terça-feira, março 31, 2009

O mar não está pra peixe, velho!


Caio Borges (de bigode, o primeiro na direita), ao lado de Mário Adolfo, que está ao meu lado, que estou ao lado do Zemaria Pinto, que conversa com o Davi Almeida. No primeiro plano, o jornalista Altino Machado, ao lado do ex-presidente da OAB Alberto Simonetti, falecido precocemente no ano passado. O cocoruto feminino é da jornalista Rosângela Alanis. A boca livre (meu aniversário, em 1998) rolou na Cantina da Silvia, ali na Caxuxa. Bons tempos, zifio!

Sábado passado. A gente mal tinha sossegado a alma por conta do desaparecimento precoce do Sebastião Reis, quando toca o telefone. Do outro lado da linha, Jô Almeida, mulher do compositor Davi Almeida, canta a pedra: o arquiteto e artista plástico Caio Borges havia falecido. Infarto agudo no miocárdio. Puta que pariu!

Fazia alguns anos que eu não via o Caio Borges. Quando seu escritório de arquitetura era próximo do Bar do Armando, praticamente conversávamos todas as noites. Depois, ele e Claudinha se mudaram para o Vieiralves e as conversas foram rareando. Era um bom amigo, um bom papo e um tremendo gozador.

Nos anos 90, ele, Turenko Beça (filho do Aníbal Beça) e João Rodrigues deram uma chacoalhada nas artes plásticas da taba, ao lançarem o movimento “Radicais Livres”. Fui a algumas exposições da trinca no Centro Cultural Chaminé. Observando as paredes do escritório, descubro que não fiquei com nenhum quadro do sacana. Uma pena!

Eu ainda estava remoendo as mágoas de não ter conversado com o Caio nos últimos cinco anos, quando toca o telefone na noite de domingo. Do outro lado da linha, França, mulher do radialista Renato Pitanga, canta a pedra: o Naldinho, campeão amazonense de dominó e porrinha (categoria absoluta) e um dos irmãos do Pitanga, havia falecido. Broncopneumonia. Puta que pariu!

O caso do Naldinho foi mais chocante. Ele estava com passagem aérea marcada para o Rio de Janeiro, onde ia tomar conta de uma das lojas do Edson Pitulino, irmão mais velho do Renato Pitanga. Edson estava nos EUA, comprando equipamentos para sua empresa, que há mais de 30 anos fornece equipamentos e assistência técnica para as grandes empresas de telecomunicações do país.

Naldinho não viajou porque, segundo seus familiares, havia contraído uma pequena micose alérgica. A passagem foi remarcada. No domingo anterior ao do seu passamento, ele resolveu limpar o tanque d’água de sua residência. No alto de uma escada, tentou se apoiar na borda do tanque Brasilit (que estava seco). O tanque cedeu e desabou sobre ele, o derrubando da escada. Arrebentou a cabeça no chão.

Os médicos conseguiram contornar o traumatismo craniano, colocando-o em coma induzida. Quando ele saiu do coma, os médicos descobriram que ele estava debilitado por conta de uma broncopneumonia. Os antibióticos não fizeram efeito. No sábado, ele ainda conseguiu conversar longamente com o Renato Pitanga, via celular, que estava em Benjamin Constant tentando arranjar uma passagem aérea pra Manaus. No domingo passado, jogou a toalha. Foi enterrado hoje, com a presença do Renato.

Quer dizer, esse espaço aqui está quase se transformando em um necrotério permanente de meus grandes amigos. Fazer o que, a não ser lamentar?

Bom, mas em virtude dessas furadas de fila de Ernesto Coelho, Paulo José, Sebastião Reis, Caio Borges e Naldinho, somente nos três primeiros meses do ano, desencavei esse soneto do João Carlos Teixeira Gomes, que espero seja meu epitáfio (a trilha sonora, claro, tem de ser “A Velha da Capa Preta”, de Siba e a Fuloresta):

SONETO DA MORTE SEM SUSTO

Minha única certeza é minha morte.
Virá festiva, com pendões vermelhos,
Provocadora com seu riso forte.
Mas me verá de pé, não de joelhos.

Pode vir de mansinho a forasteira
Ou numa orgia de ossos e fanfarras,
Com dois laços de fita na caveira
E o ágil chocalhar das finas garras.

Eu que os mares amei, e o sol tirânico,
Os flavos grauçás de dorso enxuto,
As moças de maiô e o vento atlântico,

Sereno hei de esperá-la em meu reduto.
E assim ao ver-me, sem sinal de pânico,
A própria morte se porá de luto.

quinta-feira, março 26, 2009

A perda irreparável de um irmão, um amigo querido


“Perdi um irmão que começou a vida profissional em A CRÍTICA, com Claudio Barbosa, Sebastião Assante e Valdo Garcia. Era um grande amigo, muito querido. Não conheço ninguém que tivesse problemas com ele, pois Reis era só amor”. Com esse depoimento emocionado, a vice-presidente do jornal A CRÍTICA, Cristina Calderaro Corrêa, falou sobre a perda irreparável do jornalista Sebastião Reis.

Convidado a voltar a Manaus em 1998 para comandar a maior reforma gráfica do jornal, Cristina lembra de quando telefonou para ele, em Paris, onde fazia a cobertura da Copa do Mundo, convidou-o a trabalhar em A CRÍTICA. “Quando ele me disse que só poderia vir depois da Copa, falei que torceria pela não classificação do Brasil para que não demorasse em atender o convite”, conta a vice-presidente.

Cristina conta que, apesar de todas as circunstâncias da vida, nunca se afastou de Reis, mesmo quando deixou o jornal. Quando sentia saudade, era levada pelo motorista ou pelo marido, Mário Junior, ao Beth Balanço, na avenida Jornalista Umberto Calderaro, ponto de parada de Reis quase todas as noites. “Ele vinha ao nosso encontro no carro e conversávamos sobre a vida e a família”, lembra Cristina.

Reis fazia jornalismo com amor e tolerância, acima de tudo. Uma característica dele que deveria ficar de exemplo para todos era o respeito de eis pelas pessoas, pelo leitor, qualidades que o faziam ser motivo de orgulho para o jornal A CRÍTICA.

Chico Amaral, autor do projeto gráfico de A CRÍTICA, lembra que quando chegou a Manaus encontrou um editor que “transpirava energia”. “Era uma máquina que rodava a 220 por hora e não perdia nada de vista. Foi um grande companheiro”, assegurou.

(publicado no jornal A Crítica, nesta quarta-feira, dia 25 de março)

E o gênio partiu...


Maria Fernanda Souza e
Ana Célia Ossame

DA EQUIPE DE A CRÍTICA

O jornalista Sebastião Pereira Reis, 49, foi encontrado morto na manhã de ontem, em seu apartamento localizado no condomínio São José do Rio Negro, avenida Umberto Calderaro Filho, Zona Centro-Sul. As causas de sua morte não foram divulgadas pela Polícia Civil, mas o Instituto Médico-Legal (IML), em atestado preliminar, alegou parada cardíaca.

Considerado por muitos colegas como um dos maiores jornalistas amazonenses de todos os tempos, Reis teve uma trajetória profissional marcada pela ousadia e criatividade. Ex-diretor de redação do jornal A CRÍTICA, passou pelas principais redações do Estado, consagrando-se, também, em jornais brasileiros de grande porte como o Estado de São Paulo e o Jornal dos Sports, do Rio de Janeiro. Atualmente, Sebastião Reis era editor executivo dos jornais Em Tempo e A Tarde.

O corpo do jornalista foi encontrado por seu motorista e pela polícia. Por volta das 8h, o funcionário, identificado como “Caio”, estranhou a demora de Reis em descer do terceiro andar para ir ao trabalho. O motorista arrombou a porta do apartamento e se deparou com o quarto de Reis também trancado. A polícia foi chamada para intervir na situação. Policiais militares da 16ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom) arrombaram a porta do cômodo.

O corpo de Sebastião Reis foi encontrado em cima da cama, com as costas encostadas na parede. A polícia isolou a área até a chegada da perícia técnica do Instituto de Criminalística e do IML.

Amigos exaltam solidariedade

Com 32 anos dedicados ao jornalismo, Sebastião Reis foi lembrado por colegas como um profissional excêntrico e criativo. Sua trajetória teve início na década de 70, no extinto jornal A Notícia. Em seguida, passou pela primeira vez pela redação de A CRÍTICA, saindo depois para a agência Sport Press, no Rio de Janeiro.

Retornou para Manaus em meados da década de 80, convidado para ser diretor de redação do Jornal do Commercio. Como repórter especial de Esportes por 12 anos do Estado de São Paulo, cobriu três Copas do Mundo de Futebol. Voltou para a capital amazonense, onde passou pela segunda vez por A CRÍTICA. Sebastião Reis fundou, ainda, o extinto jornal Estado do Amazonas e trabalhou como diretor da revista Empório Amazônico. Atualmente, era editor executivo dos jornais Em Tempo e A Tarde.

Chica do Valle, ex-chefe de reportagem de A CRÍTICA, afirmou que Reis era muito solidário. “Como pessoa, era um amigo maravilhoso. Como profissional, acredito que sua competência fala mais do que qualquer palavra que eu diga”.

O editor de Opinião do jornal O Globo (RJ), Aluízio Maranhão, também exaltou o profissionalismo do amazonense. “Ele era repórter de Esportes. Posso dizer que não era só um dos mais competentes do setor, como era uma grande figura humana”, lembrou.

Editora do caderno Dia a Dia do jornal Em Tempo, Jacira Reis conheceu o jornalista em 1985, ainda na faculdade. “De lá pra cá, construímos uma trajetória de trabalho e amizade. Quando soube da morte dele, comentei com minha filha que ele estava ajudando uma pessoa. E ela retrucou: ‘E quem ele não ajudava?’ E é verdade. Ele sempre foi solidário.”

(publicado no jornal A Crítica, nesta quarta-feira, 25 de março)

Jornalismo brasileiro perde Sebastião Reis


A morte do jornalista Sebastião Reis, 50, na madrugada desta terça-feira, pegou a todos de surpresa. De todos os cantos, amigos, parentes e conhecidos ligavam, incrédulos, para confirmar a notícia. Jornalistas, políticos, esportistas principalmente ligados ao futebol, com o qual o jornalista do EM TEMPO tinha mais que uma ligação amorosa, manifestaram seu pesar e sua dor pela perda de uma das pessoas mais queridas do jornalismo brasileiro.

O jornalista Sebastião Reis, 50, foi encontrado morto, ontem pela manhã, dentro de seu apartamento de número 304, localizado no 3º andar do bloco “B” no condomínio São José do Rio Negro, em Adrianópolis, Zona Centro-Sul. De acordo com o laudo expedido pelo Instituto Médico Legal (IML), a morte foi provocada por infarto fulminante.

O corpo do jornalista, um dos editores executivos do EM TEMPO e editor de A TARDE, foi localizado pelo motorista, Caio, que havia ido ao local, por volta das 8h, buscá-lo para levá-lo à redação. De acordo com Caio, antes de ir ao apartamento, ele ligou diversas vezes para o celular de Reis, mas não obteve retorno. Ao chegar à residência, bateu na porta repetidamente sem obter resposta.

Caio suspeitou que algo estava errado e resolveu arrombar a porta da cozinha e verificar o que havia ocorrido. Quando entrou, foi em direção ao quarto que estava trancado, mas pôde ver, por uma fresta da porta, o corpo do jornalista sob a cama. Ele ligou para a polícia.

Policiais militares da 16ª Companhia Interativa Comunitária (16ª Cicom) foram ao local e arrombaram a porta do quarto. Sebastião Reis estava morto. Conforme informou o comandante da 16ª Cicom, major Heriberto Corrêa, não foi constatado no local e nem no corpo do jornalista qualquer indício de violência, mesmo porque Sebastião estava trancado em seu quarto.

Enquanto aguardavam a chegada dos funcionários do Instituto Médico Legal (IML) parentes, amigos e jornalistas pareciam não acreditar na perda de uma das pessoas mais queridas do jornalismo brasileiro. A irmã do jornalista, Rosângela Reis, muito consternada e em meio às lágrimas, disse que a morte do irmão foi recebida pela família como um susto muito grande. “Tudo ocorreu de uma forma inesperada. A perda de um irmão é uma dor muito grande. O Sebastião era uma pessoa muito querida. Brincalhão. E acima de tudo um irmão exemplar”, frisou.

