sábado, outubro 20, 2012

Um gênio chamado Marius Bell


Conheço o artista plástico Marius Bell há quase 50 anos.

Ele foi meu contemporâneo no grupo escolar Getúlio Vargas, nos anos 60, estudando na mesma classe de minhas irmãs Silene e Simone.

Entre seus outros colegas de classe estavam os irmãos Ana e João Bosco Gomes (hoje poeta e engenheiro urbanista, radicado no Rio de Janeiro desde 1974, que estudou comigo na ETFA e me apresentou às obras de Torquato Neto e Chacal), os irmãos Ernestina “Neta” e Lúcio Branco (primo do Nelson, marido da Selane, e um dos poucos caras da Cachoeirinha a dar porrada no invocado Otinha, o terror de Educandos), Nancy Torres (irmã do Nilton Torres, que jogou de centroavante no imbatível “Murrinhas do Egito”), Mário Cortez (dono da Cortez, Câmbio e Turismo e atual presidente do Nacional, o único sujeito que conheço a tirar 10 em todas as matérias, do primeiro ao quinto ano primário – e tive a petulância de conferir o boletim dele, pessoalmente, no arquivo do grupo) e Nancy Souza, irmã da Paula, minha atual diarista e mulher do Ivanci Belém, campeão amazonense de jiu-jitsu e jogador-cartola do “Canto do Villas”, que tem como eterna presidente a estonteante Lorena Printes.

Quer dizer, desde garotinho o Marius Bell sempre esteve bem acompanhado.

Os hoje coronéis PM Wilson Martins, Arimatéia e Encarnação também estudavam no Getúlio Vargas, na mesma época.


Nos anos 70, Marius Bell ajudava o cartunista e futuro jornalista Mário Adolfo a produzir os invocados carros alegóricos do bloco Andanças de Ciganos e dava expediente “full time” nas principais agências de publicidade da cidade.

Nos anos 80, depois que se firmou como o mais habilidoso cartazista dos cinemas de Manaus, Marius Bell foi entrevistado pelo Mário Adolfo e rendeu uma matéria intitulada “Hoje, em cartaz, os painéis do Marius... nos melhores cinemas desta cidade”, publicada no jornal A Crítica.

Curtam a abertura da matéria:

O nome dele nunca esteve destacado com letras luminosas nos cartazes dos grandes cinemas.

Ao contrário, é ele que faz os cartazes dos grandes cinemas.

No longa metragem da vida, ele não é o artista principal (embora também seja artista).

Ao contrário, ele pinta com perfeição e promove o nome de outros artistas.

É assim que Marius Bell vive, aliás, sobrevive, pintando os cartazes dos grandes filmes.

Mas, hoje nós é que vamos tentar pintar um painel... O painel da sua vida.

Quando um grande filme chega à cidade, os admiradores da sétima arte são avisados de antemão e atraídos pelo enorme cartaz exposto na frente dos cinemas.

Multidões se acotovelam diariamente em frente do painel pintado com perfeição.

Os olhos curiosos procuram logo os nomes dos atores famosos, do produtor, do diretor.

Na pressa de entrar, o espectador nem repara um pequeno nome, sem nenhum destaque, pintado no canto do painel: Marius Bell, um pintor publicitário de primeira linha, cujos cartazes às vezes chegam a confundir quem o descobre.

Eu pensei que fosse uma fotografia ampliada...  


Depois de passar 15 anos pintando os cartazes dos diversos cinemas do radialista Joaquim Marinho, de ter produzido a gigantesca escultura de Santo Antônio de Borba, que virou cartão postal da cidade, e de ter revisitado a belle époque nos muros da penitenciária Vidal Pessoa, Marius Bell viu-se diante de um novo desafio: “decorar” o abatedouro de lebres de um velho garanhão.

Dei apenas as instruções básicas: nas duas paredes do quarto, mulheres quase peladas e, na terceira, encimando a cama, a Marilyn Monroe mostrando as coxas.

Que era pras lebres não tentarem nenhuma manobra evasiva depois que atravessassem o portal dos grandes mistérios, transformado por Marius Bell em um quase vitral de Mondrian.


Meu homeboy botou fodendo.

