quinta-feira, setembro 30, 2010

Lembranças de um peladeiro aposentado (6)

Falecido em janeiro de 1976, o impagável Neném Prancha começou sua carreira como roupeiro do Botafogo e terminou sua vida como olheiro de futebol de praia.

O ilustre cidadão Antonio Franco de Oliveira era assim apelidado por conta das mãos de 23 centímetros e dos pés de número 44.

Embora não fosse jogador nem treinador, Neném Prancha era reconhecido como grande conhecedor de futebol.

Mas não foi nem por sua sabedoria futebolística nem por suas estranhezas – nunca falava de seu passado e, embora fosse visto todos os dias na praia, jamais era visto no mar – que ele ficou célebre.

Foi, na verdade, pelas frases irreverentes.

Neném Prancha foi o autor de sentenças que ficaram marcadas ao longo do tempo, como “se concentração ganhasse jogo, o time do presídio não perdia uma partida” ou “o goleiro deve andar sempre com a bola, mesmo quando vai dormir. Se tiver mulher, dorme abraçado com as duas”.

Ele ainda cravou frases do tipo “pênalti é uma coisa tão importante, que quem devia bater é o presidente do clube”, “se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminava sempre empatado”, “quem corre é a bola, senão era só fazer um time de batedores de carteira” e “bola tem que ser rasteira porque o couro vem da vaca e a vaca gosta de grama”.

Aqui na taba, o maior discípulo de Neném Prancha foi o índio piratapuia Marajara.

Durante 40 anos – do início dos anos 60 ao final dos anos 80 –, Marajara fundou, organizou ou treinou mais de 50 times de futebol nos bairros da Cachoeirinha, Raiz, Petrópolis e São Francisco, tendo passado por suas mãos mais de 3 mil atletas.

Com um detalhe: ele só treinava crianças e adolescentes, nunca foi técnico de um time de adultos.

Suspeitava-se, inclusive, que ele fosse homossexual. Não era. Hoje, com quase 70 anos, Marajara mora com mulher, filhos e netos no bairro da Alvorada.

Homem de poucas luzes, quase analfabeto, extremamente simples, Marajara comprava os equipamentos dos times (jogo de camisas, calções e meiões) com seus próprios recursos.

Nunca recebeu uma mísera ajuda oficial, mas também não se queixava disso.

Ele era apaixonado pela Seleção Brasileira de 1958 (que eu também considero a melhor de todos os tempos) e sua filosofia de jogo era baseada exclusivamente na tática implantada por Vicente Feola: ao atacar, abra os ponteiros, ao defender-se, congestione o meio fechando a cabeça da área.

Se na criação o companheiro deslocar, deverá receber na feição, mas se outro pedir, é porque estará mais confiante ou melhor colocado.

Portanto, ataque em leque e defenda em funil, quem desloca recebe e quem pede tem preferência. Simples assim.

Com o passar do tempo, Marajara acabou por adaptar essa teoria para a cultura baré, reunindo algumas máximas de fácil entendimento para a molecada.

Assim, antes de seu time entrar em campo, ele reunia a defesa em um canto e dava suas recomendações finais:

– O goleiro precisa ser igual a visgo de jaca em pé de curió: pegou, não larga mais.

– Os laterais têm que jogar igual pára-brisa de carro: indo e vindo, indo e vindo.

– Os zagueiros têm que jogar que nem mandioca brava: plantado na área o tempo todo!

– O volante tem de jogar como quem tomou lacto-purga em jejum: tomando muito cuidado pra não fazer cagada!

– E não esqueçam que atacante inimigo é feito cabeça de prego: tem que levar pancada, até sumir da frente!

Depois que conversava com a defesa, Marajara se reunia com os atacantes:

– O armador tem que distribuir a bola igual a rabo de vaca: prum lado e pro outro, prum lado e pro outro!

– O ponta direita tem que ser igual navalha Solingen em mão de malandro: cortou pro meio, rasga em diagonal.

– O ponta esquerda tem que ser que nem preá no cio: só cruzando, só cruzando!

– O ponta de lança tem que jogar que nem espartilho de puta: apertando por trás e entrando pelas brechas.

– O centroavante tem que jogar igual biquini asa delta em rabo de quenga: enfiadinho o tempo todo!

Depois da preleção com os atacantes, reunia o time inteiro:

– Não gosto de capitão de equipe calado. Ele tem de ser que nem cabrito entrando na faca: berrar o tempo todo!

– O jogo está amarrado no meio campo? Os laterais devem se adiantar pra fazer a tática do tatu com porco: cavar e fuçar, cavar e fuçar.

– Quando a gente estiver sendo atacado, arrecua o time inteiro. E na hora do ataque é que nem enterro de político: vai todo mundo!

Dadas as instruções finais, Marajara fazia todos os atletas se darem as mãos e rezarem um Pai Nosso – provavelmente rogando para não serem goleados mais uma vez pelo implacável Murrinhas do Egito.

Quando a partida terminava, tivesse seu time perdido ou não, Marajara reunia os garotos em sua própria residência e servia refresco de mangarataia com bolo de macaxeira, tudo custeado do próprio bolso.

Por sua dedicação ao futebol amador, o índio piratapuia bem que merecia uma estátua em praça pública.

Lembranças de um peladeiro aposentado (5)

Áureo Petita, Luiz Lobão, Kepelé e Mazinho Santos com o primeiro uniforme oficial do Murrinhas do Egito (ex-Sancolzinho)

Junho de 1969. O Bar União ficava no cruzamento das ruas Carvalho Leal com J. Carlos Antony, em frente do atual posto de gasolina LM.

No Dia de São João, o dono do bar, seu Humberto (pai do Humbertinho, que depois se casou com a Mary Jane, irmã do Mário Adolfo), colocava um pau de sebo diante do boteco, que era uma das atrações do bairro.

O pau de sebo consistia de um mastro envernizado de oito metros de altura, cuidadosamente preparado: tiravam-se todos os nódulos de madeira, que depois era lixada, e passava-se sebo de boi, graxa ou qualquer outra substância gordurosa.

O pau de sebo recebia no topo um triângulo de madeira, no qual era amarrado um envelope com dinheiro, sendo o triângulo encimado por uma bola de futebol. O mastro era então fixado solidamente no chão.

A brincadeira consistia em tentar subir no pau de sebo para apanhar os prêmios.

Assim que seu Humberto liberava a brincadeira, a garotada ficava eufórica, mas o fato é que quanto mais os moleques se esfregavam no poste para tentar subir, mais ele ficava escorregadio.

Alguns mais espertos passavam areia nos peitos desnudos, para aumentar o atrito. Conseguiam, no máximo, ficar com os peitos lanhados.

Outros usavam uma espécie de peconha improvisada, semelhante aquela usada para subir na palmeira de açaí, mas a falta de habilidade os trazia irremediavelmente para baixo.

E havia ainda aqueles que apostavam no trabalho em equipe, em que um subia no ombro do outro tentando ganhar altura. No máximo, três garotos conseguiam manter o equilíbrio naquelas circunstâncias.

Em dias normais, mais de 100 moleques participavam da brincadeira. Os maiores de 16 anos apenas observavam.

Nesse dia, o moleque Dinho Marreta, de 15 anos, já havia feito mais de 30 tentativas frustradas, só que ele era brasileiro, não desistia nunca.

Por volta das 19h, Marreta já estava subindo quase sete metros e muito próximo de colocar a mão na bola quando sua mãe, Dona Bebê, surgiu do outro lado da rua mostrando um chicote e avisando que ele ia levar a maior surra da paróquia se não fosse direto pra casa.

Marreta desceu do pau de sebo e foi embora – apesar de já ter retirado com o próprio corpo mais de 50% da graxa original.

O moleque Áureo Petita, de 14 anos, resolveu substituí-lo na brincadeira.

Na décima tentativa seguida, Áureo conseguiu derrubar a bola, agarrar o envelope cheio de dinheiro e descer do pau de sebo sem correr risco de vida.

Ele ficou tão empolgado com o prêmio, que saiu correndo do bar para entregar as merrecas ao seu velho pai e atravessou a rua Carvalho Leal sem olhar pros lados.

Não deu outra. Foi atropelado violentamente por uma caminhonete Rural Willys e arremessado a uns dez metros de distância. Resultado: fratura exposta na perna direita.

A grande estrela do Sancolzinho passou um ano no estaleiro e, devido a uma série de complicações posteriores, quase teve a perna amputada.

Ninguém acreditava que ele ainda pudesse voltar a jogar futebol.

Em janeiro de 1971, entretanto, Aureo voltou a vestir a camisa 10 do Sancolzinho, em um jogo contra o Canarinho, de Petrópolis, no campo do Penarol.

O novo time do Marajara tinha alguns craques em início de carreira – Donga, Tobias, Irineu, os irmãos Ernâni e Eraldo, Mário Fó, Ferrinho –, mas não foi páreo para o nosso time, agora reforçado pelos endiabrados Zeca Boy, Nilton Torres e Mazinho Santos.

Aplicamos uma sonora goleada de 6 a zero, com Áureo fazendo um gol de placa, em que simplesmente driblou duas vezes seguidas toda a defesa do Canarinho, incluindo o goleiro, e entrou com bola e tudo.

O jogo marcou a ressurreição futebolística do nosso craque e o início de uma acirrada rivalidade entre os dois times que duraria por toda a década de 70.

quarta-feira, setembro 29, 2010

Lucio Preto detonando (1)

Depois de abandonar o futebol, Aureo Petita se transformou em churrasqueiro de responsa: ele se amarra em enfiar um ferro nas carnes

Junho de 1981. O Penarol vai enfrentar o Fast Clube, no Estádio Floro Mendonça, em Itacoatiara, precisando vencer a partida para se classificar automaticamente para o quadrangular decisivo do campeonato amazonense daquele ano, sem depender de outros resultados.

Novo reforço do time, o meia-armador Aureo Petita estreou contra o Sul América, no Estádio da Colina, em Manaus, na semana anterior, fez um gol, deu passes para outros dois, foi escolhido o melhor jogador em campo e se transformou na grande esperança dos torcedores itacoatiarenses para essa nova partida.

Ele vai jogar oficialmente na terra da Pedra Pintada pela primeira vez.

No vestiário, o quarto-zagueiro Lucio Preto se aproxima do meia-armador e explica a situação:

– O nosso técnico acha que você ainda não está na sua forma física ideal e me pediu para te dar essas vitaminas! É um composto de vitamina C, outro de complexo B e outro de cálcio, selenium e sais minerais...

Inocente, puro e besta, Aureo Petita pega da mão do quarto-zagueiro as três pílulas, uma de cada cor, e engole com um copo d’água.

O estádio está completamente lotado. Quando o jogo começa, Aureo Petita já está na ponta dos cascos.

Ele corre o campo inteiro, bate tiro de meta, cobra escanteio, tira lateral, dribla, dá carrinhos, disputa bola de cabeça, divide bolas com zagueiros, tromba, dá balãozinho, chagão, drible da vaca, enfim, inferniza pra valer a defesa fastiana.

O jogo, entretanto, permanece zero a zero, apesar de ele já ter deixado o atacante Carioca na cara do gol umas quinze vezes.

