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quarta-feira, junho 30, 2010

Pra não esquecerem de Armandinho "Edson Piola" Nahmias


O supertime do Fast Club, uma das eternas paixões do meu brother Felix Valois. Em pé: Antônio Piola, Casemiro, Pompeu, Marialvo, Zezinho e Zequinha Piola. Agachados: Paulo Pernambucano, Rangel, Edson Piola, Simão e Adinamar. (foto by blog Bau Velho, do estimado Carlos Zamith)


Outubro de 1969. Dois anos mais velho do que eu, Armando Nahmias morava ao lado da casa do seu Aluisio Silva e foi um dos primeiros moleques com que fiz amizade quando fui morar na rua Parintins.

Fanático pelo futebol estiloso do ponta de lança Edson Piola, uma das glórias do futebol amazonense de todos os tempos, Armandinho era um dos poucos peladeiros que participava de “rachas” no meio da rua irradiando o jogo, como se tivesse incorporado o próprio craque fastiano: “Bola com Edson Piola. Driblou o primeiro, driblou o segundo. Tocou para Fuinha. Recebeu de volta na entrada da área. Vai chutar. Chutou. É gol. Goooollll de Edson Piola! Ele vai pra Copa! Em 70!”.

Ficou conhecido como Armandinho Edson Piola.

Nessa época, a imprensa amazonense estava forçando a barra para que Edson Piola fosse convocado para a seleção brasileira, como reserva do Tostão. Não colou. Mas o craque amazonense foi convidado para viajar ao México e ser comentarista esportivo de uma das rádios locais. Quer dizer, Edson Piola iria para a Copa do Mundo de qualquer jeito.

Armandinho aproveitava o mote para ironizar uma família de ribeirinhos pálidos e magricelas, tangidos pela cheia do rio Solimões, que estavam morando no bodozal da rua Maués e, salvo engano, eram parentes do Rui Assunção. Sempre que via um deles caminhando pela rua, Armandinho detonava: “Esse não vai ver o Edson Piola na Copa. Ele não vai pro México! Em 70!”. E caía na gargalhada.

Primo da Fátima Loura e do Antonio José (aka “Anzol”), Antonio Aluisio era um moleque de 14 anos que morava no final da rua Borba e pilotava uma motocicleta Honda C-125 com a disposição suicida de um praticante de “freestyle” encharcado de anfetaminas.

Saindo de sua casa na rua Borba em direção à rua Parintins, a 100 km/h, ele soltava as mãos do guidão e ficava em pé em cima da motocicleta, enquanto cortava todas as ruas transversais do bairro (Ajuricaba, Ipixuna, Santa Isabel, Silves, Manicoré, Itacoatiara e Tefé) sem dar confiança para os semáforos.

Em frente ao Top Bar, ele se sentava de novo sobre a moto e sem tocar no guidão, apenas com o auxílio do corpo, dobrava à direita, na rua Parintins, e ia até a rua Urucará na mesma velocidade.

Só então ele colocava as mãos no guidão, freava, fazia o retorno na rua Parintins, subia até a rua Borba, e embicava de novo em direção à sua casa em alta velocidade repetindo a mesma presepada.

Quando estava de bom humor, ele parava a moto em frente ao bar e convidava algum dos moleques presentes para subir na garupa. Luiz Lobão, Chico Porrada, Rubens Patinete, Sidão, Kepelé, Fábio Costa, Petrônio Aguiar e eu próprio foram alguns do que encararam aquela experiência kamikaze indescritível.

O bailado que ele fazia sem tocar no guidão, apenas inclinando o corpo para um lado e para outro fazendo com que a motocicleta em alta velocidade quase roçasse o chão, era verdadeiramente de tirar o fôlego. Antonio Aluisio desafiava a morte umas 50 vezes por dia. Era um louco.

Morador da Cohab-AM do Parque Dez, Marcus Lima (aka “Markito”) tinha 15 anos, possuía uma motocicleta Honda C-90 e também fazia as mesmas lambanças de Antonio Aluisio – apenas em uma velocidade mais baixa.

Quando os dois se encontravam em frente ao Top Bar para se desafiarem mutuamente sobre duas rodas, a molecada ia à loucura porque aquele era um duelo de titãs. Os dois eram exímios motoqueiros e, por incrível que pareça, jamais haviam se envolvido em acidentes.

No começo de uma noite de domingo daquele mês, entretanto, a ema gemeu no tronco da jurema. As cocotinhas Silane e Edna pediram ao Antonio Aluisio para dar um passeio de moto até o aeroporto de Ponta Pelada. O motoqueiro concordou e colocou as duas na garupa.

Markito resolveu acompanhá-los no passeio e Armandinho Edson Piola, que estava de bobeira me esperando para irmos juntos ao cinema, se aboletou na garupa de Markito.

Como a Honda C-90 estava com os faróis queimados, Markito sugeriu que Antonio Aluisio dirigisse um pouco mais devagar para ele aproveitar a iluminação da Honda C-125, já que a iluminação pública das ruas era quase ficção científica.

Os dois motoqueiros seguiram pela rua Borba, contornaram a Boca do Imboca, em Educandos, embicaram pela Leopoldo Peres e seguiram pela Presidente Kennedy até o aeroporto, sem sobressaltos.

Na volta, fizeram o mesmo trajeto. Em frente à igrejinha do Pobre Diabo, na rua Borba, Antonio Aluisio percebeu que o semáforo da rua Silves havia ficado no modo “laranja” e resolveu aproveitar o mesmo. Ele acelerou ao máximo e conseguiu passar pelo sinal na hora em que ele ficava “vermelho”.

Markito, que vinha um pouco mais atrás numa moto de menor potência e de faróis apagados, tentou fazer o mesmo. Infelizmente, embaixo do semáforo, a sua motocicleta foi atingida por um ônibus em alta velocidade, que estava vindo do Japiim em direção ao centro da cidade.

Markito foi cuspido a uns cinco metros de distância e fraturou as duas pernas. Armandinho ficou preso com a motocicleta embaixo do ônibus e foi arrastado por quase 10 metros.

Apesar de ter sido socorrido na mesma hora, ele não resistiu aos ferimentos e faleceu na mesa de operação da Beneficente Portuguesa. Seu corpo começou a ser velado na casa de seus pais na madrugada da segunda-feira.

Armandinho não viu Edson Piola na Copa nem o Brasil ser campeão no México. Em 70.

E pela primeira vez na vida eu percebi que a dama de negro não estava para brincadeiras.

Até então, eu acreditava piamente que moleques da nossa idade eram imortais. Não eram.

O big bang do teatro naturalista no Amazonas


Novembro de 1976. O Teatro Amazonas estava sendo palco da 1.ª Mostra de Teatro Cênico do Amazonas, com a apresentação de grupos teatrais dos quatro cantos da cidade. Como não era uma mostra competitiva, estavam participando do evento desde as famosas companhias Teatro Saltimbanco de Combate (Tesc), de Márcio Souza, e Grupo Universitário de Teatro do Amazonas (Gruta), de Marcos José, até obscuros grupos amadores da periferia.


Numa sexta-feira, com o teatro colocando gente pelo ladrão, começa a apresentação do grupo Sangue Novo, de Santo Antônio, formado por três moleques recém-saídos da adolescência: Orlando Farias, Sebastião Carril e Isaura Gonçalves.

Intitulada Embaixo do mosquiteiro, a peça tinha sido escrita por Orlando Farias e era uma crítica bastante ácida aos pastores evangelistas da época, com petardos metafóricos ao regime militar. O cenário era de uma pobreza franciscana: apenas uma rede armada embaixo de um mosquiteiro, onde a mulher do pastor passava a maior parte do tempo se embalando.

O clímax do espetáculo colocava em um canto do palco, sob um spot luminoso, o pastor (Sebastião Carril) pregando sobre o fim do mundo enquanto no outro canto, sob uma luz incidental, um soldado (Orlando Farias) passava o ferro na esposa do pastor (Isaura Gonçalves) embaixo do mosquiteiro.

Sentado na primeira fila da plateia, Antonio Paulo Graça levou um susto quando percebeu, dentro da rede, Orlando Farias levantar as duas pernas de Isaura na famosa posição “frango assado” e começar a remexer os quadris vigorosamente. Ele cutucou Guto Rodrigues, que estava sentado ao seu lado:

– Porra, Gutinho, aqueles dois atores estão trepando de verdade...

Guto minimizou a cena:

– Não é de verdade não, Paulo. Eles estão apenas simulando um coito e colocando muito realismo na representação...

Nesse momento, no palco, Orlando Farias colocou a atriz na posição “vaca atolada” e começou a dar vigorosas estocadas do tipo duas fundas e uma rasa. A rede só faltava virar. Não demorou muito para Isaura chegar ao orgasmo. Seu gemido rouco atingiu a plateia silenciosa com a força de uma bofetada. As luzes do palco se apagaram, dando o espetáculo por encerrado. Orlando nem deu bola e continuou castigando a infeliz até ele próprio soltar um gemido rouco, uns cinco minutos depois, e desabar dentro da rede.

No dia seguinte, os jornais locais deitaram e rolaram sobre a cena de sexo explícito ocorrida no palco do quase centenário Teatro Amazonas e garantiram que “o grupo Sangue Novo havia instituído o teatro naturalista em nossa terra”.

Os organizadores da mostra, evidentemente, ficaram putos da vida e proibiram uma segunda apresentação do grupo de Santo Antônio. Se quisessem apresentar aquele tipo de peça, eles que fossem se exibir no palco do Saramandaia, o basfond mais famoso de Manaus.

De qualquer forma, o feito histórico de Orlando Farias e Isaura Gonçalves jamais foi igualado ou superado por outros atores em cena. Pelo menos no palco do Teatro Amazonas.

Cine Ypiranga para principiantes


Pro meu amigo de infância José Fernandes Junior (aka “Barrote”), atualmente auto-exilado em Salvador (BA)


Nas décadas de 60 e 70, duas companhias exibidoras monopolizavam os cinemas locais: a de Luiz Severiano Ribeiro, dos cines Odeon, Polytheama e Éden, e a de Adriano Bernardino, dos cines Avenida, Guarany, Ypiranga, Popular, Vitória, Ideal e Palace.

