terça-feira, setembro 29, 2009

Filmes surrealistas nas "Quartas com Buñuel"


A partir desta próxima quarta-feira, 30, o cinema surrealista tem um novo ponto de encontro em Manaus: O Coletivo Difusão começa a promover, amanhã, as "Quartas de Buñuel".

Durante quatro semanas serão projetados os filmes mais significativos da carreira do cineasta espanhol, naturalizado mexicano, Luis Buñuel.

As exibições ocorrerão na sede do Coletivo Difusão na Av. Castelo Branco, 1111, Cachoeirinha, a partir das 19h30 e terão sempre debates mediados ao final de cada sessão.

A atividade foi proposta ao Coletivo Difusão pelo grupo teatro Tesc, dirigido por Márcio Souza. Os filmes programados serão, pela ordem de exibição: O Discreto Charme da Burguesia, O Cão Andaluz e A Idade do Ouro, Ensaio de um Crime e, na última quarta, A Via Láctea.


“É um panorama da produção do diretor, desde um dos primeiros filmes, O Cão Andaluz, até um dos mais recentes, A Via Láctea. Aliás, todos os filmes foram propostos pelo escritor Márcio Souza, que se identificou com o trabalho que a gente vem desenvolvendo nos Encontros Audiovisuais, quando ele foi o nosso primeiro convidado”, diz Allan Gomes, membro do Coletivo Difusão.

Em algumas obras Luís Buñuel trabalhou com Salvador Dalí, de quem sofreu forte influência na sua obra surrealista.

Aos participantes das exibições serão distribuídas cópias do texto “Cinema: Instrumento de poesia”, de 1958, em que Buñuel diz que o cinema faz “explodir o universo”, e em seguida faz uma observação contundente e que até hoje permanece atual:

"Em nenhuma outra das artes tradicionais há, como no cinema, tamanha desproporção entre possibilidade e realização. Por atuar de maneira direta sobre o espectador mostrando-lhe seres e coisas concretos, por isolá-lo, graças ao silêncio, à escuridão, do que se poderia chamar seu habitat psíquico, o cinema é capaz de arrebatá-lo como nenhuma outra, todavia, é capaz de embrutecê-lo.

Desgraçadamente, a grande maioria da produção cinematográfica atual parece não ter outra missão: as telas se comprazem no vazio moral e intelectual onde prospera o cinema, que se limita a imitar o romance ou o teatro com a diferença de que seus meios são menos ricos para expressar psicologias; mostram incessantemente as mesmas estórias que o século dezenove fartou-se de contar e que ainda se repetem na ficção contemporânea".


Serviço:

Evento: Quartas com Buñuel

Local: Coletivo Difusão - Av. Castelo Branco, 1111, Cachoeirinha (Próximo ao T2 e quase esquina com a Rua Manicoré)

Horário: 19h30

Investimento: R$ 1,00

Datas:

30/09 – O Discreto Charme da Burguesia (1972)

07/ 10 – O Cão Andaluz (1928)/ A Idade do Ouro (1930)

14/10 – Ensaio de um Crime (1955)

21/10 – A Via Láctea (1969)


Contato do Coletivo Difusão:

3233-3878/9182-1453 (Marcos Tubarão membro do Coletivo Difusão)

Allan Gomes, membro do Coletivo Difusão: 8825-7761

segunda-feira, setembro 28, 2009

De Catulo a Simão Pessoa: 2 mil anos de poesia e escracho


Zemaria Pinto

CATULO – A Lírica latina tem seus primeiros registros em meados do século I a.C. O bardo Caius Valerius Catullus (87 – 54 a.C.) é a expressão máxima daqueles a quem o azedo Cícero chamou desdenhosamente de “poetas novos”, jovens que preferiam as formas breves, preconizadas há 300 anos pelos alexandrinos, às longas e invariavelmente chatas epopéias.

Havia nos novos poetas romanos ecos de um tempo ainda mais distante: Safo, poeta grega, de Lesbos, século VII a.C., foi descarada e amorosamente copiada por Catulo, que a homenageou nomeando sua musa como Lésbia. À Lésbia, frívola e inconseqüente – cujo nome real era Clódia –, Catulo dedicou a maioria dos 116 carmes legados à posteridade. Entre o amor avassalador e o ódio desmedido, o poeta sintetizou num dístico imortal o dilema trágico de sua inconstância:

Odeio e amo. Talvez perguntes por que faço isso.
Não sei, mas sinto que acontece e me torturo.

Mas o lírico refinado – sobre quem Carpeaux afirmou ser “no primeiro século antes da nossa era, um poeta moderno” – é também o introdutor na cultura latina de uma linguagem sarcástica e ferina, no limiar do que os convencionais e puristas de todos os matizes e ocasiões chamariam simplesmente de chula. O Carme 32, por exemplo, é um convite de assustar qualquer mocinha casadoira:

Te peço, minha doce Ipsilila,
Delícias minhas, graça, mimos meu,
Ordena, que finda a sesta, eu te procure,
E caso ordenes, cogita tais cuidados:
Despe de trava ou tranca a tua porta,
Não te assaltem coceiras de sair.
Mas fica em casa, em raro preparo
De nove, gota a gota, nove fodas.
Se assim quiseres, pressa!, não hesites,
Que eu, já almoçado, e farto à farta,
Perfuro a um só tempo toga e túnica!

Se Ipsilila despertava uma devastadora paixão priápica, o mesmo não se dá com Ameana:

Ameana, mulher super-usada,
Me pediu a quantia de dez mil!
Uma mulher de nariz grotesco,
Amante de um caipira sem dinheiro!
Parentes, que se preocupam com a moça,
Chamem os amigos e os médicos:
A moça está doente. E nem precisa
Perguntar o que é: ela delira!

Nem a adorada Lésbia escapou da fúria de Catulo:

Ah! Célio, a nossa Lésbia, aquela Lésbia,
A própria Lésbia a quem Catulo amou
Mais que a todos os seus, mais que a si próprio,
Agora, nas encruzilhadas e nos becos,
Esfola os netos do magnânimo Remo.

Mas é para os amantes de Lésbia que Catulo guarda a maior dose de, digamos, maldade:

Imundo puteiro, e vocês, companheiros de putaria
(nona pilastra depois do templo dos irmãos de barreto),
pensam que só vocês têm culhões,
podem comer tudo quanto é moça
e que os outros não passam de bodes?
(...) Pois a minha menina, que fugiu de meus braços,
amada tanto quanto nenhuma será amada,
pela qual travei tantas batalhas,
senta-se aí, com vocês.
Com ela, vocês todos, nobres e ricos,
fazem amor e, contudo, o que é uma indignidade,
são todos mesquinhos e depravados da sarjeta (...)

Ao ex-amigo Gélio, que ousou cobiçar (só?) a amada, Catulo lança imprecações terríveis:

Gélio é esguio, como não seria?: tem ele mãe tão boa
e tão robusta, e tão encantadora irmã,
e tão bom tio, e tão completa abundância de jovens
parentas.... como poderia ele deixar de ser magro?

Ou:

Quem fez o homem, Gélio, que com sua mãe e irmã
Satisfaz seus desejos e, sem roupa, passa a noite inteira?
Que faz o homem que não deixa o tio ser marido?
Por acaso sabes que grande infâmia cometa?
Comete, ó Gélio, qual nem a extrema Tétis
Nem o Oceano, pai das ninfas, pode lavar:
Pois nenhuma outra infâmia pode ir mais além
Mesmo se ele, com a cabeça abaixada, chupasse a si mesmo.


MARCIAL – Na língua de Catulo, outros poetas mantiveram acesa a chama do lirismo que vê além das pequenas grandes dores individuais, rindo-se de si mesmo ou tematizando o amor e o erotismo muito além do permitido pela moral vigente: o elegíaco Propércio, o decadente e censurado Ovídio e o epigramático Marcial sobreviveram a dois mil anos de guerra, revoluções, flagelos e boleros. Marcial, tendo vivido no primeiro século da era cristã, é o grande cronista daquela época, com seu estilo conciso e alegre:

Afra tem amas e amos – mas é ela
A maior mama entre amos e mucamas.

Corre o rumor, Chione: nunca foste fodida,
E nada mais puro existe que tua cona.
Nessa parte (por vestes velada) nem te lavas.
Se é pudor, desnuda a cona e vela a face


À Faixa Peitoral

Comprime, de minha amante, os dois seios em botão
Para que caibam sempre no oco de minha mão.

Mas se o título desta plaqueta fala em dois mil anos de poesia, e até agora mal chegamos a cem, demos um salto no tempo e no espaço, e observemos a lírica escrachada da última flor do Lácio. O que quer, o que pode esta língua?


GREGÓRIO – Segunda metade do século XVIII, Bahia. Gregório de Matos, o Boca do Inferno, é a gargalhada barroca aprisionada durante séculos em sonetinhos de piedade e arrependimento, só recentemente libertada. Gregório escarnece de políticos, do clero, do povo e de si mesmo, dessacralizando modelitos seculares, e criando em língua portuguesa as bases mais sólidas das vanguardas do século XX. À propósito, o cardeal Augusto de Campos apaixona-se:

Há muito mais novidade, mais juventude em Gregório do que em muito blá blá blá de vanguarda que anda por aí. Gregório já rompe os limites entre a poesia de produção e a de consumo: faz poemas requintadíssimos e faz canção popular, vai do grosso ao fino, do bronco ao barroco, com a maior liberdade.

Vejamos alguns fragmentos, como exemplo, das Queixas Da Sua Mesma Verdade, onde o poeta define os “maos modos de obrar na governança da Bahia”:

1.
Que falta nesta cidade?... Verdade
Que mais por sua desonra... Honra
Falta mais que se lhe ponha... Vergonha

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.

3.
Quais são os seus doces objetos?... Pretos
Tem outros bens mais maciços?... Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos?... Mulatos

Dou ao demo os insensatos,
Dou ao demo a gente asnal,
Que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos.

5.
E que justiça a resguarda?... Bastarda
É grátis distribuída?... Vendida
Que tem, que a todos assusta?... Injusta

Valha-nos Deus, o que custa,
O que El-Rei nos dá de graça,
Que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta

7.
E nos Frades há mangueiras?... Freiras
Em que ocupas os serões?... Sermões
Não se ocupam as disputas?... Putas

Com palavras dissolutas
Me concluís na verdade,
Que as lides todas de um Frade
São Freiras, Sermões e Putas.

9.
A Câmara não acode?... Não pode
Pois não tem todo o poder?... Não quer
É que o governo a convence?... Não vence

Quem haverá que tal pense,
Que uma Câmara tão nobre
Por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence.


BOCAGE – Quanta atualidade nestes trezentos anos de Gregório! Mas não se pode falar em lírica escrachada sem citar o português – contrariando todos os prognósticos – Bocage (1765-1805), o inesquecível herói de todas as histórias de sacanagem do pessoal com mais de 30. Condenado pela Inquisição por “pregar idéias liberais em papéis sediciosos”, Bocage morreu humilhado e miserável em plena atividade criadora. Sonetista exímio, carnavalizou a pétrea forma em escracho derramado:

Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa;
Milhões de vezes putas têm reinado:

Dido foi puta, e puta dum soldado;
Cléopatra por puta alcança a coroa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:

Essa de Rússia imperatriz famosa
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh Nise, duvidosa
Que isto de virgo e honra é tudo peta.

