quarta-feira, maio 13, 2009

Da série “Vale a pena ler de novo”: Paris era uma festa!


Vinha então o mau tempo. Surgia sempre que não havia bom tempo. À noite fechávamos as portas, as janelas e a boca de Ezra Pound e o vento gelado desnudava as árvores da Place Contretemps. As folhas ficavam deitadas umas ao lado das outras e o vento jogava a chuva de encontro à vidraça embaçada do Café des Auteurs.

Era um café alegre, excelente serviço, repleto de escritores do bairro, americanos todos, cada um alegando ser mais perdido do que o outro, sempre bêbados, cheirando mal e aborrecendo os franceses. Eu não saía de lá. As mulheres de porre eram chamadas de prostitutes que quer dizer poetisas de vanguarda.

O Café des Auteurs era a cloaca da rue Moustarde, maravilhosa, pequenina, apinhada de gente. Eu não saía de lá. A privada parecia um quadro de Magritte. Eu não saía de lá. Toda a tristeza da cidade, quando chovia e ventava, assim como se concentrava no Café des Auteurs.

Ou talvez fosse a presença do falecido Verlaine, sempre na mesma pose, na mesma mesa de fundo, uma taça de absinto na mão esquerda, uma pena na direita, uma réplica em tamanho natural de Toulouse-Lautrec sobre a cabeça putrefata.

A rua Moustarde era de um negro malhado e sinuoso. Abdul M’Saka, acho que era seu nome. Vivia do pedágio que cobrava de escritores americanos no exílio. Eu gostava de sua inventividade, seu desplante, seus lábios grossos como saucissons pintados por Vlaminck.

Fazia frio e eu não tinha o que botar na lareira para queimar. Andei pelas ruas passando pelo Lycèe Louis XVIII, a velha igreja de St.-Braque-le-Riche, a Place du Santos Dumont, sempre varrida pelos ventos, garis e crianças soltando aviões de papel, dobrei à direita, dobrei à esquerda, dobrei à direita novamente e, finalmente, dobrei à frente do coitado do Scotty que, após uma pequena conversa, concordou em me ceder a Zelda para pôr na lareira.

Com Zelda debaixo do braço, desci o Boulevard St.-Michel, passando por Cluny, atravessei o Boulevard St.-Germain até chegar a um café razoável perto da Place St.-Michel. Era um café agradável, com um jeito de limpeza e calor humano, pelo menos sempre que Pascin ou Ford Maddox Ford, dois canalhas, possivelmente homossexuais, lá não se encontravam.

Coloquei minha capa molhada e Zelda no cabide e pedi um café au lait. O garçom trouxe e eu puxei um livro de notas do bolso e comecei a escrever sobre Michigan, uma vez que chovia, ventava, e todo mundo, ao redor, falava francês.

Escrevi sobre a mocidade, a meia-idade, a velhice e a morte até que um garçom, bem diferente daquele que me atendera, veio me avisar que, a qualquer momento, os alemães entrariam em Paris, e se eu não ia querer mais nada, uma vez que eles estavam para fechar e já se haviam passado dezoito anos desde que eu me sentara.

Peguei minha capa ainda molhada, algo que me parecia ser Zelda, e fui para casa me sentindo bem, uma sensação agradável percorrendo meu corpo e meu espírito. Depois descobri que era Zelda.

Passei por Gertrude Stein, Alice B. Toklas, Modiglianni, Sylvia Beach, James Joyce, D. H. Lawrence, Jean Cocteau, Picasso, Man Ray, Isadora Duncan, Tristan Tzara, Francis Picabia, André Breton, Stravinsky, um homem parecido com Dostoiévsqui e o marechal Goering. Todos perdidos, todos invertidos.

Sempre que terminava um conto ou um livro eu me sentia cansado, esfomeado, barbado, sujo e mal-cheiroso. Principalmente se o conto, ou livro, me levara 18 anos de trabalho. Eu tinha sempre que fazer amor logo depois. Mas eu ainda não sabia se o conto ou livro prestava. Só saberia uns 10 anos depois quando relesse. Mas antes eu tinha que fazer amor.

– Eu acho uma idéia maravilhosa – disse Hadley, minha mulher.
– A do livro?
– Não. A outra.
– Fazer amor?
– Não.
– Zelda?
– Também não.
– Qual?
– Você ficar 18 anos sentado num café perto da Place St.-Michel.
– Ah.

Quando duas pessoas realmente se amam e uma dessas pessoas sou eu e a outra é uma mulher, quando os dois estão contentes, trabalhando, amando, bebendo, falando mal dos outros, trabalhando, amando, bebendo, falando mal dos outros, essas pessoas atraem outras pessoas como o cheiro de sangue atrai os espanhóis à arena, os escritores à guerra, os críticos a um livro que eles não entendem. Quando chegam essas outras pessoas, há uma porção de pessoas. Muito mais do que havia antes.

E é por isso que nós todos fomos a Paris, na década de 20. Paris não termina nunca e a lembrança de cada pessoa que viveu em Paris é diferente uma da outra.

Nós sempre voltávamos a Paris, não importavam as mudanças, as dificuldades, os turistas brasileiros. Paris sempre valia a pena e o capital nela investido sempre rendia juros.

Mas é assim que Paris era antigamente quando éramos todos pobres e muito felizes e meu nome era Ernest Hemingway e eu ainda não tinha botado a boca no cano da carabina e espalhado meus miolos pela sala inteira.


(By Ivan Lessa, no semanário Pasquim, circa 1978)

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