quinta-feira, maio 21, 2009

O dia em que o boi deu bode (parte 1)


Eu e Engels durante um dos relançamentos do jornal Candiru, no início deste milênio. À direita, meio perdido na noite, o empresário Arnaldo Botelho

Hoje é dia do aniversário de meu velho brother Engels Lomas de Medeiros, com quem já passei poucas e boas. Se não me falha a memória, seu motor agora é cinco-ponto-quatro, turbinado à base de viagra, cerveja gelada, tartarugada, carneiro no molho de hortelã, beatriz e selminha. Pra não deixar tão singela data passar em brancas nuvens, resolvi recordar (e recordá-lo) de uma presepada nossa ocorrida há 30 anos.

Junho de 1979. Em busca de novos mercados para os produtos fabricados pela Electra Industrial, onde aguardávamos, humildemente, a chuva passar (em agosto de 1978, Engels havia sido demitido da Philips, e eu, da Sharp, por conta de uma greve mal sucedida), nós dois resolvemos tentar a sorte em Parintins.

Durante a tal greve mal sucedida, Carlos Almeida havia sido demitido da Evadim com apenas três meses de emprego (ele largara o cargo de professor da ETFA para ser Chefe de Treinamento da empresa). Sua esposa, Ana Regina, estava gestante do Carlinhos. Daí que nossa prioridade absoluta era arrumar um novo emprego pro Carlos no menor tempo possível.

Em dezembro, a Telamazon colocou um anúncio nos jornais procurando um engenheiro eletrônico com experiência. Qualquer um de nós (eu, Engels, Geraldo Nogueira, Adalberto de Melo Franco, Paulo Saraiva, etc) conquistaria a vaga pelo nosso tempo de experiência (quase cinco anos) no Distrito Industrial.

Resolvemos abrir mão de disputar a vaga em favor do Carlos Almeida, que relutou um pouco em aceitar com tranquilidade esse nosso cavalheirismo animal. Não deu outra. Algumas semanas depois, ele foi contratado pela Telamazon e se transferiu para Parintins, onde se transformou em diretor técnico do posto telefônico local.

É preciso lembrar que ainda estávamos na pré-história das Comunicações. Naquela época, o responsável por autorizar a ligação telefônica do município com o resto do país só perdia em importância para o prefeito, o juiz e o delegado. O bispo era o quinto elemento. Quer dizer, a gente estava bem servido de anfitrião. Não custava ligar pedindo uma hospedagem “de grátis”.

Como coincidiu de a Ana Regina vir para Manaus para dar luz ao Carlinhos (meu afilhado, uma das cabeças pensantes da nova geração de defensores públicos do estado), nossa ida para Parintins foi sopa no mel. Carlos estava sozinho, morava em um casarão imenso, e garantiu ter o maior prazer em nos hospedar na residência. Como boca livre e pênalti só perde quem é otário, resolvi levar junto o Simas, na época um moleque de 18 anos.

Em virtude de nossa carga ser semi-preciosa (rádios AM imitando a cabeça de Fred Flintstone, Luluzinha e Gasparzinho, rádios-faróis-buzina para bicicletas, abridores elétricos de latas, despertadores digitais e outra série de bugigangas produzida pela Electra Industrial para o consumo exclusivo da ralé), resolvemos comprar um camarote no barco de linha Comandante Farias, que ia até Santarém.

O camarote era para quatro pessoas, mas nós éramos apenas três (eu, Simas e Engels). Em virtude de o dono do barco não concordar em diminuir o preço, aceitamos que ele vendesse a quarta vaga para um desconhecido. E como éramos marinheiros de primeira viagem, nos instalamos no barco por volta do meio-dia de uma sexta-feira, mesmo sabendo que ele só ia partir às 18h. Esse, o grande erro.

Irritados com a monotonia aparente, Engels e Simas resolveram ir para uma daquelas biroscas no entorno do Cais e botaram pra beber. Retornaram ao barco por volta das 17h45, já mais bêbados do que gambá e resolveram continuar a farra no bar da embarcação. Por uma questão de solidariedade ao irmão caçula, juntei-me à gandaia.

Quando eles começaram a discutir filosoficamente sobre o sexo dos anjos, percebi que ia dar merda. Porque depois da discussão filosófica, você precisa, naturalmente, fazer uma demonstração prática. E lá saíram os dois em busca de anjos para fazer sexo. Devia ser umas 20h e eu ainda não estava bêbado. Fui para o camarote.

