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quarta-feira, junho 10, 2015

Na santa paz do Senhor


Jornalistas do Pasquim: A partir da esquerda Ivan Lessa (sentado), Millôr Fernandes (de branco), Caulos (na janela) e Jaguar (em pé)

Millôr Fernandes

Estou lembrando: faz muitos anos, íamos, eu e o jornalista Jaguar, andando pela Praia Grande, em Arraial do Cabo, tendo pela frente dezenas (oitenta?) de quilômetro de areia branca, quase pó-de-arroz. Era meio-dia de um dia de semana. As ondas dessa praia são sempre curtas, rápidas, verdes e transparentes.

Pode-se caminhar dentro d’água centenas de metros e mergulhar tranquilamente na água fria, sem perder o pé. O fundo do mar, coisa rara em praias rasas, é também de areia limpa e sólida, nenhum lodo. Além da areia, na praia, há uma vegetação ondulando permanentemente.

No recanto em que  morávamos – Jaguar tinha alugado uma casa de pescador, o que, nele, nada tinha de folclore – havia uma elevação, uma pequena montanha. Lá de cima caía uma pequena cascata de águas da Álcalis, e a própria poluição da Álcalis era belíssima, jogando pro ar uma nuvem de brancura diáfana.

Junto com a paisagem constante, a paisagem mutante. Pescadores em suas tarefas normais, redes espalhadas, abertas na praia, uma ou outra sendo remendada vagarosamente, pássaros às centenas, sem medo, voejando rente ao chão, um ou outro burro carregando pequenas mercadorias. Estávamos em pleno paraíso.

Fomos saindo da praia, eu e Jaguar, passamos por um pequeno grupo de pescadores que, numa sombra, junto de algumas canoas, olhavam o horizonte, trocando algumas palavras preguiçosas, na indolência do começo da tarde. Jaguar disse: “Isso é que é gente pura!” E eu disse: “Tá bem, Jaguar! Um tá querendo comer a mulher do outro e outro tá querendo ficar com a canoa do um. Aquele vesguinho até bateu a carteira do crioulão. O microcosmo é igualzinho ao macrocosmo, ô cara!”

Uma semana depois Jaguar entrou na redação do Pasquim, onde trabalhávamos então, e me disse: “Pô, que coisa, seu! Você tem toda a razão. Ontem apareceram três pinguins lá na praia e os pescadores, sem a menor hesitação, pegaram uns paus e transformaram os pinguins numa poça de sangue. Não entendi. Fiquei besta!”

É por essas pequenas coisas que eu nunca perco a fé no ser humano.

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