O cine Odeon, localizado na Eduardo Ribeiro canto com a Saldanha Marinho, era o único que possuía ar condicionado central. Todos os demais possuíam gigantescos ventiladores com pás de quase dois metros.

O cine Avenida, também na Eduardo Ribeiro, e o Guarany, na Getúlio Vargas, possuíam uma espécie de frisa, no 2º andar, que logo se transformaram em “galerias do amor”, com pegações e armações ilimitadas de todos os tipos.

Eram os locais favoritos para a prática da caça esportiva dos famosos “bocas de fogo”, nome genérico dos mancebos que gostavam de bolinar garotinhos.

A partir dos anos 80, à medida que os cinemas tradicionais iam fechando as portas e dando lugar a empreendimentos bancários, comerciais ou templos evangélicos, dois novos exibidores entraram no mercado: Jesus Leong (Cinema 2, Cinema Novo e Cine Qua Non) e Joaquim Marinho (cines Chaplin, Cantinflas, Oscarito, Grande Otelo, Carmen Miranda e Renato Aragão).

Após a morte do empresário Adriano Bernardino, em meados dos anos 80, sua família foi se desfazendo da cadeia de cinemas até só restar o cine Studio Center, administrado por seu filho mais velho, Adrianinho, localizado nos altos de um edifício na Saldanha Marinho, que hoje também já faz parte do passado.

Na verdade, logo após a entrada em cena dos shoppings centers, os cinemas tradicionais foram rifados do mapa e substituídos pelas modernas (e minúsculas) salas do Amazonas Shopping, Millenium Center, Shopping São José e Studio 5.

Considerado a jóia da coroa em sua época, o cine Ypiranga, na Cachoeirinha, era o maior e o mais bonito de todos. Basta dizer que nas partes do fundo ficava a residência do empresário Adriano Bernardino, um rotundo filho de portugueses que havia erigido seu império cinematográfico trabalhando de sol a sol feito um burro de carga.

Sempre bem humorado, de voz pausada e elegante, Adriano Bernardino supervisionava pessoalmente as exibições nas sessões de matinê, aos domingos, no cine Ypiranga, e gostava de explicar didaticamente para a molecada o enredo dos filmes em cartaz.

O empresário costumava ficar sentado em um dos três gigantescos sofás de couro existentes no salão de entrada do cinema, onde ficavam as bomboniéres e os cartazes das próximas atrações do cinema.

Na parte externa do cinema ficavam as quatro bilheterias (do lado esquerdo), uma lanchonete (do lado direito) e as duas portas de saída, uma de cada lado.

Um imenso painel retratando o “Grito do Ipiranga”, de Pedro Américo, separava o salão de entrada do salão de exibição. Dois balcões de madeira envernizada, um de cada lado, delimitavam o início das fileiras de cadeiras.

O gigantesco salão era dividido por um grande corredor, que começava entre os balcões de madeira e terminava no palco. Do lado esquerdo do palco, ficavam os sanitários masculinos. Do lado direito, os femininos.

Havia dois outros corredores nas laterais, que davam diretamente nos sanitários. Dois imensos corredores horizontais cortavam o corredor principal, formando seis conjuntos de cadeiras.

Cada conjunto possuía 20 filas de cadeiras de madeira, marca Cimo, de assento dobrável, sendo que cada fila dispunha de 20 cadeiras. No total, 1.200 lugares. Uma festa!



A gente sabia que a sessão iria começar quando os funcionários do cinema começavam a fechar apressadamente as gigantescas portas laterais existentes em cada lado do salão.

As luzes internas se apagavam. As laterais do palco eram iluminadas por uma profusão de cores em ordem seqüencial (vermelho, roxo, amarelo, azul, verde, laranja, etc), enquanto as cortinas se abriam lentamente.

Os gritos e assovios da molecada eram ensurdecedores. A mesma zoeira acontecia quando a fita quebrava e era necessário fazer a substituição dos rolos.

Dessa vez, os gritos e assovios eram acompanhados de batidas frenéticas do assento das cadeiras nos encostos, o que deixava Adriano Bernardino e os lanterninhas à beira de um ataque de nervos.

De vez em quando, um moleque mais abusado flagrado durante a prática delituosa era expulso do recinto.

Nos cinemas do centro, rolava a chamada sessão contínua, com exibições do mesmo filme a partir do meio-dia e intervalo de duas horas entre o início de cada sessão. Nos cinemas dos bairros, a história era outra.

Havia a sessão matinal, das 9h ao meio-dia, com dois filmes em cartaz. Por causa do horário, o ingresso sofria uma redução de 50%. Havia a sessão matinê, das 13h às 15h45, também com dois filmes em cartaz, a sessão vespertina, das 16h às 18h, com um filme em cartaz, e a sessão noturna, das 20h às 23h, com dois filmes em cartaz.

Ou seja, um fanático pela sétima arte poderia assistir até seis filmes diferentes em um único dia (o filme da sessão vespertina, em geral, era um dos dois que seria exibido na sessão noturna).



Os seriados eram uma atração das sessões domingueiras, e seu público era infanto-juvenil em idade física ou mental. Compunham-se de doze ou quinze episódios de cerca de dezoito minutos (dois rolos) cada, exibidos semanalmente nas matinês como complemento a um filme do mesmo estúdio, quase sempre um faroeste de sessenta ou setenta minutos estrelado por um cowboy – alguém assim como Roy Rogers, Allan “Rocky” Lane ou Durango Kid.

O total perfazia a hora e meia de uma sessão normal. A meia hora restante para a sessão seguinte era o que levava para se recolher os papéis de bala, restos de pirulitos, chicletes no fundo do assento e outras nojeiras deixadas pelos garotos.

Depois de uma boa briga ou de um tiroteio em que as balas miavam, cada episódio do seriado terminava com o herói ou heroína pendurado no precipício (daí o nome pelo qual os seriados eram conhecidos em inglês: cliffhangers), amarrado dentro de um paiol que explodia ou desacordado num carro que voava pela ribanceira. A ação se interrompia e um aviso dizia: “Voltem na próxima semana para ver a continuação deste episódio!”.

Na dita volta, repetia-se o trecho decisivo do episódio anterior, com a diferença de que, dessa vez, via-se o herói desamarrando as cordas ou acordando a tempo de fugir do paiol ou de saltar do carro antes que ele se esbodegasse.

Tudo muito previsível até para os infantes daquele tempo, mas também muito bem-feito tecnicamente – o que pode ser constatado hoje em DVD por qualquer sobrevivente daquelas jornadas que tenha se tornado um cinéfilo respeitável.

Nos dias de sábado, no cine Ypiranga, ocorria um vesperal no estilo show de calouros, batizado de “Confusão na Taba”. Comandado pelos radialistas Geraldo Viana e Nicolau Libório, havia apresentações de bandas tocando ao vivo (Os Aristocratas, 5ª Dimensão, Good Boys, 4ª Projeção, etc), concurso de dublagem (Bridora, irmã do Wilson Fernandes, Careca e Ratinho eram imbatíveis), shows de ilusionismo, concurso de piadas, etc. Uma espécie de Programa Silvio Santos de baixo orçamento, mas cheio de surpresas.

De repente, Geraldo Viana interrompia a apresentação e avisava:

– Existe uma nota de mil cruzeiros colada embaixo de um assento. Verifique se não é no seu...

Era hilário ver aqueles 1.200 moleques virando pra cima os assentos das cadeiras na procura desesperada pela bendita cédula.

Para meninos e meninas com os hormônios à flor da pele, as sessões de matinê eram uma espécie de oásis salvador para a famigerada prática do “acocho”.

No figurino de impávidos bucaneiros, nós, os moleques, em grupos de três a cinco, ficávamos circulando pelos corredores antes de a sessão começar, com o olhar 43 vasculhando as fêmeas do salão, todas sentadinhas bem comportadas em seus lugares.

Com um gesto quase imperceptível, que podia ir de uma simples piscadela a uma levada do indicador à boca e depois em direção à fêmea, solicitávamos a aquiescência da donzela para sentar ao seu lado.

Quando as luzes se apagavam, os piratas iniciavam a abordagem. O normal era rolar beijos de língua e discretas pegadinhas nos seios, mas havia as mais liberais (poucas, evidentemente!) que consentiam em serem apalpadas por baixo das saias. Uma loucura!



Depois da matinê, nos reuníamos em bloco na frente do cinema para trocar gibis. Não havia nenhum interesse pecuniário nas trocas. Era comum você trocar um gibi novinho em folha por um outro já bem detonado, apenas porque você ainda não havia lido o mesmo.

Claro que os almanaques valiam no mínimo dois gibis e que ninguém era maluco de trocar um Pato Donald por um Tarzan. Os gibis trocados tinham que ser da mesma categoria, mas não necessariamente do mesmo gênero.

Você podia trocar um Kit Carson por um Fantasma ou um Buck Jones por um Águia Negra, mas não podia querer trocar um Sobrinhos do Capitão por um Mandrake, que isso era considerada ofensa pessoal. Sobrinhos do Capitão só podiam ser trocados por Brucutu, Recruta Zero, Pimentinha e outros gibis infantis.

Quando explodiu a febre dos monóculos, uma espécie de microluneta em formato de chaveiro, o lixo do cine Ypiranga se transformou em uma mina de ouro.

Considerado pela molecada da época uma das maiores invenções da humanidade depois do refresco em pó e do suporte atlético, o monóculo possuía uma das extremidades quadradas, que funcionava como uma tela de cinema.

Nessa extremidade era colocado o negativo de um filme e ele, quando observado pela outra extremidade do objeto, que era arredondada e possuía uma lente de aumento especial, ganhava a luminosidade e as cores de um cartão postal. O monóculo era uma espécie de sala de cinema em miniatura.

Sabedores de que, volta e meia, os operadores da sala de projeção cortavam pedaços de filmes e jogavam fora, brigadas de moleques se revezavam diariamente garimpando as caixas de lixo do cine Ypiranga, contribuindo enormemente para aumentar a sujeira das ruas no entorno do cinema.