No intervalo, enquanto seu time entra no vestiário, ele permanece no campo, elétrico, dando uma volta olímpica atrás da outra, cada vez imprimindo maior velocidade.

A torcida do Penarol vai ao delírio.

Mal a partida recomeça, Aureo Petita faz um lançamento pra ele mesmo, do círculo central para a entrada da área do Fast Club, ganha na corrida dos zagueiros e do goleiro e enche o pé.

A bola estufa o véu da noiva. Penarol 1 a zero.

Dez minutos depois, Aureo Petita bate um escanteio na primeira trave, um zagueiro devolve de cabeça pra fora da área, Aureo Petita sai correndo da bandeirinha de escanteio em direção à bola rebatida pelo zagueiro, quase na intermediária, e, sem deixar a bola cair, bate de voleio, com violência.

A bola faz uma curva magnífica e estufa o véu da noiva, exatamente no ninho da coruja. Penarol 2 a zero.

Na arquibancada, os torcedores fazem um verdadeiro carnaval.

O meia-armador está com a macaca. Ele continua correndo o campo todo, procurando pela bola, esteja ela onde estiver.

Faltando cinco minutos para acabar o jogo, ele toma uma bola do ponta-esquerda fastiano Orange quase na entrada da área do Penarol, e volta célere em direção ao gol fastiano.

Na sequência, dribla o volante Zé Luiz, dribla o meia-armador Mário Gordinho, dribla o volante Fabinho, se livra de um chute do zagueiro Marcão, dá um balãozinho no lateral direito Carlos Alberto, dribla o goleiro Ricardo, e rola a bola limpa para Carioca empurrar pro gol. Penarol 3 a zero.

Mal o jogo termina, Aureo Petita sai correndo do campo direto para a concentração do clube, a cinco quilômetros do estádio.

Ele troca de roupa rapidamente e sai correndo até o Bar do Jaime, no bairro da Colônia, a cinco quilômetros da concentração.

Passa dois dias e duas noites bebendo no boteco sem se levantar nem para urinar.

Foi resgatado pelo Lucio Preto, que o levou de volta pra concentração, onde passou três dias dormindo.

Somente muitos anos depois, ele soube que em vez de vitaminas havia ingerido disbutal, panbenil e mandrix.

Lucio Preto detonando (2)

Edinês, Afonso, Luiz Lobão, Lucio Preto e Maurílio, durante uma biritada no Clube Jacundá

Março de 1974. Numa manhã de sábado, Lucio Preto, Aureo Petita, Paulinho e Gilberto param o carro em frente da casa da Dona Francisca e começam a fazer o maior escarcéu.

Dona Francisca vai até o terreiro saber o que está acontecendo.

– Dona Francisca, por favor, chame o Luiz Lobão, que ele está escalado para fazer um teste de montador na fábrica de calculadoras da Sharp do Brasil! – explica Lucio Preto.

– Mas logo hoje, em pleno sábado?... – questiona Dona Francisca, visivelmente surpresa.

– Pois é. Parece que o Luiz já fez o teste escrito e hoje ele vai só fazer a avaliação física, que é feita fora da fábrica. O Paulinho e o Áureo também estão indo fazer o teste! – explicou Lucio Preto.

Na maior boa fé e acreditando piamente que o filho caçula tivesse tomado juízo, Dona Francisca vai chamá-lo.

Ele havia chegado bêbado na madrugada anterior e havia vomitado a casa inteira. Um horror!

Ainda meio sonolento, Luiz Lobão se despede da mãe, entra no fusca e eles vão embora pro Bar Riachuelo, lá pras bandas da Cidade Nova.

Retornam pra Cachoeirinha por volta da meia-noite, depois de terem detonado cinco garrafas de “pirata holandês” (Ron Montilla com leite condensado Greenland).

Luiz Lobão está capotado, quase em coma alcoólico.

Lucio Preto e Gilberto carregam Luiz Lobão até a entrada da casa, deixam o bebum no chão, dão duas batidas rápidas na porta, entram rapidamente no fusca e saem de lá cantando pneus.

Quando Dona Francisca abre a porta, toma um susto: tá lá o corpo estendido no chão.

Irritadíssima, ela começou a reclamar, enquanto tentava levantar o indigesto:

– É esse que é o teste da Sharp, sem vergonha?! É esse que é o teste da Sharp?!

Reunindo as últimas forças que ainda possuía, Luiz Lobão abriu um dos olhos, que nem o pirata do rótulo do Ron Montilla, balançou a cabeça em desaprovação e ganiu:

– Mas a senhora ainda acredita no Lucio Preto, mamãe?...

Aí, fechou de novo o olho e voltou a dormir.

Mashup junta o rock experimental do Yeasayer ao Depeche Mode

Marcus Vinicius Brasil, do Rraurl

O rock experimental dos nova-iorquinos do Yeasayer, uma das atrações do Planeta Terra Festival, se encontrou com o tecnopop oitentista do Depeche Mode em um mashup recém-lançado.

O remix, feito pelos holandeses do MadMixMustang, junta as faixas O.N.E, do segundo disco do Yeasayer, Odd Blood, com a clássica I Just Can't Get Enough, do Depeche Mode.

O resultado está disponível para download no site Mashuptown.com.

O Yeasayer divulgou o mashup em seu blog oficial.

O trio formado no bairro do Brooklyn por Chris Keating, Ira Wolf Tuton e Anand Wilder se apresenta no Gillette Hands Up / Indie Stage do Planeta Terra Festival, às 20h do dia 20 de novembro.

Mas vamos esquecer por um momento que o Yeasayer vem do Brooklyn e que esse bairro nova-iorquino tem rendido boas novas para o rock nos últimos anos - todo mundo já cansou de ler a esse respeito e até uma revista careta como a New York dedicou uma longa reportagem (com direito a capa) ao assunto.

Deixando de lado qualquer interesse geográfico, o que interessa é o segundo e novo álbum do grupo, Odd Blood, que bem sucede All Hour Cymbals.

A versão que ouvimos e da qual falamos aqui é a que apareceu na internet em fins de 2009, e que ainda não havia sido lançada oficialmente.

Lançada dois anos atrás com músicas de sabor étnico, a estreia do trio o tornou notável pelas canções que falavam de esperança e da relação com a natureza sem soar tolo demais.

Wait for the Summer foi hino pagão no distante ano de 2007 com um clipe dirigido pela trupe do Mixtape Club.

Levou a estados de transcendência qualquer ouvinte com tendências xamanistas graças a seus timbres bucólicos.

Odd Blood traz de volta esse balanço ritualístico, potencializado por notas eletrônicas disparadas por sintetizadores.

Os vocais de Chris Keating continuam garantindo a unidade do trabalho, escorregando por notas agudas e não raro aparecendo embargado pelo efeito de vocoders.

Em The Children, faixa que abre Odd Blood, sua voz aparece tão filtrada que faz lembrar a personagem Fever Ray da sueca Karin Dreijer cantando em If I Had a Heart.

Mas passada essa introdução sinistra, as outras canções soam alegres e otimistas.

Ambling Alp (que ganhou um clipe pegajoso) tem belas melodias compostas por teclados assoviando, além de uma percussão cheia de tamborins e chocalhos.

Para quem gosta de espacialidade e linhas de baixo dançantes, O.N.E. oferece os dois.

Sustentada por guitarras e vocais ecoando ao infinito, poderia ser taxada de space disco caso viesse de algum país escandinavo.

Madder Red lembra muito o material de All Hour Cymbals, com jeito de música saída da trilha sonora de O Rei Leão, e Love Me Girl tem a mesma levada new age - constam até sons de uma revoada de pássaros.

Rome responde por um dos momentos mais animados de Odd Blood graças aos seus tecladinhos esfuziantes.

Foi com esse bom humor e alguma medida de psicodelia (toque Strange Reunions para estados alterados de consciência) que o Yeasayer abriu a temporada de bons discos de 2010.
 
Suas músicas funcionam como uma trilha esperançosa para os próximos meses, e harmoniza bem com as mais utópicas metas de ano novo.

Dinosaur Jr mostra seu barulho em pocket show em praça de SP

Paulo Noviello, de São Paulo

Os americanos do Dinosaur Jr. são considerados por muitos os pais do que se convencionou chamar de indie rock. Em turnê pelo Brasil, os veteranos "tiozinhos" J Mascis (vocal e guitarra), Lou Barlow (baixo e vocal) e Murph (bateria) mostram que o espírito alternativo ainda corre nas suas veias.

Após se apresentarem no festival independente pernambucano Coquetel Molotov, no Recife, no último sábado (25), e no domingo em Salvador, eles tocaram ontem (28) e e tocam hoje (29), no Comitê Club, na rua Augusta, em São Paulo, com ingressos já esgotados.

Mas, para alegria dos fãs que não conseguiram ingresso, o trio marcou um pocket show ao ar livre, de graça, na tarde desta última terça-feira, em um evento de skate na praça Marechal Cordeiro de Faria, no final da avenida Paulista.

O show foi bem curto, deixando o público com um gostinho de "quero mais", mas as cinco músicas que eles tocaram em pouco mais de 15 minutos arrepiaram os fãs da banda, que até pouco tempo achavam que nunca veriam o Dinosaur Jr. no Brasil, já que eles haviam encerrado as atividades em 1997, sem ter vindo ao país.

Mas com a volta, em 2005, as esperanças dos brasileiros voltaram e estão sendo cumpridas.

E o pocket show desta tarde de terça foi a cara da banda: skatistas fazendo suas manobras, fãs mais velhos e muita molecada bem jovem se acotovelaram diante do pequeno palco para o show, que começou pontualmente às 14h.

Foi anunciado que seriam tocadas apenas cinco músicas, mas o público poderia pedir as faixas, que transformaram a apresentação em um "mini-greatest hits".

E eles começaram com um dos clássicos do Dinosaur Jr: The Wagon, do disco Green Mind, de 1991.

Se o sistema de som "humilde" tornava difícil ouvir os vocais de Mascis, os amplificadores da banda e os pedais do guitarrista providenciaram o barulho e distorção de guitarra que é a marca registrada do grupo.

Na sequência outro hit, Freak Scene, do disco Bug, de 1988, seguido por Feel the Pain, de 1997, talvez o maior sucesso da banda, que levou a galera ao delírio.

Mais duas músicas e era o fim do show.

Quem não acreditou que a apresentação seria pontual, perdeu, e se não tiver garantido o ingresso para o último show no Comitê Club só poderá ver os pais do indie rock em uma próxima turnê.

A escolha do Dinosaur Jr para tocar em um evento de skate não é por acaso.

Eles sãos fãs do esporte e aparecem fazendo suas manobras, cheios de estilo, no clipe da música Over It, do disco mais recente, Farm, lançado no ano passado.

O baixista Lou Barlow também fez um show solo e acústico na noite de segunda (27) no Espaço Mais Soma, uma pequena galeria de arte na Vila Madalena.

No show intimista, acompanhado apenas de um violão, Barlow cantou faixas de sua outra banda, o Sebadoh, e músicas próprias.