Amigos prestam homenagem

Durante a tarde e a noite de ontem, amigos e colegas de trabalho compareceram ao velório do jornalista Sebastião Reis, realizado na funerária Almir Neves, na avenida Joaquim Nabuco, Centro. Estiveram presentes na ocasião prefeitos do interior do Amazonas, deputados, secretários estaduais e municipais além de jornalistas para dar adeus ao amigo.

O espaço ficou pequeno para as dezenas de coroas de flores que chegavam, enviados por autoridades, empresas, amigos e meios de comunicação por onde Reis, como era chamado pelos colegas, trilhou sua trajetória.

O fotografo Raimundo Valentim foi um dos que lamentaram a morte do amigo. “Há dez anos vim de São Paulo a convite do Reis para trabalhar em Manaus. O projeto era de ficarmos por dois anos, mas não voltamos mais. Ele era uma pessoa maravilhosa. Tudo que tinha fazia questão de dividir”, afirmou o amigo. Sebastião Reis também foi ponto principal na vida dos jovens repórteres. “Trabalhei com ele assim que voltou a Manaus. E ele tinha consigo a inovação, além disso, ele tinha o prazer em ser repórter e passava esse sentimento para gente”, ressaltou a jornalista Lúcia Carla.

A jornalista Natália Freire começou sua carreira sob a orientação de Reis. “Ele foi meu chefe no meu primeiro emprego. Sou suspeita de falar porque ele é meu guru, uma referência. Mas, o que conforta é saber que ele está bem. Ele sempre dizia que uma dia ia voltar para o lado do Pai, e agora é a hora. Ele era muito espiritualizado”, falou emocionada. Um “Eu te amo e amarei para sempre”, escrito no livro de assinaturas das pessoas que estiveram presentes, destacou-se entre outras mensagens de carinho, amizade, admiração e agora, saudade.

Últimos compromissos

Ao EM TEMPO o motorista do jornalista, Caio, disse que um dos últimos compromissos ao qual Reis compareceu foi a uma reunião, na tarde de segunda-feira, com a deputada federal Rebeca Garcia (PP), para a qual ele prestava assessoria. Segundo informou Caio, o encontrou terminou por volta das 17h. Em seguida ele o levou de volta ao apartamento. “Ele esteve conversando comigo até às 17h e depois saiu dizendo que iria fazer uma visita a um amigo”, relembrou Rebeca.

O amigo de Reis, o também jornalista Robson Carvalho, disse que depois de ter se encontrado com a deputada ele tinha um encontro marcado com o empresário Francisco Garcia. “Nós deveríamos nos encontrar com ele (Garcia) às 17h30. Eu fiquei de ligar para o Reis, e o fiz várias vezes até às 19h, mas ele não mais me atendeu”, disse o amigo.

Ainda na noite de segunda-feira, Caio foi ao apartamento para buscar Reis que deveria retornar à redação do EM TEMPO, mas ele já não atendeu aos chamados à porta e nem às ligações feitas ao seu celular.

(publicado no EM TEMPO, nesta quarta-feira, dia 25 de março)

terça-feira, março 24, 2009

Será que Deus está de mau humor?



Conheci o jornalista Sebastião Reis em 1979, por intermédio dos jornalistas Mário Adolfo e Inácio Oliveira, quando ambos trabalhavam no jornal A Crítica, cuja redação ficava na Rua Joaquim Sarmento, no centro da cidade. Continuamos nos vendo com freqüência, mesmo depois que Sebastião Reis foi trabalhar no Jornal do Comércio, cuja redação ficavam no Japiim.

Sempre que ia deixar minhas colaborações no Suplemento JC, eu aproveitava para papear com ele na redação. Quem o conheceu sabe, que ele sempre foi um excelente papo e um brilhante contador de “causos” hilariantes e gafes homéricas, tanto de políticos como de colegas de redação. Eu vivia implorando para ele colocar essas presepadas no papel. Ele nunca quis.

Em alguns finais de semana, nesse meio tempo, a gente disputava “rachas” animadíssimos (2 X 2, ou seja, eu e o diagramador Jorge Estevão contra ele e Mário Adolfo) em um sítio na AM-010, ali nas proximidades da Casa do Índio, da Funai. Na beira do campo, o “juiz” Inácio Oliveira se limitava a xingar uns e outros de pernas-de-pau, rir de se contorcer no chão e encher o tanque de birita. Bons tempos, zifio!

Sebastião Reis, Inácio Oliveira e Mário Adolfo, entre outros, estavam na equipe que o jornalista Deocleciano Souza montou para colocar nas ruas o primeiro número do jornal Amazonas em Tempo, em setembro de 1987. Na redação, ele conheceu a jornalista Mônica Maia (que havia sido minha contemporânea no curso ginasial do Ida Nelson), namoraram, casaram e se mandaram para o Rio de Janeiro. Lá, ele começou como repórter esportivo do Jornal dos Sports e terminou como chefe da sucursal carioca d’O Estadão. O caboco era suburucu.

Sebastião Reis retornou a Manaus no final de 1998, depois de vários anos de exílio voluntário na Cidade Maravilhosa e em Brasília, para ser editor executivo do jornal A Crítica. Em março de 2000, ele me chamou para colaborar no jornal com um artigo semanal. A Crítica iria voltar a circular às segundas-feiras e eles precisavam de alguém bem humorado(?) para retratar o cotidiano da cidade de uma maneira assaz descontraída. O tema a ser abordado ficaria inteiramente a meu critério. Não haveria censura nem imposição de pauta. O texto seria publicado no espaço nobre do jornal, na página A4, a mesma da coluna “Sim & Não”, a mais lida e comentada da imprensa amazonense, e logo embaixo da charge do Myrria, que dispensa apresentação. Aceitei o convite na hora.

Nas conversas posteriores que mantive com o Reis, argumentei que, em vez de fazer crônicas “leves” sobre o cotidiano baré, preferiria relatar causos políticos que havia coletado ao longo dos anos e que haviam ficado de fora do meu livro “Folclore Político do Amazonas”, publicado pela Editora Valer como parte da coleção “Em busca da identidade regional”, patrocinada pela Secretaria de Estado da Cultura e Turismo. Sebastião Reis levou minhas sugestões à vice-presidente do jornal, Tereza Cristina Calderaro Corrêa, que me deu carta branca para tocar o projeto. Os dois, portanto, se tornaram co-responsáveis pela publicação daquelas diatribes ao longo da década.

A primeira crônica foi publicada no dia 9 de abril de 2001, com direito a chamada na primeira página do jornal. Como nunca tive a pretensão de ser historiador, limitei-me a vender o peixe tal como havia comprado. E assim foi nas crônicas subsequentes. Houve repercussão, claro, mas nada comparável ao barulho que ocorreu três meses depois, mais precisamente no dia 1º de julho, quando a crônica foi publicada na página A5, da edição de domingo, no espaço antes ocupado pela coluna “Taqui pra ti”, do meu amigo José Ribamar Bessa Freire. A leitura enviesada que alguns cretinos fizeram foi a seguinte: eu, um cronistinha de merda, aprendiz de escrivinhador, havia “puxado o tapete” do consagrado jornalista Babá Bessa. Houve choro e ranger de dentes. Devo ter sido amaldiçoado até a quinta geração.

O pior é que nem sequer estava em Manaus – estava em Parintins, fazendo o lançamento do meu livro “Funk: a música que bate”, na companhia de Mário Adolfo, que estava lançando o seu “Conversa pra boi dormir.” Na segunda-feira, minha mulher me ligou para avisar que a coluna não havia saído. Na quarta, quando retornei a Manaus, liguei para o Reis, para saber o que estava acontecendo. Só então fiquei sabendo que a coluna havia sido publicada no domingo, porque a direção do jornal havia interrompido a colaboração do Ribamar Bessa. Não perguntei o motivo e nem me interessei pelo assunto. Como dizia um psiquiatra amigo meu, “dessas coisas de linha editorial eu nunca entendi bem”.

O certo é que continuei publicando esses “exercícios de memórias” todos os domingos, em A Crítica, até abril de 2003, em uma colaboração que durou exatos dois anos. Pela quantidade de e-mails elogiosos que recebi e de processos furibundos que respondi, muita gente gostava e odiava na mesma proporção. Sebastião Reis sempre segurou a barra, porque acreditava na “liberdade de imprensa”. Mas no final de abril, ele deixou o jornal para tocar um novo projeto (o jornal Estado do Amazonas, do empresário Francisco Garcia).

No dia 27 de abril, o novo editor (o jornalista J. Paulo, de triste memória, que havia sido trazido do Rio de Janeiro pelo próprio Sebastião Reis) não gostou muito de publicar um “direito de resposta” na minha coluna, em que a economista Nereida Coelho reduzia a pó de traque a minha reputação por causa – vejam só! – de uma “releitura” de um texto do Felix Valois sobre o ex-governador Plínio Coelho. Na minha última coluna, publicada no dia 18 de maio, eu tentava desfazer o equívoco. Três dias depois, por telefone, o iracundo J. Paulo me dispensou, sem maiores explicações.

Coloquei a viola no saco e fui cantar em outra freguesia. No caso – e de novo a convite do Sebastião Reis –, na revista que era encartada aos domingos no jornal Estado do Amazonas. Continuei publicando meus “causos” políticos, como colaborador da revista, até maio de 2005. Foi quando, a convite do Paulo Castro, passei a ser colunista diário do Correio Amazonense. Mas minha amizade com o Sebastião Reis sempre permaneceu inalterada. Nos falamos pessoalmente várias vezes no ano passado.

Ultimamente, os dois (Reis e Castro) dividiam a editoria geral do Amazonas em Tempo. Estive na redação do jornal há algumas semanas, mas não o vi por lá. E a certeza de que nunca mais vou vê-lo é que me deixa o coração apertado nessa manhã chuvosa. Daí lá vamos nós com aquele velho bordão que só nos aumenta a dor ainda mais: com tanto filho da puta pra morrer, por que logo o Sebastião Reis?...

Descanse em paz, meu guerreiro! Com tantos ex- parceiros seus aí em cima – Chico Pacífico, Aguinelo Oliveira, Paulo José, Ernesto Coelho, Nego Ivan, Antonio Paulo Graça, Rosendo Lima, Nestor Nascimento, Alberto Simonetti, Silvério Tundis, Elaine Ramos, Theodoro Botinelly, Luiz Almeida Marrom, Crisanto Jobim, Sabá Raposo, Jomar Jr., Celeste Pereira, Manoel Borges, Elaine Lima – eu já estou quase convencido de que a animação boa está mesmo aí no segundo andar. Dia desses a gente se vê!

terça-feira, março 17, 2009

Escutatória ou Da Arte de Saber Ouvir Antes de Falar


Por Rubem Alves

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.

Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.

Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil.

Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas – coitadinhas delas – entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg – citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas”. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não “evangélico”), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”. Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”. Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”. E assim vai a reunião.

Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci.

O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em U definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado.

O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: Meus irmãos, vamos cantar o hino... Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar.

A música acontece no silêncio.

É preciso que todos os ruídos cessem.

No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós - como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou.

A alma é uma catedral submersa.

No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada.

Somos todos olhos e ouvidos.

Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa - quando ficamos mudos, sem fala.

Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio.

Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.


(Do livro “O amor que acende a lua”, pág. 65.)

sexta-feira, março 13, 2009

Aniversário do Armando: um chazinho do Caribe!


O aniversariante Armando de Menezes e sua esposa D. Ivete


Dona Aniria (esposa do Almir Diniz), Anisio Mello, D. Ivete e os acepipes divinos


Nato Neto, Armando de Menezes e Mello Jr.


Os dois pombinhos da paz durante o Parabéns pra você


Raquel e Benayas (no 1º plano)e, na turma do fundão, eu, Mello Jr. e Zemaria Pinto


Almir Diniz, eu, Armando e D. Ivete


Armando em estado de graça e eu encarando o famigerado Black


Armando, eu, Dori Carvalho, Ana Ruth e Zemaria Pinto


Eu e o poetinha Luiz Bacellar


Nato Neto colocando pra quebrar


Na última sexta-feira, o escritor Armando de Menezes transformou seu tradicional chazinho em um banquete dos deuses. Motivo: ele e dona Ivete iam partir no domingo seguinte para um cruzeiro pelo Caribe e ele resolveu antecipar a comemoração de seu aniversário de 82 anos porque no dia do natalício (23 de março) provavelmente vai estar se bronzeando em alguma praia de Aruba. As fotos do panavueiro foram feitas pelo historiador Roberto Mendonça.