Em pouco tempo, uma próspera atividade de escambo estava em marcha. “Troco King Kong pelo Ringo!”, gritava um. “Troco Maciste e Ursus pelo Sansão”, berrava outro. “Troco James Bond por Mabuse”, disparava um terceiro.



Quando, em vez dos mocinhos tradicionais, começaram a surgir nas mãos dos moleques diversos fotogramas das verdadeiras divas de cinema, a coisa pegou fogo.

Aliás, foi por meio dos inofensivos monóculos que nós fomos precocemente apresentados aos decotes de Gina Lolobrigida, Ava Gardner, Marilyn Monroe, Rita Hayworth e Brigite Bardot, privilégio então reservado apenas aos maiores de quatorze anos.

Para entrar nas sessões proibidas para menores de 14 anos valia tudo, principalmente falsificar a idade na caderneta escolar, apagando a data original com borracha azul e reescrevendo a nova data com caneta Bic escrita grossa.

Dependendo da qualidade da falsificação – as muito grosseiras, por exemplo, eram passíveis de fuzilamento em praça pública! –, você poderia ter problemas tanto na própria escola quanto com os despóticos e arrogantes vigilantes do Juizado de Menores, que tinha um prazer quase sádico em barrar adolescentes nas sessões noturnas.

O campo de prova dos falsificadores estava nas sessões das 16h, os famosos vesperais, que eram, digamos assim, para um público um pouco mais adulto que a molecada das matinês.

Normalmente era a sessão preferencial dos jovens casais com mais de 16 anos. A quantidade de mulheres desacompanhadas era reduzida drasticamente.

Mas ainda assim a gente resolvia se aventurar nessa mata fechada, principalmente quando eram exibidos filmes da Gigliola Cinquetti, um poderoso atrativo de garotas desinibidas em busca de algum príncipe encantado disponível.



Lembro que em um desses vesperais, Cassianinho Anunciação apostou comigo e Sidão Ribeiro que iria bater o recorde de “mergulho em piscina seca”, uma das brincadeiras mais cafajestes da época.

O famigerado “mergulho em piscina seca” exigia uma coragem quase suicida, já que consistia em dar um beijo de língua de mais de dois minutos em uma namoradinha ocasional escolhida aleatoriamente por um amigo do “mergulhador”.

Em média, as meninas consistiam em ter suas línguas chupadas por parceiros desconhecidos por, no máximo, um minuto. Mais do que isso, só se o sujeito já fosse namorado oficial.

Escolhemos uma garota de cabelos cor de fogo, que estava sentada sozinha e detonando um mentex atrás do outro. Podia ser um indicativo de que ela tinha mau hálito, o que tornaria a prova mais interessante.

Boa pinta e bom de papo, Cassianinho nem se avexou. Antes mesmo de as luzes se apagarem, ele já estava conversando animadamente com a menina.

Eu e Sidão nos sentamos exatamente atrás do casal, para evitar qualquer tipo de marmelada durante a prova.

Era comum, por exemplo, o sujeito sentado ao lado direito da menina abraçá-la por trás do pescoço e aí, no escurinho do cinema, inclinar a cabeça em sua direção, ficar cochichando abobrinhas no ouvido esquerdo da vagabunda e depois jurar que estava dando um beijo de língua.

Os primeiros dez minutos do filme (salvo engano, “O professor aloprado”, de Jerry Lewis) transcorreram na maior calmaria.

De repente, Cassianinho, que já havia colocado o braço direito sobre os ombros da vítima, deu um toque discreto no encosto da cadeira da menina. Era o sinal de que a tentativa de quebra do recorde iria começar.

Sidão consultou o relógio de pulso e deu dois toques discretos no encosto da cadeira do Cassianinho, autorizando o início da prova.

Ele imobilizou a cabeça da garota com uma espécie de gravata e caiu de boca. Eu me aproximei do casal para conferir se estava rolando mesmo um beijo de língua. Estava.

Cassianinho só desgrudou da menina depois de transcorridos exatos 3 minutos e 26 segundos. Estava estabelecido um novo recorde da prova.

Ele ainda tentaria melhorar o recorde mais cinco vezes, sem sucesso, porque na passagem dos 3 minutos a garota de cabelos cor de fogo arregalava os olhos como se estivesse se afogando e o beijo era prudentemente interrompido.

Depois da façanha, Cassianinho ficou conhecido na nossa turma como “mergulhão, primeiro e único”, título conferido a ele pelo próprio Sidão e jamais contestado pelos outros moleques.

Bons tempos, zifio, bons tempos!

Recordando o famigerado bloco Aluga-se Moças


Fevereiro de 1983, domingo gordo de carnaval. Por volta do meio-dia, o contador Olíbio Trindade, acompanhado do gorducho advogado Zé Augusto, apareceu no Bar do Aristides fantasiado de mulher, totalmente “divino maravilhoso”. Olíbio estava de saia rodada estampada, bustiê amarelo-canário, colares, pulseiras (“escravas”) e brincos de argola, que lhe davam um insuspeitíssimo ar de cartomante cigana. Zé Augusto estava fantasiado de melindrosa de cinema mudo, com direito a piteira e peruca channel.


Dali a meia hora, dois cunhados de Olíbio, Mazinho e Nilsinho, também apareceram no boteco fantasiados do mesmo jeito – Mazinho de tailleur de executiva, o que incluía salto alto, e Nilsinho, de Carmem Miranda, com direito a turbante na cabeça com arranjos de frutas tropicais. Olíbio explicou a presepada:

– A Emamtur liberou a avenida João Alfredo pro desfile de blocos de sujos até às 18h. Uns dez amigos do Nilsinho vão se fantasiar de mulher e a gente ficou de se encontrar com eles na avenida pra zoar um pouco. Nós quatro vamos no meu carro. A gente vai estacionar ali no Boulevard Amazonas e ir andando até cair na gandaia. Você não está a fim de ir não?...

Eu já estava meio calibrado e o Olíbio estava com uma sacola dentro do carro que ainda continha meia dúzia de perucas. Arranjar um vestido era o de menos. Perguntei do Simas, que bebia comigo, o que ele achava da ideia:

– Bicho, se tu fores eu também vou! – garantiu.

Cada um de nós dois colocou uma peruca na cabeça e continuamos bebendo.

Dali a pouco, surgiu no boteco o Rubens Bentes e estranhou o fato de estarmos usando perucas de mulher. Expliquei o plano. Ele já foi pegando uma peruca na sacola e colocando na cabeça. O Arlindo Jorge chegou dali a pouco, se inteirou da história e também colocou uma peruca na cabeça. O Rubens providenciou vestidos, saias e blusas de suas irmãs. Nós trocamos de roupa no próprio bar, sob o olhar de reprovação do pessoal que jogava sinuca.

Meia hora depois, Raquel, uma das irmãs do Rubens, subiu a ladeira e entrou no boteco para nos maquiar. Haja sombras, cílios postiços, pó de rouge, delineador e batons em cores escandalosas. Ela gastou metade do seu estojo da Avon, mas nos transformou em travestis de classe mundial. Compramos quatro caixas de cerveja em lata, colocamos duas em cada carro e fomos pra guerra. No carro do Arlindo, ele, Simas, eu e Rubens. No do Olíbio, ele, Mazinho, Nilsinho e Zé Augusto.

Deixamos os carros ao lado do cemitério São João Batista e assim que começamos a caminhar em direção ao fuzuê, Rubens teve uma ideia brilhante:

– Vamos protestar contra a política econômica do general Figueiredo. Em vez de jogar confete na multidão, nós vamos jogar feijão e arroz...

Nem discutimos. Entramos em uma mercearia e cada um comprou um saco de 10 kg de feijão jalo (o mais caro) e outro de arroz agulhinha perbolizado (também o mais caro). Nos juntamos a uma turma de uns vinte sujeitos também fantasiados de mulher, que estavam vindo do centro da cidade e possuíam alguns instrumentos de percussão, e adentramos a passarela do samba. Viramos amigos de infância dos sujeitos.




Desconfio que o nosso bloco de sujos foi o que causou mais confusão interativa com a plateia. É que em vez de jogar feijão e arroz sobre a assistência, nossos novos amigos nos convenceram a dar o alimento para os interessados. A gente parava em frente a um lance da arquibancada e perguntava:

– Vocês querem feijão? Vocês querem arroz?...

Sei lá como, mas de repente apareciam vários sacos de plásticos vazios estendidos pelos populares. A gente colocava uns 200 gramas de feijão e de arroz em cada um deles e prosseguíamos a caminhada. No meio do desfile, o nosso estoque acabou. Sem querer, havíamos distribuído 160 kg de alimentos para as pessoas carentes. Se tivessem 500 blocos iguais ao nosso, teríamos erradicado a fome naquele dia...

Por volta das 18h, retornamos pra Cachoeirinha. Quando passávamos em frente ao cine Ypiranga, Olíbio fez sinal pra gente parar. Estacionamos os carros e fomos beber em frente ao clube Ipiranga, que estava ultimando os preparativos para seu carnaval daquela noite. Aos nos verem daquele jeito, a Turma do Jaqueira, ali da Castelo Branco, foi à loucura. Muito deles tinham vontade de fazer aquilo, mas nunca tinham tido coragem. Conversaram animadamente com a gente, querendo saber detalhes daquela experiência inédita.

No ano seguinte, a Turma do Jaqueira (tendo Jairo, Belisca, Romito e Fonseca na linha de frente) se fantasiou de mulher, alugou um trio elétrico, colocou uma Miss Simpatia em cima (o fantástico Paulo Delgado, de biquíni prateado, peruca loura, coroa, cetro e faixa) e se dirigiu ao Bar do Aristides, onde já havia uns cem sujeitos fantasiados de mulher. Nascia o bloco “Aluga-se Moças”, que desfilava pelas ruas do bairro, depois se dirigia até a João Alfredo, atravessava a passarela do samba de ponta a ponta e retornava para o clube Ypiranga, numa verdadeira maratona etílica.



