sábado, novembro 28, 2009

Omelete de boto tucuxi


Lucimar Mamão e Neisa Andrade carregando Gilberto Mestrinho durante um comício na Compensa

Agosto de 1982. Depois de passar 18 anos sem participar de um comício em Manaus, Gilberto Mestrinho, candidato a governador pela segunda vez, está na ponta dos cascos para iniciar sua campanha vitoriosa. O primeiro comício será realizado no bairro da Alvorada.

A fim de consolidar a mística de “queridinho do mulherio amazonense” atribuída a Gilberto Mestrinho, seu secretário particular e responsável pelo guarda-roupa do candidato, Luiz Pacheco, treinou exaustivamente quatro guerreiras para a hercúlea tarefa de carregar o boto tucuxi no meio da multidão: Lucimar Mamão, Nega 70, Mariona e Neisa Andrade. Elas decoraram a coreografia direitinho.

No dia e na hora combinada, assim que o Opala preto estacionou nas proximidades do comício e Gilberto colocou as pernas fora do veículo, Lucimar Mamão e Mariona enfiaram as mãos entre as pernas do candidato, lhe levantaram que nem um paneiro de farinha, o acomodaram nos ombros e saíram desfilando pelo meio da multidão. As fogosas Neisa Andrade e Nega 70 iam na frente, abrindo caminho entre as pessoas.

O candidato começou a contorcer a cara de dor e gemer monocordicamente:

– Aiiiii, Pachequinho!... Aiiii, Pachequinho!... Aiiii, Pachequinho!...

Preocupado com a situação, Pachequinho saiu desesperado em busca de um médico, entre as dezenas de candidatos perfilados no palanque. Só faltava aquela: o boto ter uma nova crise renal no seu primeiro comício...

Quando Lucimar Mamão e Mariona conseguiram chegar ao palanque, Gilberto já estava pálido que nem defunto e suando frio. O médico Paulo Henrique Freitas, um candidato a deputado estadual convocado às pressas pelo Pachequinho pediu pra pessoas se afastarem do candidato majoritário enquanto ele tentava descobrir o que havia acontecido.

– Rapaz, eu não via a hora de chegar logo nesse palanque! – explicou Gilberto, enquanto procurava se recompor. “Da próxima vez, Pachequinho, você me dá uma cueca Zorba. Em dia de comício, está proibido você me equipar com cueca samba-canção...”

Só então a ficha caiu.

Por causa da folgada cueca samba-canção, na hora do pega pra capar os ovos do boto tucuxi ficaram presos entre o ombro da Mariona e sua própria perna.

E a tortura chinesa havia demorado quase cinco minutos. Acontece.

sexta-feira, novembro 27, 2009

Ó nóis na fita travez!


Teodorico é sucesso na TV e no rádio, em Santarém (PA)

Responsável pelo melhor blog da região do Tapajós, o jornalista, professor e blogueiro Jeso Carneiro mandou esse toque simpático, que reparto com vosmecês:

Muito bom esses, digamos, causos do Pedrinho, a quem tive o prazer de conhecer aqui em Santarém.

Parabéns ao blogueiro pela reprodução de tais casos e que, como quelônios que vc. degusta com prazer vascaíno, “explodam” sempre por aqui, com propósito de nos fazer sorrir e gargalhar.


Jeso também repostou uma dos causos no seu blog, que deve ir ao ar neste sábado, no programa radiofônico Calafetando, como se depreende do diálogo virtual abaixo:


1. Theo Neves (foto) comentou:

Booooooaaaaa!!!… hehehe… Ei Jeso, será que posso pedir pro velho mandar essa sábado no Calafetando? Muito boa pqp... hahahaha!!! (27/11/2009)

2. Jeso Carneiro comentou:

Theo, pode mandar o velho “calafetar”. Vou ficar na “mutuca” para ouvi-lo. Abs (27/11/2009)

O “velho”, a quem os dois se referem, é o engraçadíssimo Velho Antenagildo, 86 anos, personagem criado pelo radialista Theo Neves, um dos âncoras do humorístico Calafetando (Tapajós FM), líder de audiência aos sábados na cidade (das 12 às 15h).

O Velho Antenagildo divide o microfone com o não menos engraçado Teodorico, do programa humorístico “Teodorico na TV”, exibido na TV Santarém (Band), aos sábados.

Calafetando está no ar há 5 anos.

Isso quer dizer o seguinte: Pedrinho Ribeiro está mais famoso do que nunca, pelo menos na região do Baixo Amazonas. Te mete!

Pedrinho Ribeiro em cinco tempos


O músico Pedrinho Ribeiro estava coletando apelidos de cabocos na zona rural de Parintins para utilizar em uma versão atualizada da sua famosa “Ópera Cabocla” e, para não chamar a atenção dos seus reais propósitos, se fazia passar por um representante do Banco Brasil.

Um dia, ele chegou de canoa numa pequena comunidade no Paraná do Ramos, já nos contrafortes de Barreirinha.

Foi recebido pelo líder da comunidade, um caboco simpático e gentil, dotado de um defeito físico incomum: andava jogando uma das pernas, como se precisasse de uma muleta para apoiar um dos ombros e manter aquela perna nervosa sob controle.

Feitas as apresentações, Pedrinho iniciou a conversa:

– Sêo João, o senhor tem algum agrado, algum apelido, algum nome mais popular, que o identifique mais intimamente aqui na comunidade?...

– Não, parente, eu não tenho nenhum agrado! – cortou o caboco, enquanto consertava uma rede de pesca.

No jirau, a mulher do cidadão estava preparando o café, com o ouvido pregado na conversa.

Pedrinho insistiu:

– É que eu tenho um plano de financiamento do Banco do Brasil para comunidades carentes, mas eles pedem o nome e depois o apelido, pra facilitar a identificação do proponente...

– É, seu Pedrinho, mas num tenho apelido não! – avisou o caboco.

O compositor não se deu por vencido:

– É um financiamento a fundo perdido para ser aplicado em agricultura familiar no valor de R$ 5 mil. Não tem burocracia nenhuma. Eu anoto aqui o seu nome, o seu apelido e daqui a uma semana chega o dinheiro...

– É muito bom, seu Pedrinho, é muito bom. Pena eu não ter nenhum apelido! – argumentou o caboco mais uma vez.

A mulher do cidadão, já pressentindo que a bolada poderia ir embora por causa de um detalhe insignificante, gritou, lá do jirau:

– Mas, João, meu velho, diz logo pro seu Pedrinho que o teu apelido é “Cu de Arraia...”

Quase que começa uma briga conjugal na comunidade.

2

Logo após um show de Pedrinho Ribeiro em Santarém (PA), o tecladista Paulinho de Santarém apresentou o músico parintinense para o saxofonista Nem, um dos grandes talentos da cidade.

Sessentão, Nem havia se separado da esposa e casado com uma menina de 18 anos, mas Pedrinho ainda não sabia.

Daí, quando ele viu aquela jeitosa cunhantaí se enxerindo para o lado do saxofonista, cresceu o olho gordo, pegou delicadamente na mão da menina e mandou bala:

– Mas e essa cunhan tão bonita é sua filha, companheiro Nem?...

– Não, é minha mulher! – devolveu Nem, de bate-pronto.

Pedrinho tentou consertar o estrago:

– Me desculpe o ato falho, parente, mas é que eu achei ela muito novinha...

O saxofonista jogou a pá de cal:

– Parente, mulher é que nem cerca. Ela vai ficando velha, a gente vai trocando...

3

Pai do músico Pedrinho Ribeiro, o velho Pedro só usava cuecas samba-canção porque, segundo dizia, “gostava de criar o bicho solto”.

Daí, que depois de uma pequena apresentação em Belém (PA), o músico resolveu presentear o pai com meia dúzia de moderníssimas cuecas Zorba.

No dia seguinte, Pedrinho acordou com os gritos de sua mãe, Dona Marilza, discutindo asperamente com seu pai, no quarto do casal:

– Mas Pedro não é desse jeito!... Não tás vendo que não é assim, criatura?... Ô, Pedrinho, vem aqui ensinar teu pai a vestir direito essa coisa...

Pedrinho entrou no quarto. Seu Pedro insistia em usar a abertura da cueca para colocar o passarinho pra fora, mas estava achando aquilo meio esquisito.

– Olha, pai, essa abertura aí a gente só usa quando vai mijar! – explicou o músico. “Coloque a besteira dentro da cueca virada pro lado esquerdo!”

Seu Pedro seguiu as instruções do filho. Não gostou.

– Ficou que nem uma xereca de mula parida, com os colhões prum lado e o pau pro outro...

– Bom, então experimente colocar a besteira pro lado direito, junto com os colhões! – explicou Pedrinho.

Seu Pedro seguiu as instruções do filho. Não gostou.

– Ficou apertando os colhões demais da conta e dando uma dor da muléstia...

– Bom, então experimente colocar a besteira pra cima, no rumo do umbigo! – insistiu o músico.

Seu Pedro seguiu as instruções do filho. Não gostou.

– Não vai dar, rapaz, não vai dar... Essa porra vai ficar o tempo todo de pescoço pra fora...

– Olha, pai, então o jeito é o senhor colocar a besteira pro rumo de baixo...

Seu Pedro se encrespou:

– Vamos parar por aí, vamos parar por aí... Negócio de pomba no rumo do cu não vai dar certo... Ainda mais que eu posso acabar sentando em cima dela...

E, na mesma hora, devolveu a coleção de cuecas Zorba para o filho.

Pelo visto, seu Pedro tinha uma besteira tipo king size.

4

Aproveitando que o músico Pedrinho Ribeiro estava se apresentando em Óbidos (PA), os compositores Eduardo Dias e Nelson Vinenti (parceiro do violonista Sebastião Tapajós) o levaram para conhecer uma das atrações da cidade: um boteco que possuía estacionamento de cambada de peixes.

Óbidos vive, naturalmente, da pesca. Mas, sobretudo, do comércio com o interior, graças à sua posição estratégica junto do rio. O mercado municipal funciona, se a cheia do rio o permitir, quase todos os dias até ao final da manhã. E o dono do boteco visitado pelos músicos, localizado próximo do mercado, havia tido uma idéia genial.

Ele colocara do lado de fora do bar uma imensa placa de compensado cheia de pregos numerados. Assim, quando os cachaceiros vinham do mercado com suas enfiadas de peixes, bastava pendurar cada uma delas em um dos pregos e ir biritar com tranqüilidade. Como cada um sabia do número de seu prego, não havia confusões na saída.

