sábado, maio 02, 2009

Os Grandes Mestres da AMOAL – Carlinhos Niemeyer (7)


Quando se diz que o carioca é alegre, pode-se estar cometendo uma injustiça – porque, se é assim, como classificar Carlinhos Niemeyer, um dos mais renomados grandes mestres da AMOAL? Homem em permanente estado de Carnaval, ele incendiou festas, coquetéis, arquibancadas, boates, praias, ruas e bairros inteiros do Rio.

O Clube dos Cafajestes, o Caju-amigo, o Castelinho, o Flamengo, o Canal 100, tudo isso é Carlinhos Niemeyer. E, na qualidade de verdadeiro inventor do sorriso de orelha a orelha, ele nunca se arrependeu de ser feliz.

Nascer na rua Silveira Martins, a poucos metros do Palácio do Catete durante um Fla-Flu, apenas lhe facilitou as coisas: optou logo pelo Flamengo, e ser vizinho do centro do poder fez com que, desde cedo, aprendesse a não levar autoridade a sério. O carnaval de sua infância eram as inocentes batalhas de confete e Carlinhos decidiu que, um dia, iria torná-lo menos inocente.

Quando veio a Segunda Guerra, ele serviu na Força Aérea Brasileira (FAB). Um estágio como piloto de caça nos Estados Unidos permitiu-lhe ir a Hollywood e dar uma namoradinha em Carmen Miranda. De volta ao Rio, foi pilotar bombardeiros. Num vôo de patrulha da costa, sabendo que havia um submarino alemão na área, viu um corpo estranho lá embaixo e preparou-se para soltar uma tonelada de bombas. Teria sido um vexame porque, de repente, o submarino esguichou – era uma baleia.

Com o fim da guerra, em 1945, Carlinhos entrou para a aviação civil, onde conheceu sua alma gêmea: Carlos Eduardo Oliveira, o comandante Edu, também ex-FAB. Juntos, eles criaram o Clube dos Cafajestes, uma instituição da boemia carioca.

As primeiras reuniões do Clube dos Cafajestes foram realizadas na residência do futuro deputado estadual Mário Saladini, que morava na Avenida Atlântica, sobre o desaparecido Bar Alvear e onde hoje fica o restaurante Manoel & Joaquim. Na época, o Bar Alvear virou ponto de encontro obrigatório da rapaziada.

De 1943 a 1951, o clube movimentou a noite carioca com a promoção de grandes festas e bailes, no Clube Marimbás, no Copacabana Palace, na boate Vogue e em outros espaços. Entre os ilustres espadas matadores que se destacavam no grupo, além de Carlinhos Niemeyer, Edu e Saladini, estavam Mariozinho de Oliveira (playboy e milionário), Jorginho Guinle (playboy e milionário), Sérgio Porto (mais conhecido como o cronista Stanislaw Ponte Preta), o Príncipe D. João de Orleans e Bragança, Heleno de Freitas (advogado e craque de futebol), Paulo Soledade (compositor e escritor), Ermelino Matarazzo (industrial paulista residente no Rio), Carlos Peixoto (um dos primeiros praticantes de frescobol), o jornalista Ibrahim Sued e Paschoal Rapuano, remador, imbatível na categoria skiff, que defendeu o Brasil nas Olimpíadas de Berlim, em 1936.

Em linhas gerais, os cafajestes eram um grupo de rapazes entre 25 e 30 anos, alegres, mulherengos, bons de copo, criativos e corajosos. Quase todos tinham curso superior, trabalhavam e falavam línguas (nada a ver com os marombeiros de hoje). Sua base de operações era Copacabana, mas suas estripulias cobriam a cidade.

Andavam juntos o ano todo e, no carnaval, abafavam: suas festas a fantasia eram as mais disputadas da cidade, com bebida, orquestras e mulheres no superlativo. Brigas também, a maioria provocada por gente de fora – porque só quem não os conhecia ousava desafiá-los. Armados apenas com os punhos e um ou outro caco de garrafa, os cafajestes enfrentavam até o choque da Polícia Especial.

Deixados em sossego, limitar-se-iam a rir, beber e inaugurar as mais deslumbrantes garotas da sociedade, que eram loucas por eles. Inauguraram também a idéia de dar festas nas casas de Copacabana condenadas à demolição – no fim de cada festa, já não havia muito o que demolir. Em muitas daquelas mil e uma noites, os cafajestes sentiram-se imortais. E, então, em 1950, Edu morreu num desastre com seu Constellation da Panair. Ele era o líder, o herói e, para Carlinhos, os cafajestes acabaram ali.