Em virtude da data especial, algumas regras foram quebradas. Primeiro, que em vez do tradicional santo Red de cada dia, optou-se pelo famigerado Johnnie Walker Black (doce e enjoativo como xixi de moça), que eu só encaro em última circunstância. A cerveja Skol também foi abolida. No seu lugar, entraram as Heinekkens importadas. Coisas do Armando.

Aqui, cabem algumas considerações. Não me acostumei a beber o Johnnie Walker Red porque é mais barato, mas porque gosto do gosto do sacana. Papo sério. Já cheguei a trocar uma garrafa intacta de Old Parr (15 anos) por meia garrafa de Red, porque não bebo Old Parr nem que a vaca tussa. Se não tiver Red, encaro numa boa o Logan ou o Ballantine’s 12 anos (vulgo “Bala 12”). Não tendo nenhum dos três, cerveja Antarctica. Sempre.

Bom, mas como se tratava de uma data especial (mas também podem me chamar de “última circunstância”), resolvi encarar o Black, sob protesto. Em compensação, no quesito “tira gosto”, até o badalado Ferran Adrià tiraria o chapéu. Do empadão de frutos do mar pra se comer ajoelhado ao camarão a Taj Mahal capaz de enlouquecer um mortal comum, do arroz de polvo com brócolis ao bacalhau cremoso com passas, da lagosta ao molho de amêndoa, uva Itália e polenta ao espaguete com lulas refogadas, tudo era um convite velado ao pecado capital da gula.

O sarau ainda ficou mais animado quando dona Aniria, esposa do escritor Almir Diniz, resolveu soltar sua voz de soprano em árias da melhor qualidade, sob o acompanhamento seguro do violonista Nato Netto. Quase que os anjos descem do céu para acompanhar a tertúlia com suas harpas endiabradas. Um grande barato!

Lá pelas tantas, incomodado com nossa (minha e do Zemaria Pinto) pouca atenção dada ao Black (o poeta Sergio Pereira, ao contrário, bebia feliz como um pinto no lixo. É um grande traíra!), o bom Armando de Menezes quebrou as regras mais uma vez e nos autorizou a detonar uma garrafa de Red, missão a que nos lançamos com uma sede de anteontem.

Por volta das 23h, dando os trâmites por findos, eu, Nato Netto, Zemaria Pinto, Raquel, Dori Carvalho e Ana Ruth Pessoa ainda fomos tomar a saideira no bar do Cinco Estrelas, de onde só levantamos âncora por volta das três da madrugada. Haja fígado!

Uma das recomendações do Armando de Menezes foi de que o chazinho continuasse rolando mesmo sem sua presença física, porque espiritualmente ele vai estar no local. Daí que já tomei meu chá de boldo com carqueja doce, sacaca e hortelã, minhas cápsulas de alcachofra e estou só dando um tempo para encarar minha ração diária de hepatovis B12. Essa sexta-feira 13 promete!

Vale a pena ser poeta


Tutty Vasques

Se fosse um filme, Armando Freitas Filho seria flor do orquidário de Woody Allen. O poeta tem sinopse para tanto, repara só: autor célebre completa 40 anos de carreira em 2003 tentando driblar a desagradável sensação de estar fechando a tampa de sua biografia ao reunir em antologia os treze livros que escreveu. Aflige-o, desde jovem, a idéia de que “não há saída viva para a vida”. Filho único de família castradora, católico praticante até os 33 anos, membro abstêmio de uma geração que pegou de tudo, hipocondríaco de pedra, gago e insone, ele ouviu música popular pela primeira vez depois de casado, o que lhe abriu as portas para o sexo livre, seu único vício na vida. Trata-se de um tipo que a gente julga só existir no cinema.

Esse roteiro foi escrito após duas horas e meia de conversa no escritório doméstico do poeta, na Urca. Armando estava ainda assustado com o volume – 608 páginas – da primeira prova em papel de Máquina de Escrever – Poesia Reunida e Revista, livro que lança quinta-feira agora, na Timbre do Shopping da Gávea. Doíam-lhe as costas e mais ainda o diagnóstico médico a respeito: ele não tinha nada. “Deve ser a TPL – Tensão Pré-Livro”, resmungou. A noite pontuou com gargalhadas o relato denso, trágico e à flor da pele que Armando Freitas Filho constrói para sua vida. Personagem de Woody Allen, segundo ele, é o escambau: “O cineasta não é hipocondríaco a sério pelo simples fato de ganhar dinheiro com isso”.

Fala sério: “Ser hipocondríaco é horrível”. Armando pensa na morte todos os dias. Enobrece qualquer sintoma vagabundo a ponto de transformar um incômodo em doença terminal. “É incrível a atenção massacrante que você dá a seu próprio corpo”, ouviu dia desses de seu clínico geral. O paciente narra suas mazelas com interpretação desconcertante. Ora indignado, ora resignado, o poeta é cândido e explosivo no exercício da palavra oral.

Fala muito. Lá pelos anos 80, o Baixo Leblon tinha imensa curiosidade de saber qual era a droga daquele cara que não consumia nada no banheiro e soltava o verbo feito louco entre as mesas do Diagonal, onde ingeria, no máximo, meio copo de Coca-Cola por noite. Armando nunca deu um tapa, um tiro, uma cafungada no lenço, coisa nenhuma que seus amigos experimentavam de monte. Arrepende-se amargamente das duas vezes em que encheu a cara na juventude. “Sempre tive medo de perder-me.” O poeta precisa estar inteiramente sóbrio para ser doido do jeito que é.

Doido a ponto de levar seu macarrão na água e sal para um jantar festivo na casa de amigos. Tem horror a viagens, pânico noturno e chama de Doutor Acaso o protagonista de suas superstições. Quanto tempo ainda lhe resta de convívio com a família? Não à toa, cuidar do corpo é uma de suas obsessões: “Faço ginástica como quem reza”. Que Deus o perdoe!

A família queria que ele fosse padre – médico e advogado também servia – e o garoto criado para a leitura e a música clássicas decidiu parar os estudos antes da faculdade. Não faz concessões. Sua obra não admite facilidades, lida com o efêmero, quando não trata da morte explícita. “Escrevo com algemas, minha poesia é gaga e empedrada.” O poeta, consta de sua sinopse, é gago e essa é mais uma de suas fraturas expostas. “Não consigo ler meus poemas em público sem gaguejar severamente.” Em conversas informais, lança mão de um truque: “Todo gago tem de ter um curinga verbal na manga para na hora do aperto colocá-lo no meio da frase.”

Acabam por aí suas fraquezas no embate com o outro. “Sempre acho que sei mais, que sou mais inteligente, e geralmente sou mesmo.” A supremacia intelectual tem uma variante inesperada. Armando considera-se craque com a bola nos pés. Ainda que não seja verdade (não há notícia de testemunha do campeonato de 1956 na Praia da Urca), sua narração para o gol do título arrepia amigos como eu e – ninguém é perfeito! – José Miguel Wisnik. Acompanhe: “Parei a bola no peito entre dois zagueiros adversários, girei 180 graus para a direita e, sem deixar a bola quicar, acertei na mosca o canto onde a coruja dorme”. Dá vontade de gritar goooool, mas esse é outro filme, nada a ver com Woody Allen.


(publicado na Veja-Rio, em 22 de outubro de 2003)

Poemas de Armando Freitas Filho


SOBRE UMA FOTO DE EDWARD WESTON

Nua, anônima, 1923. Vinte anos presumíveis
branca, em decúbito dorsal, com o tronco
arqueado (talvez pela respiração presa
no instante único da foto, ou melhor:
foi a foto que a sustou, a suspendeu
para sempre), e mais o cheiro, parado
do grosso cabelo preto do púbis
do pouco que aparece nas axilas não raspadas
que saboreio, degusto, engulo em seco
sinto o gosto, agora, porque a pele
do corpo é de hoje, setenta e oito anos depois
e brilha, lisa, morena de sol, sem nenhum sinal
de vida, porém. Teus olhos fechados te encerram.


MONROE

Marilyn, de memória, 1949
clicada pela mão de Tom Kelley
em local desconhecido, sem nada
“exceto o rádio ligado”, sem nem
o futuro véu de chanel nº 5, nua
absoluta, sobre veludo vermelho molhado:
mancha de leite elástica, corpo veloz
em ascensão, muito antes de depois
da queda, boca aberta, chama
despenteada, extática no vento da música
com os cabelos, entre o louro e o cobre.


SOBRE UMA FOTO DE ANA C.

para Helô

O verbo colear cabe aqui, justo
em todas as suas flexões, e cola
exato, no músculo puro e nu
que se movimenta assim, escaldante
na velocidade de cobra ou de mercúrio:
de zero a cem, cobre o espaço do corpo
sem sentir a força da aceleração
nem a volta, serpentina, à inércia
do anel inicial. Nos dois estágios
cai como uma luva, veste-se somente
de si, com sua pele mais fina e final.


FOTOGRAFIA

Não amava o amor. Nem as suas provas.
Amava sua engrenagem. A urdidura
do palco, o holofote cego
com a possibilidade da luz.
A cortina caindo em pano rápido
na boca de cena, sob o coração imaginário
artificial e monitorado, diverso
daquele que batia dentro de si:
sem controle — na bela e na fera.


ATRÁS DA MÁQUINA

para Andréa Garcia e José Góes

Delineador de luz, de luar
feito à mão, fora da série
atmosférica e do registro do mar.
Dentro do escuro seco do estúdio.

Fotografar é ver de novo, envernizado.
É dar linha ao corpo para que ele voe
saia, desde o novelo, com todo o élan.

Para que ele se revele e entre
entre o preto e o branco, em foco:
flou, firme, na superfície, em face
do espaço, e se configure até o fim.


(Poemas do livro Numeral / Nominal que abre Máquina de escrever — poesia reunida e revista, publicado pela Nova Fronteira em 2003)

Entrevista com o poeta Armando Freitas Filho


Por Jardel Dias Cavalcanti

Armando Freitas Filho nasceu no Rio de Janeiro, no dia 18 de fevereiro de 1940. É considerado um dos principais expoentes da poesia contemporânea brasileira, e sua obra tem sido estudada por escritores e especialistas como Heloísa Buarque de Holanda, Flora Süssekind, Silviano Santiago e José Miguel Wisnik. Em 1986, ganhou o Prêmio Jabuti de poesia com o livro 3x4, publicado pela Editora Nova Fronteira, que também lançou À mão livre, Longa vida, De cor, Cabeça de homem, Números anônimos e Duplo cego.

Ao completar 40 anos da publicação de sua primeira obra, Palavra, de 1963, Armando Freitas Filho lança Máquina de escrever - Poesia reunida e revista. O livro agrupa outros 12 já publicados e um inédito - Numeral/Nominal, que abre o volume. São 608 páginas de poesia, revistas pelo autor, que, pessoalmente, digitalizou grande parte da obra. Máquina de escrever traz ainda prefácio de Viviana Bosi e orelha-retrospecto da trajetória poética de Armando Freitas Filho assinada por Sebastião Uchoa Leite.

O Digestivo Cultural aproveita este importante momento para entrevistar Armando Freitas Filho. Agradeçemos a participação do poeta Mário Alex Rosa, que formulou as três últimas questões desta entrevista.

1- Jardel: Armando, você está lançando nesse momento sua obra poética completa, num único volume. Isso representa o resultado de uma vida dedicada à poesia. O que você pensa ou como se sente diante desse fato?

ARMANDO FREITAS FILHO: A sensação é ambígua. Se por um lado dá uma satisfação ver todos esses 40 anos, esses livros reunidos, pois Máquina de escrever abriga 13 livros de 1963 a 2003, dá, também, uma sensação de despedida, baseado na certeza que não terei outros 40 anos nem outros 13 livros para reunir.

