sexta-feira, maio 25, 2012

Virada Cultural com pegada humanitária



Promovida pela Fundação Municipal de Cultura e Artes (ManausCult), a 3ª edição da Virada Cultural Manaus começa neste sábado, 27.

Este ano, o evento cultural irá arrecadar donativos para as vítimas da cheia recorde do Rio Negro. 

Ao todo, 36 artistas nacionais e dezenas de artistas locais já estão confirmados.

No total, serão 10 palcos, incluindo espaços alternativos, que vão funcionar como postos para o recebimento de doações de alimentos não perecíveis, material de higiene, roupas, colchões, fraldas, calçados e quaisquer outros itens que possam minimizar as dificuldades enfrentadas pelas famílias que foram atingidas pela enchente.

A prefeitura montará uma estrutura que funcionará exclusivamente para receber as doações durante todo o evento. 

O recolhimento e a distribuição de donativos serão coordenados pela Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (SEMASDH).

Os palcos que funcionariam na Praça da Saudade, no Centro, e no Parque dos Bilhares, na Chapada, estão cancelados por causa da cheia.

As atrações programações para esses locais foram transferidas para palcos que serão montados na Avenida das Torres, Zona Norte, e Centro Cultural dos Povos da Amazônia, na Zona Sul.

Uma programação alternativa de teatro e dança em espaços específicos é a grande novidade do evento deste ano.

Confira os locais e as principais atrações clicando aí embaixo:









Caxuxa Blues (1)



O filósofo Emerson escreveu que o homem é um Deus em ruínas porque a infância continua sendo o seu paraíso perdido e ele só pode voltar a visitá-lo por meio dos sonhos ou da memória.

Na parte que me toca, o território livre da Cachoeirinha – que agora no dia 22 maio, Dia de Santa Rita de Cássia, padroeira do bairro, completou 120 anos – tem sido meu paraíso perdido desde que me entendo por gente.

Projetado em 1892, por iniciativa do governador Eduardo Ribeiro, o bairro da Cachoeirinha surgiu no apogeu da belle époque e visava basicamente expandir o perímetro urbano da cidade.

O encarregado de idealizar o projeto do novo bairro foi o engenheiro Antônio Joaquim de Oliveira Campos, que elaborou um plano piloto em uma área de 15 mil km², cujo principal ponto de referência era um caudaloso igarapé que, na vazante, formava uma forte corredeira chamada Cachoeirinha de Manaus.

O igarapé de águas negras e transparentes ficou conhecido como igarapé da Cachoeirinha.


Entre os principais tributários do igarapé da Cachoeirinha estavam o igarapé do Primeiro Olho d’Água, mais conhecido como igarapé da Bica, cuja nascente ficava no quintal do Instituto Montessoriano, na rua Paraíba, e dali descia do bairro de São Francisco em direção à Cachoeirinha, se bifurcando no começo da rua Belém.

Um braço do igarapé seguia em frente, em direção ao igarapé do Mestre Chico, passando por baixo do atual viaduto da Paraíba, e o outro braço seguia paralelo à rua Belém, passando por detrás do grupo escolar Getúlio Vargas, até se transformar no igarapé da Cachoeirinha, nas imediações da conhecida Mercearia do Amâncio, próximo da Feira de São Francisco.

A Bica existe até hoje. Está localizada nos fundos do condomínio Central Park e foi tombada como patrimônio histórico pelo Ipham.

Já o igarapé do Segundo Olho d’Água nascia nas imediações da atual Secretaria de Produção (Sepror), depois se transformava no balneário público Furna da Onça, descia de Petrópolis e desaguava no igarapé da Cachoeirinha no início da Manaus Moderna, no local conhecido como Pontão das Lavadeiras.

O igarapé do Segundo foi aterrado. Hoje, no seu antigo leito cheio de corredeiras e cercado de buritizais, fica o campo de futebol da Ceam.


Com exceção da rua General Glicério, batizada pelo próprio governador Eduardo Ribeiro para homenagear o republicano e abolicionista Francisco Glicério, companheiro de Quintino Bocaiúva, Benjamin Constant e Ruy Barbosa na jornada de 15 de novembro de 1889, todas as demais ruas do novo bairro homenageavam os municípios amazonenses.

As ruas no sentido Norte-Sul são General Glicério, Waupés (atual Castelo Branco), Camaçari (atual Carvalho Leal), Borba, Urucará e Maués.

As ruas no sentido Leste-Oeste começavam no igarapé do Mestre Chico e terminavam no igarapé da Cachoeirinha: Antimari, Humaitá, Ajuricaba, Canutama (atual Ipixuna), Santa Isabel, Silves (atual Costa e Silva), Manicoré, Itacoatiara, Tefé, Parintins, Coari (atual J. Carlos Antony) e Codajás.

A rua General Glicério acompanhava o igarapé do Mestre Chico e separava a Cachoeirinha do bairro da Praça 14.

A rua Maués acompanhava o igarapé da Cachoeirinha e separava a Cachoeirinha dos bairros da Raiz e Petrópolis.

O igarapé da Cachoeirinha se encontrava com o igarapé do Quarenta, no final da rua Maués, para formar o caudaloso igarapé de Educandos, que separa o bairro da Cidade Alta.


Até meus sete anos de idade a fronteira norte-sul desse território mítico se estendia do cruzamento das ruas Waupés com Codajás (o marco zero ao sul era a taberna “19 de Janeiro”, do seu Antônio Pastique) até o cruzamento das ruas Waupés com Carvalho Leal, ao norte, onde ficava o grupo escolar Getúlio Vargas.

Eram apenas dois quarteirões, mas, para mim, um verdadeiro mundo bravio a ser explorado com sofreguidão e paciência.

Eu era o xerife Wyatt Earp e aquela era minha empoeirada Dodge City, no Kansas.

Como todas as ruas do bairro, a Waupés também não possuía asfaltamento e, no período das chuvas (novembro a abril), se transformava em um verdadeiro pantanal, semelhante aos Everglades, da Flórida, com sua incubadora permanente de insetos voadores.

A cada seis meses, uma equipe da prefeitura ocupava o local para capinar e retirar centenas de touceiras de capim, que nascia feito praga no meio da rua.

As touceiras eram amontoadas em lotes de quase dois metros de altura e, rapidamente, se transformavam em motivo de diversão para a molecada, principalmente nas brincadeiras de “Come On, Boy!” (“Vamos lá, moleque!”, que a gente abrasileirava para “camonebói”), com revólveres de espoleta e postura de celerados.

Aquelas touceiras de grama eram as nossas Montanhas Rochosas dos filmes de bang-bang.



A antiga taberna do seu Pastik virou o restaurante Delícias Daju

Meu pai colecionava borboletas e mariposas belíssimas, capturadas nas matas da Refinaria de Manaus, que depois eram “pregadas” dentro de quadros decorativos com tampas de vidro e expostos nas paredes de casa.

Um dia, ele me deu uma rede de caçar borboletas, que se transformou no divertimento favorito da molecada.

Além de atacarmos borboletas, jacintas e vagalumes, aquilo era uma mão na roda para enfrentarmos a revoada de milhares de tanajuras que empestavam a rua com as primeiras chuvas de abril.

As tanajuras tinham de ser capturadas vivas para os moleques extraírem seus abdomes e fazer a festejada “farofa de bunda de tanajura”.