Bocage, como bom escrachado, mesmo na morte ri de si mesmo. Ao famoso

Já Bocage não sou!.... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura

Figurinha carimbada em qualquer antologia escolar, ele contrapõe, com uma piscadela ao cúmplice leitor:

Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia – o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde ou frade:

Não quero funeral comunidade,
Que engrole sub-venitas em voz alta;
Pingados gatarrões, gente da malta,
Eu também vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:

“Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.”


SIMÃO – Num dia qualquer de não sei quando – não botou data na dedicatória –, procurei o stand da Livraria Cabocla. Feira do Livro, Praça São Sebastião: “Você compra o livro aqui, o autógrafo é ali no bar do Armando”, me diz o Ruy. Era o Brinca Comeu Brinco, antologia para os que chegavam atrasados ou obra completa, nunca soube. O pouco que conhecia dos jornais escancarava-se naquele livrinho raro: o lirismo perverso, do tipo que antagoniza o leitor, avisava logo no primeiro poema de Old Fashioned:

Sei que escrevo pra mim mesmo

E não havia sequer vestígios do remorso elementar com que é tratada a cultura aldeã. Dessacralizar a pasmaceira geral era a palavra de ordem daquele exército individual:

Caldeirada de bodó
Moqueca de jaraqui
Filé de tucunaré
Costela de tambaqui
Suco de jenipapo
Batida de buriti
Creme de graviola
Sorvete de açaí
E no final do embate
A diarréia à la carte

Nem o guaraná velho de guerra era poupado:

No mercado central
Turista quer guaraná.
Coitado, pensa que é fácil
Fazer pica levantar.

Em Ócio dos Ofídios predomina um lirismo comprometido com um 1978 que parecia não ter fim. À maneira de Bacellar, poemas dedicados às frutas amazônicas, terenas, andirás e o belo Distrito Industrial. Ecológico antes da moda, jamais chato. Os poemas de Carajo retomam a lírica escrachada, em sintonia com a manhã anunciada:

Estava tão excitado
Que nem tirou a chuteira
Mordeu os seios com força
Quase arrancou os mamilos
Meteu o dedo na xana
Arrebentou o clitóris
Ainda se não bastasse
A ejaculação foi precoce

Agora quer o divórcio
A mulher do torturador

Há registros de uma insuspeita alegria, denunciada pelas referências infantis que pedem uma algazarra ao fundo:

Ivo ganhou uma ave
A ave de Ivo voa
Baleei a ave do Ivo
Ivo ficou puto
Ivo me dedou pro velho
Ivo é um viado

Ou:

O cravo transou a rosa
Debaixo de uma sacada
O cravo saiu sorrindo
A rosa, descabaçada

Essa alegria não disfarçada tem seu contraponto natural na placidez onírica de um poema que tem tudo para passar despercebido em sua singeleza, se não despertasse o leitor com o vigor das palavras escolhidas:

Era dia de S. Cosme
Com crianças e cirandas
Vestias uma camisola
Recendo a lavanda
Foi sonho ou foi delírio
A trepada na varanda?

Em Miss Heartbreak a persona lírica é feminine e o poema desenvolve-se de maneira uniforme e sequenciada: da primeira dentição ao primeiro aborto, passando pelas experiências sensoriais mais elementares – a masturbação ao som do Eric Clapton, o primeiro porre, as paixões adolescentes, overdose, ácido, sodomia, cursinho, feminismo – até o fim:

E partiu assim de repente
Deixando um vago na gente

O poema Loba das Estepes sintetiza o pensamento de Miss Heartbreak:

Os homens me temem pelo que represento
Subvertendo o jogo secular do jugo
(...)
Para que da triste memória
Do passado tão recente
Se dê à luz uma nova mística feminina
E que eles de repente percebam
Que trinta paus não valem uma vagina

Fecha o volume o maiúsculo Traste & Contraste, ultra-sonografia poética desta cidade maluca:

São tantas cidades em uma só
Que só conheço a menor
Que só conheço a pior

Ah, querida leitora, prezado leitor. Se tiveste paciência para até aqui acompanhar-me, dir-te-ei o que me moveu a escrever estas parcas laudas: vinte palavras, leitora, vinte palavrinhas, leitor, que me calaram fundo na madrugada em que as li:

Esperamos que Simão Pessoa, porém, evolua sua linguagem poética, para que seu casamento com o sarcasmo não acabe em divórcio.

Cláudio Feldman, ao comentar os Hard Kais no novo livro de Simão, Matou Bashô e Foi ao Cinema, foi o responsável pela minha insônia. Ô Simão, além do Bashô, manda o Brinca também pro Cláudio. Eu empresto o meu exemplar. Pode copiar.

A referência cinematográfica do título não é gratuita: underground e escrachado, Simão mata o pai Bashô e, se não reinventa, redimensiona o haicai e o poema-escracho, escrachando aquele e sobrecarregando de finíssimo lirismo este, como no metalingüístico Súbito Aguaceiro:

Libertam-se libélulas
Crisálidas de cristal
Sob sol insólito

E eu meio bundão
Cansado de fazer
Tanta aliteração

Observe-se que há dois poemas, imbricados, o segundo comentando o primeiro, subvertendo o rigor métrico ortodoxo, porém conservando uma musicalidade expressiva, como neste Flores de Cerejeira, onde o caráter oriental da forma é atropelado pela realidade telúrica que cerca a criação poética:

Olho para as flores
Olho e as flores caem
Olho e as flores riem

Brincadeira:
Nessa porra de cidade
Nem existe cerejeira!

Filiado à milenar tradição do escracho, Bashô traz como apêndice Karalhokê, 40 haicais de fazer corar os catecismos do velho Zéfiro: das manjadíssimas Papai e Mamãe e Barba, Cabelo e Bigode até as pós-modernas Nintendo e Realidade Virtual, Simão inventaria as posições do jogo amoroso, com um humor corrosivo, próximo à dor. Um humor que não poupa nem ao poeta nem ao leitor: lírica escrachada.

Um conceito que supera, porque contempla, as definições de poesia satírica, poesia burlesca, poesia erótica e cognatos, reunindo sob seu manto uma poesia com todas as qualidades técnicas intrínsecas, mas com um motivo patente, desmascarado, que não deixa margem a segunda leitura: escracho.

Uma redução do caráter múltiplo da poesia a uma condição linear, prosaica? Absolutamente. A permanência e a universalidade do poema-escracho residem exatamente na coragem do poeta de lançar mão, com arte superior, do momentâneo ou do ridículo para eternizar-se.


(Texto publicado em forma de plaqueta e lançado no Bar Ecológico, de Álvaro Bandeira e Ana Domingos, no início dos anos 90)

sábado, setembro 26, 2009

Uma experiência pra lá de radical


Agosto de 2001. Uma semana antes do foneticista Ricardo Molina provar que a fita contendo uma suposta conversa telefônica entre o deputado estadual Mário Frota e o empresário David Benayon, envolvendo o senador Jader Barbalho em um esquema de propinas na Sudam, havia sido montada, o deputado amazonense andava com os nervos à flor da pele.

Nos últimos quinze dias, seu calvário tinha sido perambular como um zumbi pelas redações de jornais, repartições públicas, ruas, avenidas, becos, praças, sindicatos, botecos e biroscas, munido de um mini CD Player portátil e, invariavelmente, pedir para o primeiro conhecido que desse bobeira que ouvisse com bastante atenção o CD, onde estava transcrita a fita forjada.

Após a audição, Mário Frota segurava o ouvinte desavisado pelos ombros e, olho nos olhos, suplicava:

– Fala, aí, meu irmão! Tu achas que essa voz é minha? Hein? Hein? Tu achas que essa voz é minha?

A maioria concordava que era uma imitação grosseira.

Alguns, porém, demonstravam uma certa dúvida, o que levava o parlamentar a reprisar determinados trechos da “conversa”, numa tarefa que, se ninguém interrompesse, poderia durar o resto da vida.

O resultado deste exaustivo exercício mental foi que, a cada 100 vezes que reprisava a fita, o deputado acabava encontrando uma coisa nova, que tanto podia ser uma mesóclise pessimamente estruturada como um pronome adverbial sendo usado como sujeito.

E a cada descoberta, mais o deputado ficava puto. Os sujeitos que urdiram a trama não só queriam que ele passasse por corrupto, mas – suprema heresia! –, principalmente, por um tremendo analfabeto.

Na sexta-feira, depois de identificar uma nova estultice na fita, Mário Frota foi mostrar a descoberta para o deputado federal Artur Neto, um dos poucos políticos que ficara ao seu lado desde o primeiro momento.


Artur Neto tinha outras preocupações. O líder tucano estava aguardando a visita de um amigo secreto e não queria que Mário Frota soubesse do encontro, muito menos do motivo da visita. Só que esta nova visita totalmente inesperada poderia colocar tudo a perder.

Normalmente expansivo, Artur Neto mostrou-se, nesta noite, extremamente sorumbático. A conversa entre os dois foi de parentes distantes numa ante-sala de velório, sem saber direito quem era o morto.

Impaciente, Artur Neto começou a consultar ostensivamente o relógio, mas Mário Frota não estava nem aí, cada vez mais empolgado com sua nova faceta de Philip Marlowe, o detetive de Chandler. Ele repetia o trecho da fita no aparelho de som indefinidamente e pedia a opinião de Artur.

Mais diplomata do que nunca, Artur desfazia-se em mesuras: “Claro que não é a tua voz, Mariozinho, claro que não é a tua voz. A tua voz tem um timbre todo especial. Ela é tão límpida nas oitavas, que, muitas vezes, me dá a impressão de estar ouvindo Cole Porter ou Chet Baker...”

Duas horas depois, e vendo que mesmo inflando o ego de Mário Frota o mesmo não ia embora, Artur Neto resolveu mudar de tática. Diminuiu a luz da sala, deixando-a quase penumbra, foi lá na cozinha, trouxe uma garrafa de vinho branco, colocou na mesinha de centro, apanhou um disco no porta CD, colocou para tocar e disse, quase numa confissão a meia voz: “Essa música tem tudo a ver com o que você está passando, meu estimado amigo!”

Mário Frota tomou um susto ao ouvir os primeiros acordes de “I Will Survive”, na voz inconfundível de Gloria Gaynor.

– Peraí, meu irmão, essa música tem uma temática gay... – reagiu, nervoso.

– Ah, deixa de bobagem, Mariozinho, e pega um copo de vinho. Agora, presta atenção e vê se esses versos não têm tudo a ver contigo – e Artur começou a cantar, acompanhando a cantora: “Did you think I'd lay down and die? / Oh no, not I / I will survive... / Oh as long as I know how to love / I know I'll stay alive / I've got all my life to live, / I've got all my love to give and / I will survive... / I will survive... (Você pensou que eu deitaria e morreria? / Oh não, eu não / Eu vou sobreviver... / Enquanto eu souber como amar / Eu sei que permanecerei viva / Eu tenho minha vida toda para viver, / Eu tenho meu amor todo para dar e / Eu vou sobreviver... / Eu vou sobreviver...)