Pois foi nesse boteco diferente que Pedrinho Ribeiro conheceu o sanfoneiro Valdevino Carvalho, auto-intitulado “o homem mais azarado do mundo”. Eis algumas de suas histórias.

O sanfoneiro morava na margem do rio Amazonas, na beira de uma encosta. Um dia, logo após detonar uma suculenta caldeirada de gujuba (o nosso cuiu-cuiu), ele sentiu uma preguiça disgramada. Foi até a varanda, amarrou a rede e estava se balançando, esperando o sono chegar.

De repente, no meio do rio, um gavião pegou uma arraia pequena e levantou vôo. A arraia começou a se debater. O gavião soltou a presa. A arraia caiu dentro da rede de “seu” Valdevino e lhe arpoou a costela. Ele passou 24 horas urrando de dor.

De outra feita, o sanfoneiro estava bastante adoentado, tossindo muito e com uma pequena febre intermitente, quando, por insistência das filhas que suspeitavam de pneumonia, resolveu procurar o médico da família.

Na hora em que estava atravessando a rua em direção ao consultório médico, um urubu teve um passamento no ar, ficou desgovernado, lhe atropelou abruptamente, ele caiu e quebrou uma perna. Ficou seis meses no estaleiro.

O sanfoneiro viajou para Manaus, para morar na casa de uma filha no bairro do São José, enquanto aguardava a marcação de uma cirurgia na perna quebrada, que seria realizada no hospital Adriano Jorge.

Como sua filha e o genro trabalhavam no Distrito Industrial e seus netos passavam o dia na creche, “seo” Valdevino ficava sozinho em casa.

Um belo dia, ele estava sentado numa cadeira de balanço, na varanda da casa, matutando solitariamente, quando um motoqueiro parou diante da residência.

Sem dizer uma palavra, o sujeito apeou da moto, abriu o portão, se aproximou dele e cataplum! Deu-lhe um murro no meio da cara, que o levou a nocaute, e escafedeu-se.

Sua filha chegou em casa algumas horas depois e levou um susto ao encontrar o pai com o nariz fraturado e ainda sangrando copiosamente.

Imediatamente ela chamou um táxi, o levou ao pronto-socorro, seu Valdevino foi medicado, e, quando retornaram à residência se depararam com o motoqueiro no portão.

Pedindo mil desculpas, o sujeito explicou que havia cometido um equívoco. Ele havia ido ali a pedido de um prestamista amigo seu que vinha sendo enrolado por um caloteiro há mais de seis meses. A porrada era para o vizinho da casa ao lado.

– Porra, seu Valdevino, mas o senhor deu o troco no motoqueiro, não deu não? – questionou Pedrinho Ribeiro, visivelmente irritado.

– Olha, parente, o rapaz me pediu perdão com tanto jeito que eu acabei perdoando...

Aí, como se estivesse purgando todos os pecados do mundo, concluiu:

– É que eu sou mesmo muito azarado, “seo” Pedrinho, muito azarado...

5

Na companhia de meia dúzia de músicos, Pedrinho Ribeiro estava participando de uma roda musical improvisada, em um bar de Oriximinã (PA), quando um senhor bastante idoso, mas vestido com aprumo, se aproximou da mesa, pagou uma rodada de cervejas pra moçada, arrastou uma cadeira, sentou-se e começou a contar seu drama pessoal.

– Olha, meus filhos, desculpa eu invadir a praia de vocês, mas é que eu tenho muita inveja da vida de músicos. Eu tenho pouco estudo, sempre trabalhei na roça tomando conta do sítio da família, de forma que sempre sonhei um dia ser músico profissional, mas nunca pude. Meu avô tocava clarinete, meu pai tocava violão e eu, na minha juventude, toquei muito cavaquinho. Mas depois que fiquei viúvo, parei de tocar. Dos meus quatro filhos, nenhum quis saber de música. A minha filha mais velha foi pra Belém estudar. Depois de cinco anos, voltou pra casa com um diploma, o Netinho, que eu estou criando como filho. Minha outra filha foi morar em Santarém. Depois de três anos, voltou pra cá. Veio já se vestindo de jogador de futebol, falando grosso e cuspindo no chão. Já vieram me dizer até que ela é sapatão. O meu filho mais velho, o Zé Raimundo, não pode ver um gado na beira do Amazonas que rouba. Já foi preso quatro vezes. De tanto eu ir lá pagar fiança pra soltar ele, fiquei amigo do delegado. O único que pensei que fosse dar para o que preste foi o caçula. Ele foi estudar odontologia em São Paulo e haja eu a vender gado pra custear seus estudos. Agora, no fim do ano, ele me mandou uns retratos. Está usando brinquinhos, cabelo colorido e posou só de sunga numa festa com um bando de machos.

Aí, num misto de resignação e fatalismo, concluiu:

– Já vieram me dizer até que ele é gái...



PS: Pedrinho Ribeiro vai fazer um show musical no próximo dia 5, sábado, no Fino da Bossa, ali na entrada da Cidade Nova, onde vai contar dezenas de causos. O show vai se chamar “Canto Geral” em homenagem ao poeta chileno Plabo Neruda. No repertório, além de standards da Bossa Nova e MPB, clássicos de Mercedes Sosa, Violeta Parra, Trini Lopez et caterva. Agende. Eu recomendo.

quinta-feira, novembro 26, 2009

Hip Hop para principiantes


Afrika Bambaataa (esquerda) e Kool Herc, pioneiros do hip-hop, no lançamento de “Hip-Hop Won’ Stop: The Beat, The Rhymes, The Life”, pela Smithsonian Institution, em 2006

Via e-mail, o auditor fiscal José Fernando Menezes, atualmente morando em Salvador (BA), relembra algumas de nossas presepadas durante as famosas "brincadeiras" na Cachoeirinha e aproveita para fazer uma provocação:

Mas meu caro Simon People, o hip hop está fazendo trinta anos e você ainda não deu uma notinha a respeito... Será que vosmicê resolveu renegar nossas origens black? As histórias, causos, chistes, whatever, estão muito legais, mas estou sentindo falta de novos textos sobre música negra da velha guarda. Quebra essa castanha, rapá!

Devagar com as fitinhas de Nosso Senhor do Bonfim, Zé Fernando, porque quem está completando 30 anos é um disco 12 polegadas que mudou o mundo da música – e não o hip hop.

A bolachinha em questão é Rapper’s Delight, uma música de 15 minutos do Sugarhill Gang. Aliás, ela não foi a primeira faixa do hip hop em vinil como muitos acreditam (o posto é de King Tim III, do Fatback Band).

No entanto, foi definitivamente o disco que fez o hip hop crescer, o trampolim para o sucesso de muitos garotos que nunca acharam que conseguiriam antes.

Baseada em outro clássico - Good Times, do Chic (o instrumental foi tocado de novo por outra banda, Positive Force, e, pelo menos oficialmente, nenhum sample da original foi usado) - consiste em três caras tagarelando sem parar (no Brasil saiu com o apelido Melô do Tagarela) sobre festas, carros, mulheres, hotéis, motéis. Pura diversão. Nem todo mundo estava feliz, no entanto.

Sylvia Robinson era uma dona de selo que chamou três caras sem ligação profissional com o mundo do hip hop - Big Bank Hank, Wonder Mike and Master Gee - para gravar a faixa. Quem estava na cena desde o começo de tudo ficou puto - como três fanfarrões estão vendendo milhares de discos?


Alguns ainda dizem que foi o dia em que o hip hop morreu, e que Rapper’s Delight sequer tinha alguma das principais características do chamado verdadeiro hip hop: “nenhum DJ fazendo a base para as rimas, nem rivalidade ou competição com outros grupos, nem perspectiva de shows ou plateias para entreter. (...) Levaram o hip hop das ruas pro mainstream, do palco pro estúdio, do centrado no público pro centrado no rapper, do ativo pro passivo” (verbete do Urban Dictionary).

Dizem também que um dos membros do Sugarhill Gang roubou versos de um dos rappers do Cold Crush Brothers para a faixa, e que o cara não ganhou nem grana nem créditos.

A questão é: certa ou errada, boa ou ruim, não fosse Rapper’s Delight e talvez não tivéssemos muito do que temos hoje na cultura do DJ, musicalmente ou tecnicamente.

Segundo: se os caras que estavam lutando antes achassem que eles mereciam a oportunidade, deveriam ter pensado comercialmente antes e tentado lançar em vinil, mas nenhum acreditou que isso poderia dar certo, pelo menos até esse disco ter sido lançado.

Aliás, a maioria deles teve sua fatia do bolo mais tarde, e como sabiamente disse Grandmaster Flash no livro “Last Night A DJ Saved My Life”, de Bill Brewster and Frank Broughton: “Fiquei tipo... ‘Droga, eu poderia ter sido o primeiro.’ Não sabia que a arma estava carregada assim. Estourou. Foi um enorme sucesso pra eles (...) Tudo bem, porque a gente viria depois... A gente tinha talento, eles não”. Alguém se atreve a discordar?

Mas mudando de chinelo pra tamanco, o movimento hip hop - historicamente - acaba de completar 35 anos agora em novembro. Esta história está devidamente destrinchada no meu livro “Funk – A música que bate”, lançado em 2002, que teve suas duas edições esgotadas aqui na taba e se transformou em bíblia sagrada dos moleques da periferia de Manaus.

Bom, mas como estou com preguiça de procurar o texto original para postar aqui no mocó, limito-me a transcrever uma saborosa reportagem do Israel do Vale, intitulado “Yo!” (a mais conhecida saudação do mundo black), publicado em janeiro de 2005, na revista Superinteressante, que praticamente esgota o assunto:


O hip hop não cabe em si. Das trilhas de novela ao top ten das rádios, das paradas de videoclipe às campainhas de celular, das principais premiações musicais a anúncios de marcas de cerveja ou de tênis, ele extrapola, dia após dia, a imagem desgastada de cultura de gueto e se torna figurinha fácil, onipresente, sutil ou abertamente.

Astros como Eminem cobram cachês na casa do milhão de dólares por um show. De acordo com a revista Rolling Stone, em 2003, ano em que não teve disco lançado, ele embolsou cerca de 20 milhões de dólares com turnês, discos anteriores, merchandising, entre outros meios – quantia que chega a quase um quarto dos 84,1 milhões de dólares faturados pelos Rolling Stones no mesmo ano.

Um dos mais vistosos fenômenos do rap feito por branquelos, Eminem enfileira controvérsias em sua carreira, com peripécias que incluem um processo aberto pela própria mãe contra ele e brigas públicas com gente como Michael Jackson.

