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sexta-feira, fevereiro 16, 2018

O problema do onde



Por Ruy Castro

Uma das maiores preocupações dos garotos de 1968, além da ditadura militar e da guerra do Vietnã, era namorar. Não que faltasse com quem. O problema era onde. Namorar era um eufemismo para fazer amor, o qual era um eufemismo para o muito mais realista fazer sexo. A pílula já era uma realidade e, naquele ano, em certos círculos do Rio, a virgindade feminina se tornara um tabu ao contrário: uma garota que chegasse virgem aos 19 anos tinha vergonha de admitir isso para colegas.

Se fossem solicitados a resolver o problema das meninas, os rapazes estariam sempre dispostos a ir para o sacrifício. Mas, onde? Os motéis ainda não existiam, os hotéis para encontros ficavam na longínqua São Conrado e quase ninguém tinha carro ou dinheiro. No desespero, ia-se para a praia à noite, principalmente a do Leblon. Era escura, deliciosamente mal iluminada, deserta e, exceto por algum guarda enxerido e achacador, com privacidade garantida. Os problemas eram o desconforto e a areia, donde a expressão “sexo à milanesa”.

A alternativa, para os poucos que tinham carro, era a corrida de submarino – uma modalidade esportiva noturna, praticada por casais no banco da frente de seus Gordinis ou Aero-Willys, com os vidros fechados e embaçados, na orla do Arpoador ou do Castelinho. Nunca se viu um submarino ao largo, mas a prática era tão socialmente aceita que uma Kombi do General ficava de plantão nas proximidades, para o indispensável cachorro-quente de depois.

Mais seguras eram as garçonnières dos amigos. Garçonniéres eram quarto-e-salas mantidos por homens casados para suas piruetas extraconjugais. Como não as usavam todo dia, às vezes emprestavam-nas por algumas horas aos amigos e, de repente, sem que soubéssemos como, a chave caía na nossa mão, sob a condição de que fôssemos mais rápidos ainda.

Uma delas, por volta de 1966 ou 67, ficava na rua Paula Freitas, em Copacabana. Ali, muitas vezes estivemos a ponto de morrer de prazer. Pois imagine o susto ao ler nos jornais, em 1969 ou 70, que aquele endereço acabara de “cair”. Fora tomado pelos órgãos de segurança, por se tratar de um “aparelho” da VPR – a Vanguarda Popular Revolucionária, um dos grupos da luta armada –, com ninho de metralhadoras e tudo, debaixo da cama. E nunca soubemos se, desde sempre, o cafofo da Paula Freitas já não era um “aparelho”, só que também usado para fins imorais.

Mais alguns anos se passaram e o romantismo do sexo à milanesa e da corrida de submarino foi substituído pelo profissionalismo dos motéis, com seus tetos espelhados, camas redondas e risco zero. Os nativos se habituaram a esse conforto e assim é até hoje.

Tudo isso foi há muito, muito tempo. Desde então, tivemos a libertação da mulher, duas ou três revoluções sexuais, a ascensão e o declínio da Aids, a incrível volta da camisinha e uma brutal expansão imobiliária, mas, para muita gente, nada mudou – o problema de onde continua. Os adolescentes sempre terão de improvisar nesse departamento, seja de escada de serviço do prédio, entre um andar e outro, ou na hora do recreio, atrás do murundu.

Em 1983, Darcy Ribeiro, então vice-governador do Rio, anunciou que, depois do Sambódromo, mandaria construir um Beijódromo. O qual nunca chegou a existir e ainda bem, porque era uma falsa boa ideia. Todo exibicionismo é bobo, ainda mais quando permitido. Sexo é sempre ótimo, mas, com transgressão e risco, é muito melhor.

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