– Quê que é isso, meu irmão, agora você pegou pesado! Pô, Artur, sem gozação, eu estou te estranhando...

Artur agora estava observando o céu estrelado de Adrianópolis.

– Oh, Mariozinho, você já viu como esta lua cheia está bonita? Este céu estrelado, essa música romântica, esse vinho branco, nós dois aqui sozinhos, tudo isso me faz lembrar que recentemente o Michael Stipe, do REM, saiu do armário. Ele deu uma entrevista para a revista Time dizendo que vive com um cara há mais de três anos. Eu acho legal essa coisa da pessoa descobrir novos horizontes depois que entra na meia idade, você não acha?...

Mário Frota estava tremendo como vara verde, mas atribuiu o fato ao ar condicionado.

– Ih, rapaz, mas esse teu papo tá muito esquisito – conseguiu balbuciar.

– Qualé, Mariozinho? Eu te conheço há trinta anos e agora você quer dar uma de preconceituoso? – continuou Artur, procurando um novo disco no porta CD. “Só estamos nós dois aqui. Somos amigos de velha data, adultos bem resolvidos, e a gente precisa de vez em quando de umas experiências mais radicais. Tu não achas, não?...”

– Porra, meu irmão, experiência mais radical do que essa que estou passando... – contemporizou Mário Frota. “Me sinto como um cristão enfrentando leões famintos no Coliseu com muita gente da platéia torcendo para eu ser logo morto...”

– Não, não é desse tipo de experiência que estou falando – atalhou Artur Neto. “Estou falando dessa coisa mais visceral, mais de pele, dessa coisa que vem de dentro, como uma força estranha. Tu não sentes isso, não?...”

Quando Donna Summer começou a cantar “Love To Love Baby”, Mário Frota percebeu que a situação havia atingido o imprevisível “break even point”, estando a um passo de se tornar insustentável. Visivelmente constrangido, ele apanhou o seu CD Player portátil, guardou o CD com a transcrição da fita na bolsa e isolou a bola na arquibancada:

– É, Artur, o papo está muito bom, muito interessante, muito filosófico, mas eu preciso resolver umas pendengas com meu advogado. Se tiver tempo, te ligo amanhã. Boa noite!

E antes que Artur se aproximasse para o tradicional abraço de despedida, Mário Frota já estava ligando o carro e fugindo em disparada, como se tivesse escapado por pouco de ser abduzido por um ET.

Susto maior teve o amigo secreto do parlamentar tucano quando entrou na sala meia hora depois e deparou-se com Artur Neto rolando pelo chão, babando de tanto rir, como se tivesse treinando para doublê da Linda Blair num futuro remake de "O Exorcista".

Futebol é esporte de macho, meu!


Primos e quase irmãos, Tagore e Romero, nossos homens em Goiânia, se tornam inimigos mortais quando o assunto é futebol

Torcedor do Goiás, o poeta persa nutre um legítimo desprezo pelo Vila Nova (“time de analfabetos e ignorantes arruaceiros”). Torcedor do Vila Nova, o bispo salvadorenho também nutre um legítimo desprezo pelo Goiás (“time de viadinhos metidos a intelectuais”).

Nessa briga particular, Vila Nova seria equivalente ao Flamengo e o Goiás, ao Fluminense (o Vascão talvez seja equivalente ao Atlético Goianense, sei lá!). Bom, mas o técnico do Goiás, Helio dos Anjos, resolveu embolar o jogo.

Após a classificação nos pênaltis para as oitavas de final da Copa Sul-Americana, ao bater o Atlético-MG após o 1 a 1 no tempo normal, o treinador se exaltou ao responder se a chegada de Fernandão teria prejudicado o time.

- Ficam pedindo um jogador expoente. Aí quando vem, começam a criticar. O Fernando sei lá o quê, que o grupo está com ciúme. Homem com ciúme é viado! Não trabalho com homossexual, trabalho com homem! – desabafou.

O desabafo do técnico pode ser assistido no vídeo abaixo. E a partir de hoje, sou torcedor do Goiás desde criancinha.

sexta-feira, setembro 25, 2009

Primeiro as coisas primeiras


No primeiro plano, Abílio Farias e Davi Almeida. Na geral, Miltinho, Chico Fera, eu, Dinari e Jô Almeida (meio coberta pelo Davi), em mais uma noitada no Bar do Armando.

Eu deveria estar relatando a canção de gesta que foi o amor indescritível entre Anibalão e Eugênia. Vou ficar devendo essa, por enquanto. O poeta e filósofo John Kramer dizia, estuporando o coração: "Primeiro as coisas primeiras". Anibal e Eugênia entenderiam (entenderão). Um diabinho, aqui ao meu lado, diz que não foi Kramer que disse isso. Talvez Henry David Thoreau ou W.H. Auden. Foda-se.

Não sei há quanto anos conheço o Abílio Farias. Só sei que ele é uma das melhores pessoas que conheço. Há uns três meses, ele enfartou durante uma viagem entre Natal e Fortaleza. Foi atendido em Petrolina (PE). Reembarcado pra Manaus, passou por aquelas merdas tradicionais: cateterismo, pontes de safena, angioplastia, etc. Sobreviveu.

Abílio está na pior fase da doença que consiste exatamente naquelas presepadas de parar de fumar, de beber, de trepar, de tocar punheta e andar dois quilômetros por dia feito uma barata tonta. Pra aliviar essa onda, ele vai fazer um puta show amanhã (sábado), no Fest Club (antigo Fast, antigo Clube Municipal, essas coisas).

O show, intitulado sabiamente “Ação entre Amigos do Coração”, vai servir para o Abílio levantar uma grana para custear seu pós-operatório. Os cantores Mustafa Said e Goreth Almeida, entre outros, vão dar uma palinha.

A grande putaria é que mandei essa informação para todos os jornais da cidade e nenhum se deu ao trabalho de divulgar. Fodam-se. O Abílio é maior do que todos eles juntos e, com certeza, sua festa vai bombar. Eu estarei lá e recomendo. Pra não frescar muito, transcrevo um texto meu, publicado no dia 19 de agosto de 1999, no jornal Amazonas em Tempo:

No mês passado, durante o lançamento do projeto “Universidade Livre do Armando”, o cantor Nunes Filho incendiou a platéia, fazendo jus ao título de Príncipe do Brega. Hoje, quem dá as cartas é o Rei do Brega, Abílio Farias, o Reginaldo Rossi do Amazonas. Ou será que o Reginaldo Rossi é que é o Abílio Farias de Pernambuco? Essas e outras questões transcendentais serão respondidas, a partir das 20 horas, no Bar do Armando, quando Abílio começar os primeiros acordes de “Coração Dividido”, aquele hino de qualquer espada-matador, composto pelo saudoso Domingos Lima.

As atrações não param por aí. A companhia Vitória Régia vai apresentar um trecho da peça “O Casamento da Filha do Mapinguari”. O bonequeiro Paulo Mamulengo, presidente da Associação Nacional dos Criadores de Mapinguari, vai falar a respeito desse pequeno animal, semelhante a um urso koala gigante e que se encontra perigosamente à beira da extinção. A dançarina Giselle Souza vai fazer uma exibição de Dança do Ventre, enquanto este vosso escriba autografa o verdadeiro "Manual do Espada". Após a apresentação de Abílio Farias, o grupo Panavoeiros da Mata Virgem sobe ao palco para mostrar as canções do famoso show “Tangurupará”.

O palco do show foi um dos motivos que levaram Manuelzinho Batera a ser deletado da Comissão de Licitação da BICA. Para um tablado de 2x2m, ele exigiu cinco quilos de pregos, três dúzias de tábuas corridas, 12 pernamancas, 20 folhas de compensado e 10 galões de tinta. Era material suficiente para construir um bangalô de dois quartos na Cidade de Deus. Aproveitando a moda, o ex-presidente da BICA, Deocleciano Souza, pediu a abertura de uma CPI sobre o escândalo. Manuelzinho também será indiciado por “tráfico de influência”. Ele tentou vender uma vaga de diretor da banda para um corretor de imóveis conhecido por Darlan.

O fim do mundo pode não ter acontecido, mas o da BICA está para começar. Ao saber que o tema da banda para próximo ano é a venda de alvarás para traficantes, o presidente eleito José de Anchieta, membro do poder Judiciário, pediu o boné e foi substituído, interinamente, pelo vice, Julinho da Receita. O problema é que Julinho tem menos de cinqüenta anos e já está aposentado, o que, no entender do presidente Fernando Henrique, é sinônimo de “vagabundagem”. Como, entre os diretores da banda, a palavra “vagabundo” é tabu, uma comissão de notáveis está estudando a delicada questão. Tudo indica que dona Lourdes, mulher do Armando, será a nova presidente da BICA, apesar do número de piadinhas de duplo sentido que o fato possa desencadear.

Mas, voltando à vaca fria. Assisti a um show do Abílio Farias, pela primeira vez, em 1978, no extinto lupanar “Saramandaia”. Fui na companhia do saudoso bicheiro Ivan Chibata, irmão do “capo” Beto Boca Rica. Até então, minhas incursões pelo circuito hardcore da cidade limitavam-se a uma ou duas visitas ao “Iracema” e ao “Piscina “. Vi, no palco, um Abílio que não ficava parado, sempre andando pra lá e pra cá, o tempo todo, como se estivesse em transe mediúnico.

Não bebia cerveja, entornava litros e litros de uísque vagabundo e tirava baforadas de um "joint", capaz de matar Bob Marley de inveja. Também não enxugava o suor o rosto, apenas passava uma flanela amarela na testa e depois a jogava para a platéia. Um saltimbanco de paquera, a coreografia do espada-matador. E, além de tudo, era um show interativo.

Abílio dividia a platéia em “gigolôs espertos com a carteira cheia de grana”, “coroas que não transam há mais de um ano”, “meninas do interior que perderam o botão de rosa com marinheiros”, “caras que estavam pulando a cerca pela primeira vez”, “marafonas em fim de linha”, “casais que vão dar uma depois do show” e então mandava uma música à altura de cada tribo. Era um delírio total.

Para mim, foi uma revelação, quase um alumbramento. Esse amazonense de Manaus é mais que a trilha sonora de uma mulher de shortinho molhado, passando o rodo na cozinha. Sua dengosa sem-vergonhice tem um público grande e plural. Seus boleros machistas, salsas desencanadas e sambinhas marotos seduzem os ouvidos femininos, levantam o moral de moças carentes e ensinam aos homens alguns truques para o “bom combate”. Ele é o que muitos machos gostariam de ser e muitas mulheres de ter. Assistir a seu show é como penetrar no laboratório onde o Manual do Espada foi concebido. Eu recomendo.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Morre Eugenia Turenko Beça


Viúva do poeta Anibal Beça, a psiquiatra Eugenia Turenko Beça faleceu na manhã desta quinta-feira, na Beneficente Portuguesa, onde estava internada desde segunda-feira. Deve estar sendo recebida com festa pelo Anibal e o resto da turma. Quando meu coração se acalmar, entro em detalhes sobre o assunto.

quarta-feira, setembro 23, 2009

Histórias do Clube da Madrugada (2)


Um dos mais conhecidos textos teatrais de Pedro Bloch, a peça “Dona Xepa” conta a história de uma feirante que, abandonada pelo marido, criou os dois filhos sozinha, dando-lhes tudo o que podia.

