quarta-feira, maio 06, 2009

Minhas andanças com Thiago de Mello (parte 1)


Foram 20 anos de evasivas. Sempre que nos encontrávamos em Manaus durante algum evento literário, o poeta Thiago de Mello sacava o Colt 45 niquelado que trazia preso na cintura e atirava à queima-roupa: “Quando é que você vai me visitar em Barreirinha? Ou só está esperando eu morrer pra ir naquele fim de mundo e derramar suas lágrimas de crocodilo?...”

Eu tentava sair da saia-justa na maior diplomacia. As velhas desculpas de praxe: excesso de trabalho, uma inexplicável falta de grana, o corre-corre em busca de pautas interessantes pros veículos onde dava expediente, os tais compromissos previamente acertados, as desavenças amorosas, essas coisas. Nenhuma colava, claro. Thiago desconfiava que eu não ia muito com a sua (dele) cara. Bobagem.

Como essa conversa de bêbado para delegado já durasse muito tempo, em dezembro de 2000, na virada do milênio, resolvi ir à forra. Durante uma noite de autógrafos do poeta Élson Farias, eu saquei meu Colt 45 primeiro: “Estou indo pra Parintins, para fazer uma matéria sobre Pastorinhas na zona rural. Se der tempo, dou um pulo em Barreirinha. Você vai estar por lá?...”

Os olhos do poeta se iluminaram. “Esquece Parintins, meu filho. Vai pra Barreirinha que te levo para ver as melhores Pastorinhas da zona rural do baixo-Amazonas!”, ele determinou.

Combinamos nos encontrar em Parintins dali a duas semanas. Convenci minha macuxi, Dinari Guimarães, de trocar as festas de Natal e Ano Novo em Boa Vista (RR), sua terra natal – também adiadas há uma porrada de anos –, por uma aprazível estada em Barreirinha. Ela concordou, depois de uma semana de penosas negociações.

Chegamos a Parintins por volta das 11h da manhã. Mal descemos do avião, rumamos para o cais do Porto, onde Thiago já nos aguardava com aquela sua típica paciência zen. Os barcos de linha estavam começando a rumar para Barreirinha e o poeta ali, matutando. Sentei ao seu lado e também fiquei ali, matutando.


A doce e singela Aparecida, sua esposa, fez uma festa quando chegamos. Monossilábico, Thiago explicou que a gente viajaria no seu (dele) barco, “Príncipe dos Mares”, que estava passando por uma manutenção na cidade há duas semanas. Ele estava ali, matutando, esperando a chegada do barco. Comecei a prestar atenção nos iates que se aproximavam do cais.

Quando, finalmente, o barco do poeta chegou, levei o maior susto: tratava-se de um bote de, no máximo, 2 m de comprimento por 1m de largura, com um motor de 30 hp, guidão e caixa de marcha. Era bem menor que a Romiseta do prefeito José Ribamar Beleza. Calculei automaticamente que meus 115 kg iriam afundar aquela casca de noz, mesmo feita de alumínio.

Thiago nem discutiu. Colocou as malas dentro do bote, ajeitou Dinari e Aparecida perto dele (o sacana é que ia pilotar a tranqueira), me colocou no meio do bote – para equilibrar a precária embarcação, cujo casco estava a 15 cm do nível d’água, e ordenou que Raimundo (mix de piloto, confidente, mordomo e pau pra toda obra do poeta) se posicionasse lá atrás, perto do motor. Raimundo havia chegado pilotando o bote.

Thiago meteu uma marcha-ré e saiu a toda, no meio daquela porrada de barcos de linha que estavam no cais. Quando deu uma reduzida para enfrentar o rio Amazonas, o motor morreu. Quebrou o cabo de aço que prendia o leme. Não posso garantir, mas desconfio que nessa hora o poeta gritou um enfático “puta que pariu!”

Ficamos à deriva por quase quinze minutos, no meio daquele riozão barrento de correnteza filho da puta, até uma “voadeira” nos rebocar de volta pro cais do Porto. Não preciso dizer que Thiago ficou possesso e Raimundo teve que ouvir, calado, uma série de impropérios.

Para nossa sorte, havia um barco de carga que havia se atrasado e estava indo pra Barreirinha. Ter o poeta Thiago de Mello a bordo, para os simplórios tripulantes, era mais ou menos como você estar andando de carro, no maior dilúvio tropical, e parar para dar uma carona ao rei Pelé. Festa geral.


Limitei-me a comprar duas redes para tornar a viagem de quase seis horas um pouco mais agradável (Thiago havia prometido fazer a mesma viagem, no seu “bote motorizado”, em duas horas. Não duvidei.). Raimundo ficou em Parintins para consertar o bote e depois levá-lo a Barreirinha.

No barco de carga, nós quatro (eu, Dinari, Thiago e Aparecida) fomos tratados a pão de ló. O convés ficou à nossa disposição. Quando o barco começou a se aproximar do cais de Barreirinha, a tripulação do barco fez uma queima de fogos de responsa e convenceu Thiago de Mello a ir pra proa, para acenar para a multidão. Uma festança inesquecível!

