domingo, julho 31, 2011

Célula, Celulite, Celular, Celulose, Celulari...


Lúcio M. S. B. Menezes

Primeiro fui estrutura microscópica, um núcleo que um dia guardou o meu material genético, nesse estágio eu já era um ser vivo e a biologia me classificou como célula.

Saí da vida inter uterina, absorvi o impacto da luz e chorei, era uma tarde do dia 31 de julho de 1956, na casa nº 8 da Vila Martins, na Rua Jonathas Pedrosa.

Deram-me o nome de Lúcio, parece que era o nome da moda, moda que, definitivamente, não teve o sucesso dos Claudios, Marcelos, Danieis ou Diegos.

Aos doze anos soube que não poderia mais ser doador de sangue, contrai hepatite, lembro que babava quando via meus irmãos comendo comida caseira com o sabor inigualável do paladar de mãe - só pensar me dava água na boca.

Humm!

Lembrar dos condimentos que ajudavam no aprimoramento do gosto gostoso da comida da mamãe era uma tortura.

Mas eu tinha que comer doce, só doce, foi tanto biscoito “suspiro” que enjoei.

Derramei lágrimas de felicidade quando me foi permitido comer macarrão sem qualquer tempero, foi extasiante.

Derramei lágrimas de tristeza quando, depois da dieta de doces que a hepatite me impôs, percebi o surgimento das minhas - até hoje inseparáveis - “cartucheiras” e os furinhos de celulite que, da mesma forma, nunca mais me abandonaram.

Homem também tem celulite.

A primeira cidade brasileira a usar a Telefonia Móvel Celular foi o Rio de Janeiro, era o ano de 1993.

Em 1995, Manaus também passou a usufruí-la.

Confesso que relutei em aceitar aquela novidade; julgava que não vingaria que era improvável o seu sucesso, um modismo fadado ao fracasso.

Ledo engano.

Não aderi ao primeiro lote ofertado, o prefixo 981.

Capitulei na segunda leva, cujo prefixo passara a ser 982.

Com a expansão acresceu-se outro 9 na frente, assim, o prefixo aumentou de três para quatro dígitos.

Se alguém disser que eu não sou fiel eu mostro como prova contrária que o meu prefixo ainda é 9982.

A maioria dos meus amigos já trocou de operadora e de número de telefone celular incontável vezes, eu não.

Àqueles que discordarem ou disserem que isso não é parâmetro, eu respondo que é e pronto, logo: eu sou fiel.

A humanidade se rendeu, é escrava da telefonia celular.

Particularmente uso pouco e sou breve nas conversas, mas sou dependente confesso desse coveiro de orelhões e candidato a algoz da telefonia fixa.

É a ditadura globalizada do celular.

No sentido figurativo o hidrato de carbono (celulose) é papel.

Sempre precisei de papel, houve até uma fase em que conversava escrevendo, outra em que tentei traçar alguns desenhos, mas logo vi que não tinha perspectiva alguma.

Mal conseguia cobrir um desenho, desisti.

Fiz muita caligrafia que de nada adiantou, mas gostei de escrever frases soltas, cartas para as namoradas – eivadas de erros grosseiros -, versos pobres, idéias malucas, projeções futuras que nunca se concretizaram, até chegar ao atrevimento de expor idéias, confessar, protestar, cobrar, me indignar, me retratar, lamentar, elogiar, desabafar, apor minha assinatura em documentos importantes, elaborar projetos e até perpetrar tinos e desatinos como essa crônica pra mim mesmo.

Coitado de mim sem a celulose.

As mulheres sempre tiveram êxito comigo, sempre me fizeram ceder, transigir, aceitar.

No inicio eu até reluto, esperneio, protesto, mas no final saio sempre derrotado, pior, constato que eu nunca tenho razão.

Sabedora disso vem a Mônica e resolve me dar - nesses meus 55 anos de existência que hoje completo – um regalo inusitado.

Eu que atirei a primeira, segunda e terceira pedras agora sou vidraça.

Pois é, cedi.

É um presente com prazo de validade - parece que seis meses.

Gostei da atenuada, gostei da testa imóvel de Celulari.

Desejo pra mim o amor incondicional da minha família, conservar os velhos e conquistar novos amigos, confirmar o casamento perene com a alegria e renovar o contrato de locação com o inquilino saúde, o resto é secundário.

Feliz aniversário e parabéns pra mim!

Beijo-me com júbilo.

sábado, julho 30, 2011

O impagável Gustavo Mendes



Um dos campeões atuais do YouTube, o ator Gustavo Mendes travestido em Dilma Rousseff, navegando na net e despachando em sua mesa presidencial, onde tem um antigo telefone vermelho, foi colocado no ar, originalmente, no site de humor Kibe Loco.

A própria presidente confessa que gargalha com as situações criadas pelo humorista nos pronunciamentos oficiais e um dos que mais gostou foi quando ela ligou para Antonio Palocci, na crise do enriquecimento ilícito do ex-ministro.

O trecho em que repete “Para de chorar, Palocci, para de chorar...” quase levou a Chefe do Governo a chorar, só que de tanto rir.

Essa entrevista aí de cima também me deu um acesso de riso da gota serena quando a presidente respondeu sobre qual a sua bebida preferida.

Aos quinze anos de idade, o comediante saiu de Guarani (MG), sua terra natal, e foi para Juiz de Fora com a intenção de estudar.

“Fui para fazer um curso de laticínios, porque é um ramo onde muita gente da minha família atua, mas não era aquilo que queria. Meu sonho sempre foi ser artista. Naquela época, acabei adotando a cidade de Juiz de Fora”, recorda.

De acordo com Gustavo, motivado pela vontade de fazer apresentações para grandes públicos, ele chegou a pensar, inclusive, em ser padre ou pastor.

“Queria ter o domínio da palavra por meio de um microfone”, garante.


Antes mesmo de se mudar para Juiz de Fora, Gustavo assistiu, em Guarani, a uma apresentação do humorista Pedro Bismarck, o que o motivou ainda mais.

“Isso foi em 1998, tinha apenas nove anos, o que não me permitia assistir ao espetáculo, mas consegui entrar e me encantei”, explica.

E, movido pelo sonho, Gustavo não chegou a concluir o curso técnico, procurando sempre investir na carreira de comediante.

“Comecei fazendo imitações, como a maioria dos comediantes. Imitava as vozes das minhas referências na época, como Sílvio Santos, Gal Costa, Maria Bethânia, Fagner e Nelson Gonçalves, entre outros”, diz.

Ele conta que cresceu em um meio onde o gênero comédia sempre foi incentivado.

“Minha mãe e minha avó sempre contaram piadas”, confessa.

Gustavo teve uma curta passagem por São Paulo antes de se fixar em Juiz de Fora.

Na capital paulista, aos 11 anos, participou do extinto programa “Te vi na TV” e da novela “O Sonho de Luísa”, ambos na Rede TV!.

Já na cidade mineira, no ano de 2005, o comediante participou do concurso “Show de Talentos”, da TV Alterosa, saindo vitorioso.

“Os bares da cidade foram minha escola de humor”, afirma Gustavo, destacando que, como começou muito cedo, os grupos de teatro de Juiz de Fora não o convidavam para participar de espetáculos.

“Acho que a cara de moleque não sugeria credibilidade”, admite.


Entre as dificuldades, ele relembra as vezes em que se apresentou, no formato stand-up comedy, em bares e as pessoas não prestavam atenção nos shows, muitas vezes achando que se tratava de um bêbado.

“Estava ali porque não tinha grana para bancar figurinos de personagens. Ia de cara limpa, mas as pessoas não entendiam. Com o tempo, fui observando mais, desenvolvi melhor meu texto, além de adquirir feeling com relação à plateia”, avalia.

Depois de um tempo em Juiz de Fora, Gustavo resolveu tentar a vida no Rio de Janeiro.

“Aos 18 anos, decidi emagrecer e tentei ser ator da Malhação. Não deu certo, mas acabei me apresentando em um bingo, o que durou só um mês, devido às interdições sofridas pelas casas de jogos”, recorda.

Depois da experiência, retornou, em 2008, a Juiz de Fora, com a certeza de ser acolhido pelo público local.

“Desde então venho me apresentando em bares e teatros”, diz.


Gustavo encara o fato de ter sempre lutado por seu sonho como um aspecto positivo.

“Nunca fui iludido. Sempre precisei correr atrás. Isso foi bom porque descobri muito cedo o que eu queria fazer, não permitindo qualquer tipo de frustração”, pondera.

“Para mim, o sucesso começou a bater em minha porta em outubro de 2009”, explica.

O motivo da afirmação deve-se a sua participação no programa Show do Tom”, da Rede Record, no final de 2009, onde ficou em segundo lugar no 6º Festival de Piadas.

“A minha participação no programa fez com que o reconhecimento com relação ao meu trabalho aumentasse muito. Até hoje recebo ligações, recados e emails de gente de todo o Brasil”, comemora.

Com a imitação perfeita da presidente da Dilma, Gustavo Mendes, enfim, atingiu o estrelato.

“Na minha opinião, uma caricatura não é ridicularizar um personagem. Ridicularizar é humilhar, ofender e é o que a maioria deles (políticos) fazem. Humilham a gente”, avisa.

Ele ainda ressalta que “o humor não pega pesado. Humor fala verdades brincando. O povo precisa ouvir é isso: verdades”

Hoje, Gustavo Mendes é o único humorista mineiro na emissora Record Brasil, onde participa do programa do “Show do Tom”, do humorista Tom Cavalcante, e tem percorrido o país com seu espetáculo de stand-up comedy intitulado “Tarja Preta”.

sexta-feira, julho 29, 2011

Como surgiu a Aurea Veritas Calix (“Cálice da Verdade Áurea”)


Nas guerras medievais, as chamadas grandes batalhas só aconteciam de vez em quando.

Eram mais comuns os cercos a cidades e fortificações, que ficavam na mira de catapultas.

Na famosa Guerra dos Cem Anos, entre a França e a Inglaterra, a cidade portuária de Calais enfrentou um dos primeiros grandes cercos da guerra e resistiu por quase um ano diante dos ingleses, até a população se render em 1347, abalada pela fome.

Em 1356, numa batalha em Poitiers, os ingleses tiveram outra importante vitória.

Caçados por um exército comandado pelo próprio rei francês João II (sucessor de Felipe VI), eles se protegeram numa área pantanosa.

Ao atacar, os cavaleiros franceses atolaram e foram dizimados por arqueiros.

O rei João II foi feito prisioneiro e só libertado após aceitar tratados que garantiam à Inglaterra o controle de territórios na França.


A virada na guerra viria após o cerco a Orleans, que durou sete meses, entre 1428 e 1429.

Os franceses, encurralados, já estavam prontos para se render quando Joana D’Arc, camponesa transformada em grande guerreira, convenceu o rei francês a mandar tropas para a região.

Os ingleses não resistiram e abandonaram o cerco.

O episódio serviu para colocar na história o nome de Joana D’Arc e unir ainda mais os franceses.

Temendo o fortalecimento de uma liderança popular, entretanto, os nobres franceses arquitetaram a entrega de Joana D'Arc para os britânicos.


No ano de 1430, Joana D'Arc foi morta na fogueira sob a acusação de bruxaria.

Mesmo com a entrega da heroína, os franceses conseguiram varrer a presença britânica na porção norte do país.

Em julho de 1453, tropas inglesas tentaram atacar uma fortificação francesa perto de Castillon.

Elas foram derrotadas ao serem recebidas pela recém-introduzida artilharia de campanha - canhões que podiam ser transportados.

Embates continuaram ocorrendo, mas essa batalha é considerada o marco histórico que encerrou a Guerra dos Cem Anos.

Alguns anos depois, durante uma reunião de rotina entre os cavaleiros templários da Antiga e Mística Ordem dos Abatedores de Lebres (AMOAL), Carlos Frederico, um conde flamengo (tinha que ser!) da região de Flandres, que havia instituído a célebre “Ordem do Tesão de Ouro” em honra de Joana D’Arc, questionou por que “o ato de chupar bocetas não estava previsto entre os protocolos da ordem”?

Supostamente, ele havia se iniciado na prática durante um período em que esteve preso num calabouço inglês junto com Joana D’Arc.