Ela abdica de sua própria vida e faz todos os sacrifícios para oferecer a Edson e Rosália uma realidade mais cor-de-rosa do que a sua.

O desejo das pessoas simples de ver seus filhos doutores e sentirem-se orgulhosas por isso é a chave de todo o conflito que rege a trama.

Enquanto Edson se empenha em tornar-se um escritor e esbarra na dificuldade de entrar no mercado editorial, a ambiciosa Rosália só pensa em fazer um casamento financeiramente rentável, que a faça ter uma vida de luxo e ostentação.

Em Manaus, a peça foi encenada pelo Teatro Escola do velho Braga – um conhecido chapeleiro que também consertava guarda-chuvas –, tendo no papel de “Dona Xepa” a estonteante Marisa Lobato, uma vênus calipígia da maior competência.

O poeta e futuro vereador Farias de Carvalho, que participou da peça num papel secundário, ficou mortalmente apaixonado pela, digamos assim, “padaria” da atriz.

Não era para menos. Perto do porta-malas da moça, os “derrières” de Viviane Araújo, Suzana Alves e Scheila Carvalho seriam confundidos com o da Olívia Palito.

Pra completar, a distinta era casada com um militar de alta patente e nunca deu a mínima para o olhar de cachorro pidão do renomado poeta.

Tempos depois, em meados dos anos 60, durante uma reunião informal de poetas e jornalistas no “Palácio da Moda” (na realidade, eles iam lá diariamente para matar o tempo e filar cafezinho do empresário Belmiro Vianez, dono da loja e amigo da turma), eis que Farias de Carvalho depara-se com uma epifania: a estonteante Marisa Lobato, em carne e osso (muito mais carne do que osso, claro), ostentando um coladíssimo vestido de lycra na cor “vermelho-hemorragia”.

Vinda da “Quatro e quatrocentos” (depois Lobrás), a vênus calipígia ia subindo a Eduardo Ribeiro em direção à Confeitaria Avenida e passou pela frente do “Palácio da Moda”. Farias de Carvalho entrou em transe místico.

Parado na calçada, ele ficou saboreando avidamente aquela aparição divina.

Ainda transfigurado, o poeta entrou no “Palácio da Moda”, descolou um lápis Johan Faber n.º 2 com Belmiro Vianez e, num papel de embrulho, rascunhou um soneto, que se tornou instantaneamente um dos grandes clássicos da nossa poesia porno-erótica:

“Este teu cu, ó minha doce amada,
Voltado, assim, pras bandas do nascente,
Pareceu aos meus olhos, de repente,
Um pedaço de lua ensangüentada!

E é por vê-lo, assim, indiferente,
Às preces desta pica apaixonada,
Que me ponho a adorá-lo diariamente
Nesta minha capela de calçada.

Porém, um dia, amor, se tu quiseres
E o teu róseo botão enfim me deres,
Cheia de amor e de paixão profunda,

O mundo inteiro iria ver, tremendo,
O quarto Sputinik arremetendo
Na abóbada do céu da tua bunda!”.

Reino Unido faz 1ª eliminatória de samba enredo


Nesta sexta-feira, dia 25, estará acontecendo a primeira eliminatória na escolha do samba de enredo da Escola de Samba Reino Unido da Liberdade, a partir das 21h30, em sua quadra de ensaio no Morro da Liberdade.

A abertura ficará por conta do Grupo Muleque Atrevido e logo depois a Bateria Show Nota 10 será a grande responsável em acompanhar os dez sambas que foram sorteados para esta sexta.

No domingo, dia 27, acontecerá a segunda eliminatória, com inicio às 18 horas com o Grupo Resistência do Samba e a partir das 20 horas, novamente a bateria show comandará a festa com os outros nove sambas, totalizando assim, 19 sambas inscritos e disputando a classificação.

Os três sambas da primeira eliminatória que ficarão para a final só serão conhecidos no termino da apresentação da segunda eliminatória, no domingo, quando os respectivos envelopes serão abertos e computados os pontos.

Do total, apenas seis sambas ficarão para a grande final que estará acontecendo no dia 27 de setembro, domingo, quando o grande publico conhecerá o samba vencedor e que será cantado pela família reinunidense no próximo carnaval.

Nesta sexta, na primeira eliminatória, apenas os homens colaborarão na bilheteria. Na segunda eliminatória, no domingo, a entrada será franqueada a todos os sambistas.


Contato: Ivan de Oliveira (Dir.Comunicação da Escola)
Tel. 9966.9758

segunda-feira, setembro 21, 2009

O descanso da guerreira


O deputado estadual Nelson Azedo, um dos implicados no caso Prodente, e os jornalistas Castelo Branco e Joaquina Marinho.

Fui companheiro de redação da Joaquina e do Castelo Branco no jornal Amazonas em Tempo, a partir de 1995, e dez anos depois voltamos a nos encontrar no jornal Correio Amazonense. Desde 2007, participo da luta dos dois no semanário Repórter, onde mantenho uma coluna fixa e faço algumas matérias especiais.

Mesmo lutando contra o câncer, Joaquina não perdia o bom humor. Nunca a vi se queixando de nada. Houve momentos em que pensei que ela seria capaz de vencer esse desafio, por conta de seu otimismo verdadeiramente contagiante. Não deu. Ela resolveu ir se encontrar com o resto da turma (Elaine Ramos, Chico Pacífico, Ernesto Coelho, Aguinelo Oliveira, etc) e nos deixou aqui, sem pai nem mãe.

Ao Castelo, Rayssa, Catarina e Castelinho, meus pêsames sinceros e a certeza de que, se existir mesmo o outro lado do espelho, a Joaquina vai zelar por vocês! Eu, infelizmente, estou ficando cada vez mais cético e desanimado. Deus é muito escroto!

Do Blog O Malfazejo, do meu brother Ismael Benigno Neto, publicado domingo:

Não deixa de ser reconfortante que, mesmo tendo perdido a lição de lealdade e carinho personificada em Joaquina Marinho, no mesmo dia Coari tenha se livrado, ainda que numa utopia democrática, da quadrilha liderada na cidade por Adail Pinheiro.

Penso na morte da Joaquina e não consigo afastar da mente o paralelo entre sua luta — e a luta do Castelo [José Maria Castelo Branco, seu companheiro] — e a derrota da mais notória e voraz matilha de ladrões que se viu, cristalinamente, no Amazonas nos últimos anos.

Quando a Polícia Federal deflagrou a operação Vorax, interrompendo a sangria que tornava uma das cidades mais ricas do Norte e do Nordeste uma vila mergulhada na falta de saneamento, educação e saúde, todos os veículos de imprensa alardearam o fato. Uns mais, outros menos, mas só se falava em Vorax.

O tempo passou, a quadrilha foi solta, Adail permanecia livre, e seu grupo, com a eleição de Rodrigo Alves, seguia sua marcha de desmonte do orçamento da cidade. Os jornais esfriaram a história, que foi caindo no esquecimento e só voltava à tona com novas prisões.

Apenas o REPÓRTER segurou a história, e por meses continuou contando e relembrando aos amazonenses os crimes de Adail. Acompanhei, durante alguns meses, estes dois, remando contra a maré, lutando contra a falta de dinheiro, escrevendo, diagramando, revisando, imprimindo e entregando, eles próprios, os cerca de dois mil exemplares semanais do jornal nas bancas da cidade, em plena madrugada.

Não havia romantismo, idealismo, só uma certeza reluzente, no rosto de Joaquina, de que aquela era a missão de seu jornal: não se entregar, porque tudo iria melhorar. Vi Joaquina e Castelo cheios de planos, esperanças, felizes pelas vendas do jornal. Os vi tristes, vendo financiadores os deixando, contando dívidas e escrevendo matérias, de chinelos, enquanto as crianças dormiam no sofá preto da redação, os esperando pra ir pra casa.

Era o lado desconcertante e ao mesmo tempo covarde de conviver com a Joaquina. Ela lutava contra um câncer agressivo, mas parecia dar de ombros para a doença. Desconcertante porque seu sorriso e seu carinho quebravam a ideia de que, doente daquela forma, ela deveria suspender tudo e esperar a cura ou a morte.

Joaquina, combalida pelo tratamento, ia para a rua buscar pautas para o jornal. Perguntei algumas vezes a você, Castelo, se não era melhor que ela descansasse em casa, e você me respondia com o olhar, como quem diz “E como eu vou forçar a Joca a isso?”. Covarde porque, de certa forma, vê-la esbanjando generosidade e garra me fazia sentir melhor, sem precisar sofrer junto.

Convivi durante alguns meses com estes dois, com seus filhos, vi de perto a dor e a alegria de se ser o que se é: eles eram obstinados. Nos desentendemos, eu me afastei, mas nunca deixei de pensar com carinho naquele convívio de poucos meses. Hoje, quando a doença a venceu, fiz silêncio. O silêncio de quem sofre o baque, de quem perde um amigo, mesmo um amigo distante.

Talvez nós dois, Castelo, tenhamos falhado em não explicar por que, em tão pouco tempo, nos demos tão bem. Não adiantou que convicções políticas, nunca ideológicas, tivessem tentado nos afastar. Convicções políticas não merecem essa vitória sobre o idealismo. De certo modo, somos todos idealistas, uns mais cansados, outros ainda imaturos. Durante aqueles meses unimos nosso idealismo, a simples vontade de escrever o que pensávamos, e contar o que sabíamos.

Foi com você que conversei mais, e foi por você que eu tinha a noção da realidade, a gravidade da doença, os problemas do jornal. Essa noção de realidade só era possível com você, dos planos, dos sonhos e do otimismo cuidava a Joca. E quem estava certo? Nós, com nosso ceticismo realista, ou ela, planando sobre a iminência da morte e sobre a pequenez dos problemas, como se se ocupasse de coisas mais importantes?

Como na luta da Joaquina contra uma doença tão covarde, é fácil, também nessa missão que vocês escolheram, o jornal, prever quem vai ganhar e quem vai perder no final. Se ela ainda estivesse aqui, provavelmente sorriria e perguntaria “E daí?”. Não se ganha todas as batalhas, mas pode-se lutar todas elas com paixão. É o que vou guardar da Joca comigo: Paixão.

Meu silêncio, além deste depoimento, é a forma mais honesta que tenho para lhe abraçar, Castelo. Dê um beijo nos meninos.


Do Blog da Floresta, no domingo:

O corpo da jornalista Joaquina Marinho foi sepultado à tarde hoje, após falecer durante a madrugada e ser velada durante o dia na funerária Almir Neves.

Formada em Jornalismo na Universidade Federal do Pará, Joaquina trabalhou com destaque na Rede Amazônia e nos jornais EM TEMPO, Diário do Amazonas e Correio Amazonense. Foi uma das fundadoras do semanário "Repórter".

Joaquina lutou intensamente contra um doença que a consomia nos últimos 12 anos, dando exemplo de muita bravura. Joaquina fez grandes reportagens em suas passagens pela TV Amazonas, uma delas sobre as antigas civilizações que habitaram a Amazônia. Foi ela que conseguiu gravar as imagens das inscrições rupestres nas pedras do rio Urucu que só ficam a mostra em secas muito fortes.