Falar que a casa onde nos instalamos era melhor do que qualquer hotel de cinco estrelas (e olha que conheço hotéis cinco estrelas pra cacete, de Tóquio a São Paulo), seria chover no molhado. A casa do Thiago de Mello em Barreirinha é o sonho de consumo de qualquer leitor da revista Vip (você lê a revista Vip? Hummmm...).

Esculpida em madeira (esse, o termo exato), com todas as vantagens funcionais da vida moderna, a casa ainda levava a assinatura nada modesta do arquiteto Lúcio Costa – o sujeito que “inventou” Brasília, mas preferiu deixar as glórias para o jurássico Oscar Niemeyer. Se tivesse internet, seria o Paraíso. Infelizmente, estávamos na virada do novo milênio. Naquela época, não havia internet decente nem mesmo em Manaus.

Nessas duas semanas – do dia 22 de dezembro ao dia 5 de janeiro – tentamos conciliar nossos horários da melhor maneira possível. Pela manhã, Thiago devotava-se ao seu trabalho de tradução do poeta peruano César Vallejo, que eu só conhecia de alguns poemas publicados no extinto jornal Versus, do inesquecível Marcos Faerman. Sempre que terminava uma transcriação, Thiago pedia minha opinião, cotejando o original com a nova obra. Eu escapava pela tangente.

Por volta do meio-dia, invariavelmente, Thiago ia pra cozinha. As mulheres – Dinari, Aparecida e Soninha, a governanta da casa e esposa do Raimundo – se limitavam a cortar verduras, limpar as carnes e separar os temperos. Em duas horas, o “chef” apresentava suas armas: galinha à cabidela, leitão à pururuca, cordeiro com hortelã, omelete de ovas de bodó, escabeche de pescada e o pirarucu, preparado e servido no alpendre. Uma farra deliciosa!

Depois do almoço, a “siesta”, que ele havia aprendido com seu parceiro Pablo Neruda (os dois moraram juntos mais de seis anos, no casarão da Isla Negra), que consumia o resto da tarde. Eu aproveitava esses horários para colocar a correspondência em dia – se é que vocês me entendem.

Voltávamos a nos encontrar por volta das 8h da noite – depois de jantar – para detonar doses paquidérmicas de uísque. E conversar. Conversar muito. Como qualquer dublê de jornalista, eu não levei um mísero gravador para registrar nossas conversas. Aos trinta anos, confesso, tinha um orgulho suicida de minha memória cinematográfica. Hoje, não. Excesso de álcool, I presume.

Dentre as diversas conversas que tive com Thiago, uma, em especial, lhe chamou a atenção e o deixou comovido. Na adolescência, eu estudei com três sobrinhos deles (Nathan Jr., Nádia e Liana) no colégio Ida Nelson.

Por meio deles, soube que Thiago estava exilado no Chile. Também li algumas cartas que o poeta mandou para sua irmã, a pianista Maria Júlia Rodrigues, mãe dos brothers citados antes, emprestadas pela Nádia à minha irmã Simone. As cartas eram entremeadas de poemas.

Com 14 anos, eu não ligava muito pros fatos, mas sabia que estava diante de um poeta genial. Era conta de multiplicar – acho que sempre foi assim, na história da humanidade –: para um moleque com os hormônios à flor da pele, tudo é permitido, inclusive pequenos delitos. A mulherada não dava bola pra mim? Pois então elas iam ver do que eu era capaz.

Na maior cara dura, comecei a copiar alguns poemas deles postados nas cartas (depois reunidos no genial “Faz escuro, mas eu canto”, em que fez dedicatória carinhosa ao velho amigo: “Para Pablo Neruda – meu amigo Paulinho – voz cristalina e ardente, que se ergue cantando, cada amanhecer, pela libertação de nossa América”) e comecei a distribuir pra meninas como se fossem de minha autoria.

O que choveu de brotos na minha horta não estava nos gibis. Thiago riu muito da presepada. Alguns daqueles versos ainda trago de memória, apesar de não serem mais funcionais. Ficaram obsoletos. Hoje em dia, mulher quer saber mesmo é de grana. Talvez tenha sido sempre assim. Fazer o que?

2 comentários:

veronica disse...

É interessante a notícia sobre Thiago de Mello, mas não está atualizada quanto a esposa dele, pois da senhora citada ele está separado faz muito tempo. Sua atual esposa é Pollyanna Furtado que é escritora e poeta também e formam um lindo casal. Adoro vê-los passeando de mãos dadas pelo Largo São Sebastião, em frente ao Teatro Amazonas, em Manaus.

Simão Pessoa disse...

Se a história aconteceu em 2000, eu teria que ter bola de cristal para saber que cinco anos depois o Thiago iria se separar da Aparecida...