2- Jardel: Sua poética revela sempre algo de visceral. Até que ponto você é mais vísceras que cérebro?

ARMANDO FREITAS FILHO: Não posso dizer se sou mais uma coisa ou outra. Mas o cérebro é uma espécie de estação central onde tudo passa, onde o corpo inteiro, enfim, “não se passa a limpo, mas, sim, em revista”.

3- Jardel: Sabemos das várias parcerias entre você e o artista plástico Rubens Gerchman. As artes plásticas são fonte de inspiração para sua poética? Sua poesia também dialoga com a música?

ARMANDO FREITAS FILHO: Minha poesia tem um certo índice interdisciplinar, como é comum na arte moderna. Creio, contudo, que essa “invasão” de outros gêneros só ocorre quando eu tenho uma relação orgânica, digamos assim, com a obra dos autores citados. Quero crer, por isso mesmo, que as “citações”, quando acontecem, têm um caráter estrutural, não são gratuitas ou ornamentais.

4- Jardel: Armando, até que ponto um acontecimento trágico como o suicídio de Ana Cristina César interferiu nos rumos de sua poética?

ARMANDO FREITAS FILHO: Um acontecimento dessa ordem não afeta somente o que você escreve, mas a sua vida inteira; ainda mais quando acontece com alguém de sua intimidade. Portanto, pega geral, interfere, não só quando se dá a tragédia, mas acompanha, consciente ou inconscientemente, cada dia seu. Essa interferência não é boa, é má.

5- Jardel: Você teve interesse pela poesia concreta em algum momento? O que você pensa sobre a obra do grupo concreto?

ARMANDO FREITAS FILHO: Meu poeta de vanguarda, meu poeta lato sensu, foi Ferreira Gullar, dentre aqueles que eram meus contemporâneos mais próximos. Autor de um livro seminal para a literatura brasileira, A luta corporal, o experimento de sua poesia, sempre me foi bastante, até porque este não era dogmático, parado, sempre estava indo em frente, sem preconceitos, inclusive para consigo próprio. Sua presença eclipsava o pessoal de São Paulo. Visto em retrospecto, a obra do grupo concreto me parece, cada vez mais, irremediavelmente, datada. Os últimos poemas de Augusto de Campos me soam – é curioso – quase ginasianos.

6- Jardel: Que poetas foram de fundamental importância para sua formação de leitor e escritor de poesia?

ARMANDO FREITAS FILHO: Meus poetas de cabeceira são: Drummond, Cabral, Bandeira, Gullar. Claro que há muitos outros de outras línguas, e mesmo da nossa, mas nenhum teve a influência em mim que tiveram os componentes desse four de ases.

7- Jardel: Durante o período da ditadura militar você lançou o livro À Mão Livre, criando versos de impactante violência. Direta ou indiretamente muitos destes versos faziam pensar na violência dos militares. Você também participou da poesia-práxis. Como era ser poeta nesse período?

ARMANDO FREITAS FILHO: A diferença que havia, e que é importante, era o clima horrível em que se vivia. As prisões, a tortura, as mortes, que todo mundo sabia, e o governo, cinicamente, negava, criavam um clima horroroso, depressivo. Gullar foi um dos que mais sofreram, na carne, essa tragédia. É natural que minha poesia refletisse tudo isso, direta ou indiretamente: desde Dual, de 1966, passando por Marca registrada, de 1970, De corpo presente, de 1975, À mão livre (como você diz), de 1979, até Longa vida, de 1982, pelo menos. Minha opção pela Práxis se deu porque das vanguardas instituídas era a que tinha, desde o seu começo, uma preocupação política mais ostensiva; mas não só por isso: foi, também, porque a Práxis, não aboliu, na sua prática ou por decreto autoritário, sem base ou justificativa sustentáveis, minimamente, o verso, a linha, o sujeito e o predicado.

8- Jardel: Você poderia comentar um pouco sobre os poetas da atualidade que você vê como importantes para a poesia brasileira?

ARMANDO FREITAS FILHO: É aquela velha história. Se citar um punhado vou deixar de citar outro tanto. Mas o momento poético é excelente, fora de qualquer dúvida. Se fortaleceu muito, digamos, de 1997 para cá. Os poetas que valem a pena, de múltiplas tendências – o que é ótimo – chega de ordem unida, estão publicados nas várias revistas que surgiram em toda a parte. Têm uma visibilidade muito maior do que aquela que tínhamos nos idos dos 60.

9- Mário Alex: Se você fosse definir sua poesia, qual a definição que você daria para ela?

ARMANDO FREITAS FILHO: Minha poesia é herdeira da poesia do modernismo. Acho que todos os poetas da minha geração têm essa marca de nascença. Não poderia ser diferente: desde os poetas da fase colonial, creio, não tivemos um conjunto de nomes tão importantes, em quantidade e qualidade.

10- Mário Alex: O intervalo entre a crítica jornalística e a universitária sempre foi enorme. Como você tem visto os trabalhos dessas duas naturezas sobre sua poesia?

ARMANDO FREITAS FILHO: Acho esse “intervalo” compreensível. Afinal, no espaço sempre mais controlado do jornal, cabem as resenhas; no espaço acadêmico, há lugar para o ensaio, a dissertação, a tese. Minha poesia e qualquer outra se beneficia dessas apreciações de alcances diferentes. A resenha, às vezes, escrita no calor da hora, com prazo de entrega, consegue captar, pontualmente, aquilo que vai ser desenvolvido, depois, com mais tempo, por outros autores. São aproximações, enfim, distintas e necessárias.

11- Mario Alex: Vários poetas brasileiros (Drummond, Murilo Mendes e até Cecília Meireles) fizeram poemas sobre a Segunda Guerra Mundial, mesmo o Brasil estando distante dos conflitos, pelo menos num primeiro momento. Recentemente aconteceu a guerra no Iraque. É raro aparecer um poema ou um poeta brasileiro discutindo esse tema, como foi na década de 40. O poeta hoje é mais local, mais voltado para a sua subjetividade? Não existe mais espaço para o poema, digamos “engajado”?

ARMANDO FREITAS FILHO: Creio que por se tratar de uma Segunda Grande Guerra, a mobilização foi mais ampla e imperativa. Mas não custa lembrar que nossa poesia no regime do AI-5 procurou engajar-se e protestar. Gullar é o exemplo primeiro e mais eficaz dessa militância poética. Alex Pollari, com seu importante livro Inventário de cicatrizes, de 1978, outro. A minha poesia, como já disse, refletiu, a seu modo, esse momento. Quanto ao engajamento mais global a que você se refere, hoje, curiosamente, no mundo que só é globalizado na economia (outra forma de guerra) as guerras são localizadas: Coréia, Vietnã, Oriente Médio, Golfo Pérsico. São declaradas, desde os anos ’50 pela única potência com força para isso, o que não deixa de ter sua lógica perversa e covarde. Quem sabe, num futuro próximo, não tenhamos que nos unir contra o inimigo comum, como na época do nazismo, já que “não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan”.

(publicado no Digestivo Cultural, em 7 de janeiro de 2004)

A mãe de todas as batalhas


Advogado de defesa do The Pirate Bay segura camiseta escrito “a batalha começou”


Gottfrid Svartholm (à esq.) e Peter Sundin, dois dos acusados no processo; julgamento foi marcado por risos e interatividade na web

By France Presse/Reuters

Terminou há dez dias (terça-feira, 3) o julgamento iniciado pela justiça sueca no final de fevereiro contra o The Pirate Bay, acusado de quebrar a lei de direitos autorais da Suécia ao ajudarem os internautas a encontrar arquivos de filmes, músicas e jogos para download.

Os advogados de defesa dos quatro suecos responsáveis pelo site argumentaram que a página é legal e que nenhum dos seus fundadores enriqueceu com a iniciativa.

Apesar do término do julgamento – ocorrido em Estocolmo, capital da Suécia –, a sentença final está prevista para o dia 17 de abril. Segundo os acusados, o The Pirate Bay possui 22 milhões de usuários.

Um dos advogados de defesa, Per Samuelson, afirma que o processo foi “ilegal, de acordo com a legislação sueca.”

Segundo o advogado, nenhum dos acusados tinha qualquer conhecimento específico sobre direito autoral, que é uma das 33 infrações de que os donos do site são acusados.

“O processo conflita com base penal sueca. Não há uma única lei escrita que diga claramente que, para ser cúmplice, você tem que estar ciente da suposta responsabilidade sobre a geração do crime em si”, afirmou Samuelson.

Já o advogado de acusação Peter Althin disse que uma das testemunhas afirmou que “não há provas científicas do nexo causal entre o compartilhamento de arquivos e a queda de receitas [da indústria do entretenimento].”

“Tudo o que o Pirate Bay faz é manter uma plataforma sem a possibilidade de armazenamento de downloads”, disse Jonas Nilsson, outro advogado de um dos acusados, diante da corte.

Fundado em 2003, o Pirate Bay viabiliza a troca de material protegido por direitos autorais, usando a tecnologia de torrent. Entretanto, nenhum dos materiais é encontrado nos servidores do site.

Representantes da indústria do entretenimento estão pedindo uma indenização de US$ 12,7 milhões por perdas e danos devido a milhões de downloads ilegais facilitados pelo Pirate Bay.

Durante o julgamento, os promotores do caso pediram um ano de prisão aos quatro réus – Fredrik Neij, Gottfrid Svartholm, Peter Sunde e Carl Lundstroem –, sobre os quais recai a acusação de “promover a infração de downloads ilegais, feitos por outras pessoas, burlando a lei de direitos autorais.”

Os quatro negam as acusações criminais. Seus advogados de defesa também rejeitam a cifra milionária pedida pelos empresários e dizem que os ganhos do The Pirate Bay somam um valor muito menor, US$ 78.655.

Segundo o site da revista Wired, depois do encerramento da audiência, os fundadores do The Pirate Bay foram vistos se divertindo na sala do tribunal, juntamente a um dos promotores do caso, Hakan Roswall.

Risos, blog e Twitter

O julgamento do Pirate Bay virou um fenômeno na internet. Por trás das acusações, está o IFPI, braço europeu da indústria da música. John Kennedy, dirigente do órgão, disse no julgamento que as pessoas comprariam todas as músicas que foram baixadas ilegalmente no site – o que causou gargalhadas na plateia. O site da associação chegou a ser invadido por piratas virtuais durante o julgamento.

Kennedy acrescentou que a cifra pedida como indenização pela pirataria são justas e talvez até conservadoras. Os argumentos dos acusados podiam ser acompanhados no blog Spectrial (trial.thepiratebay.org), palavra que mistura julgamento e espetáculo, em inglês. O blog, hospedado no site pirata, segue a linha de humor esculachado com que os responsáveis pelo TPB costumam responder às cartas de advogados de empresas.

Spectrial é também a etiqueta usada no Twitter para referências ao caso – eram centenas a cada hora. O julgamento, que começou em 16 de fevereiro e está programado para terminar definitivamente em abril, quando sair a sentença, tem ainda verbete próprio na Wikipédia (en.wikipedia.org/wiki/The_Pirate_Bay_trial). No ranking da empresa de estatísticas em internet Alexa, o The Pirate Bay é um dos 110 sites mais visitados do mundo.

Ao contrário do que havia sido publicado na imprensa brasileira, o Pirate Bay não estava sendo acusado por infração de direitos autorais – pois é um fato eles não hospedarem nenhum dos arquivos, fazendo apenas buscas na internet e direcionando seus usuários ao material desejado, o que é considerado legal pelas leis suecas – e sim por “assistir e suportar a prática de quebra de direitos”, algo de que eles se consideram inocentes.

Fredrik Neij e Gottfrid Svartholm Warg se declararam responsáveis por certas atividades na manutenção do site. Já Peter Sunde afirmou que não tem nenhuma responsabilidade associada, enquanto Carl Lundstrom disse ter vendido banda e serviço de co-hospedagem nos servidores que rodam o site. Especificamente com o Pirate Bay, eles garantem que mal ganham dinheiro suficiente para manter o site. Representantes da indústria discordam dessa afirmação.

Se por acaso forem condenados, a pena poderá ser de até dois anos de cadeia além de multa de US$14,3 milhões – em parte por conta da acusação de que eles ganham dinheiro ao conduzir as atividades do portal.

