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terça-feira, junho 27, 2017

Poeira de estrelas 16: Monsieur Pujol


Por Luiz Carlos Miele

Depois de uma temporada de grande sucesso do espetáculo Gemini V, que tinha no elenco Leny Andrade, Pery Ribeiro e o Bossa 3 (Luiz Carlos Vinhas, Otávio Baylli e Rony Mesquita), o Porão 73, casa noturna onde se realizava o show, foi comprado pelo Alberico Campana, ex-proprietário de duas casas no imortal Beco das Garrafas, o Little Club e o Bottle’s.

Mudou o nome do Porão para Le Bilboquet. Poderia também facilmente ter o nome mudado para O Boquete, pois o som da Bossa Nova foi substituído pelo alarido de alegres e descontraídas senhoritas da noite carioca, que encontraram ali um espaço para continuar a exercer a mais antiga profissão.

Mas era apenas uma solução temporária, pois na verdade o Alberico queria mesmo era vender a loja para levantar dinheiro e inaugurar uma nova casa de shows, ao lado da dupla Miele & Bôscoli, que sonhava com isso há muito tempo.

Por alguma razão, a jogada das meninas não funcionou muito bem. Não era falta de competência delas, fizemos vários testes vocacionais para comprovar as aptidões das candidatas, mas não funcionou.

Foi preciso então criar uma nova motivação, para provocar o interesse de possível futuros candidatos à compra do imóvel. Inventamos então um show intitulado Nous. Queria dizer “nós” em francês, é claro, mas deixava também uma lembrança da casa anterior, ou seja, “Todo mundo nu”.

O elenco era, digamos, bastante heterogêneo: Luiz Carlos Miele, Darlene Glória, Luizinho Eça e Luiz Carlos Vinhas. Conseguimos dois pianos de apartamentos, daqueles bem baixos, de maneira que os dois pianistas ficavam um de frente para o outro, com uma interessante diferença de estilos. O Vinhas com seu suingue alucinado, e o Eça com a categoria clássica de quem estudou com os mestres de Viena. Baixo, bateria e tumbadora completavam a banda.

Como solistas (solistas?!), Miele e Darlene. Eu contando algumas piadas e fazendo algumas imitações, e a Darlene com uma blusa de metal que deixava os dois seios de fora (na verdade o grande sucesso do show), dizendo uns textos loucos do Ronaldo, que contavam mais ou menos a sua vida. Tipo: “Eu sou a Emília de Monteiro Lobato que desde criança já cheirava mato.”

Apesar da incontestável qualidade musical e literária do espetáculo, não conseguíamos nos livrar da imagem anterior da casa e o público, além de reduzido, era de pouca qualidade, tanto intelectual quanto financeira, ou melhor dizendo, “pé de chinelo”.

Até que uma noite, Samuel Wainer, dono do Última Hora, apareceu por lá, levando um grupo de amigos. Adorou o show, mandou fazer uma reportagem de primeira página (no Segundo Caderno, é claro), elegendo show e boate como o novo programa “underground chic” do Rio de Janeiro. Sugeriu delicadamente a seus colunistas que prestigiassem o evento, e da noite para o dia, ou melhor, da noite para a noite, a casa lotou.

Mas algumas noites antes do nosso ingresso na agenda elegante da noite carioca, fomos visitados por um cliente peculiar.

Era um dos tipos mais fortes que eu já havia visto, tipo aqueles armários das lutas internacionais de vale-tudo. Quer dizer, um adversário impossível, a menos que seu sobrenome seja Gracie.

O segurança da casa havia sido chamado de urgência por seus colegas de viatura para atender a um chamado religioso numa das nossas paróquias, e o tal armário entrou na casa, em companhia de um jogador de futebol, de pouca técnica em campo, mas um negrão do tipo “também somos seres humanos”.

Bom, o gigante estava de bermuda, sapato e meias, o que, somado à camisa aberta no peito, mais as correntes de ouro, e um anel com a imagem de um touro, formava um quadro assustador. Mas o pior é que assustador mesmo é o que ele queria ser. E cada piada que eu contava, ele fazia um comentário simpático, tipo: “Porra, Miele, essa merda eu já conheço, não tem nada mais engraçado não?”

Quando a Darlene entrou, com os seios de fora, ele levantou da cadeira e anunciou para a distinta platéia suas intenções para com a estrela do show, durante o resto da noite. Criou-se um clima horrível entre palco e plateia, e eu, que àquela altura estava completamente desmoralizado, me preparei para morrer.

Eu fazia um número com um banquinho enfiando na cabeça, imitando um capacete de astronauta, que eu interpretava em câmara lenta. Brigar com ele simplesmente era completamente impossível. Os dois Luízes, Vinhas e Eça, responderam aos meus olhares indagadores com o tradicional: “Me inclua fora dessa”. O percussionista, chamado Laudir, que depois foi tocar com o Chicago, me deu uma esperança bem fraquinha:

– Miele, no final desse número, você dá com o banquinho no nariz dele. Tem que ser no seu nariz mesmo, que quebra, dói paca, e atordoa por alguns segundos. Daí a gente embola com ele, e quem sabe, com sorte, dá para não morrer no bolo.

Preparei-me portanto para esperar a ajuda da providência divina, quando surgiu uma providência (com todo o respeito) muito melhor, ou seja, Mariel Mariscot.

Do palco, eu vi a figura salvadora adentrar o gramado, em companhia de um colega de profissão chamado Tigrão. Vinham cansados, depois de um exaustivo dia de trabalho, o que deve ter custado caro à saúde de alguém.

Mariel nessa época namorava a Darlene, e os dois viviam uma grande paixão. Mariel foi sendo informado pelos garçons do que estava acontecendo e, no último acorde do último número, “chegou junto” no gigante:

– Escuta aqui, companheiro, você está perturbando todo mundo. Qual é a sua, afinal?

Bem, o gigante não deu a menor bola para o retrospecto fatal do Mariel e respondeu:

– A minha, Mariel, é que eu estou a fim dessa loura.

E o Mariel:

– Mas ela já está a fim de mim. Como é que vai ficar?

Aquele clima dos saloons dos filmes americanos. A essa altura, eu já estou providencialmente seguro por três garçons maravilhosos que me impedem de resolver logo aquela parada. Pois assim que eu vi o Mariel, fiquei muito motivado para a luta.

E, então, quase profissionalmente, eles resolvem se vão brigar ali dentro mesmo, ou no beco atrás da boate. O Mariel argumenta que não tem mais tempo para ficar brigando (ainda mais com alguém daquele tamanho, imagino) e sugere partirem logo para os finalmentes, o que no caso dele era mesmo uma solução final.

Em face da nova proposta, o gigante alega que está desprevenido, pelo menos para o momento. Não tem problema, responde o Mariel. E gentilmente sugere:

– Tigrão, vê uma arma para o rapaz.

E eu, os garçons e a turma do show (o público todo saiu voando) presenciamos a incrível cena da “45” sendo empurrada por cima da mesa da direção do gigante.

Ele pensou duas, três, quatro, cinco vezes. Numa delas, por ser do ramo, deve ter pensado, como eu pensei depois: “Será que está carregada?”

Terminou tudo por ali. Não em pizza, mas no delicioso caldo verde da Lindaura, no Beco da Fome. De qualquer maneira, a temporada do show continuou com sucesso, a casa foi vendida “na alta” e partimos para novas “Reinações de Miele & Bôscoli”.

Começamos a preparar a inauguração da tão sonhada casa de espetáculos. Com dois andares, palco e bar no térreo, e o restaurante no andar de cima. Estamos pensando no nome da casa, cada um dando uma sugestão, quando chega da Europa o Nelsinho Motta. Traz um livro que joga em cima da mesa e diz:

– Oi, rapaziada. Olha aí o nome da casa de vocês.


 O livro é Monsieur Pujol Le Petomane, literalmente “Pujol, o peidador”. E traz a história e várias fotos de mais peculiar artista do mundo. Atração do Moulin Rouge, ele se apresentava sempre antes do espetacular cancã. Fazendo exatamente o que título do livro anunciava, com camisa, gravada e colete a rigor, e uma malha com um furo estratégico na direção do ânus. Por onde ele “ventava” o seu talento.

Talento que foi descoberto por acaso, quando, nos seus primeiros dias de vida, foi colocada numa bacia, para o banho. Encheu d’água no ato. Tinha um problema no reto que a medicina da época não conseguiu resolver. Como aquilo não tinha cura, Pujol fez do seu defeito uma habilidade e preparou um show sem precedentes.

Apagava velas a distância, conforme mostravam as fotos do livro, fazia vários sons com seu próprio instrumento, agora instrumento de trabalho mesmo. Como grand finale de seu espetáculo “tocava” a Marselhesa.

Como, na época, era impossível divulgar esse tipo de performance, Pujol ficou ignorado fora dos limites do Moulin Rouge, até que, numa atitude tão patriótica quanto o encerramento de show, seu filho fez uma petição ao governo francês, reclamando que seu pai fora um artista único e merecia reconhecimento. Com o mesmo espírito de patriotismo, a França, que ao contrário do Brasil (segundo eles), é um país sério, editou o livro.

Claro que o Ronaldo comprou a idéia na hora, mas o Alberico temeu um pouquinho pelo sucesso do batismo:

– Mas vocês acham que alguém vem comer num restaurante que tem o nome de peidador?

Combinamos, então, que as fotos do artista ficariam só no andar de baixo, no bar e local do show. O restaurante ficaria bem comportado. E assim foi feito.

Alberico foi buscar um chef português que o Juscelino Kubitschek trouxe de Portugal e depois levou para Paris, para cozinhar durante os dez dias em que o nosso presidente lá permaneceu.

Como todo mundo sabe, a qualidade da cozinha francesa é muito suspeita, e assim nada mais natural do que levar na comitiva um cozinheiro, não se justificando, portanto, a grita da imprensa nesse episódio.

De qualquer maneira, Manoel Cerdeira, o chef em questão, perdeu essa boca, e foi trabalhar no restaurante Monte Carlo, de onde passou para o Pujol.

