sábado, maio 02, 2009

Os Grandes Mestres da AMOAL – Giacomo Casanova (1)


No imaginário popular, o italiano Giacomo Casanova e o espanhol Don Juan às vezes se confundem. Ambos foram aventureiros, sedutores e libertinos. Pois foi graças a eles que a nossa impoluta Antiga e Mística Ordem dos Abatedores de Lebres (AMOAL) se transformou em uma escola de sabedoria oculta para a prática do sexo casual, espalhando, posteriormente, seus conhecimentos para todo o mundo ocidental.

Filho de um casal de atores, Casanova nasceu em Veneza, em 1725, e amou dezenas de mulheres pelos lugares onde andou. Conheceu mais de uma centena de cidades, entre as quais Lyon, Praga, Viena, Paris, Roma, Amsterdã (onde tomou conhecimento dos protocolos de Ninrode), Londres, São Petersburgo, Madri e Dux, na Boêmia, onde morreu, em 1798.

Mas ao contrário de Don Juan – personagem semilendário que teria vivido em Sevilha e cuja imagem, com várias modalidades de caráter, inspirou versos e prosas, peças de teatro e enredos de filmes – não há dúvidas sobre sua existência.

Eterno enamorado das paixões fugazes, Casanova iniciou precocemente a vida sentimental. Aos nove anos já mantinha relacionamento íntimo com a balzaquiana Bettina, irmã do abade encarregado de sua educação. Aos 15 se tornou um amante experiente. Pretendeu seguir a carreira religiosa, chegou a receber as ordens menores, mas foi expulso do seminário de Veneza por comportamento escandaloso.

Aos 17 começou a viajar, envolvendo-se em inúmeras intrigas e brigas. Consolidou a imagem de mulherengo ao escrever o livro Memórias, publicado pela primeira vez em alemão, no início do século 19. Algumas cenas relatadas por ele são tão ousadas que o editor Friederich Brockhaus, de Leipzig, cortou-as do texto final.

É compreensível, portanto, que Casanova não seja lembrado pelo fato de ter sido igualmente um grande intelectual. Além de escrever bem em prosa e verso, dominava o latim e o grego. Traduziu a Ilíada, poema épico sobre a guerra de Tróia, atribuído a Homero, composto de 24 cantos, com mais de 15 mil versos.

Conhecia filologia, teologia, matemática, física e música, tendo sido violinista profissional. Adorava jogar cartas e introduziu a loteria na França. Gostava de política, foi encarregado de missões diplomáticas e freqüentou a corte de Catarina II, imperatriz da Rússia. Ali se sentiu à vontade. Catarina II, após destronar o marido Pedro III, que ameaçava repudiá-la, também levou uma vida cheia de peripécias amorosas.

Casanova não selecionava as mulheres. Assediava nobres e plebéias, jovens e maduras, louras e morenas, bonitas e feias, analfabetas e intelectuais. Suas memórias completas só apareceram em 1960, numa edição francesa.

A leitura confirma que ele soube harmonizar, como poucos, os prazeres refinados da mesa com a sensualidade da alcova. Usava a comida e a bebida como pretextos para conquistar as mulheres.

Numa viagem a Turim, conheceu as jovens Armelina e Emília. Convidou-as para jantar e, a certa altura, começou a discorrer sobre a combinação das ostras com o champanhe. Armelina foi a primeira que sucumbiu à astúcia de Casanova.

“Parecia-me impossível que pudesse resistir às minhas gentilezas, ao final do jantar e daquele momento de orgia com champanha e ostras”, escreveu o conquistador nas Memórias. Emília, extasiada com o charme de Casanova, deixou cair uma ostra entre os seios. O galanteador estava a postos e socorreu a moça.