Velho truque da indústria pop, a pose de menino mau ajudou seu disco mais recente, Encore (lançado em 2004), a superar, em dois dias, o que Britney Spears havia vendido em uma semana, na Inglaterra. Placar: 122 459 cópias para o bad boy e 115 341 para Britney.

Eminem é um sintoma da escalada do rap no mundo do consumo, como ilustra a guerra dos tênis. Gigantes como Nike, Adidas e Reebok travam batalhas inclementes usando popstars do rap no pelotão de frente das campanhas publicitárias. Há dois anos, por exemplo, a Reebok ganhou fôlego com a contratação de Jay-Z.

Pela primeira vez a campanha de uma coleção de tênis teve um rapper como protagonista. Conjugada a uma investida no mercado asiático, a ação ajudou a catapultar o faturamento da empresa para 3,5 bilhões de dólares em 2003, 11% a mais que em 2002.

E consolidou o espaço dos rappers com uma parceria com o fenômeno 50 Cent – que contabiliza 12 milhões de cópias de seu primeiro disco – para a linha de footwear G-Unit Collection by Rbk.


Ninguém tem dialogado nesse universo como Jay-Z. No Natal de 2003, o rapper ganhou uma edição especial do modelo 3300 do celular Nokia. Batizado de Black Phone, o aparelho chegou às lojas com faixas de seu Black Album, além de papéis-de-parede para o visor do telefone com sua imagem e mensagens com sua assinatura.

A publicidade é a ponta reluzente desse iceberg chamado hip hop. A expansão dos diferentes elementos que compõem a cultura de rua pela moda e o comportamento grita aos olhos num momento em que o rap é, nos Estados Unidos, a bola da vez da indústria da música – uma das armas de marketing mais eficientes de todos os tempos.

De acordo com estimativa da Riaa, a associação da indústria fonográfica americana, o rap perde apenas para o rock (que fatura 3 bilhões de dólares) e faz circular cerca de 1,5 bilhão de dólares por ano nos Estados Unidos – e isso apenas com a venda de discos.

A disseminação da cultura de rua vai muito além disso. O estilo largado das roupas, o jeito alargado de andar e gesticular, a cadência canto-falada das músicas, o tom reivindicativo das letras, o apelo social consciente, isso tudo transborda de um canto a outro, contamina aqui (na dança, nas artes visuais, no audiovisual) e influencia acolá (no trabalho das ONGs, no modelo pedagógico das escolas), até mesmo em círculos que sequer sabem o que diferencia hip hop de rap.

Conhecimento

O DJ Afrika Bambaataa e o videomaker Bob Bryan, durante um agito em Los Angeles

E o que distingue um do outro, afinal? Bem, o rap (junção das iniciais de rhythm and poetry, ou música e poesia) é a faceta musical do hip hop. E só. Parece óbvio, mas muita gente que ouve rap diz por aí que adora dançar hip hop. E não tem como. O rap é apenas um dedo entre os cinco da mão que balança o berço do hip hop.

É verdade que quando o berço foi construído falava-se em quatro dedos – ou, na linguagem do movimento, quatro elementos: DJ (responsável pelas bases da música) + MC (quem rima), o dedo musical, break, o dedo corporal, e grafite, o dedo visual.

Mas eis que, nos anos 80, o homem que deu sentido ao termo hip hop achou por bem ampliar o cardápio, enxertando um item novo que unifica todos os demais: o conhecimento.

Esse homem é Afrika Bambaataa, um dos nomes fundamentais no nascimento e, principalmente, na conceituação do hip hop. Ele, porém, não passaria no teste de paternidade do termo.

Criada por Lovebug Starski, a expressão hip hop (ao pé da letra, balançar os quadris) surgiu a reboque do jogo de palavras típico do rap. Era, à época, uma espécie de lema gritado ao microfone para inflamar a pista durante as festas.

Parece que foi ontem, mas o fenômeno acaba de completar 30 anos de idade, comemorados em Nova York, o grande pátio de escola em que os conceitos e a prática do movimento foram exercitados.

O marco simbólico, 12 de novembro de 1974, é a data do primeiro aniversário de fundação da Universal Zulu Nation, a organização criada por Bambaataa para disseminar o receituário mundo afora.


Desde que ele e seu colega Grandmaster Flash popularizaram o modelo de festa de rua que o jamaicano Kool Herc levou aos subúrbios nova-iorquinos em fins dos anos 60 e resolveram usá-lo para mediar os conflitos de gangues no bairro do Bronx (propondo que as disputas fossem resolvidas em combates de dança), nem as rixas nos guetos nem a música foram os mesmos.

Com o passar do tempo, alguns artistas saídos de gangues enveredaram pelo chamado gangsta, o estilo barra-pesada que começava em tiroteio verbal e muitas vezes ia para as vias de fato. E pelo menos dois nomes importantes morreram em decorrência disso na década de 1990: Notorius B.I.G e Tupac Shakur.

O tom dominante no rap nacional, no entanto, é o avesso do gangsta ou de sua face mais comercial, o “rap luxúria” que se vê em boa parte dos clipes americanos. Em vez da ostentação (carrões, correntes de ouro, mulheres mil), o foco é o da reivindicação de direitos e da denúncia social.

“É um discurso político da maior importância”, diz o produtor André Midani, ex-diretor da gravadora Philips e nome fundamental da indústria musical no país.

Talvez o melhor termômetro do alastramento do hip hop pelo Brasil seja a televisão. Artistas como o rapper carioca MV Bill, crítico ferrenho do abismo social, ou a dupla Helião e Negra Li, militantes do rap paulista engajado, ganharam visibilidade em programas como o Faustão.

“Um dos mais importantes artistas do rap nacional”, como disse o apresentador, Bill ficou no ar durante 40 minutos. “Nunca vi uma jovem liderança tanto tempo ao vivo na tevê, num programa que fala para 70 milhões de pessoas”, diz o antropólogo Hermano Vianna.

DJs e trancinhas

O legendário DJ e ícone do hip hop Grandmaster Flash divulgando seu primeiro álbum inédito nos últimos 20 anos, “The Bridge: Concept Of A Culture”, em fevereiro deste ano

Marco Aurélio Paz Tella, doutorando em antropologia pela PUC-SP, defendeu em sua dissertação de mestrado que a fase em que o rap era consumido apenas pela periferia – para a qual serve de voz – é parte do passado.

“De alguns anos para cá, os principais DJs de rap tocam nas casas noturnas de bairros nobres paulistanos como os Jardins, Vila Madalena e Vila Olímpia porque tem gente com dinheiro que consome rap”, afirma Marco.

A linguagem do hip hop transbordou para outros segmentos da música, do rock ao eletrônico. “O hip hop cria a cultura de DJs. A figura do DJ como entendemos hoje é oriunda do Kool Herc, do Grandmaster Flash, do Bambaataa, que desenvolveram a idéia de criar música a partir de dois toca-discos”, diz Eugenio Lima, DJ da Soulfamily e diretor do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, com trabalho voltado para o que chama de teatro hip hop – um cruzamento da pesquisa teatral brechtiana com os elementos da cultura de rua.

O uso de trancinhas coladas ao couro cabeludo mostra que as influências do estilo hip hop vão dos pés à cabeça. Característica dos astros do rap e do basquete americano, elas disseminaram-se no Brasil para além do circuito de iniciados. O estilo já extrapolou os limites raciais.

“Faço trança em japonês, loira, branco de cabelo liso, gente de qualquer tipo e de todas as raças”, diz Fátima Aparecida de Abreu, cabeleireira do salão e loja de roupas 4P, dos rappers KLJ (DJ dos Racionais MCs) e Xis. Com 20 anos de atividade na área, Fátima contabiliza hoje oito homens entre cada dez clientes que fazem trança.

A 4P, também um selo musical, funciona na meca da black music paulistana, a Galeria 24 de Maio, conhecida como Galeria do Rock, mas cada vez mais chamada de Galeria do Rap.


Síndico do prédio e comerciante no local há 30 anos, Antonio de Souza Neto, o Toninho da Galeria, afirma que foi ali que a cultura de rua tomou corpo em São Paulo.

“O pessoal se encontrava aqui e ia para o largo São Bento”, diz, em referência ao local onde as rodas de break ganharam popularidade, nos anos 80, depois do período embrionário na própria 24 de Maio.

“O hip hop saiu daqui, foi pra periferia e tomou o asfalto”, afirma. Toninho vê o movimento como “possibilidade de revolução cultural no país”. Na sua leitura, o rock tornou-se “pequeno em relação ao hip hop”.

Se o dedo musical amplia cada vez mais as suas influências, dança e artes visuais não ficam atrás. Fundador e coreógrafo da companhia mineira SeráQuê?, o dançarino Rui Moreira formou-se entre aulas de dança moderna e os bailes black de São Paulo e vê com interesse a absorção da dança de rua pela dança moderna e contemporânea.

Segundo ele, o gestual da rua se incorporou à dança no fim dos anos 60 a partir de coreógrafos americanos como Alvin Ailey. E, na década seguinte, houve um reflexo no trabalho de criação do Grupo Corpo, assim como no do Ballet Stagium, que incorporaram o que na época era chamado de jazz de rua.

“No cenário contemporâneo, os bailarinos buscam cada vez mais o diálogo gestual com os b-boys, como forma de ampliar as possibilidades de uso dos planos espaciais”, diz Rui.

Sinônimo de dançarino de break, o b-boy dá mortais, gira e rodopia dentro de parâmetros do vocabulário da dança de rua. Assim é também com os outros dois estilos principais da dança hip hop: o locking (movimentos que imitam um robô) e o popping (influenciado pelos passos do funk), um sistema de códigos corporais que se reproduz por todo o mundo.

“Cada um se destaca no seu estilo, como no futebol”, afirma Nelson Triunfo, mestre na dança de rua e pioneiro das jornadas empreendidas pelos b-boys nos calçadões do centro velho paulistano desde 1984.

Depois da grande visibilidade dos anos 80, oferecida pelos concursos em programas de auditório como o de Barros de Alencar ou por participações em humorísticos como Os Trapalhões, a dança de rua já não desperta o mesmo interesse na mídia, mas deixou como resíduo a incorporação, até hoje, de cursos de break em academias de dança voltadas para a classe média.

A vez do grafite


O vocabulário visual do hip hop também demarca seu espaço em outros territórios. Muito além das frases de protesto e das guerras de ego de adolescentes que carimbam com spray os muros, pontes e edifícios das cidades, a pichação e o grafite ganham respeito, deixam de ser vistos como “caso de polícia” e contaminam outras linguagens, como o design gráfico e a publicidade.