Se a apresentação de Barlow foi silenciosa e o pocket show deu apenas uma amostra do barulho que o trio produz, eles prometeram que as apresentações das noites de terça e quarta seriam um desafio aos tímpanos da plateia, e o baixista até aconselhou os fãs a usarem protetores de ouvido.

Jerry Lee Lewis completa 75 anos com show em Los Angeles

Completando 75 anos de idade nesta quarta-feira (29), o lendário pianista Jerry Lee Lewis se apresentou na noite dessa terça no Grammy Museum, em Los Angeles, nos Estados Unidos.

No evento, chamado de An Evening with Jerry Lee Lewis, o músico falou sobre sua carreira e seu disco mais recente, Mean Old Man.

De acordo com a Reuters, o show e a entrevista foram um tanto quanto "desconfortáveis".

O relato da agência de notícias aponta que o pianista parecia apático e "resmungava" ao dar respostas em uma entrevista feita com um moderador.

A publicação ainda diz que as perguntas escolhidas já haviam sido "ouvidos milhões de vezes" pelo dono do hit Great Balls of Fire.

Zeca Pagodinho participa da gravação do DVD de Monarco

Muito conceituado no mundo do samba, Monarco recebeu artistas de peso na gravação de seu DVD Memória do Samba: Monarco, que aconteceu na terça-feira (28) no Teatro Oi Casagrande, no Rio.

Entre os convidados mais do que especiais estavam Zeca Pagodinho, Paulinho da Viola e Martinho da Vila.

Os intérpretes dividiram o palco com Monarco e cantaram os grandes sucessos do músico.

Marcelo D2 mostra homenagem "de coração" a Bezerra da Silva

Osmar Portilho

A tão procurada batida perfeita de Marcelo D2 pode estar no samba. Em um ano que poderia ser "ocioso" em sua carreira, o rapper colocou em prática um projeto antigo: homenagear o sambista Bezerra da Silva, morto em 2005.

Dono de uma tatuagem no braço com o rosto do sambista, D2 abandonou as rimas do rap, optou por deixar os scratches de lado e, "intimado" pelo produtor Leandro Sapucahy, decidiu colocar em prática o projeto, que resultou no álbum: Marcelo D2 Canta Bezerra da Silva.

Com catorze faixas conhecidas na voz de Bezerra, Marcelo D2 se focou mais no samba nesta empreitada para não mexer na obra de Bezerra. "Ele era um cara tão preocupado com essa parada dele que eu e o Leandro entramos num acordo de mexer o mínimo o possível", disse em entrevista ao Terra.

O músico ainda falou sobre a preocupação de mostrar aos fãs de Bezerra que esta é uma homenagem de "coração" e exaltar o lado malandro do sambista. "Ele falava de política de uma maneira que poucas pessoas falaram. Esse sarcasmo dele é uma coisa que me influenciou muito. Ele sacaneava todo mundo. Isso é a cara do brasileiro", contou.

Confira a entrevista

Terra - Como surgiu esse projeto? Era uma ideia antiga?

Marcelo D2 - Tinha essa ideia desde que o Bezerra morreu. No dia que ele se foi ficamos conversando e pensamos que seria uma boa. O tempo vai passando e as coisas vão acontecendo. Acaba não sobrando tempo pra isso com toda a carreira. Em 2007 quando fizeram uma homenagem para ele e me convidaram pra participar eu achei que ainda não era hora. A hora aparece quando é apropriado.

E como soube que essa era a hora?

Esse ano eu estava de bobeira e o Leandro Sapucahy me ligou falando "E aí? Vai fazer o que esse ano?". Conversando, nós lembramos dessa ideia e falei "vamo embora". Estava meio sem tempo com turnê na Europa, mas como trabalho há muito tempo com o Leandro eu tinha total confiança nele. Fizemos as bases em dois dias depois de uma reunião. Depois disso fui pra Europa e voltei quatro vezes gravando em todos os intervalos. Ia, voltava, ia pro estúdio, gravava alguns vocais, percussão. Não foi nada planejado. Rolou. O Leandro foi o cara que me de confiança pra isso.

Fazia muito tempo que o projeto estava na gaveta. Com isso as ideias já estavam meio "engatilhadas"?

Só faltava um empurrão mesmo. O lance foi que ele falou: "cara, vamos fazer esse disco agora". Estou em um momento tão do samba. Ando e canto com gente do samba. Isso acabou me dando mais vontade. Fazia mais sentido.

E como que foi na hora de estudar os arranjos?

Nesse vai e volta que foi, a gente acabou fazendo muita coisa por telefone. Uma coisa que decidimos logo no começo foi não mexer muito nos arranjos do Bezerra. Ele era um cara tão preocupado com essa parada dele que eu e o Leandro entramos num acordo de mexer o mínimo o possível. Não queríamos mexer na obra dele.

Achou perigoso?

Eu faço minhas experiências de rap, samba, hardcore, mas na minha obra. Essa coisa de scratch, beatbox e tudo ia ficar muito agressivo, principalmente para os fãs do Bezerra. Não era isso que queria. Queria um disco para que os fãs dele ouvissem e soubessem que é uma homenagem de coração mesmo. E para a molecada mais nova que não conhece a obra do Bezerra.

Isso influenciou na hora de escolher as músicas?

Também não queria fazer um trabalho arqueológico. Tenho todos os discos do Bezerra. O primeiro compacto dele. Queria mostrar o lado carioca malandro dele.

Foi difícil chegar nas 14 faixas finais?

Basicamente a gente escolheu as que eu cantei melhor (risos). Gravamos todas as músicas e você vai percebendo o que fica melhor. É natural. Tem músicas como Pai Véio 171 que era uma que eu não botava fé. Adoro, mas não levava fé. Hoje é uma das preferidas no disco. Gostei de toda a onda que a música ganhou. Elas foram crescendo e ganhando espaço. Tem outras também que gente já gravou. O Rappa, Diogo Nogueira e eu falei pra tirar. Também não queria que ficasse muita música de favela, muita música de droga, muita de samba. Pegamos alguns temas e fomos escolhendo uma ou duas de cada.

Foi difícil pra você encarar esse projeto como cantor? Leandro Sapucahy te ajudou nisso?

A gente trabalha junto há muito tempo. Como produtor, ele me ajudou muito nessa parada. A gente já sabia o que queria. Da galera que tocou com a gente no disco, metade tocava com o Bezerra e metade tocava comigo, sendo assim foi fácil entrar no estúdio e gravar.

Como define a importância do Bezerra na música?

Ele é único. Ele falava de política de uma maneira que poucas pessoas falaram. Esse sarcasmo dele é uma coisa que me influenciou muito. Ele sacaneava todo mundo. Isso é a cara do brasileiro. Preocupado com as coisas, mas que zoa. É um cara único na música brasileira. Falando em samba do morro ele é o maior.

Também com um papel social?

Ele era a voz da favela. O que hoje o rap e o funk carioca fazem, ele já fazia há muito tempo.

terça-feira, setembro 28, 2010

Lembranças de um peladeiro aposentado (1)

Kepelé, Fernando Língua, Luiz Lobão e Sidão durante um racha no campo do reformatório Melo Matos. O sujeito cortado pela foto não deu pra reconhecer.

O primeiro time de futebol fundado na Cachoeirinha foi o Madureira Atlético Clube, vulgo MAC, surgido no início dos anos 40, na rua General Glicério, na casa de nº 75, de Luiz Gonzaga, que foi seu primeiro presidente.

Nos anos seguintes, ele se transformaria no melhor time suburbano da cidade, tendo em sua melhor formação vários craques que depois se tornariam profissionais consagrados: Ney, Sabá Baima, Sabá, Barbeirinho e Lupercio, Reginaldo e Regildo, Caiado, Luiz Oneti, Paulo Oneti e Alexandre.

Apesar dos títulos conquistados, o MAC nunca teve uma sede social definitiva e desapareceu em 1965, quando seu presidente era João Franco (aka “Bolaça”). Na época, o MAC usava uma sede provisória na rua Borba.

Mesmo tendo surgido em maio de 1939, o Orion Football Clube, fundado por Antonio Altino da Silva (aka “Mestre Ceará”), só começou a participar de partidas oficiais em 1942, transformando-se no grande saco de pancadas do MAC.

Sua sede provisória era na rua Ajuricaba nº 1140, depois mudou-se para a rua Borba nº 170, quando passou a se chamar Orion Esporte Clube, em razão de participar de várias modalidades esportivas.

O clube chegou a ter uma sede própria na rua Borba, mas acabou sendo extinto em 1965, quando seu presidente era Henrique Alves.

O Ypiranga Futebol Clube foi fundado no dia 5 de setembro de 1942 pelos irmãos Horácio (pai do João do Ypiranga) e Osvaldo (pai do Raimundo Pinho) Nascimento, João Gomes, Nilo Pereira de Souza, Waldemar Alves de Lima, Waldemar Lisboa, Potoqueiro e José Lázaro.

A sua sede continua até hoje no cruzamento das ruas Carvalho Leal com Barcelos, em terreno doado pela prefeitura.

O Ypiranga foi o time da Cachoeirinha mais bem sucedido no campeonato da segunda divisão, tendo conquistado vários títulos.

Seu primeiro campo de futebol foi desapropriado pelo governo e no local foi erguido o Palácio Rodoviário.

O Santos Futebol Clube foi fundado no dia 1º de maio de 1952 por Jorge Lima, Artur Silva, Jorge Cordeiro, Hugo, Pretinho, Gestê e Sabá.

Foi o único time da Cachoeirinha que disputou o campeonato da primeira divisão, uma classe especial do futebol amador, uma vez que ainda não existia a categoria profissional.

Ele conquistou o título máximo de 1958, vencendo o Guanabara Esporte Clube por 3 a 1.

Nessa partida, o time do Santos era formado por Ney, Raimundinho, Silvino, Paulo e Roberto, Melo e Tucupi, Gesnê, Pretinho, Pinguim e Cacheado.

Como não possuía sede, o Santos utilizava a sede provisória do MAC, na rua Borba.

O Botafogo Futebol Clube foi fundado em 1955, na avenida Carvalho Leal, por Valdemar Torres, Miguel Sena, Noia, Paulo Biribá, Esteves e Boanerges.

Alguns anos depois, eles adquiriram um terreno na rua J. Carlos Antony, entre a Carvalho Leal e a Waupés, onde construíram sua sede social.

Apesar de participar intensamente do esporte amador, o Botafogo tinha seu foco voltado para as promoções sociais.

Alguns dos melhores bailes de carnavais do bairro eram realizados em sua sede.

Nos anos 70, os sócios venderam a sede do clube e ele deixou de existir.

O Expressinho Futebol Clube foi fundado pelo onipresente índio piratapuia Marajara em 1962 e se tornou o primeiro clube de peladeiros do bairro.

Entre seus atletas estavam Carlito Bezerra, Beto Folha Seca, Zeca, Laércio, Nego Walter, Leandro, Wando, Flávio Cupu e Ariosto (filho da conhecida professora Maria Emília).

As reuniões, à base de lamparina, eram realizadas na casa do Carlito Bezerra, na rua Borba.