Nos últimos desfiles em que participei, no final dos anos 80, o gigantismo do bloco já começava a assustar os desavisados. Eram cerca de 3 mil foliões, os homens invariavelmente fantasiados de mulheres e as mulheres fantasiadas de homens. Apesar do grande consumo de álcool nunca houve brigas, provavelmente porque quase todos os brincantes também desfilavam no GRES Andanças de Ciganos.

O desfile do bloco, entretanto, dava muita dor de cabeça para a nossa eterna Miss Simpatia. Espada-matador juramentado em cartório, Paulo Delgado não bebia e nem fumava, mas aceitava desfilar de miss, numa boa. Pra complicar, sua família era evangélica. Depois de duas horas sob um sol escaldante, as marcas brancas do minúsculo soutien e da faixa de miss em sua pele bronzeada eram uma bandeira e tanto. Paulo passava seis meses sem tirar a camisa na frente dos parentes, para não ser excomungado. Mas, no ano seguinte, se apresentava espontaneamente para passar pela mesma provação. Um santo!

Em meados dos anos 90, o bloco parou de desfilar abruptamente. Até hoje ninguém sabe o motivo. De qualquer forma, o “Aluga-se Moças” faz parte das histórias inesquecíveis do carnaval amazonense. O Paulo Delgado que o diga!

Nervos de Aço


Novembro de 1978. O grupo teatral À Margem faz uma primeira apresentação no Teatro Amazonas da peça Nervos de Aço de autoria de Guto Rodrigues, com direção de Antonio Paulo Graça e cenografia de João Bosco Ladislau.


A peça era um exemplo bem-acabado da contracultura que tomava conta do país naqueles anos de chumbo.

Os personagens principais eram dois artistas de vanguarda (Almir Graça e Jailson Bacre), alijados da indústria cultural e sobrevivendo no gueto em permanente estado de amargura e desespero.

Como personagens secundários, um bêbado (Domingos Leite) sempre com uma garrafa de pinga na mão e mais interessado em discutir futebol do que em fazer a revolução, e um pastor evangélico reacionário (Bosco Ladislau), que defendia ardorosamente o “Brasil grande” e a salvação das almas.

Sem dourar a pílula, o texto vigoroso de Guto Rodrigues expunha todas as mazelas do regime militar.

No final da peça, durante a perseguição de um policial a um dos artistas que havia acabado de sair de uma “boca de fumo”, uma bala perdida atingia o missionário evangélico, que caía pateticamente no centro do palco.

Era um final tão inesperado e chocante quanto enfiar uma tesoura numa tomada de 220 volts.

A peça foi bastante aplaudida, mas o sempre exigente diretor Antonio Paulo Graça encrespou com a atuação do saudoso Domingos Leite: seu bêbado não tinha consistência, estava muito canastrão.

Ou ele melhorava a composição do personagem ou seria afastado sumariamente da peça.

Na segunda apresentação, Domingos Leite resolveu apelar. Minutos antes de entrar no palco, ele detonou uma “meiota” de Tatuzinho no gargalo.

Depois, com uma garrafa de Cocal zero bala na mão, começou a beber insistentemente até sua língua ficar completamente enrolada.

Completamente bêbado, ele fez um bêbado perfeito.

No final da peça, momento antes de o pastor receber a bala perdida, Domingos Leite, num acesso de fúria pela derrota do seu Flamengo, arremessou com violência a garrafa de Cocal já vazia no palco.

Voou caco de garrafa pra todo lado.

Como aquele “caco” não estava no script, sobrou pro pastor.

Bosco Ladislau recebeu a bala perdida, procurou um local pra cair pateticamente, mas o palco todo estava cheio de cacos de garrafa.

Ele morreu em pé, que nem Santo Antão, sob uma vaia ensurdecedora da plateia.

O diretor Antonio Paulo Graça, que nunca teve nervos de aço, queria comer o fígado do bêbado destrambelhado.

Pelo visto, as vuvuzelas enchem o saco da humanidade desde a Idade Média

sexta-feira, junho 25, 2010

Sinuca no Bar do Aristides


Em meados dos anos 70, seu Aristides colocou uma mesa de sinuca no Top Bar e o boteco, que já vivia superlotado, começou a colocar gente pelo ladrão. Todo mundo queria tirar a barriga da miséria apostando no próprio taco.

Havia os “cobras criadas”, em que se destacavam Nei Parada Dura, Alencar (aka “Baixinho”), Lúcio Preto, Frank Cavalcante, Marco Aurélio, Jones Cunha, Valdron, Carlinhos Branco, Helvécio e Guerra – os dois últimos traziam os próprios tacos importados em elegantes maletas de couro.

Nessa turma, as apostas eram feitas em dinheiro.

Havia os diletantes, como Rubens Bentes, Chico Porrada, Louro, Chico Cavalinho, Sici Pirangy, Arlindo Jorge, Sérgio Mubarack, Epitacinho, Ruizinho, Manoel Augusto, Antídio Weil, Roberto Amazonas, Sidão, Nelito, Luiz Lobão e Ivan Chibata.

As apostas eram feitas em cerveja.

E, finalmente, havia os “patos”, ou seja, o resto da currilola, que apostava tanto em dinheiro como em cerveja.

Como jamais gostei daquela ladroagem travestida de jogo sério, me limitava a olhar as partidas de longe.

O desencanado Lúcio Preto, um dos mais habilidosos naquele jogo de larápios, jogava sempre com uma latinha de Skol na mão e o taco na outra. Quero crer que era uma espécie de simpatia.

Antes de dar uma tacada, ele colocava a latinha em uma das bordas da mesa e começava a rodar a sinuca feito um peru doido, tentando encontrar a melhor jogada.

O escritor Jones Cunha, que na época era liso e confiado, aproveitava essa presepada do Lúcio Preto para pegar discretamente a sua latinha de cerveja e detonar legal.

Quando terminava sua odisseia – ele nunca matava menos de três bolas seguidas –, Lúcio Preto metia a latinha na boca e descobria, horrorizado, que o conteúdo havia se evaporado.

Sem falar nada, ele pedia nova latinha do seu Aristides e continuava jogando.

Um dia, puto da vida porque já havia perdido três partidas seguidas pro Nei Parada Dura, Lúcio Preto pediu uma nova latinha de Skol do seu Aristides, foi até o banheiro, despejou o conteúdo fora e encheu a lata de urina.

O choque térmico fez com que a lata de cerveja ficasse tipo “véu de noiva”.

Ele voltou pra mesa, fingiu que dava uma golada, colocou a latinha em uma das bordas da mesa e começou a procurar a melhor jogada feito um peru doido.

Sorrateiramente, Jones Cunha pegou a latinha “véu de noiva” e deu uma golada de respeito, disposto a detonar o conteúdo todo de uma só vez.

Alguns segundos depois, ele ficou pálido feito um defunto vítima de hepatite e começou a cuspir o líquido de volta, emporcalhando o piso do bar.

Ninguém entendeu nada.

Lúcio Preto, que havia acabado de concluir sua jogada, se aproximou dele e sussurrou em seu ouvido:

– Qualé, bicho? Se eu soubesse que tu não gostavas de beber mijo, eu tinha pedido outra coisa pra gente...

Jones Cunha não passou recibo, mas também nunca mais se aproximou das latinhas de cerveja do Lúcio Preto.

Lembrando o Boteco da Dona Zeza



Simas, Marcileudo Barros, Jeferson Chase e esse vosso escriba, na frente do famoso boteco

No cruzamento das ruas Barcelos e Castelo Branco, na alta Cachoeirinha, existe um boteco no formato meia-água, que já estava no local quando eu nasci e provavelmente vai continuar lá depois que eu morrer.

No meu tempo de criança ele se chamava “Boteco da Zeza”, apelido de dona Maria José, mãe do escritor Marcileudo Barros.

Depois, cada vez que um dos filhos de dona Zeza começava a gerenciar o boteco, ele passava a incorporar o apelido do sujeito: “Boteco do Mundico” (aka Raimundo Arnaldo), “Boteco do Kid Márcio” (aka Márcio Barros), “Boteco do Leudo Brasinha” (aka Marcileudo Barros) e, atualmente, “Boteco da Lió” (aka Eleonora Barros).

Desde que me conheço por gente, o boteco sempre vendeu cachaça, cervejas e refrigerantes. Só, somente só.

Nos anos 70, o boteco era ponto de encontro dos boêmios daquela parte do bairro. Os verdadeiros pés inchados começavam a chegar ao covil assim que ele abria as portas, por volta das 6h da manhã.

E haja Brandicana, Cocal, Correinha, Januária, Oncinha, Praianinha, Serra Grande, Tatuzinho, Pitu, Kokinho, Lobatinha, Chora Rita e Jurubeba Leão do Norte pra fazer frente à demanda, que o boteco era bem sortido.

Um dia, por volta das 9h da manhã, o Márcio entra no boteco – então, sob os cuidados do Marcileudo –, reclamando da vida. Trazia um pequeno embrulho na mão.

Supostamente, ele teria de ir ao Centro trocar um presente dado pra irmã Lió, que não gostara. Um dos pés inchados, de nome Ney, se interessou pela história.

– O que foi que você deu de presente pra sua irmã? – questionou.

– Um vidro de perfume Bond Street... – respondeu Márcio.

– E ela não gostou? – espantou-se o bebum, que era especialista em perfumaria francesa.

– Gostou não! – avisou Márcio. “Ela disse que prefere Lancaster...”.

– Ah, mas não dá pra comparar o Bond Street com o Lancaster. O Bond Street é muito melhor...

– Eu também acho, mas fazer o quê? –, explicou ele, sem esconder a decepção.

O bebum ficou em silêncio. Aí criou coragem:

– Escuta aqui, meu amigo. Já que você vai trocar o perfume na loja, será que não dava pra mim dar uma cheiradinha antes. Faz tempo que não sinto o cheiro de perfume Bond Street...

– Olha, eu vou desembrulhar o presente, mas você só pode dar uma cheiradinha rápida porque se gastar muito a balconista da loja vai desconfiar que o perfume já foi usado.

– Tudo bem! – assentiu o bebum.

Márcio abriu discretamente o presente e levou o invólucro ao nariz do bebum, que deu uma aspirada forte, daquelas de tomar prize de lança-perfumes.