Ambos presos com as mãos acorrentadas para trás, valiam-se dos próprios lábios para trocarem carícias íntimas.


Carlos Frederico foi apoiado nesse questionamento pelo templário Filipo Stravaganza, o Belo, Duque de Brabante, e por Alberto Baduíno, o Feio, Príncipe-Bispo de Liége, na época senhores dos atuais territórios de Bruxelas e de Valônia e ambos vassalos do Imperador da Alemanha.

De acordo com os protocolos secretos da AMOAL, o cunnilingus é uma antiga arte de oratória utilizada para se comunicar apropriadamente com uma parte específica do corpo feminino.

Como os machos de verdade jamais entendem as mulheres, os maiores especialistas nesta arte, evidentemente, são os sapatões.

O termo cunnilingus tem sua origem no latim.

“Lingere” significa “lamber” e “cunnus” significa “enrugadinho”.

Enfim, praticar cunnilingus nada mais é do que o ato de estimular um cuzinho – ou, na falta deste, uma vagina – com a língua.

Sua história nos remete até os primórdios da humanidade.

Nossos ancestrais das cavernas podem ter observado e copiado a presepada dos animais selvagens que, atraídos pelo forte odor, têm o hábito de cheirar e lamber os genitais de seus congêneres.

Os cães domésticos fazem isso até hoje.

O termo felação (do latim “fellatio”) é o sexo oral feito no genital masculino, seja ele feito por homem ou por mulher.

No caso de homem chupando homem (argh!), se chama passivo o vagabundo que pratica a felação (o “chupador”) e ativo, o vagabundo que a recebe (o “chupado”).

O animal que faz as duas coisas ao mesmo tempo, de acordo com o movimento das marés do oceano, é chamado de “entendido”, “viadinho filho da puta” ou “bissexual dos quatro costados”.

No mundo civilizado, há registros de felação na Grécia e no Egito antigo, mas nada de cunnilingus.

A prática do sexo oral era historicamente vista como a submissão de uma pessoa ao controle de outra.


Com isso, nas sociedades antigas onde a figura masculina sempre foi vista como a única detentora das forças física e intelectual, considerava-se extremamente vergonhoso para um homem se submeter a praticar o cunnilingus com uma mulher.

Portanto, um jovem pederasta grego iria preferir muito mais se ajoelhar perante um Sócrates e engolir a flauta de Eros do educador da juventude do que descobrir os encantos vulvovaginais de uma ninfa filha de Afrodite.

Com o advento do cristianismo, o prazer sexual passou a ser visto como uma porta aberta à entrada do demônio.

Na Idade Média, o sexo oral era um tipo brando de sodomia e esta era considerada um dos mais graves pecados veniais.

O fato é que, no início, o ato do sexo oral na mulher era normalmente feito no cu, mas depois com o surgimento da expressão “beijo grego” a palavra cunnilingus tomou o significado atual.

Aquilo poderia ser considerado, quando muito, um aperitivo, uma “boutade”, um ingênuo desvio de conduta, mas nunca uma relação sexual plena e satisfatória.

Essa era a única razão para a prática do cunninlingus não fazer parte dos ritos oficiais da AMOAL.

Os nobres templários Carlos Frederico, Filipo Stravaganza e Alberto Baduíno (os três sofriam de impotência crônica, soube-se depois) não gostaram do que ouviram e decidiram implantar um núcleo dissidente dentro da AMOAL, em que chupar boceta seria o prato principal.


Nascia a Aurea Veritas Calix (“Cálice da Verdade Áurea”, também conhecida como “AVC”, que no Brasil foi batizada de “Associação dos Viciados em Cunnilingus”), uma entidade esotérica ligada ao lado negro da Força.

Apesar de não ser reconhecida oficialmente pela AMOAL, a AVC continua orbitando em sua área de influência, ao mesmo tempo em que mantém sua independência de propósitos e rituais específicos.

Em Manaus, somente na zona sul da cidade, existem pelo menos doze grandes mestres da AVC, reconhecidos mundialmente pelas suas congêneres ao redor do planeta: Simas Pessoa, Giovani Bandeira, João Ricardo Sena, Val Wilkens, Paulo Caramuru, Sici Pirangy, Celestino Neto, Marco Gomes, Luiz Lobão, Áureo Petita, Zé Guedes e Jones Cunha.

E a cada final de semana, eles arrebanham pelo menos novos cinco adeptos para a sua jihad particular.

A última conversão foi a do poeta Marcileudo Barros.

Desconfio, sem poder provar, que, atualmente, seis em cada dez mestres da AMOAL são adeptos dessa prática.

Eu não, que eu não sou chegado.

De acordo com os protocolos secretos da AVC, algumas regras devem ser observadas durante a prática do “beijo grego”.


Antes de tudo, é necessário ter uma boa língua e um pouco de grana para conseguir levar uma mulher pra cama para ser, literalmente, lambida dos pés a cabeça.

Além disso, é necessário que a mulher escolhida seja higiênica, porque executar cunnilingus numa vagaba que não tenha tomado um mísero banho há 24h pode causar morte por ingestão involuntária de bacalhau estragado.

A prática, em si, é bem simples.

A mulher que for receber o carinho, deve apenas fazer o mesmo de sempre: ficar de pernas abertas, olhando para o teto e pensando em que cor ele ficaria melhor.

Quem executa o ato deve lamber a xereca como se fosse um cachorrinho recém-nascido em busca de leite.

É proibido babar, morder, enfiar o dedo, roçar a barba, tirar a boca pra cuspir ou sentir nojinho, mesmo que o cheiro do capô de fusca lhe embrulhe o estômago.

Para ser um grande mestre da AVC, você também precisa resistir ao “beijo grego” por mais de 45 segundos, já que 99% dos homens não aguentam a provação por mais de 10 segundos e querem logo pular em cima da menina pra atochar o chouriço.

Foi para reduzir esse stress masculino que se inventou a posição 69.

Praticar o cunnilingus é como encontrar uma surpresa dentro de um Kinder ovo: às vezes, você fica feliz, às vezes, você fica decepcionado, mas o mais legal é saber que depois de tudo você vai poder comer o chocolate propriamente dito.


De acordo com 90% das mulheres heterossexuais, apenas um homem em cada 100 mil é capaz de fazê-las chegar ao orgasmo por meio do cunnilingus, o que prova que isto é muito mais uma fantasia masculina do que feminina.

Em compensação, 95% das mulheres homossexuais chegam ao orgasmo por meio do cunnilingus quando praticado por uma fêmea semelhante a elas.

Aparentemente, isso se deve ao fato de os homens heterossexuais não saberem muito bem latim, nem se esforçarem o suficiente para aprender o idioma.

Diferente do cunnilingus, a felação praticada por uma mulher em um homem faz parte dos sacramentos da AMOAL.

Existe, inclusive, um aforisma a respeito: “Deus deu um pinto aos homens porque assim eles teriam como fazer as mulheres calarem a boca”.

Deus é Deus por isso: porque é muito espirituoso!

Somente há poucas décadas, com as mulheres brigando pela igualdade de gêneros e o sexo oral aparecendo como uma forma segura de contracepção (e erroneamente até visto como forma de prevenção de DST/Aids), o cunnilingus passou a ser praticado no mundo ocidental sem culpas e com total consciência de seu objetivo.


Segundo os Cavaleiros Jedi da AVC, está provado pela ciência que pouquíssimas mulheres conseguem alcançar o orgasmo somente com a penetração, sem estímulo algum do clitóris.

Desta forma, o cunnlingus aparece como uma ótima opção.

Mas no Oriente sempre foi diferente.

O grande mestre Giovani “Gigio” Bandeira, um empedernido torcedor do Flamengo (tinha que ser!), realizou sua iniciação na arte do cunnilingus em Mangnai, cidade ao extremo leste tibetano, próxima ao lago Gasikule.

Seu mestre, Yui Hiar Wonh, praticava o ato por mais de quinze horas consecutivas, sem que a mulher alcançasse o primeiro orgasmo.

De lá para cá, foram seis especializações na Índia, um MBA no Japão e um PhD na Indonésia.

Segundo ele, só há um passo necessário para realizar um bom cunnilingus: entender o porquê de você o estar realizando.

Nunca se deve pensar que se trata de uma doação ou até de uma obrigação.

Admirar a textura da vagina e a apreciar seu sabor são fundamentais.

Mais importante do que a prática em si, é gostar do cunnilingus e também ter prazer com sua realização.


A prática segue os mesmos princípios que guiam as flechas do tão badalado e cada vez mais pop arqueiro zen.

O que diferencia a filosofia zen oriental da psicanálise ocidental é a abordagem do problema.

Na psicanálise, você entra em um quarto escuro procurando um gato preto sabendo que o gato não está lá.

Na filosofia zen, você entra em um quarto escuro procurando um gato preto sabendo que o gato não está lá... e encontra o gato.

Segundo Baso Matsu (709 a 788 d.C.), o zen é a “consciência cotidiana”, nada mais do que “dormir quando se tem sono e comer quando se tem fome”.

Agindo desta forma, compreendendo que o arqueiro, o arco e o alvo são um só e precisam uns dos outros para fazer sentido, a flecha sempre chegará ao alvo – não pela precisão do atleta, mas sim por seu satori, uma espécie de intuição animal.

Assim, o cunnilingus é a extensão da língua na vagina, o preenchimento de um espaço que quer ser preenchido aqui e agora.

Os detalhes como velocidade, respiração e posições serão sempre pormenores perto da compreensão que a língua deve se espiritualizar e se unir à mulher amada.

Mesmo sabendo se tratar de uma sensação especial, outro ponto importante é encará-lo com naturalidade.

Lembrando um ensinamento de mestre Wonh, “quem o experimenta, melhor fará se o ignorar, já que somente uma firme serenidade é capaz de fazer com que ele volte sempre”.

Aprendido isso, um cunnilingus não tem limites

Esta é a verdadeira paixão do Giovani, que consumiu horas de pesquisa, treinamento intensivo e uma dedicação quase obcecada pela matéria.

Como mestre desta arte, ele acredita que vocês, crianças acima de 18 anos, podem se beneficiar de algumas de suas reflexões sobre o assunto.

Curtam suas observações.


Giovani, Zé Guedes, João Ricardo e Simas, todos eméritos chupadores de boceta

Assim falou Zaratustra – Reflexões do mestre Gigio Bandeira sobre o famoso beijo grego

Em primeiro lugar, vamos acabar com o mito de que homossexuais são melhores na prática do sexo oral do que os heterossexuais.

Sou contra qualquer tipo de discriminação e acho que isso é apenas um marketing bem feito pelos concorrentes.

Tanto hetero quanto homossexuais podem alcançar o mesmo nível de sucesso – aquele papo de que quem tem o equipamento sabe operar melhor é pura balela.

Não acredite nos vídeos pornôs.

Aquela abordagem direta com uma puta língua de fora pode provocar, no máximo, dor e, no mínimo, desconforto, para quem está sendo beijada.

Aquilo é feito para o diretor do filme e não para satisfação da atriz.

Abordagens indiretas podem funcionar melhor em alguns casos.


Uma técnica indireta é abocanhar a área por completo, sugando o pastel de carne como um todo, e ao mesmo tempo fazendo um “u” invertido com a língua, estimulando o entorno do clitóris.

A vibração e intensidade variam muito, conforme o gosto da freguesa.

Imagine sintonizar uma estação em um rádio de válvula usando o dial.

É por aí.

Na medida em que o som vai ficando melhor, você está acertando.

Enquanto houver interferência, continue em movimento, buscando o ângulo correto.

Chupar boceta é arte, não é ciência.

Outra coisa: você pode, com prática, ser tão bom quanto um vibrador, mas para seu ego é bom que você saiba de antemão que nunca vai ser melhor que um vibrador Hitachi com pilhas novas.


Importante: nunca – em nenhuma hipótese – hesite.

Nos casos em que o odor não é o que você esperava, avance da mesma forma.

Mulheres são peritas em notar hesitações e ficam muito ofendidas com isso.

Pense nos valiosos soldados que desembarcaram na Normandia em 1944, sob fogo cerrado dos alemães e nunca recuaram.