Quando as reuniões estavam muito chatas, um dos atletas, “distraidamente”, apagava a lamparina dando um soprão na chama, o que fazia Marajara ir à loucura.

Se fosse descoberto, o autor da façanha recebia dez bolos de palmatória e ficava suspenso duas partidas. Marajara era abusado.

O Coral Esporte Clube foi outro time de peladeiros formado em 1964, na casa do Rui Assunção, na rua Borba, que logo se tornou o melhor time do bairro.

Tendo no gol o melhor goleiro da Cachoeirinha de todos os tempos (Ademar Arruda, codinome “Gato”, esse eterno violeiro do rio Araguaia, que depois se casou com a Mércia, irmã mais velha do Mário Adolfo), uma zaga verdadeiramente intransponível até para o violento futebol americano (os irmãos halterofilistas Zezinho, Popó, Vico e Valdir), um meio campo estiloso com Sadok, Antídio e Epitacinho, e um ataque arrasador, com Manuel Augusto, Jorjão e Wilson Fernandes, o Coral fez história.

Tanto que, em 1968, o Santos Futebol Clube jogou a toalha: os dois times resolveram fazer uma fusão e nasceu o Sancol, uma seleção amazonense de peladeiros que ditou as ordens no bairro durante quase cinco anos.

Quem disser que, no período de 1968 a 1973, jogou em um time da Cachoeirinha que derrotou o Sancol está mentindo vergonhosamente.

Sei disso porque, na época, jogava no Sancolzinho (o time infanto-juvenil do Sancol), que depois se transformaria no também imbatível Murrinhas do Egito. O resto é lenda, folclore ou superstição.

O time base do Sancolzinho era formado por Mário Adolfo (goleiro), Arizinho (lateral direito), Airton Caju (central), Cumbuca (quarto zagueiro) e Gilmar Velha (lateral esquerdo), Betinho (volante) e Áureo Petita (meia armador), Heraldo Cacau (ponta direita), Luiz Lobão (ponta de lança), Kepelé (centroavante) e eu (ponta esquerda).

Na reserva, ficavam os zagueiros Sidão Ribeiro, Fernando Linguinha, Chico Porrada e os atacantes Gilson Cabocão (que também jogava de zagueiro), Marcos Pombão e Nonato Índio. O polivalente Kepelé era o substituto natural do Mário Adolfo.

Lembranças de um peladeiro aposentado (2)

Mestre Louro, Zinho, Kepelé, Luiz Lobão e as periguetes do Clube Municipal

Fevereiro de 1968. Tendo como técnico o gente fina Popó, o Sancolzinho vai fazer sua estréia como equipe de futebol enfrentando o indigesto time infanto-juvenil do Juventus, da Raiz, no campo do União (hoje, no local, está o Conjunto Solimões, na rua Tefé).

O campo do União media 100 X 70 metros. Era de barro, revestido por uma finíssima camada de areia, e ficava encravado em meio a um bosque, repleto de árvores frutíferas. Era um dos melhores campos de futebol da época.

No nosso time, o mais velho é o franzino goleiro Mário Adolfo (14 anos). No time adversário, o mais novo é o musculoso Kelebreu (16 anos).

Anuncia-se um massacre, não pela qualidade técnica do Juventus, mas porque seus atletas são uns verdadeiros galalaus – a maioria deles já fazendo o serviço militar.

Além disso, eles jogam armados de chuteiras enquanto a maioria do nosso time joga descalço ou de conga.

Com dez minutos de jogo, o nosso habilidoso ponta de lança Luiz Lobão (13 anos) já foi vítima de três tentativas de homicídio praticadas pelo famigerado zagueiro Mucurinha (18 anos). Suas canelas estão minando sangue.

Enquanto Luiz Lobão recebe os primeiros socorros, Mucurinha ainda tem o desplante de ficar roçando a chuteira numa pedra de amolar faca, para que os pregos dos travões fiquem mais expostos e afiados.

Na base do “chuta pro mato que o jogo é de campeonato”, a gente consegue sustentar um heróico zero a zero no primeiro tempo.

No intervalo, dando pedaços de gelo para os atletas, o técnico Popó limita-se a pedir calma:

– Não vamos entrar no jogo deles e aceitar provocação! Vamos fazer o que a gente sabe: tocar de primeira e sair jogando, tocar de primeira e sair jogando!...

No segundo tempo, a pedreira continua. O time deles nos caçando em campo e a gente se livrando dos coices milagrosamente.

Quase no final da partida, Áureo Petita (13 anos) enrola as duas pontas do calção até aquilo se transformar em uma espécie de tanga – era um tique que ele tinha sempre que ficava nervoso, talvez uma evocação inconsciente aos poderes de Tarzan, o homem-macaco – e resolve estragar a festa: dribla um, dois, três, quatro sujeitos, dá um corta luz no goleiro, e entra com bola e tudo. Sancolzinho 1 a zero.

Os caras se aborreceram de vez.

Nos cinco minutos derradeiros, eles foram com tudo – torcedores inclusos – pra cima do nosso time, mas Mário Adolfo, com uma série de defesas milagrosas, garantiu o placar.

Mal o juiz encerrou a partida, eles já estavam exigindo uma revanche.

E pra mostrar que continuavam “muy amigos” resolveram só nos deixar sair de campo depois que cantássemos em uníssono um velho sucesso da Jovem Guarda, na voz de Leno: “Eu tenho febre, de carinho, / Febre desse teu amor. / Febre meu benzinho, / Pois você me dá calor”.

O acompanhamento musical era na base do pescoção.

O técnico Popó limitava-se a pedir calma:

– Não vamos entrar no jogo deles e aceitar provocação! Vamos fazer o que a gente sabe: cantar direitinho e ir embora sem olhar pra trás...

Não deu outra.

Sem parar de cantar a música do Leno e recebendo seguidos pescoções de umas 20 pessoas, o nosso time foi comboiado pelo time do Juventus até o igarapé da Cachoeirinha, onde, finalmente, nos deixaram em paz – até porque eles não eram bestas de nos enfrentar em nosso próprio território.

De qualquer forma, aquela saída de campo foi um vexame!

E ninguém até hoje sabe porque aqueles desgraçados gostavam tanto daquela música do Leno...

Lembranças de um peladeiro aposentado (3)

No fundão, Dona Francisca (mãe do Luiz Lobão), Aureo Petita (de cabelo black power), Luiz Lobão, Paulo César Dó e Chico Porrada. Na frente, Nonato Índio (fumando um cigarro de índio), Marcos Pombão, Airton Caju e Medeirinho

Setembro de 1968. Tendo como técnico o gente fina Popó, o Sancolzinho vai enfrentar o abusado Estrela do Mar, de Petrópolis, no campo do Sages (hoje, no local, está o Colégio da Polícia Militar, na rua Codajás).

Considerado o maior campo de futebol da época, o campo do Sages media 120 X 90 metros e havia sido escavado no meio de uma rocha. Seu piso era formado quase que exclusivamente de pedras-jacaré. Cair ali era pior do que cair no asfalto.

Uma das traves do campo dava direto para a mata fechada existente no quintal do sanatório Adriano Jorge. Encontrar uma bola perdida ali era semelhante a procurar agulha no palheiro – e no palheiro havia insetos e animais peçonhentos de todos os tipos.

Pra complicar, não havia uma única árvore nas proximidades do campo. O sol batia direto no cocuruto dos jogadores, chegando a provocar insolação.

Como aquele era o mês mais quente do ano, combinamos com o Marajara, técnico do Estrela do Mar, que a partida começaria às 9h da manhã. Seriam dois tempos de 45 minutos, com 15 minutos de intervalo.

No primeiro tempo, o juiz seria indicado pelo nosso time, no segundo tempo, o juiz seria indicado por eles. O malandro índio piratapuia topou.

O primeiro tempo transcorreu sem sobressaltos. Fizemos 3 a zero (gols de Áureo Petita, Betinho e Luiz Lobão) sem muita correria e chegamos até a ensaiar um olé.

Percebendo que estava tudo sob controle, o técnico Popó foi embora.

Com seu físico de halterofilista na beira do campo, ele impunha respeito aos adversários. Sem ele por perto, a gente não passava de um bando de moleques assustados.

O malandro Marajara resolveu se aproveitar da situação. Ele próprio se escalou para ser o juiz do segundo tempo, apesar dos nossos protestos veementes.

Nos primeiros quinze minutos, até que ele se comportou direito – apesar de ter anulado um gol do Luiz Lobão alegando impedimento (e o Lobão havia dado um chapeuzinho no zagueiro antes de chutar pro gol...).

Mas na primeira bola lançada pelo Estrela do Mar sobre a nossa área, Marajara marcou um pênalti inexistente (o Cumbuca cortou a bola de cabeça, o juiz, que estava a 50 metros de distância, garantiu que ele tinha cortado com a mão).

Xinga daqui, reclama dali, o zagueiro Airton Caju foi expulso.

O zagueiro Caveirinha, de bico, converteu a penalidade. O time deles ficou animado e partiu pra cima da gente na base da correria.

Numa trombada entre o Cumbuca e o Luiz Bordado, a dez metros da entrada da área, Marajara marcou novo pênalti e expulsou o Cumbuca. O zagueiro Caveirinha meteu outro bico e fez o segundo gol do time dos salafrários.

Apenas com nove em campo, resolvemos segurar a partida e colocar o Estrela do Mar na roda. Durante meia hora, eles não tocaram na bola.

Do lado de fora do campo, Airton Caju fez sinal de que o tempo regulamentar já havia terminado.

Peitamos o juiz. Ele falou que ia dar dez minutos de desconto por causa das duas interrupções ocorridas durante as marcações dos pênaltis inexistentes. Não discutimos.

Roubamos a bola do Estrela do Mar na primeira oportunidade e voltamos a colocá-los na roda. Durante meia hora, eles não tocaram na bola de novo.

Do lado de fora do campo, Airton Caju e Cumbuca estavam desesperados. O segundo tempo da partida já estava pra completar 90 minutos e o juiz mandando continuar o jogo.

Uns 15 minutos depois, cada vez mais puto da vida, o meia armador Aureo Petita não se fez de rogado.

Dominou uma bola na intermediária, deu um balãozinho em um adversário, fintou o outro, limpou, e aí, sem mais nem menos, se virou para o nosso campo e meteu um chute de trivela, no ângulo, verdadeiramente indefensável.

Mário Adolfo nem teve tempo de se mexer.

Feito isso, Áureo Petita peitou o juiz:

– Pronto, tá satisfeito? O teu time empatou o jogo! Agora, dá pra terminar essa porra?...

Ao ouvir aquilo, Marajara imediatamente expulsou o Áureo, mas não teve mais peito de continuar a presepada e encerrou a partida.

Já era quase meio-dia. A sensação térmica era de 45 graus.

O goleiro Mário Adolfo estava possesso:

– Porra, Petita, como é que tu me fazes uma palhaçada dessas...

Sem esconder o mau humor, Áureo devolveu:

– E tu querias que eu fizesse o quê? Se eu não faço aquilo a gente ia ficar jogando até às 4 horas da tarde e perder o vesperal do Ipiranga...

Foi só aí que caiu a ficha do goleiro. Grande Petita!