Foi Joaquina também que conseguiu as imagens do deputado Nelson Azedo e do ex-vereador Ari Moutinho na fundação Pró-Dente em ação de troca votos por tratamento dentário. O Amazonas, com certeza, perde uma grande jornalista.


Do Blog do Holanda, no domingo:

A jornalista Joaquina Marinho da Gama partiu hoje, depois de uma luta contra o câncer que durou exatos cinco anos. Era madrugada quando ela foi embora. Na Almir Neves, seus amigos preparam o último adeus. Joaquina era casada com o jornalista Castelo Branco, diretor de "O Repórter”.

Entre uma melhora e outra, Joaquina costumava dizer: “Escrevam, eu não vou morrer dessa doença”. Ela repetiu isso à última vez que a encontrei, saindo de uma igreja. Parece incrível como durou essa luta contra o câncer, uma doença cruel que lhe custou, há cinco anos, a extração do estômago e dos ovários.

Joaquina, mesmo doente, nunca deixou de trabalhar e de sonhar. Mais do que a crueldade do tratamento quimioterápico (com seus efeitos colaterais que faziam a vida ter gosto de fel), o que a fez cruzar quatro natais e mais da metade de 2009, foi o seu apego a essa mesma vida, que nunca deixou de ser bela e excitante para ela.

Ela deixa três filhos e um sonho: o jornal Repórter. São a herança do Castelo, o marido que foi o seu esteio nos últimos anos. Joaquina foi em paz. Ficaram os desafios...


Do Blog do Holanda, em 14/12/2007:

Um ano após a publicação da reportagem especial "Indústria de fazer voto", referente ao caso Prodente, de autoria dos jornalistas Castelo Branco e Joaquina Marinho, o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas realizou hoje a primeira oitiva com os dois profissionais de comunicação.

A audiência foi presidida pelo presidente do TRE, desembargador Jovaldo Aguiar, e acompanhada pelo procurador regional do MPF André Lopes Lasmar. Além dos jornalista, o TRE foi ouvida também a ondotóloga Gisele Makazami, ex-funcionária da Prodente, que procurou os jornalistas e que por via de conseqüência deu ensejo ao trabalho de investigação jornalística.

O caso Prodente, que no início foi investigado para apurar possíveis fragilidades (comprometimento) dos serviços prestados pela fundação, terminou como um dos mais vergonhosos escândalos de agiotagem (corrupção) política do Amazonas.

De acordo com as fitas gravadas pelos jornalistas e entregues ao MP, o título de eleitor era condição sine qua non para que o serviço fosse disponibilizado a centenas de pessoas que sentiam dor-de-dente.

sexta-feira, setembro 18, 2009

Amanhã tem Festival de Rock Gótico no Vitrola Music Bar

O festival Gothitc Celebration será um evento dedicado às bandas de estilo pós-punk. A minha banda favorita na modalidade - a fuderosa banda Joy - também vai estar presente, ao lado de Serpentine, Dark Sebenity e Ashes Gendres. Meu mano Marcos Tubarão também vai fazer uma apresentação especial nas carrapetas. Agende.

Local: VITROLA MUSIC BAR(antigo WAR ZONE) - Em frente a Rodoviária

Quando: 19 de setembro - A partir das 21h

Quanto: R$ 10, uma merreca pra se divertir tanto!




A saradíssima Nayara Meireles, vocalista da Joy


O absurdo guitarrista e vocalista Lucio Ruiz


O magistral contrabaixista Robert Pereira


O ultrasônico baterista Rodrigo Souza (no centro)

“Prazer na dor alheia”. Foi o que disseram quando se perguntou qual sentido do nome dessa banda, já que este nome foi extraído da histórica banda Joy Division. A Joy, banda iniciada em meados de 2000, teve como idealizador o artista plástico e poeta Jorge Bandeira que nos ensaios da sua Banda Alma Nômade, estava sempre com um material da Joy Division em mãos.

Isso contagiou a todos e, aos poucos, as músicas da banda inglesa começaram a ser sugeridas nos repertórios. Quando deram por si Lucio Ruiz (teclados/guitarra), Jamilson Vilela (Baixo), André Barbosa (Bateria) e Jorge Bandeira (Vocal) estavam pelos bares quentes de Manaus apresentando o Tributo ao Joy Division, diante dos olhares confusos e boquiaberto dos roqueiros da cidade onde comumente se cultuava principalmente o metal pesado.

O estilo, que insistem em chamar de “pós-tudo”, leva a Joy a fazer parte de uma ramificação do rock que aconteceu paralela à todas as outras, desde os primórdios (a exemplo da banda Glam Rock – de 1970), só que no subterrâneo da “crosta musical”, onde mídia e mercado não alcançavam e, se alcançavam, não conseguiam fazer essas bandas deixarem seus ideais para ser tornar mais um “produto” pasteurizado.

Daí dentro da cena do rock tradicional veio tratando-se com incompreensão e/ou injustiça a importância desses estilos, apesa de ele ser um dos mais criativos. O fato é que bandas originais como Arte no Escuro, Etiópia, Violeta de Outono, Vzyadq moe e tantas outras começaram a perder espaços como se o estilo pertencesse à uma época datada.

A Joy percebeu que isso não era verdade, pois em seus shows ouvia-se exclamações do tipo: “que porra de som bom é esse???? Quem são esses caras??!!” e, passando batido, o som era tratado como novo. Confirmou-se então que é possível desenvolver um som atemporal, que não agredisse os diversos estilos de rock.

Mesmo com pouca aceitação pela falta de informação e formação musical de muitos ouvintes, a Joy chegou a confessar que se divertia ao entrar em festivais com um som “diferente” rompendo com o comum, quebrando o paradigma entre bandas de sons mais convencionais.

Por um tempo a “banda diferente” se congelou em uma fotografia até novembro de 2008, quando Jorge Bandeira e Lucio Ruiz resolvem devolver a banda à cidade. Com perda de 50% dos integrantes e 80% do nome (se chamaria simplesmente Joy), o desafio agora era buscar outros integrantes e tentar fazer com que aquela nostalgia dos anos 80 estivesse na ordem do dia.

Muitos se candidatavam, mas o som, agora com músicas próprias, não era pra qualquer um. O estilo que traz linguagens poéticas fortes e riffs fantasmagóricos tem características miscigenadas do dark rock, indie, pós-punk, art rock e, principalmente, de gothic rock, “resultando no pós-tudo”, como sugere Lucio Ruiz.

Depois da passagem de vários instrumentistas mal resolvidos pela banda, quem se fixou na Joy foram Rodrigo Souza (Bateria) e Roberth Pereira (Baixo). “Esta maldição não está somente no sangue e nos sonhos de seleto músicos”, dizem os críticos, quando se referem ao fato de que todos os integrantes, inclusive quem já saiu da banda, estarem coincidentemente em processo de divórcio.

Depois de todos esses processos a Joy resistiu a substuição de Jorge Bandeira por Nayara Meireles. A nova formação e mudanças resultaram em uma sintonia que a Joy queria sem saber. São músicos dispostos a enriquecer a cena rock com um estilo próprio (apesar de serem bem influenciados por Siouxise, The Cure, Bauhaus, The Sisters of Mercy e afins ), mantendo a emoção e a pegada forte do rock em seus primórdios. Para conferir, dê uma chegada no Vitrola Musical. Eu recomendo.

quinta-feira, setembro 17, 2009

Sete fenômenos poucos conhecidos

Meu estimado amigo Miguel Cruz, do antenado blog Oikos, me enviou esses espetáculos da Natureza, que compartilho com vocês:


As pedras que se movem – Até hoje ninguém conseguiu explicar por que, misteriosamente, pedras de centenas de quilos deslocam-se do seu ponto de origem pelo deserto de Death Valley. Alguns pesquisadores atribuem tal fenômeno aos fortes ventos e superfície gelada, mas esta teoria não explica, no entanto, por que as pedras se movem lado a lado, em ritmo e direções diferentes. Além disso, cálculos físicos não apóiam plenamente esta teoria.


Colunas de Basalto – Este fenômeno ocorre com o esfriamento de um fluxo de lava espessa, formando uma malha geométrica com notável regularidade. Um dos famosos exemplos é o Giant´s Causeway, na costa da Irlanda (fotos), embora a maior e mais conhecida seja Devil´s Tower em Wyoming.


Buracos azuis – Os buracos azuis são gigantes elevações subaquáticas, que levam este nome pela tonalidade de azul que apresentam quando vistos do alto. Normalmente possuem centenas de metros de profundidade e tem ambiente desfavorável para a vida marinha, já que a circulação de água é ruim. Curiosamente, em alguns buracos foram encontrados restos fósseis preservados em suas profundezas.


Maré vermelha – As Marés Vermelhas são formadas pelo súbito aumento do fluxo de algas de cor única, que podem converter uma parte da água em uma cor vermelha sangue. Embora fenômenos desta natureza sejam relativamente inofensivos, alguns podem ser mortais, causando a morte de peixes, aves e mamíferos marinhos. Em alguns casos, até mesmo os seres humanos podem ser afetados, embora a exposição humana não seja conhecida por ser fatal.


Círculos de gelo – Enquanto muitos acreditem que estes círculos perfeitos sejam obra de alguma teoria da conspiração, os cientistas geralmente aceitam que eles são formados por turbilhões d´água que giram em um considerável pedaço de gelo, em um movimento circular. Como resultado desta rotação, outros pedaços de gelo e objetos gerados pelo desgaste uniforme nas bordas do gelo vão lentamente formando um círculo.


Nuvens Mammatus – Aparentemente assustadoras, as nuvens Mammatus também são mensageiras de tempestades e outros eventos meteorológicos extremos. Normalmente compostas de gelo, elas podem se estender por centenas de quilômetros em vários sentidos e formações, permanecendo visíveis e estáticas entre 10 minutos e 1 hora. Embora pareçam portadoras de más notícias, elas são apenas mensageiras, aparecendo antes e/ou depois de uma grande mudança meteorológica..


Arco-Íris de fogo – Este raro fenômeno só ocorre quando há a participação do sol e das nuvens. Cristais dentro das nuvens refratam a luz em várias ondas do espectro, fazendo surgir cores entre as nuvens. Devido a raridade com que este evento acontece, existem poucas fotos.

Futebol de Tucumã: Teoria e Prática


Esse texto foi escrito pelo querido poeta Anibal Beça com exclusividade para a revista Amazônia 21, que eu editei no final dos anos 90. Coube ao Fernando Brum, atual diretor de Arte da revista Amazônia Viva, ilustrar a matéria, que foi publicada no nº 3 da revista, em dezembro de 1999. Estou transcrevendo na íntegra para diminuirmos um pouco essa intensa saudade do inesquecível brujo. Curtam.