Daí a pouco, ele mudou de cor e saiu do boteco colocando os bofes pra fora.

Rindo estrepitosamente, Márcio foi embora levando sua coleta de exames de fezes para entregar no Laboratório Costa Curta.

Os praças de pré


Eu e Ritta Bernadino me autografando seu livro ("O guerreiro verde") na cobertura do hotel Monaco, que pertence a ele marrelógico
 
Na eleição de outubro de 1962, pela primeira vez o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) ameaçou o domínio dos partidos da oligarquia, a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Social Democrático (PSD), ao alcançar expressiva votação e eleger uma bancada federal de porte semelhante ao das agremiações conservadoras.

Entre os 409 deputados federais eleitos, o PSD elegeu 122, o PTB 97 e a UDN 96. Para o Senado, o resultado foi semelhante: o PSD elegeu 23 senadores, o PTB 18 e a UDN 17.

No Amazonas, Plínio Coelho (PTB) foi eleito governador e os trabalhistas mantiveram uma bancada forte na Assembleia Legislativa, onde se destacavam o jornalista Arlindo Porto e o advogado Bernardo Cabral.

O sargento do Exército e advogado recém-formado Francisco Ritta Bernardino acabou na 1.ª suplência do PSD, que elegeu, entre outros, Homero de Miranda Leão, Ruy Araújo e Danilo Corrêa.

Na época, era comum que a cada três meses os titulares se licenciassem para que os suplentes assumissem, em um rodízio saudável, já que não havia prejuízos financeiros: suplentes e titulares continuavam recebendo seus salários no final do mês.

Quando Danilo Corrêa se licenciou para Ritta Bernardino assumir, o advogado Manuel Barbuda, presidente do PTB, entrou com um pedido de impedimento do suplente pessedista no TRE, argumentando que ele, na condição de sargento do Exército, era inelegível, pois pela Constituição em vigor sequer poderia se alistar como eleitor.

O artigo 132, da Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 18 de setembro de 1946, rezava o seguinte:

Não podem alistar-se eleitores:

I – os analfabetos;

II – os que não saibam exprimir-se na língua nacional;

III – os que estejam privados, temporária ou definitivamente, dos direitos políticos.

Parágrafo Único – Também não podem alistar-se eleitores os praças de pré, salvo os aspirantes a oficial, os suboficiais, os subtenentes, os sargentos e os alunos das escolas militares de ensino superior.

Como Ritta Bernardino não pertencia a nenhuma escola militar de ensino superior, ele estava automaticamente na condição de “praça de pré”, seja lá que diabo isso significasse. Foi um para pra acertar.

O deputado Bernardo Cabral foi uma das poucas pessoas que tomou as dores de Ritta Bernardino e brigou dentro do PTB para que o partido desistisse da ação, o que acabou acontecendo.

Depois de ser empossado pela ALE, Ritta Bernardino resolveu investigar a origem do termo que Manuel Barbuda lhe enquadrara.

A história começou na primeira década do século 19, quando as forças militares de Napoleão Bonaparte tomaram a Europa, em nome dos ideais democráticos da Revolução Francesa.

Napoleão tinha a intenção de dominar a Europa dividindo o continente entre aliados e amigos da França.

Em 1806, ele resolveu radicalizar: declarou o Bloqueio Continental por meio do qual pretendia sufocar a economia inglesa, já que os ingleses eram os únicos adversários à altura do francês turrão.

Ao ser intimado por Napoleão, em 12 de agosto de 1807, para aderir ao Bloqueio Continental contra a Inglaterra, d. João VI foi evasivo em sua resposta e procurou ganhar tempo, fechando os portos do reino aos ingleses e enviando ao Brasil o primogênito d. Pedro I, com o objetivo de resguardá-lo.

Ao mesmo tempo, ele começou a se preparar para a guerra: publicou um édito real tornando obrigatório o serviço militar de todo português entre 18 e 25 anos.

Os moleques receberam treinamento militar de duas semanas, um mosquetão e 11 balas (era o máximo que podiam carregar no alforje) e sua missão era vigiar a orla de Lisboa, à espreita dos navios franceses.

Quando os escaleres franceses começassem a desembarcar na praia as tropas de Napoleão, caberia aos moleques fustigarem os invasores até a chegada das forças regulares de Portugal.

A esse contingente foi dado o nome de “praças de pré”, porque eles seriam responsáveis pelo pré-show. Coisa de português.

Com o fito de evitar deserções (nem todo mundo tinha pré-disposição para ser “boi de piranha”), d. João VI decretou, também, que os moleques estavam impedidos de exercer qualquer outra função (pública ou privada), que não aquela.

Ser candidato a cargo eletivo, então, nem pensar. Ou os “praças de pré” brigavam contra os franceses ou morriam de fome. Coisa de português.

Acontece que antes da jiripoca piar, d. João VI, a família real e mais de 15 mil pessoas fugiram para o Brasil.

Por alguma razão esotérica, os “praças de pré” não foram desmobilizados.


A primeira Constituição brasileira, ainda sob a égide das ordenações vicentinas, manteve o impedimento dos “praças de pré” e as Constituições subsequentes idem, provavelmente porque ninguém sabia do que se tratava e a regra de ouro da política brasileira sempre foi deixar do jeito que está para ver como é que fica.

O entulho jurássico só foi removido de vez na Constituição de 1988, cujo relator, Bernardo Cabral, ficou sabendo da história pelo colega deputado. O país está devendo essa para o hoje empresário Ritta Bernardino, chairman do famoso hotel Ariaú Tower.

terça-feira, junho 22, 2010

O fabricante de sonhos



Novembro de 2009. Palestra no CAPS Adolfo Lourido, em Parintins, na festa de quatro anos de sua inauguração

Filho de um missionário espanhol, que abandonou a batina depois de se apaixonar por uma nativa da comunidade Maranhão do Uaicurapá, na zona rural de Parintins, o poeta e trovador Adolfo Lourido era um artista tão profundo em sua simplicidade, um boêmio tão largado em suas serenatas improvisadas a qualquer hora do dia ou da noite, um agricultor tão exemplar na sua honradez e competência, e um ser moral de ternura a um tempo tão ardente e esclarecida, que seus conterrâneos o tomaram por louco. Não era.

Por ter herdado em maior proporção os genes paternos do que os maternos, sua delgada estatura óssea, sua pele de algodão doce quase cor de rosa e seus olhos claros, brilhantes, de intensa ternura o diferenciavam do resto dos moradores da comunidade, quase todos caboquinhos entroncados de pele morena.

Além disso, Adolfo Lourido preferia as leituras na imensa biblioteca do pai do que o aprendizado da cultura ribeirinha praticado na comunidade. Ele nunca aprendeu a tecer trançados de palha ou transformar fios de linha em magníficas malhadeiras, mas sabia de cor e salteado vários sonetos dos simbolistas franceses. Não é de se admirar, portanto, que Adolfo Lourido fosse tratado por eles quase que como um alienígena.

Provavelmente, o poeta nasceu em 1896, na referida comunidade Maranhão do Uaicupará, e fez seus estudos primários na vizinha cidade de Santarém (PA). Quando indagado a respeito de sua instrução acadêmica, ele garantia que só estudara até o 3º ano primário.

Verdade ou mais uma simples ironia de Lourido, esse fato não pode ser tomado como indicativo de que ele detinha um precário cabedal de cultura e informação. Pelo contrário. Se compararmos o nível do ensino atual com o daquela época, seria como se Lourido tivesse concluído o atual 1º grau (ou antigo “curso ginasial”).

Também é provável que Adolfo Lourido tenha aprendido a tocar violão freqüentando o Conservatório de Música de Santarém, considerado a primeira escola de música da região.

O que se sabe de concreto é que, a partir da adolescência, Lourido começou a compor uma série de canções ao mesmo tempo em que trabalhava duro na pequena plantação de frutas e hortaliças mantida pela família.

Em ocasiões especiais, como festas religiosas na comunidade, ele fazia pequenos recitais de suas obras ainda inéditas.

Foi a partir dos anos 50, que as canções de Adolfo Lourido passaram a ser ouvidas na sede do município.

Acompanhando seu único irmão, Zé Lourido, também agricultor como ele, nas vendas de frutas e hortaliças nas feiras e mercados de Parintins, Adolfo ficou encantado com um sistema de alto falantes (“Voz da Francesa”), no bairro da Francesa, e criou coragem para mostrar algumas de suas singelas canções.

Uma das músicas apresentadas (“As torcedoras do Uaicurapá”) caiu no gosto da galera e ele passou a ser requisitado para mostrar seu repertório em reuniões mais informais.

Adolfo Lourido sempre se prontificou a participar de bom grado nesses saraus improvisados onde ele era a única atração, mas impunha uma única condição: não queria receber cachê em dinheiro, queria receber em cheque. Cheque, para ele, era qualquer pedaço de papel em branco devidamente preenchido com o valor da apresentação e a assinatura do contratante.

Quando, muitos anos depois, tentou descontar aquelas centenas de folhas de “cheque” em uma agência bancária, sem obter resultado, passou a cultivar uma excentricidade calculada, que muitos julgaram ser indícios de loucura. Não era.

Sem jamais ter sabido da existência de Moreira da Silva (aka “Kid Moringueira”), Adolfo Lourido foi um pioneiro no samba de breque: ele interrompia a sua cantoria no meio da apresentação, sem aviso prévio, discorria a respeito de um termo da letra que julgasse pertinente, e depois retomava a cantoria na mesma pegada. Um bom exemplo disso acontecia na já citada “As torcedoras do Uiacurapá”.

Sempre se acompanhando ao violão, Lourido começava a cantoria: “As torcedoras lá do Uiacurapá / Quer ser valente sem ter rivá / Com fé ardente e dur no coração / Conta história do capitão / O Nonatinho e o Aquino / E o Antonio Saboia avança / João Vieira e Dom Belém / José Lourido” (aí ele fazia o breque para dar a explicação, enquanto continuava tocando o violão). “José Lourido é meu irmão mais velho. Nós semo dois. Ele jogava de beque esperado pela ralfe esquerda e eu jogava de beque esperado pela ralfe direita. Ganhemo muito mate jogando assim.” (aí ele retomava a cantoria original). “João Vieira o beque avançado / Chutou na bola que deu na barra / Porém agora o seu Taumaturgo/ E o João Vieira fizero um escangalho/ Quando chegamos no São Domingo / Que o caixeiro nos avisou / Para jogar o mate / às seis horas se acabou”.