Lembranças de um peladeiro aposentado (4)

Mazinho (de suiças a Elvis Presley), Aureo Petita, Luiz Lobão, Paulo César Dó e Arlindo Jorge durante uma das célebres brincadeiras na Cachoeirinha. Na mesa, Orlando dando um migué na gatinha.

Novembro de 1968. Tendo como técnico o gente fina Popó, o Sancolzinho vai enfrentar o badalado Náutico, de Santa Luzia, no campo do Velódromo (hoje, no local, está o Habib’s, na rua Silves).

O campo do Velódromo media 90 X 45 metros e era, em sua maior parte, gramado.

Nas laterais do campo ainda se via o concreto armado da antiga pista de corridas de motocicletas.

As arquibancadas eram de alvenaria. O campo também possuía salas de reuniões, vestuários e banheiros, e era muito arborizado.

A principal estrela do Náutico era um moleque aloirado de 13 anos, chamado Mário Gordinho Filho.

Seu pai, Mário da Cruz Gordinho, tinha sido duas vezes campeão pelo Auto Esporte (1956 e 1959) e artilheiro do campeonato estadual de 1959, com 25 gols (o 2° colocado, Pratinha, do Nacional, fez 15 gols).

Em 1957, ele havia feito 26 gols, mas ficou em 3º lugar na artilharia. Os times amazonenses só se tornaram profissionais a partir de 1964.

Como os times eram infanto-juvenis, havia um acordo tácito de que só poderiam participar das partidas os menores de 15 anos.

No Velódromo, essa regra foi subvertida: lá, os moleques deviam passar sob um sarrafo colocado a 1,65 m do chão. Quem não derrubasse o sarrafo com a cabeça, entrava em campo.

Resultado: nosso ponta de lança Luiz Lobão, que tinha 13 anos e 1,70 m de altura foi barrado. O zagueiro Sidão (14 anos e 1,85 m de pele e osso), nem chegou a se equipar.

Em compensação, Edmar Macaco, um caboquinho entroncado de 19 anos, mas que media apenas 1,60 m, entrou em campo para defender o Náutico. Uma zorra!

O time do Náutico jogava em função de Mário Gordinho e Edmar Macaco. Os dois eram excelentes dribladores, tinham excelente domínio de bola e uma apurada visão de jogo.

Não bastasse isso, o filho da puta do Macaco corria feito um velocista jamaicano.

Bastava a gente se distrair um pouquinho, para o Mário Gordinho enfiar uma bola por cobertura e deixar o Macaco na cara do gol.

Apesar das defesas milagrosas do Mário Adolfo, o primeiro tempo terminou 2 a zero pro Náutico, dois gols do Macaco.

No intervalo, o técnico Popó resolveu apelar. Ele chamou os zagueiros Gilson Cabocão e Airton Caju e explicou a nova tática:

– Negócio seguinte. Tu, Gilson, vai colar no Edmar Macaco e tu, Airton, vai colar no Mário Gordinho. Mas é pra colar mesmo, não é pra apenas marcar de perto não. Pra onde eles forem, vocês vão atrás, sempre colados neles. Se eles caírem pra esquerda, vocês caem pra esquerda. Se eles caírem pra direita, vocês caem pra direita. Se eles recuarem para a intermediária, vocês recuam juntos. Se eles saírem do campo pra mijar, vocês também saem juntos pra mijar. Não percam eles de vista. E sempre colados, fungando no cangote deles. Na hora em que eles receberem a bola, se joguem em cima deles, agarrando pela cintura e levando pro chão. Eles dois não podem mais tocar na bola, falou?

A presepada deu certo. Gilson Cabocão encostou tanto nas costas do Edmar Macaco que quase saiu uma porrada entre os dois quando o atacante percebeu que o zagueiro lhe marcava de pau duro.

Com 15 minutos de jogo e 15 quedas no chão, Mario Gordinho alegou uma distensão na coxa e pediu pra sair. Sem seus melhores atletas, o Náutico se transformou em um barco sem quilha.

O inspirado Áureo Petita (2 gols de placa) e o estabanado Kepelé (3 gols de cabeça) garantiram a goleada.

O Áureo saiu de campo como o melhor jogador da partida e com convite para jogar em pelo menos uns 12 times.

Os dirigentes da Liga do Velódromo (era um dos campeonatos mais concorridos do bairro) só faltaram nos implorar para que participássemos da disputa oficial do próximo ano.

A gente topava desde que a idade dos atletas fosse atestada por um documento de identidade e não pela passagem do atleta por baixo de um sarrafo.

Devia ser um campeonato com muitos ”gatos” (moleques que diminuem a idade para continuar participando das divisões inferiores), já que eles sequer aceitaram discutir o assunto.

Quem perdeu foram eles, privados de acompanhar a ascensão do fabuloso Áureo Petita, o melhor jogador da Cachoeirinha de todos os tempos.

segunda-feira, setembro 27, 2010

O rapper 50 Cent lança biografia com tons de autoajuda

Tiago Faria, do Correio Brasiliense

O bairro de Southside Queens, em Nova York, era um playground às avessas: as crianças não eram poupadas de um jogo violento que envolvia traficantes, cafetões e prostitutas. A lei do tráfico.

O menino Curtis James Jackson cresceu em um ambiente um tanto quanto cinematográfico - uma terra de ninguém, habitada por tipos marginais que poderiam ter saído de filmes de Martin Scorsese e Spike Lee.

Não chegou a conhecer o pai. A mãe foi assassinada quando ele tinha 8 anos. Aos 11, trocou os estudos pelo comércio de drogas. Malhou os músculos, entrou para a bandidagem, foi preso e, aos 20, decidiu largar tudo para se dedicar à música.

Afiou as rimas - quatro anos depois, no entanto, foi atingido por nove tiros em plena luz do dia. A saga de 50 Cent começou a ser escrita assim: a sangue.

Na emboscada, uma das balas atingiu a mandíbula do rapper. Mas Curtis, um sobrevivente desde criancinha, converteu o trauma em inspiração.

Desde aquele maio de 2000, ele exorcizou o incidente de diversas formas: em discos como The massacre (2005), no filme Fique rico ou morra tentando (de 2005, dirigido por Jim Sheridan, de Meu pé esquerdo), em centenas de entrevistas e videoclipes.

É uma cena que o persegue desde então - e que ajudou a construir a imagem de um astro indestrutível, capaz de sobreviver a todo tipo de ameaça.

O livro A 50ª lei, lançado no Brasil pela editora Rocco, chega para reforçar essa persona. Mas numa embalagem curiosa: não se trata exatamente de uma biografia, mas de uma obra que, com tons de autoajuda, tenta desvendar o "segredo" da celebridade.

O escritor Robert Greene, de Los Angeles, é o responsável por decifrar a psiquê do astro.

Formado em estudos clássicos e ex-editor da revista Esquire, Greene escreveu livros como As 48 leis do poder, em que vende fórmulas de liderança inspiradas no exemplo de personalidades como Casanova e Maquiavel.

O encontro entre o autor e o rapper rende uma obra que explica didaticamente (com todas as hipérboles a que tem direito) a origem de um fenômeno musical.

O aspecto irônico do lançamento é que insufla um cantor que, aos 35 anos, passa por um período de crise comercial, com prestígio em queda e poucos sucessos radiofônicos.

O disco mais recente, Before I self destruct (2009), vendeu 436 mil cópias nos Estados Unidos. Já a estreia, Get rich or die tryin%u2019 (2003), emplacou 15 milhões de unidades em todo o mundo.
 
Sem medo

A temporada de recessão, porém, não abala o formato do livro de Greene, que cria uma equação para os leitores que tentam se tornar tão resistentes quanto o ídolo.

Regra número 1: não terás medo. "A fonte de seu poder é que ele não teme absolutamente nada, Ele é um exímio jogador, uma espécie de Napoleão Bonaparte do hip-hop", observa o escritor.

Cada um dos capítulos detalha os mandamentos da "50ª lei": "transforme limões em limonada", "saiba quando ser mau", "comande da linha de frente", "supere seus limites".

Para o leitor que não se impressiona com esse tipo de orientação filosófica, a força do livro está na construção de um personagem sagaz, que aprendeu com os traficantes a driblar as tretas da indústria musical.

É esse Curtis que, quando desprezado pela Columbia Records, gravou um CD caseiro que, distribuído nas ruas de Nova York, parou nas mãos de Eminem e Dr. Dre.

O rapper branquelo - e também atento às ondas do mercado - se associou imediatamente a 50 Cent.

A parceria deu tão certo que, hoje, a marca de 50 Cent está associada a CDs (foram mais de 30 milhões de discos vendidos), videogames e grifes de roupas.

"A personalidade de Curtis não se manifesta por meio de gritos nem táticas óbvias de intimidação. Sempre ele se comporta assim em público, pode ter certeza: é tudo teatro. Nos bastidores, ele é um sujeito frio. Sua falta de medo reflete-se em sua postura e em suas ações", explica o livro.

Em vez de humanizar a figura do rapper, Greene toma o caminho oposto: acentua o mistério que existe em torno de um herói marrento e, aparentemente, de corpo fechado.


A 50ª LEI

De 50 Cent e Robert Greene.
Tradução de Antônio E. de Moura Filho.
Editora Rocco.
272 páginas.
R$ 38.
 

Trecho


"O maior medo que existe é o de sermos quem somos de fato. As pessoas querem ser 50 Cent ou qualquer outro. Fazem o que todos fazem ainda que seja inadequado a suas identidades e origens. Só que não se chega a lugar algum assim: a pessoa fica sem energia e não consegue atrair a atenção de ninguém. Depois que senti o poder que eu tinha ao mostrar que eu não queria ser como os outros, nunca mais olhei para trás"

Reinaldo, do Casseta & Planeta, reúne caricaturas de grandes autores universais

O humorista Reinaldo, do Casseta & Planeta, acaba de lançar um novo livro de cartuns chamado Noites de Autógrafos.

O livro é dedicado a quem gosta de livros, escritores, livrarias, bibliotecas etc e traz cartuns sobre uns 60 autores de várias épocas e estilos, sempre vivendo situações bizarras em suas hipotéticas noites de autógrafos.

Parte desse material já havia sido publicado na revista Piauí.

Segundo Marco Rodrigo Almeida, da Folha de São Paulo, a ideia surgiu no ano passado, quando Reinaldo chegou muito antes dos outros convidados à noite de autógrafo do cartunista da Folha Adão Iturrusgarai.

Para quebrar o gelo causado pelo vazio, o humorista do Casseta & Planeta começou a sacanear o amigo, dizendo que talvez o homem invisível também já estivesse ali e ninguém percebera ainda.

A piada originou um desenho em que Adão conversava com o tal homem invisível.

Era o início de uma série de caricaturas sobre escritores autografando livros. A coleção está reunida em Noites de Autógrafos.

O livro traz autores tão díspares quanto Agatha Christie, Rabelais e Kafka.

Os mais difíceis de desenhar foram Mário Quintana e João Cabral, ambos muito “comuns”. “É mais fácil quando a pessoa tem uma característica mais extravagante, como o Beckett.”