Garantida a cozinha, partimos para o show, e fizemos alguns shows bem divertidos. No início, eu fazia um número contando a história do personagem que deu o título à casa. Sem usar os mesmos recursos, pois jamais consegui dominar a técnica.

Músicos formidáveis passaram por lá, fiz meu primeiro show com a Sandra Bréa, depois de um show com a Valéria, em que, pela primeira vez no Brasil, um travesti era tratado sem as piadas de costumes, cantando um repertório sofisticado, eu de smoking fazendo uns duetos com ela.

Depois, Elke Maravilha me disse que eu tinha de conhecer um grupo chamado Dzi Croquetes, que fazia um show num cabaré da Lapa. Mas não fiz imediatamente contato com eles. Algum tempo depois, chamei Lennie Dale, um artista realmente extraordinário, para fazemos um show juntos.

Ele me convenceu de que tínhamos que fazer algo novo, e me disse que agora estava coreografando e liderando um grupo revolucionário. Novamente a citação dos Croquetes.

Marcamos um encontro para que ficasse conhecendo o grupo. No dia e hora marcados, eu chego ao Pujol, o Lennie está sentado triste nos degraus da porta de entrada. E me diz com aquele sotaque:

– Meu amor, genti non apariceu. Nenhum deles. Non si podie confiar nesses bichas. Vamos faz show nós mesmos.

Fiquei decepcionado, é claro, mas quando o Lennie abriu a porta da boate, o sonoplasta soltou um play-back e aqueles loucos maravilhosos estavam pendurados pelos lustres, deitados na escada, espalhados pelo palco, completamente vestidos (ou despidos) e maquiados.

O impacto que o Lennie sabia que causaria funcionou perfeitamente comigo, e marcamos a estréia naquele momento mesmo.

Foi uma temporada extraordinária. Liza Minelli viu o show e se apaixonou por eles, foi madrinha do grupo em Paris, onde eles fizeram grande sucesso. Não lembro de todos eles, mas o Wagner era a “tia” do grupo, do qual, depois, Cyro Barcelos, Paulette e Cláudio Tovar partiram para brilhantes carreiras e deixaram o Monsieur Pujol marcada como uma opção diferente na noite carioca.

Lembro da Alcione como crooner e com ódio da gente, que exigia que, além de cantar, ela tocasse pistom, como se não bastasse o talento da cantora. (A noite era uma beleza. Flag, Number One e o 706, onde os cantores que se revezavam das 10 da noite às 5 da manhã eram “apenas” Emílio Santiago, Joana e Djavan.)

Vários artistas internacionais começaram a frequentar a casa. Uma noite, Dionne Warwick se apresentava no Copacabana Palace e seu empresário era o Marcos Lázaro, que era também nosso representante, assim como da Elis, do Simonal, do Roberto etc. Portanto, foi na nossa casa que Dionne veio jantar depois do seu show.

Fui buscá-la no Copa; ela, elegantérrima e simpática, não se negou a cantar no bar e tal. No dia seguinte, o Marcos ligou e me disse que ela tinha adorado, queria voltar, mas fazia questão de que eu fosse buscá-la. Opa... Lá fui eu para o Copacabana Palace, não sem antes avisar uma galera abonada: “Vão para lá que a Dionne vai cantar.”

Chego no Copa, recuso com elegância o convite para um drinque depois do show, quero mesmo é voltar com ela correndo para o meu bar. Chegamos, eu fazendo o latin mais lover possível, até que ela pega o microfone e canta Alfie. Olhos nos olhos etc. Grande sucesso, é claro.

Madrugada, as pessoas vão indo embora, ficamos eu e ela, o bar vazio, grande e clima. Mas eu, infelizmente, numa das minhas piores performances, havia exagerado no alpiste, como diz o Billy Blanco, e fico totalmente fora de combate.

Ela, uma fera (soube depois, é claro), ajuda o meu porteiro a me colocar num táxi, recusa o auxílio do mesmo porteiro e sai para tomar um táxi sozinha. Na direção da praia do Leblon, às cinco horas da manhã. Sozinha e a pé. Imagino com qual impressão ela ficou do Machus brasiliense. Durante muitos anos, nunca mais a vi.

Tempos depois, eu como diretor de eventos do Metropolitan do Rio, fui recebê-la antes do show que ela iria apresentar lá. Elegantemente, ela optou por não me reconhecer. Umas noites são memoráveis, outras para a gente esquecer.

E outras surpreendentes. Numa delas, eu estava aproveitando o jantar da “diretoria”, como é chamado o que os cozinheiros fazem para a brigada da casa. No tempo em que a noite ia até a manhã seguinte, a casa tinha que servir dois jantares para a rapaziada, um às sete da noite, quando se prepara a abertura, e outro no fim do expediente. Mas a violência encurtou a noite.

Nossos shows começavam a uma e meia da manhã. Bons tempos. Hoje, você não pode fazer nada depois das onze, pois ninguém mais quer ficar na madrugada. Bem, o tal jantar da madrugada é quase sempre trivial, mas reserva boas surpresas, como um mocotó, uma rabada etc. Pratos que não fazem parte do cardápio. Muitas vezes, alguns fregueses descobriram e ligavam pedindo para reservar para depois do show. Mas isso também era antigamente.

Bem, estou lá com meu caldo de mocotó, quando liga, para meu espanto, o Marcel Marceau, o maior mímico do mundo, que está fazendo uma temporada no Teatro Municipal. Ele era amigo do Luiz de Lima, ator brasileiro, e ficou intrigadíssimo quando viu no jornal o anúncio do Monsieur Pujol. Comentou com o Luiz que essa história era pouco conhecida mesmo na França e resolveu fazer uma reserva para o jantar.

É claro que foi recebido com todas as honras. Mandei na tarde seguinte um serviço para o camarim dele, ele mandou de volta o convite para um camarote. Voltou ao bar na noite seguinte. Na tarde seguinte mandei para ele umas abotoaduras feitas pelo genial Caio Mourão, com aquele diploma com lacre etc.

Gentilezas de lado a lado, o Ronaldo diz que eu e o Marceau já estamos quase namorando, mas eu estou escaldado com aquela história da Dionne Warwick e mantenho tudo no campo da arte. Ele reserva, então, vinte lugares para um jantar de encerramento de sua temporada.

Então, eu e Ronaldo preparamos uma festa. Leny Andrade e Pedrinho Mattar, as estrelas do mês, Simonal, Ivan Lins e Elis Regina (senhora Ronaldo Bôscoli, na ocasião). Esse elenco formidável improvisa duplas, o público que está ali, pagando por uma noite normal, delira. O nosso convidado especial também.

Caipirinha e champagne, quando misturadas, tem estranhos resultados. Marcel Marceau é informada de que eventualmente estou no palco e me convida para fazer um número com ele em cima do piano, para desespero de seu agente, que não quer vê-lo trabalhando de graça.

Mas eu também estou no embalo, e sem o menor pudor de colocar a serviço do meu número a mímica mais famosa e cara do mundo, improviso um discurso no qual coloco as minhas mãos para trás, e o Marcel (já estou íntimo) faz de suas mãos as minhas.

Mas eu tinha combinado que iria fazer o discurso em português, e assim, como ele não entendia o que eu ia dizendo, tinha que confiar nas minhas reflexões, no meu tom de voz, para fazer o enamorado, o triste, o alegre, o encolerizado etc.

Eu comecei direitinho, mas, para ter um resultado ainda mais divertido, fui mudando a interpretação para confundi-lo. Assim, eu dizia “aquela filha da puta” com a maior doçura. E “meu amor” aos berros. Ficou hilário, é claro.

A tribo da noite acaba sabendo o que está acontecendo em cada casa, e às duas da manhã não cabia mais ninguém. Mandei trancar a porta. Mas o segurança vem me avisar que o senhor Mário Priolli está lá fora com cinco crioulo, gringos.

Mais do que dono do Canecão, o Mário é meu irmão e eu vou até a porta para buscá-lo. Dos cinco crioulos, quatro deles são os músicos, e o quinto, o líder do grupo: Stevie Wonder. Antes de qualquer coisa, ele me diz que está muito louco:

– I must sing, man.

E assim, eu feliz, vou ao microfone e anuncio.

– Sras. E Srs., depois de Leny Andrade, Pedrinho Mattar, Wilson Simonal, Ivan Lins, Elis Regina e Marcel Marceau, o Pujol tem o prazer de apresentar Stevieeeeeeeeee Wonder.

E ele ataca For once in my life. Depois eu soube que aquela noite ele estava supersimpático, mas é muito temperamental, e de volta para os Estados Unidos, brigou com o Ray Clarles. Romperam definitivamente a amizade. Não podiam nem se ver.

Poeira de estrelas 17: O rabino grego


As socialites Helena Gomes e Beki Klabin num baile de carnaval

Por Luiz Carlos Miele

Uma das grandes clientes do Pujol era Beki Klabin. Grande figura da sociedade carioca, Beki não respeitava os limites tradicionais de seus pares, era independente e muito divertida. Sua grande paixão na vida foi Charles Aznavour, o que não a impediu de namorar Waldick Soriano, mostrando assim sua versatilidade.

Era vice-presidente do Diner’s Club do Brasil, presidido por sua vez por seu ex-marido Horácio Klabin. Outra demonstração inequívoca de sua personalidade, pois acho que ser vice de ex-marido é uma façanha respeitável.

Frequentava muito nosso clube, e uma noite pediu para me chamar na porta, pois tinha um assunto importante a tratar. Surpreso por ela não ter entrado, fui ao encontro. Um cinematográfico motorista fardado abriu a porta do seu magnífico Bentley, e lá estava ela, ao lado de um aristocrático cão afghan, único cachorro do mundo que tem sobrancelhas.

– Oi, Miele, desculpe eu não ter entrado, mas estou com o cão.

Bem, o cachorro era mais bem educado que a maioria dos nossos clientes, de maneira que convidei os dois para entrar e tomar um drinque. Ela me contou, então, a razão do drama que a afligia, e para o qual ela pedia uma sugestão.