Lourido sabia que “match” era sinônimo de “partida” e pronunciava como lia: “mate”. Também sabia que “half” significava “meio” e que, nesse caso, o agá tinha som de erre, daí pronunciar corretamente “ralfe”. Logo, não era tão bobo quanto os outros supunham.

Quando percebeu que as jovens de Parintins haviam começado a usar um corte de cabelo curto, no estilo channel, ele, cultor das antigas formas femininas, fez uma canção de protesto: “Vestido curto, cabelo aparado / Saia serpentina, cangote raspado / Isso não se faz / Cortar peladinho / Também já é demais / A moda de hoje / Não é pra quem quer / É só pra homem / Não é pra mulher”.

Virou um hit instantâneo porque os rapazes da ilha modificaram um dos versos para “cortar o peladinho também já é demais”, numa clara alusão ao objeto de desejo masculino.

Sempre vestido garbosamente de paletó e gravata, mas usando uma prosaica sandália havaiana, Adolfo Lourido começou a ser requisitado pelos boêmios de Parintins para animadas serenatas, tanto nos “basfonds” locais, na parte da noite, como para as moçoilas casadoiras, durante o dia.

Dizia-se a boca pequena que ele era apaixonado pela Dona Carmelita, mas, como um perfeito cavalheiro, ele se negava a comentar esses boatos.

Ainda assim compôs uma canção desesperada e dilacerada para a musa em questão: “Por causa dela / Ô, por causa dela / Meu coração bateu tanto / Que quebrou minha costela / Por causa dela minha vida se entortou / Meti o pé esquerdo / E o direito atrapalhou”.

Algumas vezes, Adolfo Lourido parecia estar possuído pelo espírito de Zé Limeira, o “poeta do absurdo”, como se vê nessa composição sobre a revolução tenentista dos anos 30.

Pouco se lixando para cortes epistemológicos ou similares, Lorido coloca no mesmo balaio de gatos o líder revoltoso Ajuricaba e o barco Ajuricaba, que os revoltosos utilizaram para atacar o paquete Bahia, das forças legalistas: “No dia 14 de março / Data que nunca se acaba / Desembarca os revoltosos / A bordo do Ajuricaba / Era um navio desastroso / Que desastrou-se com a guarnição / Era o paquete Bahia / Que no mar é o campeão / Preso sempre foi respeitado / E todos os navios / Que por ele foi aprisionado / Ajuricaba se arrevoltou / Dentro da capitá de Manaus / Viajou para Belém / E Ajuricaba era o tal.”

Quando se mudou definitivamente para Parintins, já no início dos anos 70, para morar na casa do irmão Zé Lourido, Adolfo Lourido começou a entrar em uma fase de recolhimento, mais pungente e melancólica, como pode ser visto na letra de uma de suas últimas canções: “Eu vivo triste como sapo na lagoa / Vivendo pelas baixas escondidas / Eu vou largar da minha maldita serenata / Pra ver se eu conserto a minha vida.”

Foi nessa mesma época que o pesquisador de cultura popular, músico e compositor Pedrinho Ribeiro, outro parintinense da gema, começou a travar um contato mais direto com ele.

Diariamente, o músico se dirigia à casa do poeta para conversarem sobre uma possível parceria. Pedrinho estava montando o espetáculo “Ópera Cabocla” e queria incluir na peça uma parte do repertório de Adolfo Lourido. O poeta estava muito feliz por ter sido redescoberto por um músico da novíssima geração.

“Muito anos antes de estarmos juntos eu já havia lhe visto cantando pelas ruas de Parintins nos anos 60 e sempre achei que sua fama de doido era um exagero”, diz Pedrinho Ribeiro. “Na verdade, ele era um puro, uma pessoa sem maldade, que por alguma razão interior optou em não exercer sua vida sexual. Ele morreu virgem e acho que foi essa a única grande loucura dele”, analisa.

Segundo Pedrinho, a obra que Lourido deixou não teve até hoje a divulgação que fizesse justiça à sua grandeza de poeta e compositor. Certamente continuará guardada em algum lugar deste mundo, dentro da mesma mala que ele conservava debaixo da cama. Os originais de seu livro de poemas repousam para sempre no limbo para onde vão os nossos brinquedos perdidos na infância.

“Ele realmente ficava irritado, apoplético, à beira de entrar em surto, quando o jogador Sulanca se aproximava dele e pedia a bença, se passando por seu filho”, recorda Pedrinho. “Para Adolfo Lourido, cuja espiritualidade se sobrepunha aos desejos da carne desde tempos remotos, ser tomado pelo pai de um filho bastardo era uma suprema humilhação”.  

Quando ficava nesse estado de desespero, o poeta saía resmungando sozinho pelas ruas, recitando sonoros palavrões, e a molecada aproveitava para lhe atirar pedras e fazer mangoças. Foi por causa disso que lhe atribuíram a pecha de doido manso. Não era.

A “Ópera Cabocla” foi apresentada no Cine Teatro da Paz, de Parintins, em 1981, e depois no Teatro Amazonas, em Manaus, no mesmo ano, mas Adolfo Lourido não estava na platéia.

Ele também não ficou sabendo que sua obra seria transformada em matéria extracurricular da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) por iniciativa dos estudantes e professores do Projeto Rondon, que assistiram à peça de Pedrinho Ribeiro e ficaram comovidos.

O poeta Adolfo Lourido morreu em 1979, aos 83 anos de idade, de causas naturais, e foi enterrado em Parintins.

Para perpetuar a memória do poeta, o prefeito Bi Garcia batizou o primeiro Centro de Atendimento Psico Social (Caps) de Parintins com o nome de “Adolfo Lourido”.

Em parceria com o músico Pedrinho Ribeiro, Bi Garcia pretende agora editar um CD ou DVD com as principais músicas de Adolfo Lourido sendo interpretadas pelos grandes nomes do município, como Davi Assayag, Israel Paulain, Chico da Silva, Edílson Santana, Toni Medeiros e o próprio Pedrinho Ribeiro. Nada mais justo e oportuno.

A frase que resume o mundial da Africa do Sul (cortesia by Cyrilo Dantas)

terça-feira, junho 15, 2010

Se encontrar o telefone do doutor e perder a vergonha de vez, também vou exigir uma bolsa-ditadura



Augusto Nunes

Na tarde de 11 de agosto de 1969, no bar em frente da Faculdade Nacional de Direito, eu festejava o reencontro com a namorada que saíra de circulação havia um mês, ao saber que a Justiça decidira prendê-la preventivamente.

Tinha 19 anos, um copo de chope na mão e ideias lascivas na cabeça: além do fim do sumiço, comemorava antecipadamente a noite de pecados. O castigo chegou primeiro, anunciado por um leve toque no ombro e formalizado por um substantivo: “Polícia”, resumiu um dos quatro homens repentinamente hasteados em torno da mesa.

Usavam os paletós compridos demais e apertados demais que os sherloques brasileiros muito apreciam por se acharem mais altos e menos gordos do que efetivamente são. Só depois fiquei sabendo que estavam lá para capturar a moça.

Resolveram levar-me como brinde ao descobrirem que também era diretor do Caco Livre. Separados, embarcamos em fuscas disfarçados de táxis rumo à sede da PM na Rua Frei Caneca. Não voltei a vê-la.

Isso já vale uma bolsa-ditadura, certo? Se a coisa não era ideologia, mas investimento, como constatou Millôr Fernandes, se muita gente que só ficou presa em congestionamento de trânsito virou bolsista, um dia de cadeia no inverno de 1969 merece imediata reparação em dinheiro vivo. Foram quatro dias e meio. Como as horas na gaiola são mais longas, posso arredondar para cinco.

Na noite de 15 de agosto, depois de duas escalas de dois dias no prédio da Aeronáutica ao lado do Aeroporto Santos Dumont e na Base Aérea do Galeão, o major que acabara de me interrogar ordenou que eu desse o fora. Saí com a roupa que usava no momento da captura. COMUNISTA, ele antes havia anotado com letras graúdas e escuras na minha ficha.

Procure esse papel, sopra meu lado escuro ao escutar, de novo, o apito do trem-pagador pilotado pela Comissão de Anistia. A farra não pode parar, há milhares de passageiros a recolher. Para acomodar-me na poltrona mais espaçosa do vagão, convém esquecer que não fui submetido a sessões de tortura.

Melhor lembrar apenas que passei horas a fio de cócoras, mãos algemadas sob a perna, ouvindo perguntas tediosas e redundantes feito letra de samba-enredo. Como estou vivo, não custa caprichar na cara de zumbi e falar com voz de condenado à danação perpétua.

É verdade que meio mundo viveu experiências parecidas. É verdade que nove em 10 militantes do movimento estudantil souberam o que é o silêncio imposto a presos incomunicáveis, o cheiro de animal sem banho, a sensação de impotência absoluta, a vida suspensa no ar.

E daí? Que sejam todos premiados. Os contribuintes nem vão notar que mais 1 bilhão saiu pelo ralo. Nenhuma despesa é desperdício se destinada a garantir aos sócios do Clube dos Heróis da Resistência o direito a indenizações milionárias, mensalidades de bom tamanho, empregos federais e outras condecorações em dinheiro.

Como a turma toda, também teria ido longe na vida se escapasse daquele agosto. O diretor da faculdade, que soubera de tudo, avisou em dezembro que me expulsaria se não tratasse já no dia seguinte da transferência para outras paragens.

Só o Mackenzie me engoliu. Não engoli o Mackenzie daquele tempo e virei jornalista. Fica estabelecido, portanto, que não pendurei na parede o diploma de bacharel porque a ditadura me perseguiu por motivos políticos.

Só por isso não fui advogado, juiz, desembargador e ministro do Supremo Tribunal Federal. Muita pretensão? Não é: até Nelson Jobim já andou usando a toga. Mereço ser aposentado como ministro do STF.