No entanto, no segundo dia de julgamento, metade das acusações feitas já haviam caído por terra, devido à falta de evidências incriminatórias. As acusações de assistência a quebra de direitos foram retiradas, restando somente as relativas ao suporte a distribuição.

“Nós somos os maiores distribuidores de cultura e mídia do mundo”, alfinetou Frederik Neij. “Não importa que eles peçam milhões ou um bilhão. Nós não estamos ricos e não temos dinheiro para pagar”, disse Peter Sunde. “Eles não vão ganhar um centavo.”

“Eu já tenho mais dívidas na Suécia do que serei capaz de pagar um dia. E eu nem vivo aqui… Eles são mais que bem-vindos para me enviarem a conta. Eu irei emoldurá-la e pendurar na parede”, brincou Gottfrid.

O julgamento foi muito concorrido: cada cadeira na audiência foi vendida por um valor aproximado de US$60 – segundo a Wired. E por solicitação dos acusados, o julgamento ganhou caráter especial por ser o primeiro da história da Suécia a ter seu áudio transmitido pela internet – a lei sueca impede a difusão de imagens nesses casos.

Quem queria acompanhar o desenrolar dos acontecimentos, podia fazer isso através do já citado Spectrial, criado pelo Pirate Bay para cobrir o julgamento. Para os brazucas que não dominam o inglês, foram criadas a pedido dos fundadores versões para outros idiomas, inclusive para o português.

Problema semelhante ao do The Pirate Bay ocorreu com o brazuca Som Barato, considerado o melhor blog de música do país. Em setembro do ano passado, a pedido da gravadora Biscoito Fino, o blog foi simplesmente retirado do ar. Ninguém do blog foi ouvido.

Em dezembro, eles retornaram com força total, desta vez utilizando a plataforma torrent (a mesma do The Pirate Bay). Só de sarro, o primeiro post foi a mensagem abaixo:

Estamos de Volta!

Uma idéia nunca morre. Derrubam um blog, derrubam um link, derrubam casas, mas a idéia continua lá. E o Som Barato voltou, e voltou porque ele é uma idéia. Uma idéia de partilha, uma idéia de que os bens podem ser comuns, uma idéia de uma festa permanente embalada pela diversidade de sons que a natureza humana é capaz de produzir, mas que a indú$tria insiste em abafar com suas técnicas monopolistas.

E o melhor de tudo é que idéias quando são atacadas tendem a se aperfeiçoar em suas lutas. E aqui estamos, três meses depois, agora em p2p. Pessoa pra Pessoa. Ponto para Ponto. E não há G$ogle, Bi$coito Fino ou Grosso que nos derrube. Porque a idéia se espalhará pelos discos rígidos e cabeças pensantes de todos nós.

Participe, seja um semeador de música e de idéias!


Para acessar o Som Barato, clique aqui

quinta-feira, março 12, 2009

Iron Maiden em Manaus: é hoje só, amanhã não tem mais!


Adrian Smith, Janick Gers, Nicko McBrain, Bruce Dickinson, Steve Harris e Dave Murray, a atual formação do Iron Maiden

O Iron Maiden começa, nesta quinta-feira (12), a parte final da turnê mundial “Somewhere Back in Time”, que passou pelo país em março de 2008 e volta para se encerrar aqui no Bananão.

Manaus é a primeira cidade a ver a banda, no Sambódromo, a partir das 21h. Os ingressos custam R$ 70 (pista lote 1), R$ 500 (camarote) e R$ 600 (vip). As entradas estão à venda apenas na bilheteria da Loja da Fábrica de Eventos (Amazonas Shopping, Parque 10 de Novembro). Na área vip, a boca livre corre solta, com bufê e birita “de grátis” a dar no meio da canela. É a pedida!

No último sábado, em Bogotá, Colômbia, o show da Donzela de Ferro terminou com mais de cem detidos pela polícia. Segundo o diário local El Tiempo, a confusão começou quando pessoas sem ingressos forçaram a entrada. O jornal ainda garantiu que alguns confrontos se concentraram nas proximidades do estádio Simón Bolívar, lugar marcado para o show. A polícia usou gás lacrimogênio para conter os manifestantes.

Os portões para o show foram abertos ao meio-dia. Por volta das 18h30, a banda americana Anthrax abriu o show e, em seguida, o Iron subiu ao palco. Apesar dos conflitos, o jornal fez uma crítica positiva ao show do Iron Maiden. No repertório, tocaram sucessos como “Run to the Hills” e “Children of the Damned” e, para a alegria dos metaleiros colombianos, o vocalista, Bruce Dickinson, prometeu mais um show no país em 2011, para a promoção de um novo álbum.

A turnê “Somewhere Back in Time”, do Iron Maiden, já passou pela Costa Rica no início deste mês. Os próximos shows acontecem no Equador e no Brasil. Na terra tupiniquim, a banda desembarca em Manaus e, na sequência, faz shows no Rio de Janeiro (14), São Paulo (15), Belo Horizonte (18) e Brasília (20). Recife tem seu show marcado no dia 31 para a última apresentação da banda na América Latina. Sim, mais uma vez os paraenses ficaram de fora. Fazer o que?

Formado em 1975 pelo baixista Steve Harris, o Iron Maiden é uma das principais e mais bem-sucedidas bandas do heavy metal britânico. Após algumas idas e vindas e trocas temporárias de vocalistas, o Iron atual conta com a formação considerada clássica da banda, com Dickinson nos vocais, Harris no baixo, Nicko McBrain na bateria e os guitarristas Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers. O álbum de inéditas mais recente do grupo é “A Matter of Life and Death”, lançado em 2006.

Com uma enorme base de fãs no país, o Iron já esteve algumas vezes no Brasil, entre as quais se destacam as apresentações no Rock in Rio de 1985 e de 2001. Os shows da atual turnê são focados no repertório clássico da banda, mas também fazem referências à cenografia das turnês dos álbuns “Powerslave” (1984-85) e “Somewhere in time” (1986-87).

Os shows que eu não assisti: Iron Maiden


Desgastado e fora de forma, o boneco Eddie circula pelo palco sem saber para onde ir e acaba tropeçando por cima da bateria, que pára de funcionar. Na platéia, ninguém notou qualquer diferença na música. O clique carnavalesco é de Messias Jardan.

Por Cruzmaltino Bandeco (*)

Se existe um estilo musical que nunca fez sucesso mas sempre encheu o saco é o heavy metal, uma mistura esdrúxula de mitologia de araque, caveiras e rapazes de cabelo comprido com calças pra dentro da bunda. Em geral, grupos de heavy metal são compostos por algo entre doze e dezoito integrantes. O número exagerado de músicos tem uma explicação óbvia: quanto mais gente zanzando em cima do palco, mais fácil esconder do público a falta de intimidade com os instrumentos musicais.

Um dos ícones do gênero é o conjunto estrangeiro Iron Maiden, cujo nome em português quer dizer “moça de ferro” — onde eu nasci, homem com essas manias apanha de cinta do pai. Na última semana, eles estiveram no Brasil para se apresentar em um estádio de futebol abandonado. Não pude ir ao show por causa de um terçol que me obriga a fazer compressas o dia inteiro. Mas não tenho do que reclamar: pelo que me disse meu amigo Décio, que é metalúrgico e entende tudo de metal enferrujado, a apresentação foi um fiasco.

Para o Décio, o que torna estes senhores de calça de couro uma referência para os metaleiros é uma incógnita. Mas um olhar superficial sobre seu show e como age seu público dá algumas pistas: no palco, uma caveira de isopor anda de um lado pro outro tal qual o Robocop, e isso leva às lágrimas gordos cabeludos na platéia. Ao mesmo tempo, panos com esfinges e pirâmides surgem e somem sem motivo aparente atrás do vocalista, fazendo-o uivar e gargalhar como uma bruxa do desenho do Pica-pau.

Se o show do Iron Maiden já é um espetáculo de circo de mau gosto, musicalmente a moça de ferro lembra um daqueles LPs coloridos que se usa para distrair crianças no recreio: as músicas são basicamente sequencias de notas iguais, e os vocais se resumem à repetição em diferentes tonalidades de um tal “ô, ô, ô, ô” — o que torna mais fácil rimar e permite que o público cante junto com a banda sem o trabalho de decorar. Em algumas composições mais trabalhadas, as letras falam sobre as típicas angústias do metaleiro de meia-idade, como o medo de escuro em Fear of the Dark ou a obrigação de voltar cedo pra casa em Two Minutes to Midnight (“2 minutos para a meia-noite”).

É difícil entender o que faz alguém sair de casa para ver algo desse nível. Pra piorar, ao final da apresentação, Bruce Dickinson, o vocalista do conjunto, prometeu voltar ao Brasil no ano que vem. Eu espero que isso não passe de mais uma encenação da banda feita sob medida para acalmar um público mimado, mas em todo caso estou descuidando de meu terçol para garantir minha ausência novamente.

Nota: zero.


(* ) Cruzmaltino Bandeco tem 53 anos e é crítico de música e cinema há 22. Publicou, nos anos 70, diversas reportagens sobre as pornochanchadas que não pôde assistir. É autor de quatro ensaios sobre o prêmio “Kikito de Ouro” e do livro de contos “Memórias do Mercadinho”. Sofre abusos sexuais de seu tio Milton Osvaldo desde a adolescência.

quinta-feira, março 05, 2009

A enciclopédia que você pediu a Jah – Parte 1


Que o Brasil adora reggae, todo mundo sabe. Infelizmente, a paixão nacional pelo melhor produto da Jamaica raramente vai além dos medalhões, dos nomes mais conhecidos. Em geral ficamos apenas em Bob Marley (e prole), Peter Tosh, Jimmy Cliff, Inner Circle e... Pato Banton (que não é jamaicano, nasceu em Birmingham, cidade inglesa pródiga em astros do chacundum), Big Mountain (que é americano, apesar de reforçado com bons músicos veteranos da boa ilha) e por aí afora...

Foi pensando nessa galera cheia de amor e suingue para dar ao reggae, mas carente de informações, que desencavei de meus arquivos esta pequena enciclopédia sobre o assunto, enfocando os nomes jamaicanos menos divulgados por aqui e – obviamente – de importância crucial para o gênero. A maioria das músicas citadas pode ser baixada no site Baía dos Piratas (http://thepiratebay.org/).

Evidentemente, as informações só estão atualizadas até o final do último milênio, mas devem dar pro gasto. Para saber mais detalhes, compre o meu livro “Reggae: a música que pulsa” (2002), lá no Sebão de Manaus. Ou use o santo google...

Por meio dos verbetes de A a Z, você vai conhecer quase uma centena de heróicos artistas pouco divulgados que ajudaram a transformar o chacundum que balançava a pequena ilha do Caribe num dos ritmos mais apreciados do mundo – incluindo grandes artistas como Bob e Horace Andy, duas gargantas reveladas no Studio One (o selo pioneiro do reggae) que poderiam ter se destacado mundialmente cantando qualquer outro gênero musical.

A gente também mostra como são e como surgiram os ritmos ancestrais do reggae: mento, ska, rock steady... E aponta também como o ritmo deu origem ao hip hop americano e ao drum’n’bass britânico. Temperando os verbetes, uma relação das palavras mais usadas no linguajar patois – aquela moqueca de gírias usada pelos artistas jamaicanos. Boa leitura. Irie!

ABYSSINIANS, The
O trio formado por Bernard Collins, Donald e Lynford Manning no final dos anos 60 foi responsável por um dos primeiros hinos da era rastafari, “Satta Massagana”. Este clássico do reggae fala de uma terra distante (no caso, a Etiópia, cujo nome antigo era Abíssinia) onde nunca havia noite, apenas dia, foi lançado em 1971 e cantado até em igrejas na Jamaica. A expressão “satta massagana”, tirada do aramaico, língua arcaica que o imperador etíope Hailé Selassié fazia questão de falar, é um agradecimento, e também aparece na letra de “Jimmy Jazz”, gravada pelos rude boys brancos do Clash. Mais tarde, “Satta Massagana” ajudou a impulsionar a carreira do grupo Third World – que a regravou em seu belo álbum de estréia.

