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quarta-feira, junho 28, 2017

Poeira de estrelas 26: Mazzaropi


Por Luiz Carlos Miele

A rádio Nacional do Rio de Janeiro foi durante duas décadas o maior celeiro de cartazes da música popular brasileira. Victor Costa, seu presidente, comprou também a rádio Nacional de São Paulo, e assim grandes programas musicais passaram a fazer parte de sua programação. Havia também as novelas do rádio-teatro. Minha mãe fazia parte delas, além de cantar e produzir programas.

Ângela Maria era a grande estrela feminina. Mas o maior cartaz de toda a emissora era Mazzaropi. Herói sertanejo, fazia o Jeca, com enorme sucesso. Astro do disco, grande vendedor e com tanto público para seus filmes que chegou a construir o próprio estúdio, no interior de São Paulo. Fato inédito, naquela época, e até hoje.

Numa tarde, estávamos assistindo ao ensaio da Ângela, eu e Walter Arruda, jovem locutor. Jovem, elegante e bonito, o que imediatamente chamou a atenção do Mazzaropi. Pelas três razões. Mas acho que principalmente pelo bonito. Quer dizer, se tivesse que escolher, para falar de um casal lindo da época, o Mazzaropi acharia muito mais graça no Anselmo Duarte do que na Ilka Soares.

Mazzaropi veio chegando com aquela malandragem de Jeca, encostou no jovem e elegante e perguntou:

– Mecê trabáia aqui?

Com aquela voz espetacular do horário nobre, Arruda respondeu:

– Trabalho sim, senhor.

O “sim, senhor” que anunciava um anonimato assustou um pouco nosso astro, mas ele resolveu insistir:

– E o que é que ôce faz na rádio?

– Sou locutor – respondeu o Arruda.

– Ah, bão. Por isso essa voz tão bonita num rapaz tão elegante assim. E comé que ôce chama?

E o diálogo continuou:

– Eu me chamo Walter.

– Warte de quê?

– Walter Flávius de Arruda. E o senhor?

Aí já era demais para o ego do Mazzaropi.

– Ué, ôce não me conhece não?

– Não conheço não, senhor. Não tive esse prazer.

O Mazzaropi indignado:

– Ué, eu sou o Mazzaropi.

E o Walter, supersacana:

– Mazzaropi de quê?

Poeira de estrelas 27: O desespero de Paul Bocuse


Por Luiz Carlos Miele

Certa noite, deixei Thomaz Souto Correia, vice-presidente da Abril, totalmente horrorizado ao comentar minhas preferências culinárias. Thomaz, homem de sofisticada cultura, tanto nas letras quanto na gastronomia, quase retirou das minhas mãos a revista Gourmet, que editava.

Por outro lado, ficou interessado com a sugestão que dei, de publicar uma matéria intitulada “Diet porre”, que traria sugestões de receitas para alcoólatras que não queriam engordar. As opções encontradas foram poucas: Caipirinhas com adoçante? Vodca com Coca light? Uísque dietético? Cerveja sem álcool? (Argh!)

Na verdade, não encontrei material satisfatório para essa matéria, pois, apesar dos progressos da ciência, a indústria ainda não chegou a essa perfeição. W. C. Fields, o famoso humorista norte-americano, é que estava certo: “Tudo o que é bom, é imoral, ilegal ou engorda.”

Voltei-me então para a segunda sugestão de matéria, batizada como “O desespero de Paul Bocuse”. E passei a descrever as delícias do que podemos chamar de “cozinha marginal”. Que, às vezes, para ser degustada, exige nervos de aço e estômago de ferro.

O tempo passa e uma das lembranças da força da juventude é a da possibilidade de comer uma feijoada no Parreirinha, na avenida São João, em São Paulo. Não pela feijoada em si, mas pelo horário. Quatro da manhã, toda quarta-feira. Imagino como seria meu despertar hoje, antes de sair para o treino da seleção “subsetenta”, depois de um cardápio desses. Com o agravante de que ele vinha em seguida ao menu da terça-feira: virado à paulista. No mesmo horário da madrugada, com a mesma carne de porco e o acréscimo de dois ovos fritos.

Naquela época ainda não estávamos na fase dos nutricionistas e da discussão “ovo-pode-ou-não-pode”, que, aliás, muda todo ano. Eu, que adoro ovos fritos, já resolvi. Consegui duas receitas diferentes, com dois médicos amigos. Uma que pode, e outra que não pode.

Não estou sozinho nessa cruzada. Paulo Cotrim, renomado crítico gastronômico, autor do livro Os 100 melhores restaurantes de São Paulo, ex-proprietário do imortal João Sebastião Bar, onde deu seus primeiros trinados o estudante paulista Francisco Buarque de Holanda, depois de distribuir quatro e cinco estrelas para as receitas mais rebuscadas possíveis, afirmou no fim do livro que seu prato favorito era arroz com dois ovos fritos. E depois de classificar os melhores endereços paulistas, disse num acesso de mau humor que os dois principais restaurantes cariocas eram o Bob’s e o McDonald’s.

Minha fase dos jantares na madrugada vem de um início de carreira bem modesto. Era, na verdade, uma opção financeira e me lembro com saudade dos locais e sabores que fizeram a alegria e o prazer da minha juventude.

A Salada Paulista

Começou na rua 24 de Maio, São Paulo, e passou depois para a avenida Ipiranga. Sua piéce de résistance era a seguinte: salada de batata, duas salsichas, um croquete de carne com mostarda escura. Acompanhada de chope ou guaraná (caçula) da Antarctica. A gente comia de pé, não havia bancos. O garçom anotava o pedido com lápis no mármore do balcão. Depois, somava tudo e apagava com um pano molhado. Parece muito sujo, e era, mas o proprietário era alemão e as receitas da salsicha e do croquete eram desconhecidas até então. Foi um tremendo sucesso.

Jeca

Na esquina da São João com a Ipiranga. Durante muitos anos, o Jeca jamais fechou as portas. Creio que foi o primeiro 24 horas do Brasil. Não fechava nem no Natal, fim de ano, nunca. Tinha de tudo no cardápio: prato feito, sanduíches, salgados, caldo verde, putas e bêbados.

Muitas vezes, encontrei lá de madrugada Ruy Afonso, o ator que era um dos famosos Jograis de São Paulo, um quarteto fabuloso com Ruy Cortez, Armando Bógus e Maurício Barroso. O uísque ainda não havia me descoberto, e, entre 10 a 15 chopes (lembram da idade?), eu ficava ouvindo o melhor da poesia brasileira.

O Jeca teve também um mesmo funcionário que serviu os sanduíches da madrugada durante mais de quinze anos. A especialidade era um queijo derretido, maravilhoso.

Anita não conheceu a primeira fase da qual eu participei, lá na esquina famosa. Mas uma noite consegui afastá-la de um jantar no Fasano, de cozinha soberba, e arrastá-la até o botequim tradicional. Chegamos lá, eu de smoking e ela de longo, pelo adiantado da hora, ela reclamando, é claro, eu pedi duas calabresas com queijo.

Horrorizada com a ocasião e com a rapaziada do lado (“fala, Mielão!”), ela acabou se rendendo ao sabor do sanduíche. Depois disso, em várias outras noites, depois de sairmos de algumas das casas mais elegantes de São Paulo, Anita sugeria:

– Vamos dar uma passadinha lá no Jeca e pedir um sanduíche “pra viagem”?

Ponto Chic

O sanduíche tem esse nome por causa do Lord Sandwich, nobre inglês que não admitia parar de jogar para comer e pediu para trazerem um pedaço qualquer de pão com algum recheio. Assim, foi o precursor do atual “salta um qualquer coisa no capricho”.

Assim, também o sanduíche de Bauru foi inventado no Ponto Chic, tradicional estabelecimento no largo do Paissandu. Era formado, no início, de pão, tomate, queijo prato e rosbife. Atendia, é claro, a um morador da cidade de Bauru, que inventou a receita. De lá para cá, foi muito desvirtuado. No aeroporto do Rio, por exemplo, é servido com churrasquinho e queijo. Nada a ver.

Esfirras Abertas

Agora, aqui no Rio de Janeiro, temos a cadeia Habib’s. Mas durante muito tempo foi impossível encontrar as tais esfirras. Elas tiveram seu tempo de glória lá na Galeria Menescal, em Copacabana, depois sumiram. Voltaram agora na tal rede de lanchonetes, que pertence a um português e vende especiarias árabes. Talvez, o proprietário tenha sido pressionado pela família e a sobremesa são os pastéis de Santa Clara, uma das grandes especialidades lusitanas.

São chamados assim porque as freiras do convento de Santa Clara usavam as claras dos ovos para lavar os hábitos e sobravam as gemas. Depois, passaram a usar as próprias (as gemas, não as freiras) para alguns doces caseiros, mas, em face dos constantes pedidos da vizinhança, foram fabricando os mesmos em maior escala e só pararam porque o clero português resolveu impedir que nascesse ali a Santa Clara Candies Production.