Ruben Fonseca sofre com ele: Reinaldo força um encontro discreto do autor de “Agosto” com Mandrake, o mágico, xará de sua mais famosa criação. Já Kafka vê sua barata ser dedetizada.

O prefácio é assinado pelo jornalista Sérgio Augusto, para quem a proposta de Reinaldo é capaz de causar inveja em qualquer cartunista da revista “New Yorker”.

Ainda tem Bram Stocker recebendo seu personagem “sangue bom”; Flaubert e Madame Bovary invertendo seus papéis; e o coelho de “Alice” que se atrasa para um lançamento de Lewis Caroll. Só que ele não é o retardatário coelho que arrastou Alice para o “País das Maravilhas”, mas Paulo Coelho disfarçado de White Rabbit.

A caricatura que fez de Adão, inspiradora da série, não está no livro. A ansiedade que uma noite de autógrafos pode causar, contudo, está bem representada.

Vários dos desenhos trazem escritores angustiados à espera do público. “Para um escritor, essa é uma situação muito complicada. Nunca se sabe se alguém vai aparecer ou não. Não é fácil”, diz.

Por via das dúvidas, Reinaldo lançou o livro na semana passada em uma movimentada livraria de Ipanema, no Rio.

6 X 2 cada vez mais perto

Considerando todos os estudos eleitorais possíveis que estão sendo feitos, diria que existem 95% de chances de se configurar um 6 x 2 na eleição para deputado federal.

A probabilidade de a coligação do senador Alfredo Nascimento (PR) eleger três deputados foi reduzida substancialmente.

A perda da terceira vaga está por um triz, com apenas 5% de chances dela não ocorrer.

E são várias as razões, que vão além do desempenho dos candidatos.

Um exemplo recente e emblemático é o de Henrique Oliveira (PR), que conseguiu complicar sua candidatura associando sua imagem à do humorista Tiririca (PR).

Consequência da ‘brincadeira’: seus números estão caindo.

Nessa situação, acredito que somente Francisco Praciano (PT) está com a vaga garantida.

A outra vaga será disputada por Henrique Oliveira e Marcelo Serafim (PSB), sendo que o apresentador de TV possui, hoje, uma vantagem razoável de votos.

Mais do que nunca, Marcelo deverá torcer para que a candidatura de Oliveira seja impugnada definitivamente.

Já na coligação de Omar Aziz (PMN), temos uma nova situação.

Se forem só cinco vagas, os que acredito que estariam eleitos (opinião particular) são Rebecca Garcia (PP), Átila Lins (PMDB), Carlos Souza (PP), Silas Câmara (PSL) e… Pauderney Avelino (DEM).

Em se confirmando a sexta vaga, Sabino Castelo Branco (PTB) teria como único concorrente Plínio Valério (DEM).

Portanto, já considero fora da disputa Eron Bezerra (PCdoB), Marcell Alexandre (PMDB) e Luiz Fernando Nicolau (PMN), os dois últimos, disputando o 9º lugar.



(fonte: Blog do Durango)

Disputa entre libertinos e puristas divide nudistas na França

Uma antiga disputa entre duas tribos de nudistas eclodiu na semana passada em um dos maiores destinos naturalistas da Europa, o balneário de Cap d'Agde, no sudoeste da França.

O grupo, batizado pela imprensa francesa de purista, acusa os libertinos de serem "exibicionistas e depravados" e de deturpar a tradição naturalista do balneário.

Durante uma reunião do Conselho Municipal da cidade, os puristas apresentaram denúncias de que o grupo dos libertinos estava ameaçando a imagem familiar do balneário ao fazer sexo em público, abrir clubes de swing (de troca de casais) e hotéis que promovem festas promíscuas.

A disputa entre os nudistas começou há cerca de dois anos, quando foram inaugurados vários clubes de swing no local.

Na época, dois desses clubes foram alvos de ataques de naturalistas puristas, segundo informações do jornal francês La Depeche du Midi.

Sexo livre

"Logo que o sol aparece, há uma área de Cap d'Agde que se transforma na capital europeia do sexo livre", afirmou a conselheira municipal Florence Denestebe, de acordo com o jornal britânico The Independent.

A conselheira foi aplaudida por cerca de 30 nudistas - vestidos - que faziam uma manifestação durante a reunião.

"Compramos uma casa aqui há 34 anos. Queríamos viver nus, viver sob o sol, cercados pela natureza. Agora, vivemos cercados por animais selvagens", disse um dos manifestantes, que não quis se identificar.

A moradora também pediu ao prefeito, Gilles d'Ettore, que agisse logo para lidar com a situação antes que "uma explosão de libertinagem tome conta inclusive de áreas não-nudistas da cidade".

O prefeito disse que iria analisar as reclamações do grupo de nudistas tradicionais, mas afirmou que já havia feito tudo que estava ao seu alcance para manter uma "tribo" longe da outra.

"Não fomos nós que inventamos a troca de casais ou o comportamento libertino em Cap d'Agde. Essa tendência existe por aqui há 10 anos", disse o prefeito. "E eu não posso colocar um policial para controlar cada um dos 40 mil nudistas."

sábado, setembro 25, 2010

Um bar que deixou saudades

Nos anos 60, o Bar do Aristides, localizado no cruzamento da rua Borba com a rua Parintins, na média Cachoeirinha, se transformou em um covil de biriteiros de carteirinha.

Todos eles se reuniam lá para beber cachaça, conversar em voz alta, discutir sobre futebol e depois brigar. Simples assim.

Entre os que batiam o ponto diariamente, estavam Mestre Carlos e seu filho Camisinha, ambos estofadores da melhor qualidade, Pedro Bala (que jurava ter dado porrada no Otinha), Pernambuco, Chico Popopô, Gabarito (extremamente obeso, mas sempre de paletó e com uma surrada valise 007 na mão), seu Boneco (ex-investigador da Polícia Civil), Mariola, Toinho, Zé da Voz, Bazam, Bobby Nelson, Nóia, Camões, Nazareno, Preto Jóia, Cumbuca, Tibica, Favela, Nego Lira, Zé Leso, Cabeludo, Carlinhos Branco, etc.

Pra completar, o boteco tinha portas de saloon – uma mini porta de madeira entre as paredes, na altura do peito do cidadão, que vai e vem de acordo com a ferocidade do pistoleiro.

Numa determinada tarde de sábado, Gabarito entrou no bar meio apreensivo. Ele procurou seu compadre Chico Popopô e explicou a situação:

– Ontem eu paguei geral pro Pernambuco lá no bar do seu Luiz e ele falou que vai me matar. O filho da puta está bebendo ali fora, para criar coragem.

– Porra, compadre, mas você tem duas vezes o tamanho do Pernambuco. Está com medo de que? – devolveu Chico Popopô.

– Compadre, ele está armado! No mano a mano, eu quebro ele todinho! Mas ele está armado! – explicou Gabarito, enquanto entornava a primeira dose de branquinha.

Uns dez minutos depois, o franzino Pernambuco, morto de doido, abre a porta do saloon e vocifera:

– Gabarito, filho da puta, te prepara pra morrer!

Dito isso, avançou em direção ao inimigo, com uma das mãos no bolso da calça.

Pensando tratar-se de um revólver, Gabarito soltou a valise 007 no chão e saiu correndo.

Pernambuco foi ao encalço dele.

Eles deram uma, duas, três voltas, entrando e saindo pelas portas do boteco, no maior escarcéu, até que um dos biriteiros presentes no pedaço resolveu melar a presepada e estendeu a perna na frente do Gabarito.

Ele desabou no chão.

Pernambuco aproveitou a oportunidade para tirar a arma do bolso e enfiar uma, duas, três vezes, no corpo do Gabarito, antes que a turma do “deixa disso” interferisse na confusão.

Gemendo, sem se mexer do lugar e implorando para que chegasse logo a equipe de paramédicos, Gabarito se limitava a admoestar Chico Popopô:

– Eu não te falei que ele estava armado, compadre? Eu não te falei? Ele agora me matou... Eu estou morrendo, compadre, eu estou morrendo...

Enquanto entornava mais uma dose de branquinha e tirava gosto com uma banda de limão, Chico Popopô foi direto na jugular:

– Te levanta daí, compadre, e deixa de frescura. A arma do Pernambuco era um garfo. O máximo que ele fez foi fazer meia dúzia de furos nesse teu bundão cheio de banha! Não carece nem tomar injeção antitetânica...

Gabarito obedeceu ao compadre. Meia hora depois, ele, Chico Popopô e Pernambuco haviam voltado a ser amigos de infância, apesar de o Gabarito ficar sem se sentar durante três dias.

Coisas do Bar do Aristides.

O abestado Pirarucu (1)

Novembro de 1967. A voz inconfundível ecoava na ladeira da rua Parintins, se aproximando da rua Borba:

– Peixeeeiro! Eita jaraqui, tambaqui e tucunaré! Peixeeeiro! Eita branquinha, pescada e matrinchã! Peixeeeiro! Eita curimatã, acari bodó e sardinha! Peixeeeiro! Eita surubim, cará-açu e piramutaba! Peixeeeiro!

O dono da voz era um caboco baixo, atarracado, chamado por todo mundo de Pirarucu. Nunca descobri o nome dele.

Era o peixeiro mais popular da Cachoeirinha.

Ele saía da Feira da Maués com seu tabuleiro na cabeça, equilibrado em uma rodilha de pano, e percorria as principais ruas do bairro.

Começava a labuta por volta das 6h da manhã e só retornava pra casa depois do meio-dia, com o tabuleiro completamente vazio.

Era quando se permitia um único momento de lazer: tomar duas doses de branquinha no Bar do Aristides.

Um dia, quando subia a ladeira da rua Parintins, Pirarucu foi colhido por um temporal diluviano.

Para fugir do aguaceiro, ele se refugiou no Bar do Aristides, onde descansou seu tabuleiro no chão, cheio de peixes novinhos em folha.

Como ainda era por volta das 9h da manhã, havia poucos biriteiros no bar.

Pirarucu resolveu tomar uma branquinha. Depois, tomou a segunda. Dali a pouco, a terceira. E o aguaceiro nada de parar.

Lá pelas tantas, um sujeito entrou no bar, viu o tabuleiro de peixes no chão e não teve dúvidas: improvisou uma rodilha de pano, colocou o tabuleiro na cabeça e começou a conversar animadamente com Pirarucu, equilibrando o dito tabuleiro na cabeça. Coisa de profissional.

Os dois eram compadres e resolveram dividir uma garrafa de Brandicana.

Quando o dilúvio arrefeceu, por volta das 11h, Pirarucu já estava completamente mamado.

Ele começou a procurar o seu tabuleiro de peixes no chão, mais agoniado do que cobra quando perde a peçonha.

– Caralho! Buceta! Puta que pariu! Roubaram o meu tabuleiro que estava bem aqui! – gemia ele, apontando para o local.

– Também, tu é muito abestado, compadre! – avisou o sujeito. “Vê se eu tiro o meu tabuleiro da cabeça quando estou bebendo! Nem pelo caralho! O que mais tem aqui nessa área é ladrão!”

Dito isso, ele se despediu do Pirarucu e foi embora com o tabuleiro de peixe na cabeça.