Seu filho, ia se casar com Wanda, mas noivo e noiva não concordavam com um casamento religioso, atitude contestatória de muitos jovens da época.

Isso representava um grande problema para Beki, pois a avó de Paulo era extremamente religiosa e iria sofrer muito se o casamento não seguisse uma cerimônia tradicional, com padre, altar etc. Já estava devidamente doutrinada para aceitar qualquer padre, desde que a cerimônia fosse tradicional.

Eu não podia perder nem a amiga, nem a cliente, e principalmente a vice-presidente do Diner’s que nos salvava toda semana, efetuando o pagamento dos cartões a cada segunda-feira, quando o prazo normal é de um mês.

Respondi que a solução era muito fácil. Era só dizer para a avó que o casamento ia ser oficiado por um rabino grego.

Acho que a época era desses desvarios. A Beki achou a idéia ótima, os noivos concordaram imediatamente. E feitos os proclamas, a efeméride realizou-se no luxuoso apartamento da família.

A produção contou com a colaboração do contrarregra que trabalhava comigo na TV e foi providenciado um altar, aquele genuflexório, um livro de orações etc. A Wandinha de vestido de noiva (de minissaia, mas noiva), Paulinho de fraque e, é claro, eu de rabino e grego, de paletó preto, colete e gravata de crochê.

A avó, matriarca da família, sentada naquela cadeira de espaldar alto, com a bengala de castão. Oficiei o matrimônio com a maior dignidade, diga-se de passagem. Como texto, uma fala com um estranho sotaque que ninguém poderia entender, muito menos a matriarca:

– Trobraniakis varonsky chatronivev. Vortazim nik faskanu yamusquen Paulo et Wanda patrany.

Os noivos colocaram as alianças, eu pedi taças de champagne para mim e para alguns parentes coniventes com aquela farsa, tomei a champagne (já estava fazendo falta àquela altura) e, lembrando de outras cerimônias, isolei a taça na parede, com a saudação “Trovansky matrimonian!”

Imediatamente, todos os presentes acompanharam o meu gesto e todas as taças foram estilhaçadas na parede, para tristeza da Beki:

– Ai, meu Deus, as minhas taças de cristal da Romênia.

De qualquer maneira, fiquei com uma ponta de arrependimento quando a avó, comovida, beijou minha mão em religiosa reverência. Apenas um passageiro constrangimento, que passou logo que o som do conjunto de Luiz Carlos Vinhas, que eu também havia providenciado, agitasse o ambiente: “avisou, avisou, avisou, que vai rolar na festa”. E a festa rolou.

As taças que sobraram ficaram mais algumas vezes cheias e vazias. Liberado das minhas atividades litúrgicas, passei às atividades do samba, que exerço com razoável competência. Impressionada com o desembaraço coreográfico do “rabino”, a avó desconfiou.

Para manter a seriedade da cerimônia anterior, fomos ambos afastados da sala. Põe a vovó na varanda e o Miele no táxi, que fica tudo certo.

No dia seguinte, o Horácio Klabin me ligou, para saber se aquela “performance” da noite anterior tinha custado alguma coisa, se eu tinha algum cachê a receber. Não tinha.

De qualquer maneira, ele resolveu retribuir e marcou uma mesa de dezoito pessoas no Pujol. Eram os casais amigos, que tinham vindo de São Paulo para o casamento. Era uma mesa que garantia o equivalente a uma semana de faturamento.

Champagne, caviar etc. No fim, uma despesa maravilhosa. Não me lembro dos valores da época, mas, só para ilustrar, vamos imaginar uma cifra de dez mil reais.

O Horácio pediu a conta, eu elegantemente respondi que mandaria cobrar no escritório, ele retrucou que nada disso e fez um cheque de 11 mil reais, incluindo mais 10% além do serviço obrigatório, o que levou maîtres e garçons a votarem nele para personalidade da semana. Todos os garçons, menos um. Completamente idiota, ele ignorou a generosidade e puxando a manga do paletó do Dr. Horácio, exclamou:

– Doutor, o senhor vai me desculpar, mas o cigarro aqui é por fora. Tem dois Hollywood na mesa.

É claro que eu comecei imediatamente a me desculpar, ficou tudo meio confuso, os convidados todos já estavam na escada que levava para o andar térreo, o Horácio respondeu que não havia problema, eu disse que o garçom era um substituto, o maître começou a chamar pelo nome merecido a mãe do garçom, mas o próprio retribuiu.

Segundo fora, e o maître acerta um dos melhores cruzados de esquerda que eu já havia visto. Só que na direção errada, pois o garçom desabou pela escada, levando com ele aquela confusão de blazers, penteados e casacos de pele. Como num lance de boliche: strike.

E no alto da escada, eu, ex-rabino e provavelmente ex-cliente do Diner’s, exclamando sem graça:

– Obrigado pela preferência, apareçam sempre.

Poeira de estrelas 18: Claridge Bar


Por Luiz Carlos Miele

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. A frase, claro, é de Vinicius de Moraes e faz parte do show Vivendo Vinicius, que eu tive o prazer de dirigir no Metropolitan, do Rio de Janeiro. E que encontros. Os grandes parceiros do poetinha: Baden, Carlinhos Lyra, Toquinho e Leila Pinheiro ou Miúcha cantando Tom.

Depois, São Paulo, é claro, para outros encontros. E lembranças, como as do Claridge Bar, ali na 9 de julho, no antigo Claridge Hotel.

O hotel mudou de nome, está vazio e triste, apesar dos heróicos esforços de Edgar Maluf, proprietário também do jornal São Paulo em Notícias. Hospedei-me no hotel e no jornal para escrever algumas crônicas sobre a ponte aérea Rio-São Paulo.

Dou um pulo no bar, outrora um dos endereços mais elegantes de São Paulo. O velho piano branco de cauda ainda está lá, um velho piano que não toca mais, como diz a canção de Dori Caymmi. Frequentei muito o bar no início da minha carreira de crimes.

A música era espetacular. Dick Farney no piano, com aquele repertório maravilhoso de canções norte americanas. Farnésio Dutra era o nome verdadeiro do Dick. Não é de admirar que ele tenha mudado. Shu Viana ao contrabaixo e Rubinho na bateria (o Zimbo Trio ainda não havia sido inventado para a imortalidade). Eu tinha muito contato com os músicos, porque ajudava um pouco nas produções do Jazz Clube de São Paulo, cuja presidente era minha prima, Lenita Miranda de Figueiredo.

Grande jornalista da Folha, pianista, produtora de sofisticados programas da rádio Excelsior, foi Lenita que me ensinou, quando eu tinha 12 anos de idade, que Errol Gardner, Art Tatum e Oscar Peterson jamais gravariam o axé.

Passei pelo bar à tarde para deixar um recado dela para o Rubinho. Tipo quatro da tarde, nenhum freguês ainda, apenas o barman em mangas de camisa, limpando os copos, como nos filmes. Eu entro, deixo o recado com ele, que me serve uma vodca com tônica (boca-livre, é claro, eu era superduro).

Enquanto eu saboreava o presente, Nat King Cole, que estava hospedado no hotel, fazendo hora para o ensaio na noite seguinte, pergunta se o bar “is open”. O barman hesita em dizer que não.

Ele entra, pergunta o que eu estou tomando, estranha a vodca com tônica, mas resolve experimentar assim mesmo. Digo a ele que sou seu fã, falo do tremendo sucesso de bilheteria. Ele quer saber se o sucesso no Brasil é devido apenas às suas gravações em espanhol, aquelas cascatas tipo “Cachito, cachito, cachito mio”.

Eu respondo honestamente, que em grande parte sim, mas existe muita gente no Brasil que conhece bastante seu repertório mais sofisticado, e aí aproveito tudo que conhece bastante seu repertório mais sofisticado, e aí aproveito tudo que a Lenita me ensinou e dou um show de Nat King Cole.

Canto (canto?) várias de suas letras e, de quebra, cito várias gravações do tempo em que ele não era cantor, mas pianistas, com seu extraordinário King Cole Trio. Lembro que foi o primeiro trio a fazer sucesso sem bateria (piano, baixo e guitarra).

O rei, o king, se empolga com a espantosa erudição jazzística daquele garoto, pede a chave do piano branco, mais duas vodcas, e eu ganho um show exclusivo de mais de uma hora de Nat King Cole. Eu, ele e o barman, que à essa altura liberou mesmo a vodca, inclusive para ele, barman.

Mas não adiantou nada. No dia seguinte, quando contei á história no colégio, ninguém acreditou:

– Então tá, Miele. Nat King Cole fez o show só para você, e depois você comeu a Elizabeth Taylor.

Ficou por isso mesmo, lá no colégio. Mas eu, o barman e Nat King Cole sabemos a verdade. (A parte da Elizabeth Taylor é mentira mesmo.)

Bem, o Dick e o Shu já se foram, assim como o hotel e o bar. Ficaram as lembranças. “Como um verso jogado num canto de um velho piano que não toca mais”. Falando em Dick Farney e Nat King Cole, uma curiosidade para os fãs dos dois. Dick Farney, um brasileiro, foi o primeiro cantor no mundo a gravar, nos Estados Unidos, a canção Tenderly.

Poeira de estrelas 19: Blow-up


Por Luiz Carlos Miele

Outro bar (ou boate) que aconteceu em São Paulo com a assinatura de Miele & Bôscoli foi a Blow-Up. Na rua Augusta, funcionava uma casa chamada Raposa Vermelha, pertencente a um cantor português chamado Abilio Herlander.

Um grupo de amigos resolveu comprar a casa: Roberto Mendonça, Odilon Sandoli e Gersino Alves. Como nenhum dos três era da noite, resolveram chamar a mim e ao Ronaldo. Eles não entendiam da noite, e nós não sabíamos nada de negócios, de maneira que ficou um casamento perfeito.

Nunca assinamos contrato nenhum, como sempre, e ficou acertado quem iríamos ganhar 20% do negócio. No primeiro mês, recebemos o equivalente a essa porcentagem de todo o movimento bruto da casa, o que fazia com que nós tivéssemos um faturamento formidável, pois não entrava em nosso percentual nenhuma despesa com pessoal, estoque, aluguel, pagamento dos artistas etc.