O esforço de compreensão do abecedário dos pichadores e das crônicas visuais dos grafiteiros rende estudos acadêmicos e projetos vinculados ao poder público, como é o caso do Guernica, focado em oficinas de arte, mantido pela Prefeitura de Belo Horizonte desde 1999.

“A pichação é uma escrita aparentemente sem memória e conteúdo, mas temos de aprender a ler essa escrita porque os jovens estão querendo dizer alguma coisa”, disse o prefeito Célio de Castro à época.

Desde então, o estigma deu lugar a aulas, ministradas por alguns dos “fora-da-lei”, e a prática dos murais públicos grafitados ganhou reconhecimento entre a população e as empresas – gerando parcerias que já resultaram em curtas-metragens ou em balões dirigíveis e totens estampados com a linguagem do grafite.

O hip hop atualizou, em versão urbana, uma prática secular. “O grafite existe há, no mínimo, 30 mil anos”, afirma Pedro Portella, autor do ensaio “Memórias Escritas da Cidade Inscrita”.

De acordo com ele, os aborígenes australianos sopram pigmento para contornar suas mãos nas grutas até hoje, como ocorreu em Lascaux, na França, e em algumas grutas da Patagônia.

“Eles dizem que muitas vezes fazem isso para expressar uma demanda, um impulso de criação, e não para assinar a parede da gruta, como pensavam muitos arqueólogos”, diz Pedro.

O trânsito do grafite pelo circuito de museus e galerias tem pelo menos duas décadas. O interesse pela linguagem das diferentes formas de intervenção visual que se multiplicaram pelas cidades alcançou seu ápice nos anos 80, nos Estados Unidos.

Bajulados por revistas como a respeitada Artforum, artistas surgidos nas ruas e estações de metrô, como Jean-Michel Basquiat e Keith Haring, ganharam notoriedade e foram rapidamente integrados ao circuito de marchands e galeristas. Não demorou para que a indústria cultural tomasse os signos e ferramentas da arte de rua para si.


Para o designer gráfico Rico Lins, que já fez trabalhos para a Time e a Newsweek, o uso dessa linguagem é bastante perceptível, “especialmente quando (o produto) é direcionado ao público jovem, na propaganda, em capas de livro, CDs, camisetas etc.”.

Rico vê forte ascendência da cultura urbana em geral – e do hip hop em particular – sobre seu estilo. “As pichações e grafites estão presentes em trabalhos que eu faço.”

Essa intersecção entre áreas levou a uma mutação no jeito de se fazer grafite. Se de um lado a origem “artesanal” e única da inscrição no muro proliferou e perpetuou-se, de outro as possibilidades técnicas de manipulação e circulação da imagem abriram novas frentes.

Conhecida como stencil art, a técnica de criar uma “fôrma” sobre a qual o spray era aplicado, muito usada na década de 1980, desembocou nos stickers, adesivos desenvolvidos muitas vezes em computador, com imagens e/ou mensagens, encontráveis em postes, latas de lixo e telefones públicos de centros urbanos.

A idéia? Disseminar o dedo visual do hip hop. Mas, também, estampar, com um grafismo peculiar e para todo mundo ver, que o hip hop ultrapassou qualquer gueto. Como se diz na quebrada: tá tudo dominado.

Roupas e acessórios


A popularização da moda de rua, a chamada street wear, feita de roupas tão grandes quanto as letras do rap, é o aspecto mais visível do impacto do hip hop. Basta contabilizar a lista de pesos pesados que têm suas próprias grifes.

Eminem é dono da Shady, 50 Cent sócio da G-Unit, e Andre 3000, do Outkast, lançou a Designs by Benjamin Andre. Eles seguem a trilha de rappers como Jay-Z, proprietário da Rocawear, e de Chuck D, do Public Enemy, que, nos anos 90, estampou o próprio nome em diversos modelos de roupa.

No Brasil, grifes como a 4P, de KL Jay e Xis, e a Ice Blue, do MC de mesmo nome, dos Racionais, ocupam seu palmo de terra no latifúndio black das Grandes Galerias, no centro de São Paulo, melhor termômetro de música, moda e comportamento jovem do país.

Essa vitrine musical acomoda apenas no piso inferior 75 lojas de roupas, discos, acessórios, artigos para grafiteiros e cabeleireiros. Quase tudo em torno do universo hip hop. “Roupas largas viraram sinônimo de visual moderno”, afirma o antropólogo Hermano Vianna.

Nino Brown, entretanto, dançarino das antigas, defende que a roupa não faz o monge. “Essa coisa de que tem que vestir uma roupa para ser do movimento, essa coisa da moda... Quem faz a moda é a gente”, diz ele, que não se sente à vontade com as calças largas típicas dos rappers.

Hip hop e educação


Considerada a primeira pesquisa acadêmica sobre rap publicada no Brasil, o livro “Rap e Educação”, organizado por Elaine Nunes de Andrade e lançado em 1999, apresenta textos de 14 estudiosos do assunto.

Uma das autoras, a educadora Ione Jovino, mestranda pela Universidade Federal de São Carlos com o tema “Escola e Hip Hop para Alunos Negros de Ensino Médio em São Paulo”, entende que o rap é cada vez mais absorvido por classes variadas, em escolas de fora da periferia.

“Desenvolvi uma metodologia com a linguagem do rap para trabalhar literatura, com a finalidade de sensibilizar os professores para essa cultura”, diz ela.

A diretora e coordenadora do Programa de Educação da ONG Geledés, Cidinha da Silva, vê na valorização da escola uma das grandes contribuições do hip hop para a sociedade brasileira.

Segundo ela, a busca do conhecimento por parte da juventude negra é a diferença fundamental entre o hip hop brasileiro e o norte-americano.

“O hip hop americano desvaloriza a universidade”, afirma. “Para eles, ler é coisa de branco.” Aqui, de acordo com Cidinha, isso não acontece. “É uma grande novidade essa valorização vinda da periferia”, diz ela.

Referência na luta pelo direito à educação para os jovens de periferia, o rapper Preto Ghóez, morto em acidente de carro em setembro passado, defendia o diálogo entre o hip hop e o poder público.

Da iniciativa do MC do grupo maranhense Clãnordestino surgiu o projeto de implantação de bibliotecas Fome de Livro na Quebrada – Preto Ghóez, já funcionando em oito capitais brasileiras.

Street dance


A dança contemporânea fala, cada dia mais, a língua da rua. Companhias como a hispano-francesa Montalvo-Hervieu construíram sua boa reputação com a mistura de sotaques e dançarinos de origens variadas – entre elas, da street dance.

Caminho semelhante é seguido no Brasil pela mineira SeráQuê?, do coreógrafo Rui Moreira, nome de primeira grandeza no elenco do Grupo Corpo nos anos 90.

“Comecei a dançar na rua, em rodas de break com os amigos”, conta o bailarino francês Rachid Ouramdane, que posteriormente se formou pelo Centre National de la Danse.

Focado na dança contemporânea, Ouramdane enverga no currículo dobradinhas com criadores de peso como a coreógrafa norte-americana Meg Stuart.

A adoção do hip hop pelo circuito tradicional de dança se expandiu no Brasil há pouco mais de dez anos com a criação da modalidade Dança de Rua em eventos como o Festival de Dança do Triângulo Mineiro e o Festival de Joinville.

“Em pouco tempo ela se espalhou por todo o Brasil”, afirma Fernando Narduchi, diretor da Cia. de Dança Balé de Rua, uma das mais respeitadas no segmento país afora.

Originário da cidade mineira de Uberlândia, o grupo é composto apenas por dançarinos autodidatas, formados pela escola pública das praças e calçadas.

No início deste ano, apresentou-se no festival francês Suresnes Cité Danse, um dos mais ativos na aproximação da dança contemporânea com o hip hop. Para Fernando, o break está se tornando uma área de especialização na dança, com códigos tão específicos quanto os do balé clássico.

O código da tribo


Gíria não tem certidão de nascimento nem endereço fixo. Os “manos” do rap que o digam. O que se supõe é que mano seja uma derivação de hermano, “irmão” em espanhol, que, por sua vez, remete a brother, termo usado com frequência pela música negra norte-americana desde a soul music, nos anos 60. Mas mano, hoje, é água corrente na boca de tribos variadas, de origem e condição social idem.

Para a professora de língua portuguesa Elaine Ferreira dos Santos, que defendeu em 2003 uma tese de mestrado sobre o discurso dos rappers, “a gíria tanto pode ser um instrumento de defesa da população marginal como uma manifestação de agressividade da juventude, um reflexo do conflito de gerações”.

Sua pesquisa começou com a percepção do uso de gírias em sala de aula. “Só depois é que fui identificar que isso vinha das letras de rap”, diz.

O estudo enfocou alunos da classe média de 16 a 17 anos. “Eles usam muito ‘mano’ e se cumprimentam com o aperto de mão característico dos rappers”, afirma a professora, em referência ao movimento de ir e vir com a mão sem apertá-la, puxando de leve os dedos e batendo os punhos fechados na altura do peito.

Funk Buia, MC do grupo paulista de rap Z’África Brasil e morador de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, acredita que há gírias “bairristas”, de sentido local, que soam estranhas quando faladas por modismo em qualquer lugar. Para ele, o pára-quedista de gíria acaba se denunciando: “Quando determinada expressão não faz parte da pessoa, dá para perceber que ela não é do movimento”.

Veja algumas das gírias:

Crocodilagem: traição
Entrar numas: se meter em confusão
Firmeza: tudo certo
Fita de mil grau: história muito bacana
Ganso: traidor, dedo-duro
Quebrada: bairro
Sangue-bom: camarada, boa gente
Treta: briga
Truta: amigo
Vacilo: erro, pisada na bola

Linha de tempo na conexão South Bronx-Brasil


Run-DMC no American Music Awards, nos anos 80. Da esquerda para a direita, Joe Simmons (Run), Jason Mizell (Jam Master Jay, 1965-2002) e Darryl McDaniels (DMC)

1969 – O DJ Kool Herc, jamaicano criado no Bronx, introduz nos EUA as disco mobiles, equipamentos móveis de som populares na Jamaica. Esse é também o ano do surgimento das gangues de break, promotoras de batalhas de dança em lugar das brigas entre rivais.

1972 – Kool Herc realiza a primeira block party, festa de rua que conjugaria os diferentes elementos do hip hop. No ano seguinte, Afrika Bambaataa funda a Universal Zulu Nation, base para a escolha do dia 20 de novembro de 1974 como dia oficial de nascimento do hip hop.