Em vez de comer tanajuras, eu achava mais divertido trespassar-lhes o abdome com uma agulha ou alfinete para vê-la batendo as asas, desesperadamente, igual a um helicóptero.

Para inventarmos as batalhas aéreas de helicópteros-tanajuras foi conta de multiplicar.


Partindo da taberna do seu Antônio Pastique e subindo a Waupés em direção ao grupo escolar Getúlio Vargas, o lado direito do primeiro quarteirão era integralmente tomado pelo imponente conjunto residencial Juscelino Kubitschek, inaugurado em 1957, na gestão do governador Plinio Coelho.

O conjunto é formado por 10 blocos de quatro apartamentos cada um.

Sua construção foi planejada pelo engenheiro italiano Mauro Lippi, o mesmo que havia construído a bonita Igreja de Nossa Senhora de Fátima, na Praça 14.

No dia da inauguração, Plinio Coelho sorteou quatro apartamentos para os populares presentes no fuzuê.

Os 36 restantes foram comprados pelo Departamento de Estrada de Rodagem do Amazonas (DER-AM) e revendidos para seus funcionários, com prazo de financiamento de 20 anos. 

No conjunto Kubitschek moravam meus padrinhos, Nilo e Marcionília, e os filhos deles, Felipe e Emanuel, dois moleques da minha idade.

Eu conhecia poucas pessoas entre os moradores do conjunto: os irmãos Mário Lucio (aka “Lucio Branco”), Marcus e Maria Ernestina (aka “Neta”), filhos do Manoel Azevedo (aka “Leleta”), um conhecido funcionário do DER-AM.

Ao lado do apartamento deles moravam seus primos, os irmãos Nelson (atual marido da minha irmã Selane), Nazon e Lindalva, uma deslumbrante morena de quatrocentos talheres, que desconfio ter sido a garota mais bonita do bairro durante a minha infância.

Mais ou menos no meio do conjunto, moravam os irmãos Zezinho e Carlinhos Playboy, reputados como os “dons juans” do bairro.

Próximo ao apartamento deles, moravam os irmãos Mário Joca e Jorge Onça.

Do outro lado do conjunto, cujos apartamentos ficavam de frente para os fundos do Palácio Rodoviário, eu só conhecia o Kepler (seu pai era arquiteto do DER-AM) e os irmãos Fonseca e Soraya (que depois se casou com o Sici Pirangy).

Das casas localizadas do outro lado da rua Waupés, na frente do conjunto Kubitschek, eu só conhecia os irmãos Cassianinho, Demétria, Francisca, Cassilda, Cássio e Ana Cássia, filhos do empresário Cassiano Anunciação (aka “Batará”), na época dono da empresa de ônibus Ana Cássia.


A antiga taberna do Zé Bucheiro deu lugar à churrascaria Gauchão 

Ao lado da casa do Batará, ficava a taberna do Zé Bucheiro, onde as pessoas mais humildes compravam praticamente de tudo para pagar no fim do mês, anotando os pedidos em uma ensebada caderneta pertencente ao comerciante.

As balas de doce de leite vendidas na taberna eram de tirar qualquer um do sério.

Havia, ainda, outros moleques com quem eu me encontrava esporadicamente para jogar bola no meio da rua, como Zeferino, Jonathan e Evandro Ferrugem (pai do DJ Evandro Jr.), mas esses contatos eram meramente formais.

No final do conjunto Kubitschek havia um pequeno terreno baldio, que ora se transformava em campo de “pelada”, ora em parque de diversões – com direito a roda gigante e barraquinhas de tiro ao alvo.

Um dia, apareceu uma pichação em letras garrafais vermelhas na lateral do último bloco do conjunto, exatamente a que dava para o lado do terreno baldio, que se fixou em minha memória como ferro em brasa: “Viva Cuba Socialista!”.

Eu não sabia o que significava aquilo e por mais que os diligentes funcionários da prefeitura tentassem apagar a pichação, empregando camadas e camadas de tinta amarela, a frase ressurgia das cinzas, feito fênix, assombração, alma penada.

Sou capaz de jurar que até meados 1966 aquela extemporânea saudação à ilha de Fidel Castro permanecia no mesmo lugar.

Mais tarde, o terreno baldio foi transformado em um parque infantil implantado pela prefeitura, com meia dúzia de balanços, escorregadores e carrosséis.


Atualmente, no local, funciona uma loja de tintas chamada Guarany, o que mostra que a invasão de terras públicas é mais antiga do que o hábito de andar pra frente. 

Caxuxa Blues (2)



Defronte ao terreno baldio, ocupando parte da Barcelos e parte da Waupés, ficava um empório comercial, que era um mix de restaurante, mercearia e residência do português Zé Caldas, um sujeito bonachão e prestativo durante o dia, que se transforma em um autêntico lobisomem ao cair da noite.

Os uivos de dor e as imprecações noturnas do comerciante me deixavam com o coração na boca.

As más línguas diziam que ele não conseguia urinar de jeito nenhum, o que hoje é um sintoma clássico de câncer na próstata ou de blenorragia mal curada.

Pelo que me contaram, o comerciante morreu desse jeito, uivando de dor e amaldiçoando as fúrias, as parcas e outros monstros mitológicos que lhe impediam de urinar.


Nossa casa ficava ao lado da casa do seu Caldas, já na rua Waupés. Nessa foto, no local onde está esse prédio de parede azul.

A nossa primeira vizinha era a dona Zuzu, esposa do seu Alcindo Castelo Branco, ex-prefeito de Benjamin Constant, e mãe dos moleques Alcenir e Alcion.

Belíssima morena de traços indígenas e cabelos negros como as asas da graúna, dona Zuzu era uma exímia artista plástica, que pintava imensos painéis de paisagismo amazônico e elaborava belíssimos quadros de papel laminado com motivos nipônicos.

Conhecido como “Magry”, Alcenir era um guitarrista da escola uivante de Carlos Santana e Johnny Winter, tendo sido integrante das bandas Quarta Projeção, Som Imaginário e Quinta Dimensão.


No início dos anos 90, Magry (aí na foto com sua inseparável guitarra) reuniu o contrabaixista Nanau, o baterista Douglas, o tecladista Orlando Pestana, o operador de som Hugo e os vocalistas Ivamar, Natália Santos e Channa, e formou a formidável banda Shock, que fez muito sucesso tocando nos clubes da cidade.

Atualmente engenheiro aposentado da Eletronorte, Alcion gostava mesmo era de viajar de barcos, pescar e caçar.

Minha primeira viagem pelos rios amazônicos foi em sua companhia.

Alcion havia ganhado de presente de Natal uma espingarda de ar comprimido e estava louco para mostrar serviço.

Um determinado sábado, dona Zuzu resolveu nos levar para uma visita a casa de dona Genoveva, uma amiga da família, que morava na Ilha da Paciência.

Eu devia ter nove anos e o Alcion, dez.

Chegamos ao cais do porto antes do amanhecer.

Viajamos em um pequeno barco de linha cujo destino final era Iranduba.


Por volta das 9h da manhã, desembarcamos em uma várzea de quase 500 metros de extensão, excitadíssimos.

No terreiro da casa da dona Genoveva havia várias mangueiras carregadas de frutas maduras sendo detonadas implacavelmente por centenas de curicas, periquitos e maracanãs.

Enquanto dona Zuzu colocava nossa bagagem na casa da dona Genoveva, o Alcion começou a mandar bala em direção aos galhos das mangueiras, sem acertar um único tiro.