Voltando às esfirras. Em São Paulo, as melhores, na minha opinião, eram as piores. Quer dizer, as que são fabricadas pelo restaurante Almanara, de refinada produção, na verdade não interessam a um cultor da cozinha marginal, como eu. Tem que ser aquelas que são vendidas na porta dos botequins, naquela guarnição de vidro. Vem derramando azeite naquele papel cor-de-rosa, vale pimenta e limão. E depois, imediatamente depois, coca-cola, para digerir.

No Rio de Janeiro, o Árabe da Gávea só tem as tais fechadas. As abertas não fazem parte da cultura carioca. Houve uma ocasião em que eu fiz uma temporada no 150 Night Club, que era a boate do hotel Maksub Plaza. Artisticamente era uma maravilha. Fui o primeiro humorista a se apresentar na casa. Tive direito ao acompanhamento da banda local, o show se chamava Concerto para Miele & Orquestra.

Minha temporada ficou entre as apresentações de Billy Eckstine e Alberta Hunter. Um luxo. Tudo que eu podia querer. Quer dizer, quase tudo. Pois era impossível conseguir um pastel como aqueles da feira ou uma autêntica coxinha cremosa, daquelas em que a massa da batata envolve completamente o pedaço da galinha.

O sanduíche do room service vem com garfo e faca, como vocês sabem, pecado para os membros do nosso clube, e é de filé (sem tempero) com aqueles envelopinhos de maionese e ketchup, que você não consegue abrir. Restrito, portanto, aos restaurantes do hotel e depois de recusar o salmão e o caviar, que detesto, como qualquer profissional da minha turma, consegui me defender com os picadinhos nos primeiros dias.

Mas quando Anita pediu ovos à Benedict, percebi que corria perigo e saí voando para o centro da cidade, de onde voltei no mesmo táxi, carregando um pacote de esfirras, no tal papel cor-de-rosa, escorrendo azeite. Infelizmente, fui interceptado pelo Roberto Maksud, proprietário do hotel, que, informado do conteúdo do pacote, foi irredutível:

– Desculpe Miele, mas eu tenho cinco restaurantes no hotel. Uma cantina italiana, uma churrascaria cinco-estrelas, o restaurante escandinavo, o japonês e finalmente La Cusine de Soléil, com os chefes que eu trouxe da França. Não dá para deixar você levar esse pacote sem vergonha no elevador.

Como ele tinha razão, concordei e ficou um acordo inusitado, pois ele mandou um maître me acompanhar até o alojamento dos empregados e ficar me atendendo com a carta de vinhos e o menu de sobremesa. Optei, é claro, por uma Pepsi light de safra ignorada e pudim de caramelo. O pudim era meio metido a besta, mas o conteúdo quase se igualava àquele que vem preso à forminha de lata e você tem que bater no balcão e virar de cabeça para baixo para o pudim soltar.

Mesmo nas viagens (que fazia quando o dólar era mais generoso) sempre fui considerado um desastre gastronômico. Na minha primeira viagem a Nova York, fui pedir ao Boni, então vice-presidente da Globo, para desmembrar o valor da minha passagem em quatro ou cinco vezes. Conseguido o parcelamento, fui saindo da sala dele quando ia entrando o Armando Nogueira, mestre e amigo. Informado do meu pedido, me fez voltar e intercedeu por uma regalia maior:

– Boni, o Miele está aqui com a gente desde o começo. Não dá pra liberar a passagem dele?

– Claro que dá, porra. Mas ele não me pediu.

De qualquer maneira, o Boni ainda me presenteou com a lista de alguns dos bons restaurantes (ao meu alcance) e seus melhores pratos. Dos vinhos, ele nem falou, já que até hoje me considera um selvagem em matéria de bebidas, pois só tomo uísque e vodca. Mas a lista dos restaurantes era preciosa:

Massas – Romeo Salta (caro)

Massas populares – Mama Leone (barato)

(Barato, mas tem aquele acordeonista que vem junto com o violinista. Um problema. Se você não olhar, é mal educado. Se olhar e sorrir, eles tocam outra.)

Melhor lagosta – River Café

Fica na beira do rio Hudson, num armazém antigo, lindo. Garçons do Vietnam informam o preço da lagosta que não está no menu. Não adianta muito, porque, depois que ele diz o preço, você não vai dizer “então, não quero”. Nem mesmo que esteja com a própria esposa. Dom Salvador, pianista brasileiro que conheci no Beco das Garrafas, foi durante anos atração da casa, acredito que ganhando bem melhor que lá no Beco.

Divertido – The Signo of the Dove.

É de um amigo do Boni, Joe Santos. É fácil para os proprietários ficarem com essa intimidade, pois o Boni é um grande conhecedor dos melhores vinhos e cozinhas.

Não tive peito de perguntar sobre os melhores cachorros-quentes, que tive que descobrir sozinho. Em compensação, encontrei um bar de esquina na Broadway, que tinha o churrasco grego, de carne de carneiro. Fica rodando naquele esperto, as fatias são colocadas no pão tipo árabe, com coalhada, cebola crua e pimenta-do-reino. Valeu a viagem.

Na verdade, se me largarem em Nova York, com cachorro-quente, sanduíche de pastrami, coca-cola e aquele café aguado que o Marlon Brando tomava na caneca grande em O selvagem da motocicleta, eu estou feliz.

A grande vontade de participar da comida dos personagens dos filmes inclui aquele feijão na frigideira que o John Wayne vive fazendo na fogueira enquanto persegue os índios que raptaram sua sobrinha (Natalie Wood). Aquelas coxas de peru que os cavaleiros da Távola Redonda comiam com as mãos também tiveram a sua época. E, naturalmente, a raspa do chocolate, tirada pelos monges com o dedo, que virou até marca de produto.

Em algum outro momento desse livro, eu comentei as voltas do Sergio Mendes para Niterói, levado até as barcas por Antonio Carlos Jobim, onde existia o Angu do Gomes. Esse eu encarei com alguma reserva. Só em casos de extrema necessidade. O angu era delicioso, mas o acompanhamento era dos famosos miúdos, e desses estou fora. Fígado, rim, bofe, coração. Assim também não. Mas dava para encarar só o angu com o molho. Aliás, muita gente encarava, pois o tal Gomes começou com uma carrocinha e chegou a ter uma verdadeira indústria, com mais de 30 “carrocinhas-filiais” espalhadas pelo Rio de Janeiro.

Portanto, não sou fã de restaurantes, como já deu para perceber. Mas alguns tinham bares maravilhosos. O Flag, de Ricardo Amaral e Zé Hugo Celidônio, era um deles. Em relação à minha época, formou junto com o Antonio’s a dupla imbatível dos dois melhores bares de uma geração maravilhosa. Tinha dois andares, um para o bar, de descontraída e selecionada frequência. Eu, Ronaldo, Elis, os fotógrafos Paulo Garcez e Paulo Góes, Nelson Motta e toda a turma do Pasquim íamos todas as noites. Todas as noite mesmo. No piano, Luiz Carlos Vinhas. Não sei bem como, pois o bar tinha 40 lugares no máximo, lá se apresentaram os shows de Chico Buarque com o MPB 4 e Dorival Caymmi, entre outros. Não podia ser pela grana, era na base da amizade mesmo.

Por conta da descontração do local, Carlinhos Niemeyer fez um streap-tease em cima do piano, ficando apenas com a sunga. E, ao lado de Jorge Ben e Chico Buarque de Holanda, tive a honra de dançar o cancã em cima dos sofás, numa coreografia até hoje lembrada pelo público, não só pelo inusitado do palco, como pela categoria dos solistas.

No andar de baixo, funcionava o restaurante, pilotando pelo talento do Zé Hugo, um dos mais respeitados chefes do Brasil, que passa grande parte do seu precioso tempo ministrando cursos que ensinam a nossas esposas que é melhor mesmo deixar por conta das cozinheiras.

Depois de quase um ano frequentando o estabelecimento, o Calidônio se queixou da minha ausência ao restaurante. Tentei explicar que ele era bom demais para mim, e então, na página 73 do seu livro Histórias e receitas, ele escreveu o seguinte:

“Fui dono de um bar em Copacabana chamado Flag. Aliás não era só um bar, porque tinha um bom restaurante. Enfim, até hoje não sei se era um bar que tinha um restaurante, ou se era um bom restaurante que tinha um bar, com música ao vivo. Isso foi no final da década de 60 início dos anos 70. Num fim de noite no restaurante, estavam bebericando alguns dos fiéis frequentadores. Ronaldo Bôscoli, ainda casado com a Elis Regina, o Miele, sempre casado com a sua Anita, e alguns dos músicos da casa, entre eles, o Luizinho Eça. Todo mundo comeu, menos o Miele. Perguntei por que e ele disse:

‘Não gosto da carne daqui.’

Estranhei, pois se tratava de uma pessoa amável, mas fiquei quieto. Passados alguns dias, ou melhor, algumas noites, depois das quatro da manhã, ele me convidou para cear no lugar que ele mais apreciava. Lá fui eu, até um restaurante de fim de noite, cheio de moças que já haviam parado de ‘trabalhar’, quase todas acompanhadas de seus gigolôs. Se não me engano, era na Princesa Isabel. O garçom chegou e disse:

‘Seu Miele, o bife de sempre?’