É pedir demais? Engano: o ex-capitão Carlos Lamarca foi promovido a general depois de morto, o que garantiu uma velhice tranquila à mulher que abandonou.

Argumentos tenho de sobra. Só está faltando achar o número do telefone do doutor Luiz Eduardo Greeenhalgh, que merece a porcentagem que leva de cada indenizado porque ganha todas, e perder a vergonha de vez.

sábado, junho 05, 2010

Salgado Maranhão lança antologia poética


Na próxima quarta-feira, na Cidade Maravilhosa, o poeta e letrista Salgado Maranhão lança a antologia “A Cor da Palavra” (Editora Imago/FBN), com poemas escolhidos dos seus livros Aboio, Punhos da Serpente, Palávora, O Beijo da Fera, Mural de Ventos, Sol Sanguíneo, Solo de Gaveta e A Pelagem da Tigra, com os quais ganhou os prêmios Jabuti e Ribeiro Couto.

Verdadeira usina multimídia, Salgado Maranhão tem parcerias com Paulinho da Viola, Élton Medeiros, Ivan Lins, Moacyr Luz, Zé Américo, Xangai, Herman Torres, Vital Farias, Mirabô Dantas e Carlos Pita, entre outros.

Constam entre seus intérpretes, além dos parceiros já citados, Zizi Possi, Rita Ribeiro, Alcione, Elba Ramalho, Rosa Maria, Amelinha, Amélia Rabello, Selma Reis, Juliana Amaral, Zezé Gonzaga, O Terço, Gilberto Alves, Ney Matogrosso, Zé Renato, Zeca Baleiro e tantos outros em suas mais de 40 composições gravadas, além de inéditas com João Donato, Tunai, Zeca Baleiro, Renato Piau e Chico César.

Em 2005, pelo Selo RioSesc/Som, lançou o CD “Amorágio”, no qual declamou poemas e contou com vários intérpretes para suas composições.

"Salgado é um dos mais brilhantes poetas de sua geração e possui um trabalho de linguagem muito especial", diz Ferreira Gullar.

O coquetel de lançamento (com canja musical e poética) do livro “A Cor da Palavra”, rola no dia 9 de junho (quarta-feira) a partir das 19:00 horas, no Espaço FINEP – Praia do Flamengo, 200.

Os poetas Euclides Amaral, Mano Melo, Cairo Trindade e Arnaldo Garcez já confirmaram presença. Se jogue.

Wilson no Céu com Leminski e diamantes


Nos anos 80, nosso meio de comunicação preferencial eram cartas manuscritas. Dava uma mão de obra federal comprar envelopes pardos tipo saco, colocar dentro um livro de poesia com uma pequena carta escrita à mão, entrar na fila das agências da ECT e despachar a encomenda para locais tão distantes quanto Picos da Paraíba.

Mas a gente fazia aquilo, com uma alegria indescritível no coração. Devo ter trocado livros e cartas com cerca de 1.500 poetas espalhados por esse mundão afora.

Em 1987, a poeta Ivone Webber, de Canoas (RS) me enviou um exemplar do suplemento cultural Nicolau, de Curitiba, editado pelo Wilson Bueno. Li o expediente. Era um suplemento “de grátis”, apesar de ser quase uma revista de literatura.

Peguei o endereço de uns 60 intelectuais da cidade e mandei pra Curitiba. O jornalão (32 páginas em tamanho tablóide, papel branco, ricamente ilustrado) começou a chegar à residência dos escolhidos.

O poeta Aníbal Beça foi um dos primeiros a me ligar:

– Pô, poeta, o jornal Nicolau é do caralho, mas quanto é que vou pagar pela assinatura?

Ficou surpreso ao saber que era de graça. Recebi outros telefonemas no mesmo clima (parece que no primeiro número enviado eles avisavam quem tinha pedido a gentileza de solicitar o envio do jornal para evitar mal entendidos).

De repente, a parte da cidade que contava estava tendo acesso a um dos melhores suplementos literários do país. Salvo engano, o Nicolau tinha uma circulação mensal superior a 250 mil exemplares por obra e graça do prefeito Jaime Lerner (PDT).

Em 1988, mandei um exemplar autografado do meu Porandubas para o Wilson Bueno. Ele me enviou de volta um exemplar também autografado do seu Bolero’s Bar. No começo dos anos 90, enviei pra ele um exemplar do meu Guarânia com guaraná. Ele me enviou o seu Manual de Zoofilia. Anos depois, enviei meu Matou Bashô e foi ao cinema. Ele devolveu a gentileza me enviando o seu Mar Paraguayo.

Em 1994, uma bela surpresa: na página de lançamentos de livros do Nicolau, Wilson Bueno havia feito uma pequena resenha do zine “Roots”, que eu editava.

“O Nicolau recebe uma média de 200 fanzines por mês, mas como o foco de nossa publicação é outro eles não costumam ser resenhados”, explicava ele. “Estamos abrindo uma exceção para o zine Roots, editado pelo poeta Simão Pessoa, de Manaus (AM), porque ele traz um panorama atualizado da produção literário não só da região Norte, mas de todo o país. É um zine de excelente qualidade e muito bem diagramado, que vale a pena ser conhecido”. Aí, uma pequena foto do Roots e o meu endereço para correspondência. Fiquei bobo.

Com o advento da internet e a migração dos zines para os blogs, no final dos anos 90, fui perdendo o contato com vários escritores – entre eles Wilson Bueno.


Na última quarta-feira eu fiquei sabendo da tragédia pelo blog Palavra do Fingidor, do do poeta Zemaria Pinto: Wilson Bueno, de apenas 61 anos, havia sido encontrado morto no início da noite da última segunda-feira (31) na casa onde morava, no Bairro Santa Cândida, em Curitiba, no Paraná.

A polícia suspeita que ele foi assassinado com um golpe de arma branca no pescoço durante tentativa de assalto, ainda na noite de domingo. De acordo com peritos do IML (Instituto Médico Legal), Bueno também apresentava várias lesões pelo corpo.

Segundo o jornal Gazeta do Povo, de Curitiba, não foram encontrados sinais de arrombamento no local e o escritório estava revirado, com vários sacos de lixo vazios abertos espalhados pelo chão.

Por conta deste cenário, a polícia suspeita que objetos da casa seriam levados, mas, por alguma razão, não foram retirados, e que Bueno conhecia o criminoso.

Um cheque nominal deixado na escrivaninha do cômodo onde o corpo de Bueno estava é outra pista que a polícia leva em consideração para tentar esclarecer o caso.

O corpo foi encontrado pelo irmão do escritor chamado pela diarista, que estranhou ele não aparecer até o fim da tarde.

Quando foi localizado o escritor já estava morto há, pelo menos, 12 horas de acordo com o estado de rigidez em que se encontrava o corpo.

Para o delegado Silvan Rodney Pereira, da Delegacia de Roubos e Furtos, o assassino deve ser uma pessoa conhecida da vítima pois “provavelmente, a pessoa estava autorizada para entrar na casa porque não houve arrombamento”, acredita.

Segundo o delegado, uma máquina fotográfica e um celular, que teriam sidos roubados pelo assassino, poderiam conter algum conteúdo de “interesse em comum” e talvez motivado o crime.

Apesar de a casa estar revirada, o delegado não acredita que a vítima tenha travado uma luta com o assassino. “Foi morte traiçoeira. Ele levou uma facada lateral no pescoço e foi encontrado caído ao lado da cadeira, onde, provavelmente, foi morto, pois o braço da cadeira estava quebrado”, contou o delegado. A polícia trabalha com a hipótese de latrocínio (roubo seguido de morte).

Velório


Um cartaz com uma frase e uma foto do escritor recepcionava as pessoas que chegavam na Capela da Luz, ao lado do cemitério municipal, no velório de Wilson Bueno, realizado na terça-feira.

A todo momento pessoas chegavam para dar apoio à família e amigos. “Quem perdeu foi o mundo”, disse o irmão de Wilson, João Santana, que se emocionou várias vezes ao encontrar conhecidos.


João estava bastante abalado, afinal, além de perdeu um irmão, assassinado de forma cruel, foi a primeira pessoa a encontrar o corpo de Wilson. “Foi apavorante”.

O irmão do escritor conversou com Wilson domingo à tarde, cerca de 14h30, e estava tudo bem com ele. “Segundo a vizinha ele chegou as 21h30. Acreditamos que ele foi abordado quando saía”, afirmou.

A morte do paranaense, natural de Jaguapitã, no norte do estado, abalou profissionais da área, que além de colegas trabalho eram amigos.

“Ele era uma pessoa bastante singular, uma das vozes mais importantes na literatura”, disse o amigo Paulo Sandrine, que já trabalhou com Wilson.

“Um escritor inventivo que não se conformava com paradigmas estava sempre inovando”, garantiu o outro amigo e escritor Paulo Venturelli.

Sandrine, admirador das obras de Wilson, acredita que Bolero’s Bar, o primeiro livro do escritor, é o mais próximo do colega. “Acho que é o livro mais próximo no campo discursivo e estético, mas ele sempre separava muito bem a vida pessoal da literatura, literatura era literatura”, opinou.


Para o jornalista, escritor e amigo desde a adolescência de Wilson, Fábio Campana, o livro Mar Paraguayo é o mais importante porque foi escrito em “portunhol” com uma experimentação inédita. “Mas eram as crônicas que estavam mais próximas dele porque ele falava de si mesmo”, revela.

Criador do jornal cultural Nicolau, Wilson Bueno é autor de 13 livros, como a coletânea de contos Bolero’s Bar (1986) e a novela Mar Paraguayo, lançada em 1992, com a qual ganhou projeção internacional.

Um dos nomes mais expressivos do circuito literário curitibano, Wilson Bueno mostrou à cidade sua forma de fazer vanguarda e experimentação.

Como criador e editor do jornal literário Nicolau, no período entre 1987 e 1995, abriu espaço para escritores, poetas, cineastas e artistas plásticos que não tinham lugar na mídia. O jornal era publicado pela Fundação Cultural de Curitiba (FCC).