Futebol de Tucumã: Teoria e Prática

Anibal Beça

O sonho da maioria das crianças brasileiras é se tornar um craque de futebol. Ou pelo menos um bambambã das peladas de rua. Não cheguei a ser nenhuma coisa nem outra. Sempre fui desprovido de habilidade com a bola. Não todas as bolas. No basquete e no tênis andei dando as minhas caçapadas e raquetadas. O Pavão (irmão do Mark Clark), e o Fubica (pai do iluminador Batata), estão aí e podem confirmar que não estou mentindo. Mas havia uma possibilidade, para aqueles que não mantinham intimidade com a popular redonda, de se sobressair e se impor. A salvação dos pernas-de-pau: o futebol de botão.

Vejo, com certa melancolia, que o jogo não é mais praticado da maneira que praticávamos. (Décadas de 50 e 60). As facilidades eletrônicas, ao que parece, exercem mais fascínio às crianças de hoje. É natural, são da geração hi tech, do computador globalizado. Hoje, o futebol de botão ou de totó, é praticado frente ao monitor de vídeo. Tudo muito asséptico e sem exigir muito esforço. Não sei se isso é bom ou ruim. Deixo o julgamento para os pedagogos e os psicólogos.

O que sei mesmo, com certeza, é que o nosso jogo de botão era acessível a todos, aos do centro e aos dos bairros, a ricos e pobres. Portanto, mais abrangente, bem mais barato e também mais criativo. Exigindo outras habilidades e informações que nos acompanham até hoje. Verdadeira lição ao ar livre. Discípulos socráticos sem sabermos, aprendíamos de tudo para confeccionar nossos times. Acredito até, que muitas recomendações atuais sobre o meio ambiente e ecologia (palavras que não se ouviam) já a praticávamos intuitivamente.

Tudo era feito por temporada. Obedecíamos um calendário que se regia naturalmente, mas sempre coincidindo com as férias escolares: do meio de ano e de final de ano. Havia o tempo dos papagaios, dos canga-pés, dos piões e, principalmente, dos botões de tucumã. O nosso futebol de botão se diferenciava exatamente aí. No restante do país se jogava com botões de baquelite (assim chamávamos a liga de plástico). Comprados, geralmente, na 4 e 400, a loja de varejo que veio a ser depois a Lobrás. Os nossos, não. Todos os jogadores, com exceção do goleiro, eram feitos de caroço de tucumã.

Para quem não sabe, tucumã é um coquinho, fruto da palmeira do mesmo nome, muito comum em toda a Amazônia. Das palmas, os índios extraem a fibra de tucum, usada na confecção de redes de pescar e de dormir, e outros utensílios. Havia duas maneiras de se conseguir a matéria prima para fazer os nossos times: comprados no Mercadão, nas feiras, ou indo diretamente colher na selva. Preferíamos, a maioria, a segunda opção. Por vários motivos.

Primeiro: a farra que fazíamos na excursão, geralmente de bonde, em direção aos bairro de Flores, Campos Salles e, bem mais longe, o Tarumã. Pegávamos o bonde Alto de Nazaré que ia pela rua Joaquim Nabuco até a Estação Primeira do Boulevard; de lá, seguíamos no de Flores, até a última parada no bar Bom Futuro, onde hoje tem um posto de gasolina, em frente ao Clube Municipal. Depois seguíamos a pé. Dependendo da disposição e do horário, a excursão poderia ir até o Banho dos Sabbá (em frente onde hoje é a fábrica da Phillips na Zona Franca de Manaus) ou continuar até a Fazenda Brasil (Rodovia AM-10 no quilômetro 11), fazenda comprada por meu avô Maximino Corrêa, para abastecer a fábrica de cerveja da família de lenha e para plantar amoreira. O velho queria desenvolver um polo têxtil de seda.

Segundo: aproveitávamos não só para colher e escolher os melhores caroços - que se tornariam em nossos craques - mas também para passarinhar. Muitos levavam gaiolas com alçapões para pegar curiós. Outros, com seus rapichés de filó, se dirigiam para os igarapés para pescar peixinhos ornamentais. Ainda havia outra turma, que preferia o politicamente incorreto: caçar. Com suas espingardas, geralmente calibre 36, iam à procura de cotias, pacas, tatus, inambus, saracuras e pombas galegas.

De volta, com muita pavulagem pra contar, é que se dava início a confecção dos botões. As calçadas se transformavam em linhas de produção. Haja moleque para descascar e comer os tucumãs. Era farra misturada à algazarra. Barulheira igual, só no tempo das mangas, com a festa dos periquitos. Escolhíamos os maiores para as posições de beque. Geralmente de tucumã arara. Alguns preferiam o tucumã babão para seus atacantes. A escolha recaía em face da coloração branca do coquinho. Depois seguíamos para alguma oficina que tivesse torno e serra de ferro.

No corte é que estava o segredo. Para os jogadores da defesa, cortávamos um pouco acima da metade do caroço; para os atacantes, o corte era bem baixinho, e para os beques serrávamos só um pouco. O bastante para uma base firme. Feito isso, voltávamos às calçadas para a fase da ralação. Em que se tirava o excesso das fibras; depois era a vez da lixa grossa e da fina, preparação final para o acabamento: com cera de carnaúba ou com graxa de sapatos. O importante é que ficasse impecavelmente brilhando. Tanto o time principal quanto os jogadores reservas.

Só aí é que íamos confeccionar os goleiros e as bolas. Uma etapa que também aproveitávamos para matar dois coelhos de uma cajadada: o chumbo e as rodas de madeira para os carrinhos de rolemã, encontráveis só nas oficinas do O Jornal e do Jornal do Comércio, ambas na Eduardo Ribeiro. Comprávamos ou trocávamos, muitas vezes por gibis, as sobras de chumbo das linotipos e os calços de madeira dos rolos de papel, usadas depois como rodas dos carrinhos que desceriam as ladeiras mais íngremes em disputadas corridas.

Com o chumbo em cima, faltava agora derretê-lo e encher uma caixa de fósforos e, pronto. Lá estava o Castilho ou o Gilmar, prontos para adentrar o estádio (variava entre pátios com cimento liso ou nos porões, ou ainda em cima de mesas de ping-pong).As bolas eram feitas de rolhas de cortiça, cortadas e lixadas. O apronto final, dependia da escolha do pente. A marca Flamengo era imbatível. Em virtude de sua maleabilidade.

Organizavam-se torneios inter-ruas, inter-bairros ou inter-turmas. As meninas cuidavam das torcidas organizadas, os mais velhos ficavam com a tarefa de arranjar os troféus, organizar o calendário. E os campeonatos, às vezes, se estendiam por toda as férias. Ao escrever essas linhas me chegam todos os sons. Os sons que faziam a nossa alegria, os sons das comemorações de verdadeiros gols de placa: “É canja, é canja de galinha, não há nenhuma equipe, que aguente a nossa linha”.

quarta-feira, setembro 16, 2009

Coisas que ainda lembro desse chamado rude esporte bretão


Cazuza, eu e meu eterno parceiro, o diretor de arte e designer Sergio Bastos, durante um fuzuê no Dulcila’s

Quando era criança, por volta dos oito anos de idade, meu grande ídolo no futebol era meu primo Carlos Alberto, o Cazuza, sete anos mais velho do que eu, com quem dividia um quarto na casa da tia Maria, ali na Rua Parintins, entre a Waupés e a General Glicério, na divisa com a Praça 14.

No campinho de várzea ao lado de casa (onde hoje está a quadra de futebol do Edson da Rivera), cujas partidas eu acompanhava da janela, o Cazuza costumava infernizar as zagas adversárias com dribles desconcertantes, cabeçadas fulminantes e chutes indefensáveis. Quando eu crescesse, queria ser como ele.

Aos 17 anos, Cazuza começou a jogar no juvenil do Olímpico Clube. Foi tricampeão invicto e três vezes artilheiro do campeonato amazonense, jogando ao lado de outros moleques que depois ficaram meus amigos como Wandi, Bioca, Augusto, Calderaro, Mario Buriti, Pompéia, etc.

Tenho absoluta convicção de que ele seria um dos melhores jogadores profissionais do Amazonas se não tivesse tido sua brilhante carreira interrompida abruptamente aos 21 anos, quando um estúpido zagueiro de seu ex-clube, após um drible desconcertante, arrebentou maldosamente sua perna direita.

A história se passou mais ou menos assim.

Em 1971, Cazuza e Mario Buriti aceitaram um convite do time profissional do São Raimundo para fazerem dois amistosos contra times de Santarém (PA). Como eram apenas aspirantes do Olímpico Clube, não viram qualquer inconveniente no convite e se mandaram. Nas duas partidas, Cazuza fez seis gols – três deles verdadeiros “gols de placa”. Como ele havia nascido em Santarém, saiu de lá consagrado pela nossa parentada.

Na volta, os dois aspirantes foram cortados do time juvenil do Olímpico e vetados de participar de qualquer competição, profissional ou amadora. Os dirigentes do São Raimundo compraram a briga, apelaram pra Justiça Desportiva, fizeram o escambal. Mário Buriti e Cazuza foram contratados. Como o titular da camisa 9 do “Tufão da Colina” era o famoso artilheiro Santarém, Cazuza aceitou jogar na ponta direita.

Sua estréia profissional, por coincidência, ocorreu contra o Olímpico Clube. O zagueiro Dirley ficou encarregado de marcá-lo. Lá pelas tantas, Mario Buriti lançou uma bola pro Cazuza, meio na dividida. O zagueirão correu pra disputa. Cazuza chegou primeiro e deu um leve “tapa” na bola, para aplicar o conhecido drible “rabo de vaca”, uma de suas especialidades. Quando girou o corpo pra pegar a bola do outro lado, sentiu uma dor lancinante no joelho.

O zagueiro Dirley havia prendido seu pé na grama e, ao efetuar o giro, com a perna imobilizada, todos os ligamentos (internos e externos) se romperam. Seu pé ficou vergado para trás, como o de um curupira. Cazuza saiu de campo direto para o hospital. Como estávamos na pré-história do futebol amazonense e não havia nenhum cirurgião especializado disponível, sua perna foi apenas imobilizada e tratada a banhos de luz. Nunca mais ficou boa.

Diferente do meu primo, que era ambidestro, bom cabeceador e dotado de uma explosão de velocista jamaicano, eu era canhoto, cabeceava de olhos fechados e tinha a velocidade de uma preguiça baiana. Futebol, ora, ora, jamais iria ser a minha praia. Mas me esforcei, juro que me esforcei.

Nesse campo, tenho pouquíssimas boas lembranças a recordar. Uma delas: aos 13 anos, num campeonato de times mistos, no Ida Nelson, eu fui artilheiro, jogando ao lado de Waldemir (da 4ª série ginasial, técnico do time), Jalves (da 2ª série ginasial, um autêntico Rivelino), Grimberg (da 3ª série ginasial, minha classe) e Corujinha (da 1ª série ginasial, nosso Lev Yashin). Não fomos campeões porque a diretora, dona Yvone, encerrou o campeonato depois de uma porradaria infernal ocorrida entre duas equipes.

Aos 17 anos, já terminando a Escola Técnica, joguei meia-dúzia de partidas pelo juvenil do São Raimundo, enfrentando o Nacional, no antigo Parque Amazonense, e o Rio Negro, no estádio da Colina, entre outros. Perdemos do Naça de um a zero, gol do Dentinho, e ganhamos do Rio Negro de dois a um, sendo um dos nosso gols fruto de um lançamento que fiz. Eu era medíocre, mas, repito, muito esforçado.