Especialista na psicologia feminina, ele variava o menu conforme a mulher a conquistar. Nas Memórias, Casanova afirma que as louras tendem a preferir verduras frescas, frutos do mar, peixes na manteiga, aves, comidas adocicadas, cremosas, suaves e queijos não muito picantes. Bebem os vinhos brancos e o champanhe.

Já as morenas adoram hortaliças de perfume intenso, ostras com limão, embutidos apimentados, risotos, carne vermelha, queijos fortes, doces recheados e chocolate. Gostam dos vinhos tintos, como o Bourgogne e o Bordeaux, e do champanhe.

Casanova também se referiu às ruivas, de pele muito clara e sensível. Essas, segundo ele, escolhem “alimentos requintados e leves, mas por outro lado o temperamento as aproxima do fogo”. Tomam vinhos brancos secos, os Côtes du Rhône e os rosados. “E champanhe, sempre”, sublinha. Nada mais justo. Era seu combustível de combate.

Pessoalmente, Casanova privilegiava a culinária italiana, embora elogiasse as cozinhas francesa e espanhola. Gostava de creme de queijo com trufa branca, agnolotti com manteiga e sálvia, bacalhau “mantecato” (desfiado, cozido no leite e batido com azeite até virar creme), risoto ao champanhe, esturjão com cogumelos, enguias com polenta, chocolate quente e café.

Aplaudia a cozinha espanhola e vaiava a inglesa. Mas garantia aguçar o apetite sexual comendo 12 ostras no café da manhã e outras 12 no almoço. Também se sentia estimulado bebendo os vinhos brancos da Úmbria e de Chipre, além do moscatel grego da ilha de Cérigo. Abominava os jejuns, afirmava que lhe causavam distúrbios visuais.

Acabou conseguindo dispensa eclesiástica dessas penitências e passou a comer carne na quaresma, obrigando suas parceiras a fazerem o mesmo. Um trecho das Memórias sintetiza as duas maiores paixões de Casanova. “Cultivar os prazeres dos sentidos foi (...) a suprema preocupação da minha vida”, afirma.

“Nunca tive outra mais importante. Sentindo-me nascido para o sexo diferente do meu, sempre o amei, e fiz-me amar tanto quanto me foi possível. Também amei a boa mesa com arrebatamento, e apaixonadamente todos os objetos feitos para excitar a curiosidade”.


Pequeno toque do Grande Mestre baiano Rafael Galvão

Simão,

Só uns adendos à mini-biografia de Casanova:

Na Rússia, ele não se deu bem. Voltou de lá magoado com Catarina, que não deu nenhuma importância a ele. Se a sua juventude foi absolutamente brilhante -- sua fuga da prisão em Veneza é brilhante -- seus últimos 30 anos de vida foram absolutamente decadentes.

Morreu esquecido num castelo alemão, como guarda-livros se não me engano, sofrendo entre outras coisas com hemorróidas -- além das seqüelas de um bocado de doenças venéreas.

Acho que a ênfase no sexo casual não era exatamente a dele. Mas essa ênfase na comida, e sempre fazer uma associação constante entre comida e sexo, é bem a cara dele.

Mas o problema é que ele também abatia coelhos. Algumas vezes.

Um comentário:

Rafael Galvão disse...

Simão,


Só uns adendos à mini-biografia de Casanova:

Na Rússia, ele não se deu bem. Voltou de lá magoado com Catarina, que não deu nenhuma importância a ele. Se a sua juventude foi absolutamente brilhante -- sua fuga da prisão em Veneza é brilhante -- seus últimos 30 anos de vida foram absolutamente decadentes. Morreu esquecido num castelo alemão, como guarda-livros se não me engano, sofrendo entre outras coisas com hemorróidas -- além das seqüelas de um bocado de doenças venéreas.

Acho que a ênfase no sexo casual não era exatamente a dele. Mas essa ênfase na comida, e sempre fazer uma associação constante entre comida e sexo, é bem a cara dele.

Mas o problema é que ele também abatia coelhos. Algumas vezes. ;)