‘Sim, mas capricha que meu amigo aqui é do ramo.’

‘Traga um igual pra mim’ – eu disse, o que fez o garçom pedir uma confirmação:

‘O senhor tem certeza?’

O Miele fez algum sinal, e o garçom foi embora. Passados uns quinze minutos, chegaram nossos pratos. Para mim, um filé mignon normal, até com boa aparência. Já o Miele era o bife mais feio ao qual eu tinha sido apresentado até então. Fino, pelancudo e bem passado. Enfim, um horror. E ele atacou seu bife com enorme satisfação.

‘Agora você entendeu por que não como carne no seu restaurante? Acontece que eu só gosto de bife ruim. E lá no Flag, mesmo que eu peça a pior peça da casa, ainda assim não será suficientemente ruim para meu gosto. Tem que vir com aquela gordureba toda.’

No dia seguinte, pedi ao Tião, gerente da casa, para ir ao açougue e comprar um quilo da pior carne para bife que existisse lá. Daí em diante, o Miele pôde jantar com seus amigos, no fim de noite.”

Essa história é verdadeiro e, é claro, virou folclore entre a turma e os garçons. Tanto, que, em outra noite, o maître me explicou ao trazer o prato:

– Seu Miele, hoje não deu pro Tião passar no açougue, o senhor vai ter que comer do nosso estoque. Esse aqui foi o pior que eu consegui.

É evidente que algumas vezes fico em situação embaraçosa. Quando fui ao programa do Clodovil, havia aquela jogada do chefe preparar um prato especial para o convidado. Na pressa de atender ao telefonema da produção, pedi um filé à parmegiana, que ele achou paupérrimo, é claro. E recentemente gravei também como convidado o programa Gema Carioca, do Rodolfo Bottino, também um chefe sofisticado.

Nessa, eu fiquei com vergonha, pois, depois de um maravilhoso suflê de palmito que ele preparou durante a entrevista, eu saí da TV Educativa e deparei com um pagode ali mesmo, na porta do botequim do lado. O botequim é alugado estrategicamente para que os clientes do pagode possam usar os sanitários.

Cerveja etc só podem ser do mesmo bar, mas eles liberam umas barraquinhas para a turma do pagode vender alguma coisa e faturar algum para pagar os músicos. Atenção para o menu: caldinho de feijão, dobradinha, caldo verde, várias moquecas, caldo de mocotó.

Esperei o Bottino entrar no carro dele, fingindo que comprava um cigarro, aderi imediatamente às barraquinhas e hoje sou o mais novo integrante do grupo “Embaixadores da Folia”.

Dentro de pouco tempo, vou publicar um roteiro completo, dando endereços, notas e estrelas a vários petiscos como empadas, pastéis, bolinhos de bacalhau, padarias com os melhores sanduíches de mortadela e relação dos estádios de futebol que servem na entrada os melhores churrasquinhos no espeto.

Algumas amigas da Anita, que promovem jantares elegantes, já conhecem as minhas sutilezas culinárias e às vezes avisam, ao convidar: “Gostaríamos de contar com sua presença. Pode vir, que não precisa jantar.”

Poeira de estrelas 28: Vinicius de Moraes


Por Luiz Carlos Miele

O teatro Casa Grande teve uma participação muito importante na vida cultural do Rio de Janeiro. Não apenas pela excelência dos espetáculos que encenava, como também porque foi palco de várias reuniões da classe artística, em que se discutia a participação política de seus representantes.

Foram momentos em que a atuação de escritores, compositores, poetas, atores e atrizes, diretores e produtores ultrapassaram em muito os limites do palco, em defesa da liberdade.

Numa dessas noites, um grupo de notáveis deixou a reunião exausto de suas responsabilidades para com o país. Todos eram muito amigos, a afinidade e o talento que os uniam facilitavam muito o diálogo. Chico Buarque apontou para a foto que ilustrava a manchete de um jornal do dia e cantou para ela:

“Apesar de você, amanhã há de ser, outro dia”.

Francis Hime rasgou a foto e recomendou calma a Chico, lembrando que os dois haviam avisado que ia passar pela avenida um samba popular. E que cada paralelepípedo da velha cidade, naquela noite, vai se arrepiar. João Bosco a Aldir Blanc lembraram “a raiva de tanta gente que sonhava com a volta do irmão do Henfil e de tanta gente que partiu num rabo de foguete”. Vinicius de Moraes disse ao Tom que estavam perto da rua onde nasceram tantas canções – “rua Nascimento Silva 107 e você ensinando pra Elizete as canções de A Canção do Amor Demais. Lembra Tomzinho?”

Mas Tom respondeu que isso era antigamente e que agora era a rua Nascimento Silva 107, onde a gente corria do pivete, tentando alcançar o elevador. Entre tantas considerações, chegaram, depois de muito tempo, à frente da casa de espetáculos Vivará (que, aliás, era pegada ao Teatro Casa Grande), onde se apresentava o show Paetês – Bananas com Miele & Sandra Bréa, e que, com todo o respeito á memória da Sandra, foi um dos piores equívocos encenados no Brasil.

O formidável sexteto – Tom & Vinicius, João & Aldir e Chico & Francis – achou que já havia prestado serviço suficiente por aquela noite e resolveu seguir os conselhos de Vinicius, que um dia brandou: “O uísque é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado.” Imediatamente, vários boêmios elegeram essa frase como uma das mais inspiradas de toda a carreira poética do nosso vate. Mas foi um evidente exagero da turma que vivia nos apartamentos de sala-quarto-banheiro e canil. De qualquer maneira, aqueles compositores maravilhosos entraram para ver o show, o que me deixou completamente apavorado com as críticas que imaginei que viriam no fim.

Mas, com a mesma grandeza e generosidade de sua obra, eles me convenceram de que eu não precisava me suicidar ainda, devia tentar mais uma vez. No fim, todos nós confraternizamos num verdadeiro Kennel Club e a noite ainda me rendeu uma linda foto, que marcou aquele encontro com Vinicius de Moraes.

Conheci Vinicius numa casa noturna chamada Ruy Bar-bossa. Trocadilho brilhante, como vocês perceberam. Foi a minha estréia no palco, ao lado da Tuca, cantora e humorista muito talento. Vinicius fora cunhado do Ronaldo, casado com Lila Bôscoli, e várias das tantas maravilhosas homenagens feitas às mulheres foram dedicadas a ela. As muito feias que perdoem, mas beleza é fundamental. Depois, ele me explicou que tinha dito: “As muito, muito feias.” E como nenhuma mulher e achava “muito, muito feia”, nunca houve problema.

Terminado o show, a boate ficou vazia em alguns minutos, mas ele pediu mais uma garrafinha de uisquinho, pra gente ficar mais uma horazinha batendo um papinho. Eu já tinha ouvido falar da paixão dele pelos diminutivos, achei aquilo do cacetinho e fiquei bebendo (literalmente) aquele talento e sabedoria.

Dizem que ele ficou muito frustrado quando começou a compor com o Toquinho, pois o Toco já era Toquinho. Toquinhozinho também ia ficar demais. Muitas horas depois, ele me perguntou se eu podia dar uma caroninha pra ele. Era tudo que eu queria. Na noite em que conheci Vinicius de Moraes, já ia dar uma carona para ele:

– É claro, poeta, com todo prazer. Onde é que você está morando?

– É logo ali na Gávea, Mielinho. Tô morando na clínica São Vicente.

– Mas Vinicius. São cinco da manhã. Como é que a gente vai entrar na clínica?

– Não tem problema, não. Pode deixar que eu tenho a chave.
Alguns anos depois, já honrado com sua amizade, fui fazer um show no Recife. Patrocinados por uma marca de rum, um grupo de artistas como Regina Duarte, Vera Fischer, Wilma Vernon, Erlon Chaves e a Banda Veneno, Cafuringa, o ponta-direita do Fluminense, um grupo bem divertido.

Do Recife, resolvemos, eu e Anita, passar em Salvador. Como se fosse possível, eu nunca havia estado na Bahia por mais de um dia ou dois, fazendo shows. Desconfiando das minhas possibilidades para descobrir os melhores programas, Anita insistia para que eu ligasse para o Caymmi, um anfitrião respeitável.

Mas era a época da grande escalada turística. Bahia e baianos estavam na ordem do dia, sua música e folclore eram o grande assunto brasileiro, com todos os exageros a que tinham direito. No saguão do hotel, um folheto turístico anunciava: “Pela manhã, visita a Itapuã. Almoço no Solar do Unhão; à tarde, visita à igreja do Senhor do Bonfim. No final da tarde, antes da volta ao hotel, visita à casa de Dorival Caymmi.”

Imaginando o pavor que o magnífico Dorival estava sentindo a qualquer toque de campainha, não tive coragem inclusive de usar o telefone.