Assustadas com os estampidos da espingarda de ar comprimido, as aves voavam no maior escarcéu, mas dali a alguns minutos estavam de volta como se nada tivesse acontecido.

Para não ser desmoralizado de vez, Alcion resolveu subir em uma das mangueiras a fim de fazer uma mira melhor e escolheu uma curica que não arredava os pés de um dos galhos.

Depois de uma intensa fuzilaria, a pequena ave desabou da árvore vazada por uns seis “chumbinhos”.

Alcion pegou seu troféu de guerra e, mais alegre do que mosca em tampa de xarope, entrou na casa da velha Genoveva para contar a novidade.

Ao ver o troféu de guerra, a anfitriã quase enfartou:

– Você matou o meu Louro Tomé! Ai, meu Deus do céu, você matou o meu Louro Tomé! Ele era o papagaio mais falante da região e me acordava todo dia cantando o Hino da Marinha! Ai, meu Deus do céu, o que vai ser de minha vida agora sem o meu Louro Tomé?

Foi um constrangimento geral.

O papagaio não havia voado da árvore acompanhando as curicas, periquitos e maracanãs porque era manso feito um escravo tâmil e ainda por cima tinha as asas cortadas.


Mas como exigir que um moleque urbano soubesse diferenciar um bando de curicas selvagens de um prosaico papagaio domesticado?

A espingarda foi confiscada na mesma hora.

Nossa diversão, nos dois dias que passamos na Ilha da Paciência, era desentocar acari bodó das covas, durante o dia, e atacar os bandos de maçaricos na beira do rio, à noite, com pedradas e pauladas.

Em uma única noite, trabalhando em equipe, nós dois matamos mais de 50 maçaricos, que, depois de depenados e desossados, não deram metade de um prato de carne.

Minha veia ecológica, decididamente, ainda não havia aflorado.

Logo depois da casa da dona Zuzu, vinha a casa da dona Irene, que fazia uns bolinhos de trigo (“filhós”) e um mingau de banana de se comer ajoelhado.

No período junino, ela contratava a Tribo dos Andirás para se exibir no terreiro da sua residência.


Em primeiro plano, os primos Alcion e James Castelo Branco

Alguns anos depois, dois primos do Alcion, oriundos de Benjamin Constant, morariam no mesmo local.

A gente teve pouco contato naquele tempo de infância, mas eu voltaria a cruzar com eles depois de adulto.

O mais velho chegou a comandante da Polícia Militar do Amazonas como coronel James Castelo Branco.

O mais novo foi meu companheiro de redação nos jornais Amazonas em Tempo e Correio Amazonense.

Tratava-se do futuro jornalista José Maria (aka “Castelo”), esposo da saudosa jornalista Joaquina Marinho e depois proprietário do valoroso semanário Repórter.

Nossa vizinha seguinte era a dona Tetê, esposa do seu Zezé e mãe dos moleques José Fernandes Junior, Carlinhos, Fátima, Izabel e Socorrinha.


Apelidado de “Barrote”, porque era baixinho e marrento, Junior foi ator teatral do grupo Tesc, na época do Márcio Souza, gerente da pioneira agência de viagens Selvatur e atualmente reside em Salvador (BA).

Seu irmão Carlinhos, ainda criança, foi vítima de um grave acidente doméstico: uma panela de água fervendo caiu em cima dele, provocando queimaduras em mais de 60% do corpo.

A molecada da rua o apelidava de “vaca malhada”, motivo mais do que suficiente para Carlinhos partir pra briga.


A ruivinha Izabel (nessa foto, ao lado de Nazaré Limongi, diretora do boi Caprichoso) foi minha primeira grande paixão infantil, mas nunca me deu confiança. Somos amigos até hoje.

A Fátima casou, descasou e foi embora para Porto Velho (RO), onde vive com os filhos.

A Socorrinha casou com o Manuel Augusto, teve dois filhos, descasou e depois foi embora para o Rio de Janeiro, onde casou pela segunda vez.

A casa seguinte era da dona Gersina, esposa do seu Nozinho e mãe dos moleques Toni, Gersy e Cely.

O boa-praça Nozinho, um negro estiloso e conversador, era o responsável pelas promoções do clube Ypiranga, que iam de manhãs de sol com música ao vivo aos concorridos bailes de carnaval.

Seu escritório informal era a barbearia do Doca, localizada na Avenida Carvalho Leal, entre a sede do clube e a Loja das Geladeiras (atual Importadora City Lar).


Era lá na barbearia do Doca que todos os moleques da rua cortavam o cabelo a partir de três alternativas possíveis: “corte militar”, em que ficava um pequeno tufo de cabelo no meio do cocuruto e o resto da cabeça totalmente careca, “meia cabeleira”, em que o cabelo era pelado nas laterais, da metade da cabeça pra baixo (hoje seria chamado de “moicano”), e “cabeleira inteira”, em que o cabelo era apenas levemente rebaixado por inteiro.

Que eu me lembre, esse último corte era uma exclusividade dos homens adultos.

Ao lado da casa do Nozinho ficava a casa da dona Maria do Toti e, logo depois, a casa da dona Nely, mãe dos moleques Ademir e Suely.

Ao lado da casa deles, que era a última do lado direito da rua, ficava um terreno baldio pertencente ao David Nóvoa.

Os moleques usavam as várias árvores de grande porte existentes no local para imitar o Tarzan, saltando de uma para outra a partir dos fortes cipós e lianas que pendiam naturalmente dos vários galhos.

Ocorre que o terreno baldio também era utilizado pelos moradores como lixeira viciada e era comum encontrar afiadíssimos cacos de garrafa escondidos no meio do matagal.

Lembro que uma vez o Zé Zebra estava saltando de uma árvore para outra quando se desequilibrou e caiu no meio do mato.

Seu calcanhar foi direto num fundo de garrafa.

Quando ele conseguiu retirar o fundo de garrafa do pé, o jorro de sangue que saía alcançava quase dois metros de distância.


Zé Zebra saiu correndo direto para o Serviço de Atendimento Médico Domiciliar de Urgência (Samdu), que funcionava no térreo do Palácio Rodoviário, deixando grandes manchas de sangue por toda a extensão do trajeto.

Era muito fácil para um sioux seguir aquelas pegadas.

Caxuxa Blues (3)



Do lado esquerdo da rua Waupés, no canto com a rua Barcelos, quase em frente da nossa casa, ficava o boteco da dona Zeza e, logo ao lado, o casarão da dona Raimunda, uma negra lindíssima, educadíssima, charmosíssima, boníssima, que permaneceu pura e casta ao longo de sua existência.

Ela era filha do maranhense Horácio Solimões do Nascimento (aka “Mestre Horácio”), que veio morar no Amazonas quando o também maranhense Eduardo Ribeiro se transformou em governador do estado e começou a distribuir lotes de terra para os seus conterrâneos.

Dona Raimunda possuía um sorriso encantador e foi madrinha por afinidade de quase todos os moleques da rua.

No casarão de dona Raimunda morava uma plêiade de tipos inesquecíveis.

Dona Natilde, irmã de dona Raimunda, era o oposto da irmã: enquanto dona Raimunda vivia sorrindo, dona Natilde vivia de cara fechada, sempre dando esporro em algum moleque.

Ela fazia o tipo durona, intransigente, irritadiça, mas também tinha um coração de manteiga e era prestativa toda vida.