No dia seguinte, o compadre devolveu o tabuleiro do amigo.

Sem os peixes e sem a grana apurada.

Que era pro Pirarucu aprender a lição e deixar de ser abestado.

O golpe da tiranabóia

Março de 1969. O cantor e compositor Nelson Roberto Perez (aka Bob Nelson) se tornou conhecido por misturar música caipira com o ritmo country e ficou famoso pela interpretação da canção “Oh, Susana”.

Nascido em Campinas (SP), em 12 de outubro de 1918, Bob Nelson era o sexto dos oito filhos de José Pérez, espanhol, ferroviário da Mogiana e dono do Hotel Dalva, e de D. Floresmina.

Ele morreu no Rio de Janeiro, em agosto de 2009, aos 90 anos, após sofrer uma parada cardíaca.

O nosso Bobby Nelson baré (aka Luiz Carlos Borges Cardoso) nasceu em Santarém (PA), em 15 de setembro de 1946, e faleceu em Manaus, em maio de 2006, aos 60 anos, vítima de diabetes.

Dotado de uma voz talhada para o canto yodell (aquele canto com vibrato do tipo “tiroleeiiiite”), Bobby Nelson começou se apresentando em shows de calouros pelos quatro cantos da cidade, com um repertório inteiramente calcado no Bob Nelson original.

No final dos anos 60, ele já era figurinha carimbada no Bar do Aristides, onde, invariavelmente, começava a detonar uma garrafa de Praianinha cantando “Vaqueiro do Arizona, desordeiro e beberrão / Corria em seu cavalo pela noite no sertão / No céu, porém, a noite ficou rubra num clarão / E viu passar num fogaréu um rebanho no céu / Y-pi-a-ê, y-pi-a-ô”.

A gurizada viciada em faroeste, eu incluso, ia ao delírio.

Na sequência, Bobby Nelson emendava a sua canção favorita, que eu também não consigo ouvir até hoje sem me arrepiar: “Quando fui ao Alabama e toquei meu violão / Encontrei uma menina num cavalo alazão / Ela me pediu sorrindo pra tocar uma canção / Que falasse do Alabama de um banjo e um violão / Oh! Suzana não chores por mim / Pois eu volto pro Alabama pra tocar meu banjo assim...”.

E aí ele mandava o “tiroleeiiite” por quase cinco minutos, incendiando o cabaré.

Na verdade, Bobby Nelson colocava o vibrato yodell em qualquer música que lhe desse na telha – e seus acompanhantes no violão que se virassem.

Por exemplo, ele começava a cantar, batucando numa caixinha de fósforo: “Na minha fazenda tem um boi / Esse boi se chama Barnabé / Sabe moço ele anda se babando / Pela minha linda vaca Salomé”.

Aí, quando todo mundo esperava o segundo verso, ele enfiava as variações inimagináveis a partir do “tiroleeiiite”. Uma zorra.

Depois que descobriu sua alma gêmea (Bazam, aka João Carlos Weil), Bobby Nelson não parou mais de agitar.

Como se fosse a dupla Pelé-Coutinho, Bazam e Bobby Nelson, numa tabelinha perfeita, realizaram milhares de aprontos na Cachoeirinha e adjacências para levantar o leite das crianças.

Mas tudo na base do lero-lero, sem violência, porque malandro é malandro e mané é mané.

Um dos mais brilhantes golpes da dupla era realizado exatamente na entrada da Vila Mamão, próximo do salão de bilhares “Casa São Francisco de Assis”, sempre nos dias de sábado, no início da noite, quando a banda de Fuzileiros Navais se apresentava em frente do Palácio Rodoviário.

Na época, havia um único caminho entre a Vila Mamão e o muro do Sanatório Adriano Jorge, um beco mal iluminado que terminava numa imensa jaqueira.

De lá em diante, dezenas de becos mal iluminados desnorteavam qualquer um que se aventurasse por aquelas plagas sem uma bússola decente.

Os meganhas só entravam ali com proteção policial.

O golpe, simples e funcional, consistia em alardear que Bazam havia aprisionado uma temida taturana também conhecida como tiranabóia.

A taturana estava presa embaixo de um chapéu, sobre um jornal, que os dois haviam acabado de estender no meio na rua.

Claro que não havia nada sob o chapéu de palha estilo Panamá. Só que ninguém sabia.

As pessoas que se dirigiam para assistir ao concerto dos fuzileiros navais olhavam pra presepada sem esconder a curiosidade. Alguns ficavam no meio do caminho.

Também chamada de jequitirana, gitirana, jitirana, cobra-de-asa, cobra-do-ar, cobra-voadora, cobra-cigarra, gafanhoto-cobra, jaciara e serpente-voadora, o verdadeiro nome da taturana é jaquinarabóia (do tupi iakyrána=cigarra, mbóia=cobra).

Trata-se de um nome comum de vários insetos grandes (alguns chegam a medir 10 cm) e semelhantes a cigarras, que possuem um enorme ferrão no abdome utilizado para perfurar as plantas de onde retiram a seiva com qual se alimentam.

A crendice popular afirma serem venenosos (se bate numa árvore, esta seca, se bate numa pessoa, esta morre), mas, na verdade, são insetos absolutamente inofensivos. Nos anos 60, ninguém sabia disso.

Com sua voz de menestrel, Bobby Nelson entrava macio como colher em mamão maduro:

– Este bichinho chamado tiranabóia ou taturana, que está preso debaixo desse chapéu, é um dos mais temidos dentro da floresta amazônica. Segundo os mateiros, a tiranabóia só pode pousar sobre uma espécie de árvore. Caso pouse em alguma outra, ela automaticamente mata a árvore. Eu vi uma seringueira que morreu. Ela quebrou exatamente aonde a tiranabóia pousou, no meio do caule. Para a raça humana, a taturana também é muito perigosa. Caso ela trisque na pessoa, diz que a morte é certa.

Começava a juntar gente para ver a presepada. Bazam fingia uma certa impaciência:

– Eu vou já soltar essa taturana, que ela está com muita fome! – dizia, enquanto se agachava em direção ao chapéu.

Bobby Nelson o segurava pelo braço e o repreendia, fingindo nervosismo:

– Não faça isso, meu irmão. Tem muita criança no pedaço. Tu te lembra da merda que deu ontem lá na Matinha? Teve gente que saiu machucada durante a correria... Essa tua taturana é o cão chupando manga, ainda mais quando está desse jeito, morta de fome...

A curiosidade aumentava. O zum zum zum e o diz que diz que iam atraindo mais gente.

Daqui a pouco, os dois já estavam cercados por dezenas de pessoas, implorando para ver a taturana.

Bobby Nelson fingia uma exasperação calculada:

– Ô, meu irmão, isso aqui não é circo não! Essa tiranabóia é um terror! A gente vai precisar de uma graninha para cuidar dos mortos e feridos porque depois que ela sair de baixo do chapéu isso aqui vai se transformar no maior pandemônio... Ontem à noite, lá em Educandos, umas quinze pessoas foram parar no Samdu... Essa tiranabóia é perigosa! É muito perigosa!

Algumas pessoas contratadas previamente por eles começavam a colocar notas de um Cabral ao lado do chapéu.

Os incautos curiosos pegavam corda e começavam a depositar suas cédulas de Duque de Caxias, Princesa Isabel, Dom Pedro II e, em dia de fartura, até Santos Dumont.

Todos querendo ver, ao vivo e a cores, uma autêntica tiranabóia.

Bobby Nelson continuava a pregação, deixando a platéia cada vez mais nervosa e curiosa.

Quando o monte de grana atingia um valor considerado, Bobby Nelson anunciava o grand finale:

– É agora que a jiripoca vai piar! – avisava, enquanto recolhia a grana depositada na folha de jornal. “Solta a taturana, meu irmão, que eu quero ver o circo pegar fogo!”

Automaticamente, Bazam se ajoelhava, colocava rapidamente o chapéu na cabeça, levantava em um salto felino como se fosse impulsionado por molas, chutava a folha de jornal na direção da galera (a sincronia era perfeita, nem Charles Chaplin ousaria imitar) e berrava:

– Pega eles, taturana maldita! Mata a tua fome tirana, taturana miserável!

Por causa do susto, as pessoas querendo fugir da direção do chute do Bazam se chocavam uma com as outras, se machucavam e já achavam que aquilo era fruto da taturana em ação.

Em questão de segundos havia gente berrando, gente chorando, gente caindo no chão, gente sendo pisoteada, gente falando palavrões, cachorros latindo e mordendo gente, um inferno.

Enquanto o pandemônio se instalava, os dois aproveitavam para fugir correndo pelo beco da Vila Mamão e desaparecer no sem número de becos existentes depois da jaqueira.

Na semana seguinte, repetiriam a façanha. Lá ou em outro lugar.

O abestado Pirarucu (2)

Fevereiro de 1968. Magro, alto, bem apessoado, Zé da Voz lembrava um pouco o ator Clint Eastwood em início de carreira. Ele ganhara esse apelido porque era o principal animador e DJ da Voz Continental, localizada em um pequeno quiosque no cruzamento das ruas Urucará e J. Carlos Antony.

Seu irmão, Waldeir Azevedo, foi proprietário da metalúrgica Santo Antônio e se casou com uma de minhas primas, Rosinete, enquanto sua irmã, Helena, uma morena de quatrocentos talheres e lindos olhos esmeraldinos, foi uma das meninas mais bonitas da Cachoeirinha.

Zé da Voz era parceiro de copo de Bazam e Bobby Nelson, o primeiro, irmão mais velho de Antídio Weil, o segundo, irmão mais velho de Alberto Gordo, ex-diretor do Sindicato dos Metalúrgicos.

Eles formavam um trio da pá virada.

Quando estava cheio da manguaça, o que não era novidade, Zé da Voz andava devagar como quem procura, com os pés, um penico no escuro.

Já Bobby Nelson e Bazam, no mesmo estado, andavam ligeiro que só peba em areia frouxa.

A irmandade dos três vinha de um fato em comum: ambos gostavam do cigarro de índio.

Uma noite, logo após deixar os estúdios da Voz Continental, Zé da Voz foi abordado pelo peixeiro Pirarucu: ele havia recebido uma erva de Maués que era “só camarão” e convidou o locutor para experimentarem o produto.

Os dois se embrenharam no matagal existente atrás do antigo Sanatório Adriano Jorge e começaram a apertar um atrás do outro.

Zé da Voz e Pirarucu estavam ali, observando as estrelas junto à fogueirinha de papel, quando, subitamente, estacionou um carro da Rádio Patrulha na rua Codajás e dois meganhas armados entraram correndo no mato em direção à dupla.

Desconfiado como cachorro que quebrou louça, o primeiro soldado foi logo pagando geral:

– O que qui vocês dois estão fazendo aqui nessa escuridão, seus filhos da puta! Fala logo, se não eu vou atirar!

O galã Zé da Voz, com a calma de um experimentado rastafári, tentou contemporizar:

– Que é isso, meu amigo? Eu vim aqui só fazer uma caridade pro meu parceiro. Eu estava apenas comendo o cuzinho dele e isso não é crime...