Por volta das 21h, ouço umas batidas frenéticas e furiosas na porta do camarote. Abri, meio relutante. Era o capitão do barco, responsável direto pela pilotagem da embarcação e pela disciplina no pardieiro. O sujeito estava completamente ensandecido:

– Porra, caralho, puta que pariu, mas aqueles teus dois amigos estão aprontando! Estão fazendo muita sacanagem e isso aqui é um barco de respeito! Porra, pede pra eles se orientarem! Os dois capirotos estão incomodando o pessoal lá de baixo (onde ficam os passageiros que viajam de redes), querendo foder com todo mundo! Vão acabar levando porrada! Se eles não pararem com a bagunça, vou desembarcar os dois em Itacoatiara!

Assustado com a ferocidade do capitão, só me ocorreu uma pergunta:

– Que horas a gente chega em Itacoatiara?

– Por volta de uma hora da manhã! – devolveu o capitão, cada vez mais irritado. E foi embora, cuspindo fogo.

Eu tinha três horas para resolver a encrenca. Saí do camarote disposto a procurar os dois salafrários e dar uma “dura”. A merda é que estávamos em um barco grande, com mais de duzentas pessoas. Era como procurar agulha no palheiro. Depois de meia hora circulando em tudo quanto é canto, cansei da busca inútil e voltei pro camarote. Ele estava fechado.

Deduzi automaticamente que os dois sacanas haviam chegado antes de mim, entrado na pocilga e se trancado dentro, me deixando do lado de fora só de sacanagem. Bêbado acha tudo divertido. O certo é que mês esgoelei pedindo pros safados abrirem a porta e forcei tanto pra entrar, que acabei arrancando a maçaneta.

Puto da vida, fui atrás do capitão, entreguei a maçaneta e expliquei a situação. Ele chamou o chaveiro do barco (o sujeito que controla a cópia das chaves do camarote) e mandou o rapaz me atender. Ele abriu o camarote e foi embora. Quando entrei, uma nova surpresa. Ou os meliantes haviam roubado a nossa carga semi-preciosa ou aquele era um outro camarote.

Retrocedi uns três passos, conferi o número do camarote. É, aquele era outro. O nosso ficava ao lado. Meti a mão na maçaneta, a porta abriu. Estava tudo do jeito que eu havia deixado. Em vez de me aliviar, essa constatação me deu um ódio medonho.

Resolvi me vingar. Fui no bar, comprei quatro latas de cerveja, bebi em menos de dez minutos e esperei o efeito. Cinco minutos depois, encharquei de urina as duas camas inferiores do camarote e me empolerei em uma das camas superiores do beliche.

Eu estava ali, de olhos bem abertos, esperando pelos dois salafrários, quando entra no camarote um sujeito baixinho, coloca sua mala em cima das nossas e mergulha em uma das camas mijadas. Automaticamente, percebi que era o nosso quarto parceiro. Caralho, mas eu não ia deixar ele entrar naquela roubada de dormir em uma cama encharcada de mijo.

Saltei do beliche, levantei o sujeito pela bunda e, antes que ele pudesse reagir, o coloquei na cama superior. A porra das quatro cervejas em lata haviam me deixado meio bêbado, mas ainda assim tentei explicar aquela situação esdrúxula:

– Você vai dormir aqui do meu lado, porque primeiro eu quero foder aqueles outros dois filhos da puta...

O tom da voz, a força bruta e a minha determinação devem ter soado para o baixinho como um anúncio de que, depois dos dois, ele seria a próxima vítima de um tarado sexual. Assim que voltei a me empoleirar no beliche, ele pulou do seu poleiro e fugiu do camarote como se tivesse visto o demo em pessoa (sem trocadilho, please).

Simas e Engels apareceram no camarote por volta da meia noite pra pegar mais dinheiro e comprar cervejas no mercado negro, já que o bar havia sido fechado por ordem expressa do capitão. Expliquei que eles iam ser deportados do barco dali a uma hora, assim que a gente parasse em Itacoatiara.

Eles mandaram eu, o capitão e o resto da tripulação ir tomar no cu e partiram céleres e faceiros para o terceiro piso da embarcação (“É lá que estão as putas”, um dos dois gritou). Sim, homeboys, é mesmo lá, naquele ambiente inóspito, próximo do cheiro infecto dos banheiros e do barulho ensurdecedor dos motores, que viajam os deserdados da sociedade. Resolvi dormir.

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