Dona Natilde teve quatro filhos: Isabel, que depois se casou com o futuro vereador Judicael Almeida, Inês, Sebastião e Guilherme, que depois se casou com Dona Edna (aka “Chiquita”).

Irmão das duas, o bonachão Mestre Manduka era da ala dos compositores do boi Caprichoso, da Praça 14 de Janeiro, e teve seis filhos: Horácio, que jogou profissionalmente no Rio Negro – e foi um dos motivos de eu ter me transformado em rionegrino ferrenho –, Edson (aka “Timba”, hoje coronel aposentado da PM), Silnéia, Neide (aka “Augusta”), Carlinhos (músico da noite e professor universitário) e o saudoso Paulinho, que durante alguns anos jogou de meia-armador no Murrinhas do Egito.

Mestre Manduka era o sujeito mais namorador da área e foi apropriadamente batizado pelos amigos de farra de “Consolo das Viúvas”.


Ex-amo do boi Caprichoso, Agostinho Pé de Ferro era irmão de Manduka e teve três filhas: Zulmira, Jovelina e Maria.

Após sofrer um acidente, Agostinho ficou com uma das pernas mais curta do que a outra.

Para compensar a deficiência, ele usava uma bengala e uma espécie de tamanco plataforma com solado de aço, o que lhe valeu o apelido.

Quando enchia a cabeça de truaca, Agostinho caminhava pelas ruas do bairro esculhambando o governo com sua poderosa voz de tenor enquanto agitava furiosamente a bengala no ar.

A molecada ficava com o coração na mão, mas ele era um pacifista militante e nunca fez mal a ninguém.


Mestre Horácio teve mais seis filhos: Venâncio, Conceição, Osvaldo (pai do rotundo Raimundo Pinho), Cizino, Ribamar e Horacinho (pai do famoso “João do Ipiranga”), mas com esses eu só tinha contato em dias de festa, quando a casa da dona Raimunda ficava colocando gente pelo ladrão.

Nesses dias, até o famigerado Sem Sorte, um gigantesco cachorro que desconfio ter saído do cruzamento entre um leão africano e uma hiena furiosa, adquiria bons modos e ficava pachorrentamente deitado na calçada da casa apenas observando os convivas.

Na sua rotina habitual, Sem Sorte costumava estraçalhar violentamente todo cachorro que entrasse no seu raio de ação ou se aproximasse de seu harém de não sei quantas cadelas e tinha o hábito condenável de tentar enrabar as crianças da rua.

Morreu envenenado por um morador mais ajuizado, supostamente o boa-praça Nozinho.

Logo após a casa da dona Raimunda, sob os pés de uma frondosa pitombeira, que batizou o local de “Pitombão”, ficava a casa de Guilherme e dona Chiquita.

Eles eram pais dos moleques Gutemberg (aka “Gute”), Nazaré (aka “Luluzinha”), Edemberg (aka “Edinho”), Gilberto (aka “Beto”), Guilherme Filho (aka “Miminho”), Raimunda Edna e Gilmar.

O desencanado Gilberto, que era fisicamente parecidíssimo com meu irmão Simas, morreu vítima de um estúpido acidente de trânsito quando tinha pouco mais de 20 anos.

Seu pai, o gente fina Guilherme, faleceu de ataque cardíaco em meados dos anos 90.

Dona Chiquita, eternamente linda e risonha, permanece morando no local, em companhia da belíssima Raimunda Edna, que nunca quis se casar.

Foi no “Pitombão” que nasceu o bloco de sujos “Aluga-se Moças”.


Sici Pirangy e Arlindo Jorge no bloco “Aluga-se Moças”

Ao lado da casa da dona Chiquita, ficava a casa do João Leitão (mais tarde meu colega de classe na ETFA e futuro dono dos Supermercados Leitão).

Eles eram todos muito claros – incluindo os olhos – e me pareciam vindos do Paraná.

Lembro que uma das irmãs dele era da categoria especial e vivia trancafiada nos fundos da casa, supostamente para não assustar a vizinhança.

Algumas vezes, cheguei a vê-la brincando na janela da sua residência e ela não me pareceu tão assustadora assim.

Talvez porque criança não tenha mesmo preconceito.

Ao lado da casa do João Leitão, ficava a casa de dona Libânia e seu Quili, pais de Sandra (aka “Bina”), João Cambão e Toinho.


Seu Quili era um crioulo imenso, de quase dois metros, que colecionava gibis do Fantasma.

Ele possuía dezenas de caixas abarrotadas de revistas e costumava emprestar as mesmas para a molecada da rua.

Dona Libânia era branca e franzina, bem miudinha mesmo.

Educada e prestativa, dona Libânia, apesar de usar óculos, era uma costureira de mão cheia.

A mãe do seu Quili, dona Pretinha, também morava com eles.

A Bina era uma mulata sestrosa, de cabelos lisos e olhar enigmático.

João Cambão e Toinho eram exímios jogadores de futebol.

Logo depois vinha a casa da dona Zeza, mãe dos moleques Raimundo, Marcio, Leonor (aka “Lió”), Raimunda (aka “Mundica”) e Marcileudo Barros.

Não conheci o pai deles.

Dona Zeza era uma mulher muito bonita, austera, de ar quase imperial.


Lió era a mulher mais bonita e gostosa do pedaço, e deve ter rendido muitos cultos a Onan por parte dos adolescentes da rua.

Marcileudo, hoje poeta e escritor, resolveu estudar bateria na adolescência e quase expulsou metade dos moradores da rua por conta de seus ensaios tresloucados.

Raimundo e Márcio são os principais personagens do best-seller “O Boteco”, do Marcileudo Barros, atualmente na 47ª edição, relatando alguns causos acontecidos no bar mais antigo da rua, o já citado boteco da dona Zeza.

Ao lado da casa deles ficava a casa do comerciante Abel Geleiro, que possuía uma quitanda de frutas especializada em todo tipo de bananas e também vendia o famoso “gelo cristal”, daí seu apelido.


A quitanda ficava localizada na entrada do beco de acesso à Vila Mamão, na época considerada a “red zone” do bairro.

No início, seu Abel entregava as pedras de gelo pilotando uma humilde carroça movida a pangaré.

Mais tarde, comprou uma “fubequinha” que só pegava na manivela.

Finalmente, adquiriu uma pick-up seminova e, alguns anos depois, um caminhão de pequeno porte.

Sua evolução patrimonial se transformou em dito espirituoso nas rodas de dominó do bairro.

Quando um sujeito tirava quatro carroças e se queixava, um adversário dizia logo:

– O Abel Geleiro começou com uma carroça e ficou rico. Imagina você, que já começou com quatro...

O filho mais velho de seu Abel, Eduardo, se transformou em um dos melhores artesãos de vidro soprado da cidade, tendo oficina e loja de venda na Central de Artesanato Branco e Silva.

Seus trabalhos de moldagem, gravura e escultura em vários tipos de vidro são realmente primorosos.

Na juventude, Eduardo era o melhor fabricante de papagaios da área e o imbatível lutador de telecatch Verdugo, cujas lutas coreografadas com outro homeboy da área, Zé Maria, mais conhecido como o lutador Atlas, atraíam gente dos quatro cantos da cidade.

O musculoso Zé Maria, um dos filhos da dona Neca, morava na rua Barcelos, onde hoje funciona o barzinho de seu irmão Paulo.