Donald, Lynford e Bernard eram três gogós privilegiados que trocavam prosa, idéias e ideais rastafari com Bob Marley e Toots Hibbert, em Trenchtown. Outros sucessos importantes deles foram “Yis Mas Gan” e “Declaration Of Rights”. Mesmo sem nunca terem alcançado o status de superstars, The Abyssinians estão na ativa até hoje e são uma das bandas mais respeitadas pelos reggaemen ortodoxos. Seus filhos também seguiram carreira artística. Formaram o Satta, grupo que acompanhou Chaka Demus & Pliers no Brasil em 1994.

ACKEE
Fruta-símbolo da Jamaica, ela foi trazida da África pelos escravos que aportaram à ilha em 1778. É uma das bases da culinária local.

ALPHA OMEGA
Dupla formada por Christine Woodbridge (baixo) e John Sprosen (bateria e programação). Na ativa desde 1985, eles são o que os britânicos chamam de “U.K. Roots”: fazem dub com mensagens ecológicas. Álbuns da dupla como Dub Selection Volume 1, foram bastante elogiados pela crítica.

ANDY, Bob
Keith Anderson é seu nome de batismo. Mas foi como Bob Andy que ele tornou-se conhecido e admirado por reggaemaníacos da velha e da nova geração. Bob Andy começou cantando num dos melhores grupos vocais de rock steady, The Paragons, no início dos anos 60. Seu primeiro sucesso solo, o clássico “I’ve Got To Go Back Home”, de 1967, tinha as vozes de Peter Tosh e Bunny Wailer harmonizando.

Bob Andy participou dos anos de ouro do Studio One (lendário selo de gravações da Jamaica, que revelou, entre outros, Bob Marley), por onde lançou discos memoráveis. O álbum de antologia dessas gravações, Songbook, é considerado uma das obras fundamentais da música jamaicana de todos os tempos.

Ex-marido de Marcia Griffiths (uma das I-Threes que cantavam com Marley), estourou nas paradas internacionais em duo com ela, em 1971, cantando “Young, Gifted And Black”, de Nina Simone. Em 1998, ele continuava com a voz em cima e gravando: seu mais recente trabalho chamava-se Hanging Tough.

ANDY, Horace
A revista inglesa Mojo o destacou como um dos 100 maiores vocalistas da história da música, à frente da diva Anita Baker, da garganta etílica de Joe Cocker e da explosão de Kurt Cobain. Andy, nascido Horace Hinds na cidade de Kingston, em 1951, emociona qualquer um com os agudos e os “wooah” que solta. Nasceu pobre, gravou singles pelo Studio One e se converteu à filosofia rastafari. Tentou carreira nos EUA a partir da década de 70, formando até um selo próprio, Rhythm, em Connecticut. Dizem que só não virou um grande astro por causa da preguiça – que lhe valeu o apelido de “soneca”. Lembrado nos anos 90 pelos mestres da dance inglesa Massive Attack, participou dos álbuns Blue Lines (1991) e Protection (1994), e teve a honra de inaugurar a gravadora Melankolic (do Massive Attack), pela qual lançou o álbum Skylarking, que mescla preciosidades do Studio One com faixas novas.

APACHE INDIAN
Nascido em Birmingham, Inglaterra, a 11 de maio de 1968, Apache é um dos responsáveis pelo mango chutney musical que veio incrementar o reggae no início dos anos 90: o bhangramuffin. Apache tempera a prosa de DJ com o bhangra, música típica da Índia. Seu primeiro álbum, No Reservations, tinha produção de Sly Dunbar e participação de Maxi Priest, e o colocou nos primeiros lugares da parada asiática. Indian criticava o sistema de castas e casamentos arranjados que há milhares de anos oprime a sociedade indiana. O clipe da música “Boom-Shack-A-Lak” – que no Brasil virou até trilha de novela – elevou sua popularidade no mundo todo.

ASWAD
Graças a este trio os ingleses podem bater a mão no peito e soltar a frase: “Nossos jamaicanos são mais espertos que os dos outros.” Surgido no bairro londrino de Ladbroke Grove em 1974, o Aswad se caracterizou por fazer um reggae antenado em outras tendências.

O grupo foi fundado por Drummie Zeb (bateria, vocais), Brinsley Forde (guitarra, vocais) e George Oban (baixo). Essa formação gravou o álbum Aswad (1976) e emplacou nas paradas o single “Back To África”. O trio estourou de vez com a entrada do baixista Tony Gad no lugar de George Oban. Fez experimentos com o dub (A New Chapter Of Dub, de 1982), gravou um dos maiores álbuns ao vivo de todos os tempos (Live & Direct, de 1983) e entrou de cabeça no reggae pop (Distant Thunder, de 1988). Apesar da experimentação, não perdeu as características principais: vocais melodiosos, próximos da soul music, letras com militância política (como “Set Them Free”, um puxão de orelhas na África do Sul) e as cacetadas certeiras e maluquetes de Drummie, uma espécie de Keith Moon rastafari.

AITKEN, Laurel
Cantor cubano, um ícone cultural do movimento skinhead (por causa da gravação “Skinhead Train”). Estourou em 1960 com “Boogie On My Bones”.

AGGROVATORS, The
Assim como os Skatalites estavam identificados com Coxsone Dodd, os Aggrovators reinaram nos domínios de Bunny Lee. A formação incluía Robbie Shakespeare (baixo), Earl “Chinna” Smith (guitarra) e Carl “Santa” Davis (bateria).

ALCAPONE, Dennis
Influenciado pelo X-tudo verbal de U-Roy, Dennis iniciou a carreira de DJ em 1972. No ano seguinte, já era sucesso no Reino Unido. “Wake Up Jamaica” e “My Voice Is The Mosquito” são alguns de seus maiores sucessos.

ALIMANTADO, Dr.
DJ, começou num sound system comandado por Lee Perry. Sua época áurea foi nos anos 70, quando caiu nas graças do movimento punk.

BABILÔNIA
O mundo civilizado, segundo o linguajar rasta.

BALD-HEAD
A pessoa que trabalha para a Babilônia. Ou simplesmente o sujeito que não usa dreadlocks.

BANTON, Buju
Considerado o DJ n°1 da Jamaica nos anos 90, Buju chegou provocando polêmica. O single “Boom Bye Bye”, de 1992, sugeria que os homossexuais fossem abatidos a tiros. A comunidade gay não achou graça, a patrulha politicamente correta agiu e Buju teve de pedir desculpas publicamente por seu bizarro senso de humor. A gravadora Mercury, porém, decidiu apostar nesse DJ de voz roufenha e atitudes originais e o contratou. Acertadamente: “Bogle Dance”, sem controvérsias, só com diversão pura, foi um dos hits de 1992 na Jamaica, Buju lançou depois o disco Voice Of Jamaica em 1993 e se converteu à filosofia rastafari. Com longos dreadlocks adornando o cocuruto, ele agora faz músicas com mensagens para conscientizar os bad boys. Buju mete o pau na Aids (“Willy Don’t Be Silly”), critica os matadores de aluguel (“Murderer”) e é capaz de emocionar o rasta mais desconfiado (“Never Been Told”).

BANTON, Pato
Um dos freqüentadores mais assíduos das terras brasileiras, Pato (que na gíria patois significa coruja) foi descoberto num concurso de calouros. A performance deste DJ e cantor de Birmingham encheu os olhos de Ranking Roger (do grupo twotone The Beat) que o indicou à gravadora I.R.S. Desde então Pato Banton tem lançado discos em que prega a legalização da maconha e a paz no mundo, descendo lenha na cocaína e na Babilônia. Seu público é enorme entre os surfistas, seja no Brasil ou na Califórnia (onde gravou o ao vivo Live And Kickin’All Over America). Quem quiser conhecer um lado mais criativo de Pato deve recorrer às gravações dele com Mad Professor – iguarias para quem está cansado do reggae arroz com feijão.

BATTY BOY
Ou batty-bwoy. Homossexual, na gíria dos bad boys jamaicanos de hoje.

BEENIE MAN
Um dos bad boys mais requisitados da nova canção jamaicana, Beenie Man (apelido que significa pequenino) tem reggae no sangue. Seu tio era percussionista da banda de Jimmy Cliff e o encorajou desde cedo a seguir a carreira artística. Que começou aos oito anos de idade, com o single “Too Fancy”. DJ de versos rápidos e atitude corajosa, ele tem feito progresso como astro do guntalk – o estilo dancehall de armas e tiros que hoje domina a ilha, versão jamaicana do gangsta rap. Beenie Man já coverizou Bob Marley (“No Mama No Cry”, uma homenagem ao DJ Panhead, morto a tiros) e fez apologia à erva na regravação de “Under Mi Sensi”, de Barrington Levy. É um dos DJs atuais com mais bala para uma carreira internacional. Recentemente, proseou na versão remix de “Guantanamera”, de Wyclef Jean (Fugees).

BIG MOUNTAIN
Expoente do reggae produzido na Califórnia, o Big Mountain surgiu em 1989. Liderado pelo vocalista Quino (branco), o grupo segue uma receita infalível em seus discos: mistura canções de protesto com covers de apelo pop. Foi assim que estourou nas paradas americanas no ano de 1994, ao regravar “Baby I Love Your Way” (de Peter Frampton). A música entrou na trilha do filme Caindo Na Real e divulgou o grupo internacionalmente. O Big Mountain conta também com veteranos jamaicanos em sua formação: o guitarrista Tony Chin e o baterista Carl Santa Davis, que tocavam com Peter Tosh.

BIG YOUTH
As letras de cunho social deste toaster nascido Manley Augustus Buchanan já lhe valeram o apelido de “O Gleaner (alusão ao jornal jamaicano Daily Gleaner) humano”. Ele era motorista de táxi quando decidiu arriscar carreira nos sound systems jamaicanos no começo dos anos 70. Foi lançado num álbum de Prince Buster antes de gravar seus próprios discos. Em 1975, fez um dos seus trabalhos de maior repercussão, o LP Dread Locks Dread, com Prince Tony Robinson. Seguiu depois fazendo versos sobre motos (“Ace Go Skank”), cover de Ray Charles (“Hit The Road Jack”) e parcerias com Dennis Brown. Big Youth era um dos DJs prediletos de Bob Marley e foi o primeiro a pregar abertamente a mensagem rastafari em suas letras.

A enciclopédia que você pediu a Jah – Parte 2


BLACK UHURU
Por um breve momento chegou-se a acreditar que o Black Uhuru iria suceder Bob Marley no trono do reggae. A banda unia um trio vocal de extremo talento e a melhor seção rítmica da história do gênero. Pena que da esperança inicial tenham sobrado apenas bons discos e uma carreira marcada pela irregularidade.

O Black Uhuru (expressão africana que significa liberdade negra) surgiu em 1974, impulsionado pela popularidade mundial de Bob Marley & The Wailers. A formação inicial do grupo incluía os vocalistas Derrick “Duckie” Simpson, Don Carlos e Garth Dennis.

Don Carlos saiu em carreira solo e Garth Dennis se mandou para o Wailing Souls. Simpson então reformou a banda com Michael Rose – que tinha o hit “Guess Who’s Coming To Dinner” estourado nas paradas locais – e Errol Nelson, mais tarde substituído pela socióloga americana Sandra Puma Jones. Estes três casaram harmonias vocais impressionantes que tinham em Sly Dunbar (bateria) e Robbie Shakespeare (baixo) o complemento ideal.

O Black Uhuru lançou Red (um dos 100 grandes discos dos anos 80, segundo a revista Rolling Stone) e ganhou um Grammy de melhor álbum do gênero por Anthem (1984). Foi então que seus dreadlocks começaram a mofar. Rose saiu em meio a brigas com Simpson; em seu lugar, entrou Junior Reid. Puma Jones morreria de câncer em 1990. Duckie reagrupou o B.U. com Don Carlos e Garth Dennis. Juntos, eles produziram trabalhos interessantes como Now (1990) e Iron Storm (1991). Mas o comportamento irascível de Simpson fez a dupla abandonar o barco. Hoje existem dois Black Uhurus: o de Duckie Simpson e o de Don Carlos e Garth Dennis. Nenhum deles possui o brilho que o grupo tinha na década de 80.

BLACKWELL, Chris
Este branco é um dos maiores responsáveis pela popularidade mundial do reggae. Fundou o selo Island, pelo qual gravaram Bob Marley & The Wailers, Black Uhuru e Sly & Robbie. Mas há quem veja nele, jamaicano filho de ingleses, um vampiro que se aproveitou da ignorância dos músicos para enriquecer.