Nesse mesmo ano, fui campeão e artilheiro do disputado campeonato de futebol realizado no Oratório, ali na Praça 14, pelo time do Holanda, que tinha como técnico João Bosco, atual dono do Bar Três Porquinhos e meu colega de classe na ETFA. O time vice-campeão tinha como grande estrela o Lauro Goiaba, que depois se tornou um excelente jogador profissional.

Em 1977, disputando o terceiro lugar do campeonato industriário pela Sharp no estádio Vivaldo Lima, eu, que até então vinha jogando de quarto-zagueiro, resolvi me prevalecer do fato de ser capitão de equipe para jogar de centroavante e mostrar pros patifes da nossa linha que futebol era bola na rede.

Dei sorte. Fiz três gols (um deles de calcanhar), dei passe para outros dois (Zezé e Luiz Lobão), e massacramos o time da Reman por seis a zero. Desconfio até hoje que se tivesse jogado de centroavante desde o início a gente teria sido campeão. Mas isso não passa de especulação tipo saber o que o Jimi Hendrix faria hoje se ainda estivesse vivo.

Também disputei algumas edições do “Peladão”, seja jogando pelo inesquecível “Murrinhas do Egito” e pelo abusado “Setembro Negro”, seja torcendo pelo “Inútil”, campeão do torneio início em 1975, e pelo “Olímpia”, o único vice-campeão invicto na história do famoso campeonato de peladas. Mas falo disso outro dia.

O certo é que como nunca me dei bem entre as quatro linhas, comecei a praticar futebol fora de campo. Das brincadeiras que ainda me lembro, essas eram as mais concorridas:


Futebol de Preguinhos – Em uma madeira retangular com 50 x 30 cm, forrada com feltro verde e cercada por ripas de madeira, os dois times, formados por pregos de cabeça redonda, eram distribuídos no campo. As cabeças dos pregos, evidentemente, eram pintadas de cores diferentes para identificar as equipes. Com o auxílio de uma palheta de sorvete, você tentava fazer gols no time adversário arremessando uma bolinha em direção ao campo contrário. Cada jogador tinha direito a um lance. As partidas eram de cinco. Carlos Sabóia, um colega de classe do quarto ano primário, era o rei desse esporte. Em apenas uma tarde, ele me derrotou mais de 70 vezes.


Pebolim, totó ou pacau – É um jogo que simula uma partida de futebol, porém é jogado em uma mesa especial, nas medidas de 106 x 90 x 78 cm, que comporta pequenas peças (mais comumente de madeira, mas também podem ser de metal ou plástico) em formato de jogadores que são enfileiradas e atravessadas por uma barra de ferro. Dessa forma, quando um jogador rotaciona uma das barras de ferro, os “jogadores” do seu time (as pequenas peças de madeira) chutam a bola. Nas duas extremidades da mesa há um goleiro e um gol. Nunca joguei essa merda, portanto não dá pra saber se eu seria bom ou não no esporte.


Eletrobol – Sim, o filho da puta do jogo era gostoso e viciante como um bicho desses. Do tamanho de uma mesa oficial de pebolim, o eletrobol consistia de um jogo eletrônico que tinha a duração de três minutos corridos e funcionava a base de fichas. Os jogadores eram distribuídos em trilhos verticais, alternadamente, sendo um de cada equipe. Uma das pernas do jogador ficava no trilho e a outra (a de chute) semi-aberta, voltada pra lateral. Nas extremidades de cada máquina havia 10 alavancas correspondentes a cada jogador. Os cinco jogadores da direita chutavam com a perna direita. Os cinco da esquerda, com a perna esquerda. Empurrando a alavanca pra frente, o jogador corria na sua linha em direção ao gol adversário. Acionando a alavanca pra baixo, o jogador chutava. Puxando a alavanca para trás, o jogador voltava em direção ao seu campo. Pressionando a alavanca pra baixo e empurrando pra frente ou pra trás, o jogador corria pra frente ou pra trás, com as duas pernas sobre o trilho, como se estivesse de perfil. O goleiro era movimentado para os dois lados, debaixo da trave, por meio de giros em uma alavanca circular na lateral inferior direita das máquinas. Quando acontecia um gol, a bola saía automaticamente por uma abertura lateral no meio do campo. Eu era viciado nesse jogo, mas um jogador medíocre. Nei Parada Dura, Frank Cavalcante e Jones Cunha eram, indiscutivelmente, os reis da cocada preta. Virou febre em Manaus nos anos 70, depois sumiu. Um dia desses, vi uma máquina dessas funcionando em um boteco ali pras bandas da Compensa e quase desci do carro pra jogar...


Botão Celotex – É um clássico incontestável. Comecei a jogar por influência de outro primo, Gigio Bandeira, na regra leva-leva (toques infinitos na bola). Foi ele quem me ensinou a dar “paradinha”, “trivela”, “meia lua”, “crucifixo”, “martelo”, a chutar de voleio e de forquilha, entre outras presepadas. Depois, virou meu freguês de caderno. Os jogadores eram do tipo “canoinha”, parecidos com fichas plásticas de pôquer, com a foto de jogadores em um círculo rebaixado no centro deles. Lembro de alguns jogadores do Flamengo (Ditão, Murilo, Paulo Henrique), do Fluminense (Samarone, Flávio, Lula), do Vasco (Fidélis, Renê, Gilson Nunes) e do Botafogo (Gerson, Rogério, Jair). Depois surgiram uns botões mais altos, ainda de plástico, trazendo os escudos dos times. A bola era um pequeno disco plástico. Os goleiros eram pequenos quadrados plásticos encimados por um semicírculo, com um ferrinho atrás, para serem posicionados nos arremates. Viciado, cheguei a possuir mais de 30 times e patrocinar diversos campeonatos no bairro. Nesse esporte, fui um dos melhores jogadores da Cachoeirinha em todos os tempos, tendo ficado invicto cerca de seis anos e derrotado 743 jogadores diferentes. Não é pouca porcaria.


Botão Gulliver – Era um jogo de botões muito mais dinâmico. Os jogadores em miniatura possuíam pernas articuladas e pés com diferentes formatos para chutes com efeitos variados. Havia pés para chutes de longa, média e curta distância, a possibilidade de bater por cobertura ou rasteiro, além de uma bolinha muito legal. O goleiro podia defender a bola depois que o adversário chutasse, porque também era móvel. Como eu só conhecia umas cinco pessoas que praticavam o esporte e ganhava de todas elas, não dá pra saber se eu seria ou não um grande campeão.


Botão Galalite – É bastante parecido com o Celotex, a diferença é que os jogadores são artefatos de acrílico maciço – bem mais alto e maiores que os botões de Celotex. Os jogadores podem ter o formato tradicional em forma de argola (mais utilizado nos torneios oficiais) ou em formato fechado. O goleiro é uma peça de acrílico maciço, um paralelepípedo homogêneo, do tamanho de uma caixa de fósforos. As bolas são esferas de feltro ou de lã, com peso e medidas pré-estabelecidos. São jogados pela regra baiana (um toque), carioca (três toques) ou paulista (doze toques). Nunca joguei, apesar de, ultimamente, andar me interessando muito pelo assunto.

Lembro que em 1970, no Colégio Batista Ida Nelson, o Jorge Daou (sua irmã, Dulce, estudava na minha classe) ficou sabendo que eu era o rei do futebol de mesa na Cachoeirinha e me fez um desafio: enfrentar o Braga Neto, colega de classe dele, e reputado como o rei do futebol de mesa de Adrianópolis. Topei.

No dia combinado, levei o meu melhor time (o Vasco, claro!) pro colégio e de lá, eu, Jorge Daou e Braga Neto nos dirigimos à casa do Jorge, ali na São Luis. O jogo seria disputado num magnífico “Estrelão”, onde eu jamais havia jogado. Passei a mão no compensado, pra sentir o grau de aspereza da madeira, e comecei a distribuir meu time em campo (“canoinhas”, do Celotex).

Quando olhei para o outro lado da mesa, o Braga Neto estava distribuindo seu time em campo. Tomei um susto. O time dele (Nacional? Rio Negro? Flamengo?) era formado exclusivamente pelos galalaus de botão Galalite. Cada jogador dele era três vezes mais alto do que os meus e, em termos de circunferência, tinham quase o dobro dos meus. Pra completar, o goleiro era do tamanho de uma caixa de fósforos – só faltava encostar nas traves (de Celotex, que ele não era besta) – e a bola, redonda. Eu nunca havia jogado antes com uma bola redonda.


Depois de alguns minutos de discussão, acordamos que no primeiro tempo usaríamos a bola do jogo de Galalite (de feltro, redonda) e no segundo tempo, a do jogo de Celotex (plástica, em forma de pastilha). Também combinamos jogar na regra carioca (três toques), em dois tempos de dez minutos.

No primeiro tempo, foi um massacre. Com dez minutos de jogo, já estava 12 a 2 pra ele, porque cada vez que uma “canoinha” meu esbarrava nos “galalaus” dele, meu jogador saía de campo. Achei que no segundo tempo a coisa fosse mudar. Ledo engano.

Nos primeiros minutos, o meu melhor jogador, Valfrido, fez dois gols chutando colocado (a pastilha tinha que passar milimetricamente entre o goleiro-paralelepípedo e a trave). A reação dele: colava a pastilha em um dos “galalaus” e largava a porrada em direção do goleiro. Na maioria das vezes, meu goleiro entrava com bola e tudo. Resultado: 9 a 4 pra ele. No placar final, 21 a 6.

Propus uma revanche: eu lhe enfrentaria no botão Galalite, usando um dos times de galalite do Jorge Daou. Depois, ele me enfrentaria no Celotex, escolhendo um dos trintas times que eu possuía. A gente somaria os dois placares e conheceria o grande campeão. Braga Neto não topou. Preferiu passar o resto do ano me avacalhando na cantina do colégio, na frente da mulherada.

Não sei se o Braga Neto ainda joga futebol de botão, mas gostaria muito de enfrentá-lo no próximo ano, quando serão completados 40 anos daquela grande infâmia. O New York Times informará.

terça-feira, setembro 15, 2009

O jogo das contas de vidro


Comecei a me interessar pelo jogo de bolinhas no final dos anos 60, quando ainda estudava no curso ginasial. No início da Rua Parintins, quase no canto com a Carvalho Leal, havia uma oficina de estofamento de carros, pertencente à família do Baiano, cujo imenso quintal espetacularmente plano, de barro batido coberto por uma fina camada de areia e arborizado por dezenas de árvores frutíferas (mangueiras, jaqueiras, jambeiros, abacateiros, pitombeiras), era um convite irrecusável para a prática da brincadeira.

Todo santo dia, das 8 da manhã às 6h da tarde, pelo menos uns trinta moleques se reuniam no local para “apostar” suas petecas, o que transformava o aprazível quintal da pacata oficina em um ruidoso cassino de Las Vegas, com dezenas de partidas transcorrendo simultaneamente e os palavrões mais cabeludos acompanhando as jogadas mal sucedidas.

Havia cinco tipos de bolinhas, por ordem crescente de importância e valor de troca:

1) As comuns, de vidro fosco, nas cores branca, azul, vermelha, preta, amarela e verde, em diferentes matizes e recombinações. As estilhaçadas pelo uso se chamavam “caraquentas”.