Se você está desembarcando na Normandia, avance.

Depois, sem praticar em diversos tipos de campo, você jamais será um bom profissional.

A expressão “céu de brigadeiro”, para designar céu limpo e sem nuvens, surgiu porque brigadeiros só voam sem dificuldades.

Um pouco de turbulência faz de você um piloto melhor.

Uma pergunta que os amadores costumam fazer: antes ou depois da penetração.

Sempre antes.

A não ser que você goste do gosto de esperma...


É bom que fique bem claro que cunnilingus é uma arte para os apaixonados – assim como tocar harpa ou dançar twist.

Se você faz apenas para cumprir tabela, antecipando alguma reciprocidade, você nunca vai ser bom.

Sim, há inconvenientes, como aquilo que chamo de “o efeito Cláudia Ohana”: o pêlo pubiano que se enrosca nos dentes, desce pela boca e fica irritando a garganta.

Ignore-o.

Não fique rosnando como King Kong no topo do Empire State.


Já ouviu falar em ejaculação feminina?

Sim, aquilo existe mesmo e não é nada sujo.

Se acontecer e você for o responsável, você cumpriu seu dever.

Aja com indiferença, como se você provocasse esse efeito sempre.

É uma espécie de diploma de conclusão de curso, o momento em que o sushi man tem que comer o filé de baiacu depois de tirar o veneno.

No mais, boas chupadas no pastel de carne e seja bem vindo ao clube!

quinta-feira, julho 28, 2011

Como carcar uma internauta num chat de pegação


Como você já pôde perceber, caro gafanhoto, vivemos numa era de império da técnica.

Nosso dia-a-dia é recheado de manuais e instruções de uso.

Até as coisas mais simples passaram a exigir tamanho grau de especialização, que somos capazes de morrer de fome se não soubermos apertar as teclas do microondas.

Sem querer, somos obrigados a entender de tudo: wireless, celular, palm-top, internet, pagers, e-books, iPod, servidores, orkut, twitter, facebook, skype, o diabo a quatro.

Para evitar que você se torne um “mané tecnológico”, daqueles que só entendem de coisas que podem ser ligadas numa tomada, nós resolvemos lhe dar uma mãozinha.

Afinal, se você já decorou todos os menus de ajuda do Windows, está mais do que na hora de decorar todas as opções que você tem para aprender a fazer sexo virtual.


Aliás, você já pensou como seria a vida sem fazer sexo?

Não consegue?

Não consegue o quê, pensar ou fazer sexo?

Nos dias – e nas noites e madrugadas – de hoje é possível fazer sexo e conhecer novas garotas, mesmo se você não consegue fazer nenhuma das duas coisas, graças à Internet.

Basta ter tesão, um computador à mão, modem, linha telefônica, conhecer alguns truques para acender a imaginação da parceira e conseguir se excitar com as babaquices que ela escreve na tela.

Se sua vida sexual real estiver tão desvalorizada quanto a moeda americana, se esforce ao menos para que a sua vida sexual virtual seja plena e satisfatória.

Com esta finalidade preparamos para você as seguintes dicas, que – se aplicadas corretamente – lhe proporcionarão horas de excitação, gozos alucinantes, e uma conta telefônica mais alucinante ainda, se você não conseguir conter seus impulsos.

Mas vamos com calma, gafanhoto.


Criada por nerds metidos a besta, a Internet já nasceu pretensiosa, entupida de palavras como “avatar”, “cyberspace” e “webmaster”.

Você sabe exatamente o quê é o quê?

Não?

Então aprenda.

Avatar: você se chama Wandercleyson, mas no Orkut seu nome é Wanderléa e no Facebook, Wanderlaine.

Blogosfera: um monte de gente que passa o dia inteiro escrevendo “meum umbigo é taum lindauuum huahuahuahua kkkkkkkk”.

Chat: vários homens com pseudônimos femininos escrevendo obscenidades uns pros outros.

Cracker: bolacha salgada que você come na frente do computador pra não ter de sair do chat.

Cyberspace: não sei quando vai estrear, mas o Keanu Reeves faz o papel principal.

Flog: blog meio viado, cheio de florzinhas e fotos artísticas de quinta categoria.

Hacker: sujeito que manipula satélite da Nasa só pra sacanear página de desafetos no Orkut e no Facebook, não necessariamente nesta ordem.

Internauta: pessoa solitária com sérias dificuldades para fazer amigos.

Orkut: rapaz turco que cultiva hábitos muito feios, tipo dizer pros outros: “stay beauuuuutiful!”

Spam: e-mail que a gente apaga sem ler, geralmente enviado por assessores de imprensa (eles pensam que a gente lê).

Second Life: lugar onde você pode soltar a Wanderléa que existe dentro de você

Viral: e-mail que vende viagra, aumenta o tamanho do seu pênis e ainda vem com um cheque do Bill Gates.

Virtual: único tipo de sexo que você fez nos últimos dois anos.

Web ring: Foi o que o MisterLoverman (José Posidônio, 60) deu à Wanderléa (Wandercleyson, 32) quando eles ficaram noivos no Second Life.


Agora que você já aprendeu as mumunhas básicas do mundo virtual, entre num chat de pegar vagabas e comece a teclar.

Antes de mais nada, capriche na ortografia.

Não existe nada mais broxante do que ler “vai, gostoza, me faiz gosar” ou “xupa minha mãjuba, meu tezão”.

Se você não encontrou nenhum erro nas frases anteriores, é sinal claro de que você não está preparado para a era digital e deve continuar na manual.

Compre alguns cadernos de caligrafia, meia dúzia de livros de gramática, se matricule num curso público de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e bom proveito.

Se estiver conversando com várias pessoas ao mesmo tempo concentre-se para não trocar as bolas (sobretudo se você for espada) e evitar assim situações ridículas e constrangedoras, como dizer: “ai, amor, como você mexe gostoso”, antes mesmo dela tirar a roupa.

Coordenação, disciplina e senso de organização são essenciais no caso do sexo grupal, realizado nas salas de bate-papo.

É imprescindível instituir um coordenador, de preferência um engenheiro de tráfego, para evitar penetrações triplas, quádruplas ou poligonais indesejadas.

Tente falar com pessoas da sua mesma língua e que dominem as mesmas gírias que você.

Explicar e/ou traduzir cada coisa que pretende fazer acaba de vez com o tesão.

Se você pedir para sua parceira portuguesa colocar a camisinha com a boca e ela se negar, dizendo que está fazendo muito calor ou que pode se engasgar, deixe pra lá e vá em frente, ou pra trás, de acordo com a sua preferência.

Ou, melhor ainda, mude de sala.


Como você não sabe quem está teclando do outro lado, se certifique primeiro de que a sua parceira gostosona seja realmente do sexo-alvo e não um viado qualquer se fazendo passar pela Beyoncé.

Se ela se diz mulher, pergunte sobre marcas de absorventes ou receitas para tirar manchas de sapatos.

Talvez a transa virtual não resulte das melhores, mas – na pior das hipóteses – você terá ganho um pouco de cultura geral, o que será útil se um dia você decidir trocar de sexo.

Pergunte (e cheque) alguns dados concretos da sua parceira (idade, cidade, estado civil, CIC, RG, título de eleitor, etc.).

Talvez isso diminua um pouco o tesão, mas assim você evitará surpresas desagradáveis, como, por exemplo, ficar se excitando com sua própria madrinha em viagem de turismo pelo Casaquistão.

Essas coroas são fogo, ainda mais quando estão solitariamente tristes num hotel de merda perdido no meio nas estepes asiáticas!


Não é muito romântico, mas abreviações ajudam a diminuir o tempo de espera e o tráfego na rede, p. ex. (esta não conta, quer dizer “por exemplo”):

acdtomfs: a cor de teus olhos me faz sonhar

sdpevmmfh: só de pensar em você, meu membro fica hasteado

oaqetveme: o aroma que exala tua vulva está me entorpecendo

mmepprsf: minha mangueira está pronta para receber sua florzinha

cemvnbecatl: coloca esse mastro viril na boca e chupa até tirar leite

eqtpnctdnsetfm: eu quero te pegar no colo, te deitar no solo e te fazer mulher

vtfucmiqtxvfecv: vou te fazer um cavalo marinho invertido que tua xereca vai ficar em carne viva

xmmcheevtqs: xiii! minha mulher chegou e eu vou ter que sair!

inmaa: isso nunca me aconteceu antes

aaaaaaaaaahhhhrrgggfffffffaaaaaaaaaaaaaa: gozei!

ip: ih, peidei!

Algumas regras da etiqueta do sexo ao vivo devem ser preservadas também no sexo virtual: não desligue logo depois de gozar (equivale a virar de costas e começar a roncar), nem saia correndo para tomar banho, a não ser que você tenha um laptop a prova d’água.

Nunca, mas nunca mesmo, pergunte “quanto te devo?”.

Infelizmente, a Internet ainda não é 100% segura para transações financeiras.

Seguindo atentamente estas dicas, você se converterá em um Don Juan virtualmente irresistível e desejado por pessoas de ambos os sexos dos quatro cantos do planeta.

E tudo isso sem gastar um puto (ou uma puta) em motéis fuleiros e nem ter de aturar mocréias com bafo de onça, bundas cheias de celulite e peitos na altura do joelho, fazendo o maior barraco por causa das merrecas que você deu como pagamento pelos serviços prestados.

quarta-feira, julho 27, 2011

Entendendo a quilometragem feminina


É comum as pessoas dizerem “fulana tá muito rodada”.

Mas vocês sabem de onde vem o termo e como é feito o cálculo?

Se não sabem, continuem lendo que nós vamos explicar esse assunto em detalhes.

O ar e outros gases resistem a movimentos realizados “dentro” deles.

É graças a isso que o pára-quedas funciona: quando o paraquedista salta, ele é submetido a uma força de resistência exercida pelo ar.

Ela se manifesta como um vento forte para cima que vai aumentando a medida que ele cai.

A velocidade de queda também aumenta até atingir um valor limite.

Sabe-se que um paraquedista em queda livre atinge uma velocidade máxima em torno 200 km/h.

Porém, sem a força de resistência do ar eles atingiriam velocidades muito maiores: saltando de uma altura de 1000 metros chegariam ao chão com uma velocidade de 508 km/h.

Quando o paraquedista abre o pára-quedas, a força de resistência se torna muito maior devido ao formato e à área do pára-quedas.

Com isso sua velocidade cai rapidamente atingindo valores menores que 10 km/h, seguros o suficientes para uma aterrissagem tranqüila.


Se neste caso a força de resistência é útil, há outras situações em que procuramos evitá-la.

É o caso das bocetinhas femininas.

Talvez você já tenha ouvido frases do tipo “uma falsa magra é bem mais aerodinâmica que uma cachorra popozuda”.

O que quer dizer isso?

Quer dizer que, dependendo do formato que uma boceta tiver, ela sofre uma força de resistência do ar maior ou menor.

As mulheres mais modernos raspam os pelos da xereca não por uma questão de higiene, mas para que ganhem um formato mais aerodinâmico, ou seja, capaz de cortar o ar de uma maneira mais eficaz, diminuindo a resistência.

Isso melhora o desempenho da mulher (velocidade final atingida) e economiza viagra para nosotros, pois o cacete não precisa de tanta rigidez para manter a velocidade.


Segundo os grandes mestres da AMOAL, as mulheres estão dividas em quatro categorias quando o assunto é “velocidade de trepada” (leia-se vaivém frenético da menina entrando e saindo do seu pau, com ela na posição “vaca atolada” e você, por trás de joelhos): magras, medianas, boazudas e orcas assassinas.

Isso é determinado pelo formato aerodinâmico do capô de fusca de cada uma.


As magras (qualquer uma entre 40 e 50 kg) são como um Lamborghini Diablo pilotado pelo capiroto em pessoa: alcançam até 120 ppm (penetrações por minuto) e demoram cerca de 4 segundos para alcançar a velocidade média de 60 ppm.


As medianas (qualquer uma entre 50 e 60 kg) são como um Honda Civic: forçando a barra, elas atingem até 100 ppm, mas demoram cerca de 40 segundos para alcançar a velocidade média de 60 ppm.