Depois da casa do Abel Geleiro ficava a casa do Zé Zebra, cujas feições lembravam a de um guerreiro mongol  –  talvez Genghis Khan.

Ele era um passarinheiro de mão cheia e possuía dezenas de gaiolas com curiós, golas, bicos-de-lacre e canários-do-reino, que costumava pegar nas matas do Japiim.

Temperamental ao extremo, era difícil o Zé Zebra terminar uma partida de futebol na rua sem se engalfinhar com algum adversário.

Sempre que possível, eu fazia questão de jogar no time dele. Seguro morreu de velho.

Algumas casas depois da do Zé Zebra, ficava a casa do Álvaro, um excelente jogador de futebol (foi titular do famoso “Rosa Com Amor”), que teve um final trágico.


Rosa com Amor: Álvaro é o segundo agachado, da esquerda pra direita

Tenente do Exército e recém-casado, Álvaro estava participando de uma aula de instrução para uma turma de recrutas, em Porto Velho (RO), quando uma granada foi lançada, mas não explodiu.

Os recrutas tentaram se aproximar da granada para saber o que estava acontecendo, quando Álvaro percebeu que o artefato estava prestes a explodir.

Para proteger os recrutas, ele se lançou sobre a granada, recebendo toda a carga explosiva no próprio peito.

Morreu dilacerado na mesma hora.

Uma morte heroica, que abalou a população do bairro.

O meu cunhado Nelson era um de seus melhores amigos e ficou tão traumatizado que passou três meses sem sair de casa.

Depois da casa do Álvaro vinha a Vila Veiga, onde moravam Pedrinho, Paulinho, Antônio (aka “Tonho”), Luiz Cláudio (aka “Peba”), Antonio Carlos (aka “Papagaio”), Albano, Maninha e Amazonas Albuquerque, todos filhos do coronel PM Pimenta.

O engenheiro Pedro Albuquerque foi diretor do Porto de Manaus durante vários anos.


Paulinho foi prefeito de Nhamundá por três vezes e deve ser bafejado pela sorte, porque é o único amigo que tenho que escapou duas vezes de acidentes aéreos em que os bimotores se espatifaram no chão.


Tonho, que agora se chama Tony, é vereador em Parintins e ex-presidente da Câmara Municipal daquele município.

Peba, que tem a minha idade, virou despachante.

Maninha, como o próprio nome diz, continua sendo a solidariedade em pessoa.

A gente fina Amazonas se aposentou como delegada da Polícia Civil em Manaus.

Vítima de AVC quando ainda era criança, Antonio Carlos era deficiente físico, tinha uma das mãos permanentemente retorcida nas proximidades do peito e andava quase saltitando com uma perna de cada vez, o que lhe valeu o apelido de “Papagaio”.

Albano, com quem eu costumava bater longos papos no Bar do Caxuxa, era piloto de aeronaves de pequeno porte e um abatedor de lebres de mão cheia.

Ganhava qualquer mulher na conversa.

No final dos anos 80, ele sofreu um acidente fatal quando se dirigia a um garimpo na região de Altamira (PA) pilotando um monomotor.

Morreu jovem, com menos de 30 anos.

Era um exímio contador de causos dos beiradões e até hoje sinto falta dos relatos que ele me fazia sobre suas incríveis aventuras.

quinta-feira, maio 24, 2012

Enfim, a ressurreição do Stone Roses



Lúcio Ribeiro, do site Popload

A Inglaterra amanheceu pegando fogo nesta quarta-feira, 23, com um anúncio surpresa do Stone Roses em seu site oficial.

A lendária banda de Manchester, uma das principais culpadas pelo Oasis existir (por exemplo), informou que faria seu primeiro show em mais de 15 anos naquela noite, na pequena cidade de Warrington. E de graça!

Apenas 1.100 sortudos seriam contemplados. Daí que milhares de pessoas seguiram para o Parr Hall, local do show, onde seriam distribuídas apenas uma pulseira por pessoa, à partir das 16h, menos de seis horas antes do início do show.

Os fãs deveriam aparecer por lá vestindo camisas da banda ou com algum álbum em mãos.

A fila foi mais ou menos essa:


Por volta das 21h30 de lá, Ian Brown, John Squire, Mani e Reni subiram ao palco juntos pela primeira vez em quase 17 anos.

O grupo ícone do movimento Madchester – e um dos precursores do que viria a ser o importante Britpop anos mais tarde – tocou durante uma hora, sem intervalos.

Foram onze canções no total (sete do primeiro álbum, duas do segundo e duas b-sides), acompanhadas atentamente por diversos jornalistas e também por Liam Gallagher, um dos fãs mais ilustres da banda.

O show surpresa funcionou como um ensaio para a extensa turnê pela Europa e Ásia que o grupo inicia no próximo dia 8 de junho, em Barcelona.

No pacote estão as esperadas apresentações no Heaton Park de Manchester (três shows, 220 mil ingressos vendidos em um dia) e aparições em festivais importantes como o T in The Park, Benicàssim e V Festival britânico.

A apresentação histórica terminou com a banda se abraçando, como mostra a foto da revista Q.

Abaixo, o setlist do retorno do Stone Roses.



Old Fashioned



Mr. Cohen, na época em que era chamado de Capitão Mandrax

Ronaldo Bressane, do site Impostor

Leonard Cohen concede uma entrevista no Mayfair Hotel de Nova York quando, de repente, no meio de uma frase, levanta-se, abre o cinto, desce o zíper, abaixa as calças, dobra-as cuidadosamente e acomoda-as no espaldar de uma cadeira. “O dia estava pegajoso e ele não queria amassar o vinco da calça”, conta Mikal Gilmore, um dos principais críticos de música norteamericanos. Mesmo de cueca, Cohen continua de jaquetão escuro, camisa branca engomada, gravata sóbria, meias e sapatos, desenvolvendo uma teoria séria e serena sobre o fim do mundo. Pouco antes, havia ligado para a recepção pedindo bebidas geladas e instalado Gilmore na poltrona mais confortável do quarto.

A cena é uma síntese do temperamento do poeta, compositor e romancista canadense: equilíbrio sutil entre elegância, gentileza, nonsense  com uma melancolia inescrutável. “Há algo em Cohen que o diferencia de todos os outros artistas, escritores, filósofos e celebridades que encontrei”, diz Gilmore em Ponto Final, sua clássica compilação de perfis de personalidades dos anos 60. “O homem é um verdadeiro cavalheiro, cortês e atencioso, e é evidente que esses atributos lhe são naturais. Ele não se comporta assim só para passar boa impressão: essas qualidades lhe são inerentes e explicam como se conduz no mundo.”

Quando saiu de um monastério budista, em 2001, após seis anos de silêncio, Cohen descobriu que a antiga empresária havia deixado um rombo de milhões em sua conta. A solução foi voltar à ativa com os álbuns Ten New Songs e Dear Heather além de uma turnê de quase 300 shows  que rendeu o belo Live in London  só interrompida ano passado por exaustão. 

Apesar de zen, o velhote não pára de aparecer na mídia. Este ano é publicado no país o romance A Brincadeira Favorita (além deste, The Beautiful Losers, ainda sem título em português, também é prometido pela editora Cosac Naify), no fim de 2012 será lançada a biografia escrita por Sylvie Simmons (autora da bio de Serge Gainsbourg) e o novo álbum Old Ideas acaba de chegar.