1978 – Fundação da Funk & Cia., a pioneira posse de break do ex-agricultor pernambucano Nelson Triunfo (ainda hoje na ativa) e de Nino Brown, entronizado por Bambaataa como King Zulu, o representante oficial brasileiro da Universal Zulu Nation.

1979 – O grupo norte-americano Sugar Hill Gang lança o primeiro disco de rap, com o sucesso “Rapper’s Delight”. Um ano mais tarde, Miéle grava “Melô do Tagarela”, versão em português que entraria para a história como o primeiro registro de um rap no país.

1982 – Bambaataa se populariza como artista solo e o rap de cunho social se consagra com o álbum The Message, de Grandmaster Flash and the Furious Five. As gangues de break começam a se reunir periodicamente na rua 24 de Maio, no centro de São Paulo.

1983 – Michael Jackson lança o álbum Thriller, fonte musical para coreografias apoiadas no moonwalk, o passo arrastado que ajudaria a popularizar o break e daria origem a concursos de dança em programas de auditório da TV brasileira como o de Barros de Alencar.

1986 – Public Enemy lança seu primeiro álbum, Yo! Bum Rush The Show, e se torna um dos grupos mais influentes do período. A dupla de rappers Run DMC lança o LP Raising Hell, que vende 2 milhões de cópias, um marco para a época.

1988 – Lançamento da coletânea Hip Hop - Cultura de Rua (selo Eldorado), primeiro vinil brasileiro de rap, com nomes como o dos pioneiros Thaíde & DJ Hum. Chega ao mercado Consciência Black, disco inaugural do selo Zimbabwe, que lançaria mais tarde Racionais MCs.

1990 – Inspirados no Public Enemy, entre outros, os Racionais MCs lançam o primeiro disco, Holocausto Urbano, e sacodem a periferia paulistana.

1992 – Snoop Doggy Dogg, gangsta-rapper californiano, estréia em The Chronic, de Dr. Dre. No ano seguinte, lança Doggstyle, um dos álbuns mais vendidos da história do rap. Gabriel, o Pensador estoura com “Tô Feliz, Matei o Presidente”, com referências a Fernando Collor de Mello.

1994 – Tupac leva cinco tiros à queima-roupa em Nova York, mas sobrevive. O atentado é atribuído aos rappers Notorious B.I.G. e Puff Daddy. A guerra entre rappers das costas leste e oeste dos EUA culmina com o assassinato de Tupac, em 1996, e Notorius B.I.G., em 1997.

1998 – Lançamento de Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MCs, recorde de vendas do rap no Brasil, com 500 mil cópias oficiais. O rap americano vende 81 milhões de discos, superando todos os demais gêneros nos EUA no ano.

1999 – Fundação da Casa do Hip Hop de Diadema (SP), a primeira no gênero criada pelo poder público, em parceria com a Zulu Nation Brasil. lançamento do CD Traficando Informação, do carioca MV Bill. Lauryn Hill, ex-Fugees, recebe cinco prêmios Grammy por disco solo.

2000 – Eminem lança The Marshall Mathers e vende quase 2 milhões de cópias em uma semana. Mallokeragem Zona Leste (BMG), do Doctor’s MCs, é o primeiro disco de rap feito por uma multinacional no Brasil. O clipe “Isso Aqui É uma Guerra”, do grupo paulistano Facção Central, é censurado.

2002 – Lançamento do quinto disco dos Racionais MCs, Nada Como um Dia Após o Outro Dia. O rapper paulistano Xis participa do reality show “Casa dos Artistas”, no SBT. No ano seguinte, Sabotage, um dos grandes renovadores do rap nacional, é assassinado em São Paulo.

2004 – Expoentes do gangsta rap americano, Snoop Doggy Dogg e Ja Rule vêm ao Brasil para o megafestival “Hip Hop Manifesta”. O fenômeno americano 50 Cent faz show no estádio do Pacaembu. Marcelo D2 ganha três prêmios no Video Music Brasil da MTV

Para saber mais


Rap
O jamaicano Kool Herc é tido como o introdutor do conceito do rap nos EUA, a partir da transposição das disco mobiles (equipamentos de festas itinerantes) para o território americano. Afrika Bambaataa e Grandmaster Flash foram os grandes divulgadores do ritmo.

Na locadora:
Wild Style - Charlie Ahearn, EUA, 1982
Colors - As Cores da Violência – Dennis Hopper, EUA, 1987
Faça a Coisa Certa - Spike Lee, EUA, 1989
Aqui Favela, o Rap Representa - Junia Torres e Rodrigo Siqueira, Brasil, 2003

Na livraria:
Rap e Educação, Rap é Educação - Elaine Nunes de Andrade, Summus/ Selo Negro, Brasil, 1999
Ego Trip’s Book of Rap Lists - Sacha Jenkins et al, St. Martin's Press, EUA, 1999
The Vibe History of Hip Hop - Alan Light,Three Rivers Press, EUA, 1999
Funk: a música que bate – Simão Pessoa, Editora Valer, Brasil, 2000

Na internet:
Decifrando o DNA do Hip Hop - Parte 1 a 5
Decifrando o DNA do Hip Hop - parte 6 a 10
Decifrando o DNA do Hip Hop - Parte 11 a 15
www.bocadaforte.com.br
www.realhiphop.com.br
www.planet-hiphop.com
www.lehiphop.com

Break
A versão mais difundida afirma que o break foi uma resposta artística à enorme quantidade de soldados norte-americanos que voltavam mutilados da Guerra do Vietnã. Passos e gestos quebradiços fariam referência também à crescente robotização das linhas de montagem na indústria, que começara a gerar desemprego massivo.

Na locadora:
Warriors – Os Selvagens da Noite - Walter Hill, EUA, 1979
Flashdance – Em Ritmo de Embalo - Adrian Lyne, EUA, 1983
Beat Street - Stan Lathan, EUA, 1984

Na livraria:
Break Dancing - Terry Dunnahoo e Robert Sefcik, First Books, EUA, 1985
Breakdance: Hip Hop Handbook - Jairus Green, David Bramwell, Street Style, EUA, 2003

Na internet:
www.battleoftheyear.net
www.b-boys.com
www.batalhafinal.com.br

Grafite
Surge em fins dos anos 60, em Nova York, inicialmente como pichação. A disseminação de assinaturas – chamadas de tags – pelas paredes das cidades é atribuída a um americano de origem grega chamado Demetrius, conhecido pelo pseudônimo Taki 183.

Na locadora:
Style Wars - Tony Silver and Henry Chalfant, EUA, 1983
Through the Years of Hip Hop, Vol. 1 - Graffiti - EUA, 2001

Na livraria:
O que É Grafite? - Celso Gitahy, Brasiliense, Brasil, 1999
Graffiti World: Street Art from Five Continents - Nicholas Ganz, powerHouse, EUA, 2004
Street Logos - Tristan Manco, Thames & Hudson, Inglaterra, 2004

Na internet:
www.graffiti.org
www.at149st.com

Discos internacionais:

Rapper’s Delight, Sugarhill Gang, Sugarhill, 1979
Planet Rock, Afrika Bambaataa, Tommy Boy, 1982
It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back, Public Enemy, Def Jam, 1988
2Pacalypse Now, Tupac Shakur, Death Row/Interscope, 1991
Licensed to lll, Beastie Boys, Def Jam, 1986
3 Feet High and Rising, De La Soul, Tommy Boy, 1989
Quality Control, Jurassic 5, Interscope, 2000
The Marshall Mathers LP, Eminem, Interscope, 2000

Discos nacionais:

Hip Hop Cultura de Rua, Vários, Eldorado, 1988
Pergunte a Quem Entende, Thaíde e DJ Hum, Eldorado, 1989
O Som das Ruas, Vários, Chic Show, 1988
Sobrevivendo no Inferno, Racionais MCs, Cosa Nostra, 1997
Traficando Informação, MV Bill, Natasha Records, 2000
Rap é Compromisso, Sabotage, Cosa Nostra, 2001
Antigamente Quilombos, Hoje Periferia, Z’África Brasil, Paradoxx Music/Rapsoulfunk, 2002

quarta-feira, novembro 25, 2009

Movimentos discutem melhorias


Thiago Hermido
Da equipe de A CRÍTICA

O que é produzido em termos de cultura no Amazonas? Que políticas públicas culturais podem ser pensadas para região? Ou, ainda, de que maneira os segmentos do gênero podem se beneficiar com incentivos governamentais ou privados?

Esses são alguns questionamentos que serão discutidos no II Fórum Estadual da Diversidade Cultural no Amazonas, que acontece na próxima sexta-feira, das 9 às 18h, na Praça Heliodoro Balbi.

Para esclarecer ao leitor da importância do encontro, A CRÍTICA conversou com agitadores culturais que deram suas opiniões a respeito do debate público, além de discutir sobre a produção cultural realizada na capital e no interior do Estado.

Para Lucimar Weil, representante do Cedeca Pé na Taba, entidade realizadora do evento, o Fórum será um espaço para que os movimentos culturais, a sociedade civil organiza e os representantes do governo possam pensar em políticas públicas que melhor atendam a classe no Estado.

“É o segundo encontro que realizamos com essa proposta e servida de preparatório para a Conferência Estadual e Nacional de Cultura”, revela.

Opiniões

De acordo com o DJ Marcos Tubarão, integrante do Coletivo Difusão - grupo que desenvolve projetos culturais de artes integradas e audiovisuais - é preciso fazer desses debates ferramentas concretas para a produção cultural da cidade.

“Toda discussão coletiva é válida, porém quando se trata de um fórum ou uma conferência é preciso que tida a participação da população seja registrada e cobrada”, descreve o artista.

A sugestão de continuidade que Tubarão cita é um dos pontos analisados por Tom Zé, professor da Universidade Federal do Amazonas, e coordenador do projeto cineclube Cine Vídeo Tarumã.

“A grande discussão que deve ser posta durante esse tipo de evento é porque não consegue articular uma política de continuidade. Aqui são feitas políticas de grandes eventos, que passam e não deixam nada para a população. É preciso garantir que projetos como o cinema, por exemplo, possa ganhar capacitação e incentivo à produção, não apenas um grande festival”, exemplifica.

O escritor Márcio Souza declarou que debates públicos sempre são bem-vindo, principalmente se sugerem determinadas melhorias para um seguimento na população.

“Estamos aprendendo a debater e discutir em conjunto. Acho que bem ou mal, o importante é que essas reuniões desapertem na população o interesse em se posicionar no que ela acha melhor para si”, diz.