– Não dá, Anita. Vou ter que mentir que estou trazendo um recado do Fernando Lobo, se ele disser para eu deixar na portaria do hotel, vou morrer de vergonha. E se pedir para ele me indicar um bom restaurante, e ele me indicar mesmo em vez de me convidar para casa dele, aí é pior ainda.

Resisti aos pedidos da Anita, resolvi descobrir sozinho um lugar formidável e, quase colocando meu casamento em jogo, fui encontrando fechados ou por fechar cada restaurante que me havia sido indicado no hotel.

Era uma segunda-feira e, mesmo na Bahia, segunda não é dia de festa. Terminei antes os olhares de desprezo da Anita, jantando uma pizza, na orla, na minha primeira noite em Salvador. Na manhã seguinte, com o orgulho ferido, resolvi que iria descobrir novamente a Terra de Vera Cruz. E aluguei um carro.

– Mas você não conhece nada. Como é que vai sair dirigindo em Salvador. Se me levar para almoçar outra pizza, está tudo acabado entre nós.

Humilhado, não respondo nada. Sou avisado que o carro alugado chegou. Meu Deus, um Opala roxo. Dessa vez, ela ficou com dó e só riu disfarçadamente. Então eu desço a ladeira da Sete de Setembro (É claro que pelo telefone eu reservei um hotel que NÃO ficava na praia, o que Anita também fez questão de reparar.) Já com uma tremenda dor de cabeça, parei na primeira farmácia para comprar um remédio, quando ouvir a voz salvadora.

– Oi, Miele, na Bahia, é? Chegou quando?

Era a Jesse, esposa de Vinicius. Ah, ah, ah (pensei eu esperançoso).

– Oi, Jesse, cheguei ontem, para conhecer essa terra maravilhosa. Pena que eu não conheça muita coisa.

– Tá hospedado onde?

(Favor ler essas linhas pensando no sotaque delicioso das baianas lindas.)

– Num hotel meio sem graça, ali na Sete de Setembro, longe da praia.

– Espere um pouco, que eu vou ligar pro Vinicius.

Momentos de suspense. Ela volta, maravilhosa.

– Vinicius mandou pegar suas malas e ir lá pra casa.

É difícil descrever o ar de superioridade com o qual voltei para o carro e anunciei para Anita:

– Vamos para a casa do Vinicius, na beira da praia, em Itapuã.

E assim passei a semana hospedado pelo poeta, o que significava a possibilidade de privar das amizades de Caribé, Calazans, Jorge Amado e até Mãe Menininha do Gantois, caso se apresentassem problemas de maiores providências.

Mas não foi preciso. Ocorreu apenas uma ligeira gripe e eu me contentei, orgulhoso, com uma injeção na bunda, aplicada por Marcos Vinícius de Mello Franco Moraes.

Poeira de estrelas 29: Dorival Caymmi


Dorival Caymmi com os filhos, Dori (E), Nana e Danilo, em 1994

Por Luiz Carlos Miele

Uma foto de que me orgulho muito é a que tenho ao lado de Caymmi. Foi tirada durante uma gravação na TV. Ele, já com os sábios cabelos brancos que lhe valeram o apelido de “Algodão”, eu ainda com barba e cabelos escuros. Era a época do festival Abertura, realizado pela TV Globo e que eu apresentava.

Para tornar a votação absolutamente democrática, o júri contava com dez jurados. Cinco deles liberados por Aloysio de Oliveira e os outros cinco sob a batuta de Diogo Pacheco.

Aloysio era parceiro de Tom Jobim (Dindi, Inútil paisagem, Fotografia e outras). Ex-fundador do Bando da Lua, que foi com Carmem Miranda para os Estados Unidos, ex-marido de Silvinha Telles, foi também o fundador do selo Elenco, que só gravava astros da MPB, como Tom, Caymmi, Lucio Alves, Dick Farney etc.

Diogo Pacheco, mestre arranjador e regente, foi um dos grandes colaboradores da Tropicália e era de talento e temperamento revolucionários. Sua opinião, bem como a de seu grupo, contrastava absolutamente com a opinião da “turma do Aloysio”, na qual estavam Sergio Cabral e outros competentes tradicionalistas.

Logo na primeira noite de competição, as preferências se anunciaram. Hermeto Paschoal apresentou-se com um porco vivo, que fazia parte de seu arranjo, o que evidentemente lhe valeu uma nota muito baixo da turma do lado de cá. Em compensação, Pery Ribeiro defendeu uma canção de Menescal & Bôscoli. Considerava, é claro, “supercareta” pela vanguarda adversária. Se você tirar um zero e um dez, sua média fica sendo cinco, não é mesmo?

Carlinhos Vergueiro, competente cantor-compositor, parceiro tanto de Toquinho quanto de Adoniran Barbosa e Nélson Cavaquinho, e também competente meio-campista do Pholiteama, na qual é responsável pela principais assistências que resultam nos gols de Chico Buarque, entrou pelo meio da área, apresentou uma linda canção chamada Como um ladrão, que não despertava polêmica para nenhuma das duas torcidas, fez um gol de letra e ganhou o festival.

A cada noite, além da apresentação das músicas concorrentes, Abertura apresentava o show de um grande nome da MPB. Jorge Ben fez o espetáculo da primeira noite. Um dos shows da temporada foi o de Dorival Caymmi. É difícil de acreditar, mas o gigante, o Buda Nagô, como diz nosso ministro Gilberto Gil, estava preocupado com a reação do público:

– Miele, esse festival está muito cheio de novidade. Eles adoraram aquela tal de Farofa-fá, o que é que vão achar das minhas canções?

Fiz uma aposta com ele e ganhei, é claro. Pedi para ele entrar cantando apenas a primeira frase de “Ah, minha Mãe, minha Mãe Menininha” e deixar o resto com a platéia. Não deu outra. Todo mundo cantou por ele e junto com ele. E assim foi com a maioria das músicas de seu repertório.

Satisfeito com a recepção do público, na maioria garotada, Caymmi atendeu a um convite meu para jantar na casa de um casal supersimpático, que simplesmente adorava o mestre. Eram meus amigos de longa data e iriam adorar recebê-lo.

O marido, Luiz Paduan, era o proprietário do restaurante Paddock, tradicional em São Paulo, onde, além da excelente cozinha, havia sempre a preocupação de boa música ao vivo, um bom piano de cauda etc. Depois que eu consegui garantir a presença do ídolo, as preocupações do Luiz aumentavam a cada dia da aproximação do jantar:

– Miele, quantas pessoas você acha que posso convidar? O que é que eu vou mandar preparar para ele? Faço uma moqueca? Moqueca não. As da Bahia devem ser melhores que as do meu chefe. Ele gosta de vinho ou de uísque?

Expliquei ao Luiz que o Caymmi era uma pessoa muito simples, qualquer coisa ia ser muito bem-recebida. E fomos, eu, Aloysio de Oliveira, Caymmi e Dora e Doralice e Marina e Anália e Mãe Menininha e Gabriela e Adalgisa e tantas canções que o homem não anda sem elas.

Quando chegamos na porta do apartamento, toquei a campainha, Luiz Paduan abriu a porta, maravilhado. Emocionado, não resistiu e deu aquele braço de fã no importante convidado. Quando conseguiu recuperar a fala, gritou lá para dentro.

– Meu bemmm. Vem ver quem chegou.

É a vez de Leny Paduan, querida amiga, ficar emocionada. Tão emocionada que errou de cantor:

– Meu Deus. Silvio Caldas, que prazer.

Pânico. Não geral, é claro, pois eu e Aloysio achamos a maior graça. Mas o Paduan, o marido, esse ficou completamente desnorteado. Pronto. Seu jantar iria por água abaixo. O que é que seus amigos iriam dizer? O que é que ele ia dizer para o Caymmi? E mais ainda, imaginem o que é que ele iria dizer para aquela mulher, a quem ele amou toda a vida e que agora fazia aquela confusão?

Pressentindo a tragédia conjugal anunciada, Dorival Caymmi, ídolo de gerações, unanimidade nacional, simplicidade em pessoa, mentindo generosamente, tranquilizou dona Leny:

– Minha senhora, não se preocupe. Não é a primeira vez. Às vezes me confundem com Silvio Caldas, às vezes com Di Cavalcanti. Mas eu não me preocupo. Porque, não só pinto, como canto, melhor que os dois.

Grande Caymmi. Aliás, grandes Caymmis.

Evoé, Danilo e Nana. E Dori, todos cantores. Dona Stella é dos amores. Tive a honra de dirigir no Metropolitan do Rio de Janeiro o show com toda a família. Acompanhada pela Orquestra Sinfônica Brasileira, com arranjos e regência de Chiquinho de Moraes, ele também personagem inevitável nas antologias da música brasileira, autor de tantos trabalhos importantes como a Paulistania, de Billy Blanco, e de tantas viagens musicais maravilhosas a bordo dos arranjos para Elis e Roberto Carlos.