As boazudas (qualquer uma entre 60 e 70 kg) são como um Rolls Royce – não adianta tentar imprimir uma velocidade acima de 60 ppm porque é o tipo da máquina para ser curtido com vagar.


As orcas assassinas (qualquer uma com mais de 70 kg) são como uma carreta de três eixos: só um sujeito cheio da truaca para encarar um estrupício desses.

Mas lembre-se: estamos falando de mulheres de estatura média (1,55 a 1,75 cm).

Uma mulher de 1,50 cm e pesando 70 kg não é uma boazuda, mas uma baleia anã.


Os cientistas e sexologistas do mundo inteiro também determinaram que uma trepada dura aproximadamente 7 minutos.

Se a velocidade média de uma trepada é de 60 penetrações por minuto, isso indica que o ato completo consiste em 420 penetrações (60 X 7).

Supondo que o cacete do macho tenha, em média, 15 centímetros, isso significa que a mulher recebe, em média, 6.300 centímetros de chibata, ou seja, 63 metros de rola em cada relação (420 X 15).

Geralmente, as mulheres trepam 3 vezes por semana e, como o ano tem 52 semanas, então fodem 156 vezes por ano.

Isto quer dizer que a mulher recebe 9.828 metros de vara por ano, ou o equivalente a quase 10 km de pica por ano (63 X 156).

A 10 km por ano, uma garota de 25 anos, que teve a sua vida sexual iniciada, em média, aos 17 anos, já rodou (25-17 = 8 x 10) espantosos 80 km!


Portanto, agora, podemos apresentar a mulherada da seguinte maneira:

“Carlos Alberto, esta aqui é a Maria Amélia. Ela tem 25 anos, mas está novinha! Só rodou uns 55 km! Tá inteira, muito bem conservada, com todas as peças originais. É como se fosse ano 73, modelo 75!”

Sugiro que vocês decorem e repassem estas informações as suas amigas, que certamente não resistirão a argumentação tão singela caso ainda não tenham alcançado a quilometragem padrão de 100 km, ou que ficarão putíssimas da vida caso já tenham alcançado a revisão dos primeiros 5.000 km.

Cuidado: as leis de trânsito estão cada vez mais severas

Preocupado com o abuso de certos cidadãos no nosso trânsito cada vez mais caótico, o produtor cultural Julio César Costa, nosso homem em Fortaleza (CE), manda mais essa dica:

Multa de R$ 1.000,00

Apreensão do veículo

7 pontos na carteira

Tipo de infração: Transitar em moto com escapamento aberto

sábado, julho 23, 2011

Morre Amy Winehouse


Amy Winehouse, uma das maiores estrelas da música britânica dos últimos anos, era uma cantora de soul de um extraordinário talento musical e dona de uma voz poderosa, cuja carreira foi interrompida neste sábado após sua morte.

Aos 27 anos, a intérprete de Rehab se uniu neste sábado à lista de músicos lendários que morreram exatamente com essa idade, como Jim Morrison, Kurt Cobain e Janis Joplin, após um histórico de problemas com álcool e drogas.

Amy foi encontrada morta neste sábado em seu apartamento de Camden Town, no norte de Londres, um mês após ela ter suspendido sua turnê europeia por causa do fracasso de seu show em Belgrado, no qual mal conseguiu cantar e chegou a ser vaiada.

Com músicas como Love Is A Losing Game e You Know I Am Not Good, Amy foi comparada a Sarah Vaughan por sua voz intensa, e a Billie Holiday e até mesmo a Edith Piaf por sua criatividade, sua vulnerabilidade e seus excessos.


Com seus cabelos escuros, seus olhos sempre pintados e sua extrema magreza, Amy tinha uma personalidade forte.

Musicalmente, era considerada uma cantora de soul, mas não fugia das influências do jazz e até mesmo do rap.

Sua curta carreira foi dominada por escândalos, problemas com a Polícia, uso excessivo de drogas e álcool, bulimia, brigas com o marido, overdose, cancelamento de shows e internações constantes em centros de reabilitação.

A forma como ela levava a vida fez com que a notícia de sua morte neste sábado provocasse mais consternação do que surpresa no Reino Unido.

A cantora e compositora teve problemas com as drogas quando era adolescente, mas que se intensificaram e foram especialmente noticiados desde que seu álbum Back to Black se transformou em um enorme sucesso mundial.


Lançado em outubro de 2006, vendeu 15 milhões de cópias, foi eleito o melhor álbum do ano em 2007 e em fevereiro de 2008 transformou Amy na primeira cantora britânica a ganhar cinco Grammys.

Com letras influenciadas por suas experiências pessoais, Amy chamou a atenção midiática e dominou as páginas dos tablóides britânicos.

Seu maior sucesso, Rehab, fala sobre sua rejeição em comparecer a um centro de reabilitação para alcoólicos.

O clipe da música foi visto neste sábado por cerca de 40 milhões de pessoas na internet.

Em 2003, Amy havia lançado seu primeiro disco, Frank, que vendeu 1,5 milhão de exemplares e lhe rendeu uma nomeação ao Mercury Prize e ao Ivor Novello Award em 2004 pela música Stronger Than Me.

Atualmente, preparava seu terceiro álbum, segundo sua gravadora, a Universal, que confirmou a morte da cantora neste sábado e transmitiu suas condolências à sua família.


Amy Jade Winehouse nasceu em 14 de setembro de 1983 em Londres em uma família de origem judaica.

Aos 10 anos fundou seu primeiro grupo de rap e aos 14 anos começou a escrever músicas de jazz.

Em 2007, casou-se em segredo com Blake Fielder-Civil, que foi preso por agredir o dono de um pub londrino. Os dois se divorciaram em 2009.

A última aparição pública da cantora foi na última quarta-feira em um teatro de Camden Town.

Caso Delmo: A vingança dos motoristas


Na última quarta-feira, meu brother Francisco Cruz, atual procurador-geral do Ministério Público do Amazonas, teve a gentileza de telefonar para Manacapuru, onde estou temporariamente homiziado, para me dar notícias sobre o hypado livro do Durango Duarte, “Caso Delmo”, que será lançado no próximo dia 1º de agosto, na Livraria Saraiva, no Shopping Manauara.

Chicão Cruz foi, até agora, a única pessoa que leu o nosso livro (meu e do Antonio Diniz), “Massacre na Selva”, ainda no formato word, há dois anos.

No começo do ano, lhe enviei uma cópia em PDF, já com o livro totalmente diagramado.

Aliás, o livro era dedicado a ele porque eu, pessoalmente, o considero uma das maiores sumidades jurídicas da aldeia - sem contar que Chicão é um verdadeiro intelectual orgânico progressista da antiga escola gramsciana, dois conceitos que ele simplesmente abomina e inseridos numa mesma frase laudatória, que é o tipo de putaria que só um verdadeiro amigo consegue entender.

O diabo é que ele virou o chefão do Ministério Público e o que antes seria uma singela homenagem começou a parecer cabotinismo.

Preferimos, eu e Antonio Diniz, puxar o freio de mão e dedicar o livro ao MPE, sem distinção (MPE, diga-se de passagem, que conta com duas fundadoras do bloco Andanças de Ciganos: Sara Pirangy e Silvana Cavalcante).

O Chicão recebeu um exemplar do livro do Durango - trés chic, como sempre, já que o sacana sempre teve bom gosto! - e, pelo que entendi, os dois livros se complementam.

No seu prefácio, Durango faz uma citação carinhosa ao meu trabalho de pesquisa sobre o Delmo Pereira, apesar de ele ainda não ter lido o livro “Massacre na Selva”. Noblesse oblige.

Segundo o Chicão, que ficou de me emprestar o livro na próxima segunda-feira, Durango Duarte fez um robusto apanhado de matérias jornalísticas publicadas na imprensa local sobre o hediondo crime.

Ele não palpita, não dá pitaco, não se mete na história.

Simplesmente transcreve a história do desdobramento do crime tal como a imprensa da época registrou.

Aparentemente, o pesquisador delimitou um tempo histórico (das primeiras reportagens publicadas sobre o assassinato do motorista José Honório até o julgamento dos assassinos de Delmo Pereira) e coletou tudo de interessante sobre o assunto publicado pela mídia local entre os dois eventos.

O meu livro, nesse aspecto, é um pouco diferente.

Como tive acesso a documentos que, supostamente, a mídia da época não teve, eu reescrevi a história do crime a partir desses documentos.

Claro que, a exemplo do Durango Duarte, também transcrevi algumas reportagens de época, mas apenas aquelas específicas sobre o julgamento dos motoristas.

Um dos diferenciais entre os dois livros (e aqui não há nenhum demérito sobre o trabalho do meu querido Durango, muito pelo contrário) é que transcrevi os autos de qualificação e interrogatório prestados na Justiça pelos 27 acusados - e de mais algumas pessoas presas injustamente, como o empresário Cassiano Cirilo Anunciação, o “Batará”, na época um moleque de 19 anos e motorista do ônibus Eneida.


O nosso querido “Batará”, amigo de minha família há seis décadas, ficou preso durante três meses até ter sido impronunciado pelo juiz Ernesto Roessing.

O “porque” de ele não ter entrado contra o Estado com uma milionária ação indenizatória por danos morais, era algo que eu pretendia fazer escrevendo sua biografia.

Cheguei a falar com o Cirilo Anunciação, ex-diretor do Diário do Amazonas, sobre o projeto - que ele considerou interessante -, mas aí o sacana se envolveu nessa guerra intestina contra seu irmão caçula, o Ciro, e o projeto foi pro vinagre.

Pretendo conversar com o Cassianinho (o primogênito do “Batará”), o Cássio, a Demétria e o próprio Cirilo para retomar o assunto.

Seria uma oportunidade única de o bem sucedido empresário “Batará” desmontar as mil e umas lendas urbanas criadas a seu respeito.

Mas estou tergiversando. Voltemos ao caso Delmo.

Infelizmente, não consegui ter acesso aos interrogatórios de primeira hora, ou seja, aqueles prestados pelos presos na Polícia tão logo foram capturados, porque, supostamente, foram incinerados por um diligente funcionário público quando a Chefatura de Polícia da Marechal de Deodoro foi desativada, em meados dos anos 70.

Pra quem ainda tem memória, o “casarão” ocupava um quarteirão inteiro, com uma entrada principal na rua Marechal Deodoro e uma entrada secundária na Guilherme Moreira.

Outro diferencial é que também transcrevi integralmente a peça de acusação do promotor Domingos Queiroz, uma verdadeira jóia rara, dado o grau de saber jurídico do irmão mais moço do saudoso ex-deputado estadual Chico Queiroz, que também era advogado militante e jornalista desassombrado.

Apesar de ter estudado apenas dois anos de Direito na antiga Faculdade da Jaqueira, no início dos anos 80, eu considero a peça acusatória de Domingos Queiroz como um dos melhores trabalhos jurídicos de nossa terra em todos os tempos.

Se um leigo do meu tipo achou beleza e graça no material, imagino o deslumbramento que ele poderá provocar em promotores públicos, advogados criminalistas e juízes.

Por último, tentei contextualizar o papel do Ministério Público, a essência do Tribunal do Júri e a importância do advogado de defesa para que o próprio leitor tirasse suas conclusões definitivas a respeito da quizumba.

Esse texto seguinte, intitulado “A Vingança dos Motoristas”, é a continuação do capítulo “De Bon Vivant a Criminoso” já publicado aqui no mocó.

As fotos ilustrativas deste capítulo, seguramente, nunca foram publicadas antes pela imprensa, inclusive esta que abre a matéria, onde aparece Delmo Pereira sendo submetido ao “soro da verdade”.

Desconfio que tenha sido a última foto que ele fez em vida.


A demora da polícia em identificar – se é que existiam – os outros cúmplices de Delmo Pereira no assalto frustrado à serraria Pereira e no assassinato do taxista José Honório, haviam transformado a cidade num barril de pólvora.

Só faltava alguém para acender o rastilho.

Um motorista do Serviço de Socorros de Urgência (SSU), Silvio Oliveira, tomou para si essa incumbência.

