucá (baixo), Shirley Sol (vocal), Junior (bateria), Mosquito (percussão), Pachola (violão de sete cordas) e Diego (violão acústico). O cantor Macca também estava pra chegar, havia dado sinal de vida saindo de Rio Preto da Eva. O quarto vago seria pra ele.

Dessa vez, não teve jeito: tivemos que exigir a presença do cicerone para resolver a encrenca. O zen-budista Jerry Nelson chegou com aquela sua calma irritante de sempre. Depois de confabular com o gerente, ele também disparou uma série de telefonemas.

Dali a dez minutos, apareceu a secretária municipal de Cultura e Turismo, a sempre prestativa Ednilce Mendes, e sua entourage. Jerry explicou a situação. Outra série de telefonemas e, de repente, surgiu no Saint Martin um sujeito boa praça toda vida, Petrônio Rogério, dono do Hotel Pousada Rural, a 12 km da entrada da cidade.

Quase nos pedindo desculpas, ele perguntou se haveria algum inconveniente em ficarmos hospedado lá no seu “hotel de selva”. Ôrrameu, aquilo era tudo o que a gente queria: ficar longe da civilização!


Ficamos alojados no chalé Jatobá, cada um em um quarto, evidentemente. Por volta das 20h, embicamos no rumo da cidade e fomos jantar no restaurante Panorama. Antes disso, o Mário Dantas nos levou para comer, segundo ele, o melhor “cachorro quente da América Latina”.


Não sei se foi o cachorro quente, o suco de jenipapo ou o péssimo atendimento, mas o certo é que meu estômago começou a embrulhar. Mal toquei na caldeirada de costela de tambaqui servida no Panorama. Em compensação, Simas e Áureo detonaram uma picanha no bafo de quase dois quilos.

Chegamos ao palco montado na orla por volta das 21h30. Umas 5 mil pessoas se comprimiam no lugar. A banda do Armando de Paula estava fazendo o pré-show. As meninas da secretaria de Cultura me colocaram em uma barraca para autografar os livros e ficaram por ali, me pajeando como se eu fosse um cantor de rock.


Simas e Áureo se encontraram com o Lucio Preto e foram encher a cara nos botecos da redondeza, com a pretensão posterior de carcar umas vadias. Mário Dantas ficou cumprindo sua tarefa de repórter fotográfico do Blog da Floresta.


Dali a pouco, alguns poetas de Itacoatiara começaram a se aproximar para conversar comigo. Antonio Valdinei e Kayo Auzier me falaram sobre o Flip, que começaria na próxima semana. Alguns repórteres me entrevistaram para as televisões locais.

Ao longo da semana que precedeu a festa de aniversário, Itacoatiara havia se convertido em um dos “Territórios da Cidadania”, com seminários, mesas redondas, audiências públicas e a presença de oito prefeitos, dezenas de vereadores e os presidentes de Câmaras Municipais da região (Urucurituba, Itapiranga, Silves, etc).

O show na orla era a coroação desse evento, já que a festa da cidade iria ocorrer no sábado, no Centro Cultural Juracema Holanda – batizado com o nome da vereadora morta tragicamente na perigosíssima (volto a repetir!) rodovia Manaus-Itacoatiara.

Lançado no ano passado, o programa “Territórios da Cidadania” tem como objetivo promover o desenvolvimento econômico e universalizar programas básicos de cidadania por meio de uma estratégia de desenvolvimento territorial sustentável. Na cola das discussões a respeito do programa, diversos políticos estavam prestigiando o fuzuê.

De cara, lembro dos deputados estaduais Nelson Azedo, Therezinha Ruiz e Sinésio Campos, dos deputados federais Francisco Praciano e Vanessa Grazziotin, do secretário de Agricultura Eron Bezerra, do vereador de Manaus Ricardo Wendling, do superintendente adjunto da Suframa Everaldo Fernandes, do delegado regional do Ministério Agrário Lúcio Carril, além de diversos aspones, xerimbabos e militantes da CUT, da Força Sindical, da CGT e da SDS. Um verdadeiro x-tudo ideológico!


Por volta da meia noite, sem que eu soubesse previamente, fui chamado ao palco para receber um certificado de mérito cultural outorgado pelo prefeito Antonio Peixoto. Coube ao deputado estadual Sinésio Campos me entregar o diploma e falar algumas lambanças a meu respeito. Fiquei mais contente do que pinto em lixo.

