quarta-feira, maio 13, 2009

A riqueza cultural da música negra


Leidiane Montfort

Há exatos 121 anos a princesa Isabel assinava a Lei Áurea, libertando do cativeiro milhares de homens, mulheres e crianças. A tão sonhada liberdade física abria então a porta para uma outra parte dessa história de luta sofrida dos negros por direito a uma vida digna, menos humilhante, respeitosa e cidadã.

Segundo dados do IBGE, até o ano que vem a maioria dos brasileiros será de negros, pela primeira vez na história do país. A renda deles, no entanto, vai ser igual a da população branca somente no ano de 2040, isto é, daqui a 31 anos! Atualmente, recebem em média, 53% da renda dos brancos.

Na esteira dessa luta a arte permeou o choro, o banzo, a indignação e a esperança. Marcas fortes na cultura e principalmente, na música popular brasileira fizeram com que as terras tupiniquins ouvissem, falassem e dançassem essa música forte, linda, cheia swing e impregnada de história.

O swing africano aportou pelas bandas de cá com a vinda dos escravos que trouxeram na bagagem instrumentos musicais como o Ganzá, Puíta ou Cuíca e o Tabaque ou Atabaque, entre outros. Estes instrumentos são quase todos de percussão exclusivamente rítmica, que servem a combinações de ritmos que fazem com que os resultados sejam sons dinâmicos, incisivos e viscerais que emocionam e dão um gingado próprio a qualquer canção.

Essa importante influência negra na musica brasileira fez com que esta se transformasse em uma das mais ricas e com maior diversidade do planeta. Se não fosse o povo africano que aportou no Brasil para sofrer em cativeiro infortúnios de toda ordem não teríamos a oportunidade de penetrar e incorporar toda a riqueza cultural vinda do continente longínquo. Contudo, o preço para essa inserção da cultura negra em nossos costumes foi muito alto e cruel, mas o que dela temos hoje é um patrimônio inestimável, e de beleza única.

Tudo isso só foi possível graças a obstinação e a resistência dos africanos em não deixar que suas matrizes culturais fossem perdidas da convivência cotidiana de nossa sociedade impondo-a com muita luta a sua penetração e adquirindo ao longo da história o lugar de destaque que hoje muito nos orgulha. Dessa contribuição temos no caso da musica popular o samba como a sua maior representação.

É importante ressaltar que o Brasil mesmo conservando a sua integridade cultural sempre esteve aberto a sofrer influencias de outros povos e a incorporá-las ao nosso acervo artístico subtraindo dessas manifestações alienígenas apenas a forma mas enriquecendo-a com um conteúdo nosso, desse modo tudo o que aqui se produz ou se produziu acaba tendo uma conotação verde amarela.

Um exemplo dos que se mostram como fiéis a identidade da música nacional e à raça do swing é o rapper carioca MV Bill, que baseia seus discos e samplers em produções feitas no Brasil, com músicas de Tim Maia e Djavan por exemplo, ou nos atabaques afro-brasileiros que pontuam as produções.

"Nossa música é rica demais para que os rappers do Brasil afora fiquem sampleando James Brown, Isaac Hayes e demais nomes do funk americano. Sou um colecionador de rap do mundo todo, tenho coisas de rap russo, asiático, alemão e francês, e percebi que todos eles fazem rap com própria identidade, com elementos da própria cultura", aponta o ativista e fundador da Central Única das Favelas-Cufa.

Para ele, cada vez mais os brasileiros podem se honrar da música que é produzida no Brasil, principalmente a chamada "música negra", seja qual for o estilo musical escolhido.

"A verdade é que você, e todo brasileiro, tem sangue crioulo, tem cabelo duro, sarará crioulo", canta Sandra de Sá, exaltando a formação étnica brasileira multicolorida. Sandra é um dos grandes expoentes da música negra no Brasil. Assim como Pixinguinha, Cartola, Martinália, Jair Rodrigues (considerado precursor do rap), Racionais Mcs, Luis Melodia, Jorge Ben, Tim Maia, Seu Jorge e muitos outros nomes e histórias de sucesso na música, fora os que indiretamente contribuíram para o crescimento da variedade e diversidade de ritmos brasileiros e/ou importados.

De nítida influência africana, o samba nasceu nas casas de baianas que seguiram rumo ao Rio de Janeiro no início do século passado. A consolidação de seu estilo com grandes nomes, de maioria composta por cantores e compositores negros que viviam nos morros antigos, encontra força revigorante no final dos anos 20, que é quando desponta a geração do Estácio, fundadora da primeira escola de samba. O samba, maior base da MPB, gerou derivados, como o samba-canção, o samba-de-breque, o samba-enredo e, inclusive, a bossa nova, entre outros.

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