"É impossível falar de cultura em Curitiba sem destacar a participação ativa e ousada de Wilson Bueno. Ele foi um grande colaborador da Fundação Cultural em muitas ações, e um dos autores que mais contribuíram para o fortalecimento da literatura na cidade", destaca Paulino Viapiana, presidente da FCC.

O meio literário brasileiro sentirá a sua ausência, mas seu talento permanecerá nos treze livros publicados no Brasil, México e Argentina. Publicações como Bolero's Bar, com a qual estreou na ficção, em 1986, ou A copista de Kafka, série de contos independentes escritos em 2007 que criam um painel amplo e o aproxima do romance.

“Só podemos lamentar esta tragédia e a falta que este grande escritor fará, principalmente neste momento em que assumimos um grande compromisso de transformar Curitiba numa cidade leitora. Sua participação seria fundamental neste processo”, conclui Viapiana.


Esta é a crônica de Wilson Bueno publicada na revista Idéias que está nas bancas. Na última sexta-feira ele mandou sua colaboração para o próximo número. O texto que segue, primoroso, dá bem idéia do talento de Wilson, o mais inventivo escritor que tínhamos nesta área do planeta.

Mínima Alice

Muitos dias depois de haver perguntado a Alice quem ela era e esta haver respondido que já não sabia mais a rigor quem era pois havia mudado muitas vezes desde que acordara aquela manhã, a Lagarta reencontrou nossa heroína. Tão reduzida em seu tamanho, que ela estava, vejam vocês!, firmando-se com dificuldade bem no vértice de um Ás de Copas, isto é, na ponta do coração vermelho no centro da carta do baralho.

Difícil manter-se ali, apesar de mínima. Mas tão mínima, que a olho nu, isto é, sem poderosas lentes, jamais seria vista. Nossa! Nossa! A nossa invisível Alice apoiava um dos fios de perna num lado do coração e outro no lado oposto de tal forma que desse modo conseguia se equilibrar, ainda que, muitas vezes, um dos mínimos pezinhos escorregasse e ela ficasse assim meio enviesada na ponta do coração do Ás de Copas. Trêmulas ambas as pernas – tanto a esquerda quanto a direita.

“Será que exagerei na poção mágica que faz a gente diminuir encontrada atrás da poltrona da casa do Coelho?” – pensava Alice, incapaz sequer de pedir socorro, pois a voz era um arremedo de voz, certamente ainda mais fina que a do Mosquito e talvez inaudível mesmo, pois quanto mais pedia socorro, parece que menos a ouviam. A Rainha, caso ouvisse semelhante voz-zumbido, ou ainda mais baixo que um zumbido, mandaria cortar a cabeça de Alice, mesmo que ninguém pudesse lhe enxergar o pescoço. E era fiando-se nisso que Alice gritava e gritava e quanto mais escorregava, mais as pernas tremiam. E ela ainda mais pedia por socorro.

Até que teve a ideia de sentar-se, como quem monta a cavalo, no vértice do coração da carta. Coisa que ligeiro fez, mesmo porque suas perninhas-de-linha não suportariam o desconforto da posição anterior, mais um minuto, e os minutos ali pareciam ser ainda mais breves que os minutos da vida aqui fora.
“Como poderei sair daqui? – pensou Alice – se agora, de pequena passei a invisível?”

Mas aí é que se deu a aparição da Lagarta. Imaginem vocês, com uns óculos de lentes tão fantásticas e potentes que sugeriam os óculos de um escafandro, desses que mergulham no fundo dos Oceanos para catar minúsculas pedrinhas destinadas à coleção de gemas raras do Museu Britânico.

E lá vinha ela, a Lagarta, sempre devagar, e sempre cansada, meio que se arrastando, e andou a carta toda até chegar bem próxima do coração do Ás de Copas. Meneou a cabeça muitas vezes e de repente soltou um “ah!” de espanto e perplexidade:

― Não posso acreditar no que minhas lentes veem! ― exclamou a Lagarta extremamente surpresa. ― Você, Alice?! Mas como pode ter ficado menor que um cisco? Menor que um grão de poeira?

― Pois é, Dona Lagarta, acho que abusei da poção mágica de diminuir gente que encontrei atrás da poltrona do Gato. Também estava tão docinha…

― Sorte a sua, Alice! ― ralhou a Lagarta, num misto de impaciência e regozijo.

― Não tivesse emprestado esses óculos-lunetas dos irmãos Tledle, nunca sei se do Tledledee ou se do Tledledum, pois são tão parecidos, jamais a encontraria, menina! Jamais!

― E por que essas lentes, Dona Lagarta? Só para me procurar? ― perguntou, chorosa, a mínima Alice, agora mais calma, mas ainda enganchada na ponta do coração do Ás de Copas e com muito medo de cair dali. Por mínima, dada a altura, o tombo seria imenso, ou mesmo fatal.

― Claro que não, Alice! Nem sabia… Ando atrás de uma Pulga que roubou 500 libras do Unicórnio. E te confesso que de longe pensei que você fosse a própria Pulga Larápia.

― Graças a Deus! ― benzeu-se Alice. E logo se corrigiu, pois com aquela expressão poderia parecer à Lagarta que estava aprovando o feio ato da Pulga. E logo este de roubar o Unicórnio, aquele animal tão gracioso que fizera um acordo com ela, Alice, aquele acordo que se ela acreditasse nele, ele passaria a acreditar nela e assim, um acreditando no outro, ambos passariam a se ver sob a mais veraz realidade.

Mas tudo indicou que a Lagarta entendeu de pronto o “Graças a Deus!” de Alice. E essa estava tão pálida e trêmula em sua minimez mais mínima, que só as lentes da Lagarta alcançavam perceber. Além disso, a Lagarta, sabemos, era muito compreensiva, ademais de generosa.

E foi então que Alice arriscou perguntar o que é que ela vira com tão poderosas lentes, até ali, na caçada atrás da Pulga Larápia:

― Dona Lagarta o que a senhora já viu em sua caminhada? ― uma curiosa Alicimínima, com voz abaixo da linha do silêncio, enganchada na ponta do coração da carta, quis saber.

― Nem te conto, Alice. Um exército de gérmens ainda há pouco vi subindo uma haste de capim. E incrível foi quando três grandes pulgões, estes visíveis sem as lentes, atacaram os gérmens. Uma guerra sangrenta, mas, quieta em meu canto, assisti à vitória dos pulgões. Parentes da Pulga Larápia, sem dúvida, mas não podemos incriminar alguém só porque guarda parentesco com quem não tem caráter, não é mesmo?

― Sim, siiiimmmmmmmmmmmm ― zuniu Alicimínima, temerosa de ficar ainda menor e sumir até mesmo da visão das poderosas lentes da Lagarta.

― Dona Lagarta, estou com medo… Medo de ficar ainda menor…

― Se você ficar ainda menor, não há razão para medo ― corrigiu a Lagarta.

― É mesmo ― entendeu logo nossa Alicimínima. ― Se eu for ficando menor, e menor, e menor ainda, aí eu desapareço e deixo de existir e eu não existindo não poderei ter medo, não é mesmo?

― Justo, Alice. Justo ― aprovou a Lagarta. E você então ficaria tão mínima, mas tão mínima, que deixando de existir, não seria nem mais sequer Alice.

― Mas será que eu não ficaria sendo, assim mesmo, uma Alicenada alicimínima, e continuaria com medo? Será que o que é nada não tem medo de nada ? De nadinha mesmo?

Dona Lagarta não respondeu mas foi logo acalmando Alice:

― Olha, continua aí sentadinha no vértice do coração de Copas. Segura firmizíssima com as mãozinhas, como quem segura num balancim, para não cair, que eu vou ver se encontro a outra poção, a de crescer, que, sei, o Coelho guarda, bem escondida, em sua casa, numa velha cômoda…
Uma chorosinhinhha Alicimínimazinhainha assentiu com a invisivelzinha cabecinhinha que ali aguardaria a Lagarta.

Não demorou muito, retornou a Lagarta com o vidro de poção de crescer encontrado, bem escondido, dentro de uma gaveta da cômoda, na casa do Coelho. De pequeníssima bolsa retirou com a boca um conta-gotas tão microscópico que só os olhos-lunetas da Lagarta conseguiam enxergar. E, com um sopro, o pôs nas mãos da tiquititíssima Alice.

― Abra sua bocazinhazinha Alicinha ― pediu Dona Lagarta. E, com extremo cuidado e paciência, como só as lagartas são capazes, com os óculos de poderosas lentes, que nunca foram tão úteis, ajudou Alice a pingar as partículas-gotículas da poção na linguazinhazinha de nossa Aliceminimazinha.

E esta foi de novo crescendo, crescendo, e quando chegou no tamanho suficiente para saltar da ponta do coração, ainda assim teve que se servir do micro conta-gotículas soprado da boca da Lagarta. Mas logo alcançou escorregar, por si própria, do Ás de Copas e aí, agora a gotículasículas medidas, continuou a aspirar boquita adentro a poção mágica. Desta feita com extremo cuidado. Poderia, quem sabe?, virar uma dessas gigantonas que vão por aí amassando com seus grandes pés casas, árvores e até afundando barcos em alto mar. Deus nos livre a falta de medida, conjeturou a ainda desmedida Alice.

Quando ficou bem maior que a Lagarta, percebeu que algo lhe subia pela perna. E não é que era a Pulga Larápia!!! Num movimento rápido e certeiro, como só Alice era capaz, grudou entre o polegar e o indicador a bandida, disposta a entregá-la, viva, à Lagarta. Esperneando muito, a Pulga Larápia, que além de larápia era muito ágil, ou por isso mesmo, escapou, contudo, de entre os dedos de Alice e sumiu na Floresta a gigantescos saltos, a foragida.

A Lagarta ficou olhando, olhando, e decidiu retirar os incômodos óculos de poderosas lentes. Aquela Pulga jamais ninguém encontraria ― concluiu.

Mas aí Alice já estava em seu tamanho quase normal e tomando a Lagarta com cuidado na palma da mão, para que não se cansasse no caminho, a levou até o Unicórnio. E junto ao Unicórnio testemunhou todo o ocorrido.