quarta-feira, maio 13, 2009

A madeira vestida de arte


Israel Conte
Especial para A CRÍTICA

O pátio da extinta serraria São Jorge na avenida Sete de Setembro foi para Afonso Lacerda como uma sala de aula. Lá, em meio ao pó de serragens e pedaços de madeira que Afonso começou a dar os primeiros passos na arte da marchetaria, um trabalho que incrusta ou embuti pedaços recortados de madeira para formar figuras ou paisagens em quadros. A técnica pode também ser utilizada para construir objetos tridimensionais, esculturas, utilitários, joias. Afonso se define um autodidata.

“Eu fiz dois trabalhos sozinhos e coloquei para vender. Um japonês comprou e disse que aquilo que eu fazia era marchetaria. Quando cheguei em casa procurei o significado no dicionário e confirmei. A partir de então comecei a pesquisar mais sobre esta arte para desenvolvê-la melhor” , conta o artesão.

Com 25 anos de carreira, Afonso já produziu exatos 826 quadros exclusivos, dos quais 807 já foram vendidos. Entre os seus clientes estão o jogador Ronaldo, o empresário Bill Gates, a atriz Demi Moore e a ex-premier da Inglaterra Margareth Thatcher . “Ronaldo comprou meu quadro numa exposição em Milão e o deu de presente para Rivaldo. A Margareth e a Demi gostaram do meu trabalho quando o viram no Ariaú. E Bill Gates levou para os Estados Unidos o quadro “Deusa das Águas”, comenta.

Espécies

Afonso é um dos 11 marcheteiros do mundo que produzem quadros com mais de 20 tipos de madeira. Além disso é recordista mundial por usar em seus quadros até 33 tipos diferentes de madeira. “No total tenho no ateliê 72 espécies de madeira, sendo 26 da região e 46 trazidas da África e de outros Estados brasileiros. Detalhe: todas são legalizadas”, faz questão de afirmar.

Quem observar os quadros de Afonso vai notar a preferência por temas regionais. “Abro a janela do meu quarto de manhã e tenho toda a inspiração que preciso para fazer meus trabalhos”, diz o artesão. Lendas, o povo indígena e monumentos locais como o Teatro Amazonas. O mercado Adolpho Lisboa e a Alfândega também têm lugar na sua arte.

Garantia

Afonso traz informações a mais em cada quadro. “Na parte de trás eu sempre coloco o histórico do que foi embutido e ainda os tipos de madeira que foram usados”, fala o artesão. Os quadros também têm garantia de dez anos. “Já imaginou se depois de dois ou três anos, pelas condições de temperatura ou por outra razão, as peças do quadro começam a cair? A pessoa não me compra mais e nem indica”, comenta. Até agora Afonso não recebeu nenhuma reclamação.

Exposição

Afonso embarca para São Paulo na primeira semana de julho para representar o Amazonas na Mostra Brasil. “A partir de agora vou explorar temas mais universais como orquídeas, mas sem perder a essência indígena como por exemplo, embutindo máscaras e rituais indígenas ” conclui.


(publicado no jornal A Crítica, em 13 de maio de 2009)

NOTA: Afonso é um dos conselheiros da Associação Esportiva Jovens Livres, da Cachoeirinha, e irmão do sindicalista Carlos Lacerda, diretor Regional Norte da CNTM.

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