Solidário à classe, ele procurou alguns motoristas e se prontificou a telefonar para a garagem Esportiva no momento em que o estudante estivesse deixando aquele hospital, após ser submetido ao “soro da verdade”.

Funcionário do Instituto Médico Legal, o enfermeiro Manuel Rodrigues, conhecido como “Gavião”, chegou às 9h da manhã do dia 5 de fevereiro, para dar expediente no SSU.

O estudante Delmo Pereira já estava no local desde a noite anterior.

O enfermeiro presenciou uma discussão áspera, por telefone, entre o Dr. Carlos Frederico, diretor da unidade hospitalar, e o chefe da Polícia, a respeito da presença do estudante naquele local.

– Eu sei que é ordem do governador, mas vocês estão me criando um problema sério! – exasperava-se o diretor. “Nós não temos como garantir a integridade dele aqui, nem a dos outros pacientes, no caso de acontecer uma invasão à base da força. Vocês não têm idéia de como está o clima entre os choferes da cidade!”.

Para mostrar que a preocupação do diretor era infundada, o chefe da Polícia, Manoel Rocha Barros, dirigiu-se até o SSU e comandou pessoalmente uma experiência: fez o enfermeiro “Gavião” se enrolar em um lençol branco e ser colocado em uma ambulância, como se fosse Delmo.

Ele se aboletou no banco da frente, junto ao motorista, disfarçando-se de enfermeiro para não ser reconhecido.

A ambulância deixou o SSU e foi até as imediações da Penitenciária do Estado, voltando em seguida pela Sete de Setembro, entrando na Joaquim Nabuco e indo até a praça dos Remédios.

Com exceção das vaias dadas por alguns populares, nada de mais grave aconteceu.

O chefe da Polícia desceu da ambulância, no canto das ruas Joaquim Nabuco e José Paranaguá, e foi para a sua residência.

A ambulância desceu a José Paranaguá, contornou o Cine Guarany, na avenida Getúlio Vargas, subiu a Sete de Setembro e retornou ao SSU.

Por volta das 18h, a ambulância saiu para prestar socorro a uma pessoa que tinha sido esfaqueada na avenida São João, no bairro do Imbóca.

A vítima foi levada para o SSU mas, em virtude da gravidade do ferimento, ela foi imediatamente transferida para a Santa Casa de Misericórdia.

Quando a ambulância estacionou na Santa Casa para fazer a remoção do ferido, o enfermeiro Manuel Rodrigues viu um cidadão se aproximar e olhar para o interior da ambulância, como se procurasse alguém.

Na volta para o SSU, o enfermeiro também percebeu que havia muitos automóveis estacionados na rua Ferreira Pena, perto da Santa Casa, e que começaram a trafegar lentamente quando a ambulância saiu.

No SSU, Manuel Rodrigues relatou o ocorrido ao comissário Luiz Bastos, que estava no local para supervisionar a remoção de Delmo para o QG da Polícia Civil, na rua Guilherme Moreira.

– É, “Gavião”, a gente já sabe que esses motoristas estão querendo aprontar alguma, mas fique frio que eles estão sendo monitorados! – tranqüilizou o comissário.

Bastos chamou o investigador Eliseu Moreira, que estava de sentinela na porta do quarto do estudante, e avisou para ele se preparar, que a remoção de Delmo seria feita às 19h.

No horário estipulado, Eliseu chamou Delmo para que o acompanhasse até a ambulância, mas percebeu que ele ainda estava um pouco perturbado, talvez sob efeito do “soro da verdade”.

O investigador calçou os sapatos do estudante e o ajudou, amparando-o, a entrar na ambulância.

O comissário Bastos trancou a porta da ambulância, entrou numa caminhonete e foi embora.

O motorista Francisco Lotif estava escalado para dirigir a ambulância.

O motorista Silvio Oliveira, que acabara de telefonar para a garagem Esportiva, resolveu acompanhar a remoção e sentou-se ao lado dele.

O enfermeiro Manuel Rodrigues sentou-se ao lado de Silvio, indo na janela.

O veículo começou a se movimentar lentamente, mas, próximo dos pilares da porta de saída do hospital, o motor estancou.

O motorista, aproveitando a embalagem, debreou e acelerou, e o motor voltou a pegar.

Silvio, encarregado de acionar a sirene, deu duas “sirenadas”, como se fosse um aviso.

Mal a ambulância começou a se movimentar na Joaquim Nabuco, voltou a estancar.

– Será que é falta de gasolina? – perguntou o motorista Lotif, enquanto debreava e acelerava, até fazer o motor pegar no “tranco”.

Silvio respondeu que talvez o estrangulador estivesse puxado.

– Ali no canto do Quintela estão parados mais ou menos uns trinta choferes! – alertou o enfermeiro “Gavião”.

Ao ouvir aquilo, o investigador Eliseu, que estava dentro da ambulância, ficou assustado:

– Você escutou essa conversa aí da boléia? – perguntou ele a Delmo.

O estudante, ainda meio grogue, assentiu afirmativamente com a cabeça.

A ambulância continuou seu itinerário, sempre em baixa velocidade, mas com a sirene ligada.

Desceu a Lauro Cavalcante, dobrou à esquerda na Getúlio Vargas e, em frente ao Cine Polytheama, quando se preparava para dobrar à direita na Sete de Setembro, o veículo subitamente parou.

Eliseu foi surpreendido com pancadas sendo dadas na parte traseira da ambulância até que ambas as portas se abriram.

Dezenas de motoristas cercavam o veículo.

O investigador tentou fechar as portas puxando as correntes que elas possuíam na parte interna, sendo ajudado na tarefa por Delmo Pereira, mas, para azar deles, as portas fecharam ao contrário, ficando superpostas.

Com a ajuda de chaves de fenda e pedaços de paus, os motoristas forçaram a pequena abertura entre a superposição das portas e conseguiram, de novo, abrir a ambulância.

Eliseu levou um murro e caiu no chão meio atordoado.

Ele foi puxado pelas pernas e retirado da ambulância, sob uma saraivada de tapas e pontapés.

Gritando por socorro, Delmo ainda conseguiu pisotear no rosto de alguns motoristas, que queriam subir na ambulância, antes de ser imobilizado pela gravata de um deles e arrastado para fora do veículo.

Ele foi colocado dentro de um carro, que desceu a Sete de Setembro em alta velocidade.

Eliseu correu até a Chefatura de Polícia e relatou o ocorrido.

Os policiais civis se dirigiram ao Quartel da Polícia Militar para conseguir reforços.

O advogado e repórter policial Manuel José Antunes da Silva, 36, estava na redação do jornal A Crítica quando chegou a notícia de que os taxistas haviam assaltado uma ambulância do SSU e raptado o estudante Delmo Pereira, quando este estava sendo conduzido para a Chefatura de Polícia.

O carro utilizado na fuga era um Hudson cinza.

Os estudantes estavam ameaçando incendiar a cidade.

Na mesma hora, ele e o jornalista Epaminondas Baraúna apanharam um carro e se dirigiram para as proximidades do Colégio Pedro II.

A multidão havia interditado o cruzamento da Getúlio Vargas com a Sete de Setembro.

Vários ônibus haviam sido abandonados no local.

O trânsito estava congestionado.

O advogado soube que o chefe da Polícia, Manoel Rocha Barros, estava naquele momento no Quartel da Polícia Militar, na praça da Polícia, onde fora buscar alguns policiais para sair ao encalço dos choferes, e para lá se dirigiu.

Como desfrutava de certa intimidade com Rocha Barros, Manuel Antunes foi logo perguntando:

– O senhor já prendeu os condutores da ambulância, para saber que diabos está acontecendo?

– Não, ainda não! – respondeu o chefe de Polícia. “Mas me faz um favor. Leva esses dois policiais civis com vocês até o SSU e pede para comparecer na Chefatura de Polícia o motorista da ambulância, de nome Lotif, um enfermeiro de apelido “Gavião” e um outro motorista de nome Silvio”.

Os jornalistas obedeceram.

No SSU, o quarteto ficou sabendo que o enfermeiro “Gavião” tinha tomado rumo incerto e não sabido.

Os dois motoristas, Francisco Lotif e Silvio Oliveira, foram conduzidos à Chefatura e entregues ao comissário de Permanência.

Os quatro, então, partiram ao encontro do chefe da Polícia, subindo pela avenida Sete de Setembro, passando pela Cachoeirinha, até encontrarem o carro ocupado pelo policial, que se dirigia para a estrada de Flores através da rua Recife.

Ao passar pela avenida Carvalho Leal, nas proximidades da rua J. Carlos Antony, Manuel Antunes notou parado na porta de uma das casas um carro Hudson cinza, sem placa, bastante enlameado, cujas características coincidiam com a do carro que, segundo estava informado, havia conduzido Delmo Pereira após o assalto da ambulância.

Ele sugeriu aos policiais civis que procurassem identificar melhor aquele carro, mas não insistiu no assunto.

Julgou pouco provável que o carro dos raptores já estivesse de volta à cidade em tão curto espaço de tempo.

Conversando com Rocha Barros, que estava mais perdido do que cachorro quando cai do caminhão de mudança, o experiente repórter policial informou que o lugar mais provável para uma chacina seria a estrada dos Franceses, dado a dificuldade de acesso ao local.

O chefe de Polícia acatou a sugestão do repórter e para lá se dirigiu.

O jornalista Epaminondas Baraúna deixou o veículo do quarteto e aboletou-se num caminhão que estava conduzindo policiais militares armados de baionetas caladas.

Quando passavam em frente à Capela de São Geraldo, no cruzamento da estrada dos Bilhares com a avenida João Coelho, a pequena comitiva percebeu quatro automóveis vindo em alta velocidade da estrada velha de São Raimundo.

Rocha Barros desceu do carro com uma arma na mão, fez os automóveis pararem e obrigou todo mundo a sair de dentro dos carros, com as mãos na cabeça.


Os policiais militares revistaram os detidos, mas não encontraram nenhuma arma.

O olhar de lince do repórter percebeu que um dos motoristas, José Cesário, apresentava vários salpicos de sangue na roupa.

– Cadê a porra do estudante que vocês seqüestraram? – berrou o chefe da Polícia, sem esconder a irritação.

Os taxistas permaneceram calados.

Dirigindo-se ao português Manoel Rodrigues da Cruz, que também tinha em suas roupas duas pequenas manchas de sangue, Rocha Barros encrespou:

– Eu vou perguntar pela última vez – disse, engatilhando o revólver. “Cadê a porra do estudante que vocês seqüestraram?”.

O português tremeu nas bases:

– O homem está numa vereda da estrada dos Franceses, doutor! Todos os meus companheiros sabem onde ele se encontra...

Rocha Barros deu ordem de prisão para os 17 motoristas detidos.

Enquanto aguardava a chegada de um caminhão conduzindo soldados da Polícia Especial do Exército, ele solicitou que Manuel Antunes, na companhia de três policiais civis e de outros dois repórteres, Joaquim Andrade (O Jornal) e Ulisses Paes de Azevedo (Gazeta) entrassem no Jeep conduzido pelo inspetor de Tráfego, que acabara de chegar, e fossem até a estrada dos Franceses, na tentativa de localizar outros taxistas ou o estudante.

Os jornalistas e os policiais percorreram a estrada de cabo a rabo, mas não encontraram nada.

Manuel Antunes pediu para o Jeep parar em frente a um casebre e foi falar com os moradores.

– Escuta, meu chapa, vocês perceberam alguma coisa de anormal hoje à noite, aqui nessa estrada? – perguntou ele ao suposto dono da casa.

– Rapaz, meia hora atrás passou por aqui um monte de carros. A gente perguntou o que estava acontecendo e um deles disse “não é nada não, é que estamos de greve...”.

– A gente também ouviu gritos e pedidos de socorro vindo daquela direção – disse uma mulher, apontando para o meio do matagal.

Eles resolveram retornar para o lugar onde estava o chefe da Polícia, mas, de repente, no meio da escuridão, perceberam que, no início de uma das veredas existentes na estrada, se encontrava parado o automóvel n.º 3 do Palácio Rio Negro, que só era conduzido por autoridades.

Entrando na vereda, eles viram o português Manoel Rodrigues da Cruz conduzindo em seus braços o cadáver de Delmo Pereira, enquanto várias autoridades confabulavam.