Nesse espetáculo com os Caymmi e a Sinfônica, lembro da minha emoção ao perceber Fernanda Montenegro em lágrima na platéia. Tudo bem. Eles que são grandes que se entendam. Mas, além de emocionantes, os ensaios eram muito divertidos, por conta do bom humor de Danilo e do bom mau humor de Nana e Dori.

Dori criou, junto com o maestro Edson Frederico, uma série de apelidos que não posso publicar aqui, pois atingem toda a classe dos cantores e compositores, e eu tenho que continuar trabalhando no ramo. Para falar de dois dos mais amenos, cito Milton Nascimento e Roberto Menescal, que Dori rebatizou de Milton Mais Cimento e Roberto Menos Cal. Os outros vocês vão imaginando para se divertir.

Quando Dori e Ronaldo Bôscoli se encontravam não sobrava para ninguém. Faziam um verdadeiro e divertido campeonato de maldades, só de farra. Mas se você soubesse que era mais ou menos vulnerável, só ia embora do bar junto com eles, e de preferência, deixava cada um na sua casa, separado do outro.

Certa noite, no Chiko’s Bar, a dupla recebeu a valiosa colaboração da Alcione. A Marrom era intocável e mais discreta nas suas brincadeiras, e ficou por ali, só curtindo o infortúnio dos que tinham que ir saindo mais cedo. Sobrou um. Ou melhor, sobrou para ele. Que sabia que não ia escapar dos “elogios”, que bem merecia. Foi ficando na esperança de que os dois fossem finalmente se recolher. Mas não teve jeito, o sol foi saindo, a vítima finalmente capitulou, deixando, ao sair, uma frase que ficou famosa entre nós.

– OK, pessoal. Eu tentei resistir, mas não aguento mais de sono. Eu vou dormir e seja o que Deus quiser.

Mas Dori não poupava nem mesmo a si próprio ou à família.

– Miele, meu pai não é brincadeira. O velho é o compositor mais preguiçoso do Brasil. Ele levou 14 anos para fazer Maracangalha, que, como todo mundo sabe, tem uma letra complicadíssima. Acho que foi por isso que demorou. Presta atenção na divisão dos 14 anos. Nos primeiros 4 anos ele escreveu: “Eu vou pra Maracangalha, eu vou, eu vou de chapéu de palha, eu vou.” Parou dois anos. Fatigado, eu acho. Sexto ano. Nova inspiração. “Eu vou convidar a Anália, eu vou, eu vou de uniforme branco, eu vou.” No sétimo ano, escreveu de um fôlego só, “Se a Anália não quiser ir eu vou só, eu vou só, eu vou só. Se a Anália não quiser ir, eu vou só, eu vou só, eu vou só, sem a Anália...” E nunca mais escreveu nada. Sete anos depois, o Danilo lembrou: Pô papai, Maracangalha estava ficando muito legal. Termina essa música. E ele terminou: “Mas eu vou”.

Brincadeira, é claro. Quantas das canções de Caymmi terão sido feitas numa mesma noite de inspiração genial? Atenção, João Valentão, que lá vem a baiana, olhando pro mar, que, quando quebra na praia, é bonito, é bonito. Peguei um Ita no Norte, pra saber o que é que a baiana tem. Ah, baiana, requebre que eu dou um doce, que o samba na minha terra deixa a gente mole. Só louco, mesmo, pra não sentir saudades de Itapuã. Você já foi à Bahia? Então vá. Pra saber que é doce morrer no mar.

Por isso (e por mais de cem músicas geniais), Tom Jobim disse dele:

– Brincam com a preguiça de Dorival, mas, em compensação, ele não tem nenhuma música feia.

Tom também não. Dele, Aracy de Almeida, a filósofa do Encantado, disse em maravilhosa síntese:

– Antonio Carlos Jobim é uma pessoa que não resta a menor dúvida.

E do Buda Nagô teria dito:

– Em matéria de maravilhoso, Dorival Caymmi pode dormir sossegado.

E assim adormece esse homem, que nunca precisa dormir para sonhar...

Poeira de estrelas 30: José Sanz


Luís Carlos Miele, Isis Valverde e Francisco Cuoco

Por Luiz Carlos Miele

Além de Daniel Filho, eu e Hugo Carvana já fomos hóspedes também de José Sanz, uma das figuras mais interessantes de Ipanema e daquela geração maravilhosa do Cinema Novo. Sanz era diretor da Cinemateca do Museu de Arte Moderna e, mais tarde, também da Editora Sabiá, de Rubem Braga, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos.

Sua cultura cinematográfica era tão ampla quanto sua imaginação e ele exercia e exercitava as duas com a mesma sem cerimônia.

Por exemplo, estávamos todos sentados à mesa do bar Gôndola, em Copacabana, maldosamente chamado por alguns de Glândula, pois abrigava, entre tantos artistas, homossexuais de inúmeros sexos e tribos.

Lá pelas tantas, alguém comentou que havia assistido ao mais recente filme de Orson Welles, O Processo, baseado no livro de Kafka, e que havia no filme uma cena muito interessante, quando, num determinado diálogo, os atores faziam todos os movimentos da fala, mas não se ouvia som algum. Enquanto se discutia o que Orson Welles queria dizer (ou calar) com aquilo, o Sanz comentou:

– Vocês acharam curiosa a cena? Pois fui eu que sugeri.

– Ô Sanz, a gente está falando da cena do filme do Orson Welles.

– Exatamente. Orson Welles me convidou para ver o copião do filme, lá na Inglaterra e, no momento em que me mostrou a tal cena, me explicou que ainda faltava editar o áudio, ainda faltava dublar o filme. E eu respondi: Não coloca o som, não. Deixa assim que está muito interessante. Vai ficar um barato.

É claro que ninguém sabia daquela intimidade do Sanz com o Orson Welles, de maneira que aquela afirmação soava tão suspeita que, a partir de várias dessas sacadas, o nosso herói recebeu o apelido de “Sanz-Fiction” de tantas fantásticas afirmações de que ele foi capaz.

Eu ainda prefiro outro história envolvendo o Sanz e o Orson Welles. Durante a permanência no Brasil do genial diretor americano para rodar o tal filme dos pescadores que jamais foi terminado, ele teria tido uma briga por telefone com Rita Hayworth, sua esposa na ocasião. O Sanz presente, é claro.

Ela nos Estados Unidos, o cidadão Kane no Copacabana Palace. Muitos palavrões internacionais, o gênio não aguentou a barra e passou o telefone para o Sanz:

– Sanz, essa mulher está me enlouquecendo. Não sei mais o que fazer. Fala aqui com ela.

Segundo a narrativa que ouvimos de noite, no botequim, o papo Sanz-Rita foi o seguinte:

– Alô Rita, minha querida, é o Zé Sanz. É o seguinte, meu amor... Espera, deixa eu falar... Calma Rita, eu sei que você está nervosa, mas deixa eu explicar... Ô Rita, isso não vai levar a nada... Afinal, vocês dois se amam... Rita, fica relax... Rita... deixa eu falar... Porra Rita, fica quieta. Você sabe como é o Orson.

“Você sabe como é o Orson” foi, durante muitos anos, uma das minhas frases favoritas. Mas o Sanz era uma figura muito querida e raramente um dos amigos perdia a paciência com ele. Rubem Braga chegou a escrever uma de suas crônicas geniais contando a aventura que viveu com ele.

No tempo em que, no Rio de Janeiro, os intelectuais falavam e os animais escutavam, Rubem reunia uma turma de queridos jornalistas e poetas no bar Maxim’s. Entre generosas doses de um nobre uísque escocês legítimo, alguém sugeriu a democrática participação de sardinhas portuguesas.

– É isso mesmo. Vamos pedir umas sardinhas. Sanz, você quer também?

– Não, muito obrigado. Eu só como sardinhas do Báltico.

Ainda sob o impacto recente do “você sabe como é o Orson”, Rubem Braga não aguentou:

– Que história é essa de sardinhas do Báltico, porra? Onde é que tem sardinhas do Báltico no Rio de Janeiro?

– Na minha casa tem. Eu só como sardinhas do Báltico.

Rubem resolveu colocar um ponto final naquelas viagens e provocou:

– Então vamos lá agora pra comer as suas sardinhas do Báltico.

Apanhado de surpresa, Sanz tentou retrucar:

– Mas agora são duas da manhã, minha mulher vai me matar se eu chegar com vocês lá em casa e essa hora.

Rubem foi irredutível:

– Que nada, sua mulher é igual à Rita Hayworth, ela sabe como é o Sanz.

E sob inúteis protestos, aquela verdadeira academia brasileira de letras seguiu a pé até o apartamento de José Sanz, que foi obrigado a pedir desculpas à mulher (que acordou, é claro), levar a comissão julgadora até a cozinha e abrir os armários para mostrar para seus queridos e estupefatos amigos dezenas de latas de sardinhas do Báltico.

Derrotado inapelavelmente, Rubem Braga publicou a crônica narrando o fato, e Sanz ficou liberado para novas aventuras.