Chris Blackwell lançou o primeiro artista da Jamaica a fazer sucesso internacional, Millie Small, que em 1962 emplacou “My Boy Lollipop” nas paradas inglesas. A lenda reza que Blackwell foi aconselhado por uma cigana a investir no reggae – dica que ele seguiu com dedicação. Ajudou a produzir The Harder They Come, o filme que apresentou o ritmo jamaicano ao mundo.

E quando contratou Bob Marley & The Wailers, fez questão de gravar o disco em Londres, com toda a pompa a que tinha direito. Blackwell chegou a requisitar Wayne Perkins (famoso guitarrista de estúdio, um dos candidatos à vaga de Mick Taylor nos Rolling Stones) para fazer dois solos no álbum Catch A Fire (1973).

O empresário se desligou há pouco da presidência da Island e mora na Jamaica, na praia de Oracabessa, na casa que pertencia ao criador de James Bond, Ian Fleming. Recentemente, porém, produziu um filme, Dancehall Queen, dedicado a promover a música jamaicana contemporânea da mesma forma que The Harder They Come.

BLONDY, Alpha
A história do reggae africano com certeza não seria a mesma sem Alpha Blondy. Ele é considerado uma espécie de Bob Marley afro, com discursos contra o apartheid e as brigas tribais que dominam o continente. Nascido Seydou Kone na Costa do Marfim, Blondy iniciou sua carreira como vocalista da banda de rock Atomic Vibrations. Bandeou-se para os lados do reggae após ouvir Bob Marley & The Wailers.

Blondy gravou alguns singles na Jamaica, que não obtiveram sucesso esperado. Trabalhou como tradutor na TV inglesa e iniciou sua carreira de glórias com o álbum Cocody Rock (1984). Três anos depois, lançou sua obra-prima, Jerusalém. Gravado com os Wailers, o disco tem mensagens religiosas e sociais da melhor qualidade, cantadas em inglês, francês e no dialeto africano dioula.

Ao mesmo tempo em que constrói uma obra de respeito, Blondy sofre de sérios problemas psicológicos em decorrência do uso de drogas pesadas. A família o internou numa clínica no início dos anos 80; e ele tentou cometer suicídio em Paris, no ano de 1991.

BLOOD CLOT
Menstruação, em patois. Mas também pode (e deve) ser usado como xingamento. É o equivalente ao nosso “puta que pariu”.

BOOTHE, Ken
Um dos grandes nomes do rock steady e do reggae, começou a gravar em 1963, em duo com Stranger Cole – Stranger & Ken – e registrou vários clássicos antes do final da década de 60. Seu estilo vigoroso de interpretação lhe valeu o apelido de “Wilson Pickett do reggae” e enlouquecia as jamaicanas, que se rasgavam por ele no começo dos anos 70.

Em 1974, regravou “Everything I Own”, hit do grupo americano Bread, e comandou uma invasão às paradas britânicas: foi número um no Reino Unido. Recentemente, Boothe voltou às paradas com um empurrãozinho do DJ Shaggy, que regravou com ele “The Train Is Coming” (velho sucesso de Boothe) para a trilha do filme Assalto Sobre Trilhos.

BOUNTY KILLA
Outro rebento de Trenchtown, a favela de Kingston que deu ao mundo Bob Marley e Shabba Ranks. Bounty jura que começou a carreira aos quatro anos, gritando nos sound systems locais. Seu palavreado ágil, porém, só ganhou admiração com “Copper Shot”, que ele gravou nos estúdios do produtor King Jammy. Isso aconteceu em 1994. Em 1996, investiu com sucesso numa vida fora da Jamaica. Bounty fez duetos com Raekwon (do Wu-Tang Clan), estourou na comunidade hip hop com “Cellular Phone” e executou um dueto magistral com os Fugees (“Hipopera”).

BREAKSPEARE, Cindy
Uma das muitas musas de Bob Marley. A branquela Cindy Breakspeare ganhou fama internacional ao conquistar o título de Miss Biquíni Mundial, em 1976. Naquela altura, ela já estava enrabichada com o rei do reggae. O romance irritou a facção mais ortodoxa da filosofia rastafari, que foi à mansão de Bob tomar satisfações e acabou levando um clássico “meta-se com sua vida”. Cindy tem uma importância musical na vida dos Wailers: foi a musa inspiradora dos álbuns Exodus e Kaya, apontados como os mais suaves na carreira de Marley. Ela também resolveu seguir carreira artística cantando clássicos do eterno amado. Mas quem assistiu seu show no Brasil, em 1994, pôde comprovar: como cantora, Cindy Breakspeare é uma excelente miss veterana.

BROWN, Dennis
Um dos canários da geração de ouro jamaicana. Dennis Brown foi descoberto aos dez anos de idade por Clement Coxsone Dodd (dono do Studio One), quando cantava nos Falcons. Dois anos depois ele já dava retorno ao investimento de Dodd, ao emplacar “No Man Is An Island” (regravação de um hit de Curtis Mayfield). O auge da popularidade de Brown, porém, veio acontecer nos anos 70 e 80, quando ele se converteu à filosofia rastafari. Chegou a ser sério candidato ao trono que Bob Marley deixou vazio.

Adicionou um Emmanuel a seu nome e, auxiliado por músicos do quilate de Sly & Robbie e os Wailers, gravou álbuns sensacionais como Words Of Wisdom e Joseph’s Coat Of Manny Colours. Ao contrário de outros grandes nomes, Brown não parou no tempo. Abraçou as mudanças do reggae, gravou com Aswad e Maxi Priest e até se preocupava em colocar batidas mais modernas em suas canções. Quem viu os shows deste senhor (que sempre tocava ao lado da We The People Band) sabe que no palco Brown incendiava de rastas ortodoxos ao bad boy mais tresloucado. Ele morreu no dia 1º de julho de 1999, aos 42 anos, de ataque cardíaco.

BURNING SPEAR
Em 1969, Winston Rodney iniciava sua original carreira no Studio One com o single “Door Peep”. O nome Burning Spear foi uma homenagem a Jomo Kenyatta, primeiro presidente do Quênia (Flecha Flamejante, burning spear, era o nome que o líder assumiu quando lutava contra os ingleses pela independência) – o que dá o tom de seu trabalho, marcado pela militância rasta. Nos anos 70, fez, pela Island, seus melhores discos: Marcus Garvey, Man In The Hills, Dry & Reavy, Social Living.

Burning Spear, porém, é artista para se assistir ao vivo. Ele se entrega, se contorce, clama, chora – performance que sempre acontece durante “Slavery Days”, emocionante lamento sobre a escravidão.

Pena que tenha se envolvido com drogas pesadas nos anos 80 e lançado discos irregulares. Mas permanece como um dos grandes símbolos da aura espiritual que cerca o reggae dos anos 70. Sua firmeza na crença rasta pode ser resumida por esta declaração: “Eu não canto para fazer ninguém crer em Selassié ou no que eu defendo. Eu canto sobre o que sei que é certo.”

CAT
Ou the cat. Órgão sexual feminino, em patois.

CHAKA DEMUS & PLIERS
Os dois começaram como solistas, ainda nos anos 80. Chaka Demus largou o emprego numa fábrica de cigarro para ser DJ (o equivalente a rapper). Adotou o nome que é uma homenagem ao veterano DJ Nico Demus. Pliers é um cantor boa-pinta, com voz em cima (costuma dizer que sua influência maior é Stevie Wonder) que chegou a soltar singles de responsa nos sound systems jamaicanos antes de formar a dupla.

Em 1993, eles regravaram “Murder She Wrote”, canção em que Pliers esculacha uma sirigaita (sua ex-musa). Com base instrumental surrupiada de “Bam Bam”, bela velharia do grupo Toots & The Maytals, a música esteve nos primeiros lugares na parada inglesa. Em seguida veio o álbum Tease Me – cuja faixa-título é um clássico moderno – seguida de uma regravação acachapante de “Twist & Shout”.

Três anos depois eles soltaram All Kinda People. Apesar de conter belas canções e uma cover de “For Every Kinda People” (de Harry Belafonte, com participação do próprio), o CD teve fraco desempenho nas paradas. Mas Chaka Demus & Pliers ainda estão entre os grandes do mundo do reggae contemporâneo.

CHALICE
Cachimbo para se fumar maconha, normalmente feito da casca do coco.

CHAPLIN, Charlie
DJ da época do dancehall, evita a violência verbal e prefere compor prosas engaçadas.

CIDADE NEGRA
“Uma coisa boa a respeito da música/ É que quando ela bate você não sente dor”, ensina Bob Marley em “Trenchtown Rock”. Alguns habitantes da Baixada Fluminense tomaram essas palavras como sentido da vida. Nos anos 80, o grupo Lumiar saiu da violenta Belford Roxo, na periferia do Rio de Janeiro, para cantar um reggae de letras conscientes, com influências do próprio Marley e de Steel Pulse. Mudou o nome para Cidade Negra e caiu nas bençãos do produtor Nelson Meirelles - que deu o verniz necessário para o som básico de Lazão (bateria), Da Gama (guitarra), Bino Farias (baixo) e Ras Bernardo (vocais).

Eles assinaram contrato com a Sony Music em 1990 e lançaram o belo Lute Para Viver, que emplacou o hit “Falar A Verdade”. O Cidade tem no currículo shows ao lado do Aswad e do Steel Pulse e uma apresentação no então badalado Reggae Sunsplash, em 1992.

No ano seguinte, Bernardo saiu do grupo e foi substituído por Toni Garrido, que trouxe influências soul. O quarteto assumiu uma postura mais pop, mas sem perder as letras de cunho social e religioso. Sobre Todas As Forças (1994) transformou a banda em superstars, vendendo mais de 800 mil cópias. Festejando sua imensa popularidade, o Cidade foi de novo à Jamaica em 1995, para participar da noite internacional – a mais disputada – do Reggae Sumfest.

O Erê (1996) mostrou uma banda ainda mais antenada com os sons atuais do reggae: o disco traz parcerias com os veteranos do Inner Circle e raggamuffin da DJ jamaicana Patra. Para o ano de 1998, o Cidade prepara um CD de dub – a versão psicodélica do reggae – com produção de feras como Aswad, Sly Dunbar e Mad Professor.

CLARKE, Gussie
Dono do Music Works, um dos estúdios mais badalados de ilha, Augustus “Gussie” Clarke trabalha com música desde a adolescência. Foi produtor de Screaming Target, o melhor disco de Big Youth. Ao lado de um time de músicos, programadores e produtores, ele criou batidas e grooves para a velha e a nova geração.

Compôs também hits como “Rumours”, a matadora canção que tirou Gregory Isaacs do limbo, e ajudou a aumentar a fama de DJs como Shabba Ranks e Tiger. E não foram só os jamaicanos que tiveram o privilégio de gravar no Music Works. O Aswad criou seu grande álbum dos anos 90 (Too Wicked) nesse estúdio, com a ajuda de todo o cast da casa – o DJ Shabba Ranks, a cantora J.C. Lodge e os programadores Steely & Clevie...

O mais interessante é que Gussie não toca nem corneta: “Sou um criador, não um músico. Quando invento uma batida, descubro alguém que transforme a minha idéia em música e pronto!”

A enciclopédia que você pediu a Jah – Parte 3


CLIFF, Jimmy
Já houve um tempo em que ele era mais brasileiro do que jamaicano, com direito a mulher e filho na Bahia e o irmão de Pepeu Gomes, Didi, tocando em sua banda. Jimmy Cliff, porém, é um dos poucos astros que podem reclamar para si o título de “embaixador musical da Jamaica”. Foi assim desde a época em que tinha 15 anos e pentelhou o produtor Leslie Kong para gravar uma canção de sua autoria. Antes havia lançado o compacto “Daisy Got Me Crazy”, sem sucesso. A música que mandou financiado por Kong chamava-se “Hurricane Hatie” e foi um dos hits da era do ska.