Manoel Rodrigues da Cruz com a roupa manchada de sangue após conduzir o cadáver de Delmo

Atendendo à solicitação de Rocha Barros, Manuel Antunes retornou à Chefatura de Polícia, onde solicitou que fosse enviado ao local um médico legista, para efetuar o levantamento cadavérico, e um carro funerário, para o transporte do cadáver.

Ele também avisou ao comissário de Permanência que deviam ser recolhidos e presos, incomunicáveis, os dois motoristas da ambulância.

Dados os avisos, o repórter dirigiu-se à redação de A Crítica, para escrever as matérias apuradas.

Mais tarde, quando retornou à Chefatura de Polícia para fazer sua ronda noturna, Manuel Antunes foi convencido pelo comissário de Permanência a levar dois policiais civis até a casa na Carvalho Leal, onde avistara um Hudson cinza, sujo de lama.

Apesar de acreditar que não havia nenhuma relação entre o automóvel e o crime do estudante, o repórter atendeu ao comissário.

Quando chegaram na referida residência, o circo estava armado.

Uma multidão estava em frente à casa do motorista Eugênio Ribeiro de Carvalho, o “Bigode”.

Assim que desceu do carro, o repórter foi “peitado” pelo motorista, visivelmente irritado e nervoso:

– Porra, caralho, cadê a imprensa séria de nossa cidade? – disparou “Bigode”. “A minha mulher deu luz há oito dias, ainda está de resguardo, e, puta que pariu, duas horas atrás uns policiais maus elementos do posto da Cachoeirinha invadiram a nossa casa na marra, sem mandado de busca e apreensão, fazendo o maior escarcéu! A minha mulher quase teve um colapso! Tive que deixar ela com o médico plantonista do SSU, mas se ela vier a falecer vai feder a chifre queimado! Eu juro que vou processar o chefe de Polícia!”.

Convencido da inocência do motorista, já que ele havia visto o carro estacionado na casa do sujeito antes das 8h da noite, o repórter disse que ia divulgar o acontecido, ensaiou um pedido de desculpas e, em companhia dos dois policiais civis, retornou à Chefatura de Polícia, onde relatou o ocorrido.

Por volta da meia-noite, o plantonista do Posto Policial da Cachoeirinha telefonou para a Chefatura da Polícia solicitando transporte de emergência para a transferência de um taxista que havia sido preso nas imediações do igarapé da Raiz.

Como não havia nenhuma viatura disponível, o comissário de Permanência solicitou um novo favor ao repórter Manuel Antunes: que ele utilizasse seu próprio veículo para fazer aquela transferência.

Três policiais civis foram designados para acompanhá-lo na missão.

No Posto Policial da Cachoeirinha estava o motorista Pedro Gomes de Souza, vulgo “Mala Velha”, trajando uma roupa de cor branca.

No lado esquerdo do paletó havia uma mancha de sangue que tinha, nitidamente, o formato de uma mão espalmada.

– Que porra é essa? – perguntou o repórter. “Não vai me dizer que o senhor levou um tiro no coração...”.

– Não, doutor, isto foi quando empurraram o menino em cima de mim! – respondeu “Mala Velha”, sem disfarçar o sorriso cínico.

O motorista foi conduzido à Chefatura de Polícia e ali recolhido, incomunicável.

Por volta das quatro horas da madrugada, o comissário Bastos resolveu interrogar seis dos motoristas presos na estrada dos Franceses.

Mesmo já quase morto de sono, Manuel Antunes resolveu acompanhar o interrogatório, interessado em dar um novo “furo” nos jornais concorrentes.

Na primeira rodada de perguntas, todos negaram tudo.

O repórter avisou a Bastos que havia percebido salpicos de sangue na roupa de José Cesário e que, portanto, ele não podia negar a participação no crime.

Bastos resolveu interrogar de novo o motorista.

– Olha aqui, meu chapa, essas manchas de sangue salpicadas na sua roupa vão te incriminar e você vai para a fogueira sozinho. Ou você quer me convencer que esse sangue não é do Delmo? – avisou o comissário.

Cesário ficou pálido.

– Olha, esse sangue é do Delmo sim, mas eu não tenho nada com isso – apressou-se a esclarecer. “Eu estava perto do Delmo perguntando quem eram os seus cúmplices no assassinato do Zé Honório, quando então ele me respondeu dizendo ‘por favor, não me bate mais, que eu vou contar tudo’. Aí, um chofer de nome Waldemar deu uma bofetada violenta no rosto de Delmo, que já estava sangrando pelo nariz, e então o sangue salpicou na minha roupa”.

– E quem matou o estudante? – insistiu Bastos.

– Isso aí eu não posso garantir, mas a primeira facada foi dada pelo “Carioca”! Depois, todo mundo tirou a sua casquinha...

– Quem é “todo mundo”?

– Ah, todo mundo. “Pirolito”, “Puxa Faca”, Vicente, “Bigode”...

– “Bigode”?

– É, foi ele que dirigiu o Hudson cinza, que levou o Delmo para o matadouro...

Manuel Antunes ficou irritado.

Ele havia colocado as mãos no motorista que conduzira Delmo para a chacina e o deixara escapar.

Aquele teria sido um “furo” demolidor.

Por volta das seis horas da manhã, uma equipe policial comandada pelo comissário Bastos estava batendo na porta de Ludgero Sarmento, o “Carioca”, localizada em uma estância nas proximidades da Subusina de Bondes, na Cachoeirinha.

De dentro do quarto, uma voz feminina avisou que o motorista havia saído para trabalhar e ainda não havia voltado.

Bastos pediu que ela abrisse a porta, para eles confirmarem a informação. Silêncio.

Dez minutos depois, Bastos avisou que ia utilizar o emprego da força para arrombar a porta e que eles tinham ordem para atirar em quem reagisse. Silêncio.

De repente, uma voz masculina ecoa dentro do quarto:

– Não atirem que eu estou saindo!

Era o motorista “Carioca”.

No lado direito de seu rosto havia ainda marcas de sangue seco, que ele esquecera de limpar.

– Não adiante negar o crime, “Carioca”! O Cesário já abriu o jogo e disse que você deu a primeira facada! Você está ferrado! – avisou Bastos.

Na mesma manhã, foram presos os motoristas Vicente, Waldemar e Eugênio, o “Bigode”.

Por volta de meio-dia, um oficial do Serviço de Elementos da Fronteira entregou à Polícia Civil uma pistola, uma faca e uma bainha encontradas no porta-luvas do carro do português Manoel Cruz.

A Constituição de 1946 prescrevia que ninguém poderia ser preso, salvo em flagrante delito, ou por ordem escrita da autoridade competente (art. 141, § 2.º).

Embora o sentido da Carta fosse o de considerar que a autoridade competente seria, tão-só, a autoridade judiciária, a legislação infraconstitucional acabou conferindo à autoridade administrativa o poder de decretar prisões cautelares.

Começou a caça às bruxas, com choferes acusando, sem provas, gente inocente e a polícia efetuando prisões a torto e a direito.

( So sorry, mas o resto da história só quando o livro for publicado!)

terça-feira, julho 19, 2011

Caso Delmo: A Lei de Lynch no Amazonas

Este texto e essas fotos estão no meu livro e provavelmente no livro do Durango Duarte porque são de domínio público.




No dia 2 de agosto de 1952, a revista semanal O Cruzeiro publicava a matéria intitulada “A Lei de Lynch no Amazonas”, com texto de Alberto Rocha e fotos de Utaro Kanai:

Em fevereiro passado, Manaus se tornou, subitamente, objeto de notoriedade incômoda, que se espalhou pelo País inteiro e mesmo no exterior. Até a BBC de Londres, sempre tão circunspeta no que noticia ou comenta, dedicou algum tempo dos seus programas para divulgar o fato. O que ali se passara definitivamente incluía a capital amazonense nos anais do crime no Brasil. Um linchamento é sempre chocante e, entre nós, senão totalmente inédito, pelo menos sumamente raro. E Manaus sentiu-se, por isso mesmo, alvo de curiosidade de que os seus habitantes não tinham motivo para felicitar-se.

Satisfazendo a essa curiosidade, reconstituindo as condições que deram origem ao bárbaro crime ali praticado, acredita O Cruzeiro estar prestando um serviço público. Se a vítima de um linchamento é, primariamente, um indivíduo, é igualmente certo que ele afeta, deixando fundas marcas na comunidade em cujo seio teve lugar. Nenhuma outra, entretanto, está imune à ocorrência de explosão similar de instintos e ressentimentos. Em conseqüência, é preciso identificar, para que jamais se reproduzam, as circunstâncias que provocaram tão flagrante colapso da lei e da ordem e que, no caso, desampararam, não apenas a um ente humano que era também um cidadão, mas a toda uma sociedade, dos processos normais e legais da administração da Justiça. Tanto mais quanto os fatos se passaram na culta capital de um Estado, num dos seus cruzamentos mais freqüentados, e vitimaram a um preso sob a custódia da autoridade pública. Como pudera isso acontecer e que fizera essa autoridade para protegê-lo e assegurar a marcha normal da Justiça, na apuração e punição dos crimes de que o acusavam?

PRELIMINARES DO LINCHAMENTO

Anoitecera o dia 5 de fevereiro quando o então chefe de Polícia do Estado do Amazonas, Manoel da Rocha Barros, chamou o comissário Luiz de Souza Bastos e mandou que fosse ao Serviço de Socorros de Urgência, em Manaus, e providenciasse a transferência para a Central de Polícia, de Delmo Campelo Pereira, indiciado como autor de assalto ao vigia de uma serraria e do homicídio de um motorista de praça. A sua presença naquele estabelecimento hospitalar corria por conta da inquirição, levada a efeito sob a ação do chamado “soro da verdade”, a que fora submetido na tarde daquele dia.

Lá chegando, o comissário Bastos determinou ao agente Eliseu Costa Moreira, de guarda ao preso, que o fizesse transportar em uma ambulância. Pela utilização desse veículo se tencionava, ao que parece, burlar a vigilância de motoristas de praça, que desde o dia dos crimes de que Delmo era acusado, vinham demonstrando crescente agitação e o propósito de obter, por seus próprios meios, a revelação da identidade dos cúmplices, que teriam participado no assassinato de seu colega de profissão e de cuja existência estavam convencidos.

Encostada a ambulância, o preso e o agente que o acompanhava entraram na parte reservada aos doentes. No assento dianteiro, tomaram lugar o motorista que a dirigiu, Francisco das Chagas Barroso Lotif, que fora membro da Força Expedicionária Brasileira, e o enfermeiro Manoel Rodrigues, mais conhecido como “Gavião”. Por insistência própria, também se acomodou entre os dois, outro motorista que não estava de serviço, nem tinha nenhum motivo que justificasse a sua presença. Chamava-se Silvio Alves de Oliveira. Poucos momentos antes, enquanto se processava a descida de Delmo para a ambulância, fora observado fazia ele um chamado telefônico.

Ocupado pelos personagens os postos designados, iria ter início a tragédia que abalou Manaus. Antes, o comissário Bastos retirou-se no mesmo carro em que viera, deixando a segurança do preso apenas a cargo do agente Eliseu. O edifício do hospital fica situado na rua Joaquim Nabuco, entre a rua Lauro Cavalcanti e a avenida Sete de Setembro. Dobrando à direita, a ambulância teria tomado pela última e seguido, em linha reta, até a rua Guilherme Moreira, onde deixaria o preso no Quartel da Guarda Civil, que dá fundos e se comunica internamente com a Central de Polícia, na rua Marechal Deodoro. A distância total a percorrer seria, aproximadamente, de 800 metros.

Ao invés disso, e contrariando as instruções recebidas, Lotif virou à esquerda e desceu a rua Lauro Cavalcanti até a avenida Getúlio Vargas. Fazendo esse percurso, pouco maior em distância do que o outro, teria ele, no entanto, que dobrar mais duas vezes: a primeira à esquerda, para entrar nessa avenida; a segunda à direita, na esquina do Colégio Estadual do Amazonas, para só então tomar a Sete de Setembro. Nesta esquina, um grupo de motoristas assaltou a ambulância, que parara, e dela retirou o preso. Silvio Alves de Oliveira fechara a chave de ignição.