É claro que eles perceberam o erro e tudo foi acertado novamente. Para nós, tudo bem. Acho que em toda a nossa carreira, nem eu nem Ronaldo soubemos quanto ganhávamos. Queríamos mesmo realizar os nossos shows, era tudo como uma grande aventura, muito divertida. Até invejada por muita gente. Mas, dizem, com dinheiro não se brinca, e isso foi fatal para nós. Eu, hoje em dia, gosto de dizer que o dinheiro me odeia, mas quem sabe isso muda antes de chegar aos 80 anos.

Voltando à casa paulista, escolhemos o nome de Blow-Up por causa do filme de Antonioni, de sucesso absoluto na época. Mas não bastava mudar o nome. Era necessária uma reforma completa, e os proprietários nos acenaram com uma verba, digamos, de seis mil cruzeiros, não me lembro bem, mas era pouquíssimo.

Eu estava empolgado com o sucesso da DPZ, a agência de propaganda de Dualib, Petit e Zaragossi, e ingenuamente fui até eles para ver se tinha algumas idéia, dentro daquele orçamento, talvez alguns desenhos bem inteligentes para decorar as paredes. Bondosa e penosamente, o Petit me informou que aquilo não era consulta que se fizesse a uma agência daquele prestígio.

Humilhadíssimo, voltei aos três sócios para desfazer nosso acordo, e então, eles me ofereceram dez vezes mais para a reforma. Mais animado um pouco, tomei uma decisão completamente fora dos padrões das casas noturnas: fui procurar Wesley Duke Lee, o artista plástico brasileiro que havia ganho a Bienal de Tóquio, por cujos trabalhos eu estava apaixonado. Surpreso, Wesley afirmou que nunca havia feito um projeto para uma casa noturna, mas eu consegui convencê-lo:

– Tá bom, Miele, eu faço o projeto, mas só se for executado pelos japoneses que eu trouxe da lá.

Wesley havia ficado impressionado com o qualidade e o profissionalismo dos operários no Japão e tinha vários projetos a executar no Brasil, “instalações” das mais variadas. Sugeriu a eles que o Brasil poderia ser um bom mercado e eles vieram com as famílias.

Compraram um terreno no bairro do Jabaquara e fizeram o seu shongunato. Trouxeram diferentes especialistas. Um era pedreiro; o primo dele, o encarregado da parte elétrica; outro, do estofamento; um, chefe de carpintaria; outro para o ar refrigerado; o mestre da hidráulica; um engenheiro-chefe, o diabo.

Estavam aptos a fazer desde um canil até o edifício do governo. Na metade do tempo, e sem roubar o meu, o seu, o nosso pobre dinheirinho.

Levei até eles o projeto. A própria planta feita pelo Wesley já era um objeto de arte. Uma série de círculos superpostos que iam revelando todo o design inusitado.

O líder do grupo, único que já falava um pouco de português, reuniu todo o clã, analisou tudo e, para minha surpresa, exclamou:

– Projeto muito bom, né? Pode entregar tudo pronto dia 17 de julho.

Quer dizer, não deu um prazo de “uns dois meses mais ou menos”. Daqueles que viram quatro meses, ou um ano por aqui. Mas falou: “No dia 17 de julho.”

Falou e disse.

– Metade adiantada, né?

Depositado o dinheiro, combinamos que a obra poderia começar na segunda-feira seguinte, pois domingo teríamos a despedida da Raposa Vermelha. E no domingo, lé estávamos para o último show de Consuelo Leandro, uma das poucas mulheres que podia fazer um show de hora e meia, acompanhada pelo Trio de Luiz Carlos Vinhas.

Não é preconceito não. Mas, naquele momento, o humor brasileiro era escrito apenas por homens, e as mulheres, sempre as vítimas das situações, coadjuvantes para o sucesso dos humoristas. Hoje, várias mulheres redigem os textos de programas humorísticos, e grandes atrizes mostraram a faceta de ótimas comediantes.

Assim, entre texto e interpretação, palmas para Dercy Gonçalves, Marília Pêra, Consuelo Leandro, Berta Loran, Nair Belo, Débora Bloch, Fernanda Torres, Marisa Orth, Claudia Rodrigues, Ingrid Guimarães, Heloísa Perissê, Claudia Raia, Andreá Beltrão e tantas outras, lindas sempre, palhaças quando querem.

Pois bem, estávamos lá no domingo, esperando o show de Consuelo, que iria começar mais ou menos a uma hora da manhã. (Naquele tempo, a violência ainda não era a maior puta da noite.) Foi quando o Gunga Din, o porteiro, me avisou que havia estacionado na porta uma clientela nada convencional. Um caminhão cheio de japoneses.

Fui até lá para dizer ao Tanaka que havíamos combinado segunda-feira para o início da obra.

– Agora zero hora vinte minutos. Já segunda-feira, né?

Avisei que a casa só ia ficar desimpedida lá pelas quatros horas. Ele retrucou:

– Agora cada um para sua casa, pior, né? Senhor paga sanduíche e conhaque no botequim, gente espera.

E assim, deixamos os japoneses no bar da esquina e fomos curtir e Consuelo. Terminado o show, ela convidou ex e atuais proprietários para mais um drinque na casa dela. Fomos todos. O uísque e o papo eram da melhor qualidade, e o último drinque da noite transformou-se no café da manhã. Lá pelas oito horas, na saída, Ronaldo me disse:

– Miele, vai ver que todo esse papo dos japoneses é uma tremenda cascata. Vamos dar uma passada lá na boate para dar uma olhada.

Só que não havia mais boate. Nada. Nem o balcão do bar, os sofás, Nada. E não havia mais o chão. Não estou falando do carpete. O chão tinha desaparecido. Junto com uma escada de ferro, em caracol, que ligava a casa a um corredor no andar de cima. Daí para a frente, a qualquer coisa nova que a gente pedia, o japonês respondia com a letra e a data.

– Tanaka, a gente lembrou do frio de São Paulo. Dá para fazer um armário para os casacos das mulheres?

Ele pedia para a gente rabiscar o desenho e respondia:

– Quinta-feira pronto, quinze pras quarto, né?

Toda a casa ficou pronta três antes da inauguração, é claro. E ficou um beleza. Como o tema era Blow-up, o filme que contava a história de um fotógrafo, Weslei fez a entrada pela garagem. Os automóveis desciam a rampa em forma de um fole de máquina fotográfica. Aquela Roleyflex, lembram? O manobrista pegava o carro na frente da porta, que era a “objetiva” da máquina. Um círculo de acrílico, que entrava lateralmente num corte na parede como se a objetiva tivesse sido acionada. (E quem não vinha de carro? Bom, quem não vinha de carro, tinha errado de boate.)

No interior, todas as paredes eram espelhadas, assim como as colunas.

O estofamento, todo em plástico prateado, acentuava ainda mais os reflexos.

Quando a casa estava vazia, no início da noite, os primeiros frequentadores tinham que ser conduzidos pelo maître até suas mesas, porque se perdia a relação entre o que era realmente físico e o que era reflexo. Tudo isso era necessário para ampliar as dimensões da casa, que não tinha mais do que oitenta lugares.

Oitenta lugares que receberam shows como os de Bethânia e Lennie Dale, Edu Lobo-Gracinha Leporace e o Quarteto Novo, formado por Hermeto Paschoal, Airto Moreira, Théo de Barros e Helio Delmiro. Depois, Chico Anísio, Jorge Ben (o Benjor ainda não havia pintado), Eliana Pittman e, no auge do sucesso, Miriam Makeba (Zacutin azatipega-tatuí-pata-pata...lembram?), acompanhada pelo Sivuca.

Conta a lenda que Albino Pinheiro (grande animador cultural) estava uma noite no camarim e ligaram para ele. Atendeu a mulher do Sivuca.

– Boa noite, é do camarim?

– Sim senhor, quer falar com quem?

– Me chama aí o Albino.

– Albino é a puta que o pariu...

O telefonema era para Albino Pinheiro, a esposa do Sivuca achou que era molecagem com os pêlos e cabelos brancos do marido.

Como conseguíamos pagar os artistas com esse número de lugares, era um mistério. Na verdade não havia as grandes casas de espetáculos, os artistas ganhavam menos, e as casas noturnas cobravam mais. Outros tempos.

Nem todo mundo achava graça. Um cliente irritou-se com o preço cobrado no show de abertura da casa, que apresentava Miele & Tuca. (Ainda se fosse a Miriam Makeba...) Fez um escândalo, foi posto educadamente para fora por dois rapazes do Itamarati que faziam a nossa segurança. Já na rua, gritava para todo mundo:

– Não volto mais nessa merda. E se eu pegar um de vocês aqui na rua, vou meter porrada, de tanta raiva que eu fiquei.

Disse isso e com a tanta raiva, deu tamanho soco na parede do prédio que apagou a luz do quinto andar. Infelizmente, também quebrou a mão. E olhando para a mão sangrando, vociferou:

– E vocês notem que eu não estou com raiva da parede.

Durante o show de Edu e Gracinha Leporace, Sergio Mendes, já consagrado como um grande cartaz internacional, apareceu para uma visita. Depois de algumas desavenças que tivemos, das quais já nem me lembro, ou nem quero me lembrar, ele chegou ao Brasil e me convidou para dirigir o show dele no Teatro Paramount, que seria transmitido pela TV Excelsior.

Não era bem dirigir o show, que estava superpronto e era um grande sucesso no mundo inteiro. Era apenas para dar uma olhadinha no repertório. Como eu e Ronaldo havíamos feito o primeiro show da vida dele, que foi também o primeiro show de nossa vida, no lendário Beco das Garrafas, acho que era mais um carinho dele para com a dupla. Mas o Paulinho de Carvalho, dono da TV Record, de onde eu era contratado, não quis me liberar para a emissora concorrente, e eu tive que me desculpar com o Sergio:

– Olha aí, Mendes, não vai dar. Infelizmente o Paulinho não abriu mão.

– Tem nada não, Miele. Onde é que fica a tal casa de vocês, aqui em São Paulo?