O diabo é que o cachorro quente estava fazendo uma revolução no meu estômago e já havia convencido o intestino grosso a participar da intentona. Suando frio, eu tentava, heroicamente, manter a disciplina na casa.

Quando o endiabrado Ewerton Pastor assumiu o comando do show, o cabaré incendiou. Ele enfileirou, de cara, uma seqüência do Gilberto Gil pra não deixar ninguém parado (“Vamos fugir”, “Indigo blue”, “Sarará miolo”, “Punk da periferia” e “Maracatu atômico”).

Na seqüência, foi de Zé Ramalho, Alceu Valença, Raul Seixas, fez alguns duetos com o Macca (“Mosquito da Malária”, “Porto de Lenha”, “Ronda”), e começou a se preparar para o ponto alto de suas apresentações, quando só falta arrebentar os pulmões ao sustentar por dois minutos seguidos os versos de “Galopeira”, de Chitãozinho e Xororó.

Nos primeiros versos, Pastor leva a música bem legal, quase na manha: “Foi num baile em Assunción / Capital do Paraguai / Onde eu vi as paraguaias / Sorridentes a bailar/ E ao som de suas guitarras / Quatro guapos a cantar / Galopeira, galopeira / Eu também entrei a dançar”.

Aí, na segunda parte, o sacana começa a se esgoelar: “Galopeeeeeeeiiira (e ele sustenta o verso por quase um minuto) / Nunca mais te esquecerei / Galopeeeeeeiiiira (e ele sustenta o verso por quase um minuto e meio) / Pra matar minha saudade / Pra minha felicidade paraguaia / Eu voltarei / Pra minha felicidade paraguaia / Eu voltarei / Galopeeeeeiiiraaaaa (e ele sustenta o verso por quase dois minutos, uma eternidade!) nunca mais te esquecerei...”.

A platéia, claro, vai ao delírio.

Por volta das 2h da madrugada, sob o argumento calhorda de que a viagem havia me deixado moído, convenci a nossa tropa de choque a voltar para o hotel. O intestino fino havia se juntado aos rebeldes e agora eu só podia contar com a coragem do esfíncter em não se deixar vencer. Estava sendo uma luta de Titãs, melhor não abusar da sorte.

Meu brother Simas, em adiantado estado de decomposição alcoólica, ficou possesso:

– Porra, bicho, tu passa a noite inteira naquela mesa, só tomando água mineral, vendendo um livro de vez em quando, com cara de bundão, e agora quer ir embora?... Eu sei que tu tá a fim de encher a cara! Vamos beber, porra, vamos beber, que a noite é uma criança...

Não adiantou argumentar que todos os meus livros tinham sido vendidos e que no dia seguinte a gente podia farrear à vontade porque meu compromisso já havia sido cumprido. O bebum enjoado devia estar com medo de, ainda naquela mesma noite, o prefeito Antonio Peixoto implantar a lei seca no município e ele ficar a ver navios.

Se valendo do fato de que era dono do carro, o safado foi peremptório:

– Negócio seguinte: vocês são um bando de bundões! Se a gente voltar pro hotel agora, amanhã cedo eu pego o carro e me mando pra Manaus, e quero é que vocês se fodam!

Como o que mais existe em Itacoatiara é táxi-lotação indo pra Manaus, eu e Mário Dantas nem discutimos. Fomos direto pro hotel. O Áureo, que também estava em estado terminal de embriaguez, se quisesse, que fosse embora com ele. Acontece.

Quando chegamos ao hotel, uma surpresa: não havia energia elétrica. Ficamos uns quinze minutos discutindo se voltávamos pra cidade ou encarávamos as legiões de piuns, meruins e carapanãs (que não são tantas, assim).

No momento em que optamos por encarar os insetos, a luz voltou. Dedução óbvia: para garantir a energia elétrica na festança, a Amazonas Energia havia desativado o circuito da zona rural. No momento em que a fuzarca terminou tudo voltou ao seu lugar.

Depois de me livrar do cachorro quente e colocar ordem no pardieiro, ainda fiquei nadando meia hora dentro da piscina e papeando com Petrônio Rogério e Áureo Petita até por volta das 3 da manhã.

De qualquer forma, ainda percebi, de soslaio, quando o Simas foi ao bar do hotel, pegou meia dúzia de latinhas e se enfurnou na sua toca. O cabra estava se preparando realmente para a implantação da lei seca no município. Pode?

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