Eu e Hugo Carvana privamos de sua intimidade e generosidade, pois ele nos cedeu o espaço de dois quartos em seu apartamento, onde fomos morar depois que ele se separou. Cedeu só o espaço mesmo, pois não havia um móvel no apartamento.

Nós na época só faturávamos uma graninha nas dublagens das séries estrangeiras de aventuras, de maneira que o dinheiro era muito curto e a geladeira e a despensa não chegaram a conhecer nem as sardinhas Coqueiro, quanto mais as do Báltico.

Acho que em casa só tomávamos café e uns copos de leite e, eventualmente, devíamos comprar uma garrafa de rum (uísque nem pensar) para as cuba-libres, o que levou a empregada a uma decidida declaração:

– Os senhores eu não sei, mas eu preciso comer, poxa.

Passávamos os dias fazendo os planos de cada carreira, os shows que iríamos fazer, os filmes que o Hugo iria dirigir. Quando não estava na cinemateca do Museu, o Sanz estava escrevendo um interminável roteiro que nunca foi filmado e dando aquelas aulas de cinema para a gente:

– Tem um jovem polonês muito interessante chamado Roman Polanski, que terminou agora um filme chamado A faca na água, que vai chegar ao Brasil no ano que vem. Ficamos amigos em Paris e fomos juntos ao show do Louis Armstrong, que é meu amigo. Fiquei até de mandar pra ele umas gravações de carnaval, vê se vocês me lembram ainda essa semana.

É claro, deixa com a gente, piscávamos um para o outro e íamos tomar mais uma cuba-libre. Bem feito. No sábado, tocou a campainha, era o correio com um grande envelope. Dentro, um novo LP do Armstrong. Autografado, é claro:

“Dear Sanz. This is my last album. I hope you like it. Your friend. Satchmo.”

A gente com cara de tacho e o Sanz numa boa:

– Estão vendo, o Armstrong já me mandou o disco dele e eu nem me lembrei das gravações do carnaval.

E então nos lembramos de outra cena maravilhosa, quando, na mesa de um bar qualquer, alguém comentou sobre o filme do Chaplin Um rei em Nova York. Imediatamente o Sanz emendou:

– Eu já vi. É muito ruim. O Carlitos era genial, mas o Chaplin é um chato.

– Como é que já viu, Sanz? O filme estreou essa semana em Paris.

– Pois então. Eu estive em Paris e vi o filme.

– Mas Sanz, o filme estreou a semana passada na França. Você passou a semana toda bebendo com a gente.

– A semana toda não. Eu fui na sexta-feira e voltei segunda de manhã.

Quando a mesa toda se prepara para começar a discutir, adentra ao bar a Luiza Barreto Leite, na ocasião Sra. José Sanz. Pronto, ele estava perdido, pega na mentira. Mas enquanto ela se aproximava da mesa, ele rapidamente avisou:

– Ninguém fala nada não, que ela não sabe que eu fui a Paris, eu disse a ela que fui a Petrópolis, para o sítio de um amigo.

E assim, ficávamos todos entre suas verdades e fantasias. Teria sido mesmo ele que recomendou o nome de Tom Jobim a Frank Sinatra? Ou que teria dito ao pai de Steven Spielberg para insistir com os estudos de cinema que “esse seu garoto leva muito jeito”?

Nunca saberemos. Numa de suas viagens, ou “viagens”, com aspas ou não, ele avisou à turma que tinha que ir a Berlim para fazer parte do júri do Festival de Cinema, em que Ruy Guerra concorria com o filme Os fuzis. Ele ia, dizia, para dar uma força ao amigo e ao cinema brasileiro. Voltava na segunda-feira, é claro. Era bom que quem estivesse no apartamento naquela ocasião desse um dinheirinho para o fim de semana (a empregada precisava comer).

Na segunda-feira, O Globo chegou aos bares antes dele, com a seguinte notícia: “O filme brasileiro Os fuzis, de Ruy Guerra, ganha o Urso de Prata em Berlim. No júri, Otto Preminger, Silvana Mangano e José Sanz, entre outros”. Comentário dele, mais tarde, no bar:

– Quase que a gente belisca o ouro, mas o Antonioni tem ainda muito prestígio.

Um coração indeciso


Anibal Beça e Abílio Farias no Bar do Armando

Julho de 1993. Amigo de longa data do cantor de boleros Abílio Farias, o advogado Alberto Simonetti Filho resolveu levar o cantor para fazer uma apresentação exclusiva no principal clube social de Autazes. A cidade em peso compareceu ao evento.

Numa mesa perto do palco, se sentaram o advogado e sua esposa Maria Simonetti, acompanhados do prefeito Ivan Ethel e de sua consorte.

Depois de cantar uma série de boleros, Abílio Farias interrompeu a apresentação para abrir o coração:

– Eu queria agradecer ao meu padrinho Alberto Simonetti por ter possibilitado eu estar com vocês aqui nesta noite tão maravilhosa. Por conta disso, eu vou cantar uma música que tem tudo a ver com ele. Essa música é pra você, doutor Alberto Simonetti, meu padrinho e irmão!

O conjunto fez a introdução musical e Abílio Farias começou a cantoria daquela que é considerada a obra-prima de Domingos Lima:

– Um coração indeciso/ Busquei no céu um abrigo/ Me confessei a Jesus/ Cristo, que fostes na terra um mártir/ Sob o império de Pilatos/ Fostes pregado na cruz...

Dona Maria Simonetti começou a prestar atenção na letra. Abílio Farias foi em frente:

– Quero ouvir de ti um conselho/ Do qual farei um espelho/ Pra refletir meu viver./ Julga-me, julga-me como quiseres/ Eu amo a duas mulheres/ Por elas fico a sofrer...

Dona Maria começou a ficar incomodada. Abílio Farias foi em frente:

– Uma tem graça, luxo e beleza/ Produtos da natureza/ Coisas que a outra não tem...

Dona Maria começou a tossir nervosamente. Abílio Farias foi em frente:

– E a outra é despida de encantos/ Mas mesmo assim gosto tanto/ E ambas eu quero bem...

Sem dizer nada, dona Maria se levantou da mesa na hora em que o cantor desfilava os versos finais (“Meu bom Jesus, um coração indeciso/ Não sei da qual eu preciso/ Para tornar-me feliz”) e foi embora, cuspindo fogo.

Alberto Simonetti teve de suar sangue para desfazer o mal-entendido.


Poeira de estrelas 20: Regine’s


Por Luiz Carlos Miele

Quando da inauguração da boate Regine’s, em São Paulo, a atração dessa primeira noite foi Charles Aznavour. Atração evidentemente cara, e que marcou mais ou menos o perfil da frequência da casa. Era uma casa com uma decoração faraônica e, como todo mundo sabe, os faraós não eram exatamente os reis do bom gosto.

Passados os primeiros meses de sucesso, a boate passou a acusar os primeiros sinais de que devia promover alguma novidade para continuar a atrair a elite de São Paulo, o que acontece, aliás, com todas as casas noturnas. Não é um fenômeno brasileiro. No mundo todo, os night-clubs, e principalmente as discotecas, têm vida curta. A turma cansa logo e vai dançar noutra freguesia.

Outra razão é que a rapaziada que faz o sucesso da casa, como as estrelas da TV ‘--e da mídia, não só não gasta nada, como ainda cobra. De qualquer maneira, a Regine’s queria uma aproximação maior com a turma da noite, e depois de constatar que os aznavoures não estavam com aquela bola toda combinou com o Naji Nahas, sócio majoritário da casa, uma nova badalação.

Uma noite mais elegante que a primeira, a revista Vogue e Alice Carta convidando, traje a rigor, o fino. A idéia era contar um pouco da história da noite de São Paulo e de como Regine’s passou a fazer parte dessa noite. Na época, Karla Garcez fazia a programação da casa, eu fui consultado para a produção do show e os nomes sugeridos foram os de Simone, Ney Matogrosso e Caetano Veloso.

Argumentei que eram todos superstars e, por isso mesmo, seria impossível qualquer intervenção em seus shows. Sugeri um show com a participação dos artistas que, durante as duas últimas décadas, “faziam” a noite de São Paulo: Pedrinho Mattar, Johnny Alf, Madalena de Paula (extraordinária cantora e pianista), Roberto Luna e os Demônios da Garoa. Embora grandes artistas, nenhum deles tinha ultrapassado a fronteira dos bares e restaurantes menos ou mais sofisticados e até dos cabarés da madrugada.

Roberto Luna, por exemplo, trabalhava no Viva Maria, “a capital da alegria”, onde seu show começava às quatro da manhã. Quer dizer, o Luna era conhecido pela metade dos casais presentes, ou seja, a metade representada pelos maridos. Afinal, nas férias, as esposas e as crianças têm o direito de aproveitar a semana inteira nas fazendas e casas de praia, onde, no sábado, chegam os esgotados maridos depois de cinco dias de sacrificadas labutas. (Opa, que rima perigosa essa!)