– É a Blow-Up, na rua Augusta. Hoje à noite tem Edu e Gracinha. Aparece depois do teu ensaio para a gente tomar uma.

E ele apareceu. Provocou um sensação na chegada. Era o primeiro brasileiro a estar na parada de sucessos nos Estados Unidos. Perguntei se ele queria dar uma canja, ele não se fez de rogado e criou uma noite de grande emoção.

– Boa noite, senhoras e senhores, é um prazer estar aqui, reencontrar o Miele e o Ronaldo. O meu show estréia amanhã no Teatro Paramount, mas eu resolvi passar aqui hoje para deixar um abraço. Eu e o meu grupo, o Brasil 66.

E para a surpresa de todos os fregueses da casa, foram entrando no palco, já cantando Mas, que nada, grande sucesso internacional: Karen Phillip, Lannie Hall, as duas cantoras americanas do grupo e todos os músicos do conjunto, que ele havia deixado esperando numa Kombi parada na porta da boate, para oferecer essa emocionante surpresa.

Uma das cantoras, Lannie Hall, casou-se com Herp Albert, também de grande sucesso nos Estados Unidos. Em compensação, Sergio conheceu nessa noite a Gracinha Leporace, que fazia o show com Edu Lobo. Adorou a moça e a cantora, e casou com as duas.

O homem e a cidade do homem


Por Xico Sá

Amar mulheres muitas, amar cidades só uma: Recife. Assim falou uma voz interior plagiada. E me vi no Beco da Fome, na Sete de Setembro, quatro poetas por cada metro quadrado, almas penadas, leilão de Faustos: o cheiro de queijo de coalho assado, cerveja com amendoim, a macaxeira com charque para abrir as ventas dos maconheiros.

Fome de viver maior que a larica e o desprezo do tal cão sem plumas, que passa, independentemente do verso enxuto e preciso de seu João. A vida é adjetivosa, meu filho!, molhada, sebenta, suada, correia do chinelo entre os dedos lamacentos, a vida brega e suja e pegajosa como as mulheres cidades e as mulheres ainda melhores.

Recife, Ponte Buarque de Macedo, minha sombra magra e todos os meus medos n’água.

Morte em Veneza dos Pobres. Minha primeira fêmea amadora, depois de tantas cabras ao pé da moita – menino rural demora a comer gente! – e profissionais pagas a preço de misericórdia nas festas da padroeira.

Amar mulheres caldo-de-feijão e tantas tonalidades do jambo degradê. Uma morena sob o sol final da rua da Aurora cresce, se agiganta; belas balconistas, suburbanos corações que’u carregava para despejá-los, antes da janta, no banho mais demorado.

E a menina do amendoim, a Natasha Kinsky do amendoim, catorze para quinze primaveras, que fazia os velhos funcionários públicos do INPS, barnabés de desejos antigos, babarem sobre os gordos contracheques na cachaça mais católica a caminho do lar. Era na praça do Sebo. Cadê tu Pedramérico, pedra filosofal!? Eu é que sumi Melquisedeque, assustado pelo preço da “Emparedada” aqui no Sebo Brandão.

As cidades são as mulheres, ou os colos, ou as cobertas, como na chegada a São Paulo, brava província de Piratininga. Nunca sabia em qual camada do leito eu meteria minhas pernas – nunca havia dormido com lençol, cobertor, edredom... Sempre entrava entre o cobertor e o edredom e não encontrava a mulher debaixo, a danada estava na camada anterior da guerra das pernas que precede o sono, doce justiça entre o trabalho e os dias.

Mas pra sentir uma cidade de perto é preciso a gasolina azul da saudade, como não disse Antônio Maria, pois tinha mais requinte ao dizer. Carece mirar tão-somente aquele barquinho florido com uma nega dentro, fogosa e feliz ao lado do mancebo, no meio da confusão de “Eu vi o mundo... ele começava no Recife”, guernica do nosso caos enlameado, obra-prima do homem de Escada, aquele diabo comedor de manga que trocou o Beberibe pelo Sena, só para fechar os olhos e enxergar melhor ainda o rio da aldeia.

Um lugar é feito amor perdido, que vira amor perfeito assim que quebra a casa e dobra a esquina para comprar um maço de Nunca Mais, o king-size filtro da eterna nostalgia.

Poeira de estrelas 11: Mãezinha querida


Por Luiz Carlos Miele

Recentemente, revi, numa daquelas tardes de chuva, o filme Mãezinha querida, inspirado em livro escrito pela filha da Joan Crawford. Vendo o filme, ou lendo o livro, você fica com certeza de que mãe só tem uma, pois duas pestes como aquela ninguém aguentaria. No filme, a peste, no caso, é vivida pela Faye Dunaway, linda e maravilhosa, vivendo com tal convicção o papel da megera que faz você ficar com ódio dela em vez de imaginar coisas melhores para fazer com ela em outra tarde de chuva.

Na verdade, eu nem deveria estar falando assim de Joan Crawford, pois até já dividi o palco com ela. E trocamos até um beijo. Quer dizer, eu não sou o Jorginho Guinle, mas também já fui beijando por uma ganhadora do Oscar. E sem gastar um tostão. Ou melhor, duzentos dólares, que foi quanto custou uma noitada do Jorginho com a Marilyn Monroe. Ela ainda era a Norma Jean, mas já tinha todas aquelas qualidade intelectuais que a deixaram famosa.

De qualquer maneira, voltando à Ms. Crawford, ela havia herdado a Pepsi-Cola e vinha ao Brasil para o lançamento oficial da marca. A dupla Miele & Bôscoli, de quem provavelmente ela já havia ouvido falar muito lá em Hollywood, foi contratada pela Thompson Propaganda, que tinha a conta milionária, para cuidar de três shows em homenagem à ilustre convidada.

O primeiro dos shows foi uma comportada apresentação de Elis Regina. Eu disse comportada porque recebemos mil recomendações sobre o comportamento dos artistas com relação à estrela. Não devíamos falar no seu nome, nem fazer nenhuma brincadeira com ela. E, principalmente, não lhe oferecer uma Pepsi-Cola que, na verdade, ela detestava. Em vez disso, tivemos que virar a cidade para encontrar o gim de sua marca preferida, que ela enxugava legal.

No segundo show, apesar das recomendações, Jair Rodrigues sentou nos braços da poltrona dela e cantou no seu ouvido Chão de Estrelas, pronunciando as palavras da maneira mais explicada possível, para que ela pudesse entender toda a poesia da letra.

Ela não entendeu nada, é claro, fechou a cara, e Jair saiu rapidinho, comentando: “Deixa que digam, que pensem, que falem, deixa isso pra lá, vem pra cá, o que é que tem? Eu não tô fazendo nada, nem você também. Faz mal bater um papo assim gostoso com alguém?”

E veio finalmente o terceiro show, no Golden Room do Copacabana Palace, com a plateia a rigor, toda a sociedade carioca convidada e presidentes da Pepsi de toda a América Latina. Eu e Ronaldo preparamos um desfile de moda totalmente diferente. Era como se fosse um casamento hippie (era a época do movimento, lembram?).

O show chamava-se A noite alucinante de Carnaby Street. Nosso amigo Zé Luiz Itajaí, dono de uma loja chamada Biba, como a homônima de Londres, entrou com a roupa toda – a noiva vestida em papel higiênico e tal. Era uma coisa arriscada, principalmente pelo mau humor da Crawford, mas o pessoal da agência viu os ensaios, achou que valia a pena e fomos em frente.

Apesar dos cuidados, resolvi fazer uma homenagem à nossa convidada especial e fui pedir a letra de uma música tema de um dos seus filmes ao Maurilinho de Almeida, que era o crooner da boate Sacha’s e fã da atriz.

De humor ferino e sofisticado, Murilinho tinha as suas preferências eróticas e pagou a um fotógrafo do Jornal dos Esportes para fazer para ele algumas fotos especiais nos vestiários do Maracanã. Ficou com uma coleção de uma verdadeira seleção brasileira. Todos os jogadores nus, na saída dos chuveiros. Enquanto mostrava a coleção, ele me dizia:

– Miele, o negócio é convidar para jantar os atacantes, que são levinhos e comem pouco, porque os zagueiros dão uma despesa tremenda.

Deixando o esporte de lado e voltando à música, ele recomendou:

– Olha, meu querido, não vai ficar bem para você cantar Johnny Guitar, se não vai ficar parecendo uma bicha barbuda. Leva a letra de Everything I Have Is Yours, que foi tema de outro filme dela.

Decorei a letra e guardei para o fim do show. Começou com um desfile, com várias moças da nossa sociedade, tudo muito elegante. A música por conta do conjunto do Luiz Carlos Vinhas e duas gêmeas cantoras que ele estava lançando – Celma e Célia (que entraram para a Bossa Nova e saíram a tempo para ganhar uma grana com a música sertaneja). Até que entro no palco para a minha homenagem.

Dou um sorriso e uma piscada para Joan (já estou me achando íntimo). Quando estou na terceira frase da música, ela levanta e sai da sala. Pânico total. Vejo o desespero no rosto dos diretores da agência. Pronto, lá se foi a conta, todo o público surpreso, e eu, no palco, empapado de suor, pensando no que é que eu fui arrumar. Bem que me avisaram que a mulher era um pé no saco.

Mas o fim, ao contrário dos filmes dela, foi um happy end. Quando comecei a cantar, ela levantou, saiu da sala pela porta que dava acesso à cozinha, deu a volta por trás do palco, e entrou sem que eu visse, fazendo um sinal de silêncio para a plateia. Veio na ponta dos pés, até chegar ao meu lado, no minuto mais longo da minha carreira.

Quando levei um susto, ela me deu o braço e terminou a música comigo, para alívio da turma da agência, dos presidentes das Pepsis da Venezuela e do México, do respeitável público e, naturalmente, do locutor que vos fala.


Quer dizer, na verdade eu não tenho do que me queixar com relação ao temível mau humor da atriz e empresária para quem a maioria das pessoas que trabalhavam com ela tinha a mesma resposta: “Joan Crawford é a mãe.”