O maior painel foi uma homenagem às neguinhas do cartunista Lan – mas, para impressionar a galera, explico que são as minhas cinco ex e a minha atual companheira, pela ordem que entraram em cena na minha vida.


A Camila ficou meio injuriada com a parte que lhe coube neste latifúndio, apesar de ser a única que está de posse do título definitivo do lote há dois anos.


Eu vou morrer sem entender as mulheres.

A Marilyn Monroe, o Marius Bell desenhou de cabeça porque já está careca de pintar a atriz.


As duas meninas na praia foram inspiradas em Ziraldo e Chico Caruso.


Na sala, encimando o computador, que também atua como central de música do boteco-pardieiro-mocó, Marius Bell desenhou um John Lennon básico também de cabeça porque já está careca de pintar o cantor.


Na parede da sala, veio o maior desafio: reproduzir o painel “Guernica brasileira”, uma releitura da “Guernica”, de Picasso, que Ziraldo fez em 1981, para celebrar o centenário do artista catalão.

“Sou um apaixonado por Picasso. Sou capaz de desenhar o Guernica todinho de cor. Já transformei o Guernica duas vezes. Na primeira, transformei ele no inferno, que é uma charge que fez muito sucesso no mundo inteiro. Depois fiz um que é o caos urbano: é ônibus, trânsito, violência, assalto, tudo desenhado em cima da estrutura do Guernica”, explicou Ziraldo durante uma entrevista ao jornal OESP.

“Ele ficou conhecido como Guernica Verde e Rosa porque o Brasil é verde e rosa! – avisou ele. “Você vai para o interior do Brasil e o pessoal adora verde e rosa. Até as igrejinhas são verde e rosa. No Rio de Janeiro, no subúrbio, é tudo verde e rosa, a Mangueira é verde e rosa. Todos que fazem um bangalozinho, pintam a casa de verde e a varanda de rosa, ou vice-versa. Quando papai conseguiu fazer a casa dele, na hora de pintar, o arquiteto perguntou que cor ia ser: ‘Verde e rosa, naturalmente’. (risos) O Brasil é uma melancia, porque é verde e rosa.”

Marius Bell usou como base um novo desenho de Ziraldo, publicado no “Almanaque Bundas”, que tem predominância das cores azul e cinza.









O melhor de tudo é que Marius Bell trabalha com tinta a óleo, uma garantia de que as obras vão manter suas características originais por, no mínimo, dez anos – e até lá já pretendo estar morto e cremado (“ser colocado em suspensão criogênica” é para os fracos de espírito e “ser enterrado” é terminantemente proibido pelos protocolos secretos da AMOAL, inclusive com o sujeito ainda vivo...).

Como não quero ser o único a possuir essas obras-primas dentro de casa, aí vai uma dica para meus homeboys arquitetos (Achilles Fernandes, João Bosco Chamma, Sammya Cury, Roberto Moita, etc), que eventualmente dão dicas de decoração de interiores para seus clientes: o Marius Bell está aceitando encomendas para pintar o que pintar.

Nesse caso, a imaginação do cliente é o limite: qualquer coisa que possa ser reproduzida em alguma superfície, o Marius Bell dá conta.


Isso inclui desenhos de crianças, jovens e adultos, paisagens dos quatro cantos do mundo, personagens de qualquer série animada ou não, releituras de obras de arte (sacam a Marilyn Monroe naquela clássica série do Andy Warhol? A Camila vai ganhar de presente seu próprio rosto naquele padrão, pintado na parede do quarto de seu apartamento), cães de estimação, gatos, iguanas, guerrilheiros zapatistas (sim, ele também pinta animais em extinção), artistas de cinema, grupos musicais, popstars e o diabo a quatro.

Se não bastasse isso, o trabalho do Marius Bell é bem econômico: um painel tipo esse do meu Guernica (3,5 X 1,20m), feito em uma semana, sai por meros R$ 2 mil – o custo de 1 m² de um tapete persa de terceira categoria.


Além de customizar as paredes, os clientes vão valorizar o trabalho de um dos artistas plásticos mais criativos de nossa época – e contar com a minha eterna gratidão.

O Marius Bell merece.

Para entrar em contato com o artista mande um e-mail para marius.bell@bol.com.br ou para simaopessoa@gmail.com.

Ontem, rolou a festa de inauguração da obra de arte, mas isso é assunto para outro post.

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