Seu primeiro álbum de estúdio em oito anos flana por folk e blues e flerta com o jazz. “I’d like to speak with Leonard/ He’s a sportsman and a shepherd/ He’s a lazy bastard living in a suit.” (Gostaria de falar com Leonard/ Ele é um esportista e um pastor/ Ele é um bastardo preguiçoso vivendo em um terno), se detona em “Going Home”, que abre o disco. Alternando ironia com desilusão, ele diz em “Darkness“: “I got no future / I know my days are few” (“Não tenho futuro/ Eu sei que meus dias são poucos”).

Já seu romance de estreia, lançado em 1963, A brincadeira favorita, segue a trajetória de Lawrence Breavman, da adolescência em Montreal às estripolias sexo-literárias na Nova York dos anos 50. Narrado em terceira pessoa, é uma autobiografia disfarçada de Cohen, editada em capítulos curtos, elípticos, com um humor muito fino a aquela indefinível melancolia que tão bem conhecemos de suas canções. Lawrence perde o pai, descobre o poder dos símbolos e da irona, enfrenta a doença mental da mãe, publica um livro de poesia, enrola-se com Tamara, Shell, Lisa, Wanda… até que um episódio trágico em uma colônia de férias o leva bruscamente a mudar de vida.

Egresso de uma família judia de classe média em Montreal, o jovem Cohen aproveitou a bolsa ganha com a publicação do primeiro livro, Let Us Compare Mythologies, de 1956, e comprou uma casa de três andares  onde morava sob o implacável sol grego num jardim coberto de margaridas, lendo García Lorca, ouvindo vinis de Elvis Presley, Ray Charles e Nina Simone até derreterem, e escrevendo. 

Ali conheceu a norueguesa Marianne Ihlen, a graciosa loura da contracapa de Songs From a Room. Saiu com os livros debaixo do braço e foi bater em Nova York, onde, surpreso, descobriu que novos ídolos como Bob Dylan e Lou Reed eram seus fãs. “Eu tinha sido uma pequena influência naquele movimento antes mesmo de começar com a música”, lembra.


Só em 1967 o escritor passou a ser conhecido como compositor, quando a cantora Judy Collins gravou “Suzanne”  a moça que “leva você para sua casa perto do rio; você sabe que ela é meio doida, e é por isso que você quer estar lá”. A canção virou hit e o produtor John Hammond (de Dylan e Billie Holiday) convidou Cohen a gravar seu primeiro álbum, Songs, de 1968. Seu estilo estava definido: composições elegantes acompanhadas por um simples violão entre folk celta, country e blues, a voz grave e amistosa, melo dias de tristeza oceânica e letras que combinam metáforas surrealistas à iconografia judaico-cristã.

E, acima de tudo, os galantes retratos de musas como Marianne, “Suzanne”, “Winter Lady” (“Sou só uma estação em seu caminho/ eu sei que não serei seu amor”) ou arrebatadoras canções românticas como “Hey, that’s no way to say goodbye” que fizeram a fama de Cohen como Ladie’s Man  o perfeito cavalheiro que, agregando sensualismo e lirismo em doses iguais, tem a postura de quem sabe das coisas mas, modesto de verdade, prefere exaltar seu desconhecimento e angústia frente ao amor.

Esses sentimentos foram os companheiros com quem aprofundou amizade durante os anos 70 e 80, quando lançou álbuns esparsos e, mergulhado em crises com Suzanne Elrod, casos variados, ópio, uísque, cigarros e barbitúricos, chegou a ganhar a alcunha “Capitão Mandrax” (um poderoso sedativo). Suzanne se mudou para a França com os filhos, Adam e Lorca, o que piorou o mergulho de Cohen no hedonismo e na depressão. 


Somente escapou do “demônio do meio-dia” ao conhecer Roshi, mestre zen-budista que determinou sua decisão, às vésperas de completar 60 anos, de virar um monge. No monastério em Mount Baldy, Los Angeles, trabalhando como humilde motorista e cozinheiro, Cohen foi rebatizado Jikan, “o silencioso”. Seis anos depois, curado, sentiu necessidade de soltar o barítono quando percebeu ter um bom punhado de poemas e canções  bem como já contamos, notar que a ruína financeira o deixara com pouco mais que as calças.

No vestir, ao contrário de muitos ícones pop dos anos 60 (Cohen é mais velho do que Elvis!), o compositor teve poucas e boas variações. Já nos tempos de poeta prodígio em Montreal, usava ternos alinhados entre o negro e o grafite, preferindo camisas cinzentas e gravatas monocromáticas  em linha com sua profundidade e melancolia. 

O crooner atravessou os coloridos 60, os espalhafatosos 70, os yuppies 80 e os grunge 90 usando inalteravelmente os mesmíssimos chapéus, boinas, coletes e blazers bem-cortados  um look agora transformado em linha de roupas pela hypada grife dinamarquesa Soulland. Muito apropriado a quem, em 1966, perguntava em um poema: “Não devíamos estudar etiqueta antes de praticar magia?”.

quarta-feira, maio 23, 2012

Memórias de uma guerra suja



O livro Memórias de uma guerra suja, depoimento do ex-delegado do DOPS, Claudio Guerra, a Marcelo Netto e Rogério Medeiros, foi recebido inicialmente com certa incredulidade até por setores progressistas. Há revelações ali que causam uma rejeição visceral de auto-defesa. Repugna imaginar que em troca de créditos e facilidades junto à ditadura, uma usina de açúcar do Rio de Janeiro tenha cedido seu forno para incinerar cadáveres de presos políticos mortos nas mãos do aparato repressivo.

O acordo que teria sido feito no final de 1973, se comprovado, pode se tornar o símbolo mais abjeto de uma faceta sempre omitida nas investigações sobre a ditadura: a colaboração funcional, direta, não apenas cumplicidade ideológica e política, mas operacional, entre corporações privadas, empresários e a repressão política. Um caso conhecido é o da Folha da Tarde, jornal da família Frias, que cedeu viaturas ao aparato repressivo para camuflar operações policiais.

Todavia, o depoimento de Guerra mostra que nem o caso da usina dantesca, nem o repasse de viaturas da Folha foram exceção. Esse é o aspecto do relato que mais impressionou ao escritor e jornalista Bernardo Kucinski, que acaba de ler o livro. Sua irmã, Ana Rosa Kucinski, e o cunhado, Wilson Silva, foram sequestrados em 1974 e desde então integram a lista dos desaparecidos políticos brasileiros.

Bernardo atesta: “Está tudo lá: empresas importantes como a Gasbras, a White Martins, a Itapemirim, o grupo Folha e o banco Sudameris, que era o banco da repressão; o dinheiro dos empresários jorrava para custear as operações clandestinas e premiar os bandidos com bonificações generosas.”

No livro, Claudio Guerra afirma que Ana Rosa e Wilson Campos — a exemplo do que teria ocorrido com mais outros oito ou nove presos políticos — tiveram seus corpos incinerados no imenso forno da Usina Cambahyba, localizada no município fluminense de Campos.

A incredulidade inicial começa a cair por terra. Familiares de desaparecidos políticos tem feito algumas checagens de dados e descrições contidas no livro. Batem com informações e pistas anteriores. Consta ainda que o próprio governo teve acesso antecipado aos relatos e teria conferido algumas versões, confirmando-as. Tampouco o livro seria propriamente uma novidade para militantes dos direitos humanos que trabalham junto ao governo. O depoimento de Guerra, de acordo com alguns desses militantes, teria sido negociado há mais de dois anos, com a participação direta de ativistas no Espírito Santo.