Se a população de Manaus, advertida pelo que vinha ocorrendo, pressentia que algo nesse gênero acabaria por suceder, para os que se achavam no percurso feito, tal pressentimento se converteu em certeza. Descendo a rua Lauro Cavalcanti em marcha lenta, a ambulância fazia funcionar a sirene e acendia e apagava os faróis, o que numa cidade às escuras assinalava a sua vinda. Ainda assim, tivesse seguido direto em frente, cruzando a avenida Sete de Setembro, teria havido a possibilidade de colocá-lo sob a proteção da Polícia Militar do Estado, cujo quartel forma, no alinhamento da avenida Getúlio Vargas, uma das faces da praça ali existente. Seria como atravessar da Biblioteca Nacional para o Conselho Municipal, no Rio. Tal não sucedeu, no entanto.

É que os seqüestradores de Delmo jogavam com cartas marcadas. Postados entre o Cinema Polytheama e o Colégio Estadual do Amazonas, Silvio os avisara, telefonando a uma das “garagens”, da partida de Delmo. Não se devia reproduzir o engano, cometido no fim da tarde, quando por ocasião de outra saída, a ambulância fora detida e revistada junto à Santa Casa, para onde levava um acidentado para internação, fato esse de que a Polícia teve conhecimento oportuno.


Parado o veículo, enquanto uns motoristas expulsavam, sob ameaça de armas e pela violência, os que se encontravam no assento dianteiro, outros forçavam a porta traseira, rebentando-lhe o fecho, para retirar a sua presa. Delmo e o agente que o acompanhava tentaram impedir que a porta se abrisse, segurando-a pelo lado de dentro. Aquele, mesmo depois da porta aberta, ainda reagiu aos pontapés, tendo atingido a dois dos seus agressores. Diz-se que pediu a Eliseu uma arma, com que se defender, mas o agente, segundo declarações de uns, não só estava desarmado, mas advertira desse fato o comissário Bastos. Outros, porém, inclusive o ex-chefe de Polícia Rocha Barros, contestam esse detalhe, afirmando ter ele se atemorizado diante dos motoristas enfurecidos.

JUSTIÇA PELAS PRÓPRIAS MÃOS

De posse de Delmo, os seus seqüestradores trataram de conduzi-lo a lugar em que pudessem executar os seus desígnios. Para isso, meteram-no em um dos automóveis de praça reunidos para a empreitada que logo partiu em grande velocidade. Outros se sucediam, a breve intervalo, lançando o alarme entre os transeuntes e na população que os viam passar em disparada pelas ruas escuras. Ao chegar ao fim da parte pavimentada da avenida João Coelho, prosseguindo em direção aos Bilhares, dobrando depois à esquerda pela estrada velha de São Raimundo. Logo no seu início há ponte de construção recente a que se segue subida pronunciada, em que os carros se detiveram devido ao mau estado do caminho. Esse lugar tem o nome de Batuque da Mãe Joana. Ali foi Delmo passado para outro automóvel que, só ele, continuou viagem. Os ocupantes dos demais desceram e prosseguiram a pé. Ao encontrar uma vereda conhecida como “Estrada dos Franceses”, também esse carro parou.

Teve início, então, a parte mais dolorosa do martírio de Delmo. Tomando pela vereda, que se embrenha por uma espécie de capoeira espessa, os seqüestradores o conduziram a ponto bem distante da estrada, onde a trilha se alarga um pouco formando clareira. Ali procuraram extorquir de Delmo a identidade dos seus cúmplices. Enquanto Manoel Rodrigues da Cruz o mantinha sob ameaça da sua pistola e o interrogava, José Cesário de Oliveira, de lápis e papel em punho, preparava-se para anotar as respostas. Esse detalhe merece ser fixado, pois é apenas o último e mais grave dos atos, não reprimidos até então, pelos quais o grupo de exaltados que encabeçou as agitações substituía-se à autoridade pública, para investigar e prender e, afinal, julgar e punir.

Tudo isso se passava a meio de sevícias que se revelaram, no exame cadavérico, em equimoses na cabeça e pelas faces e em lesões de várias naturezas por todo o corpo. Delmo foi espancado aos socos e pontapés, com cipó, fio elétrico e pau. Por fim, no auge de crescente exacerbação de instintos perversos, recebeu ele diversas facadas que o prostraram sem vida. Como se não bastasse, um que chegara atrasado, mas queria também dar a sua, abriu o peito e o ventre da vítima, com extenso golpe de pouco abaixo do pescoço até o umbigo. “Puxa Faca” era, numa adequação predestinada, o apelido desse retardatário, de nome Antônio Vicente de Araújo.

Também a autoridade policial, última edição dos Carabineiros de Offenbach, chegou atrasada. Avisado imediatamente, pelo enfermeiro “Gavião”, do que ocorrera na esquina do Colégio Estadual do Amazonas, o chefe de Polícia saiu em perseguição dos criminosos, detendo-se, primeiramente, no ponto de automóveis da avenida Eduardo Ribeiro para anotar os números de carros faltosos. Ao chegar ao fim da avenida João Coelho, ao invés de seguir em frente como eles tinham feito, dobrou à direita, pelo Boulevard Amazonas, para chegar a Flores pela Cachoeirinha. De volta à cidade, ao passar pelos Bilhares, foi que viu os carros parados no Batuque da Mãe Joana. Nessa ocasião, prendeu em flagrante um grupo de motoristas que regressava da estrada dos Franceses. O destino de Delmo, no entanto, já se consumara. Na manhã do dia seguinte, Rocha Barros deixava a Chefia de Polícia. “Estava incompatível com a opinião pública”, explicou a este repórter o governador Álvaro Maia.

DO CRIME AO MARTÍRIO

De fato, a reação da comunidade atingida por esse ato de barbaria foi imediata e profunda. À primitiva onda emocional, feita de condenação aos primeiros crimes, e em cujo centro se encontrava a compreensível indignação dos colegas de José Honório, o motorista assassinado, seguiu-se outra, ainda maior, e em sentido contrário. O enterramento de Delmo assumiu as proporções de acontecimento público e começou a formar-se, sob a impressão forte dos acontecimentos, a figura do “estudante mártir”. Não é fácil, agora que se consumou o seu destino trágico, reconstituir-lhe a personalidade. Fica-se sabendo, no entanto, que cursou estabelecimentos escolares na sua cidade natal e, ainda, no Rio de Janeiro e Teresópolis, e, mais tarde, em Fortaleza, Recife e Salvador. A simples menção desse fato já é reveladora da instabilidade em que transcorreram a sua infância e adolescência.

De compleição robusta, atlética mesmo, conhece-se o seu interesse pela Matemática e o Xadrez, bem como o gosto que revelava pela leitura de historietas em quadrinhos e de contos policiais. Durante as investigações o seu caráter impressionável se mostrou na evidente satisfação – é o testemunho dos que com ele trataram – com que se assemelhava a sua posição à do “herói” de “filme” a que assistira. Jovem do seu conhecimento, que com ele convivera, asseverou: “Delmo vivia sempre às voltas com essas histórias de crimes, imaginando coisas, contando vantagens. Mesmo que não se tivesse logo sabido quem fora o autor dos crimes, ele acabaria se traindo. Só para contar o que tinha feito”. Aos dois anos de idade, sofrera uma queda de cabeça, que o deixara surdo e sem visão durante alguns dias e paralítico cerca de um ano. Aos oito, perdia a mãe, sendo difícil estimar-se até que ponto esses dois acontecimentos concorreram para a formação da sua personalidade, tal como se apresentava no momento em que, levantando a sua lanterna de mão para chamar um carro que ia passando, deu início aos seis dias trágicos vividos por Manaus.

MADRUGADA FATÍDICA

Cerca de uma e trinta da manhã de 31 de janeiro, Delmo deixava o salão de bilhares do “Café Sombra”, situado na avenida Sete de Setembro. Fazendo parar um automóvel que passava, com sinais de sua lanterna, pois Manaus é, presentemente, uma cidade imersa na escuridão, mandou tocar para a serraria de propriedade de seu pai. Pretextou para a viagem, que a hora tornava insólita, ter notícia de que ali ocorria princípio de incêndio. Nas suas proximidades, o carro se deteve em pequeno largo com uma igrejinha. Desse largo ao portão do estabelecimento media regular distância, que se percorre em ladeira impraticável por automóveis.

Chegado ao portão, Delmo deu a conhecer-se ao vigia Antônio Firmino da Silva, velho empregado com 65 anos de idade, o qual, embora desautorizando a versão do princípio de incêndio, facultou a entrada do filho do seu patrão e empregado da firma. Ainda a pretexto de verificar a segurança do estabelecimento, percorreu ele, de ponta a ponta, o principal pavilhão da serraria, até chegar ao armário de ferramental de onde tirou uma chave inglesa de grande tamanho. Ao sair, Delmo atacou o vigia com a chave inglesa, que trazia encoberta, vibrando-lhe golpes na cabeça. Depois de arrastar o corpo para detrás de uns camburões, junto à entrada, apanhou a chave do compartimento dos vigias situado do outro lado da rua. Ali, retirou de uma gaveta o revólver 38 cano longo com que praticaria o segundo crime. Fora este o objetivo da sua ida à serraria.

De volta, Delmo encontrou o motorista dormitando no automóvel. Chamava-se José Honório Alves da Costa. Seria a sua segunda vítima naquela madrugada fatídica. O arrabalde de Flores é o limite urbano de Manaus, em situação diametralmente oposta àquela em que se encontrava no momento. Dali continua a chamada estrada de Campos Sales, já em plena zona rural. Não se sabe bem de que pretextos se serviu Delmo para persuadir José Honório a prosseguir viagem por essa estrada. O fato é que, ao raiar do dia, era o cadáver desse motorista encontrado sobre uma cerca de arame farpado.

Fazendo a reconstituição do crime, Delmo declarou que, já de volta, ao chegar o carro ao alto da Ladeira da Forquilha, pedira que parasse. Para satisfazer a necessidade, subiu a banqueta existente à margem da estrada, de onde solicitou ao motorista lhe trouxesse um pedaço de papel. Depois de recebê-lo e quando ele se afastava, de volta ao carro, desferiu-lhe pelas costas os dois primeiros tiros. Tentando entrar no veículo, José Honório caiu sobre a almofada dianteira, do lado da direção. Nessa posição, foram-lhe desfechados mais dois tiros.

Depois de se apropriar de noventa cruzeiros, que encontrou em um bolso da vítima, Delmo a arrastou até a beira da estrada e, apoiando a sua cabeça sobre uma das fieiras da cerca de arame farpado ali existente, procurou dobrá-la pelos pés com a intenção de lançá-la ao precipício. Com o movimento em arco descrito pelo corpo, no entanto, duas fieiras da cerca se trançaram e prenderam o pescoço, impedindo a queda. Delmo encetou, então, a sua longa viagem de volta. Por não saber dirigir, interrompeu-a com um acidente, que fez o carro tombar cerca de dois quilômetros depois. Desse ponto prosseguiu a pé, até o quarto em que residia no centro da cidade, tendo antes, ao chegar à Ponte dos Bilhares, jogado o revólver às águas do Igarapé da Cachoeira Grande.

CRISE DE AUTORIDADE

Com o linchamento de Delmo, todos se deram instintivamente conta, embora tardiamente, de que a vida em sociedade não é possível sem obediência às normas e restrições que devem governar a conduta individual e coletiva. Sobre a cabeça do então chefe de Polícia, Manoel da Rocha Barros, caíram as condenações mais veementes.

Considerando-o “o principal culpado do drama tenebroso”, o jornal oficioso A Gazeta comentava editorialmente: “O Sr. Rocha Barros, em todo o conjunto de circunstâncias que culminaram no linchamento de Delmo Pereira, agiu como se acumpliciado estivesse com os seus matadores, e, se não estivesse, sua ação foi de infantil imprevidência, de completo desinteresse, de irresponsabilidade, enfim. A esse dilema não é possível o Sr. Rocha Barros fugir, porquanto jamais poderá explicar satisfatoriamente como e por que, diante da fogueira de revolta, de ódio que lavrava entre os motoristas profissionais, diante da onda de selvageria que crescia e tumultuava em certos setores da classe, Delmo Pereira foi conduzido à noite, em ambulância do Serviço de Socorros de Urgência à Chefatura de Polícia acompanhado por um único agente, e este desarmado!”.