O Fórum Estadual da Diversidade Cultural no Amazonas contará com diversas mesas de debates e a participação de Sérgio Mamberti, presidente da Fundação Nacional da Arte (Funarte) e Célio Turino, secretário de Cidadania Cultural do Minc.

FLIFLORESTA Parintins 2009


A partir desta quinta-feira, dia 26, o município de Parintins recebe o Festival Literário Internacional da Floresta (Flifloresta), evento realizado em Manaus no ano passado e que, este ano, já ocorreu também nos municípios de Itacoatiara e Careiro da Várzea.

Com o apoio da Prefeitura de Parintins, de quinta-feira até sábado, escritores e artistas se dividem em palestras, debates, exposições e apresentações musicais que acontecerão na cidade.

Esta nova edição do Flifloresta leva ao interior do Amazonas o contato com obras e autores da Amazônia e do Brasil.

Ao mesmo tempo em que terá como referência a literatura, o Flifloresta patrocinará discussões e debates sobre questões relativas à leitura e a formação de leitores.

O evento contará com a participação de grandes escritores brasileiros, como Guilherme Fiuza (autor do livro “Meu nome não é Jhony”), Thiago de Mello, Adriana Lisboa, Márcio Souza, Zemaria Pinto, Wilson Nogueira, Marcos Frederico Krüger, Dori Carvalho, Renato Farias de Carvalho, Jorge Bandeira, Ana Peixoto, Ivânia Vieira, Mazé Mourão, Abrahim Baze e Tenório Telles, dentre outros.

O evento acontecerá no Auditório do Parintins Convention Center, onde ocorrerá o Simpósio de Leitura, Café Literário e Sessão de Autógrafos, com a participação dos escritores convidados e intelectuais de Parintins.

Como parte da programação será feita distribuição gratuita de livros na cidade, como forma de incentivar a leitura.

O Flifloresta é um Festival Literário concebido para ser um momento de celebração do livro, promovendo o encontro do autor com os leitores.

Tem como meta ser um ponto de convergência e diálogo entre os artistas da palavra da Amazônia, enriquecido com a presença de escritores de outras regiões.

O que fundamenta a sua existência é, portanto, a defesa do livro, a promoção da leitura e a luta pela construção de uma nova consciência social, fundamentada no conhecimento, nos valores estéticos e defesa da liberdade como condição para construção de um mundo mais justo e solidário.

Escritores e personalidades ligados à literatura são convidados para participar de mesas temáticas, palestras, debates, lançar e autografar suas obras durante o Festival.

Selda Vale e Ediney Azancoth recontam a história do Tesc


Autores do livro TESC - NOS BASTIDORES DA LENDA, os pesquisadores Ediney Azancoth e Selda Vale apresentam a trajetória de mais de 15 pessoas, atores e amigos que desenvolveram uma história do teatro no Amazonas iniciada em plenos anos de chumbo (1968), e que repercute até hoje - apesar de o livro só abarcar até o período de 2003.

Escrito com muito bom humor, o livro conta a história de uma elite “passadista, denunciando, com agressiva alegria, uma nova consciência”, afirma Selda.

O Tesc dos anos 70, o real e o imaginado, são temas para Ediney Azancoth, que dá visibilidade às pessoas, grupos, processos, movimentos, como o movimento teatral do fim do seculo 20.

Os pesquisadores mostram os grupos de teatro que não mais existem, mas que realizaram grandes feitos em sua época.

A história do Tesc continua a ser escrita pela performance do grupo, mas seu passado corria o risco de ser esquecido, por isso, Ediney Azancoth conta as peripécias destas trajetórias, que remonta a tempos passados que não voltam mais e que alguns não desejam ser esquecidos.

O lançamento do livro TESC - NOS BASTIDORES DA LENDA, acontece nesta quarta-feira, dia 25, a partir das 18h15, no SESC, com direito a coquetel, música e poetação a cargo de Dori Carvalho. Agende!

Maiores informações: 3656 1021 / 9602 1906 falar com Profª Dra. Selda Vale

terça-feira, novembro 24, 2009

O dia em que Evandro Carreira parou a cidade


Evandro Carreira nasceu em Alvarães, antiga Caiçara, município de Tefé, em 24 de agosto de 1927, se formou em Direito pela Universidade do Amazonas e sagrou-se o melhor orador universitário do Brasil, em concurso realizado na Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro.

Ex-presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito, foi o segundo vereador mais votado de Manaus pelo PST, em 1959. Reelegeu-se em 1963, no mesmo ano em que Josué Cláudio de Souza, diretor da rádio Difusora, elegeu-se prefeito de Manaus pelo PTB.

Ex-deputado estadual por três legislaturas e ex-deputado federal, o saudoso Josué Pai, que sempre foi um homem honesto e prestativo, pagou um preço muito alto por confiar demais nos seus subordinados.

Ao fazer vista grossa para o balcão de negócios em que seus auxiliares transformaram a Prefeitura, virou um alvo fixo da oposição.

Em julho de 1964, o vereador Rodolfo Vale (PST) entrou com um processo de “impeachment” contra o prefeito, por improbidade administrativa, e foi instalada uma CPI.

Evandro, que era amigo particular de Josué Pai, foi conversar com ele e explicou a situação. O prefeito preferiu acreditar na versão dos subordinados. Os dois brigaram feio.

A Comissão Parlamentar de Inquérito era composta por cinco vereadores, sendo que três deles (João Bosco Ramos de Lima, Zé Marques e Ismael Benigno) eram funcionários da Difusora. Os três votaram um parecer inocentando o prefeito e o parecer foi levado para votação no plenário.

Evandro ficou revoltado com o resultado da CPI.

Às nove horas da manhã, o presidente da Câmara Municipal de Manaus, vereador Zânio dos Reis, abriu a sessão:

– Vamos colocar em votação o parecer...

– Não pode, porque você é filho da puta! – berrou Evandro, partindo pra cima do presidente.

O edil ficou tão assustado que desmaiou. A sessão foi suspensa por quase cinco horas.

Por volta das duas da tarde, o vice-presidente da Câmara, vereador Raimundo Aleixo, retomou os trabalhos. Evandro bateu firme:

– Aleixo, eu sou teu amigo, mas não coloca esse parecer pra ser votado com esses três em plenário. Eles têm de se julgarem impedidos! Tem que ser feito um outro parecer, porque eles impuseram esse parecer na CPI e agora querem impor aqui no plenário. Não pode!

Aleixo reabriu a sessão e colocou o parecer em votação. Evandro arremessou um cinzeiro, que passou tirando “fino” da cabeça do vereador e se espatifou na parede.

Aos gritos de “filhos da puta, bando de ladrões!”, Evandro partiu pra cima da mesa diretora. A sessão foi suspensa de novo.

Os vereadores decidiram matar o “brigão” no cansaço. Começaram a se revezar na Câmara, esperando Evandro se ausentar do plenário. Quando isso acontecesse, eles votariam e aprovariam o parecer.

Seis horas da tarde, um cunhado de Evandro foi saber o que estava acontecendo. Ele explicou a situação e pediu que seu cunhado trouxesse armas e munição. Onze da noite, Evandro continuava na bancada. Passou a noite lá.

No dia seguinte, Aleixo e mais quatro vereadores resolvem abrir a sessão (Manaus tinha onze vereadores na época e a CMM funcionava no salão nobre da antiga Prefeitura). O placar seria de 5 a 1 e dariam os trâmites por findo.

Quando Aleixo abriu a boca, Evandro sacou uma pistola 7.65 e um 38 duplo cano longo, e engatilhou as armas. Não ficou uma alma viva no plenário nem nas galerias.

Duas horas depois, o vereador João Bosco criou coragem e foi falar com ele. Evandro não se fez de rogado:

– Olha, Bosco, eu estou louco! – avisou. “Se vocês colocarem esse parecer em votação, eu vou atirar pra matar! E o primeiro que vai morrer é quem estiver presidindo a sessão.”

Evandro ficou na bancada o dia inteiro, igual a um Bill the Kid anacrônico. A sessão ainda suspensa.

Por volta das nove da noite, chega o vereador Paulo Nery (licenciado e Chefe de Polícia do governador Artur Reis), na companhia de vários oficiais da PM e soldados. Evandro contou o que estava acontecendo.

Preocupado com a zorra que estava acontecendo, o governador queria falar com o “brigão”. Evandro concordou em ir até ao Palácio Rodoviário, desde que fosse garantido que na sua ausência não haveria sessão para aprovar o famigerado parecer.

Paulo Nery telefonou para o governador e ele concordou. Um major e quatro soldados ocuparam o plenário da Câmara.

Quando Evandro e Paulo Nery chegaram na casa do governador, nos altos do Palácio Rodoviário, já estavam lá o general Álvaro Santos, comandante do GEF, e meia dúzia de coronéis.

O general foi logo detonando:

– Em nome de quem o senhor está fazendo essa baderna na Câmara Municipal? O senhor agora virou xerife da cidade?...

Evandro não deixou por menos:

– General, eu estou me comportando assim em nome dos mesmos princípios que o senhor aprendeu na Escola Militar. Porque eu sou segundo tenente, com carta patente do Exército!

O general tomou um susto. Aí, chamou um coronel, conversaram baixinho, e ele voltou à carga:

– E daí? Qual é o direito que dá pro senhor fazer essa arruaça?...

O maninho se arretou:

– O meu direito, general, é o de lutar pelos princípios da revolução! Ou o senhor não fez a revolução?! Há corrupção na prefeitura de Manaus, general...

– Como é que o senhor prova? – insistiu o militar.

Evandro estendeu-lhe um calhamaço, com um parecer técnico proferido por um capitão de engenharia do Exército, confirmando o superfaturamento de obras e a utilização de material inadequado. O general ficou pasmo.

Evandro deixou a casa do governador e voltou para o plenário da Câmara, onde ficou de campana. Passou o resto da noite sem pregar os olhos.

Na manhã seguinte, na abertura da sessão, o vereador João Bosco, líder do prefeito na Câmara, leu a carta de renúncia de Josué Pai.

Só então Evandro deixou a CMM e foi pra casa dormir, depois de passar 54 horas no plenário.

Em outubro de 1964, com base no relatório da CPI, o governador Artur Reis demitiu Josué Pai do cargo de Juiz do Tribunal de Contas e o indiciou pelo crime de responsabilidade.

Absolvido das acusações alguns anos depois, o combativo radialista da “Crônica do Dia” daria a volta por cima, se elegendo deputado federal mais duas vezes.