A escolha dos jornalistas que assinam o trabalho – um progressista e Marcelo Netto, ex-Globo simpático ao golpe de 64 – teria sido deliberada para afastar suspeitas de manipulação. Um pedido de proteção para Claudio Guerra já teria sido encaminhado ao governo. Sem dúvida, o teor de suas revelações, e a lista de envolvimentos importantes, recomenda que o ex-delegado seja ouvido o mais rapidamente possível pela Comissão da Verdade.



Bernardo Kucinski, autor de um romance, ‘K’, – na segunda edição – que narra a angustiante procura de um pai pela filha engolida no sumidouro do aparato de repressão, respondeu a quatro perguntas de Carta Maior sobre as “Memórias de uma Guerra Suja”:

Depois de ler a obra na íntegra, qual é a sua avaliação sobre a veracidade dos relatos?

As confissões são congruentes e não contradizem informações isoladas que já possuíamos. Considero o relato basicamente veraz, embora claramente incompleto e talvez prejudicado pelos mecanismos da rememoração, já que se trata da confissão de uma pessoa diretamente envolvida nas atrocidades que relata.

Por que um depoimento com tal gravidade continua a receber uma cobertura tão rala da mídia? Por exemplo, não mereceu capa em nenhuma revista semanal ‘investigativa’.

Pelo mesmo motivo de não termos até hoje um Museu da Escravatura, não termos um memorial nacional aos mortos e desaparecidos da ditadura militar, e ainda ensinarmos nas escolas que os bandeirantes foram heróis; uma questão de hegemonia de uma elite de formação escravocrata.

Do conjunto dos relatos contidos no livro, quais lhe chamaram mais a atenção?

O episódio específico que mais me chamou a atenção foi a participação direta do mesmo grupo de extermínio no golpe organizado pela CIA para derrubar o governo do MPLA em Angola, com viagem secreta em avião da FAB.

O que mais ele revela de novo sobre a natureza da estrutura repressiva montada no país, depois de 64?

Fica claro que as Forças Armadas montaram grupos de captura e extermínio reunindo matadores de aluguel, chefes de esquadrões da morte, banqueiros do jogo do bicho, contrabandistas e narcotraficantes. Chamaram esses bandidos e seus métodos para dentro de si. Esses criminosos, muitos já condenados pela justiça, dirigidos e controlados por oficiais das Forças Armadas, a partir de uma estratégia traçada em nível de Estado Maior, executavam operações de liquidação e desaparecimento dos presos políticos, o que talvez explique o barbarismo das ações. Também me chamou a atenção a participação ampla de empresários no financiamento dessa repressão, empresas importantes como a Gasbras, a White Martins, a Itapemirim, o grupo Folha – que emprestou suas peruas de entrega para seqüestro de ativistas políticos –, e o banco Sudameris, que era o banco da repressão; dinheiro dos empresários jorrava para custear as operações clandestinas e premiar os bandidos com bonificações generosas. Está tudo lá no livro.

Torturador relata crimes contra militantes de esquerda na ditadura


O ex-delegado do DOPS (Departamento de Ordem Político Social) do Espírito Santo, Cláudio Antônio Guerra, revela no livro “Memórias de uma Guerra Suja” que se disfarçou de padre para tentar assassinar Leonel Brizola, fundador do PDT e um dos líderes da resistência contra a ditadura militar. O disfarce era uma estratégia para responsabilizar a Igreja Católica pelo atentado.

Guerra levava também uma pasta com um revólver calibre 45. A arma era a preferida dos cubanos. A intenção também era ligar o governo de Fidel Castro ao assassinato. “Eu me lembro do boato de que Fidel Castro estava aborrecido por Brizola ter ficado com o dinheiro enviado por Cuba para financiar a guerrilha do Caparaó (o primeiro movimento de luta armada contra a ditadura militar). Os militares estimulavam esses boatos nos quartéis e entre nós”, revela Guerra. “Com o retorno de Brizola, os comentários sobre o dinheiro de Fidel apareciam aqui e ali”.

Segundo Guerra, a operação foi comandada pelo coronel de Exército Freddie Perdigão (Serviço Nacional de Informações – SNI) e pelo comandante Antônio Vieira (Centro de Informações da Marinha – Cenimar). “Os militares também andavam muito aborrecidos com a Igreja Católica, que estava se alinhando à esquerda, pela abertura política”, afirma Guerra. Perdigão e Vieira também estavam à frente do atentado ao RioCentro.

Em um dos relatos, Guerra afirma ter participado da incineração de corpos de dez presos políticos, entre eles, Ana Rosa Kucinski, Wilson Silva, David Capistrano e João Massena Mello. Após violenta tortura – havia marcas de violência sexual e partes do corpo arrancadas –, os cadáveres foram queimados na usina de açúcar Cambahyba. A propriedade era do ex-vice-governador do Rio de Janeiro Heli Ribeiro.

Outros episódios narrados são o acidente de Zuzu Angel, ataques a bombas em redações de jornais e a morte de Sérgio Paranhos Fleury, ex-delegado do Dops paulista, que teria o envolvimento dos coronéis Juarez de Deus Gomes da Silva e Carlos Alberto Brilhante Ustra.

O livro “Memórias de uma guerra suja” é da Editora Topbooks e já está disponível em livrarias de todo o país.

domingo, maio 20, 2012

Domingo espetacular é aqui no mocó!



Hoje foi dia de se esbaldar na casa da Selane, aqui ao lado do mocó.

O Mário Dantas descolou alguns quilos de caça certificada (capivara, viado, caititu e picota), o Nelsão encarnou o espírito do badalado chef espanhol Ferrán Adrià e o resultado foi o esperado: quase que nós morremos de tanto comer!

Nós, aí, quer dizer Mário e Michael Dantas (responsável pelos clicks), Mestre Pinheiro, Nelsão, eu e Simas. 


O resto da tarde foi consumido em conversas impublicáveis, cervejas Antarctica, vodka Absolut, uísque Red Label, cigarros Charm e Marlboro, e trilha sonora do Larry Levan em um de seus inesquecíveis sets no Paradise Garage. A vida é bela!

Mas não era sobre questões gastronômicas que eu queria falar. Era sobre outro tipo de fome: a fome de leitura, que ainda grassa no Bananão.


Leitor compulsivo, o governador Omar Aziz acaba de marcar um gol de letra em favor da inclusão literária de nossos conterrâneos.

O programa “Mania de Ler”, lançado recentemente pela Secretaria Estadual de Cultura (SEC), tem como objetivo despertar o hábito da leitura, promover a educação e facilitar o acesso ao conhecimento, tornando os livros presença constante e de fácil acesso seja pela rede mundial de computadores, seja em um barco de linha ou em uma praça pública, consolidando uma saudável mania: a mania de ler.

O programa está subdividido em diversas linhas de atuação. Vou citar de cabeça apenas algumas delas.

Em parceria com as prefeituras, o programa vai promover a instalação do “Canto da Leitura” em todos os municípios amazonenses, disponibilizando equipamentos e acervos para a instalação e aplicação do projeto, objetivando o fortalecimento e a democratização do acesso ao livro e da leitura à população do interior do Estado.