O noticiário dos outros jornais, desde os títulos, constituía-se numa única afirmação da crise de autoridade que avassalara a cidade. Estampava A Tarde:
“Canibalismo! Absoluto desprestígio da autoridade no Amazonas”.

A “manchete” de O Jornal gritava:
“Terra de ninguém: quando a crise de autoridade atinge ao auge”.

E o próprio cancioneiro popular faria a mesma nota. Em um relato em versos de todo o drama vivido pela cidade, de autoria de Isabel de Oliveira Galvão, encontra-se o seguinte:

“Faço pausa meus senhores.
Meditem sobre a verdade.
Foi uma turba de “chauffers”
Que agiu sem responsabilidade.
Mas se culpa maior houve
Foi falta de autoridade”.

PRELÚDIOS DA TRAGÉDIA

O que teria levado aquele primeiro jornal a dizer que os inimigos de Delmo “viram nas facilidades que lhes eram propiciadas como que um aceno à impunidade” quando o governador do Estado e o antigo chefe de Polícia coincidiram, em declarações feitas por ocasião desta reportagem, em que o ocorrido era imprevisível? Na denúncia que apresentou contra os responsáveis pelo trucidamento de Delmo Pereira, o promotor Domingos de Queiroz, considerado um dos mais competentes e militantes dentre os membros do Ministério Público do Amazonas, levanta uma ponta do véu:

“Criou-se, desde logo, em torno desses crimes (assalto à serraria e o assassínio do motorista José Honório) as mais diferentes versões, provocadas principalmente pela conduta de Delmo, que ora se dizia autor único deles e ora afirmava a existência de co-autores. A desorientação de que ficou possuída a Polícia Civil deu margem a que se fizesse desses crimes um mistério, permitindo, assim, a que cada um ditasse a ela normas de como conduzir as diligências e investigações que levavam a efeito. Por isso mesmo, vários “chauffers” profissionais se arrogaram ao direito de, por conta própria, realizar investigações e prisões, o que por duas vezes fizeram, sem que punição alguma sofressem”.

Efetivamente, poucos momentos depois de Delmo chegar à polícia, cerca das onze horas de 31 de janeiro, ali também dava entrada um homem, que fora atendido pelo pronto-socorro na noite anterior. Vinha com o tórax todo arranhado e coberto de mercúrio cromo e os que o traziam eram motoristas, que o tinham ido buscar em casa e o haviam “detido” como suspeito. A suspeição se baseava tão-somente no fato de que procurara socorro em conseqüência de uma briga na mesma madrugada do crime. Felizmente, pôde ele provar a tempo que a briga fora com uma mulher: daí os arranhões. Essa parte, dos motoristas nas investigações foi num crescendo, que culminou, antes da morte de Delmo, no episódio do “Mal de Vida”.

Trata-se de um lavador de carros, sobre quem recaíram suspeitas de estar envolvido no assassínio de José Honório. Originaram-se elas de um telefonema ameaçador, de alguém que se apresentava como cúmplice, dado para a casa do pai de Delmo. A senhora deste julgou reconhecer a voz de Antônio Muniz, que já trabalhara na serraria e respondia àquele apelido. Comunicou-se incontinenti com os motoristas, transmitindo-lhes a informação. O calendário marcava 4 de fevereiro, véspera do linchamento, e o simples fato de a família de Delmo se dirigir aos motoristas, no “afan”, de que participava, de encontrar os seus pretendidos cúmplices, mostra a que ponto chegara e como era ostensiva e reconhecida a participação que tinha nas investigações.

Por outro lado, evidencia o ambiente de coação que se criara e sob o qual todos se conduziam. Esse telefonema só serviu para justificar ao acerto do apelido de Antônio Muniz. De fato, viu-se ele logo em maus lençóis. Um grupo de motoristas tirou-o de casa e o levou à estrada das cercanias da cidade, tentando obter mediante sevícias esclarecimentos sobre a sua pretendida participação no crime de Delmo. Essas culminaram em atar os seus órgãos genitais à corda presa a um automóvel, depois posto em movimento.

Segundo informações obtidas, o “Mal de Vida” levou mais de dois meses para restabelecer-se dos padecimentos decorrentes das brutalidades que lhe foram infligidas. Foi na prática desses atos que o ex-chefe de Polícia surpreendeu o grupo de motoristas. Não os prendeu em flagrante, como era do seu dever: limitou-se a receber o “preso”, cuja inocência foi eventualmente comprovada, e a recolhê-lo, à Subdelegacia dos Educandos. Entre o que ocorreu ao “Mal de Vida” e o linchamento de Delmo, no dia seguinte, a diferença é, no entanto, apenas de grau, não de substância. São elos de uma mesma cadeia de eventos, que se sucedem com lógica inexorável, e um antecipa o outro como o dia à noite.

APOLOGIA PRO-DOMO SUA


Esta reportagem estaria incompleta sem o depoimento do responsável pela segurança pública, no Amazonas, por ocasião do linchamento de Delmo. O ex-chefe de Polícia Rocha Barros foi ouvido por este repórter nos jardins da tradicional Matriz de Manaus, numa agradável manhã de sábado. Preparava-se para embarcar para o Rio de Janeiro, em tratamento de saúde. Não hesitou, no entanto, em apresentar as suas razões. Invocou, inicialmente, falta de meios. Dos 192 guardas civis existentes contava para o serviço apenas com 42. Os demais estavam à disposição de outras repartições e pessoas. A Polícia Militar, por sua vez, tinha dificuldades em prestar auxílio ao policiamento da cidade, sempre invocando deficiências tais como falta de fardamento e calçamento para os soldados, que teriam de dar serviço envergando macacões. Sobre esta parte já se pronunciara, antecipadamente, o Comando daquela Força.

Em nota oficial, publicada a 6 de fevereiro e dirigida à população da cidade, foi afirmado que, “se solicitada, apesar do reduzido apoio material e moral que lhe tem sido dispensado”, estava ela em condições de proteger pessoas e propriedades. E mais adiante, de maneira categórica: “não houve solicitação da Chefia de Polícia para proteção ao criminoso Delmo Pereira, ignorando esta Corporação, o motivo”. Ocorreu, ademais que solicitação dessa natureza fora feita e atendida. Na véspera do linchamento, receoso pela segurança da repartição, o comissário Cabral dos Anjos, de serviço na Central de Polícia, requisitara e recebera o auxílio de um destacamento da Polícia Militar. Rocha Barros, ao que foi noticiado, não só o desautorizou, mas chegou a repreendê-lo pelo alarmismo da medida.

Onde, no entanto, parece o ex-chefe de Polícia tocar no ponto nevrálgico da questão foi quando afirmou, de maneira clara, que tivera a sua ação inibida, na repressão à maré montante de violências, pela pressão da classe dos motoristas, que repercutiu nas altas esferas da administração. Quando ocorrera o episódio do “Mal de Vida”, não pudera deter os responsáveis porque se encontrava apenas com mais dois elementos policiais. Era sua intenção fazê-los prender e processar mais tarde, o que não realizou porque, no mesmo dia à noite, iam eles à presença do governador, que os recebeu, para solicitar a sua demissão.

O governador Álvaro Maia, por sua vez, teve oportunidade de referir-se a essa visita. Os motoristas tinha ido ao Palácio, efetivamente, para pleitear a demissão do chefe de Polícia, pois estavam impacientes com a demora no esclarecimento do assassínio de José Honório. Ao mesmo tempo, haviam oferecido a sua colaboração, pondo os seus carros à disposição das autoridades.

Respondendo aos manifestantes, disse-lhes o governador que a manutenção do chefe de Polícia era assunto da sua alçada, em que não aceitava a interferência de terceiros. Agradecia os propósitos de colaboração formulados, aceitando-os nos limites do oferecimento feito, e os aconselhava a aguardar os resultados das investigações. O crime se dera há apenas cindo dias e mesmo as polícias melhor habilitadas, concluiu, precisavam às vezes de mais tempo para esclarecer certos episódios.

Pelas declarações do ex-chefe de Polícia, os manifestantes que compareceram ao Palácio eram substancialmente os mesmos que haviam tomado parte no seqüestro do “Mal de Vida”. Certamente, o governador não estaria em condições de fazer a aproximação entre os dois grupos, identificando-os como compostos das mesmas pessoas. Mas os episódios narrados estão inextricavelmente urdidos na trama dos acontecimentos e, na seqüência em que ocorreram, não podiam deixar de afetar a disposição dos que neles se envolveram.

Entre os seus participantes se iriam recrutar, no dia seguinte, alguns dos linchadores de Delmo. Duas horas antes que isso ocorresse, o enfermeiro “Gavião” serviu de isca – o que é uma contradição em termos – para experimentar o ambiente. Disfarçando-o com um lençol, para passar pelo Delmo, o próprio chefe de Polícia tomou lugar na ambulância, que saiu como se para levar o preso à penitenciária. As manifestações então ocorridas na porta do pronto-socorro, onde havia ajuntamento, foram hostis. Nem assim foi Delmo devidamente protegido.

O REMORSO DO ENFORCADO


Na manhã de 10 de fevereiro o guarda de ronda na Penitenciária do Estado deu alarme. O preso recolhido à cela n.º 3 do raio “A” se enforcara nos punhos da rede de dormir. Era Silvio Alves de Oliveira, o motorista do Serviço de Socorros de Urgência que avisara a saída da ambulância que conduzia Delmo e fechara a chave de ignição, paralisando-a de todo na esquina no Colégio Estadual do Amazonas. Depois de uma noite agitada, de pesadelos e visões, não resistira aos remorsos. Era a quarta vítima e a terceira morte causada pelos acontecimentos.

A BUSCA DA VERDADE

“É assegurado aos acusados plena defesa, com todos os meios e recursos essenciais a ela... A instrução criminal será contraditória” (Constituição Federal).

Em um ambiente tranqüilizado, graças em boa parte à ação do cel. Luiz Pinheiro de Araújo, o cearense sereno, aprumado e firme que assumiu a Chefia de Polícia, realizam-se as 136 audiências do sumário dos 46 indiciados, que tantos são os recolhidos à penitenciária por este crime, no trucidamento de Delmo Campelo Pereira. A sua plena defesa é assegurada pela presença, como seus advogados, dos dois professores de Direito Penal da Faculdade de Direito do Amazonas, Raimundo Nonato de Castro e Manoel José Machado Barbuda. Pelos menores, fala o curador designado, Dr. Rodolfo Lopes Marins Filho.

A sociedade é representada pelo 3.º promotor público em comissão, Dr. Domingos de Queiroz. Já se delineiam as teses da defesa e da acusação. De um lado, pretende-se que o linchamento de Delmo Pereira se revestiria da feição de ato coletivo, conseqüência de explosão da massa, nela se diluindo a responsabilidade individual de cada um dos participantes. A acusação, ao contrário, procura provar ter sido o crime o resultado de um conluio e praticado com todas as características da premeditação.

Entre essas duas teses, o juiz Ernesto Roessing, que reúne a firmeza imperturbável dos antepassados germânicos à sagacidade dos seus avós caboclos, vem desenvolvendo os maiores esforços para estabelecer os fatos tais como se passaram e a participação neles tida, individualmente, pelos indiciados. Para isso, em quatro meses e meio de trabalho estafante, levou a efeito 47 interrogatórios, 61 inquirições e 28 acareações, encerrando o sumário em meados de julho passado. A esta altura, já se pode antecipar ter a instrução criminal contraditória evidenciado a não culpabilidade de alguns dos indiciados. Serão eles soltos: os demais comparecerão à barra do Tribunal do Júri.

Os linchadores de Delmo Campelo Pereira beneficiam-se, desse modo, das garantias que a Constituição Federal assegura a todos os acusados e que eles negaram à sua vítima. Manaus voltou a ser uma comunidade civilizada. Mas a lição do custo social da violência e da ilegalidade, essa deve permanecer e ser cultivada.