2) Os “ovinhos”, minúsculas bolinhas de um vidro transparente, semelhante às usadas no dosador das garrafas de Johnnie Walker.

3) As “carambolas”, que como o próprio nome diz traziam em seu interior uma autêntica carambola.

4) Os “petecões”, de tamanhos duas ou três vezes maiores que as bolinhas comuns.

5) E as indescritíveis “colombianas”, petecas coloridas artesanalmente à mão, em cores quentes, que lembravam muito um cubo mágico. Raras e belas.


Se fosse redondo, seria uma autêntica bolinha colombiana

As modalidades de jogo eram apenas três e, provavelmente, foram introduzidas na cidade por crianças inglesas no início do século 20, quando Manaus estava em pleno “boom” das folias do látex.

O jogo mais praticado era o “turite” (corruptela do termo “two hits”, “duas batidas”), seguido pelo ronda mate (corruptela do termo “round match”, “partida redonda”) e pelo ronda dedo, desenvolvido pelos próprios manauaras, já que não há notícia de que esse tipo específico de jogo seja praticado em outro lugar do país.

No turite, riscavam-se duas linhas paralelas distantes dois metros entre si. Na primeira linha, casavam-se as bolinhas que seriam apostadas (no mínimo uma por jogador) e tirava-se o ponto a partir da segunda linha. Não havia limites de jogadores. Cada um jogava uma vez, movimentando sua ponteira com o dedo (normalmente o indicador vergado sob o polegar funcionava como a alavanca de impulso da peteca), com a mão obrigatoriamente encostada no chão.

A ponteira do jogador que mais se aproximasse da linha de bolinhas casadas começava o jogo do local onde havia parado. As demais ponteiras eram jogadas na seqüência, de acordo com o grau de aproximação de cada uma delas à linha de “casadas”. Ganhava o jogo quem conseguisse acertar a ponteira em duas bolinhas simultaneamente com uma única jogada. Valia, inclusive, tentar o turite na hora de tirar o ponto.

Durante o desenrolar do jogo, havia ainda o expediente da “lavoura”: se com a sua ponteira você conseguisse jogar a ponteira de um adversário para depois da linha de ponto, ele lhe pagava uma bolinha. Se “estrelasse”, isto é, sua ponteira acertasse a ponteira do adversário, mas fosse a sua (e não a dele) a ultrapassar a linha de ponto, você pagava uma bolinha.

Para aplicar a lavoura, você podia tanto limpar o local onde estava a ponteira adversária, como colocá-la num “castelo” (montinho de areia, mais tarde substituído pela tampa plástica de pasta de dentes). Se a lavoura fosse bem sucedida, você teria direito a uma nova jogada. Se errasse ou estrelasse, não.

No ronda dedo, era feito um círculo de um palmo de diâmetro e riscado um “T” no seu interior. Nas pontas opostas da linha menor do “T” ficavam as ponteiras dos jogadores, nas pontas opostas da linha maior, as bolinhas casadas, de forma que a primeira bolinha ficasse entre as duas ponteiras. Eram apenas dois jogadores. Cada um jogava uma vez, também movimentando sua ponteira com o dedo e a mão sobre o chão.


O ronda dedo deve ter se originado do triângulo, muito praticado no resto do país

O jogo consistia em tirar as duas bolinhas de dentro do círculo, mas como havia alternância de jogadas, ganhava quem tirasse a última bolinha. Era um jogo de estratégia, já que qualquer vacilo era fatal. O ideal era afastar a ponteira do adversário para locais cada vez mais distantes, enquanto aproximava as duas bolinhas dentro do círculo, para então retirá-las com uma única jogada.

No ronda mate, era feito um círculo de três palmos de diâmetro, onde se casavam as bolinhas (no mínimo cinco por jogador) e era feito uma linha horizontal a quatro metros de distância do círculo. O ponto era tirado do círculo para a linha, jogando a ponteira com a mão (na maioria das vezes “petecões” ou esferas de aço, retiradas de rolamentos de carros) em direção à linha.

Começava o jogo – dessa vez da linha pro círculo – aquele cuja ponteira mais se aproximasse da linha. O jogo consistia em jogar a ponteira com força em direção às bolinhas casadas no círculo. Toda bolinha que a sua ponteira retirasse do círculo era sua. Se errasse (deixasse de retirar pelo menos uma bolinha) ou sua ponteira ficasse presa dentro do círculo (na “forca”), você cedia a vez pra outro jogador e a partida recomeçava até não ficar nenhuma bolinha dentro do círculo.

Se errasse, você recomeçava a jogar, na sua vez, a partir da parte do terreno onde parara a sua ponteira – daí a necessidade de saber bem dosar a força para não ficar muito afastado do círculo. No caso de sua ponteira ficar presa no círculo, você pagava uma bolinha pro adversário que a retirasse da forca e recomeçava a jogar da linha de ponto. Enquanto sua ponteira estivesse na forca, você não jogava. Pra quem jogava tendo como ponteira uma esfera de aço, esse era o maior risco.


Os petecões eram usados como ponteiras nos jogos de ronda mate

Se as regras eram claras e obedecidas pelos jogadores até com certo “fairplay”, na hora do Ângelus, às 6 horas da tarde, todo santo dia, era a vez de o cu da cotia assobiar. Bastava alguém gritar “abafa” e todo mundo se lançava em cima das bolinhas para agarrar o máximo de petecas que pudesse, fosse de quem fosse.

Às vezes, um jogador inexperiente se lançava naquela faina com uma das mãos cheias de bolinhas, aí bastava alguém esbarrar “sem querer” na sua mão e uma nova leva de bolinhas estavam disponibilizadas para o “abafa”. Nunca ter saído uma única porrada por conta daquela presepada me dá a certeza de que sempre fomos politicamente incorretos mas nem tanto.

No começo, eu apenas observava a estratégia dos melhores jogadores do pedaço – Baiano, Zé Quara, Armandinho, Rudiney, Fuinha, Branco, Sergio Velhote, Favela, Luiz Lobão, Chico Porrada, Heraldo Cacau – para tentar aprender suas técnicas.

Eles jogavam com o polegar pressionando levemente o dedo indicador (nas tiradas de ponto, aproximações táticas – chamadas de “abicorar” – e turites), mas usavam o dedo maior de todos nas lavouras. Os outros três dedos permaneciam fechados em direção à mão.

Nunca consegui imitá-los: eu jogava com o indicador preso atrás do polegar e os três dedos abertos, como se estivesse pedindo o lorto de alguém, o que era motivo de gozações inenarráveis.

Com o tempo, treinando força e direção no quintal de casa, desenvolvi uma técnica quase perfeita. Mesmo jogando daquele jeito pornográfico, eu era capaz de acertar com violência em qualquer bolinha a dois metros de distância.

Depois, comecei a jogar com os mais fracos – Clóvis, Zé Carlos, Sansão, Áureo, Arlindo, Sici, Dó, Julio, Didão, Zé Alfredo, Simas, Xereta, Bordado, Humbertinho, Breta, Pepéu, Louro – somente para testar minhas novas estratégias.

Alguns meses depois, resolvi encarar os chamados “pedra noventa”. Não dei vexame. Perdia dez bolinhas num dia, ganhava dez no dia seguinte, e ia levando.

Mas, em menos de um ano, assim que peguei a manha dos aclives e declives quase imperceptíveis do terreno, comecei a minha fase de “Átila, o huno”: por onde eu passava, não restavam mais bolinhas nos bolsos de ninguém.

As pessoas que freqüentavam a oficina se reuniam em torno dos locais onde eu jogava somente pra me ver desmoralizar os adversários, fosse no turite (casando dez bolinhas de cada vez), fosse no ronda dedo (apostando dez bolinhas por fora) ou no ronda mate (casando até 20 bolinhas de cada vez).

Minha pontaria era fuderosa – dava lavoura com até três metros de distância! Minha sorte (ou talento, quem sabe?) para fazer turites inesperados, acertando em duas bolinhas separadas meio metro entre si, por exemplo, era declamada em prosa e verso!

Ganhei tantas bolinhas, que passei a revender pela metade do preço para o taberneiro “seo” Luís, ali na Rua Borba, que as revendia para a molecada da rua a preço de mercado, só para ter o prazer de ganhá-las de volta no dia seguinte.

Basta dizer que na hora do “abafa” eu simplesmente guardava a minha ponteira no bolso e ia embora, não dando a mínima para quantas bolinhas minhas estivessem no jogo e os perebentos pudessem “abafar”.

Quando a paixão pelo esporte estava arrefecendo, cheguei a contabilizar em casa mais de 4 mil petecas de todos os tipos (menos as “caraquentas”, que eu quebrava a marteladas), incluindo umas duzentas “colombianas”.


Depois, me desinteressei pelo assunto e as bolinhas serviram de munição para o Simas caçar passarinhos nos quintais da redondeza durante vários anos.

Por meio dos poucos amigos privilegiados que costumavam passar as férias no Rio de Janeiro, como Sergio e Arlindo Mubarack, soube que na Cidade Maravilhosa o jogo de bolinha mais popular se chamava búlica.

Pelo que ainda me lembro, posto que nunca joguei aquela infâmia, consistia de três buracos eqüidistantes em linha reta, no chão de terra, onde começa quem lança sua bola mais perto do terceiro buraco, tanto faz se é daqui para lá ou de lá para cá que começa a disputa.

Se por acaso no início do jogo um dos participantes consegue fazer de cara uma búlica, ou seja, lançar a bolinha direta no terceiro buraco, já está com a chance de começar a “matar” as bolas dos outros adversários cujas bolinhas estejam por perto da búlica que ele acertou. Mas se acontecer de algum outro competidor também acertar nesta mesma búlica na primeira jogada, aí a partida estará cancelada e se começará uma outra.


Diferente daqui da taba, onde a mão, durante o arremesso das bolinhas, tinha que permanecer obrigatoriamente encostada na terra (a exceção era o ronda mate), na búlica as bolinhas eram arremessadas com a mão afastada do chão e a bolinha presa entre a unha do polegar e o dedo indicador, o que nos parecia coisa de viado, razão pelo qual o jogo nunca obteve a nossa simpatia.

As regras também eram meio confusas – ou os irmãos Mubarack nunca souberam explicar direito. Por exemplo, pro sujeito não perder a vez quando desconfiava que poderia errar uma bola perto da búlica, ele era obrigado a gritar: “Ou bola ou búlica!”.

Quando o jogador tinha que acertar na bola de um adversário, mas acertava também na de um outro jogador, dizia-se que ele “carambolou” e a partida era encerrada sem vencedores. A melhor estratégia do jogo era ficar por último no início da partida, e para isso, tão logo era anunciado o jogo, o jogador gritava a palavra: “Marráio!”

Quando muitas bolas ficavam juntas, um jogador, querendo se aproveitar do erro do adversário da vez, aumentava a pressão psicológica dizendo: “Ferido, sou rei!”. Ocorre que “ferido” tinha uma pronúncia especial, típica de malandro carioca, então o dito ficava assim: “Feridô, sou rei!”.

Sinceramente, era ou não era coisa de viado?...