Karla ficou apavorada com a escolha do elenco, mas eu resolvi arriscar o meu pescoço e o dela, e o show foi esse mesmo. Eu tinha duas cartas na manga. A primeira foi um multivisão produzido pela produtora paulista Miksom. A linguagem do multivisão era usada quase que exclusivamente para apresentações técnicas nas convenções de lançamento da indústria automobilística, por exemplo. Poucas pessoas naquela platéia teriam visto toda aquela tecnologia a serviço de um espetáculo de música popular.

Quando o som de Paulistania, de Billy Blanco, invadiu o Regine’s, o impacto foi emocionante: “São Paulo que amanhece trabalhando, São Paulo que não pode adormecer, na reza do paulista, trabalho é o padre nosso...”

Na tela, as imagens dos representantes das raças que fizeram a cidade tão cosmopolita. Os japoneses, árabes, judeus, alemães, italianos. Tirando os japoneses, pouco chegados àquele tipo de badalação, quase todo mundo ali era descendente de alguém.

As imagens da boemia paulistana, as boates de outrora, as figuras da noite, a garoa, o Ceasa, o viaduto do Chá, a São João com a Ipiranga, os pardais em madrigais, o sol rasgando a cerração, e as primeiras lágrimas de emoção foram pintando. Hebe Camargo e Marília Gabriela subiram num sofá e começaram a aplaudir, um paulista quatrocentão achou pouco o sofá, subiu numa mesa e gritava:

– Essa é a minha cidade, porra!

Ciente de que havia ganho a segunda batalha do Ipiranga, apresentei o golpe definitivo:

– E agora, senhoras e senhores, para encerrar o nosso show, gostaria de trazer um artista que de maneira nenhuma queria se apresentar esta noite. Foi difícil convencê-lo a usar um smoking pela primeira vez, e mais ainda, convencê-lo de que era tão querido aqui nessa casa, como em qualquer outra onde se apresenta regularmente, pois ele insistiu em afirmar que jamais havia pisado numa casa noturna desse luxo. E, desnecessariamente, tenho certeza, assegurei os aplausos de vocês para uma das figuras mais representativas da noite paulista. Senhoras e senhores: Adoniran Barbosa.

Como a gente diz entre nós, “caiu a casa”. Adoniran cantou apenas a primeira frase: “o Arnesto nos convidou, prum samba, ele mora no Braz”. De “nois fumo num incontremo ninguém” até o fim, o Samba do Arnesto foi interpretado pelo mais elegante coral já reunido na noite paulista, que, de smoking e vestido longo, cantou esta música, o Trem das Onze e outros sucessos que conhecia de cor, mas que, com aquele guarda-roupa, jamais havia tido oportunidade de interpretar.

Poeira de estrelas 21: La Fiorentina


Por Luiz Carlos Miele

Desde 1957. É o que diz o cardápio. Cheguei ao Rio de Janeiro em 1957 e fui parar na inauguração da TV Continental, lá nas Laranjeiras. Viemos todos de São Paulo. Câmeras, cenógrafos, diretores de TV, produtores, toda a equipe técnica e artística, enfim.

A Continental não tinha nem elenco, nem pessoal técnico. Infelizmente, também não tinha como pagar os nossos salários, de modo que ficamos um bom tempo ilhados entre Laranjeiras e Catete, dependendo das possibilidades de um garçom que bancava os nossos penduras no também antológico Lamas, onde também, às vezes, juntávamos os trocados paulistas para apostar no taco de José Miziara, exímio na sinuca. Se ele ganhasse, todo mundo comia.

Demorei, portanto, algum tempo para descobrir o Rio de Janeiro que “eu sempre hei de amar”, como disseram Tom e Billy Blanco. Descobrir a Bossa Nova, o Beco das Garrafas, o Cinema Novo, Ipanema, o Jangadeiros e, naturalmente, a Fiorentina.

Fui chegando timidamente, curtindo a dureza daqueles primeiros momentos, sem direito à companhia dos titulares ilustres, como Edu da Gaita, Mario Lago, José Lewgoy, Ziraldo e todos aqueles eternizados no mural das caricaturas.

Vivi o anonimato dos que não tinham o nome nas colunas. Até que um dia o maître colocou a pilot na minha mão:

“Assina aqui, Miele.”

Pronto. Eu havia chegado definitivamente ao Rio de Janeiro.

Cada um de nós tem com certeza uma história marcada numa das mesas que passaram a fazer parte das nossas vidas. Eu me lembro particularmente de uma noite em que eu e Luiz Carlos Vinhas voltávamos de um show onde o sucesso foi geral. No show, no uísque, com as garotas, tudo certo. Tão certo que o Luiz Carlos estava completamente coberto de manchas de batom.

Três coisas não combinam com manchas de batom: Summer branco, camisa a rigor e esposa da gente.

“Vinhas, como é que você vai chegar em casa assim todo sujo de batom?”

Sem perder o charme, Luiz Carlos encomendou um maravilhoso spaghetti al sugo.

Comemos a massa e o sugo ele derramou tranquilamente sobre a camisa, tronco e membros. De acordo com meus sábios conselhos, esperou esfriar, é claro.

Isso foi há muito tempo. Estou voltando agora sempre que posso. Trazendo sempre que possível os artistas de fora para que possam conhecer a tradição do teatro, da revista e da TV carioca, que dividem conosco a noite, naquelas paredes.

Recentemente, já não tendo que juntar os trocados dos vales da TV para poder pedir um bife de carne de baleia (alguém se lembra?), fui o mestre de cerimônias da noite que homenageou Anselmo Duarte, uma das lendas da casa. Muita gente da turma antiga pelas mesas e calçadas.

Muitos, só nas paredes, é claro.

E muita gente nova chegando. Para esses, fiquei com vontade de fazer um discurso. Como um político da antiga, daqueles que tinham a ilusão de conquistar nossas vedetes – que, na verdade, reservavam para nós, da classe, seus momentos mais verdadeiros.

E discursei:

– Seja o que for que você pretenda comer, quero, como um político, anunciar as palavras enganosas que antecedem cada discurso: ‘vou dizer apenas duas palavras’. Mas eu quero MESMO dizer apenas duas palavras: bom apetite.

Poeira de estrelas 22: Flash


Miele posa ao lado de sua estátua no deck de madeira da piscina de sua residência

Por Luiz Carlos Miele

– O Miele caiu do telhado?

– Não, o Miele subiu no telhado.

– Nada disso. O Miele caiu do terraço.

– Acho que o Miele caiu do cavalo.

 Só se foi do cavalo branco, o White Horse.

Nada disso. Apesar dos comentários maldosos, eu caí da varanda. Depois do tombo, aprendi que uísque faz mal para a rótula.

Aliás, uma amiga minha já tinha me garantido:

– Miele, qualquer bebida em excesso faz muito mal. Para as mulheres também. E principalmente para as pernas.

– Por que para as pernas? Ela ficam trêmulas?

– Não, Miele, abrem.

Pois é. Foi um tombo feio, que provocou, além de notícias desencontradas, comentários carinhosos de vários colegas, entre eles, o querido Jô Soares. Para ele, inclusive, assim que obtive alta, eu mandei um e-mail agradecendo:

“Caro Jô. Obrigado pelas palavras amigas. O tombo fez com que eu reavaliasse minha vida e estou agora com a cabeça muito mais aberta. Para ser mais exato, 42 pontos mais aberta. Estou pensando em desenvolver novos projetos para dar vazão à minha veia artística, mesmo porque a outra veia está ocupada com soro, no momento.”

Essa história de soro é plágio de uma tirada genial do Bôscoli. Eu e o Menescal fomos visitá-lo no leito do hospital, e infelizmente foi uma das nossas últimas visitas. Quando entramos no quarto, ele estava com soro numa das veias e sangue na outra. Com o humor sarcástico que era sua marca, e que ele usava até contra si mesmo, perguntou:

– E aí, rapaziada, vão de branco ou de tinto?

No meu caso, o Menescal, que não sabe beber, foi correndo para o hospital e, antes que terminassem de dar os pontos, gritava:

– Não fecha não. Quem sabe dá tempo de colocar um ponto de juízo?

Já a Wanda Sá garante que flagrou o meu anjo da guarda no celular do céu, direto com Deus:

– Senhor, essa é a terceira queda com fratura na qual eu tive que dar uma amortecida. Já fiquei também na frente de quatro derrapagens e colisões que deram em perda total dos veículos. Estou com as asas quebradas, num estresse absoluto. Gostaria de solicitar minha substituição porque, assim, não há anjo que aguente. Estou às suas ordens para missões em locais mais calmos. Como o Iraque, por exemplo. Ou a Cidade de Deus. Assim já fico mais perto do senhor.

Sacanagem do anjo, não é mesmo?

E depois, vários convites vieram para novos shows e outros espetáculos. Como achei muito óbvio, recusei o convite para a minha participação em Depois da queda.

Algumas boas matérias foram feitas sobre o acidente. A mais divertida foi feita para o Flash, do amigo Amaury Jr. Toda essa cascata anterior foi só para justificar a foto que ele mandou para o livro.