Poeira de estrelas 12: On Broadway


Por Luiz Carlos Miele

Liza Minelli não veio ao Brasil para o carnaval de 2004. Que pena. Estávamos esperando por ela no Bar do Tom, no show Apenas Bons Amigos, com Miele, Menescal e Wanda. Anna Maria Tornaghi, grande amiga dela, já tinha feito toda a programação do carnaval e incluiu nosso show. Eu já conhecia Liza de outros carnavais.

Não me lembro do ano, mas eu estava em Petrópolis, jogando uma pelada, quando Anna ligou, convidando para o júri do concurso de fantasia do Hotel Nacional. “Vem, que eu vou colocar você na mesa dos jurados, ao lado da Liza”. Vim voando, é claro. Tivemos que julgar aquelas senhoras vestidas de “catedral submersa” e outras loucuras alegóricas.

Uma das senhoras não foi muito feliz na escolha do tema “A ira de Zeus quando da traição de Cleópatra no reino de Napoleão”. Era um zero na certa, mas eu convenci Liza que a concorrente era minha avó e ficou sete e meio. Depois do júri, liguei para Anita, avisando que eu estava indo com a Liza tomar uma caipirinha na piscina do hotel, mas Anita disse que estava cansada do baile, para eu ligar depois.

Liguei um pouco mais tarde, para dizer que eu e Lize estávamos no bar do hotel, agora já na base da vodka tônica, se ela não queria aparecer. Anita lembrou que o inglês não estava lá essas coisas, para eu dar mais um tempinho. Um tempinho e liguei novamente: “Anita, estou aqui na suíte da Lize… Anita… Alô. Alô, Anita…” Tocou a campainha, era Anita no porta do apartamento, antes que eu colocasse o telefone no gancho.

Noutra ocasião, a Liza veio fazer o show no mesmo Hotel Nacional e eu comentei com ela, depois do espetáculo, que ela arrasou em New York, New York. Ela perguntou:

– Você assistiu de onde?

Eu respondi que de um dos camarotes e ela sugeriu:

– Então, vem amanhã, na primeira fila, que eu vou fazer para você.

Bom, não havia lugar na primeira fila, eu sentei no chão bem em frente a ela. E fui de primeira classe para Nova York. Aliás, fui à Nova York bem menos do que gostaria.

Uma das melhores viagens foi quando fui ciceroneado pela Tornaghi, única brasileira a dar palpites na campanha “I Love New York”. Com um trânsito impressionante pela cidade, ela é a única pessoa que eu conheço capaz de jantar na mesma noite em três restaurantes diferentes: entrada no Le Relais, primeiro prato no Nello, sobremesa no Elaine’s.

Na primeira noite fomos assistir a Timbukttu, uma versão de Kismet, que, por sua vez, é uma versão do Príncipe Igor, de Borodin. A versão que fomos ver, com um elenco todo de artistas negros, era de Geoffrey Holder, que já havia feito The Wiz, versão de O Mágico de Oz.

Geoffrey tem dois metros de altura e é “apenas” coreógrafo, figurinista e diretor dos shows. Para quem lembrar, interpretou o mordomo do filme Annie, a história da garotinha com o milionário (Albert Finney). Mas sua maior qualidade é ser amigo do Haroldo Costa.

No Timbukttu, Eartha Kitt estava no elenco e entrava em cena, sentada na palma da mão de um gigante que fazia parte de um grupo de doze halterofilistas. Todos com aquele corpo e músculo do concurso de “Mister Universo”. Todos cantando e sapateando, é claro. Mas lá na Broadway todo mundo sapateia, não é mesmo?

Eu também tentei, num número ao lado da Elis, no Teatro da Praia. Depois do show, saí de lá ao lado do Ivan Lessa e do Paulo Francis. Cabeças, línguas e críticas afiadas, sabiamente eles ignoraram minha performance e passaram a elogiar a grande cantora que era a Elis etc.

Noite seguinte em NY: O Beijo da Mulher Aranha. Fico imaginando que talvez tenha sido escrito por Manuel Puig no mesmo apartamento onde morei tantos anos (na Rua Aperana, no Leblon) e que ele comprou. Leia o livro, veja o filme, assisti ao show na maior emoção, portanto. No show, uma espécie de desculpa que a Broadway devia a Chita Rivera.

Uma celebração a uma grande artista e dançarina aos 62 anos de idade. O show business ficou com essa dúvida, depois que Chita foi preterida por Rita Moreno na versão cinematográfica de West Side Story. Chita é feia, Rita Moreno (também ótima) era linda, mas Chita havia arrasado na Broadway e merecia.

Vingou-se um pouco depois, no cinema, ao lado de Paula Kelly e Shirley MacLaine, todas dirigidas por Bob Fosse. Aliás, no filme Isto é Hollywood fica evidente a angústia da incerteza dos altos e baixos do show business.

Numa sequência em que Bob Fosse aparece dançando com Ann Miller em Kiss Me, Kate, o narrador (Fred Astaire) pergunta: “Esse era Bob Fosse. Um extraordinário dançarino. Sumiu. O que terá acontecido com ele?”

Quatro anos depois, Mr. Fosse voltou e dirigiu apenas Cabaret, Sweet Charity e All That Jazz.

Na noite seguinte, Sophisticated Lady. Fui louco para ver Gregory Hines, maior sapateador da década. No show em comemoração aos 65 anos de profissão de Sammy Davies Jr. (atenção: 65 anos de profissão, não de idade), Sammy, com câncer na garganta, não podia falar nem cantar, mas dançar podia.

Gregory Hines foi até a plateia, levou Sammy para o palco e fizeram juntos um número, depois do que o aprendiz deitou no chão e beijou os sapatos do mestre. Pouca emoção?

Infelizmente, na noite em que fui ver o Sophisticated, Gregory Hines não estava. Ele só faz as temporadas de estreia. Isso já aconteceu outra vez, quando fui assistir ao New York Ballet, e Mikhail Baryshnikov também já havia sido substituído. Achei chiquérrimo.

E agora vou fazer a mesma coisa. Só faço a semana de estreia. Depois ataca o Baryshnikov.

Folga, dona Maria. Vou ao encontro do Ricardo Amaral, mas o Ricardo “mandou o lima”, expressão criada pelos músicos quando um deles falta ao compromisso. Pois bem, Ricardo mandou o lima e o limão nos americanos, e inaugurou a caipirinha em Nova York. Ele havia inaugurado o Banana Café, tremendo sucesso.

Aliás, Nova York toda estava na base da banana, embora fosse a grande maçã. Tinha o Capitains Banana, cabaré francês pilotando por Jean-Marie Riviére, que foi diretor do Paradis Latin, lugar mais divertido que conheci em Paris; tinha também a Banana Republic, loja elegante. Banana is my business, banana até nas carrocinhas da Park Avenue, por 25 cents cada. Que os americanos adoram e saem descascando pela rua.

À noite, finalmente encontramos o Ricardo. Ele mais um amigo, que, por respeito e condições de matrimônio, vamos chamar pelo codinome Claudinho. Estamos eu e o Carlos Augusto Ortali, vice-presidente da Milsom, grande empresa de eventos de São Paulo, na qual eu trabalho, no departamento de criação.

Aparece também uma mulher apaixonada pelo Claudinho, com o dobro da altura dele. Ela é amante do presidente de um país latino, Eldorado (que é lógico, também um codinome). Vamos até uma boate chamada Íris, que tem apresentação de dança do ventre.

A tal mulher já está pra lá de Marrakesh e adora o estilo, pensa que o Claudinho está ficando excitado com a dança. Chama todo mundo para a casa dela, diz que faz a dança do ventre melhor que a sobrinha do aiatolá.

Vamos todos para a casa dela e, conforme sugestão, fica todo mundo relax. Aquela mulher enorme, vestida de odalisca, os coadjuvantes de toalha e charuto, alguns só de charuto. Menos o meu vice-presidente, é claro.

Na manhã seguinte, já no espetacular restaurante do Ricardo, o Alô Alô, encontro o Nelsinho Motta. Como eu estava indo para Los Angeles, o Nelsinho, ex-marido superelegante, pediu para eu levar um anel de presente para Marilia Pêra, que estava lá para as apresentações de Pixote.

Ela já havia ganhado dois prêmios da crítica americana por sua atuação no filme e foi escolhida para ser uma das cinco candidatas ao prêmio de melhor atriz, ao lado de Jane Fonda, Meryl Streep e outras duas menos votadas.

Mas, como se fosse possível, a Marília não pôde concorrer porque a Embrafilme errou de inscrição do Pixote. Que pixotada, hein? Se fosse com alguém menos bacana que a Marília, era o caso para tiro, não era?

De qualquer maneira, chego em L.A. com o anel para entregar para ela, que não estava no hotel. Deixou recado que foi almoçar na casa do Sergio Mendes, em Encino. Não sei onde fica e peço a direção para Aloysio de Oliveira.

Autor de Dindi, Inútil Paisagem e outras parcerias com Tom, ex-marido da Silvinha Telles, fundador da gravadora Elenco, Aloysio foi para os Estados Unidos com o Bando da Lua para acompanhar Carmem Miranda, que casou com outro apaixonado por ela. Quanta informação, hein? Ao saber que eu estava em Hanna Hein, Aloysio, que mora em San Fernando Valley, respondeu com aquela voz de narrador do Walt Disney:

– Bom, Miele, você está mais ou menos em Campinas.

Chego finalmente ao endereço do Sergio. Antes de percorrer a suntuosa alameda da casa que ele comprou de Dick Van Dike, o ator de Mary Poppins, ao lado de Julie Andrews, vou lembrando do primeiro show da dupla Miele & Bôscoli – Sergio Mendes no Beco das Garrafas – e de como íamos até a Praça XV, onde Sergio pagava a barca para Niterói, não sem antes consumirmos um angu do Gomes, iguaria de acordo com a nossa grana na época.

Desperto das divagações com a chegada ao jardim, na frente da casa. Um Rolls Royce de plantão. Na placa, escrito: “Nictheroy”. Lembro da frase de Wesley Duke Lee: “Viver bem é a melhor vingança.”