Além disso, o programa vai implantar bibliotecas em conjuntos habitacionais e nos Centros de Convivência construídos pelo governo, com a função de atender crianças e estudantes, disponibilizando livros didáticos e paradidáticos para pesquisas, livros para leitura com empréstimo domiciliar para obras literárias e gibis, acesso a internet, promovendo entretenimento e a melhoria do desenvolvimento escolar.

Serão implantadas três Bancas Bibliotecas equipadas com estantes, computadores, programas de gerenciamento e acervo atualizado, distribuídas nas seis zonas urbanas de Manaus.

Cada banca contará com o “Mensageiro Literário”, que promoverá a divulgação e entrega do acervo disponibilizado, de casa em casa, no bairro em que será instalada a banca.

O “Leia Viajando” vai proporcionar à população que utiliza os meios de transporte rodoviário, fluvial e aéreo, a ocupação do tempo livre de viagem com a leitura, por meio do empréstimo de livros.


Serão instaladas pela cidade, em locais públicos e privados, diversas caixas estantes de livros denominadas “Estação da Leitura”, para facilitar o acesso ao livro e incentivar o hábito da leitura.

A “Rede de Livros” visa atender os municípios e comunidades rurais, disponibilizando livros em caixas estantes, permitindo rodízio entre elas e depois com o sistema central de bibliotecas.

O “Banco do Livro” vai promover empréstimo, permutas e doações de livros.

O “Livro na Praça” vai implantar estantes de livros em praças e parques públicos para leitura local ou empréstimos.

A “Bienal do Livro”, que rolou no final de abril, tem como objetivo popularizar o livro, movimentando o mercado literário, oferecendo encontro com autores, promovendo o intercâmbio cultural e aproximando a população dos escritores locais.

O “Encontro com o Escritor”, como o próprio nome deixa bem claro, busca aproximar os autores amazonenses de seu público-alvo.


No último dia 27 de abril, sexta-feira, a convite do Totonho Ausier, do Departamento de Leitura da SEC, eu participei do projeto “Encontro com o Escritor”, fazendo uma palestra sobre meu livro “Rock: a música que toca”, na Escola Estadual Ana Neyre Marques da Silva, localizada à Avenida Marginal Esquerda Q/2, Conjunto Galileia II, Cidade Nova.

Cerca de 150 estudantes participaram do fuzuê, que teve a coordenação do gente fina Francisco Neto, também da SEC e roqueiro de carteirinha.

O Francisco Neto é sobrinho do saudoso e inesquecível economista Teodoro Botinelly, com quem fundei o PDT no Amazonas, nos anos 80, e me tornei o primeiro presidente do diretório municipal do partido.

Além da palestra e da mini sessão de autógrafos, ainda tive a cara de pau de colocar pra tocar algumas músicas clássicas do rock nacional (“Nós vamos invadir a sua praia”, do Ultraje a Rigor, por exemplo) e contextualizar a situação política do país na época em que a música foi lançada.

A molecada adorou.


“Eu escutava essa música, mas não entendia direito sobre o que eles estavam falando”, me confessou a estudante Ana Beatriz, 16 anos. “Agora eu já sei do que se trata.”

Ana Beatriz, a exemplo dos estudantes que estavam assistindo a palestra, sequer era nascida quando o rock nacional começou a colocar as unhas pro lado de fora.

Estou convencido de que dividir informações é a única forma de não criarmos uma legião de alienados e de incutir na juventude aquele saudável hábito de protestar contra as coisas erradas.

O “Encontro com Escritor” me parece ser uma bonita trilha aberta nessa direção e espero, sinceramente, que ele não sofra processo de descontinuidade.


“Não esqueçam que o que está em jogo aqui nesta escola é o futuro de vocês!”, provoquei. “Se um professor só estiver embromando, denunciem. Se a escola não fornece merenda digna, denunciem. Se não encontrarem livros paradidáticos na biblioteca, denunciem. Vocês são os agentes da mudança em direção a uma sociedade mais justa e solidária. Não desperdicem essa oportunidade!”

Os moleques me aplaudiram tanto que me senti uma estrela do rock.


Uma semana depois, sábado, 4 de maio, participei como mediador dos palestrantes Daniel Munduruku e Eliane Potiguara, no encontro “Minha Tribo, Minhas Histórias”, dentro do “Tacacá Literário”, que também rolou na 1ª edição da Bienal do Livro Amazonas, dessa vez no Studio 5.

Na plateia, a fina flor da intelectualidade baré como a jornalista (progressista, é bom frisar!) Ivânia Vieira, a jornalista e poeta Ana Célia Ossame, o antropólogo Luiz Reyes, o professor universitário Francisco Alberto Conde, o escritor Paulinho Gadelha, o artista plástico Jurandir Ferreira, o teatrólogo Maurício Vilhena e o meu mano e poeta Simas Pessoa, entre outros.


Eliane é escritora indígena, professora, mãe, avó, remanescente potiguara e viúva do cantor Taiguara.

Além disso, é Conselheira do Instituto Indígena de Propriedade Intelectual (Inbrapi) e Coordenadora da Rede de Escritores Indígenas na Internet e do Grumin/Rede de Comunicação Indígena.

Emocionadíssima, Eliane contou parte de sua trajetória pessoal e familiar, que está documentada no livro “Metade Máscara, Metade Cara”.

Nos transformamos em amigos de infância.


A nova geração talvez não conheça o cantor Taiguara, autor de canções clássicas como “Hoje”, “Viagem”, “Universo no Teu Corpo” e “Que as Crianças Cantem Livres”.

Foi por influência da esposa Eliane Potiguara que, em 1976, Taiguara gravou o elepê “Imyra, Tayra, Ipy”, recolhido das lojas 72 horas depois de lançado, por força e estreiteza mental do governo militar.

O disco permanecia como uma relíquia nunca ouvida no formato CD até ser relançado no Japão, há alguns anos, e hoje pode ser baixado de graça pela internet.

Taiguara e Eliane tiveram três filhas: Imyra, Tajira e Moína.

O cantor faleceu em 1996, aos 51 anos, vítima de câncer na bexiga.


Considerado um dos principais autores indígenas do país, com mais de 40 livros publicados, Daniel Munduruku nasceu em Belém (PA), se formou em Filosofia, em Manaus, e atualmente vive em Lorena, no interior de São Paulo.

É doutor em Educação pela USP e Comendador da Ordem do Mérito Cultural da Presidência da República desde 2008. 

Seu mais recente trabalho, “Antologia de Histórias Indígenas”, reuniu diferentes narrativas de povos indígenas do Norte (sete), Centro-Oeste (seis), Nordeste (duas), Sudeste (quatro) e Sul (três).

Quatro escritores indígenas do Amazonas estavam na plateia, entre eles o poeta Carlos Tiago, que conheci na casa do também poeta Thiago de Mello, lá se vão 12 anos.

A convite de Daniel Munduruku, Carlos Tiago recitou um poema de sua autoria eletrizando a plateia.

Posso estar enganado, mas desconfio que foi um dos melhores bate-papos de que já participei nessa minha não tão curta existência.

A conversa estava tão boa que estouramos o tempo pré-determinado (75 minutos) em quase meia hora.


Agora mudando de pau pra cacete: o meu, o seu, o nosso CANDIRU, considerado pelo New York Times o jornal de maior penetração da Amazônia, também está com uma conta no Twitter.

Siga o hashtag @candiru2012 e fique por dentro das entranhas do Poder.

Afinal de contas, como dizia nosso guia espiritual Millôr Fernandes, “jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”.