Anos mais tarde, Cliff mudou-se para Londres, não obteve a repercussão esperada e baixou pela primeira vez no Brasil. O ano era 1968 e ele defendeu a Jamaica no Festival Internacional da Canção cantando “Waterfall”. Voltou à terra natal e interpretou o papel principal de The Harder They Come (Balada Sangrenta), o filme que exportou a cultura rude boy para o mundo inteiro. Ainda gravou belos álbuns de reggae como Give Thankx (puxado pelo hit “The Love I Need”, que virou tema da novela global Água Viva) e o avassalador Give The People What They Want.

Cliff, porém, nunca teve o talento devidamente reconhecido pela massa jamaicana. Seu trabalho foi muitas vezes uma diluição do reggae – o hit “Reggae Night”, por exemplo, é um funkão, composto por La Toya Jackson (ela mesma!) e gravado com o Kool & The Gang. A canção, contudo, foi uma das mais tocadas na Jamaica, em 1983.

É mais provável que o preconceito religioso (Cliff é muçulmano) na ilha tenha perseguido o artista. No livro Reggae: Música e Cultura da Jamaica, o jornalista inglês Stephen Davis afirma que rastas cuspiam nos palcos em que Cliff tocava. Mas, queiram ou não, Jimmy Cliff ainda é o principal artista jamaicano depois de Bob Marley.

COCOA TEA
Ele é um produto do dancehall, a inovação sonora que tomou conta da Jamaica nos anos 80. Mas Cocoa Tea preserva a mensagem antes de tudo. Rastafari convicto, ele transforma seus shows em pregações, mandando mensagens contra a Babilônia e sempre louvando o nome de Bob Marley. Ao mesmo tempo, é um romântico incurável (como mostra “One Woman Show”, faixa de seu belo CD Rikker’s Island). Ele também sabe combinar como poucos a doçura da voz com o punch verbal de DJ. Fez duetos campeões com Shabba Ranks (“Pirates Anthem”) e Cutty Ranks (“Champion Of The World”).

CULTURE
Este grupo se resume a duas palavras: Joseph Hill. Ex-motorista de ônibus, rastaman, poeta, maluco e cantor de voz anasalada, ele até hoje manda e desmanda no Culture. O grupo surgiu em meio ao boom rastafari dos anos 70 com a canção “Two Sevens Clash”, que previa o fim do mundo em 1977. Os rastas compraram o disco, esperaram pelo Armagedon e nenhuma tragédia aconteceu. E o Culture segue firme e forte, lançando discos com firmes mensagens rastafari.

DANCEHALL
O ritmo que colocou a Jamaica no futuro surgiu na segunda metade dos anos 80, apesar de o nome ser um velho conhecido dos jamaicanos – desde a década de 60, ele era usado para definir as festanças dançantes. O responsável pelo surgimento do dancehall chama-se King Jammy. Ao fazer experimentos com seu tecladinho Casio em 1985, ele criou uma nova batida eletrônica.

Jammy batizou a descoberta de sleng teng e chamou o cantor Wayne Smith para improvisar em cima do novo groove. Nascia então “Under Mi Sleng Teng”, canção-tema do dancehall.

O ritmo, porém, custou a pegar. Os jamaicanos torceram o nariz para a nova criação. O dancehall foi ter seu devido reconhecimento apenas quando o cantor Tenor Saw soltou nas paradas “Ring The Alarm”, canção em cima da base instrumental “Stalag 17” que metia a boca na violência do gueto. O dancehall passou a ser adotado por todos os produtores da ilha. Até mesmo Sly & Robbie, a melhor seção rítmica do planeta, não dispensam um bom ritmo eletrônico. “É mais barato, rápido e higiênico”, defendem.

O gênero, porém, trouxe uma certa banalização para a música jamaicana. A falta de imaginação impera: basta surgir uma nova batida e ela será exaustivamente seguida pelos outros artistas da Jamaica. Há também uma identificação perigosa com a boca-suja e a glorificação da violência por parte de alguns DJs. Muitos veteranos – Bunny Wailer, por exemplo – acham que o novo gênero é responsável pela decadência das letras de reggae e que, graças ao dancehall, a garotada repudia a filosofia rastafari e prefere falar de armas, violência e mulheres. Essa segunda bronca se mostrou uma grande bobagem: astros que só falavam em sacanagem e bandidagem acabaram se convertendo à fé rasta. E hoje não são poucos os bambas da velha geração que usam e abusam da eletrônica em seus discos – o próprio Bunny Wailer já se rendeu à sleng teng.

DJs
Os DJs eram os animadores de público nos sound systems, espécie de discotecas ambulantes que dominaram a Jamaica nos anos 50 e 60. Cabia a eles a tarefa não deixar o pique cair e colocar discos para tocar, como disc-jóqueis tradicionais. Com o passar dos anos, a comunicação com o público e o uso do microfone se tornaram mais importantes do que a própria seleção musical das festas.

Eles faziam o que se chama de talk over, ou seja, pegavam a base instrumental das músicas e davam seus recados. Foi assim que surgiram nomes como U-Roy (considerado por alguns o pai da criança – versão historicamente contestada), Prince Jazzbo e I-Roy. Através dos microfones eles faziam declarações de amor, trocavam provocações (é histórica a briga entre Jazzbo e I-Roy), faziam bravatas e mandavam mensagens de paz. Com a popularização do rastafarianismo, no final dos anos 60, os DJs passaram a fazer comentários sócio-políticos. Exemplo: Big Youth, de tanto alertar a população jamaicana, ganhou o apelido de O Gleaner Humano – uma alusão ao Daily Gleaner, o jornal mais importante da ilha.

A cultura DJ foi exportada para os EUA ainda nos anos 70, por meio do jamaicano Clive Campbell (DJ Kool Herc). Os habitantes dos guetos americanos assimilaram a novidade, que originou o hip hop. O talk over, portanto, é pai do rap.

O estilo mais sério dos DJs balançou a partir de 1979, com a ascensão de Yellowman. Os temas passaram a variar entre sexo (obsessão de Yellowman, em seus primeiro discos, e de Eek-A-Mouse), sátiras (especialidade do DJ que adotou como pseudônimo Charlie Chaplin). Esses reis do palavreado tornaram-se superstars na década de 90, quando nomes mais sacanas e mais grosseiros como Shabba Ranks, Ninja Man e Tiger assumiram os microfones. Hoje, muito mais do que qualquer astro de trancinhas, os DJs são os grandes ídolos, os verdadeiros senhores da música jamaicana.

DONALDSON, Eric
Ele é o autor de “Cherry Oh Baby”, reggae manhoso que ganhou o mundo em 1976, na interpretação dos Rolling Stones. Eric Donaldson integrava um grupo vocal chamado West Indians e ganhou notoriedade ao sagrar-se vencedor de um concurso de calouros - a música campeã era “Cherry Oh Baby”. Iniciou então uma carreira solo de altos e baixos que mantém até hoje. O seu melhor momento foi nos anos 70, quando tinha à disposição músicos do quilate de Cat Coore e Ibo Cooper (do Third World) e o percussionista Denzil Laing. No Maranhão, Donaldson é tratado como rei: fez diversos shows na terrinha e em 1997 animou o carnaval rasta da cidade.

DRUM’N’BASS
Denominação politicamente correta para o jungle, ritmo que invadiu a Inglaterra na segunda metade dos anos 90. O gênero se caracteriza por batidas loucas de acid house com baixo de reggae e vocal raggamuffin. Emergiu em raves e rádios piratas inglesas. Um dos primeiros astros a tirar o jungle do gueto foi o indiano UK Apache (não confundir com Apache Indian), que em 1983 estourou na Grã-Bretanha com “Gangsta Kid”.

No ano seguinte, DJs (que, para os ingleses, são os caras que ficam nas pick-ups) como Grooverider já promoviam raves nababescas na Brixton Academy. General Levy, então um mediano artista de raggamuffin, comandou a invasão jungle no carnaval de Notting Hill – o mesmo palco santo onde o Aswad gravou o LP Live And Direct. Hoje o jungle prefere ser chamado de drum’n’bass. Os vocais ragga foram preteridos por sons mais espaciais (vide LTJ Bukem) e até mesmo flertes com formatos eruditos ou progressivóides (Goldie e as pirações do disco Timeless, de 1995). Mas as conexões com a Jamaica não foram rompidas. “O jungle é um orgulho britânico, mais uma dos múltiplos derivados do reggae”, exulta Tony Gad, baixista do veterano grupo Aswad.

DEKKER, Desmond
Um dos primeiros candidatos a superstar internacional na Jamaica, Dekker (nome verdadeiro: Desmond Dacres) nasceu em Kingston, no ano de 1943. Veio de uma família musical (seu irmão, George, cantou nos Pioneers; a irmã, Pauline, gravou vários duetos com outros canários) e aos 19 anos de idade iniciou uma duradoura colaboração com o produtor Leslie Kong.

Estourou “Honour Your Mother And Father”, hit nos bailes, e o que veio em seguida faz parte da própria história da canção jamaicana. Desmond se juntou ao grupo vocal The Aces e juntos emplacaram canções como “007 (Shanty Town)”, que narrava a vida dura dos bairros de lata de Kingston, e o clássico “Israelites”. A canção foi composta em 1968 e rendeu ao cantor destaque na parada inglesa e turnê de sucesso no Reino Unido.

Em 1971, Leslie Kong morreu de forma misteriosa (dizem que foi praga dos Wailers) e Dekker perdeu o rumo. Hoje é mais lembrado por um ou outro vexame (chegou até mesmo a ser preso por dirigir embriagado) do que por ter sido um dos primeiros talentos natos a prenunciar a explosão mundial da música jamaicana.

DODD, Clement “Sir Coxsone”
Nos anos 50, a música da Jamaica vivia de compactos de R&B contrabandeados dos EUA. O sujeito que tivesse as bolachas mais raras abria um sound-system (espécie de discoteca a céu aberto), colocava o povo para dançar e fazia a vida. Clement Dodd foi um desses sortudos, mas teve visão suficiente para sobreviver além das discotecas. Abriu no ano de 1962 o Studio One, lendário celeiro de talentos do reggae.

Lee Perry foi técnico de som do lugar, os Skatalites eram “a banda da casa” e, entre os talentos que passaram pelo local, estão Bob Marley & The Wailers, Dennis Brown, Burning Spear e Mighty Diamonds. Se por um lado foi um visionário, por outro Dodd possuía todos os vícios dos “donos da música” da época: pagava tostões a seus contratados, roubava canções (Bob Andy perdeu as contas das co-autorias que deu ao empresário) e desconhecia toda e qualquer lei de direito autoral. Atualmente Coxsone Dodd mora em Nova York e o Studio One é apenas uma boa lembrança para os eternos veteranos do chacundum jamaicano.

DREADLOCKS
As chamadas “tranças horríveis” (na opinião preconceituosa dos anos 60) são um dos pilares do rastafarianismo. Para muitos, os dreads funcionam como uma antena que capta boas vibrações.

DREADZONE
Grupo formado por três ex-integrantes do Big Audio Dynamite (o baterista Greg Roberts, o tecladista Tim Brand e o baixista Leo Williams) que aposta nos efeitos psicodélicos e inebriantes do dub, adicionando à sua música efeitos tirados de filmes B, baixos cavalares e ruídos produzidos em estúdio. Demonstra conhecimento da história do reggae, mas aponta para o futuro: seu mais recente CD, Biological Radio, inclui uma versão ano 2000 para “Ali Baba”, do veterano John Holt.

DRUMMOND, Don
O primeiro gênio trágico da música jamaicana. Trombonista de formação clássica, Drummond foi um dos criadores do ska, junto com o guitarrista Ernest Ranglin. Foi também um dos primeiros músicos locais a aderir à filosofia rastafari – que na época não era muito aceita pela comunidade local. Sabia tudo de produção. Com sólida formação jazzística, era somente o “maestro” dos Skatalites até ser chamado por Clement Dodd para trabalhar no Studio One como arranjador. Drummond acabou levando consigo os Skatalites e deixando brilhantes participações em gravações como a de “I Should Have Known Better”, cover dos Beatles, e “Simmer Down”, dos Wailers.

O problema é que, se de gênio e louco todo mundo tem um pouco, Drummond possuía um nível de maluquice um tanto acima da média. Em janeiro de 1964, ele matou a amante – a dançarina Margarita Mahfood – a facadas. Preso e dado como insano, morreu abandonado num sanatório em Kingston.