Em homenagem a Edu, Paulo Soledade e Fernando Lobo fizeram a marchinha “Zum-zum” (“está faltando um”), campeã do Carnaval de 1951, na voz de Dalva de Oliveira, ocasião em que os cafajestes deram uma festa para mil pessoas no antigo Cassino Atlântico, no posto 6. Depois, muitos boêmios, por serem amigos de um ou de outro da turma, começaram a dizer-se membros do clube (como o milionário paulista Baby Pignatari, que praticamente comprou seu ingresso no grupo).

O espírito dos cafajestes continuou vivo nos bailes do Caju-amigo, regados a batida de caju, que Carlinhos passou a promover no Carnaval. Os primeiros foram na boate Vogue, no Leme, mas, em 1955, o Vogue pegou fogo e o Caju-amigo ficou itinerante. O traje oficial de Carlinhos para esses eventos era sua melindrosa rubro-negra ou a fantasia de “Dama de Preto”, personagem da coluna de Ibrahim Sued. O Caju-amigo cresceu tanto que as boates já não o comportavam.

Em 1964, Carlinhos promoveu um reveillon que começou às dez da manhã do dia 31 de dezembro no Castelinho – na praia mesmo, fechada por eles – e avançou pela noite. Foi uma grande esbórnia, com a orquestra a todo o pano e gente fantasiada rolando no escuro pela areia. Foi também a primeira vez que se fechou Ipanema para um evento.

Mas, muito antes, em termos de praia, ele já fizera a transição de Copacabana para o Arpoador. Morador do Flamengo nos anos 40, Carlinhos estava sempre na praia em Ipanema com os muitos jovens Antonio Carlos Jobim e Kabinha e Sinhozinho, ao lado de Paulo Amaral e Luiz “Ciranda”, e à noite, na deserta e escura avenida Vieira Souto, usava seu Studebaker como cama de casal. Em 1954, ele e sua turma botaram meio Arpoador para correr, em defesa de Marta Rocha, que estava sendo ofendida por moleques por sua recente derrota no Concurso de Miss Universo.

Outra idéia de Carlinhos foi a volta do corso de automóveis no Carnaval. Ele e seus amigos alugavam fordecos e rabos-de-peixe conversíveis no subúrbio, enchiam-nos de grandes mulheres e desfilavam pela zona sul. O último corso, em 1969, saiu recolhendo gente por Ipanema e fez ponto final no Copacabana Palace, com a turba se atirando de roupa na piscina, inclusive os moleques do morro do Cantagalo, que haviam se juntado a ele. Mas, naquela época, o próprio Caju-amigo já estava ficando sem graça: os penetras eram tantos que havia quem chegasse a Carlinhos e perguntasse quem era ele. “De amigo, só restou o caju”, ele disse.

Até no futebol Carlinhos conseguiu distribuir alegria. Em 1959, abandonou a aviação e criou o cinejornal Canal 100. Nos 28 anos seguintes, em qualquer cidade brasileira, não houve platéia que, ao ir ao cinema, não exclamasse “Ah!” – quase um orgasmo – ao ver surgir na tela o símbolo do Canal 100 e seu empolgante prefixo, “Na Cadência do Samba”, de Luiz Bandeira. Era o futebol brasileiro no seu apogeu e filmado como ninguém mais sabia fazer.

O Canal 100 não se limitava às burocráticas tomadas de cima da marquise, a gols mais mostrados e a jogadores dando a saída no segundo tempo, como faziam os outros jornais. Era um festival de dribles em big close, gols no nível do gramado, goleiros desolados indo buscar a bola no fundo da rede, artilheiros dando socos no ar e geniais caratonhas de torcedores banguelas na geral – muitas vezes em câmera lenta e registrado por seis ou oito câmeras nos grandes jogos (quase sempre os do Flamengo ou da Seleção). O narrador era Cid Moreira.

A criatividade do Canal 100 mudou a maneira de filmar o futebol no mundo inteiro e antecipou em muitos anos as bossas de que hoje se orgulha a televisão. Com a diferença de que, no começo do Canal 100, eram feitas com filme de cinema, muito mais difícil de operar, não com videoteipe. As quase 2 mil partidas cobertas pelo Canal 100 constituem um acervo (muito bem guardado no depósito do Cinejornal, em Ipanema) fundamental do futebol brasileiro.

Nos anos 80, o Canal 100 foi perdendo a importância, à medida em que o público deixava de freqüentar as salas de cinema e a televisão aprimorava a cobertura esportiva. Nesta década, houve uma tentativa de renovar o noticiário, mas sem o sucesso dos anos 60, o período áureo.

Primo do arquiteto Oscar Niemeyer, Carlinhos Niemeyer morreu de complicações coronarianas, no dia 20 de dezembro de 1999, aos 79 anos, na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro, onde estava internado há cerca de uma semana. E não há expressão melhor para definir Carlinhos Niemeyer do que o verso daquele mesmo samba: “Que bonito é”.

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