Fico com vontade de repetir a maldade de outro brasileiro (acho que Newton Lins), que, quando entrou no Rolls Royce de um amigo, fingiu que nem reparou, foi puxando outros assuntos, enquanto o amigo forçava a barra para chamar a atenção para o carro: “quer que ligue o aquecimento? se você tiver pressa posso acelerar que o motor é maravilhoso; o controle do banco é automático…”

O Newton nem bola, até que o amigo não aguentou mais:

– Porra, você já andou num Rolls Royce antes?

Resposta:

– No banco da frente é a primeira vez...

Mas, em memória ao angu, e às nossas médias com pão e manteiga, reparo e elogio o carro do Sergio. Vamos até o estúdio que ele mandou construir no quintal da residência magnífica. Nas paredes, algumas fotos do começo da carreira, lá no Beco.

Entre as fotos, uma do Sergio com o carpinteiro que terminou a obra de sua casa: Harrison Ford, que antes de Guerra nas Estrelas travava uma guerra com serrotes e martelos. E ganhou.

Poeira de estrelas 13: Pelé


Por Luiz Carlos Miele

Algumas semanas antes da estréia do Brasil na Copa do Mundo da Espanha, Armando Nogueira, que acumulava as funções de melhor cronista esportivo do Brasil e diretor de jornalismo da Rede Globo, me convidou para fazer uma matéria com Pelé para o Globo Esporte. Ele queria um enfoque diferente do habitual, com uma abordagem que tivesse alguns momentos de humor.

Naquele tempo, eu fazia também a produção do evento Profissionais do Ano, no qual a Globo premiava os craques da propaganda brasileira. Ao lado de Aloysio Legey e Nilton Travesso, foi criado o tema do show, do qual participavam vários artistas e personalidades, que emprestavam seus nomes famosos a diversos produtores. Walmor Chagas com a Kibom, Dina Sfat (maravilhosa) com o Tang etc.

Pelé estava presente, é claro, com Vitasay. Assim, liguei para o rei para fazer os dois convites:

– Alô, seu Edson. Aqui é o Miele, precisamos do Pelé em dois eventos que vamos realizar aqui na Rede Globo.

– Ok, Miele. Algum deles têm mais importância pessoal para você?…

– Bom, Pelé. O show dos profissionais do ano é uma produção do departamento comercial. A entrevista para o Globo Esporte tem o fato de que é uma tentativa de lançar uma participação minha em uma nova atividade.

– Tá legal. Então, para a história da propaganda, eu vou te dar o telefone do meu empresário. Com relação à entrevista, diga a hora e a roupa, que estamos aí.

E assim partimos para a entrevista. Tinha que ser no campo do Santos, na Vila Belmiro, na parte da manhã. À noite, ele ia partir para um compromisso na China, como parte da mais estranha agenda que eu já vi: Santos, Hong Kong, Uberlândia, Nova York, Santa Catarina. E começamos a gravação que resultou numa matéria maravilhosa sobre a seleção brasileira.

Ele no gol, eu chutando os pênaltis, ele dava a opinião sobre quem deveria ser o batedor oficial do Brasil. Durante esse momento da gravação dos pênaltis, eu chutei cinco, ele pegou três. Depois, eu no gol, ele chutando. E dando a opinião sobre quem deveria ser o goleiro titular do Brasil. Curiosamente, nessa fase em que ele cobrava os pênaltis, eu não peguei nenhum.

Depois, nós dois (mais ele, é claro) fazendo ginástica. E então ele comentava a importância da preparação física. Depois, eu tentando controlar a bola “sem deixar cair”. Então Pelé dizia se preferia o centroavante habilidoso ou o trombador. E assim por diante, com opiniões sobre o técnico etc. Terminávamos os dois no chuveiro, ensaboados. E então, eu dizia:

– Pelé, caiu meu sabonete, aí pertinho de você. Dá pra apanhar?

– Miele, a primeira coisa que você tem que aprender no futebol, é que ninguém se abaixa no chuveiro para apanhar sabonete.

Em matéria de esporte, a matéria ficou inédita e espetacular, talvez um pouco boa demais, e incomodou alguém lá na direção do departamento. Como o Armando já estava na Espanha, não houve ninguém para me defender, e o material foi arquivado e desapareceu. Pena. Mas a ida a Santos valeu. Democraticamente, o rei proclamou:

– Traz a Anita, que eu mesmo vou fazer um churrasco.

Na saída da Vila Belmiro, ele pediu que eu fosse na frente, para a casa dele, pois ainda tinha de passar no dentista para um acerto qualquer, antes da tal viagem para a China. Argumentei que não ia achar a casa dele, ali em Santos.

– Meu motorista leva você e eu vou até o dentista com o seu carro.

Pronto, criou-se uma situação. Meu carro era um humilde Karman Ghia TC. Todo original, um carro de coleção, mas nada que pudesse se parecer com a carruagem real.

– Não tem problema não, Miele. Eu vou nesse. Numa boa.

E sentou-se ao volante. Enquanto se preparava para ligar o carro, passou o bêbado personagem do bairro. Ele, que havia visto crescer para a fama mundial o garoto que morava em companhia de Coutinho, na pensão em frente ao clube, desconfiou. Vai ver que o rei ia ao encontro de algum amor clandestino e não queria ser reconhecido. Ninguém ia acreditar no jogador mais famoso do mundo ao volante daquele modelo.

Com a intimidade e a impunidade que a vizinhança com a vila famosa lhe conferia, abaixou-se para ficar no nível da janela do carro e bradou:

– Disfarçando, hein, negão?

Pelé riu e foi em frente. E eu e Anita fomos no seu carro para aguardá-lo em sua casa. E conhecer a impressionante galeria de troféus. Na época em que eu conheci a coleção, há mais de vinte anos, ela tinha cinco mil peças, todas as camisas campeãs, as taças, é claro, e todos os troféus comuns a um campeão. Mas também as mais humildes homenagens.

De toscas esculturas em madeira feitas pelos mais humildes fãs até as espadas cravejadas de pedras preciosas, tiaras, cetros oferecidos por invejosos reis anônimos. Ou honrarias que lhe foram destinadas por presidentes e governantes sem a mesma majestade. Foi um privilégio presenciar várias manifestações das diferentes cortes de Pelé, em todo o mundo.

Quando eu era diretor de eventos do Metropolitan, a magnífica casa de espetáculos de Ricardo Amaral, Pelé queria ver o show da Blitz. Para evitar que sua chegada criasse algum tumulto, pedi para ele esperar até as luzes se apagarem, quando então o levaríamos para um dos camarotes. Mas não houve jeito. Alguém, na galera, acusou a sua presença e o público começou a gritar o seu nome.

Nesse tipo de espetáculo rock pop, as mesas são todas retiradas da platéia, o público fica todo em pé. Em pé, pulando e gritando: “Pelé, Pelé, Pelé”, que também já era uma boa desculpa para uma zoeira. Acendemos as luzes, ele acenou para a rapaziada do alto dos camarotes e a turma mudou o refrão: “Pula, pula, pula”, numa demonstração bem divertida e carinhosa.

Acalmados os ânimos, já com o show iniciado, ele me fez uma confidência:

– Sabe o que mais me emociona? É que toda essa garotada que está aí gritando o meu nome, provavelmente quase nenhum me viu jogar.

Noutra ocasião, na Espanha, Pelé como embaixador do Brasil, a Embratur, com João Dória na presidência, participava de uma convenção internacional. Pelé daria várias entrevistas coletivas em toda a Europa, e eu fui escalado para participar como mestre de cerimônias, com a função de limitar as perguntas de cada jornalista internacional.

O momento mais importante da viagem era o encontro no Palácio Imperial com o rei Juan Carlos. Na noite anterior, o cerimonial reuniu todos os representantes da imprensa brasileira que iriam cobrir o acontecimento. A preocupação principal era a de não permitir de maneira nenhuma qualquer pergunta relacionada ao “título” do rei Pelé. Vocês não podem chamar o Pelé de rei em nenhum momento, na presença do rei da Espanha. Nem fazer comentários tipo “Encontro dos reis” etc.

Essas recomendações foram exaustivamente repetidas até momentos antes da chegada de Don Juan Carlos de Bourbon. Anunciada a presença real, Pelé estende a mão respeitosamente e Don Juan, que estudou a caminho em Coimbra, diz sorrindo, em português:

– De um rei para outro, como estás, Pelé?

Na noite seguinte, programaram, para depois da entrevista, uma visita à mais tradicional casa de música flamenca de Madri. Avisado de que o espetáculo já havia começado, Pelé não queria ir de jeito nenhum, e foi um custo convencê-lo.

– Gente, já começou. Não vai dar certo chegar depois do início do show.

A modéstia o impedia de antecipar o que iria acontecer. Assim que ele colocou os pés no salão, o espetáculo teve que ser interrompido. Havia uma grande quantidade de turistas, e quando Pelé entrou a correria foi geral. Aliás, geral e arquibancada.

A estrela, uma espécie de Elizete Cardoso da Espanha, fez uma severa advertência ao público, dizendo saber que ali estava o atleta do século, mas que ela também era uma artista de respeito e exigia a atenção da seleta audiência. Se bem que a seleta audiência, àquela altura, não passava de uma barulhenta torcida organizada.

Serenados os ânimos, depois de muitos pedidos de Pelé, o show prosseguiu mais ou menos em ordem. O que não impedia que, de vez em quando, um japonês viesse rastejando pelo chão, puxar a barra da calça do rei, para pedir o autógrafo.

No fim do espetáculo, convencida de que era melhor aproveitar a ocasião, em vez de reclamar, a estrela do show, em lugar de ir para os camarins, pulou do palco e veio para a galera, pedir ela também autógrafo do dono do show daquela noite.

De Madri fomos para Londres, onde a imprensa publicou uma foto de um jogo entre o Brasil e Inglaterra, em que Pelé e Bob Moore, na disputa da bola, seguram cada um a manga da camisa do outro, com a maior delicadeza, como convém a dois gentlemen do futebol. Mandamos a foto para o Armando Nogueira e fomos para a exposição de turismo, para novas entrevistas.