Evandro Carreira se afastou da política em 68 para exercer a advocacia, sendo considerado durante muito tempo “a voz dos que não tinham vez”, já que não cobrava honorários da população carente.

No início dos anos 70, ele comprou uma briga federal com a Prefeitura durante a desapropriação do lupanar “La Hoje”, onde hoje está localizada a Estação Rodoviária, ganhando a causa e uma bela indenização para o dono, que lhe valeram régios honorários.

Em 1974, foi eleito senador pelo MDB. Ecologista quando ninguém sabia o significado da palavra, Evandro ganhou o apelido de “senador pororoca” pelo discurso caudaloso que fazia (e ainda faz) em defesa da Amazônia. É um santo guerreiro!

domingo, novembro 22, 2009

Felix Valois vai em busca do Tri na OAB-AM


Considerado um dos melhores juristas da história do Amazonas, meu brother Félix Valois Coelho Júnior é filho do professor Félix Valois Coelho e de Lucíola Magalhães Coelho, e nasceu em Manaus, no dia 21 de março de 1943.

Criado no bairro de São Raimundo brincando na rua, tomando banho de igarapé e jogando futebol de botão feito de caroço de tucumã, ele iniciou sua carreira jurídica como advogado do Banco do Brasil, em 1965.

Casado com a engenheira química Ilsa Maria, tem quatro filhos: Luiz Carlos (juiz de Direito), Lucíola (promotora de Justiça), Alfredo (médico cirurgião) e Lúcia (advogada).

Na política, o “demônio” já exerceu os cargos de deputado estadual (1982-1986), período em que também assumiu pela primeira vez a Secretaria de Justiça do Estado, de vice-prefeito de Manaus (1988-1992) e, novamente, de Secretário de Justiça e Cidadania (1996-2002).


Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde os anos 60, Felix elegeu-se deputado estadual pelo antigo grupo “autêntico” do MDB, dentro do saco de gatos em que havia se convertido o PMDB.

Com a entrada na legalidade do PCB (atual Partido Popular Socialista – PPS), ele voltou a fazer parte de seus quadros, encontrando-se atualmente fora da atividade partidária.

Professor de Direito Penal da Universidade do Amazonas por mais de 20 anos, atualmente ele é professor no Centro Integrado de Ensino Superior do Amazonas e no Centro Universitário Nilton Lins

Já tendo exercido a presidência da OAB/AM durante dois mandatos (1975 -1977, 1977-1979), Felix Valois vai tentar se eleger presidente da entidade pela terceira vez no próximo dia 27, sexta-feira, tendo como companheiro de chapa Celso Valério.

Quatro chapas concorrem à eleição da OAB/AM. Além da de Felix Valois, há, ainda, a de Fábio Mendonça e Simonetti Neto, a de Eid Badr e Glen Wilde Freitas, e a de Felix Mello Ferreira e Geraldo Frazão.

Curtam, então, algumas histórias vivenciadas por esse gigante do bem querer chamado Felix Valois.

1

Na época um dos principais editorialistas do jornal A Crítica, Fábio Lucena foi eleito vereador pelo MDB em 1972 e, no ano seguinte, foi logo mostrando serviço.

Discordando do valor do IPTU das casas populares cobrado pela Prefeitura, Fábio Lucena, da tribuna, incitou a população a queimar os carnês de cobrança, no que foi prontamente atendido. Mais de 5 mil carnês foram incendiados.

A ditadura militar subiu nas tamancas e o jornalista foi processado por subversão, com base na Lei de Segurança Nacional.

O jornalista Umberto Calderaro, diretor de A Crítica, resolveu comprar a briga do editorialista e contratou para defendê-lo um dos mais prestigiados escritórios jurídicos da cidade, o lendário “Paiva, Simonetti e Valois”.

Depois de quatro anos de peleja, o julgamento do jornalista finalmente foi marcado para ser realizado na Auditoria Militar de Belém. O advogado Félix Valois foi escalado para fazer a defesa do edil.

Os dois chegaram a Belém uma semana antes do julgamento e ficaram hospedados no hotel Grão Pará, no centro da cidade.

Numa época pré-xerox e pré-fax, todas as anotações oriundas das consultas aos autos tinham que ser feitas na base do muque. Os dois logo estabeleceram uma rotina espartana.

Pela manhã, ficavam copiando o processo e retornavam para o hotel, por volta do meio dia. Depois do almoço, Felix ia estudar as anotações, pesquisar nos livros de Direito e elaborar a linha de defesa, numa tarefa ingrata que só terminava de madrugada.

Fábio deitava na cama, ligava a televisão e pedia um uísque duplo, invariavelmente Chivas Regal. A partir daí, ficava nesta tarefa ingrata de encher a cara de manguaça até de madrugada, já que odiava dormir com a luz do quarto ainda acesa, enquanto Valois trabalhava.

E, nessa rotina espartana, os dias iam se passando.

Na véspera do julgamento, com toda a defesa anotada a mão em quase quinhentas folhas de papel almaço, Felix resolveu relaxar.

Assim que colocou um ponto final no texto e começou a guardar o calhamaço numa pasta, virou-se para o jornalista e suplicou:

– Ô, Fábio. Já que você vai pedir uma outra dose de uísque pra ti, pede uma pra mim também!

Eram quase dez horas da noite. Fábio Lucena já havia detonado uma garrafa inteira de Chivas, mas, ainda assim, respondeu de bate-pronto:

– Uma porra, Félix, uma porra! Não peço um uísque pra ti nem pelo caralho! Amanhã é dia do meu julgamento! De repente, tu acordas de ressaca e me fazes uma defesa de merda, daí quem se fode todo sou eu! Meu irmão, você pode até ficar puto, mas não vou deixar você beber não! Com esses macacos fardados não dá pra gente facilitar!

E não pediu o uísque para o causídico.

No dia seguinte, sem ressaca e com uma argumentação brilhante, Felix conseguiu a absolvição do jornalista.

Os dois, na companhia de Umberto Calderaro, Alberto Simonetti, José Paiva e de vários jornalistas, políticos e intelectuais, que haviam viajado a Belém somente para acompanhar o julgamento, comemoraram a vitória no bar do hotel Grão Pará, tomando um porre de juntar crianças.

2

Orlando Farias, Chicão Cruz, Rogelio Casado, Felix Valois, Mário Adolfo, Anchieta meio encoberto pelo Façanha, Pedro Paulo e esse vosso escriba

Félix Valois era candidato a senador pelo PPS e seus cabos eleitorais estavam panfletando no Bar do Armando, conhecido reduto de intelectuais da cidade.

Um sujeito, com ar superior, pegou um dos panfletos, leu o currículo do candidato, embolou o panfleto na mão, jogou no chão e, antes de pegar o copo de cerveja para ingerir, falou bem alto, com ar triunfal:

– Eu não vou votar no Félix Valois porque ele só defende assassinos, ladrões, bandidos e traficantes!...

O promotor público Francisco Cruz, que bebia numa mesa ao lado, não perdeu tempo:

– Quer dizer então, ô ignorante, que o Félix só deveria defender homens de bem?... Porra, deixa de ser besta! Homens de bem não precisam de advogados, ô idiota! - detonou Chicão.

O ignorante, besta e idiota deu um riso meio amarelo e passou o resto da noite sem abrir a boca.

3

Em meados dos anos 60, Felix Valois estava defendendo um cliente acusado de várias falcatruas cabeludas (incluindo participação em estelionato, homicídio qualificado e formação de quadrilha).

Advogado em início de carreira e ainda sem condições financeiras de freqüentar um dos famosos escritórios jurídicos da cidade para esclarecer suas dúvidas, Felix convocou sua esposa, a engenheira química Ilsa Valois, para trabalhar informalmente como assistente de defesa.

Era Ilsa que pesquisava, naquele cipoal de livros jurídicos existentes na casa dos dois, a jurisprudência necessária para sustentar a linha de defesa utilizada pelo marido.

No dia do julgamento no Tribunal do Júri, o promotor apresentou provas irrefutáveis sobre a participação do sujeito nos crimes imputados e pediu 137 anos de condenação ao réu.

Felix Valois não duvidava da culpabilidade do sujeito, mas teve de suar sangue para conseguir convencer os jurados a reduzirem a pena do cliente, já que este é o dever moral de qualquer advogado que se preze.

Ao chegar em casa depois do julgamento, ainda exultante pela argumentação consistente que havia utilizado, Felix foi abordado pela esposa:

– E aí? Como é que foi a nossa defesa? – quis saber ela.

– Boa, muito boa. Eu diria até que excelente. Ele foi condenado a oito anos de prisão! – explicou Felix.

Ilsa tomou um susto. Irritadíssima, detonou o marido:

– Oito anos?... O nosso cliente pegou tudo isso?... Oito anos?... Mas como?... Não acredito... Onde foi que nós erramos?... Me conta: onde foi que nós erramos?...

Felix passou uma semana sem dirigir uma palavra à assistente.

4

Magela e Georgina Andrade, Nestor Nascimento, Felix Valois e eu, everybody looking for flying saucers in the sky

Maio de 1984. Professor de Direito Penal da Universidade do Amazonas, Félix Valois estava dando uma aula sobre o instituto do “estado de necessidade”, para uma turma de quase cinqüenta pessoas.

– Nosso Código Penal diz que “se considera em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se”.

– Traduza para o português, mestre! – apartou um aluno meio dentuço, cabelo de corte militar, os olhos mortiços escondido atrás de caprichosos óculos com lentes bifocais fundo-de-garrafa, ostentando um rosto cheio de espinhas, calça jeans detonada e camisa negra com estampa do Iron Maiden, enquanto se contorcia na cadeira para melhor roer as unhas. Em suma, o sujeito era um nerd profissional, ou melhor, um brasileiríssimo cdf.

Félix resolveu dar um exemplo simples.

– Imaginem dois náufragos em um pequeno bote inflável perdidos na imensidão do mar. A costa está a 200 milhas, mas a água potável disponível na embarcação é insuficiente para que ambos consigam chegar até lá. Entretanto, a água é suficiente para que apenas um deles realize a proeza. Neste caso, o mais forte pode matar o mais fraco, para tentar se salvar, que o crime não lhe será imputado. Isto, porque o Estado opta por preservar uma vida, em vez de simplesmente perder as duas...

– É evidente que nesta circunstância hipotética, o senhor está apenas emulando uma questão de fundo! – bazofia o cdf, crente que vai encurralar o professor numa sinuca de bico. “Eu estou olhando aqui no Código Penal Brasileiro e ele diz que o ato só se justifica se por outro meio não puder ser evitado...”