Poeira de estrelas 23: Billy Blanco


Por Luiz Carlos Miele

Numa tarde ensolarada, Billy Blanco, a bordo de um daqueles lotações do Rio de Janeiro que ofereciam perigo tanto para quem estava na rua quanto para quem estava dentro deles, teve a percepção de uma melodia, do início da letra e da idéia geral da obra. Para não esquecer, principalmente da melodia, desceu do lotação, entrou no primeiro botequim que encontrou e ligou para Antônio Carlos Jobim:

– Ô, Tom, tive uma idéia. Escreve a melodia que eu vou cantar ao telefone que é para eu não esquecer.

E cantarolou:

– Rio de Janeiro que eu sempre hei de amar. Rio de Janeiro, a montanha, o sol e o mar.

Tom rabiscou a letra, colocou as notas na partitura e intimou Billy:

– Desliga e vem correndo aqui pra casa.

Nasci nesse momento a mais bonita homenagem que a cidade já recebeu até hoje – A sinfonia do Rio de Janeiro.

Inexplicavelmente a sinfonia jamais foi encenada como um grande espetáculo com grande orquestra, balé etc. Mas é um sonho que eu, como produtor, ainda não abandonei.

“Um dia rasgaram a montanha e o túnel do Leme se abriu, o mar recuou gentilmente...”

Essa e outras passagens da letra de Billy me emocionam a cada vez que escuto essa obra-prima. Na sequência da repercussão da Sinfonia do Rio, Billy compôs (letra e música desta vez) A Sinfonia de São Paulo, a Paulistania, que se torno o hino da cidade e o sufixo de encerramento das transmissões diárias da TV Record, muito embora eu não tenha certeza de que isso tenha rendido algum dinheiro ao Billy.

Talento e dinheiro nem sempre caminham juntos. No meu caso, o dinheiro me odeia, e acho que com o Billy não foi muito diferente a vida inteira. A banca do distinto, Pistom na gafieira, Viva meu samba, Mocinho bonito, Estatutos da gafieira, Samba triste, Praça Mauá, Rio do meu amor (que virou quatrocentão), Se a gente grande soubesse etc, etc, etc.

A qualidade dessa obra já deveria render uma boa tranquilidade tipo rede na varanda, calção largo, uísque e água de coco. Não precisa ser nada como o saldo bancário de pagodeiros e sertanejos. Também não vamos exagerar. Tenho certeza de que o Billy não precisa dos aviões particulares e das grandes fazendas. Acho que a felicidade basta.

Enquanto isso, continuamos a fazer o que sempre fizemos: estamos “correndo atrás”. Eu digo “estamos” porque somos colegas como contratados da Universidade Estácio de Sá, participamos da produção cultural da casa. E eu tenho a chance de fazer vários shows ao lado do seu talento e humor. (É claro que Tereza da praia, dele e do Tom, é uma das músicas mais pedidas pelo público, e a gente se diverte muito com uma nova versão que ele fez uma Tereza das praias de hoje.)

Billy Blanco, arquiteto de primeira profissão, engenheiro e artesão da música, nós gostamos de você, até como artista. Millôr Fernandes disse de Billy Blanco: “Conhecido e prestigiado, acho porém que não é nem tão conhecido, nem tão prestigiado quanto merece”.

E quem sou eu para contradizer Millôr?

Poeira de estrelas 24: Coluna Social


Gerard e Silvia Amélia de Waldner

Por Luiz Carlos Miele

A baronesa Silvia Amélia Waldner, ex-senhora Paulo Fernando Marcondes Ferraz, sensibilizada com a qualidade das fotos e textos da reportagem realizada pela revista Hola, de Buenos Aires (a Caras de lá) – que, na verdade, nada mais fez do que devidamente homenagear sua beleza e inteligência – mandou dois convites, um para o repórter e outro para o fotógrafo, para a festa do barão Von Under Táxis, a ser realizada na Alemanha.

Apesar das recomendações do repórter de que o evento iria reunir a nata da nobreza européia e que, portanto, os dois iriam ficar absolutamente deslocados, o jornalista acabou cedendo à insistência do fotógrafo, que afirmou que numa festa à fantasia ninguém iria notá-los e que não se justificava perder uma boca-livre daquelas.

Conseguidas as passagens e hospedagem com a direção da revista, partiram em direção ao castelo e à festa dos sonhos. Na entrada, ainda, as recomendações do repórter:

– Creo que la festa no és para nosotros.

E então aquela figura de postura imponente, com seu bastão de igual magnitude, começa a anunciar os convidados: “o duque e a duquesa de la Rochelle de França; o príncipe e a princesa Horsenbach de Viena d’Áustria; o marquês e a marquesa Aragones de Espanha...”

E, tomando o cartão da mão dos dois assustados jornalistas, com aquela voz tonitruante, faz ecoar pelos salões a frase apavorante:

– Dois argentinos.

Poeira de estrelas 25: Palavras-Cruzadas


Miele e Anita Bernstein, com quem foi casado 47 anos

Por Luiz Carlos Miele

Eu adoro palavras-cruzadas. Sei que, às vezes, você pode se achar meio póia, ao demorar para entendê-las. Não se zangue. Nem por isso, você vai se tornar um saloio. Pense em adamo. Não se importe com algum bruaá que possa perturbar você. Sei que, ás vezes, você se sente meio cimério.

Mas não vá ensoar, logo agora. É melhor evolver, saber que você não é um monomorfo, para resolver as questões. Isso não vai lhe fazer mal, mesmo porque você não é um nosófobo. Cultive com carinho a sua orélia, nem tudo é uma parábase. Lembre-se de que a inspiração pode ser pululante.

Construa uma redente em torno de você, não fique sevo, com ódio. Pegue uma acéter e borrife com ela os que o cercam. Não se deixe abater como um aranhiço. Também não precisa exagerar, ficar tomando de ataraú. Pegue seus avios e deixe de agir como um biforme. Tome um café, coma um lamego e relaxe. Afinal, você não é um pinteireiro qualquer.

Se alguém o chamar assim, não hesite em remenicar. Vá até a praia. Lembre-se, você não sofre de talassofobia, assim, não há o que temer. Seja tarasco, a vida não é para principiantes. Seja forte. Não tema uma venida. Você não está zoina, nem nada. Esqueça-se de que sua esposa é uma seresma. Afinal, quem é o terratenente em sua casa? Tenha uma idéia coruscante. E vá fazer as suas palavras-cruzadas.

Aqui, algumas dicas para você entender o texto.

Póia – pessoa moleirona, preguiçosa, indolente.

Saloio – indivíduo rude, grosseiro.

Adamo – a pedra filosofal.

Bruaá – ruído que se eleva na multidão.

Cimério – lúgubre.

Ensoar – murchar.

Monomorfo – que tem medo obsessivo.

Orélia – trepadeira cultivada.

Parábase – parte de comédia grega.

Pululante – que germina rapidamente.

Redente – baluarte, trincheira.

Sevo – sedento de sangue.

Acéter – caldeirinha para água benta.

Aranhiço – indivíduo débil, frágil.

Ataraú – fúria ou mau humor.

Avios – apetrechos.

Biforme – que pensa de duas maneiras diferentes ao mesmo tempo.

Lamego – pãozinho coberto com ovos.

Piteireiro – bêbado.

Remenicar – replicar.

Talassofobia – medo doentio do mar.

Tarasco – arisco.

Venida – investida repentina do inimigo.

Zoina – aturdio, estonteado.

Seresma – mulher mole e inútil.

Terratenente – pessoa que manda, que tem prestígio.

Coruscante – reluzente.

Duelo verbal parintintim


Junho de 1996. Na saída do Bumbódromo, em Parintins, o escritor Antônio Faria, filho do conhecido comerciante José Pedro Faria e torcedor fanático do bumbá Garantido, inicia uma discussão com o vereador Gil Gonçalves, filho do ex-prefeito Gláucio Gonçalves e torcedor fanático do bumbá Caprichoso.

O bate-boca começa sobre a falta de criatividade dos respectivos bumbás, compras de jurados, baixa qualidade das toadas apresentadas na arena e por aí afora.

Depois de uma série de acusações de parte a parte, a baixaria descamba rapidamente para uma troca de ofensas pessoais.

– E teu irmão, o Zezinho Faria, que pra se eleger deputado estadual comprou votos no Itaúnas, mas não pagou os cabos eleitorais! – detona Gil.

– E teu irmão, o Enéas Gonçalves, que pra se eleger deputado estadual, também fez o mesmo com os moradores do João Novo e do Palmares! – devolve Antônio.

 – E o teu pai, que compra móveis usados em Belém e vende em Parintins como se fossem novos! – dispara Gil.

– E o teu pai, que desvia dinheiro da prefeitura e dá de esmola pros pobres como se a grana fosse dele! – devolve Antônio.

Gil resolve partir para o golpe baixo e desqualificar o próprio adversário:

– E tu, que fuma maconha!

Antônio devolve na mesma moeda:

– E tu, que não fuma!!!

A discussão acabou na mesma hora. Depois de uma resposta dessas, Gil Gonçalves ia fazer o que? Ô raça!