O Brasil concorria com stands de alta tecnologia, montados pela Suíça, pelos Estados Unidos etc. Mas Abel Gomes, grande cenógrafo brasileiro, montou um botequim carioca. Na Europa, ninguém resistiu. Caipirinhas, samba e autógrafos do Pelé, o Brasil ganhou disparado.

Nos Estados Unidos, onde Pelé inventou o futebol, havia no prédio da Warner todo um andar reservado para ele. Depois que parou de jogar, como continuava a participar de parte das promoções da companhia, devolveu o andar e continuou com um escritório mais modesto, igual ao de seu vizinho, Robert Redford. O qual, desavisado, colocou a cara na porta e convidou:

– Hei, Pelé, let’s have a capuccino.

E desceram para a rua. Robert queria mostrar a matéria de uma revista, que falava sobre seu próximo filme. No trajeto entre o prédio da Warner e o café da esquina, pediram onze autógrafos para Pelé e dois para Robert Redford.

Desesperado, o astro jogou a revista no peito do Pelé, enquanto gritava numa desesperada mistura e idiomas:

– Vai ser famoso assim lá em go to hell.

Depois Pelé, gravou uma entrevista para um programa que fiz na Manchete, na qual perdeu horas para que dessem certo os truques do videoteipe que permitiram que eu entrevistasse, ao mesmo tempo, Pelé e o seu personagem, Pedro Mico, que ele interpretou no cinema. Quer dizer, de uma maneira ou outra, eu sempre bati uma bolinha com ele.

Bom, eu não quero contar nenhuma vantagem com respeito à minha atuação na pelada em que joguei ao lado do rapaz. Deixo para vocês uma nota publicada por Carlos Leonam no Jornal dos Sports:

O showman Luiz Carlos Miele realizou um dos sonhos de sua vida, ao participar, no fim de semana, de uma pelada ao lado de Pelé. Emocionado, foi dormir realizado, e teve um sonho, no qual Galvão Bueno narrava assim um jogo da seleção brasileira:

“Bola com Miele que domina com grande categoria. Passa por dois argentinos e entrega em profundidade para Pelé, que não consegue dominar o balão, que sobra para o zagueiro alemão que enche o pé para a frente. Miele mata no peito, aplica um lençol no lateral inglês e centra na medida para Pelé. Pelé tropeça na bola, mas se recupera a tempo e devolve para Miele, Miele para Pelé novamente, Pelé para Miele, vai sair a tabelinha, Miele para Pelé… Não entendeu Pelé...”.

Poeira de estrelas 14: Evaristo de Moraes Filho


Por Luiz Carlos Miele

Esse negócio de os amigos irem morrendo está ficando muito chato. Já perdi tantos amigos que no los puedo contar. Sei que a faixa de idade da minha turma abre para essas possibilidades, mas não acho a menor graça nas generosas mentiras tipo: “Ah, foi melhor assim, ele descansou.” Ou então “Deus sabe o que faz, ele está melhor que a gente, aqui em baixo, nesse vale de lágrimas.”

Eu sei que também tenho que ir, mas vou sob protesto. Tanto que já pedi para registrarem o meu epitáfio: “Aqui jaz, absolutamente contra a vontade, Luiz Carlos d’Ugo Miele”. Mas não tem jeito. Temos nos encontrado tanto na porta do cemitério que o Jaguar sugeriu que a gente abra logo uma conta no botequim em frente, que é para pagar por mês.

Não sei se vocês sabem, mas, na cantina do São João Baptista, dava para a gente tomar umas cervejas. Até que, num dos velórios ali realizados, o insuperável Ronald de Chevalier, o Roniquito, foi expulso de uma das capelas.

Vizinha da capela de um querido e famoso amigo, que também tinha partido, a família não teve a paciência necessária para suportar o emocionado estado etílico dele e sugeriu  com certa veemência que ele se retirasse. Enquanto era empurrado para fora, o Roniquito deixou mais uma de suas declarações maravilhosas:

– Não empurra, não, que vocês não sabem com quem estão falando. E muito respeito porque esse morto de vocês ninguém conhece. E o meu é Vinicius de Moraes.

Um outro de Moraes muito querido mereceu, como homenagem póstuma, o livro Antonio Evaristo de Moraes Filho, preparado por seus amigos. Para minha surpresa, fui convidado a escrever um dos capítulos, ao lado de figuras espetaculares da cultura e da política nacional, como Élio Gaspari, Fernando Henrique Cardoso, Hélio Fernandes, Técio Lins e Silva, José Serra e muito outros grandes nomes.

Curiosamente, fui rever o meu texto e reparei que ele vem imediatamente antes do artigo de Luiz Inácio Lula da Silva, na ocasião presidente de honra do Partido dos Trabalhadores. Na época, desejei boa sorte àquele presidente, como desejo ao presidente de agora, que acho honestamente que está precisando mais do que quando liderava a oposição. Seu próprio partido parece tão fascinado quanto desconfortável com o poder. De qualquer maneira, PT, saudações.

Com a devida autorização dos editores do livro, que lembra o grande jurista, quero dividir aquela lembrança com vocês.

EVARISTO – O GOLEIRO



A inteligência, assim como a capacidade e o talento do jurista Evaristo de Moraes Filho, estão sendo analisados nesta publicação por figuras da maior relevância na vida cultural do país. Assim, foi com surpresa que recebi o convite de Luís Guilherme Vieira e Ricardo Pereira Lima para também participar deste livro.

Portanto, minha participação fica com certeza restrita (e orgulhosa) a comentar sobre o amigo, o goleiro e o presidente do nosso querido Clube dos Trinta, em que o advogado passava da tribuna brilhante para o modesto gol das nossas peladas dos sábados e domingos.

As dimensões dos vários departamentos do nosso clube definem bem, acredito, as diferentes intenções dos fins de semana. O campo de futebol, de pequena metragem, suficiente para comportar seis jogadores de cada lado (cinco na linha e um no gol – ele, Evaristo), uma piscina razoável e um bar formidável, onde cabiam os quatro times dos nossos torneios.

Na época em que Evaristo era titular absoluto do gol, o clube contava em seu quadro de sócios com vários outros titulares absolutos em suas respectivas atividades. Armando Nogueira, Paulo Mendes Campos, Luís Carlos Barreto, João Araújo, Thiago de Melo, Cláudio Melo e Sousa, esses dois últimos também goleiros e poetas.

E as visitas eventuais de vários profissionais de futebol, como Nilton Santos, proibido de chutar do meio-de-campo para frente, pois juristas e poetas não estão ali no gol para ficar levando chutões menos intelectuais mesmo que desferidos pela enciclopédia do futebol.

Estou citando aqui apenas alguns dos sócios, pois enumerar a todos que fizeram ou fazem o Clube dos Trinta é trabalho para um outro livro.

Pois bem, foi nesse campo, ou nesse bar, que fiquei conhecendo o Evaristo de Moraes Filho. No campo, a elegância, a absoluta impossibilidade de agredir fisicamente algum amigo, e inclusive, a absoluta impossibilidade de agredir alguém com a sua inteligência e cultura, durante uma discussão mais acalorada, pois a democracia do futebol coloca todos no mesmo time, e frango é frango, frangueiro é frangueiro, seja, poeta, jurista ou presidente do clube.

Todos nós nos acostumamos a ver crescer entre nós “os meninos do Evaristo”: o Evaristinho, o Edu, o Renato. Das tardes na piscina eles passaram para o campo, onde se tornaram craques como o pai, Evaristinho e Edu, no meio-de-campo, Renato herdando as alegrias e tormentos do gol.

Evaristo parou de jogar para deixar os garotos à vontade, pois há um certa inibição em fazer os gols no pai, inclusive por uma questão de mesada. Os meninos do Evaristo transformaram-se nos Drs. Renato e Eduardo de Moraes, advogados, e no Dr. Evaristo de Moraes Neto, médico.

Deixando o campo, Evaristo foi eleito, por absoluta unanimidade, o presidente do nosso clube. Passávamos ali os fins de semana, lembrando de suas defesas de mão trocada, que eram a sua especialidade no futebol, e as suas defesas nas tribunas, que o consagram como um dos maiores juristas de toda a história brasileira.

Mas, repito, esses capítulos são analisados pelas ilustres personalidades cujos artigos representam a leitura prioritária desse livro, do qual eu, esportivamente, participo.

Esportivamente voltando ao clube, e lá Evaristo permaneceu compartilhando conosco nos fins de semana um simpático vinho branco, que ele trazia de casa, já que a nossa adega não era tão sofisticada quanto a dele. Creio que ele via com bons olhos minha amizade com seus filhos e, durante muitas noites (e madrugadas), eu fui um pouco o “tio Miele” nas primeiras incursões noturnas dos garotos. Hoje em dia, quando nos encontramos, não sabemos bem quem toma conta de quem.

Mas voltávamos sempre aos deliciosos fins de semana na companhia do velho, da qual fomos abruptamente afastados. Elegante, educado e sóbrio, como em toda a sua carreira, ele nos poupou de dividir conosco e aflição do mal que o levou e, somente ao notar sua ausência, foi que soube que ele estava hospitalizado e que, mais do que isso, já há muitos anos enfrentava a batalha com a doença.

Durante algumas peladas, o Evaristo no gol, eu e o Armando Nogueira como zagueiros vivemos as emoções de uma defesa imbatível pelo menos na amizade.

E peço emprestadas as palavras de um dos textos impecáveis do Armando, que servem a qualquer um de nós, os que ainda estão e aqueles que já deixaram o campo:

“No futebol, vivi tristezas, vivo alegrias, já chorei muito. Às vezes rezo vendo a bola correr na grande área. Nem mesmo dos sentimentos mais subalternos da alma humana, nem deles o futebol me tem poupado o coração. Já tremi de medo, já odiei, já invejei. A paixão do futebol me tem pesado a vida de tantas emoções que já não tenho o direito de me lastimar se um dia a morte me queira surpreender no instante de um gol.”