Ouvindo aquilo, Pirarucu deu um pulo:

– Que comendo meu cu o quê, porra! Eu sou sujeito homem! Nunca gostei de pica! Fala a verdade, porra, fala a verdade! A gente estava mesmo era fumando maconha!

Os dois foram em cana. Dar o cu não era crime, mas fumar maconha era.

Pirarucu era mesmo um abestado.

quinta-feira, setembro 23, 2010

O pastor terrorista

Novembro de 1975. Técnico da Revisão Elétrica da Sharp do Brasil, o fabuloso Frank Seixas Dumont conquistou o coração de uma bonita montadora da linha de chassis e os dois começaram a frequentar a nossa famosa garçonniére de Educandos.

Havia um pequeno problema: a menina era evangélica e virgem, e pretendia continuar assim até o dia do casamento.

Com sua habitual presença de espírito, Frank Seixas convenceu a menina a se divertirem usando a porta de serviço. Ela topou.

Uns seis meses depois, após muita insistência, a menina convenceu Frank Seixas a acompanhá-lo a um culto na igreja evangélica que ela freqüentava, ali pras bandas da Bethânia.

Ateu convicto, Frank Seixas encarou numa boa aquela provação desnecessária apenas porque a garota tinha uma padaria de realmente fechar o trânsito – e não seria meia hora de pregação bíblica que lhe iria impedir de continuar usufruindo das benesses da moça.

Nesse dia, coincidência ou não, o pastor da igreja iniciou seu culto falando sobre as abominações condenadas pela Bíblia:

– Meus irmãos, isso que vos digo está escrito em Romanos 1: 25,26,27. Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Aleluia. Por isso, Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro. Eles rejeitaram o amor de Deus, foram entregues a quem eles servem, ”Satanás”, porque sentem prazeres ao mundo de pecado. São homens e mulheres iníquos, porque tem prazer na iniqüidade. Deus não impedirá sua escolha porque eles têm livre arbítrio. Mas todos que rejeitam a revelação da Verdade Bíblica e buscam prazeres na iniqüidade que é abominação sexual do homem e da mulher, a evidência máxima da degeneração humana como resultado da imoralidade e do abandono a Deus, arderão no fogo do Inferno.

Nervosíssima, a namorada de Frank Seixas começou a cutucá-lo com o cotovelo e a questioná-lo:

– Tu tá escutando isso? Tu tá escutando isso?...

Frank Seixas não deu a mínima. O pastor foi em frente e continuou a tocar terror:

– Meus irmãos, qualquer pessoa em sã consciência que pratique o homossexualismo ou o lesbianismo, ou que encare como aceitável a sodomia e a pedofilia, está nas etapas finais da corrupção moral. Está no mesmo pecado de Sodoma e Gomorra e vai ser consumida pelo fogo eterno. Porque tudo isso Deus já deixou escrito na Bíblia sagrada. Está em Levitíco 20: 13: “Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles.” Está em Romano 14: 24: “Havia também sodomitas na terra; fizeram conforme a todas as abominações dos povos que o Senhor tinha expulsado de diante dos filhos de Israel.” Está em Isaias 3: 9. “O aspecto do seu rosto testifica contra eles; e publicam os seus pecados, como Sodoma; não os dissimulam. Ai da sua alma! Porque fazem mal a si mesmos.” Está em Coríntios 6: 9: “Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas.” Está em Timóteo 1: 10: “Para os devassos, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros, e para o que for contrário à sã doutrina, sobrará a pena do fogo eterno.”

Quase com o coração saindo pela boca de tão nervosa, a menina resolveu interpelar o pastor:

– Mas, pastor, as pessoas que praticam essas abominações vão direto pro inferno? Elas não passam nem pelo purgatório?...

– Exato, minha irmã! – respondeu candidamente o pastor. “Porque essas coisas são tão abomináveis aos olhos de Deus que seus praticantes receberão condenação imediata, a eterna separação de Deus que é a segunda morte, a morte verdadeira, a danação eterna da alma no inferno conforme está escrito em Romanos 1: 32.”

Ouvindo aquilo, a menina colou o platinado e começou a esbofetear Frank Seixas Dumont, aos gritos, desesperada:

– Viu o que você me fez, seu cachorro? Viu o que você me fez? Eu agora vou pro inferno por sua culpa, miserável! Você não presta, Frank, você não presta! Eu vou te matar, capiroto de uma figa, eu vou te matar!

O fabuloso Frank Seixas saiu da igreja quase correndo. A menina pediu demissão da empresa no dia seguinte e nunca mais foi vista. É bem capaz de já estar ardendo no fogo eterno do inferno.

O Anel dos Nibelungos

De acordo com os historiadores, os fenícios estabeleceram-se nas margens orientais do Mediterrâneo, na fina e fértil faixa situada entre o mar e os montes Líbano e Antilíbano.

A pequenez de seu território, a presença de vizinhos poderosos, e a existência de muita madeira de cedro (boa para a construção naval), nas florestas das montanhas, parecem ter sido fatores adicionais que orientaram a civilização fenícia para o mar.

Construíram frotas numerosas e poderosas. Visitaram as costas do norte da África e todo o sul da Europa, comercializaram na Itália, penetraram no ponto Euxino (mar Negro) e saíram pelas Colunas de Hércules (Estreito de Gibraltar), tocando o litoral atlântico da África e chegando até as ilhas do Estanho (Inglaterra).

Comercializando sempre, construíram entrepostos e armazéns ao longo de suas rotas.

Quando podiam saqueavam e roubavam, mas evitavam os inimigos poderosos, que preferiam enfraquecer mais pelo ouro do que pela espada.

Seus agentes e diplomatas não eram estranhos a quase todas as guerras travadas na época, e delas tiravam bom proveito.

Fizeram o périplo africano, seguindo em sentido inverso ao caminho que percorreria Vasco da Gama muito mais tarde. E as provas se acumulam para confirmar que atravessaram o Atlântico e visitaram o novo continente.

Os fenícios navegavam utilizando a técnica de orientação pelas estrelas, pelas correntes marinhas e pela direção dos ventos, e seguindo esses indícios seus capitães cobriam vastas distâncias com precisão.

Já eram influentes por volta do ano 2000 a.C., mas seu poder cresceu com Abibaal (1020 a.C.) e Hirã (aliado de Salomão).

Biblos, Sidon e Tiro foram sucessivamente capitais de um império comercial de cidades unidas antes pelos interesses, costumes e religião do que por uma estrutura política mais rígida.

O Brasil está repleto de indícios comprobatórios da passagem dos fenícios, e tudo indica que eles concentraram sua atenção no nordeste.

Pouco distante da confluência do rio Longá e do rio Parnaíba, no Estado do Piauí, existe um lago onde foram encontrados estaleiros fenícios e um porto, com local para atracação dos "carpássios" (navios antigos de longo curso).

Subindo o rio Mearim, no Estado do Maranhão, na confluência dos rios Pindaré e Grajaú, encontramos o lago Pensiva, que outrora foi chamado Maracu.

Neste lago, em ambas as margens, existem estaleiros de madeira petrificada, com grossos pregos e cavilhas de bronze.

O pesquisador maranhense Raimundo Lopes escavou ali, no fim da década de 1920, e encontrou utensílios tipicamente fenícios.

No Rio Grande do Norte, por sua vez, depois de percorrer um canal de 11 quilômetros, os barcos fenícios ancoravam no lago Extremoz.

O professor austríaco Ludwig Schwennhagen estudou cuidadosamente os aterros e subterrâneos do local, e outros que existem perto da vila de Touros, onde os navegadores fenícios vinham a ancorar após percorrer uns 10 quilômetros de canal.

O mesmo Schwennhagen relata que encontrou na Amazônia inscrições fenícias gravadas em pedra, nas quais havia referências a diversos reis de Tiro e Sidon (887 a 856 a.C.).

Schwennhagen acredita que os fenícios usaram o Brasil como base durante pelo menos oitocentos anos, deixando aqui, além das provas materiais, uma importante influência lingüística entre os nativos.

No início dos anos 70, o agricultor José Osmarino Heliandro (aka “Zé Arigó”) estava procurando ovos de tartaruga na Praia do Tupé, localizada a 34 km de Manaus, quando um objeto faiscante chamou sua atenção.

Ele pegou o objeto e levou um susto: tratava-se de um belíssimo anel de ouro, feito artesanalmente, com uma estranha inscrição na parte interna: LRIXIXLII.

Intrigado, Zé Arigó procurou um jornalista em Manaus e relatou a descoberta.

De posse do anel, o jornalista procurou o historiador, folclorista e escritor Mário Ypiranga Monteiro e repassou a história.

Algumas semanas depois, o matutino O Jornal publicava uma notícia bombástica, furando toda a imprensa mundial: “Anel descoberto na Praia Tupé comprova visita dos fenícios à Amazônia”.

Quem garantia a descoberta era Mário Ypiranga Monteiro, autor de mais de 200 obras, membro da Academia Amazonense de Letras, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, da National Geographic Society e de diversas outras renomadas associações científicas da França, Inglaterra, México, Peru, Holanda, etc.

Uma verdadeira comoção tomou conta da cidade.

O coronel João Walter, na época governador do Estado, resolveu capitalizar a simpatia da população e colocou o objeto em exposição pública no hall do Teatro Amazonas.

Diariamente, uma fila indiana de 5 mil pessoas se posicionava na Eduardo Ribeiro para apreciar por alguns minutos a preciosa jóia histórica.

Ao lado da caixa de acrílico onde repousava o anel, o governador e o historiador recebiam cumprimentos pela descoberta.

A pequena jóia era guarnecida por seis PMs armados de metralhadoras.

Uma semana depois de aberta a exposição, a noiva do conhecido empresário Lauren Rickson, dono da Importadora Ricoh, resolveu levar o noivo para conferir a jóia rara.

Os dois passaram quase três horas na fila. Quando colocou os olhos no “anel dos Nibelungos”, Rickson sentiu um arrepio.

Ele pediu licença do governador para examinar mais de perto a pequena jóia. Não houve objeção.

Um dos PMs armados de metralhadoras abriu a caixa de acrílico e entregou o anel na mão do empresário.

Rickson tirou do bolso um monóculo de ourives e começou a examinar os detalhes do anel. Aí, não teve dúvidas:

– Esse anel é de minha propriedade! – disparou. “Ele foi feito sob encomenda na joalheria Tiffany’s, de Nova York. Eu o perdi durante uma pescaria na região do Tupé há cerca de um mês.”

– Mas e a inscrição fenícia existente no interior da peça? – gaguejou Mário Ypiranga Monteiro.

– Não é inscrição fenícia porra nenhuma. LR são as iniciais do meu nome, Lauren Rickson. IXIXLII são os números da data do meu aniversário em algarismos romanos: 09.09.52.

Dito isso, Lauren Rickson colocou o anel no dedo e foi-se embora, encerrando abruptamente a exposição.

As 5 mil pessoas que ainda estavam na fila queria trucidar o governador e o historiador.

O matutino O Jornal, evidentemente, não comentou o incidente. Choses.



PS: Esse relato é dedicado ao empresário Francisco Mendes, do Pina Chopes, que me contou a presepada.