– Foi o que eu acabei de falar! – diz Félix, enquanto consulta o relógio com impaciência.

– Como o senhor já disse em outra ocasião, nós precisamos observar a questão por todos os ângulos! – insiste o cdf. “Será que não existe um outro meio de se evitar a tragédia?...”

– Neste caso hipotético, não, não existe. Foi para legislar sobre uma situação igual a esta que se instituiu o “estado de necessidade”... – explica Félix, pacientemente.

– Eu não acredito. O senhor está absolutamente convencido de que não existe uma segunda ou uma terceira alternativa, e de que, neste caso, a única solução admissível é o mais forte matar o mais fraco?... – continua o sujeito

Félix pensou um pouco.

– Para ser franco, nesse caso específico existem apenas duas outras alternativas possíveis! – corrigiu o professor, aumentando o volume da voz para 130 decibéis. “O mais fraco pode se safar se tiver aprendido a voar, como os passarinhos, ou se tiver aprendido, como o Pai Eterno, a caminhar sobre as águas...”

O resto da turma explodiu numa gargalhada só.

O cdf ficou tão transtornado, que trancou a matrícula e nunca mais foi visto. É bem capaz de hoje ser juiz classista aposentado em alguma comarca do interior.

5

Dr. Santana, Rui de Carvalho, Conceição, Celito, Heloísa Chaves, eu, Flávio Lauria, Humberto Amorim e Felix Valois

Agosto de 1989. Ainda no papel de professor de Direito Penal da Universidade do Amazonas, Félix Valois, na época vice-prefeito de Manaus, estava explicando para os alunos a eficácia das leis brasileiras sob a ótica do princípio da nacionalidade.

– De acordo com o princípio da nacionalidade, um Estado pode exercer jurisdição sobre seus nacionais, inclusive sobre atos por eles praticados fora do território do Estado, regra que suscita muitos conflitos de jurisdição internacional entre os Estados – explicou ele. “O fundamento deste princípio é a preservação de regras de direito interno, seja daquelas que garantem direitos fundamentais aos seus cidadãos, seja daquelas que tipificam condutas antijurídicas indesejáveis, catalogadas na categoria de crime. Alguém tem alguma dúvida sobre isso que acabei de falar?...”

A garotada parecia estar em estado de transe. Félix esperou mais alguns minutos e como ninguém se manifestou, ele foi em frente.

– Em matéria penal, o direito brasileiro dispõe sobre a jurisdição brasileira, sem prejuízo de convenções internacionais, tratados e regras de direito internacional, equiparando o crime cometido no estrangeiro por nacionais ao crime de nacionais cometido em território nacional – afirmou. “Considera a lei nacional como local do crime o lugar ‘onde ocorreu a ação ou omissão, no todo ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado’ (art. 6º do Código Penal), sendo punido pela lei brasileira, embora cometido no estrangeiro, os crimes elencados no art. 7º do referido Código desde que, respeitadas as exceções previstas na lei, o agente adentre em território nacional, o fato seja punível também no local do fato, estar o crime entre aqueles que o Brasil permite a extradição, não ter sido o agente absolvido ou perdoado no estrangeiro e não estar extinta a punibilidade segundo a lei mais favorável. No que se refere à extradição, a Constituição Brasileira de 1988 trata do assunto entre as cláusulas pétreas (art. 5º, LI; 60, §4º, IV), determinando que ‘nenhum brasileiro será extraditado, salvo o naturalizado, em caso de crime comum, praticado antes da naturalização, ou de comprovado envolvimento em tráfico de entorpecentes e drogas afins, na forma da lei’”.

Os alunos continuavam quietos, como se estivessem travando contato pela primeira vez com a Lei da Relatividade, de Einstein. Félix resolveu resumir a verborragia jurídica para português de botequim.

– Como vocês puderam perceber, o Código Penal brasileiro diz que o cidadão que comete um crime em outro país será punido no Brasil, mesmo que ele já tenha cumprido pena no lugar onde cometeu o crime. Aqui os legisladores pisaram na bola. O certo seria “processado” no lugar de “punido”...

– O senhor está dizendo que o código está errado? – espantou-se uma menina de vestido tomara-que-caia, sentada na primeira fila.

– Estou, minha filha! – garantiu Félix, consultando o relógio com impaciência.

– E por que então não se conserta o código?... – insistiu a menina.

– Não faço a menor idéia! – garantiu o professor, enquanto juntava seus papéis e abandonava a sala de aula.

Além de demoníaco, Félix Valois sempre foi um defensor incorrigível do mote “para perguntas imbecis, respostas de igual calibre”.

Ah, sim, o código continua “errado”. Quem sabe se o futuro Congresso Nacional não toma uma atitude e corrige a “mancada”...

sexta-feira, novembro 20, 2009

A disciplinada hierarquia Isper


Acram Jr., Acram Isper e Karime, no tempo em que eram todos jovens

Karime Isper

Desde que me entendo por ser pensante as coisas lá por casa funcionam da seguinte maneira: o que é do meu pai passa pro meu irmão e o que era do meu irmão automaticamente passa pra mim. Nessa ordem imutável.

E isso compreende as coisas mais variadas, começando por produtos eletrônicos, passando por carros e terminando em confortáveis camisas de botão, que os quilinhos a mais os impedem de usar – e eu adoro como roupa de casa o estilo “peça da escola pro dia dos pais”.

Não me entendam mal, isso é maravilhoso! Principalmente quando o assunto é gadgets eletrônicos, tecnologia de ponta e produtos de última geração que eu nem supunha existir.

Meu pai é um tecnology junkie e o Acram Jr. é uma cópia cuspida dele. Desde pequeno, meu irmão montava e desmontava um monte de coisas: carrinhos de controle remoto, videogames antigos, computadores do papai...

Ele sempre foi bastante curioso e cheio de idéias mirabolantes para o monte de fios coloridos colados em placas verdes que, a partir de seu toque pessoal, garantia, iria deixar o objeto “mais rápido, mais definido, mais alto, mais tudo”.

O primeiro videocassete da cidade foi comprado pelo meu pai. Ele trouxe “do estrangeiro”, numa de suas inúmeras viagens aos EUA, e passou vários dias brincando de descobrir todas as maravilhosas funções daquele aparelho revolucionário. E isso foi só o começo.

Perdi as contas de quantas vezes vi o laser disc do Michael Jackson servir de bucha de canhão para que papai testasse o som, que tinha que ser sempre no volume mais alto, de um novo produto adquirido. Se as paredes da casa não vibrassem como durante um terremoto, alguma coisa estava errada...

E quando estávamos, enfim, entrando no clima do “moon dancing”, ele pausava o aparelho, mexia nos fios lá atrás, invertia a posição de alguns conectores, voltava, recomeçava... E lá íamos nós tentar entrar no clima de novo.


Acram Isper, ao lado de Fredinho, após dar um susto da gota serena nos seus milhares de fãs, no ano passado

As experiências do meu irmão com videogames foram incontáveis. Ele começou com o Atari e não parou mais. Nintendo, Super-Nintendo, Gameboy, Turbo-Express, Game Gear, todos eram comprados por ele assim que eram lançados e, evidentemente, sempre acabava pagando mais caro. Pior: não demorava muito, era lançado um outro que deixava aquele, digamos assim, obsoleto. Era aí que eu entrava.

Mr. Acram Jr., mestre supremo das negociações, trocava o seu novíssimo videogame por um determinado número de favores meus em um determinado período de tempo. Ele ficava bem na fita, já que posava de “bom moço” pro patriarca e ainda ganhava, de brinde, o novo aparelho que ele queria. E eu, por outro lado, torcia pra ele ganhar um novo aparelho porque sabia que um dia aquele também seria meu.

Os anos foram passando e, com isso, os interesses. Videogames já não me atraiam mais e foi a vez dos computadores. Eu “precisava” de um computador no meu quarto para trabalhos escolares e, lógico, passar horas conversando com amigos no mIRC.

Mais uma vez o maravilhoso desktop do meu irmão veio parar no meu quarto enquanto ele se deliciava com o que o papai tinha transferido para ele e o papai, por sua vez, abria as caixas do seu mais recente objeto de desejo.

Foram anos e anos até que eu percebesse que seria mais prático um notebook e daí já dá pra imaginar o que aconteceu...

Quando fiz 18 anos, o carro próprio era a meta. Herdei logo o rejeitado Scenic vinho de meu irmão. Não sabia muito bem como dominar aquela máquina e bati logo na segunda semana, aliás, pela segunda vez. A primeira foi um “arranhãozinho” lateral no portão de casa.

Quando o Scenic foi pro conserto, emprestei o Audi A3, fruto de uma penosa negociação com meu irmão, mas que, fugindo à regra, ainda estava virtualmente sob o controle do meu pai. Quando voltou o Scenic... Bem, evidentemente, eu já não queria mais saber dele.

Televisão foi uma das coisas de maior rotatividade. Até pouco tempo, a minha era uma fantástica Toshiba Lumina Line de 29”, que durante alguns anos reinou soberana e absoluta no quarto ao lado, até o aparecimento das incomparáveis televisões de plasma.

Não demorou muito para os geeks se sentirem ultrapassados pela concorrência e comprarem logo duas televisões de plasma, uma pra cada um.

No rescaldo dessa nova reciclagem, eu acabei trocando a minha Mitsubishi de 21”, que havia ganho num sorteio da feira de ciências da escola, pela lindona e bunduda Toshiba de 29”.

Bem, dessa vez (cá entre nós), o upgrade tecnológico demorou mais do que o previsto. Eu sempre me perguntava, olhando para o céu: “Quando será que o papai vai se cansar da TV dele pra dar pro Acram Jr. e eu, por conseguinte, ficar com a dele?”.

O tempo passava, o tempo voava, a poupança Bamerindus se afundava e o dois continuavam satisfeitíssimos com suas televisões de plasma. Por força das circunstâncias, eu aprendi a amar de coração a minha vintage.

Finalmente, meu pai se encantou por uma televisão maior e, por supuesto, ainda melhor. A caixa ocupava mais da metade da sala e, enquanto os dois se divertiam com os milhares de fios multicoloridos para serem conectados, eu dava pulinhos de alegria.

Meu irmão não contou história e foi logo trocando a dele pela antiga tevê do velho e em pouco tempo eu já estava com a minha maravilhosa TV de plasma com polegadas jamais antes experimentadas pelo meu humilde aposento.

E viva a vida em alta definição!